quarta-feira, dezembro 26, 2012

Queda para a serendipidade

"as coisas estão no mundo só que eu preciso aprender"

"vivemos, estamos vivendo, lutando para justificar nossas vidas" 

(Paulinho da Viola) 




Há tardes absolutamente mágicas. Há dias em que o acaso se ri para nós, na esquina de uma rua todos os dias calcorreada, e nós, mais disponíveis para amar o amor do presente, acendemos "a vela no breu". No breu da nossa fugacidade. No breu da imprevisibilidade, com atenção devida, pois, estamos mais disponíveis para sermos levados, sem agenda, sem horários, sem compromissos, apenas um pacto provisório com o nada. Estamos a viver um pedaço de vida como ela for. 

Pus a Pentax K-1000 na bolsa, o velvia ainda lá está a carecer de 10 cliques para virar revelação e positivo, e levei a vida para a tarde. Mas quis ela, porque já tinha outros planos para mim, que voltasse ao lugar de um pequeno crime sem maldade e não terminasse os dez frames finais. Isso porque, apercebo-me, tenho queda para a serendipidade.

Ando a investigar os prédios antigos da cidade com propósitos, claro, fotográficos. Se perguntarem digo a verdade, que adoro a doçura e a meiguice de prédios antigos, que gosto de espreitar fechaduras improvisadas à procura de histórias. Que sou uma miúda curiosamente metida que se encanta com placas antigas de telefones ainda do tempo de ingleses, com portas de vidro com nome de detetives privados, com campaínhas de ferro e maçanetas velhas. E isto com a idade fica cada vez pior. Sem nostalgias. Mas a atualidade noticiosa e a frugalidade das conversas superficiais interessam-me cada vez menos e estou empenhada em viver dias felizes todos os dias, com calma e horas que valham a pena. Um imenso agora, porque é o que realmente importa, na justa selecção do tempo.

Voltei ao local do delito porque a primeira vez que fui lá parar a porta estava fechada. Desta vez a porta estava entreaberta e o Nuno Moreira, senhor dos seus competentes 56 anos, talvez, um artesão do vinyl -porque os lava, limpa, estima, preserva e torna capas velhas em novas - me recebe como quem estava à minha espera. Nunca nos víramos. Passamos a tarde a falar e a ouvir música de intervenção (Adriano, José Mário Branco, Fausto, Manuel Freire, e outros como o Gabinete de Acção cultural), Carlos Paredes ao vivo em Frankfurt, James Brown, bossa nova (João Gilberto, sobretudo) e Carmen Miranda. Ah, quase me esquecia: e os Beatles portugueses. Os sheikes. Alguém se lembra?

As paredes e a memória dele contaram histórias. Embeveci. E, depois, ele fez questão de me mostrar os cantos à casa. Ou melhor dos corredores daquele andar, porque são casas onde as vidas se passam num corredor que atravessa a casa. Do lado de dentro casas residenciais. Do lado da rua, escritórios. Naquele piso, particularmente, encontros ecuménicos: a sala de vinis novos, a sala de vinis velhos, um tarólogo, uma vendedora de produtos de cosmética natural, uma sala de reuniões espíritas e a sala da associação de detetives privados vazia, por alugar. Há ainda uma cantora lírica reformada que fez carreira na América Latina. O prédio, um organismo vivo. 

Na contabilidade da despedida trouxe "O melhor de João Gilberto", "James Brown" e o Paulinho da Viola, "Memórias Cantando". Lá deixei reservados a Carmen Miranda, o Carlos Paredes e a coletânea de música de intervenção. A vida, dizia Nelson Rodrigues, como ela é. Talvez esta seja uma forma de amor universal.



 

domingo, dezembro 16, 2012

conversa fiada [tesouros de fim de semana]

"Foutaises" (1989), ou Conversa Fiada, a curta-metragem de Jean-Pierre Jeunet 


 

sexta-feira, dezembro 07, 2012

contágio sensorial

É esta cidade quieta, que se deita quando se arrumam os chinelos debaixo da cama. Ouço-te. Apago a luz. Ainda sussurras. E chegas à cama enquanto durmo, mas acordas-me com beijos, porque dizes que é mais forte do que tu. Venho a mundo, estou na fronteira do país dos sonhos, consciência fugaz. Espera, é apenas aquele embalo na voz. Os lençóis estão já encorrilhados. Rolaste à minha espera. As mãos tatearam gulosas as reentrâncias suaves do que podem ser torvelinhos da costura. Saberão as máquinas que fazem tapetes de nuvens onde se deitarão os corpos para amar? Também se agarram sem desejo, a paz da ternura, o beijo que a pele dá sem se beijar, sem a boca, claro, um diáfano sopro da derme, contágio sensorial. 

quinta-feira, dezembro 06, 2012

a estranheza de um corpo

O homem que fala não sabe o que aqui anda a fazer. A rapariga que fala diz que são coisas de "vudus" e assim, pergunta se a outra sabe o que é. Não imagino sequer de que combinam. Arrepio-me. O rapaz que fala ri-se muito e não tem tento na língua. Há bocado, um bando de depravados galou desavergonhadamente a rapariga de saia curta. Ela roía as unhas, roxas, uns tamancos respeitáveis. Uns senhores tamancos. 
-Levava-te para casa e lambia-te essa c... toda.
- Eu faria de ti um corno manso, ripostou. 

E ainda se diz que o direito de resposta anda moribundo.

Fala muita gente ao mesmo tempo e há conversas que se perdem. É ruído branco. A mulher ao meu lado fala muito ao telemóvel. O rapaz da frente baixa os olhos e posso dizer que já nasceu cabisbaixo, que há-de ficar corcunda cedo na vida. O cabo-verdiano que fala em crioulo, repete muitas vezes a mesma ideia, por outras palavras, para que a tia entenda: recebe o salário na segunda-feira, fará a transferência na terça-feira e ela terá o dinheiro na quinta. Repete: segunda-feira é dia de pagamento, o dinheiro por ser de banco diferente só cai na conta dela dois dias depois. Como recebe à noite, só terça-feira de manhã consegue ir ao banco. A tia não acredita, desconfia. Ele volta a explicar, irritado que ela duvide da palavra dele. 

Evapora-se a conversa em ruído branco. Evoco o direito à desatenção, não quero ouvir. 

Aos meus pés, uma garrafa de água de 1,5 l, meia cheia, meia vazia, bamboleia. É um corpo estranho. A mulher que se senta ao meu lado assusta-se com a garrafa. Encosta-se quase a mim. É outro corpo, demasiado, estranho. As paragens passam; na verdade ficam. Eu sou paisagem. 

