sábado, abril 30, 2011

Também um dia já fui Carmen Miranda e, agora, depois da marcha, um pouco mais samba "pra você gostar de mim" com Marina de La Riva. Tá aí!

O diabo anda à solta e só as giestas amarelas nos podem salvar

Há variadíssimas formas de falar dele e, no Brasil, há até um cognome de que gosto muito: Capeta. 


Já aqui escrevi, oportunamente, sobre o diabo na Literatura (haja fôlego expressionista para lhe seguir as pegadas), e Machado de Assis, com conto de Igreja prosaica a ele dedicado, sintetizou como se comporta este imortal, omnipresente e omnisciente da tipologia da maldade e da artimanha (arte e manha); na tentação pecadora entre o bem e o mal. 

Sendo o mal o único gozo prazeiroso, dizem, recheado de luxúria orgástica, para uma tão curta vida, como pode ser a passagem deste lado de cá, com outras fogueiras infernais e, às vezes, mais dolorosas, mais castradoras, por que não pactuar com o diabo, esse pós-doutorado na arte do Pecado? (Dizem que é bolseiro vitalício do departamento de Estudos sobre a Maldade e Outras Tiranias).

Ocorre-me pensar nisto, porque hoje é dia 30. Acaba-se Abril, passamos a Páscoa, purificados, abençoados pelo prazer da gula, dizem, e na prosaica vida que levamos, estação-a-estação, estalando-nos um pouco mais a derme, mas mais ricos, se o soubermos aproveitar, no baú intelectual, singra o Bem sobre o Mal. 

Só que, como é habitual, anualmente, (e não deveria ser ao contrário?) há uma última provação, uma derradeira via crucis a superar, por esta altura: deixaremos, ou não, no primeiro de Maio, o diabo entrar em casa (em nós?: ai o diabo no corpo!)?; ou ele bem pode limpar os pés no tapete da porta, gastando solas, porque nunca o convidaremos para cear, beber vinho, ou sequer daremos margem para qualquer tipo de negociação, ainda que o diabo as ande a tecer. Há-de, por isso, salvar-nos as maias.

Chegamos às portas da entrada de Maio e temos essas flores amarelas no chão da cidade, nas estradas, nas floristas, à venda, para espantar o demo, como o diabo da cruz. Amanhã, com sorte, fiéis à tradição, muitas fechaduras de portas terão giestas amarelas para espantar o diabo. Ali, quererá dizer o significado floral, o endemoniado não é bem-vindo. "Vade retro, Satanas!"

Recordo-me que, quando era mais nova, esta era uma época de recreio; de andar na rua com cheiro intenso a giestas amarelas. E mãos um pouco mais secas. Apanhávamos as flores e distribuíamos pela rua a dizer qualquer coisa como: "Para espantar o diabo!." 

Havia quem sorrisse. Havia, como hoje, gente que se chateava, com pressa, com tamanha crendice.

Mais ousados, poderíamos até pôr já as flores em algumas fechaduras. 

Conta a tradição, que além de assim, com maias, queremos espantar Satanás, perpetuamos a celebração agrária de quem diz "xô", finalmente, ao longo Inverno, e dá as boas-vindas à fecundidade da terra, como boa parideira que pode ser, nesta maturidade de estação, a Primavera, já quase a ser Verão. 

Há-de a terra fértil, o campo dos nossos antepassados, das culturas que viviam da orgia da natureza, nesta época, ter muito que ver com as giestas amarelas que nos salvam do diabo.

Uma vez, lembro-me, fui pé-ante-pé espreitar à porta do prédio onde os meus pais moravam, depois das doze badaladas a quererem ser Maio, a ver se via o diabo, bem-disposto a querer entrar em casa. Não sei muito bem se tinha ensaiado alguma palavra para quebrar o gelo com o Senhor dos Infernos. Imaginava-o elegante, bem-cheiroso, fancy, talvez a vestir Prada, e galanteador. 

Imaginava-o um charme à la James Bond, com o tique treinado a mexer  no bigode à Clark Gable, como quem degusta as vistas de uma mulher gostosa (não que fosse o meu caso), e a inclinar o corpo, em jeito de pose Espartana. 

Ele nunca chegou a aparecer. Talvez andasse ocupado noutro lugar, embora a omnipresença seja uma das suas maiores qualidades. 

Não lhe vi, por isso, o fato Prada, o cheiro Dolce and Gabbana, o toque de espião de requinte ao serviço da maldade. Não vi, pois, nunca o Maio-Moço endiabrado. Ainda assim, e apesar de já não andar na rua a distribuir giestas amarelas, parece-me coisa boa a natureza em flor. Coisa fecunda, orgia de cor, explosão de vida há-de sempre ser coisa boa, com diabo à solta, onde só as maias nos podem salvar. 

quinta-feira, abril 28, 2011

2. Índex para entender a Paixão: epílogo crioulizado; posfácio carioca



Desta vez a Paixão ficou à porta. Mas dizem que à porta muita coisa acontece (como no meu coração, quando cruza a Ipiranga com a Avenida São João). E já lá vamos, ao Brasil, pois antes temos o azimute em Cabo Verde, à porta da Livraria Índex, ao lado de um Palácio de Cristal, para o segundo round do colóquio "Tinha Paixão", no Porto.

Tanto Porto ao redor. Mais perto do Douro. Tanta Primavera!

Desta vez cheguei cedo, com grãos de areia de sobra na ampulheta. Não chovia, troquei as botas velhas pelas sabrinas e roupa clara e, em vez do "blues" baixinho-sussurado, ouvi chilreares, abracei a Patrícia (havíamos prometido isso, para agradecer as paixões pela Literatura) e sentei-me na soleira da porta da Livraria, a meter conversa com os funcionários, enquanto o Flávio não chegava (e não atendia o telefone). 

Em plano paralelo, que o tempo é coisa tirana de planos sobrepostos, a Patrícia esperava um câmara de filmar, para que a Paixão, quem sabe, virasse um pouquinho mais cinema. E paixão em cinema sempre tem beijo na boca, lentos, pôres-do-sol alaranjados (como o de ontem), traduzindo a linguagem universal dos afectos.

Mas, desta vez, o assunto era teatro. Respeitemos a quinta arte, assim, agora, promíscua com a literatura, sua sucessora, como sexta no andamento da valsa das artes. Amante nossa. Cúmplice lírica dos nossos encantos. E encanto é coisa bonita de se ver, quando o olho brilha. E coisa bonita de se ver é gente apaixonada. Pelas artes. Pela vida. Pela pele doce. Pelo cheiro. Pelos abraços. Pela arte do funambulismo que podem ser os acasos. Tropeçamos.

