Quinta-feira, Janeiro 26, 2012

Hilda, a fofa blasé

Há quem já lhe tenha pedido workshops, se candidate para ser aluna para toda a vida, seguidora, fã incondicional, ou ainda mesmo a tenha convidado a escrever um livro sobre essa arte de ser, assim, uma fofa blasé. E ser fofa blasé é todo um mundo fisiológico, porque, dirá ela, isto não se aprende, ou ensina, nem será coisa dignificante de um manual de instruções, ou sequer guia rápido de consulta na carteira, porque, em rigor, ela percebeu que isso, existindo, só pode ser modo de estar, ser, haver e por aí fora, quanta geografia por galgar em todos os verbos auxiliares, exercitando, com arte e manha temperada, ora doce, ora acre, só um pouquinho. Porém, sê-lo assim, percebemo-lo em Hilda, pode ter, de fato, um amargo maior.

Hilda é essa fofa blasé. 

Uma espécie de diplomacia nos afetos, ora dá, seduz, ora, de repente, não se compromete com nada, nem ninguém, como que deixando, isso, um leve perfume no ar que eles hão-de sentir e querer agarrar, tal qual o último fôlego, a última réstia de esperança, como a bruxuleante luz de vela, quase a esmaecer, mas ainda não se indo, rodopiando no etéreo momento que resta, dando o seu melhor brilho.

E a ser verdade, que ela, Hilda, a nossa Hilda, seja uma fofa blasé, conforme lhe chamou B. - enternecedora e fiel a amiga, de banhos de mar, sol de Ipanema, e corpo dourado no Leblon, e ainda chope e samba na Lapa a altas horas, antes do nascer do dia para o café da manhã - ela terá razões para melhor perceber porque assim não o é, quando submetida ao mais genuíno e traiçoeiro dos afetos. 

Em vez de usar o blasé, cogitou, como antídoto para esse certo veneno, destilado em doses acima do suportável no início, e depois quase como último fôlego de vela, num vazio eco do vidro da poção, ela passa a ser, pois, a fofa incondicional. E, sabemos, sê-lo, nunca trouxe coisa boa. 

Porque toda a lógica do que ela nos disse, perde fundamento: "os caras ligam e você não dá bola; o cara convida e você diz que naquele dia não dá, ou que pode ser", desvalorizando, "que está ocupada, que está trabalhando, que é melhor deixar para outro dia, que não atende, que depois, se rolar, vocês se encontram e tal". É que aí percebemos como funciona a natureza da mente: quanto mais você dá para trás, e nem se fazendo de difícil, apenas porque você nem está a fim,  mais eles ficam circundando a área, como feras amansadas. Por isso, a gente sempre falou "Hilda e os seus homens", quase ansiando encontrar com ela para saber uma história nova. 

Ela tinha sempre uma história nova. 

Nos últimos tempos, todavia, ela meio que se reformou, inconscientemente, porque passou a ser a fofa incondicional, em prol, vá lá, de pelo menos dois deles. E ter dois homens, Hilda a dois, não é, convenhamos, nada normal. É, por isso, anda "meio dividida", me confidenciou. Mas dividida, porque, no final das contas, nenhum deles é exatamente aquilo que ela precisa, como complemento de vida, assim, parceiros, cúmplices do óbvio. 
Anda tudo errado, a gente falou para ela. Ela meio que anuiu, mas não se deixou convencer. Lembrou até dessa história da idade e assim. Eu juro que nunca ouvi a Hilda falar da idade, nem dessas filosofias de auto-ajuda e blá, o tempo que passa, os núcleos fortes como fases de vida. (Hilda, relaxa e goza!, vai!)