Se me perguntarem quanto tempo demoro ao destino, direi: o tempo de cinco paragens...centenas de corpos estranhos, vozes dissonantes, e muito ruído branco. Há medidas de tempo que são a estranheza de um corpo, ou a ininterrupção de um pensamento. Perdi a paragem!

quarta-feira, dezembro 05, 2012

tinta permanente...

...será aquela que já escreveu as páginas do meu 2012. Será cedo para um balanço deste ano, mas súbita vontade de dedilhar o teclado como quem toca piano apoderou-se desta jovem miúda que, no próximo mês, já conta mais um número para os "intas" e continua a pensar que, afinal, não saiu dos 28, porque a vida nos mostra que há tanta frescura, onde, às vezes, vemos nublado.

A contas com o ano: vivi. 

Vivi muito e bem e do peso que se fez leveza e da amargura que se fez Primavera, do abalo que se fez cascata em descida de tobogan. Vivi, juro que vivi, tanto e bem. Que um ano será pouco para o tanto que tive o privilégio de viver, sentir, crescer e encontrar alguma paz interior, de sorrir por nada, de enfim, perceber que o que importa é viver, que os problemas como vêm, vão e, no fundo, só precisamos de viver e tornar o dia a melhor coisa que pudermos, rodear-nos das pessoas que nos querem bem e felizes, que nos inspiram, que nos fazem bem e apoiam, nos dizem palavras doces e um colo que nos embala, certos de que tudo passa e que, de fato, foi um pretexto para termos esse aconchego como se mais nada no mundo existisse. 

Se tudo finasse naquele momento, ainda que com dores no pensamento, que nos impõe ao corpo, tudo finaria bem porque estava docemente embalada, protegida, cuidada. E este ano cuidei muito e fui cuidada. 

Comecei, verdadeiramente, a viver 2012, em Abril, depois de um acidente de carro, onde tive a certeza de que tudo terminaria. Tive a certeza de que, ainda assim, tudo estava certo, de que não mudaria nada na minha vida. Estou grata por tudo. Que estava vivendo exatamente aquilo que devia viver. Escrevi uma carta a mim mesma para abrir dali a um ano. Estive em Marraquexe, em Toulouse, na fenda de uma pedra no Gerês, onde reaprendi a confiar e, se calhar, a amar; estive em Bragança, em Odeceixe, na Afurada, vivi o Porto escondido, vi o pôr-do-sol no Guindalense Futebol clube, contracenei numa curta-metragem, fiz praia até o sol se esconder, joguei volei, degustei amigos, fiz judo, ayurveda, acarinhei a família, cozinhei para os amigos, abracei e ouvi quem de mim precisou.

Fiz teatro, festas para amigos, editei vídeos, viagem de caravana até à Eslovénia, escrevi sobre o que mais gostei, fiz uma grande reportagem sobre um mundo incrível, andei por aldeias raianas a ouvir histórias de contrabando e salto, li livros maravilhosos, perdi-me em alfarrabistas, dormi agarrada, tive jantares cozinhados só para mim, só porque estava triste, ou só porque sim; fotografei muito e conheci-te.

2012 se foi um ano duro, onde muitas vezes as lágrimas também vieram, foi também um ano leve de começos e recomeços. De aprendizagem muita. De generosidade e paciência para não deixar que os problemas me enruguem demasiado e com peso a minha energia, o meu carinho, a minha leveza em acreditar que vale a pena ser leve e partilhar. 2012 foi um ano muito bom.

quarta-feira, novembro 28, 2012

aforismos existenciais



1. as grandes reportagens deviam dar grau direto para doutoramento, que isto é coisa equivalente q.b., dolorosa, cruzar discurso, entrar discurso, cortar discurso, colar discurso, ouvir como se lê, não querer falar, e um emaranhado de dados estatísticos simplificados...

2. Com tanto corta e cose deveria ter sido costureira.

3. a minha grande reportagem também tem costureiras.

4. e linhas presas.

5. é sobre presas

6. weird things happen all the time


quinta-feira, novembro 15, 2012

teoria da poupança, salvo uma excepção


Não sou saudosista, pelo contrário. Acredito no presente como imperativo de um passado e de um futuro. Tento olhar em diante. Sou curiosa pelas novidades, mas tenho uma necessidade de memória, de raízes e persisto na importância da aprendizagem contínua, como um ciclo da natureza. Outros, antes de mim, já viveram as alegrias, as angústias, os amores, desamores, paixões pelas coisas e pelo conhecimento, avidez de imortalidade e sabedoria, a eternidade de um beijo, o prolongamento de bom momento, enfim, que o tempo não tenha tempo.

Em rigor, as vivências humanas, qualquer que seja o contexto, com maior ou menor grau de sofrimento, compaixão, sensibilidade, tolerância, sorte e justiça, terão sido quase sempre as mesmas, porque os nossos mecanismos neurobiológicos, mais ou menos desenvolvidos, assentam numa função fisiológica que é sobreviver a todas as intempéries, satisfazendo necessidades básicas.

Os bons livros, que refletem, pensam e, assim, nos ensinam a importância da memória coletiva, ou mesmo a história dos nossos avós, dos pais, dos registos que temos a sorte de um dia desvelar, isso nos sussurram. Não somos mais que uns e outros, podemos, sim, deixar uma marca, e fazer desta nossa missão uma forma de partilharmos caminhos. E ele deve ser feito a sorrir, sem mágoas, opressões. Temos direito a isso.

Impõe-se tamanha reflexão de botequim só por causa de uns lenços de homem que vi, hoje, na vitrine de uma casa de meias, a € 1,60. Nesse instante, que durou segundos, veio-me todo este exercício mental, levando-me por caminhos onde, de certeza, se deu um hiato temporal, no sentido de uma teoria da poupança até às minhas memórias de infância.

De imediato, lembrei-me que os lenços, e as fraldas, tal como os guardanapos que ainda temos em casa, eram de pano e que eram reutilizados, depois da lavagem. Lembrei-me que só se comprava roupa por necessidade, um par de cuecas, p.e.g, que deixou de cumprir funções de resguardar as partes, ou as peúgas, ou um anorak, ou umas calças de ganga, e mesmo essas levavam remendos que era uma maravilha de moda. Outra tendência eram os rissóis que a minha mãe fazia de dois em dois meses para congelar, ou a bola, ou as pizzas e outras coisas caseiras (como os iogurtes) que já não me lembro, como forma de poupar na alimentação. Ou até mesmo os tupperware que serviam para guadar restos (nunca mais esqueci um paté de peixe delicioso que a minha mãe inventou a partir de umas sobras). Fazia-se também muitos bolos de laranja, limão e coco, tartes de maçã. A sopa sempre abundou na casa, e, ainda, dura a semana inteira. Sempre houve muita fruta e groselha para fazer sumo, ou batidos.