Há esse; aquele caminho. E, ontem, foi dia de limbo. Se não tivesse pensado no Flávio e na Patrícia, não teria ido, para a porta, mudado do metro para o autocarro, para mudar o cunho na tábua onde se escreve a vida (há esse; aquele caminho), e ido para a porta da Índex; e conhecido o Eduardo; nem saberia que a Ana, agora um pouco mais londrina (mas já a pensar fazer as malas de vez para o Verão tripeiro: longas tardes hão-de ter intermináveis finos) estava por cá. Ora mais um abraço, assim, apertadinho!

E o mundo, sabemos, este globo redondinho de acasos, semelhanças e afectos, que nos junta em células de gente que conhece gente que nós conhecemos (e não é preciso Facebook da vida para o concluirmos, embora tenha sido ele que me trouxe, pela primeira vez, ao "Tinha Paixão"), que nos conhece e há-de conhecer. Soube do colóquio através da Patrícia, que conhece o Eduardo, amigo da minha amiga Ana, que conheceu a Suna Cohen, que conhece o E. que eu conheci, que depois apresentei ao Flávio, que é meu amigo, porque era já amigo do J., apaixonado por Cabo Verde, pela arte de manobrar a prosa, pela dramaturgia, pelas letras.

Feito o preâmbulo necessário, chegamos ao recheio, já a ver-se-posfácio: para mim, desta vez, a paixão ficou à porta e foi feita de gente. De afectos. De acasos de encontros. De leveza e sol.

Há-de muito, lá dentro, na Livraria, depois de eu me ir - e de realmente começar o colóquio - ter-se dito sobre a sacanagem do teatro de Nelson Rodrigues (é batata) e a ruptura que cunhou na dramaturgia brasileira, tendo o Rio como cenário (e isto não é nome de bar na Lapa, não), as gentes, a ganância, o vedetismo, e a psicologia humana como balão de oxigénio, para retratar os meandros da sociedade carioca. O submundo do crime, da escatologia humana, ao serviço do jornalismo policial.

O senhor Rodrigues (também o sou, por isso parece-me oportuno apropriar-me de parentesco deste Nelson) obsceno da época (mea culpa, sou uma Mulher com pecado) – nascido em Pernambuco, terra onde cangote é coisa sedutora, um pescoço a pedir xero (xê-ru: cheiro), e quando se vem de uma terra onde se pede um xero no cangote, há-de Freud entrar em cena para falar de recalcamentos com a prosa como catárse – haveria de perdoar-me por ter ficado à porta.

Um homem que escreve que é “um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura” e que ela é a sua “óptica de ficcionista”, como “anjo pornográfico” há-de absolver uma mulher com falta de tempo, como eu, que viu a paixão à porta da Índex. 

Há-de perdoar-me por não ter ouvido Flávio falar de sua arte teatral (que várias vezes tive o privilégio de ver aqui, como na terra onde algo acontece em meu coração), de mornas, crioulas de olhos lindos e corpos ternos, generosos, mais que dourados.

Há-de desculpar-me por não ter transposto a porta, parado os grãos da ampulheta, inebriada de amigos, carinho e sol (outra vez), mas isto há-de querer dizer alguma coisa sobre a tipologia da paixão, índice de amores, do hemisfério pessoal dos afectos e, sabemos, sabe sempre melhor ver o amor pelo buraco da fechadura, prontos para alguma sacanagem. Porque sem sacanagem, meu bem, a paixão é como cinema sem beijo. Praia sem banho de mar. Fino sem tremoços. Terra molhada sem cheiro. (Avião sem asa, fogueira sem brasa, futebol sem bola, piu-piu sem frajola, amor sem beijinho, circo sem palhaço, namoro sem amasso, queijo sem goiabada). E nós gostamos de filmes, assim, com açúcar!

quarta-feira, abril 27, 2011

viagens na minha terra, comédias da vida privada

Declaração de princípios: não tenho o bairrismo entranhado em mim, não levanto a voz pelo F.C.P, divirto-me com a riqueza dos regionalismos, por aí, galgando portugalidade, e não tento disfarçar o sotaque do norte, embora seja, muitas vezes, acusada de heresia, por uma certa dicção intrínseca armada ao perfeccionismo. Para ser rigorosa, no Norte, diz-se: “armada ao pingarelho”.

Preparado, assim, o terreno para me defender de críticos profissionais que possam ver nesta prosa tamanha traição à nação tripeira, dou-vos, generosamente, mais razões para a tese do adultério telúrico: tento ir, com frequência, à mouraria. Terra de luz, dizem, pastéis de Belém, Tejo, bitoques, ginjinha, imperiais e amigos do peito.

Acontece que Lisboa imprime-me certo fascínio, como genuína estrangeira, a roçar uma certa experiência antropológica, não importa as vezes que lá for. Ir à capital é, pois, uma degustação etnográfica digna de um Jean Rouch, com ouvido de um Michel Giacometti ou, para provar o meu amor à pátria, de uma curiosidade cinematográfica à Aurélio Paz dos Reis - pois em dias de FMI, há que invocar um determinado nacionalismo, para parecer bem.

Vou a Lisboa e a vida acontece-me em hiper-realismo, num estado de humor constante. Divirto-me, porque começo a ter certeza de que a cidade do Padrão dos Descobrimentos é um plano sequência de comédias da minha vida privada. E, desta vez, quase me apeteceu entrar numa loja e gritar: “Ó, Evaristo, tens cá disto?”, como se quisesse prolongar a hora do recreio, neste grande Pátio das Cantigas, a ver se alguém me levaria a sério. É que, pesando os episódios generosos que me têm sucedido, começo a acreditar que a cidade que tem um Castelo de São Jorge, lá no alto, foi concebida para mim, qual Lewis Carroll com seu universo fantástico: Vanessa, no País das Maravilhas.

Pensem comigo, a ver se não tenho razão: vou a Lisboa, entro no café para almoçar, peço um sumo de Tutti-Frutti e a senhora traz-me um sumo, já sem cápsula, de Manga, Laranja e Cenoura.
-Desculpe, mas enganou-se. Eu pedi Tutti-Fruti.
- Eu sei, mas não temos; e esse foi o mais Tutti-Frutti que consegui encontrar.

Toma lá que já almoçaste. Eu estava a ser intolerante, claro, e a senhora tinha razão, primava pela maior qualidade, hoje, no mercado dos Recursos Humanos: proactividade.