Ela anda com um discurso meio estranho. Houve até um momento que ela lembrou um cara que no segundo encontro de ida ao cinema - puro encontro de amigos- ela ficou meio assustada, percebendo o efeito que poderia ter o fofa blasé: o cara virou para ela, um cara estabelecido, seus 42 anos, filha de 14 anos, meio feiinho, mas super interessante, amigão: "-Tá na hora de você se estabelecer, casar, quem sabe ter filhos. Tem que procurar companheiro. Você não gostaria de ter filhos? Quero dizer para você que estou disponível". 
A Hilda saiu correndo do carro, nem deu xau e nunca mais falou com o cara. É como se a distribuição dos afetos estivesse mesmo desequilibrada. Nessa hora, lembro bem, B. falou: - Puxa, Hilda, quem dera que isso acontecesse comigo! 
Eu falei para elas que era melhor acabar com esse negócio de fofa blasé,  pois a conversa estava a ficar séria demais, e aos 25, ainda não é tempo de ter conversas sérias, quando tem um sol chamando na rua. 

Segunda-feira, Janeiro 23, 2012

bater à máquina

Também um dia, nesta relíquia escrevi (sinais de que os cabelos brancos têm já fundamento), herdada do meu avó, passada para o meu pai. Era um papel amarelo, muito fino, com pequenas letras dançantes, marteladas, negras e vermelhas, que saíam do cartuxo, - onde eu sujava sempre as mãos traquinas - filadas num tecido rubi-negro, estirado, e ondulante à ordem das teclas (hoje algumas mancas, outras reformadas), que os meus dedos imprimiam, duras. 
Clac, Zip, Plim, chegou ao fim, papel, mudar parágrafo, avançar na página abaixo, puxá-la; fazer cinema, cartas comerciais, de amor, burocracias, contas, ofícios e prosas várias; ver a cartesiana prosa tão escorreita num manto de papiro moderno, tão terno e acetinado. Foram poemas aquilo que escrevi. 
Poemas aos dez anos de quem acha que já sabe tudo sobre a vida e tem certezas, até que, tal qual uma máquina de escrever, tudo fica atrás, nesse tempo onde o tac-tac agitado, laboral de ponto picado, qual fabril obrigação, se empoeira, à espera de um dia como estes, alguém se lembre de as tirar do esquecimento, e beba com elas da liquefeita luz deste sol, a lembrar como velhos comparsas, camaradas de luta e árduas jornadas, em que outrora o futuro foram elas. Eis a Messa cá de casa. Habita o quarto, por agora, ao lado do Philips onde a minha bisavó ouvia a radionovela e a novena ao fim do dia. 


Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

A essência do tempo 
é o caminho dentro de nós

Terça-feira, Dezembro 27, 2011

Os livros, em jeito de balanço

Pus-me à janela do ano (como quem apanha boleia de uma máquina do tempo), a ver os meses, a perceber os dias e as etapas (e devo dizer que os meus 30 foram mais céleres do que a velocidade que tinha imposta para eles, ainda que a minha velocidade seja a de uma crónica hiperactiva: o problema é que de um gás a coisa vai-se) e arranquei os livros que me acompanharam neste caminhada (e de alguma forma ficaram, enquanto outros não), às vezes dolorosa, outras com gargalhadas que foram Primaveras a desabrochar brotos e a abrir pétalas. Li menos do que tinha projectado; facto. Desse balanço, inquieto e instável, destaco estes, sem hierarquias:

- "Os Malaquias", Andrea del Fuego, ed. Língua Geral (2010)

- "The Other", Ryszard Kapucinski, Verso, 2008

- "Disse-me um Adivinho", Tiziano Terzani, Tinta da China (2009) 

- "República dos Corvos", José Cardoso Pires, Leya (edições de bolso, 2010) 

- "A morte de Ivan Ilitch", Lev Tolstoi, Leya (edições de bolso, 2010) 

- "O filho de Mil Homens", Valter Hugo Mãe Alfaguara, (2010

- "Uma Mentira Mil Vezes Repetida", Manuel Jorge Marmelo, Quetzal (2010)

- "Historia Abreviada de la literatura portátil", Enrique Vila-Matas, Anagrama, (2009)

- "Passageiro do Fim do Dia", Rubens Figueiredo, Companhia das Letras, (2010)

-"Vulcões de Lama", Camilo Castelo Branco, Obras Escolhidas de Camilo Castelo Branco, vigésimo quarto volume, Selecção e Notas de Alexandre Cabral, Cículo de Leitores, 1983

- Contos da Montanha, Miguel Torga, Edição da Leya, (2010)

- As Cem melhor Crônicas Brasileiras, Seleção de Joaquim Ferreira dos Santos, Objetiva (2009)

sou assim um pedaço de raiz esventrada da terra, a gastar sementes, atirando-as ao vento, erguendo-as para viagens subitâneas, que libram por aí, diáfanas, nublosas, ousadas em se reproduzir, indo longe, remotas, até encontrar a humidade gleba tenaz, onde possa adormecer entranhando-se em novo húmus, que é casa...