Ocorre-me isto, também, na mesma medida, em que os meus avós diziam, a semana passada, que conseguem comer toda a semana, por menos de € 40. E eu fiz as contas: entre sopa, pão, massa, arroz, carne, peixe, ovos, legumes e fruta, mais uns luxos que podem ser queijo e chocolate, sempre a cozinhar em casa, com água, gás e eletricidade e, bem vistas as coisas, há que dar razão à poupança.

Depois, dizia-lhes eu, deixamos de reparar as coisas. O ferro estraga-se, compra-se outro. A Varinha mágica deixa de fazer magia e encostamos para canto para enferrujar até que temos de comprar outra. Qualquer que fosse o eletrodoméstico, arranja-se conserto. Temos vícios, temos luxos e estamos mal habituados, é um fato. Pagamos mais impostos, estamos a perder direitos sociais, temos, na verdade, menos qualidade de vida e mais preocupações auto-infligidas. Serão, pois, esses mais fatos. E , como tal, acredito na poupança assim, não como forma de sobrevivência, mas como exercício elementar de um equilíbrio de vida lógico, saudável e humano. A única coisa em que não poupo, pois, é no Amor. E isso também se lê nos livros: é linguagem universal, passado, presente, futuro, isento de taxas, políticas, ideologias e idade, aprendizagem contínua, ciclo da natureza.

mensagem da hilda

"o único homem que me faz escrever e criar é aquele com quem não me apetece ter sexo, pode van?"

terça-feira, novembro 06, 2012

aos 89


O Sá Carneiro morreu a 4 de Dezembro e a minha avó voltou de França a 16. Nem vou confirmar a data inicial porque confio na memória dos 89 anos de sabedoria que a põem a comer pão com queijo brie, depois de almoço, como se não houvesse amanhã. Não sabemos, talvez não haja. Hoje importa porque estamos cá. E depois atira com o naco de bairrada que lhes levei (porque o meu avô está atento ao pão e à conversa) para o lado, num zás manual, porque lhe digo que está a abusar. Ri-se da minha repreensão. 
- Então, é para não comer mais!

Segundos depois está a comer as paciências para acompanhar o café. Afinal, não é pão. São paciências. Sabe rir-se e diz que ama a vida. Por isso gostaria de viver para sempre. Mesmo com a dor na perna, mesmo ouvindo mal, por causa de uma constipação que lhe pôs os ouvidos a sangrar, um mês antes de Sá Carneiro morrer, quando ainda estava em Paris, quando ainda tinha de atravessar o Parque Monceaux de mão no terço, dentro da bata, para afugentar o medo que alguém lhe fizesse mal às cinco da manhã. Imagino o frio gelado de Inverno a gretar-lhe o nariz grosso e grande, hoje adornado de rugas marcadas, que se riem muito com ela, quando se ri. O meu avô diz que a história deles dava um romance. Todas são, diz-lhe a minha tia. E ele sai para ir espiar a galinha pôr o ovo e tirá-lo antes que ela o coma. Missão cumprida. A avó chama agora a galinha fraquinha que anda no quintal. Coitada, é franzina, quase sem penas. Começa a piar, ela, para a galinha, a testa enruga-se, o nariz enruga-se. A galinha enrugada e franzina vem a correr, como respondendo ao chamado. A avó atira-lhe com a casca do brie. A minha avó voltou de França ainda não era eu nascida. Espero aos 89 anos estar a chamar galinhas de testa enrugada a amar a vida assim e a abusar do pão com brie.

domingo, outubro 28, 2012

aduelas


bilan, o músico

Companheiro de viagem, habitante de um país inventado chamado spera mundi, um músico talentoso. Para conhecerem o trabalho dele podem ir diretamente ao my space e, ainda, "descarregar", gratuitamente, um trabalho que ele fez, ao vivo, com Madou Sidiki, "Sur Le Niger".

quarta-feira, outubro 24, 2012

Receita anti-crise para elevar o nível de otimismo

Entre a minha amada Piauí de Outubro, fresca, carnuda, cheirosa, que sempre me oxigena as ideias e a prosa- e trazida pelo casal maravilha, que por acaso são duas pessoas também amadas, a Tânia e o Alfredo-, "A Grande Arte" do Rubem Fonseca, que num irracional ato de quem sucumbe ao materialismo da literatura, mas continua sem euros que se aproveite na conta bancária, entrou-me pela mala dentro; "O Livro Amarelo do Terminal Rodoviário", de Vanessa Bárbara (Cosac Naify, 2008), prémio Jabuti de livro-reportagem no mesmo ano; os "Sinais" do Fernando Alves, na TSF, e os vídeos do Philip Bloom e do NewsShooter, posso dizer que tenho encontrado a fórmula anti-crise, para enganar as rugas do pessimismo, dando um "up", claro, na minha percentagem diária de otimismo. E, quem sabe, manter um certo garante mensal, com ideias, também elas, novas, frescas, oxigenadas, carnudas, cheirosas.

Bem sei que é uma combinação bastante egoísta, personalizada, egocêntrica, narcísica, enfim, massagem intelectual, autista, mesmo, mas ao menos consigo, com estes entorpecentes ao modo Laranja Mecânica, entreter-me, como quem, na realidade, prepara, a partir desta arte da guerra, com cultura, o modo de derrubar governos para lá de incompetentes. Sei que me engano a mim própria, mas na impossibilidade de mudar o curso das coisas, posso, nesta mágica quase quântica, sentir-me mais forte, útil, e fortalecida, para os tempos ainda mais difíceis que aí vêm. E, quando voltar a emigrar, assim espero, terei, certamente, investido o tempo pessoal, como deve ser, para fazer do meu mundo ao redor, inventar um país, quem sabe, um lugar ainda mais habitável. 

quinta-feira, outubro 11, 2012

Brigada de resistência

 
É preciso voltar às brigadas de resistência, meus amigos. Poderão tentar humilhar-nos, usurpar-nos direitos e liberdades, colocar-nos mordaças, rasgarem-nos os bolsos e encostarem-nos à parede com assédios morais e tortura psicológica. Mas nunca nos tirarão a dignidade, a lucidez, a espinha hirta, a generosidade, a independência e a autonomia. Continuamos a criar, a sonhar, a defender a natureza de nós. A democracia foi sequestrada, saqueada, enforcam-na, os ditadores andam a monte. E o Jornalismo meus caros, só não está morto porque há resistência, somos marginais, mas não vendemos a alma à mediocridade, ao Jornalismo de coisas giras. Um jornal alegadamente de referência, a atirar à queda de grandes nomes da democracia, está a sepultar a própria cova. Começou, pois, oficialmente, a lavagem cerebral. Cuidado redobrado com os editoriais do pasquim. Temo que seja propaganda ruidosa. E, no meio disto, estou triste. Um grande amigo e com quem muito aprendi neste ofício de escrevedores de atualidade, o Jorge Marmelo, está na operação de limpeza do jornal PÚBLICO. Estou triste, muito triste. Ninguém merece esta tortura. Ele não merecia e muito aguentou. Desejo que seja o início de um ciclo bem melhor. É um grande jornalista. É um grande escritor.