Outra:
Entro no táxi e tenho o vício de achar que os motoristas dão boas fontes de informação. Meto conversa, inevitavelmente. Só que, ao longo dos anos, como vivi cinco anos no Brasil apercebi-me que meto conversa com taxistas para me sentir segura, de ter a certeza que ele acha que sou simpática e que não me vai raptar. Vícios. E, claro: olho sempre para o registo profissional, nome e matrícula, disponível no tablier. (Espertinha!)

Certa vez meti conversa com um taxista da Gare do Oriente. Era figurante da própria profissão nas telenovelas portugueses. Só há cinco nesta categoria, parece. Acertei na estatística. Que beleza! Conversas como cerejas (e que viçosas e carnudas que elas andam agora, exibidas nas frutarias) e fiquei a saber pormenores das novelas que ainda não passaram, que as produtoras de televisão pagam tarde e a más horas, quem são os actores mais simpáticos e que o Ruy de Carvalho gosta é de almoçar entre figurantes para ouvi e partilhar histórias. Sábio!

No final da conversa, o taxista disse que eu era muito simpática (Ufa!) e que me conhecia de algum lugar! Suspense.
- Sim, Tiago, conhecemo-nos, claro! Deve ser da Televisão.
- Eu logo vi que você tinha pinta de artista de TV.

Uma massagem ao ego não faz mal a ninguém. Despedi-me. Era Lisboa a mimar-me.
Desta última vez que lá fui, vivi histórias à Woody Allen, mas, agora que penso nisso, ocorre-me que bem poderia ser mais ao estilo dos “Gato Fedorento” (é, meus caros, eles andam aí), ou até mesmo um novo programa de apanhados, numa onda revivalista dos anos 90 do século XX.

Precisava enviar uma carta. Entrei nos Correios e pedi um envelope correio Azul.
-Não temos. Só Correio Verde.
- Aqui são os Correios? Envelope. Correio-Azul. Selos. É isso, não é?
- Não temos menina, tem de enviar por Correio Verde.
- O Correio Verde é mais caro e eu quero enviar só uma folha.
- Pois, tem de ir à Papelaria comprar. Aqui não temos!

Cenas dos próximos capítulos: Papelaria: senhora-dizer-que-envelope-e-selo-ter-nos-Correios. (Foi o que eu disse, estão a ver?). Lá vou eu à segunda papelaria do bairro da Graça (ironia de nome, né?) e o casalinho de idosos encafuados no escuro desta outra loja de esquina tem envelope e o último selo de correio azul. Prova superada!

Contente, pago e lembro-me que preciso tirar fotocópia ao meu Cartão de Cidadão. Papelaria: Fotocópias. Lógico, certo?
Não temos fotocopiadora. Para tirar fotocópias, aqui no bairro, tem de ir à Funerária! É lá que eles tratam disso.
Três metros depois e já sei o preço das urnas e caixões, enquanto se tira fotocópias.
Já perceberam onde é que eu queria chegar?

Crónica publicada na revista Fugas, jornal Público, 23-04-2011

sexta-feira, abril 22, 2011

Rugas, cabelos brancos e tal e coiso


Isto é uma grande tirania. E envelhecer é uma mulher de negócios, que se fez à vida (olha o lato do senso), negociou com ela uma certa percentagem, a médio e longo prazos; conseguiu boas taxas e benefícios fiscais, isentando-se da instabilidade hormonal e os rasgos iluminados da espontaneidade. 

É uma comerciante nata e que, de certeza, está por trás de toda a indústria farmacêutica, homeopática e natureba, fomentando as campanhas de marketing e propagandas pró anti-oxidantes, cápsulas de colagénio e centelha asiática, spirulina, vitamina E, ginásios e novas técnicas para tonificar, delinear, definir, blá-bla-blarrr, e por aí vai, que não tenho fórmula rigorosa da parafernália que há. 

Sim. Envelhecer -  dita e propalada no infinitivo como deve ser tamanha agente secreta da degenerescência, em lentes progressivas - é uma valente tirana, sabemos, embora poucos lhe consigam tirar o chapéu. 

E tirana silenciosa, que é a pior raça, com propaganda subliminar. Sei. Aparece sem ser convidada, não damos nunca por ela a não ser que nos confrontemos, ou com a prova da comparação entre o antes e o depois; ou se alguém ainda mais tirano nos chama a atenção; ou se a P.I. quer ganhar mais protagonismo que uma muçulmana na capa da Playboy, com silicone. Oxalá! (Ao menos reconforto-me a pensar que ainda vou a tempo de ser chamada para o ensaio. Ainda tenho uns aninhos até ao ultimato...).

Tirana. Tirana. Tirana. Sobretudo pelo embaraço quando nos apanha desprevenidos. Aconteceu, certa vez, ao escritor brasileiro Zuenir Ventura, que, estando na fila do banco para realizar uma qualquer operação financeira, ouviu gritar do caixa:

-"Deixe o velhinho passar, que tem prioridade!"

Ele ficou olhando ao redor tentando achar o velhinho. Foi apanhado desprevenido e ainda fingiu que a conversa não era com ele. Qual velhinho o quê? A malandragem de tudo isto é que Roberto Carlos chegou aos 70, Gilberto Gil e Caetano, ao que parece chegam lá no próximo ano, e Chico Buarque antes disso passa a sacanagem dos 69 daqui a três. Todos eles em primoroso estado galanteador, com malhação e os prodígios do amor (que Vinicius de Moraes já evocava como elixir da juventude. Hum, será que com mulher também funciona?). 

E e eu agora, balzaquiana, ando a perceber, descobrir, entender, galvanizando terreno como se de um estudo de caso se tratasse, o processo. Peguei uma ruguinha de expressão no outro dia na testa (de meu olhar sisudo, franzindo o sobrolho como fisiologia da necessidade: há um antes e depois do Brasil; há uma Vanessa pré e pós Brasil, por isso, tem que descontar na derme os efeitos colaterais), as brancas parecem querer florir com a Primavera da minha cabeleira castanha (nascem como pêlos fossem, meio encaracolados, onde antes parece não existia cabelo: neófitos fios que nunca mais serão castanhos). 

É só levantar a parte de cima da cabeleira que a coisa ganha charme como dizem alguns amigos meus, no perfeito chaveco. Mulher jovem de cabelo branco tem charme. Não sei não!