Quarta-feira, Dezembro 21, 2011

Vulcões de Lama

O último romance de Camilo Castelo Branco chama-se "Vulcões de Lama" e anda a ser manuseado por esta vossa escrava, num puro deleite que há-de denominar o acto de leitura, em sua essência luxuriante, de um oitavo pecado mortal. Isto porque cada um de nós, um dia, há-de ter pensado que não terá nem um terço do tempo para ler tudo aquilo quanto gostaria antes do ponto final das nossas vidas. 

Quis o douto escritor de "Amor de Perdição", nessa obra supracitada, explicar ao seu editor Eduardo da Costa Santos, na época, da Livraria Civilização, em idos finais do século que sagrou o romantismo - embora Camilo entrasse nos meandros realistas, também -, a razão do título. E nada melhor do que a transcrição para  encher as mentes interessadas do brio da melhor prosa que um homem pode ter para sacudir a modorra e enrijecer a Língua. Eis Camilo em jeito de prefácio.

"Razão do Título

Ordinariamente quando, em etsilo metafórico, usamos comparar as férvidas paixões de alguns homens aos vulcões, a comparação vau buscar o símile às crateras do Etna, do Hecla e do Vesúvio. Presume-se pois que os antros do coração humano resfolgam fogo de paixões assoladoras como os intestinos do nosso globo jorram arroios de lava candente que subvertem, devastam, devoram, pulverizam ou petrificam toda a natureza viva e morta que abrangem nos seus braços de lavaredas. 
Todavia, há aí na casca do planeta paixões cujo símile não o dá o Vesúvio, o Hecla nem o Etna. É de Java que ele vem - de Java onde estuam convulsionados uns vulcões de lama que expluem o seu lodo sobre as coisas e as pessoas, primeiro emporcalhando-as, depois asfixiando-as na sua esterqueira espapaçada. 
Neste romance estão em actividade permanente, sempre acesas, as crateras das paixões da aldeia, também vulcânicas, exterminadoras; mas sujas de porcaria nauseabunda - "vulcões de lama", enfim. 
Tal é a razão do título"

in "Vulcões de Lama", "Obras Escolhidas de Camilo Castelo Branco, vigésimo quarto volume, Selecção e Notas de Alexandre Cabral, Cículo de Leitores, 1983

Pescadinha de rabo na boca, matrona agiota, a guerra dos juros

Os bancos emprestam aos homens, o FMI empresta aos países, os países emprestam ao FMI, Banco Central Europeu empresta aos bancos da zona euro, os países ricos emprestam aos países pobres, em crise, a crise anda de barriga cheia, qual Dona Branca.

Terça-feira, Dezembro 20, 2011

Hilda, filósofa

Agora não tenho razões para andar preocupada com a Hilda. Escreveu-me ontem - e já tinha percebido pela leitura do twitter dela, confesso, que havia motivos para sabê-la bem. Hilda, a indomável, anda empenhada, qual pupila do seu reitor, a ler livros de Filosofia e dedicada em saber o que nada sabe, a ver além das sombras, a ouvir Strauss, descortinando a Odisseia no Espaço do Kubrick, nesse Danúbio Azul e depois Assim Falou Zaratustra da mesma melodia straussiana, para entender as massas. Ao redor Hilda anda mais leve, mas tornou-se, ainda, mais inquisitiva, como tamisasse, qual coador social, a terra baldia que são as atitudes dos homens. Promete fazer usucapião desse campo por arar e usar a cinefilia como método investigativo para chegar à Filosofia, irmã gémea da sétima arte, sabemos. 