preliminares da terra fria

Ficar sem rede e internet, durante 3 dias, no meio de aldeias que respiram medievais ares de comunitarismo e nos convidam a entrar em casa para um Folar, uma conversa, um vinho, castanhas e pão é dos maiores tesouros. A terra fria é uma casa. A terra fria é feita de filhos raianos, terra de gente bo.




domingo, setembro 30, 2012



por vanessa rodrigues

A música tem arames que se arranham. 
Murmúrios e geremias. 
São guitarras, são harpas, são rufares ao longe, são címbalos, 
guitarras acústicas onde deslizam dedos cansados, assobios, 
ligeiras mágoas musicadas, esperanças, 
risos, mudos pensamentos parados, 
enganos, 
manipulações dedilhadas com a retórica, 
a promessa de suspicazes vontades, 
gracejos que só os suspiros sabem fazer, 
madeiras que roçam, 
corpos a estrebuchar, miméticos, 
chaplinianos como no cinema, mudos, de olhares impositivos, 
opressivos, 
agora essas mesmas guitarras, 
como máquinas, como chaminés monótonas de comunistas vontades, 

são número; 

vamos vestir-lhes de ideologias, 
despir o cérebro, 
entorpecer de ruídos brancos, 
o pau na cabeça, 
as roupas que se vestem-despem-vestem-despem; 
estridentes guitarras, estridentes, metálicas, 
acutilantes, 
reverberadas em ruidosas irritações auditivas, 
parem que sufoca, parem que atrofia, parem que incomoda, 
parem, façam silêncio, mudas vontandes, inertes ideologias, 
parem que sufocam, 
parem, que se desmorona cá dentro, 
parem que temos frio, 
cessem as guitarras, 
estrídulas vozes, 
as violentas acústicas que nos ensurdecem, 
parem de silenciosas propagandas, 
parem, 
deixem que o sangue escorra,

taciturnos, 

usem o silenciador, 
a caçadeira de cano cerrado, o jogo cerebral, tiro ao alvo, 
a mentira-a-verdade-a-mentira, 
dissimulem, schhh, 
escondam, escondam o embuste, 
dobrem os caracteres, 
batam palmas, psicadélicos, 
dancem até cair, tombem, deixem tombar, 
e quando mais nada restar, escondam de novo, 
enterrem, abram a cova de terra e cubram de flores, 
que outros corpos hão-de nascer, 
novos livros se hão-de escrever, 

novos e os mesmos erros havemos de cometer.

oops, só para dizer que te amo, mundo!


sábado, setembro 29, 2012

Viagens, páginas e recomeços

foto: vanessa rodrigues para o projeto speramundi

Uma pessoa regressa de viagem, depois de uma espécie de tournée, digressão europeia com lusofonia na bagagem, para inventar um país, uma língua e repensar o potencial universalita de Portugal, e depara-se com uma pilha de livros em cima da cama. Na verdade, três caixas grossas maciças, com etiqueta a indicar o meu nome. Não, não há engano, é mesmo para mim. Babo que nem cachorro vendo salsicha fresca, tuaregue vendo oásis no deserto, criança olhando chupa-chupa, sambista gabando caixa de fósforo... É isto: 10 livros novos enviados por editoras, uma encomenda há tanto esperada e uma espécie de troca do Brasil. Meus olhos brilham de emoção, é claro, sobretudo, vendo as maravilhas dos livros do Brasil, enviados por meu amigo Daniel Benevides, da editora brasileira Cosac Naify, e crítico literário do jornal Estado de São Paulo. Meus olhos brilham porque ganha fôlego assim uma troca maior e Atlântica: eu escolho os livros e escrevo sobre eles. Ele publica no blogue da Cosac Naify. Só para meter inveja aos amantes de literatura da grossa: um dos livros que escolhi foi a obra "Crônicas Inéditas" vol. I de Manuel Bandeira. Confesso que ainda estou babando porque isto me dá um certo regozijo, porque sou apaixonada por literatura, porque ler boa prosa é TDB e me faz amar recomeçar os dias.  A literatura tem este efeito em mim e não tem cura.

sexta-feira, setembro 14, 2012

Um país inventado estrada fora

Por 13 dias andarei a inventar um país.

por vanessa rodrigues*

Não é preciso muito para inventar um país. Chegam 5 caravanas, uma roulotte, um jipe, uma viatura com carga, duas mascotes caninas, 29 pessoas, algumas ervas daninhas, biscoitos em formato de bunda, uma viola, umas quantas panelas e cinco nacionalidades. Depois mistura-se tudo e manda-se estrada fora. Cerca de 5000 quilómetros já chega para conspirar um país. E o pequeno nasceu às 9 da manhã de ontem, quinta-feira, 13, depois de zarpar de Guimarães, a capital europeia da cultura deste ano, a caminho de Maribor, Eslovénia, irmã gémea nestes adornos, deixando o castelo e o berço da nação portuguesa verdes de inveja. 

segunda-feira, agosto 20, 2012

duas cidades e uma mala [#prosas bárbaras]


A primeira vez que estive com o Tom Zé ele abriu-me a porta de casa, tocou violão e serviu-me café. A segunda vez gritou "puta-que-pariu" porque alguém se enganou mais que uma vez num acorde qualquer, enquanto se gravava um DVD no estúdio da Biscoito Fino, em São Paulo. A terceira vez já não me lembro muito bem, mas deve ter sido por telefone e eu já era a amiga portuguesa, a amiga das raízes da Língua dele. A língua que ele andava a comer. Por isso não me admira que o mês passado ele tenha sido capa da revista brasileira Bravo, quase nu e rodeado de bananas. É mais que um provocador, é Macunaíma inteligente, é figura que Mário de Andrade gostaria de ter como personagem principal num livro sobre Tropicalismo. De entre as várias lições que Tom Zé me deu, nessa tarde, com infinitas horas e bem-te-vis na janela de casa, uma delas foi a lição da mala. Sim, a lição da mala. Eu nunca me tinha apercebido, mas adoro malas antigas. Não pelo que elas possam conter, mas pelas histórias que elas possam contar. Porém, a história da mala do Tom Zé é mais do que viagem e memória. É, poderia dizer, uma história de amor. O compositor diz que aprendeu a ser com o homem da mala. O mimo que no meio de uma praça coloca a mala e quer seja palhaço, ator, performer, consegue envolver todos os que o rodeiam, passam, anónimos, desconhecidos. Toda a timidez será perdoada se aquele homem que se despe, que está nu perante os outros, conseguir cativar um sorriso, mais importante: a atenção. "É uma coisa assustadora", disse contundente e loquaz Tom Zé. Essa imagem, enaltecida por ele, marcou-me e, mais do que isso, lembra-me recorrentemente, por que razão uma mala é a minha fronteira entre duas cidades que amo: uma que me ama e remotamente me atira para uma solidão talvez mais próxima de mim; e outra que me rejeita com laços profundos e sentimentais. Falo de São Paulo, do Porto. No meio, confesso, adoraria que houvesse outra cidade intermédia, o desafio de um lugar novo, uma geografia desconhecida, um recomeço, com a mesma mala. Esta, que no fundo, está sempre vazia para ser enchida com a magia da vida, das pessoas que conheço, das descobertas de mim, do pôr-do-sol, de andar por aí. 