Mas o mais curioso de tudo isto: apercebendo-me apenas das mutações dos traços, das curvilíneas formas que a idade traz, do recorte de rosto, mais maduro, de pinceladas no olhar e ao redor, só porque cruzei o Atlântico para este lado de cá e parece que o tempo no corpo ganha densidade e no olhar dos outros. 

Por isso, não dei conta, quando um destes dias, também numa fila alguém disse:

-"Senhora? Senhora? 

Olhei ao redor à procura da senhora e, com tantos adolescentes à volta, devo ter, com certeza, enrubescido.

quinta-feira, abril 21, 2011

1. A Paixão saiu à rua num fim de tarde assim: remelas, cicuta, ondjaki e caio f.









Vamos à rua. Primeiro na rua para falar de paixões. Haveremos de entrar. Tudo começa na rua, quando não começa dentro de nós. E nós também somos rua. Vadios. Geografia retalhada de sons, vida, frenesim, um formigar atarefado, fervente, solitários, rodeados, torpes, vagueantes, boémios. Apaixonados. E nada mais desapropriado, parece, por estes dias, dizem, do que a rua para a revolução. Dias de geografia de crise.


- Fala baixinho, não vá alguém ouvir-te.





Mas esse violento sentimento não se cala. Tem sex appeal, baby! É puro marketing pessoal.
Não haja mordaça para que se cale. E ninguém quer apaixonar-se com cinzento cobalto nos
céus, moinha sentimental, húmida cidade, a carregar nuvens, e pingas impertinentes a
turvar-nos os afectos arruados. E, não, não é Paixão Católica, que nestes dias, também, ousa
pincelar de roxo alguns desejos, como se lápis azul ousasse ser.



E eu, em “meio silêncio”, a
cantar um “blues” baixinho, caminhava pela rua apressada; havia calçada portuguesa, as
pingas gotejavam-me no guarda-chuva, e as botas velhas deixavam entrar água pluviosa. 



É:
eu não estava preparada para a paixão. E, depois, já estava atrasada para ela. “Tinha 
Paixão”,colóquio de literaturas brasileira e africana, em sala de casa nobre a ver-praça 
carlos-alberto, já subira o pano às três pancadas das 18h30. 





Será que a Paixão me deixaria entrar? Ou apontaria o dedo inquisitivo: 

- Também tu, Vanessa?

Por direito à absolvição, mea culpa (eu pecadora me confesso...mas...): paixão que se preze chega sem avisar. Mas, depois, paixão prez devida, sabemos, ainda, nasce em noite de lua cheia, sol, um pouco de bossa nova ajuda, começa com uma enroscadinha de pele, arco-íris em pantone improvisado, perto de viçosas e carnudas flores, perto de relva fofa para o corpo inebriado, na praia, no baloiço, no banco de jardim, de mãos dadas pela calçada, perto de árvores com troncos maduros para gravar o amor.

Mas amor é outra coisa, é farinha de mandioca a querer sê-lo, pubando debaixo de casa de palha; e a paixão é rastilho, limite.

Na paixão estamos sempre no limite para ousar. Há o palpitar, as mãos suadas, os olhos brilhantes, o fôlego afobado, os olhos perto da boca a quererem fechar, sem poderem abrir, de tanta explosão de afecto. Paixão é explosão de afecto. E ali - ali - meus caros, ali, a paixão saiu à rua num fim de tarde assim. Tão cinzenta.

É deus e o diabo na terra do sol. O diabo é pai da paixão. Há-de ser. Um capeta de milongas sôfregas. Pode haver milongas sôfregas? A Paixão saiu à rua, já o disse, mas voltou a entrar em casa de viscondes, de Balsemão, de casa exilada de reis e nobres (e eles lá estavam nas paredes da sala a lembrar-nos que também estavam atentos às nossas paixões). E havia gente atenta, sentada, escutando, apaixonada. Suspiro. Silêncio.

Mais a sério, meus caros. Mais a sério. Falemos de paixões, mas com respeitinho que o Ondjaki é um homem comprometido. Já com o Caio Fernando Abreu (a.k.a Caio F.) sempre podemos ter um pouco mais de sacanagem, e sexo, e vida, medo, morte e um pouquinho de solidão. E foi a Patricia Lino quem tocou no assunto, citando-o: “paixão é plenitude e solidão”.

Ah, um certo autismo dos amantes de literatura! É preciso solidão para respirar letras de prosa, poesia e poema em prosa, até nos apaixonarmos e ficarmos em apneia. Somos outros, na pele de autores por quem choramos quando se vão. Que falta nos fazem; nos hão-de fazer!

E, Patrícia, queremos folhear-te, de novo, as páginas dessa declaração de amor. (Como gostamos de cartas de amor, daquelas, rídiculas, de fazer inveja a Pessoa). Dessa epístola intimista que ao confessionário do “Tinha Paixão” tu leste. Essa que fala de que, à beira do gole de cicuta, o-senhor-só-que-nada-sei, só queria aprender, mesmo que lhe falhassem as pernas (e nós até gostamos que nos formiguem as pernas quando ficamos entorpecidos de pasión).

Ele era um apaixonado, esse socrático homem. Acreditemos na memória da literatura. Ao menos para nos consolar que só nos resta aprender. E paixão é isso. Paixão é um pouquinho mais o que o pai do escritor colombiano Hector Abad Faciolince (Somos o Esquecimento que Seremos, Quetzal) lhe disse, quase em manifesto: "Mas tu já começas a compreender e a sentir todo o esforço, o trabalho, a angústia, o isolamento, a solidão e intensa dor que a vida exige a quem escolhe o difícil caminho de criar beleza".

E paixão, ali, gostamos de saber, é entrar dentro das pessoas, disse-nos o Francisco Topa - que é apaixonado por Ondjaki, o qual gosta de fins de tarde na Livraria da Travessa em Ipanema, a folhear novidades literárias; e desculpa-me a confissão, camarada, é para um bem maior: é paixão, pá!.

Paixão, segundo Topa, é isso e remelas amarelas que parecem caramelos, em linhas ondjakianas. Ramelas lentas com ampulhetas de fina areia parcimoniosa a contar quantas madrugadas a noite terá. Paixão: Cartas entre o jovem angolano, agora um pouco mais carioca, e a escritora angolana Ana Paula Tavares. Mapa de afectos. Respeito ancião. “Ramela é um caramelo que o olho usa”. E paixão é isso. Olhar com mais atenção as hipérboles dos outros, as fraquezas alheias que nos tornam mais perto de entrarmos na vida de autores que queremos, antropofagicamente, comer. Que sejam nossos só nossos! Paixão é falta de tempo para respirar, quase falhando-nos a voz, é babel de dicionários que Barthes tentou decifrar.