Quinta-feira, Dezembro 15, 2011

A pele da cultura

Temos tantas extensões de nós, por aí, que até nos tornamos imortais. Uma espécie de deuses do além, num Olimpo de fantasmas, espectros virtuais, que deixam uma sensação estranha aqui dentro, quando nós vivos vemos os mortos ali plasmados nesse mundo twilight zone que é a internet.

Já pensei: quando eu morrer, o blogue e o meu perfil do Facebook ficarão como rasto do que fui, nos últimos seis anos, pelo menos. Deixarei, portanto, uma poeira no planeta internético (é sempre bom inventar palavras a ver se pegam e accionam os motores de busca para aqui), que passará a ser um lixo que não se pode reciclar. E isso porque os CEO's da internet ainda não têm o poder de apagar a lixeira. Aliás eles têm mais o que fazer. Enquanto estão vivos há-de sempre ser melhor contar os zeros da conta bancária.

E questiono-me: em que buraco quântico se aloja tanta coisa nesta internet? 

Acho que a primeira vez que pensei nisto, foi quando me apareceu a fotografia do Carlos Pinto Coelho, no canto superior direito do Facebook, horas depois de ele ter falecido, ou partido para outra galáxia. Ou seja, um elemento-perfil que ele criou numa rede social, ganhara vida própria, e ainda aparecia como "sugestão de amizade", quando ele já não estava entre nós. Em rigor ele era, ainda, o dono desse perfil a que mais ninguém teria acesso. Aquela página ficará eternamente como sugestão, enquanto os reis da monarquia Facebook não inventarem um mecanismo de denúncia: remover amizade porque esta pessoa morreu.

Em Setembro, a minha amiga A. contou-me, a propósito, uma história algo macabra. O homem que a recebera em Nova-Iorque da primeira vez que lá foi, tinha-se suicidado.

-"Foi uma sensação estranha saber que a pessoa que eu conhecera e que me ensinara a andar de bicicleta morrera, enquanto continuava viva no perfil do Facebook".

A. soube que ele se suicidara por causa das mensagens no mural dele: "X por que fizeste isso?"...etc. Os amigos continuavam a escrever como se ele estivesse vivo. Pelo que sei, ele ainda lá está com mural, com menos amigos, pois com o tempo, esses, vão-se despedindo, removendo a amizade. 

Terça-feira, Dezembro 13, 2011

Andrea del Fuego, na lavoura arcaica

Andrea del Fuego está já do outro lado do Atlântico, de regresso a São Paulo, Brasil, depois de ter recebido, recentemente, o literário “Prémio Saramago” pelo livro “Os Malaquias”, que chega até nós, em Janeiro, com o selo Círculo dos Leitores. É ela quem insiste na forma de encurtar distâncias: “Falamos por skype? É mais fluído”.
Del Fuego surge sob a parede branca do escritório, voz forte; não lhe vemos a gravidez de seis meses, há a luz da acelerada São Paulo a entrar, e ela, serena, gancho no cabelo curto, escuro, ondulado. Há humor; o olhar contornado pelos óculos de armação de massa, pretos, e uns lábios carnudos, jorrando histórias por 50 minutos. O livro premiado (que demorou 7 anos a escrever), baseado em histórias da família de Andrea, em Minas Gerais, é o pretexto para sabermos melhor quem é Del Fuego. A certa altura, a paulistana admite que “é preciso ser-se louco para escrever”, ofício “nada gostosinho”, e que o prémio lhe deu legitimidade interior para continuar a escrever.

Ouça aqui um excerto da entrevista. Del Fuego especula sobre a razão pela qual o júri lhe atribuiu o prémio; constata que tem muito de portuguesa e que  "O Brasil não resolveu ainda seu passado rural".
 
  AndreadelFuego-Os Malaquias, Arcaico by vanessar

Para continuar a ouvir excertos da entrevista pode enviar um e-mail para vnrodrigues@gmail.com. No próximo link Andrea del Fuego provoca: "O Brasil tem medo da poesia"(?)