O barulho das coisas ao cair [#literatura crónica]



Como se já não bastasse o vício de sublinhar os livros ou, quando não são meus, de me munir de um caderno para tirar notas sobre os livros que leio, criei, recentemente, o hábito obsceno de tecer conclusões escritas depois de os ler, na primeira página em branco. Que me perdoem os autores e os meus herdeiros, mas sou muito mundana com os objectos, uso e abuso, gasto e desgasto, e as extensões de nós carecem de sacralizações de intocabilidade.

Tenho uma relação física com os livros, sabemos: gosto de os cheirar, tocar, mexer, degustar. Esta relação biblofágica (de comer os livros com a colher da metáfora) anda, pois, a deixar-me ansiosa (quanto mais leio, mais quero ler), uma vez que tenho tentado aproveitar como deve de ser a silly season, época em que a imprensa portuguesa exagera nas páginas do jornalismo de coisas giras (hábil arma de propaganda para entorpecer ainda mais um bocado a moribunda democracia); em que desaparecem documentos públicos sobre submarinos e em que quase acreditamos que Dom Sebastião vai aparecer entre o nevoeiro do horizonte do mar, depois de um dia de praia espectacular, que nos vaporiza com um lança-perfume de que está tudo bem, que vamos ser felizes para sempre e amorosos uns com os outros.

É um estado onírico. Talvez por isso seja tempo de pôr aqui a primeira frase citada pelo escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez, no início do livro “O barulho das coisas ao cair” (Alfaguara 2012).

E ardiam desabando os muros do meu sonho, tal como desaba gritando uma cidade” (Aurelio Arturo, Cidade de Sonho).

Há, sim, um denso desabamento emocional do início ao fim deste romance, ao mesmo tempo que se ergue uma muralha dentro de um homem. É a fortaleza do medo, do impacto que o medo inflige sobre Antonio Yammara e sobre a capacidade que um acaso, uma conversa, um olhar, tem de mudar o rumo de vidas.
...eu pensava com uma concentração cada vez maior em Ricardo Laverde, nos dias em que nos conhecemos, na brevidade da nossa relação e na longevidade das suas consequências”. pg. 16

Há nesta obra literária, o medo da sombra, o medo do ruído, o medo do silêncio, o medo das pessoas, da rua; o medo da memória, o medo de viver; o medo do medo e de nunca superar o medo.
Foi o primeiro livro que li de Vásquez, de certa forma guardado no meu inconsciente por duas razões: a primeira porque foi considerado, o ano passado, um dos 25 melhores livros pelo jornal espanhol El País, tendo inclusive ganho o Prémio Alfaguara; e, depois, porque tenho um especial interesse por questões relacionadas com narcotráfico, memória, ditadura e veias abertas da América Latina.

“O barulho das coisas ao cair” é um livro de um ruído imenso, de aviões a cair, de arrependimentos, de balas, enquanto flirta com um silêncio angustiante. O silêncio do cárcere, a mordaça da ditadura, a “inocência” de um negócio que resvala a Colômbia para um espartilho sócio-político e que plasma numa geração marcas graves e profundas de um fracasso. É um fio invisível que doba toda a cultura colombiana.
Foi por conhecer Ricardo Laverde, num tasco onde se jogava bilhar, que Antonio inicia um capítulo da vida que o leva a esse medo e a uma obssessão. Baleado, sobrevive, depois de tiros que vêm governados e incisivos a partir de uma mota. Laverde sucumbe.
Anos mais tarde, uma notícia sobre o Jardim Zoológico do narcotraficante Pablo Escobar leva Antonio ao recôndito baú da memória, para se recordar do tempo em que encetou uma investigação para perceber quem era Laverde. Neste percurso, assenta a geografia desta prosa, ora misturada com linguagem epistolar, ora com diálogos e reflexões de um narrador omnisciente, sem ironias, articulando presente e passado, e azimute a avançar o futuro. É um livro carregado de simbolismo, na estrutura narrativa, que demonstra que foi planeado, sem relações gratuitas; e de palavras alusivas a barulho, ruído, retumbantes impactos nas vidas de uns e outros.

É uma obra bem escrita, em que narrador e autor se perdem. Aliás não chegamos a ter rigorosa certeza do que possa ser ficção ou realidade, já que o que interessa a Vásquez, na linguagem seca pela descrição, é o apuro dos factos, criados na diegese literária, ávido em nos provar a lógica da relação dos acontecimentos, para que, por vezes, no meio de um imenso silêncio – arrastado pela tristeza desta prosa magistral- consigamos ouvir o ruído das coisas a cair. Considero, no entanto, que o livro poderia ganhar mais fôlego na síntese e economia desses supostos factos condutores. Demasiados pormenores não nos fazem perder na história, é certo, mas valorizariam ainda mais o ritmo da prosa.  

Cidade nua [#prosa]


A cidade está inerte, num silêncio a contraluz. Diz-se que o volume do silêncio se mede pela luz que trespassa as pontes, e vem do mar, antes de se pôr, enquanto o burburinho dos turistas, e dos miúdos a atirarem-se da ponte que lhes serve de rampa de mergulhos corajosos, estremece, retumbante, no ar. Empoleiram-se nos ferros, passam as grades, esgravatam com os dedos e as mãos e a adrenalina turva-lhes os sentidos. E as hormonas em explosão lhes impele desejos e egocentrismos para um ritual de passagem. A idade adulta é saltar da ponte. Há-de ter sido isto uma herança. Ou está-lhe nos genes atirar-se do ferro quente para a água esverdeada do Douro. 
Há gaivotas. Há gaivotas o ano inteiro e neste Verão aquietam-se nas margens a ver os putos ensinaram uns e outros a atirarem-se. A cidade está grave, um pouco atribulada, parece uma viúva a querer descansar as mágoas do ano inteiro. Este Porto tem humores e deveria estar feliz. Anda frágil, bem o vejo, entorpecido, acanhado; uma cidade constrangida por trás de um sol altivo e desejado.