Paixão é hipótese lispectoriana: “porque há o direito ao grito, então eu grito!” É isso: é tempo de sair à rua e gritar.

Com overdose de Paixão,
V.R.
(apaixonada visceral pela vida)

Mereces um beijo do tamanho de ti

Respondo a A. e ocorre-me isto: "mereces um beijo do tamanho de ti". Há gente que merece beijos do tamanho do que elas são, gente genuína, com tanta leveza, com abraços ternos, lentos e amorosos. Ocorre-me tudo isto e pensar que tenho saudades de beijos e abraços lentos, sinceros, demorados, genuínos, do tamanho de mim. Escrevo-lhe e penso que há gente que merece, pois, beijos e abraços do tamanho do que elas são, amigos gigantes, intemporais, incondicionalmente presente, cúmplices.
Há, pois, na ausência do afecto do tamanho de nós o inevitável exercício à Clarice Lispector ("porque há o direito ao grito, então eu grito") com mescla de Caio F. e Drummond (os nossos meios silêncios).
Há, no entanto, gente que não merece, realmente, nem sequer beijos, nem abraços lentos, nem sequer um segundo da nossa atenção e andamos aqui a tentar perceber por que razão ainda nos preocupamos e dedicamos ao exercício genuíno da ternura, a quem não dá a mínima. Será sempre um desperdício de afecto.
Obrigada, A. pelo beijo de hoje do tamanho de mim.

2#Som do dia - Pregão da Lotaria, "Olh'ó 29"

São homens fazedores de sonhos pelo som. Gente a sonhar com a roda da Lotaria e a ouvir, já o tilintar dos tostões. 


- "Olh'ó 29! ..... Olh'ó 29!..... Olh'ó 29.... 


De chapéu na cabeça, ajeitado, de gabardine escura contra as intempéries e mão na cautela suspensa, quase esvoaçante em dias de vento co-adjuvante que há-de levar a voz para mais longe. Cauteleiros. Homens de pregão na voz. Elevam-na, treinada, para que entrem por esquinas e calçadas de pedra portuguesa, como se o tempo por eles e por esta cidade se suspendesse...


Silêncio e, de novo: - "Olh'ó 29"; nesse jogo de sorte e azar que já foi rei. Para sonhar, clicar no pod0matic... Som do dia, num dia como este, no Porto, um pouco antes da rua ser Sá da Bandeira.




quarta-feira, abril 20, 2011

Vamos à centrifugadora: 1.dub; 2.downtempo; 3.lounge. Sai i:cube, a passar hoje na Sky.fm, enquanto se editava um texto

1# Som do Dia - Amoladores de rua, à porta de casa; são guarda-chuvas, senhora

São já uma espécie rara, em vias de extinção, e levam-me para a minha doce infância. Um caso de estudo - sugiro - da etnografia das profissões.
Quando o realejo típico soava ao fim da rua, já se punha as facas, as tesouras, as panelas e os guarda-chuvas em marcha no caixote da avó para os pôr à arranjar. 
-Ó senhor, quanto tempo?
- Amanhã senhora; os guarda-chuvas. Amanhã, senhora à mesma hora. 
E a minha avó ia-se contente. Satisfeita.




Hoje, somos mais descartáveis nas utensílios da casa, mas há itinerantes amoladores de rua que resistem, rolando a roda por ruas de interior e zonas residenciais sossegadas, como hoje de manhãzinha cedo, à porta de casa, da minha janela veio o som. Agarram-se memórias, no soar doce. 

Tive vontade de ter facas, panelas, tesouras e guarda-chuvas para arranjar, para que voltasse, amanhã, de novo, de manhãzinha, mas foi tudo tão rápido que só tive tempo de ligar o gravador, e a câmara para que não o esquecesse. Fica aqui o som do dia! A ver se a gente se entende com um som por dia, a partir de agora...


Nós, multiligues, finlandeses, russos, americanos, gregos, irlandeses e, vá lá, um pouco portugueses

Sempre tivemos imenso jeito para as Línguas, nós, portugueses. Não somos como os alemães a falar inglês que parece que estão a querer bater em alguém, eventualmente a parecer com um desarranjo intestinal, ou, quem sabe, com a garganta arranhada. 

É que, nós, portugueses, arranhamos bem o portunhol, com distinção q.b. em relação aos nossos vizinhos ibéricos (salvo o galego, é certo), somos "exquisites" no inglês, o francês também é "chanson avec distinction" para inglês ver, tentamos parlare o italiano, exercitando com veemência as mãos (a ver se, com sorte, batemos em alguém, sobretudo no Padrinho) e, uma vez imigrantes em qualquer canto do mundo, já somos exímios parlantes da língua local, arranhando a nossa língua-mãe com uma marcante influência a que os linguistas chamam sotaque. Somos uns comunicadores da gema, vá!

Ora, acontece que, desta vez, sem sairmos de Portugal, andamos todos muito multilingues e afamados no mundo, devido, sobretudo, primeiro ao nosso mediático naufrágio das contas públicas, depois por causa da mui nobre visita de distintos turistas internacionais da agência FMI. 

Sabemos já dizer troika, como se fôssemos marxistas-leninistas desde pequeninos; FMI sai-nos assim disparado, com variante de IMF, como chiques que somos, e mais: reaprendemos a pôr a trema no nosso quotidiano linguístico com tão engraçados nomes nos cartões de visita que os é-éfe-éme-istas entregam. Não é chapézinho, não: é algo como trema-trema, estamos de bisturi na mão para a cirurgia necessária do que resta do país...

Depois, claro está,  por estes dias, também somos um pouco americanos, gregos e irlandeses, como se se tratasse de uma segunda camada de pele, por mutação genética, e a que, sem uso de recursos estilísticos vamos ter de nos habituar para recuperação dos tecidos genéticos da nossa portugalidade. Vêm aí tempos ainda mais multilingues, ainda que de palavras enxutas. Vêm aí tempos de economia de lirismos, por um erro de ortografia político-económica . A ver se nos entendemos num novo acordo da gramática do país.

terça-feira, abril 19, 2011

Lutadores de sumo a dançar ballet, ninfomaníaca flautista, pinóquio na nóia com uma lixa ensopada de gasolina

Eh, pah, gostei tanto da palermice que só me ocorre, que o meu amigo Hugo Veiga é um artista multifacetado!
 