Tudo o Resto

A cronicalunasamba sonhou, a noite passada, que realizava um documentário chamado "Tudo o Resto" e que, acima de tudo, se divertia assaz q.b., mas não se recorda nem do assunto, nem onde seria aquela terra verdejante que cheirava a clorofila. Tenho, portanto, de começar tudo de novo (ao menos se o cérebro tomasse nota, rewind-play-fast-forward) e arranjar uma ideia (para não decepcionar o sonho) que seja "Tudo o Resto"!

Fator cirurgia plástica, desconto para um certo jornalismo

Os cursos de jornalismo não servem para nada, sobretudo na hora de edição. A mancha turva sobre o que é ou não notícia passou de regra escrita, intrinsecamente estrutural, a regra tácita, comercial: se não vende não é notícia, se não é bonito não é negócio. Atestado de "basura" escreveriam nuestros hermanos, "for a certain journalism", para de um fôlego sabermos que isso será, à primeira, tudo menos notícia. 

Pelo menos tem-me acontecido, regularmente, deparar-me com doutos editores especializados nessa especialidade médica. Acrescento: Medicina para charlatões, de faca e de alguidar, bisturis limpos a pano sujo, para iludir um certo brilho do ferro. Direi: alguns editores que certamente se aprimoraram em cirurgia plástica, e que estando deste lado, eram acérrimos defensores de valores bem opostos àqueles que interiorizaram em nome da sobrevivência e de um glamour que a mim me causa regurgitações e um peso nos nervos. 

Têm eles até verborreia e vocabulário com o papel a que se prestam: o de coadores de uma realidade fantasiada, maquilhada de pozinhos e essas coisas que o Photoshop social muito bem cumpre, como se a carne não tivesse poros por onde respira a vida. 
Recentemente fui acusada de ser demasiado neorrealista, o que significa que, nas entrelinhas, deveria deixar-me dessas coisas e exercitar o lifestyle.  

Depois, que quero, sempre, dar voz aos que não têm voz (na ditadura da estética comercial do Jornalismo). E, ainda mais fresco, um editor, no seu mais primoroso exercício da cirurgia plástica, desabafou:
- Olha, aquela reportagem que mandaste é gira, está muito boa, mas a senhora é muito feia. 
- Não estás a falar a sério? Vais comprometer uma reportagem por essa razão?
- Eu sei, eu sei. As pessoas feias também têm direito...
- O quê? 
- É que há um outro trabalho parecido aqui em Lisboa e a rapariga é muito mais gira...
- Eu vou fingir que tu não me disseste isso e que estás sob o efeito de stress de fecho porque esse argumento é tudo menos jornalismo, a não ser que me tenha enganado no telefone e tenha ligado para o editor de uma revista cor-de-rosa e não de uma newsmagazine...
- Tens razão, tens razão, mas talvez se puser a foto dela mais pequena e aumentar as ilustrações...

Nesta altura já eu estava com um esgar inquieto e os nervos aflorados. Comentei o caso com o meu amigo R. que me contou uma história semelhante: há uns anos, foi incumbido de fazer umas fotos de crianças, Pai Natal, e os pais. No final, os editores disseram que as pessoas que ele tinha escolhido tinham todas um ar de indigentes e, por isso, foram à Getty Images e escolheram uma criancinha loira, modelito, para a capa. 

Não estou a propalar um atestado de incredulidade. Isto acontece diariamente em todas as redacções, na cabeça de todos os editores, com os cifrões a fustigar a lógica, só estou a reforçar que isto está tudo errado e que é grave que nos cargos de chefia esteja gente que pensa assim. E que crise meus caros, isso sim, é de incompetência. E são estes que têm muita culpa que a imprensa esteja com a corda ao pescoço, não só por esta retracção económica, mas porque o jornalismo de qualidade não se verga, e tudo aquilo que andamos para aqui a vender não tem qualidade alguma porque quando consumimos e vendemos produtos fracos, sabemos, a durabilidade tem os dias, a muito curto prazo, contados. E com cirurgiões plásticos a pensar assim, há que convir: os operários deslocalizados e amordaçados somos nós, ovelhas negras de um sistema tão normal, quanto a aliança do Cristiano Ronaldo abrir telejornais. O risco é de contágio. 


