Insónia como lenha quente a roçar o corpo no deserto; Desgaste como cubo de-gelo-antárctico; Falta de lucidez: maior que qualquer lente desfocada; e, depois de tantas páginas escritas, rasgadas, em branco, rabiscadas, até coladas, o livro lacra-se e não consigo queimá-lo...
Quarta-feira, Setembro 23, 2009
Quinta-feira, Setembro 17, 2009
amor fóssil
Há destroços no ar que ainda não sedimentaram. Parecem cinza que renasce como Fénix para voltar a sê-lo, mas sabem que nunca ao útero voltarão. O que se pare é só uma vez genuína e irrepetivelmente. São restos de desafectos que um dia foram antónimos certos de que nunca deixariam de sê-lo.
Há papéis rasgados. Há vidros estilhaçados. Cacos colados, imperfeitos, esburacados. O pó que de lá saiu era tudo, o suficiente, para que agora se fragilizem. São fósseis tão recentes que parecem antigos, e ainda assim como se tivessem sido amassados por mãos de artesãos sábios que sabem, sempre, que a matéria prima moldada é o melhor do que o adorno para que servem depois no vazio dos nossos olhares em devaneio e que, por isso, se esquecem do que criam, para se empenhar como mãe que sente a água a dilatar, o ventre a romper, à espera que o filho chore a primeira emancipação e a primeira reivindicação por oxigénio. É que depois, passamos a vida a querer oxigénio nas coisas mais simples e sufocamos porque nos esquecemos de respirar…
Há papéis rasgados. Há vidros estilhaçados. Cacos colados, imperfeitos, esburacados. O pó que de lá saiu era tudo, o suficiente, para que agora se fragilizem. São fósseis tão recentes que parecem antigos, e ainda assim como se tivessem sido amassados por mãos de artesãos sábios que sabem, sempre, que a matéria prima moldada é o melhor do que o adorno para que servem depois no vazio dos nossos olhares em devaneio e que, por isso, se esquecem do que criam, para se empenhar como mãe que sente a água a dilatar, o ventre a romper, à espera que o filho chore a primeira emancipação e a primeira reivindicação por oxigénio. É que depois, passamos a vida a querer oxigénio nas coisas mais simples e sufocamos porque nos esquecemos de respirar…
Quinta-feira, Agosto 20, 2009
SinaisdaGente

A Crónica Luna Samba vai ser um pouco mais "Sinais da Gente", numa travessia pela Amazónia brasileira, nos próximos quatro meses. Por isso este blog vai hibernar um pouco e migrar, de certa forma, para aqui:
Sinais da Gente (www.sinaisdagente.com)
e aqui: www.twitter.com/sinaisdagente
Acompanha-me nesta viagem...
Terça-feira, Agosto 11, 2009
episódios...
Episódio número um: isto não é uma história. Episódio número dois: as histórias só existem se as vivermos. Episódio número três: as histórias não o são de cada vez que as esquecemos de viver. Episódio número quatro: não viver uma história é rasgo de segundos, lentos, em "loopings" de eternidade,"flashbacks" e "rewinds" que poderíamos evitar se não tivéssemos tido medo de sentir. Episódio número cinco: há histórias que nunca se cumprem e que nunca chegarão a sê-lo quando vividas a um. E o um, sabemos, não é uma história.
O das caminhadas sem destino. O dos assentos vazios à espera do inesperado. Há silêncios absolutamente lentos, como o do rio de águas mansas, que escorre luas-laranja, antes que alguém mande avisar que a casa abandonada era a nossa. Poderia; é? Pode, desde que tenha janelas sem portadas para respirar...com cadências de silêncio. Muitos, segredados com suspiros que acontecem pela noção de perda, desafectos, alucinadamente em vertigem, que ela rasgou do ventre para que não sentisse dor. E por que razão as persianas estão corridas? Não deixam ver a figueira que dá figos com pingas de néctar a começar, branco, pegajoso, ainda agarrado à vida, como se soubesse que um dia escorrerá na boca de alguém, goela abaixo, como o vinho que o avô mandava pisar, e que tanta comichão nos deixava nas pernas, cor-bordô-pisado, deixando o mosto nervoso de tantas pisadelas inexperientes, e depois só saíam das pernas com sabão esfregado como se esfregam as panelas da cozinha com fogo a lenha, lento para defumar os chouriços que há pouco se encheram; e aquela fumaça que me deixou a respirar como se tivesse gatos dentro do peito, salvava-se o pão no forno com chouriço a fumegar, a malga de vinho verde tinto com cebola de fazer chorar, ácida, depurativa e o chiado dos ouvidos do tio Zé - que aquele aparelho era luxo na região; e como cheirava a orvalho no Invernos das nossas madrugadas, do cobertor quente que nos aquecia o corpo, o cheiro a madeira velha, defumada que viajava nas entranhas para se restar na infância; e os calendários com santos que a bisavó insistia em pregar na parede ano-a-ano, as vinhas da janela com geada a descansar no topo, e a inocência das tardes lentas, do tempo escorrido a sol, sombras e anoiteceres que achamos injustos depois de um dia que nos roubavam, só confortados pelas malgas da sopa de couve e feijão que a avó servia, horas depois de as colher. É, há silêncios absolutamente lentos, e os do envelhecer, gota-a-gota como o orvalho de cada ano daqueles Invernos das nossas tardes, são serenos e mais vadios, e só os percebemos como ausências de nós, quando o olhar se dá conta que o tempo mudou a respiração do outro. Esse, o dos nosso afectos...