O arraial que há em nós (ver minicast)

Um Porto por dia [.#13]


segunda-feira, agosto 13, 2012

A leveza dos abismos de fim do mundo [#prosa]

Parece que voamos sem tirar os pés do chão. Levitamos. Na magia da mente somos Mr. Vertigo a librar sob o horizonte que vemos. Cheira a vento, há nuvens acanhadas, sussurros da espuma tímida que se dilui em areia sábia, remota. Já alguém terá voado? Quantos terão migrado rumo a uma estrada etérea até ao sol infindo? Tens rugas e texturas novas. São as paisagens que nos retiram fôlego. São os lugares que nos encantam, e num pincelar de imposições nos hipnotizam, frente-a-frente, rasgando um pôr-do-sol que nos balança o final do dia. Aquelas rochas, aquelas falésias, aqueles penedos, aquelas falhas de pedras no meio do mar, no meio do Atlântico, mal ele finda na praia, mal ele começa para perder-se numa imensidão marítima que entorpece de paixão marinheiros, mariscadores, amantes que se casam com ele às escondidas. Se perdem, perecem, findam. Não me sentei como gostaria frente a ti. Frui-te frugalmente num registo fotográfico. Agora ouço a paz que ali se ecoava. Agora ouço a magia entorpecente. O hipnotismo possível. Um miradouro que é um abismo. Uma magnânime expressão da natureza. Um fim de mundo, porque é também onde principia. E a natureza tem milhões de princípios. 

terça-feira, julho 31, 2012

Leituras em dia

O mundo de Sarah Kane é conturbado, incómodo, deixa-nos um pouco pesados e complacentes com um universo para onde temos de mergulhar quase numa apneia involuntária, mas há qualquer coisa na acidez e no caos desta escrita que me faz folhear, sem pudor, medo, ou sequer intromissão de pensamentos pungentes ao modo de vida desta escrava literária. Ando, por isso, empenhada nesta Psicose, nas Ruínas, ou destroços do pensamento dela, em ruptura permanente, para entender a citizen Kane, desaparecida tão precocemente de um talento. A primeira vez que ouvir falar dela, foi há dois anos, numa aula de Estética Literária, da professora Joana Matos Frias, quando, em 2010, como ouvinte curiosa, me propus assistir a algumas aulas do Mestrado em Cultura e Interartes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Falávamos, precisamente, de estética, mais concretamente da Filosofia da Estética, e permeávamos algo como o espanto que um tsunami, por exemplo, pode infligir em nós. Um tsunami é um acontecimento e por isso não deixa de ser belo, ainda que catastrófico. Sarah Kane tem esse efeito: de um maremoto, destrutivo e paradoxalmente belo. Hei-de voltar a isto, quando regressar às minhas notas dessas aulas.
Na maioria das livrarias, "Teatro Completo" está esgotado. Mas aqui ainda é possível comprar obras da dramaturga britânica. Graças à Sandra Claro, outra apaixonada pela literatura, ando com a Sarah Kane no colo, num empréstimo rápido, antes que ela fuja de vez para Paris. 

Rubem Fonseca, Padres e Santa Filomena [#prosas bárbaras]




Eu também acho que é um título improvável, como o acaso, a vida, o euromilhões, o jogo-do-bicho, a roleta russa, mas menos o resultado de eleições da câmara municipal do Porto. Vivemos de improbabilidades, mas não medimos as estatísticas, diariamente, porque a vida, parece, é como o mercado capital. Está sempre a oscilar. Altos e baixos. Um electrocardiograma. 

Ainda assim, deveríamos perceber que o nosso universo amostral de possibilidades quotidianas, de mudança, certamente, e de episódios pouco prováveis, é um mais vasto espectro, do que aquele que consideramos. Basta estarmos atentos. E, neste caso, aos sinais. Devem ter sido divinos. Senão, vejamos. Viajava de metro, a caminho de casa, folheando o fim de "Diário de um Fescenino", do escritor brasileiro Rubem Fonseca (edição portuguesa da extinta Campo das Letras), ia mesmo na parte em que Rufus, o escritor, vive o drama de ser acusado de estupro, por isso as palavras obscenas exigem distância de outros passageiros, sob as minhas páginas, enquanto no lado oposto, num espaço de quatro lugares, um rapaz, muito cool, de calções largos, correia de prata com uma cruz cristã pendurado no peito, sandálias pretas, da moda, t-shirt aos quadrados, limpava os seus Ray-Ban, estilo police, com esmero e dedicação. 

No colo, um livro de capa preta, talvez de pele, denso. A tiracolo, uma bolsa pequena, preta, igualmente, tal como o cabelo, raso, quase raspado. Foi a primeira vez que ele me chamou a atenção, mas logo segui de olhos distraídos, nessa observação diletante que os transportes públicos nos imprimem. Continuaria a ignorar o rapaz, não fosse ele sair na mesma paragem que eu, e os fiscais o pararem para averiguação da conformidade do bilhete andante. Eis que saio e ouço um som oco no chão. Apercebo-me de que um dos pins que tenho na carteira se soltou e resolveu mergulhar em apneia do granito. O rapaz, simpaticamente, ergue o pin libertinário, herege, e mo entrega com esmero e dedicação, como se tivesse salvo a vida a alguém. 

Sorri e exclama:
- Ainda há gente honesta. Como é bom haver gente honesta!
A voz sai-lhe estridente e cavernosa, oscilante e um pouco medonha.
- Obrigado pela atenção.
- Vê como é bom haver gente honesta.
E nesta repetida afirmação o rapaz, claro, referia-se a ele, ao gesto dele. Agradeci de novo, mas ele colou em mim.
- Ainda há gente honesta.
- É verdade. Obrigada.
- Espere deixe-me dar-lhe uma coisa. 
Eu só queria voltar para o Rubem Fonseca, nessa escrita que cola. Eu só queria que ele me deixasse em paz, porque aquela voz começava a irritar-me. Tentei esquivar-me.
- Não é preciso, obrigado. Deixe estar. 
Como notasse a minha inquietude, o rapaz, defendeu-se.
- Não é o que está a pensar!
E eu não estava a pensar em nada, a não ser em Rubem e na pressa.
- Não é preciso, mesmo, obrigado.
- Espere, vou dar-lhe uma coisa para a proteger. Para ter sempre gente honesta ao seu redor.
Foi então que percebi que ele era mesmo muito baixo, esguio, e que a cruz do peito era um Cristo prateado.
- Vou-lhe dar Santa Filomena, uma oração, para a proteger. Esteja atenta.
- Não é preciso muito obrigado. 
E nisto comecei a atravessar a linha do metro. Ele ainda teve tempo de me alcançar a mão e colocar o panfleto da santa na mão.
- Obrigado.
Coloquei no meio do livro: uma santa, num livro obsceno.
- É que eu sou padre, sabe. 
E agarrou a bíblia ainda mais forte debaixo do braço. Perguntou-me onde ficava o Padrão da Légua. E, no fundo, eu acho que lhe devia ter dado o meu Rubem Fonseca. Para o proteger, claro. E nada melhor do que o diário de um fescenino.