A magia do cinema é isto, ainda que sejam uns segundos de fama (uma adenda a José e Pilar)

1. Isto não é nada de especial, mas também é. Poderia até ser incómodo, por não me terem pedido autorização, mas tornou-se caricato. Pode até ser uma amenidade, ou um suspiro, ah e tal a vaidade, se não tivesse servido já para curiosos episódios da minha vida. Tudo graças ao filme documentário José&Pilar de Miguel Gonçalves Mendes, estreado o ano passado, primeiro no Brasil, depois em Portugal, onde apareço, por segundos, a fazer uma pergunta a Saramago, no consulado português em São Paulo.

2. Tudo começou com um telefone de uma amiga carioca:
-Van, você é uma portuguesa muito metida, né? Como assim você aparece no filme do Saramago? Bonitinha, né? Com cabelo mais comprido e a única que faz uma pergunta inteligene. Que legal Van.

Claro, que a mandei ir zoar com outra pessoa. Sacanagem, assim, comigo, Aninha? Que é isso?

-Falando sério, Van! Você aparece na coletiva de imprensa que rolou aqui em Sampa quando ele veio apresentar um livro...

3. Ainda não crente de que se tratava realmente da minha pessoa, mandei e-mail ao Miguel, quem tinha entrevistado, coincidentemente, um mês antes, na Festa Literária Internacional de Paraty, para uma entrevista para a Notícias Sábado. Nessa altura, ele não associou A+B e eu era, pois, mais uma jornalista.

Ele respondeu, um dia depois, mas antes recebera durante a tarde, um telefonema do número de telemóvel português:

- Olha, que coincidência! Não me apercebi. Mas a cena é que quando abri o e-mail, ia escrever-te para ires à festa de lançamento do filme, lá num bar em Pinheiros...

4. Depois disso, tenho recebido e-mails, mensagens via facebook, de amigos e conhecidos a dizerem que me viram, que se lembraram de mim, que foi giro, que foi coincidência e que foi muito bom que ali estivesse, na tela, como património de Saramago. Ocorre-me isto e pensar ainda que Saramago foi sempre presença assídua em casa dos meus pais, através dos livros. Que cresci a lê-lo. Que amadureci a percebê-lo a identificar-me com a psicologia sulfurosa dos livros deles, na acidez da escrita, na maturidade em ler a vida. Aprendi que somos todos um estado de excepção, uma espécie de exilados de nós, peregrinos, como elefantes e Caim's, e Ricardos Reis, à procura de nós, de um lugar melhor para nós e de Todos os Nomes que nos possam aproximar um pouco mais do que somos, verdadeiramente. Apercebo-me disto e sinto-me regozijada e a pensar que não poderia ser de outra forma, que realmente, tal como Saramago sempre fez parte do meu crescimento (de certa forma ainda faz) eu pude, então, em obra póstuma, fazer parte, por segundos, da memória dele. Depois, sucede que com José &Pilar já fui a lugares onde nunca imaginei ir, como México, por exemplo. E que há uma outra Vanessa, a deambular no cinema, além de mim, e a ser parte da vida de outras pessoas.

Os dias em que eu ajoelhava, e não era para rezar (e não que não tem sacanagem)

"No Domingo de Ramos, lava os teus panos porque na Páscoa da Ressurreição os lavarás ou não". Não se deve, pois, contrariar a sabedoria popular, ainda que a discussão sobre a alternativa"lavarás ou não" dê pano para mangas. Ou uma coisa, ou outra. Fifty-Fifty. 

Mas o que a minha avó realmente quis com isto dizer, hoje ao almoço, recordando o adágio popular, muito apropriado para a época, olhando lá para fora, vendo a chuva copiosa a regar o jardim e gotejar no vidro, foi que se não os tivesse lavado no Domingo de Ramos, esta semana estaria bem tramada para que secassem. 

Logo depois, o meu irmão soltou um "ah agora entendi" pois a mãe tem andado em azáfama diligente desde há duas semanas, lavando cortinados, carpetes e alcatifas como se não houvesse amanhã, ou encenando, quem sabe, um novo episódio de "Donas de Casa Desesperadas". 

Surge isto e lembro-me, lindamente, das duas semanas que antecediam a Páscoa há uns tempos. Ora, eram semanas em que eu, pré-adolescente, ajoelhava no taco, de pano nos joelhos, qual dona de casa incauta, penitenciando todos os pecados do ano, e rogando pragas à Páscoa, a um deus que nenhuma compaixão por mim não tinha, ali ajoelhada em labor caseiro.

Pois, anualmente, esta era a época de encerar e polir o taco de casa dos meus pais, no 3º andar, numa já longe pré-adolescência, parece. Primeiro tirava-se alcatifas e carpetes. Aspirava-se, lavava-se o taco com água e sabão, deixava-se secar e então é que começava o martírio. 

Lá punha eu pano no chão para os joelhos, que horas depois haveriam de ficar autênticas nódoas negras (fiz batota e usei, certa vez, as joelheiras do voleibol), mais roxinhas que o pano da Paixão de Cristo, que por estes dias há-de adornar as igrejas mais tradicionais com chancela Católica Apostólica Romana. Aquilo dava, ainda, músculo nos braços e eu ficava, ao fim do dia, toda partidinha. 

O pano melava-se de cera âmbar e pastosa (as mãos ficavam sebosas, por isso o melhor era usar luvas), que havia em latas que sobrasse na dispensa da casa, e o cheiro ia-se entranhando à medida que o unto se agarrava à madeira do taco, depois que eu, em gestos circulares e firmes, passava pelo chão. 

Horas depois e a missão estava quase cumprida e eu, em vez de catárse feita pelo cansaço, ainda bufava de raiva por não estar na rua a aproveitar as férias da Páscoa, a andar de bicicleta, ou até mesmo, quem sabe, a brincar ao bate pé (eu sei que este post não ia ter sacanagem, mas escapou-se-me) e outras amenidades que a pré-adolescência sempre acarreta (e logo eu, a chata, que não passava do passou-bem)...

Depois, o dia seguinte iria ser um desafio para a lei do ruúdo, mas já era a tarefa que eu preferia, embora nunca a mim me calhasse: a enceradora terminava o serviço, deixando o taco num brinquinho.

Hoje em dia, os meus pais mudaram de casa e descobriram o verniz, embora a minha mãe diga que não é a mesma coisa. No entanto, parece-me muito apropriado e conveniente que tenha sido o verniz que me tenha salvo os joelhos, nos últimos anos.