Quinta-feira, Dezembro 08, 2011

Primeiras notas, "Os Malaquias"

Tem fogo e ardência de terra. Tem ventre e terra humana no esvaziar de um filho; útero fértil e de águas estragadas. Hão-de jorrar! Tem cheiro a pele e a cadência do lirismo, o estilo da poética, porque é verso transformado em prosa. 

Vide do que falo: 

"Nico ficou um rapaz loiro e sólido, recebeu permissão para as festas noturnas. O desejo pinicava a roupa íntima, penteava o cabelo devagar em dia de festa. Com a pele lisa, vermelha nos pomos do rosto, Nico estava uma macieira. "

Terminei, esta semana, o livro "Os Malaquias" (2010, Língua Geral) de Andrea del Fuego, que o Prémio Saramago distinguiu este ano, num golpe de justiça reveladora da fibra prosaica desta autora. 

A entrevista de 45 minutos que lhe fiz, há um mês, com direito a câmara de programa de internet, por onde víamos uma Andrea de generosas formas maternas (está grávida de seis meses) e de golpe gargalhal em cada frase, não fez jus ao espaço ali paginado em míseras linhas castradas de entrevista que a Notícias Magazine lhe dedicou.  

Hei-de aqui jorrar, à falta de outro veículo lucrativo (que agora nós, jornalistas freelancers, por amor, ou sei lá o que é, e um certo romantismo à camisola, porque apercebo-me ainda apaixonada masoquista por aquilo que faço, embora em crise crónica sobre o abandono - somos vendedores vampíricos de mercadorias) para publicar as belíssimas palavras e reflexões que saíram desta conversa com esta paulistana, agora a estudar Filosofia, ensaiando prosa.

"Os Malaquias", em certa medida, remete-me para a própria infância, passada quinzenalmente em Braga, onde os meus bisavós moravam, entre milharal, cabras, vacas e galinhas e algum vindima, couves e margaridas, olivais e o frio rigoroso do Minho, fumando carnes, e aquecendo o corpo dos netos, filhos e bisnetos, numa fogueira da cozinha, com sopas de cavalo cansado, pão caseiro com chouriço e verde tinto. 

Nesta literatura, uma saga de família, encontros e desencontros, ao acaso da morte dos pais de Júlia, Nico e António, que é anão, por um relâmpago, recordo-me da morte misteriosa dos meus bisavós que se foram no mesmo dia, sem saberem da morte de um e outro, com diferença de 12 horas. 

Há em "Os Malaquias" uma força emocional que me move, que me empurra para a terra. Não fosse esta natural identificação, seria pelas vívidas descrições, pela densidade genuína e tão simples do linguajar interior mineiro, tão português, que a Andrea verte no livro, que sairá apenas entre nós no próximo ano. 

Mas esta é apenas uma primeira nota. Hei-de voltar a ela, porque hoje, sem querer, deparei-me a folhear até a página 100 de novo o livro, como quisesse sentir, novamente, a textura, a viscosidade das palavras tão bem esgalhadas, envoltas em terra literária...

Terça-feira, Dezembro 06, 2011

Das injustiças e isso...

- “É por isso que, às vezes, me apetece fazer asneiras.”

E não disse mais nada. Quando olhámos para trás o homem indignado já não estava, como se deixasse um peso de culpa estúpida num etéreo buraco ali instalado, saindo pela porta dos fundos. A consciência tem destas coisas quando levanta o dedo invisível para a massa viscosa que há-de ser a nossa ignorância e a pressa voraz em julgar os outros. Este é um exercício de controlo e esquecemos de fazê-lo, porque os lugares de conforto estão contaminados de lifestyle, ortoépia bonita e limpinha e um certo sistema de controlo para a perfeita e eficaz lavagem cerebral. 

Às vezes, é propaganda tão silenciosa que nos convence que a espinha continua hirta. Espíritos mais avançados na douta inteligência são espontâneos na cautela. Eu ainda ando aqui a aprender a ser um pouco melhor. E, de alguma forma, aquele homem de camisola esfiapada, e barba de dias perdidos nos dedos insuficientes para os contar, com um azedume nas palavras que davam ao raciocínio uma clarividência e uma competente lucidez - em concomitância com uma certeza do fardo da injustiça leviana- era um ser superior.