Um Porto por dia [.#6]

Uma das minhas casas favoritas no Porto: o Centro Português de Fotografia. Ou, como foi outrora chamado, o Hotel Mira-Patos, a prisão, onde esteve encarcerado o escritor Camilo Castelo Branco, e onde hoje se celebra uma das maiores escritas do mundo: o pincel da luz, a fotografia. 

Um Porto por dia [.#5]

Papel plasmado, num dos vidros de um dos muitos restaurantes da Invicta. Agora já sei como se diz leitão em inglês. Elucidativo, até porque a Santa Wikipedia não deixa dúvidas. "suckling pig (or sucking pig[1]) is a piglet fed on its mother's milk (i.e., a piglet which is still a "suckling"). In culinary, a suckling pig is slaughtered between the ages of two and six weeks." Ainda assim, não deixa de ser, ora, uma coisa fescenina. 

sexta-feira, julho 27, 2012

A Literatura, liberou geral



"Sou todo um harém matriarcal. Poliândrica, poligâmica, heterossexual, homossexual. Poliamor, portanto, para  simplificar. Sou uma democracia lato sensu neste tipo de relação. Porém, devo exercitar o mea culpa no seguinte: sou pouco tolerante com a superficialidade. É que relação, qualquer seja, tem que ter, na matemática do mínimo  denominador comum, um bom papo, risada, observação participante e até um q.b. de discordância para agregar  alguma coisa no outro. Seria um saco ficar concordando o tempo todo: sim, meu amor; desliga-você-não-você-você!
Logo, para mim, isto é termômetro de irascibilidade: frases-cliché, vaidades vãs, indiferenças. Me dá uma certa  urticária. Na hora de responder, viro uma fofa-blasé. E ser fofa-blasé é um problema, porque há algo em nós que  delata que, para não sermos totalmente desagradáveis, estamos meio que pisando palco com cadafalso. E se a vida  é um grande palanque, sabemos, então nossa máscara é molde personalizado para essa-ou-aquela pessoa, que mais  cedo ou mais tarde, há de desgastar."

Continuar a LER: Poliamor no blogue da editora brasileira Cosac Naify

Um Porto por dia [.#4]

O mar parece mais perto, porque as gaivotas dormem na cidade. Grasnam e revolvem caixotes do lixo como pandilhas competentes. Bicam, rasgam o plástico em três golpes marciais, e depois pipilam regozijadas por contribuir para a imundície coletiva. Chegam a comer restos de carne e a fazer recreio com embalagens de plásticos. Parecem abutres pós-modernos. Parecem mutantes de tão grandes e de meter medo. Saem do mar para a cidade, como mendigas, porque o peixe não se lhes chega. 
Ao fim da tarde é ver os sacos estraçalhados, a misturar odores de vizinhos, de moradores incautos que os deixam, frágeis, desapropriados e mal atados, nos passeios, no rês-do-chão das gigantes caixas verdes que guardam os nossos detritos. Terreno maculado, poluto, pincelado com as tintas ácidas da matéria em decomposição.
A velha costuma ajudar à orgia escatológica, tal qual um alcatraz ávido a debicar. Revolve a lixeira, indiferente a quem passa e a olha com asco burguês. Ela usa uma bengala para se apoiar; às vezes serve de vara exploradora naquela sujidade. Tem o cabelo lavado aparentemente lavado, pela humidade visível, os fios grisalhos, uns óculos desajeitados; saia remendada e uma combinação bege por baixo do véu feminino. Manuseia lixo como um cozinheiro manuseia os ingredientes para o jantar; ou como o oleiro acaricia o barro; ou a costureira a máquina para a bainha. 
Enquanto ela o faz, o bairro acontece na rotina, a produzir o lixo que ela - e as essas aves marinhas, amanhã - estarão a chafurdar. Vós ainda não sabeis, ou não vos lembrastes, mas o lixo é uma política entranhada nos dias, uma ditadura liberal, uma servidão voluntária, outrora triunfo de Porcos, hoje triunfo das marias-velhas, gaivotas-mutantes. 

quinta-feira, julho 26, 2012

Um Porto por dia [.#3]



Pífaros leiteiros e vasos naturais [#literatura crónica]

"Rosa sai da água e vê o pastor. Ri-se. Pega nas roupas, corre para ele, e Ari, a cheirar a carneiro e a queijo e a azeite, agarra-a. Sente a pele dela, olha-a nos olhos e dá-lhe um beijo desajeitado. Os dentes batem uns nos outros, e ela ri-se. Ele fica um pouco irritado, agarra-a pela cintura e fá-la deitar-se na terra. Rosa põe as roupas debaixo da cabeça e abre as pernas. O pastor deita-se em cima dela, que já não ri. Arquejam e misturam os seus cheiros salgados com as margaridas silvestres que despontam corajosas debaixo dos corpos de ambos. O cheiro de azeite do queijo ficará como memória indelével daquela manhã, e de cada vez que Rosa comer ao almoço lembrar-se-á do pastor que a tomou esmagando margaridas. "
in Jesus Cristo bebia Cerveja, Afonso Cruz, Alfaguara, 2012

quarta-feira, julho 25, 2012

O ponto G está na orelha


LIVROS

Isabel Allende: "Continuo a ter medo ao começar um livro"

por Vanessa Rodrigues, Publicado em 10 de Agosto de 2010   (no jornal i)


É mandona, ainda erra "muito", escreve poesia erótica e diz que o ponto G está na orelha. Foi um dos nomes maiores da Festa Literária Internacional de Paraty, e conversou com o i sobre o Chile e as suas letras

Sentou-se altiva na cadeira do palco da tenda dos autores da 8.a Festa Literária Internacional de Paraty, FLIP, para falar na mesa "Veias Abertas" (o mesmo título do livro de Eduardo Galeano, que conta com prefácio de Allende). Em menos de duas horas, a escritora chilena Isabel Allende trocou a camisa de organza que usara na conferência de imprensa por uma écharpe de cores quentes, por cima do negro do vestido. A mulher-escritora diz que é mandona, detesta eventos sociais e acha que vai ser "uma velha louca". Comporta-se como uma lady. Tem um olhar grande e doce; melancólico para falar do passado. Gosta de escrever poesia erótica. 