Bolaño, o detective prosador, também um dia já foi poeta (e estes detectives helados precedem os selvagens da obra que o consagrou)

“Los detectives helados” do escritor chileno Roberto Bolaño.  

Soñe com detectives helados, detectives latinoamericanos
que intentaban mantener los ojos abiertos
en medio del sueño.

Soñe com crímenes horribles
y com tipos cuidadosos
que procuraban no pisar los charcos de sangre
y al mismo tiempo abarcar com una sola mirada
el escenario del crimen.

Soñe com detectives perdidos
en el espejo convexo de los Arnolfini:
nuestra época, nuestras perspectivas,
nuestros modelos del Espanto.

Aspirina, para massagem de auto-estima, nestes dias de cinzento no pantone da vida, graças ao santo Faulkner (Ámen!)

ENTREVISTADORA

Que tipo de trabalho o senhor fazia para ganhar aquele “algum dinheiro de vez em quando”?

FAULKNER

Tudo o que aparecesse. Eu podia fazer um pouco de quase tudo — dirigir barcos, pintar casas, pilotar aviões. Nunca precisei de muito dinheiro, porque a vida em Nova Orleans era barata nessa época, e tudo o que eu queria era um lugar para dormir, um pouco de comida, fumo e uísque. Havia muitas coisas que eu podia fazer por dois ou três dias, ganhando o suficiente para passar o resto do mês. Sou, por temperamento, um vagabundo, um erradio. Não quero dinheiro tanto a ponto de ter de trabalhar por ele. Na minha opinião, é uma pena haver tanto trabalho no mundo. Uma das coisas mais tristes que existem é que a única coisa que um homem pode fazer durante oito horas por dia, todos os dias, é trabalhar. Você não pode comer oito horas por dia, nem beber oito horas por dia, nem fazer amor por oito horas — só trabalhar é o que você pode fazer por oito horas. E é por essa razão que o homem faz a si mesmo e a todos os outros tão miseráveis e infelizes.

Tirado de um excerto do blog da Companhia das Letras....

Mr. Dheo














Caça ao Coelho e a Cicuta como terapia (a.k.a Ansarinha-Malhada ou Engude)

Ocorre-me que, por estes dias, há que promover um certo humor na cinza das horas para imprimir uma eficiente terapia do riso (dizem os entendidos que o nosso organismo não distingue o verdadeiro do forçado e tem benefícios qual colagénio anti-envelhecimento) e, depois de saber que o líder do PSD está na redacção da TSF, parece-me que: 


1.) Está aberta a época oficial de CAÇA ao Coelho (Snapshoters deste país, marxistas, activistas e revolucionários ajuntai-vos; 


2. Já não há sábios como os gregos (e isto não tem nada que ver com os efeitos colaterais do FMI no país), que, naquela Grécia de anfiteatros e filósofos, sabendo que nada sabiam deixavam que a Cicuta resolvesse o assunto. Parece-me, portanto, que há-de esta planta venenosa, da família das Umbelíferas, e de crescimento espontâneo em Portugal (também conhecida por cegude e ansarinha-malhada; embude) há-de ter propriedades terapêuticas, pelo menos para nós!

segunda-feira, abril 18, 2011

Típicos. Nós, iphoners...ou a.k.a trocar cromos para caderneta na era digital (e isto termina com alguma sacanagem)

Anda para aí uma nova comunidade peregrina e fiel, chamada iphoners, à qual aderi, primeiro por querer, com as vantagens incríveis para jornalistas, depois sem querer, por extensão de uma certa necessidade que o bicho impõe. É um brinquedo, é uma ferramenta de trabalho, é um telefone, é uma companhia para ganharmos tempo quando achamos que o estamos a perder em filas de espera, ou quando não nos estão a dar atenção, é uma tirania, um admirável mundo novo, um big brother, uma quinta ou sexta vaga à la Alvin Toffler, um super-ego, neto de Marshall Mcluhan ou primo afastado de Anthony Giddens. Ah, tirano dos média, se soubesses que o meio já ultrapassou a mensagem em overdose, nossa pele de cultura!!!!

Apercebi-me deste efeito de comunidade tribal, dotada de linguagem própria, à mesa de almoço, entre 11 pessoas, no sábado passado, entre o estado do fotojornalismos da nação sobre propaganda socratiana e os equívocos do INE, e Coca-Cola zero.

A certa altura, estavam cinco dessa trupe a trocar aplicações (a.k.a app's de iphone), a dar dicas sobre como tirar fotografias à tela se se tratar de algo importante, capas mais bonitas, imitações de isqueiros zippers e por aí foi, resvalando em utilidades imperdíveis, qual Lidl e sua Dica da Semana. 
O ridículo pode ser um lugar-comum de partilha eficaz, espelho, aliás, do nosso bom-humor.

-"Esta app é muito fixe: grava vídeo em desenho animado"
- "E esta das fotos que cria uma legenda. Gira!: tem um bigode"
- Caramba, tens imensas aplicações de fotografia, não crias pastas?; é melhor para organizar.
- Ah, e como é que se faz?
- Olha agora: para tirar fotografia ao ecrã tens de carregar primeiro aqui e depois ali"
-Ah, que gira, olha esta aplicação, assim, que faz vídeos rápidos a partir de fotografias. Chama-se Time Lapse.
- Ah boa: é o frame-a-frame.
- Sim, foi o T. que me passou que ele é viciado em app´s. Adora!
- Diz lá qual é para procurar aqui na itunes store.

De, repente, eis que saindo do portal tribal, da fogueira crepitante do êxtase santo iphone, se impõe uma voz, como quem, afinal, encontrou a mensagem na garrafa que ninguém mais encontrou, a retirou, cuidadosamente, e a leu em voz alta, numa espécie de exegese da lucidez.

- Você estão a perceber que isto é realmente uma tendência. O que nos estamos aqui a fazer? Ainda não nos calamos com app's.
- É parece que estamos a trocar cromos, como antigamente.
Risos. Gracejos.
Até, que numa pausa do momento iphone tribal (qual seria o ritual seguinte?):
- Você deve estar achando que isto é um bando tudo louco, né?
Sorriso da U.,  que nos observava, atentamente, e admirada, olhar de antropóloga funcionalista, qual Evans-Pritchard entre os Azande, estudando bruxaria, oráculos e magia!

- Pois é, tens de comprar um para ficares a par e trocares também.

Acho que talvez tenha sido aqui que me apercebi do impacto do movimento (somos, portanto, um estudo de caso que exige observação-participante; amigos casuais pela irmandade do iphone), a nova maconha, ou uma espécie de crack dos tempos modernos (I wonder how Chaplin would see us?). 