Queixava-se da mulher da frente que o olhara de soslaio, à entrada. Queixava-se do homem do meio que o olhara com reprovação, ao passar. E, numa voz desmaiada, sentiu necessidade de esclarecer que ali estava de pleno direito, como qualquer um de nós, “bem-vestidos”, porque tinha o bilhete andante carregado. E pôs-se a desfiar nacos da história que faz o pão-nosso-de-todos-os-seus-dias. Esse julgamento alheio, desassisado. Recordou que, da última vez, a máquina apitara quando entrara num transporte público e que os “trolhas” que estavam no veículo o olharam ameaçadoramente, dizendo:

Já reparaste que o autocarro está parado por tua causa?”

Como não entendesse tamanha injustiça fez de conta. Até que um deles quase se virou a ele e a mulher do meio, cauta, mas observadora, vociferou favorável à sua virtude moral:

- Não foi ele. Foi um bem vestido que passou.

“O motorista”, relata o bom homem de voz cada vez mais esmaecida, cansada, e triste, mas sem auto-flagelação queixosa (porque a esta altura já todos estamos com uma mão na consciência a autodenominarmo-nos de injustos, revendo-nos na emoção daquele que fala) “ficou satisfeito e voltou a sentar-se, arrancando com o autocarro.”
O homem bem-vestido, remata, perdeu-se na multidão e viajou sem bilhete. O que o homem de barba de dias disse a seguir vocês já sabem: vide introdução.   

Guerra e Paz

Tenho encontrado a MJ na casa-de-banho. Deve ser o lugar de todas as purgas, a catárse colectiva pelo esvaziamento das mais básicas e essenciais funções fisiológicas. 
A primeira vez foi há duas semanas, quando a biblioteca dava a última badalada que encerraria portas. Ela (re)conheceu-me. Eu não. 

-"Vanessa Rodrigues?"

Foi um bocado assustador, confesso, porque aquela voz e aquele rosto (de uma bela senhora de olhos azuis-generosos, para que conste) não dobraram os sinos da memória. Não podia dar uma de "Grande Edgar", cf. "Comédias da Vida Privada", do brasileiro Luís Fernando Veríssimo, porque aquele apelativo com nome próprio e sobrenome era demasiado familiar. Eu tinha de conhecer a mulher que saía da casa-de-banho e proferia a onomástica certeira para a pessoa que se apresentava em frente-a-frente, com um esgar boquiaberto. 

-"Porto 2001, não se lembra? Você não mudou nada".

Em rigor ela também não, e não me recordo de ter privado assim tanto com esta delicada lady à minha frente, para que ela se recorde de vívida memória de uma miúda tão estatística quantos os outros voluntários da Porto 2001. 

Um ligeiro tinir no ferro da lembrança e, sim, claro, aquele rosto não me era de todo estranho mas tive de indagar o nome. 
Depois disso, várias outras vezes esbarrei com MJ e sempre no WC. Ainda não combinámos um chá, como se soubéssemos que haveremos de nos encontrar, certamente. 
Hoje contava-me que quase morreu num curto-circuito de casa e que está com uma terrível alergia provocada pelo cheiro dos fios eléctricos, estorricados. Teve uma inundação em casa para juntar elementos dramáticos à quase tragédia. E água e electricidade, sabemos, apesar de a última resultar da primeira, são casais incompatíveis à nascença, ao toque humano. Uma espécie de Midas fatal à corrente voltaica em disfunção liquefeita. Ao sair, disse:

- Vou reler o Guerra e Paz [de Leon Tolstoi]. Aos tempos que nós vivemos é importante para encontrarmos algumas respostas.
E foi-se, como se pontuasse o final de um silogismo filosófico. Ainda pensei se não seria uma análise da Escatologia dos Tempos Modernos. Mas, em rigor, o tempo de hoje, nada tem realmente de novo, porque as necessidades mais elementares do homem fazem dele um bicho previsível. Estamos sempre em guerra, em busca de uma paz provisória.