Na FLIP, à conversa com o jornalista e escritor brasileiro Humberto Werneck, embora tenha esmiuçado o humor para responder às questões sobre a vida privada, na última quinta-feira, poucos perceberam que o exercício lhe foi, de certa forma, doloroso. A voz tremeu, subtilmente, algumas vezes. Nessas alturas, agarrava-se à piada e à ironia para se rir de si e da vida. Ou evocava a história de amor com o actual marido, o escritor norte-americano, Wiliam C. Gordon, que a acompanhou à FLIP. Ele é uma espécie de lugar afectivo a que ela recorre, com carinho. Estão juntos há 23 anos. É talvez essa a mesma função que cumprem as cartas íntimas que mantém com a mãe, de 90 anos, e que estão guardadas na sua casa nos Estados Unidos. Entusiasmado, Werneck desafiou-a a publicá-las. Allende desmarcou-se. A mãe não permitiria, e muito menos lhe escreveria o que escreve, naquele "espanhol literário perfeito", se soubesse que seriam lidas por outros. "Somos muito fofoqueiras, dizemos mal de muita gente", gracejou. Hoje, a escritora de "Ilha Debaixo do Mar", lançado no final do ano passado em Portugal, e só agora publicado no Brasil, usa mais o Skype e o email para responder à mãe. Reconhece que, por isso, "muitas coisas se perdem". Foi, precisamente, numa vertigem que o poeta Pablo Neruda a deixou, em 1973, quando ela era jornalista. De gravador novo na carteira, almoçou com o Nobel da Literatura na Isla Negra, onde ele morava. Na hora de gravar, ele desconcertou-a: "Jamais aceitaria que me entrevistasses! És a pior jornalista deste país. Tu mentes o tempo todo. Passa a dedicar-te à literatura e todos os teus defeitos serão virtudes." Obedeceu, deve--lhe, de certa forma, o facto de se ter consagrado como escritora. Conheceu o actual marido numa digressão. Voltou para o Chile a suspirar. Teve de voltar a vê-lo. "Ele começou a contar-me a história da sua vida e eu apaixonei-me por essa história, é por isso que eu costumo dizer que o ponto G está na orelha." Até hoje ele não terminou de contar a história.Meia hora antes da entrevista que a escritora chilena Isabel Allende deu em exclusivo ao i, durante a 8ª Festa Literária Internacional de Paraty, fez uma sessão fotográfica para uma revista espanhola de celebridades. Sorriu muito, mas, a cada clique, respirava de alívio na esperança de que fosse o último. Esta semana está na Jamaica, também a trabalho. Se o sucesso dos livros a sufoca, por outro, escrevê-los, diz, é encontrar a liberdade. A mesma que diz usar “para cambiar el mundo”, melhorando a condição das mulheres

Chamam-na feminista. Revê-se nessa “condição”?
Trabalhei toda a minha vida com e para mulheres. Era muito jovem quando já tinha todos os ideais e causas do feminismo. Apesar de o feminismo ter mudado e de as pessoas não quererem usar a palavra, as causas continuam. Continua a haver muitas mulheres que estão submetidas e têm vidas miseráveis. Como mulher privilegiada que sou, porque tenho educação, saúde e recursos, posso ajudar. Então, sinto que a minha missão e a das mulheres como eu, sobretudo as mulheres mais velhas, que já criaram os seus filhos, é ajudar os seus irmãos no resto do mundo. Por isso concentrei-me nas mulheres e nas meninas com a Fundação [Isabel Allende, com sede nos EUA, fundada em 1996, em homenagem à filha Paula], angariando fundos. Por cada dólar que a filantropia investe em causas de mulheres, investe-se 20 dólares em programas para homens. Contudo, o dinheiro que se usa para ajudar as mulheres, ergue toda a família, ergue a aldeia, ergue a sociedade. É uma inversão muito importante. 

Em que é que os seus livros a ajudaram?
Eu acredito que me ajudaram em tudo. Primeiro, a “Casa dos Espíritos” foi como uma tentativa de recuperar o Chile que eu tinha perdido depois da ditadura. Ajudou-me muito escrevê-lo porque pude recrear a memória que começava a perder-se enquanto estava no exílio. Escrevi “Paula”, quando a minha filha morreu, ainda jovem. Por sua vez, a dor não foi embora, mas pelo menos pude organizar o que se passou, contê-la em livro. Parece que antes de escrever o livro a dor invadia toda a minha vida e, depois, no processo de escrever e ordenar as recordações e os acontecimentos, pude geri-la melhor. Com isso, acredito que todos os meus livros provêm de uma experiência intensa e pessoal e quase sempre uma experiência muito dolorosa, ou uma paixão muito forte. Então, é uma verdadeira obsessão pela liberdade individual e também a liberdade colectiva, pela justiça. São coisas que sempre me apaixonaram. Então, são coisas que eu exorcizo com a escrita.

Uma escrita mais madura? 
Mudei muito. Mas o mundo e a literatura também. Quando eu comecei a escrever, nos anos 80, era o boom da literatura latino-americana. Eram todos homens. E havia uma voz latino-americana. Isso já passou. Eu vivo em inglês. Vivo nos Estados Unidos, leio muita ficção americana. Influenciou-me porque mudou o meu estilo. Escrevo de uma forma muito mais directa, com frases mais curtas. Já não se usa o estilo demasiado barroco, que eu usava um pouco. Logo, creio que amadureci no sentido de que conheço melhor o ofício da escrita. Mas continuo a cometer muitos erros, continuo a ter muito medo de cada vez que começo um livro. Nunca me sinto segura, porque cada livro é diferente. E cada livro tem a sua forma de ser contado. Não serve a fórmula que aplicaste no livro anterior. Então existe essa angústia: serei capaz de escrevê-lo, ou não? E, também, a sensação de que há uma parte que é inspiração, outra parte que é trabalho, outra parte que é sorte. Sem a sorte, não sai.

É considerada uma referência da literatura latino-americana. Os seus livros fluem como relatos vívidos. Onde começa e onde acaba a ficção?
O boom da literatura latino-americana deve-se à censura. No Chile, por exemplo, como a ditadura silenciava os jornais, tivemos de começar a escrever livros para falar sobre o que estava a acontecer e como nos sentíamos. A ficção pode ser uma ferramenta para contar a verdade.

E o novo romance falará de que realidade?
Com ele fecha-se um ciclo. Não vou começar a escrever mais a 8 de Janeiro, como fazia até aqui. Faço-o desde 1981. Na altura estava a viver na Venezuela e recebi um telefonema do meu avô que estava a morrer. Escrevi-lhe, nesse dia, uma carta que se tornou depois o meu primeiro romance. Mas estou numa fase em que preciso ficar mais relaxada, estou farta desta vida militar de entrevistas, autógrafos e viagens.