Os iphone-excluídos são, quando a tribo se junta, um novo modelo de xenofobia silenciosa, a que nós, iphoners, à guisa da troca de cromos, como bem catalogou M., aderimos como pele de uma certa cultura perigosa. Imaginem: há até uma app que simula que nos estão a ligar?  E, nós, não contentes com a santa lista de app's imaginamos criar algumas. Bandeirinha vermelha para esta: 
-Não tarda nada inventarão uma com um filtro para ver a roupa interior das pessoas, ou então baseado na estrutura humana em que se simula ver!!!

Risos. Risos e mais teorias.
Típicos. Nós, depravados. E como a estrutura da neurobiologia da consciência é demasiado parecida, pareceu-me "impossível" que ninguém se tenha lembrado antes de uma app assim. Vá! 

Freudianos deste mundo, associações religiosas conservadoras, puristas, uni-vos. 

Ela existe, sim, chama-se, claro, Nude It e, pronto, não preciso dizer mais nada! Já sei o que vocês vão fazer a seguir...

afinal, o buraco negro existe (e, às vezes, faz centrifugação lá em casa)

porque antónio prata é um cara legal, vai, e eu adoro esta crônica

31/03/2011

Navegar é preciso?

Publicado na revista VIP      
Autor: António Prata                                                        

Talvez seja uma característica masculina, talvez apenas um traço meu - ou, como diz minha mulher, um defeito. O negócio é que descobri, aos trinta e três anos, que não gosto de novidades. Isso inclui: viagens a lugares desconhecidos, passeios por galerias de arte, estudos freqüentes do guia de fim de semana, em busca dos horizontes intocados de nossa grande cidade.
Não tenho prazer na exploração, mas no reconhecimento. Gosto de ir correr no parque do meu bairro, fazendo sempre o mesmo trajeto: dou a volta no laguinho, passo atrás do bambuzal, depois vou em direção ao estacionamento e sinto aquela tranquilidade: aí está o cenário amigo de tantas das minhas tardes. Mais do que descobrir artistas, gosto de ler livros e ver filmes dos meus autores e diretores preferidos. Mais um do Kurt Vonnegut, mais um do Woody Allen: que bom poder reencontrar o mesmo estilo, as mesmas idiossincrasias. Sou feliz nos bares em que chamo o garçom pelo nome e cujo cardápio posso invocar, a qualquer momento, na tela da memória.
Sabe cachorro, que adota um tapete encardido e dali não sai, por mais que você compre camas acolchoadas ou faça uma casinha de madeira? Pois eu sou esse cachorro. E minha mulher, que adora novidades, é a pessoa que vem tentando, há quatro anos, seduzir-me com as camas acolchoadas e casinhas de madeira.
Eis o problema: sou um Homer Simpson, casado com uma Marca Póla. Chega sábado, ela quer me levar para ver um espetáculo incrível de fantoches tchecos que dançam balalaica ao som de uma banda performática búlgara, ou ao Teatro Municipal, para ouvir o coral de monges tibetanos exilados no Canadá, ou a um badalado restaurante de comida coreana feita por um chef cearense - no fim da zona norte.
Beleza. Em teoria, acho tudo isso fantástico. Se, antes de nascer, pudesse ter optado entre o modelo que adora os fantoches tchecos e o que prefere a velha poltrona, encarnaria no primeiro, sem dúvida. Ponho até um polegar pra cima, no Facebook, sobre cada um dos programas citados: Antonio likes this. A vida é curta, o mundo é grande, é preciso vê-lo enquanto é tempo. Mas o que posso fazer se, na prátrica, não sou assim?
Demorou para que eu assumisse esse meu provincianismo existencial. Por anos, tentei acostumar-me a gostar de lugares onde não tenho o costume de ir. Esforcei-me, em sábados e domingos, para não ficar mal-humorado enquanto buscávamos vaga no estacionamento abarrotado da Bienal. Esmerei-me em manter o mesmo inabalado sorriso no rosto quando minha mulher propunha, diante de mapas abertos: “aí a gente aluga um carro aqui, cruza a cordilheira, pega um barco ali, vai até essas ilhas, faz uma trilha até...”. Não sei se o que mais me assusta na frase são os verbos – aluga, cruza, pega, vai, faz – ou os substantivos – carro, cordilheira, barco, ilha, trilha -, mas em respeito ao sujeito – a gente -, já atravessei até deserto em lombo de cavalo. Confesso que, em muitos momentos, enquanto o sol se punha atrás dos montes arenosos, por exemplo, alongando as belas sombras dos cactos por metros e metros sobre rochas vermelhas, eu aproveitei. Mas não conseguia evitar um vergonhoso pensamento: “acho que estaria mais feliz no Quiosque do Ademir, lá em Ubatuba”.
Depois que assumi essa minha, digamos, posição, tento defender-me das acusações de “preguiçoso” e “encostado” invocando supostos traços genéticos e antropológicos. Num domingo, lutando para conseguir ver Corinthians e Ponte Preta, em vez de assistir O encouraçado Potemkin, no Memorial da América Latina, criei a seguinte teoria: por muitos séculos, as mulheres ficaram em casa, cuidando da vida doméstica, enquanto os homens saíam pelo mundo, para caçar, pilhar, conquistar, guerrear ou, nos últimos cem anos, bater o cartão. Agora, elas querem recuperar, nos sábados, domingos, férias e feriados de suas juventudes, o tempo perdido em centenas de anos de cama, mesa e banho, enquanto nós, que trazemos em nosso DNA a exaustão dos exploradores e dos escravos, de gregos e troianos, mouros e cristãos, só queremos uma poltrona, um copo de cerveja e Corinthians e Ponte Preta, às cinco e meia da tarde.
Você acha que minha explicação colou? Claro que não. Consegui assistir ao jogo, mas triste, porque minha mulher foi sozinha ao filme, e ficou um pouco chateada. O que eu posso fazer? Eu amo minha mulher. Eu gosto muito da minha poltrona. Uma quer me levar para longe. A outra quer manter-me bem perto. Por que tanta dificuldade? Será o cansaço dos antigos navegadores e dos escravos nas galés, que acomete meus velhos músculos, ou apenas uma falha de caráter, uma preguiça monstra que impede-me de ir ao teatro, ao cinema e aos confins do mundo, ver como o sol se põe?
Não sei, meu amor. Não sei. Mas fora isso, até que eu sou legal, vai?