Sábado, Julho 18, 2009
A Cafetina

- Só tem cafajeste na zona. Aqui é gente de respeito. Minhas meninas são gente fina! Cuido disto há 40 anos e nunca vi nada assim. Sai da frente. Pega ele Zezão. Isso, soca bem nesse sem vergonha e faz ele pagar para mim. Meu dízimo ele tá devendo, e ninguém sai daqui até ele pagar, nem que seja com a vida.
Eloquente, vozinha metálica, grossa, quase-rouca, sem tons de amargura, pescoço enrugado e mão pesada, ninguém passa a perna em dona Zica. Puta que se preze trabalha com dona Zica na região. Sua saia preta impecavelmente engomada, blusa decote em V por onde se escondem mil estrias e rugas marcadas que lhe encorrilham o peito farto. Nunca levou homem para o quarto (a não ser aquele há 40 anos). Isso é com as meninas, com quem ela grita, insulta, maltrata - mas isso ela pode, é patroa. Só tem uma que é a predileta: Maria chegou à casa há cinco anos. É a protegida. Rosto angelical, peitos naturalmente musa grega, fina, doce ("Só não pode abrir a boca, de onde só saem barbaridades", diz Zica): a mais disputada pela clientela. Por isso, a mais cara. Puta por opção.
- Aqui não há vítimas. Ou se aceita, ou vai ter de engolir essa.
Amarga-lhe ainda mais a voz se cliente não paga serviço.Parece bala perfurando madeira.
- Usou, vai ter que pagar. Nem que seja um papai-mamãe rapidinho, ou apenas para jogar conversa fora. Tem que pagar. E se ele veio para espionar minhas putas e levar para outra casa, assinou a sentença de morte.
Dona Zica tem o batalhão Zezão para limpar a área. O distinto senhor Bielman queria fugir pela janela. Rondava as cidades nesse esquema. Chapéu gentleman-I-am. Calça de vinco cinzenta, cheiro naftalina armário-nunca-lhes-dou-uso-a-não-ser-para-ir-à-zona. Mas dona Zica estava avisada e deixou o filme rolar na tela, até que ficasse preso e virasse “hardcore”-sessão-proibida-da-meia-noite. Ela o topou na entrada. Ele subiu pelo elevador até o décimo andar. Desceu as escadas, andar por andar para escolher a garota. Nada de mexer com elas até levá-las para o quarto. Nisso dona Zica era a patroa exemplar. Dava as dicas necessárias: nunca beijar na boca – "Isso é romance e aqui não tem romance"; tomar sempre banho depois (uma torneira de água fria em cada andar, chão levantado, sem azulejo, cimento negligente na parede dizendo “aqui-é-pré-fabricado”, e uma janelinha insalubre por onde entra o único ar do andar); usar sempre camisinha; actuar como se o gozo fosse o processo final; não se apaixonar por cliente; nunca aceitar presente; nunca contar nada sobre a vida privada; nunca sair da zona para morar com cliente; nunca ter cafetão; e nunca confiar na cafetina.
Quebrando as regras, ou suspeita de corromper o código da casa, as represálias poderiam ser duras. Duras penas. Talvez a mesma que acabou carcomendo gentleman Bielman. Ele ainda suspirou, suplicou, imprecou aos deuses um a um, apelou aos carrascos, interpôs recursos afetivos. Não tem como pagar. O sangue escorre pela boca. Está branco e suplicando para parar. Dona Zica detesta homem mole. Quando ouve homem suplicar, o jeito é dar o que ele precisa.
-Pára aí Zezão. Já chega de teatro. Minha casa não é palco gratuito de nada. Que show é esse, gente? Só de sexo e esse tem de pagar. Pára Zezão, já disse. Me dá aí o tal negócio. Esse pilantra não vai mais pisar aqui ou meter o pau em mais nenhum lugar. Quer ver só?
Quando aqueles gemidos urram, todo o bairro sabe o que acontece. Ambulância chegou minutos depois. Bielman não era mais homem.
- Vamos voltar ao trabalho. Com minhas meninas ninguém zoa. Aqui não é nenhuma ONG ou Santa casa da Misericórdia. Pode ir Zezão. Hoje te libero. Tão cedo não aparece mais ninguém para deixar de ser homem em casa de puta.
Etiquetas: ficções e foto por vnrodrigues, Julho 2009

