quarta-feira, dezembro 12, 2007

Nos últimos dias tenho ouvido uma série de argumentos para me convenceram a passar as festas natalícias por cá: São Paulo, Brasil- a cidade da insónia. Calor [infernal], vinho gelado, doces diversos( que existem o ano todo, na verdade); saltar sete ondas no mar quando "dobrar" o ano; praia, e por aí.
Engraçado: nenhum dos argumentos repetidos parecem sequer me despertar a pupila para uma dilatação sobre a dúvida. Aliás, todas as formas de convencimento possíveis, mesmo bem esgrimidas, nunca estariam sequer perto de um pestanejar pela hesitação entre o lugar de estar, nesta altura do ano. Todos os argumentos serão sempre a antítese de mim. Lamento, mas Natal é com o friozinho, orvalho e cheiro a terra molhada, café na "chocolateira", bacalhau na brasa, vinho decantado...e claro, em primeiro lugar, o calor merecido de quem amamos: a família!

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Um dia pode ter muitas noites. Mas as noites, essas, podem ter muitos dias, arrebatados por muitas manhãs!Já sabemos que em São Paulo, a cidade que, dizem, não dorme nunca - tamanha a insónia de homens por existir - um dia tem mais de mil horas. Falta saber é: quantas vidas, tem, então, um dia!
Não chegam as noites, nem as vidas, nem as manhãs para confessar, porque elas, mergulhadas em tamanha insónia; ocupadas em não dormir nunca, para que possam pôr o relógio da vida a funcionar, e dar vida a uma cidade de várias cidades - estão atarefadas em contar quantos dias ainda pode ser dia, depois das noites!

sábado, dezembro 01, 2007

Dobrar a noite

Comer um crepe com nozes e mussarela de búfula. Beber uma "Original" num boteco perto de si! Bis da "Original"! De novo a "Original"! E mais um: glu, glu, glu! É reincidente e nada original beber de novo essa: a "Original". Mas é verdade. Chegar um amigo.E mais um. E mais outro. Outro e ainda aquele, aqueloutro. Para embalar as noites com desabafos quentes de afectos. E abraços prolongados!Receber um telefonema! Saber confortar. E depois outro. Pagar a conta. "Foi exagerado", pensamos! Sobretudo os que ficam para o fim, no rescaldo das dívidas daquilo que não ficou pago. E perdemos a coragem de dizer mais tarde o que o outro se esqueceu de pagar. Afinal somos de desabafos e afectos ternos. Sair de lá. Rondar por uma "Original" que já deixou de o ser às duas da manhã. Encontrar o lugar do snooker. Refúgio de altas horas, como um mal menor para quem não joga, como eu! Vem mais uma dessas que desde o início o é, mas neste texto já deixou de o ser. Saborear. Trocar. Beber. Saborear. Trocar...Depois dos afectos e dos desabafos, as conversas francas. Mais um gole. Mais um gole de palavras curtas e significados longos. Ficar ali. E entender que o pequeno-almoço é a próxima estação. Sair. Cheirar o pão. Mais fresco que o cheiro da manhã espontânea. Esta? Descer a rua. Sentar na escada. Bater à porta. Uma espera de mais 30 minutos com a noite densa e a madrugada alta. Cinco horas da manhã. Dez graus. Sabemos quem somos; e gostamos de sê-lo. Com demora, entrámos. Croissant e bebida quentes que se acabam de fazer na boca. A mulher diz que canta. Quer cantar.Os olhares de cumplicidade. A amizade que ninguém tira. O suspiro pelo dia. O respirar pela primeira manhã de Dezembro. Amanhecida com a luz do dia, depois da noite. Chegámos. Próxima estação nem a cama nos quer. Apenas que vejamos o dia. Assim como ele é, ao cair da noite, antes que seja outro. Por muito que se repita ele é assim: como a palavra que ainda o é e que neste texto já deixou de o ser. Bebi o dia, depois da noite!Terminei este post...glup!ahhhh!

sexta-feira, novembro 30, 2007

Caminho para a liberdade!

22h17

Tá tá tá… ploc..ploc…. Silêncio..tá, tá, tá, ploc, ploc! “Seu filho da puta!” Tá, tá, tá…
“Seu filho da puta”….
“Baleado, baleado, tem um cara baleado”….

“Agora mesmo!”
….
“Vem logo!”
E ele continuava a gritar, desesperado. A voz tremia. Reacção seca, ao instante. Não era ele, deitado no chão. Era outro que não teve tempo de gritar. Não se sabe se resistira. Assalto. Só se ouvira o baque seco, segundos antes. Ali em frente ao ponto de táxis. Mas não tinha táxis naquele instante. Do lado da padaria, fechada! Ninguém passava. Só aquele que gritara. E chamara a polícia. Mas ele era da polícia. Silêncio.

22h17.
Vidraças que deslizavam nas varandas, nas janelas; para ver acontecer. Ele apagou a luz. Abriu a vidraça. Um som novo, que não fazia parte do seu quotidiano – esse o das balas. Até podia não ser! Até ouvir:”baleado”!

22h18
Muitos corriam em direcção ao ponto que se via, no alto do quinto andar. Ali mesmo naquela rua, antes do cruzamento com a outra. Sempre uma, e outra! Minutos depois, como ratos que fogem do fogo, carros de polícia aceleravam na rua, como tunnings… Motos ultrapassavam as viaturas que estavam agora barradas naquela via. A do crime, ou da normalidade de uma cidade assim, de extremos. É que a linha que divide a normalidade da anormalidade é muito ténue. E o tempo é mais célere, como se tudo pudesse acontecer no mesmo instante.

22h19
Ligou ao porteiro. O que se passara?
“Está tudo bem”?
“Pelo que ouvi senhor, parece que houve um assalto aqui do lado”.
“E os tiros”?
“Não sei senhor, parece que balearam alguém. Agora o que aconteceu ao certo eu não sei. O que importa é que com a gente está tudo bem, graças a deus”!
Até parecia. Todos olhavam a cena do alto dos andares. Até parecia estar tudo bem com os que olhavam de cima.

22h20
Estudantes passavam e olhavam para trás. Ficaram parados. Olharam de novo. Nervosismo inculcado. Ainda atordoados entre o que pode ser real ou ficção.
O Bomboa também parou. Em segundos, homens saíram lá de dentro. Queriam ver o que se passara. A rua engarrafou por minutos. A impaciência fez as buzinas gritarem, estridentes, redundantes, irritantes. Com o corpo imóvel.
E agora só se vêem luzes vermelhas a piscar. Onde estão estas luzes só há duas hipóteses: já aconteceu ou ainda vai acontecer.

22h21
Nestes instantes nenhuma ambulância chegou. Não chegou… a chegar! Apenas os ratos atarefados na intervenção. O estigma da massa. Tanta polícia… para nada. A chegada não é prevenção. Aparato!
As luzes piscantes desapareceram. O estacionamento das motos, alinhadas em espinha, dispersou. Aceleraram noutra direcção. A poça de sangue lá ficou, no escuro, entre as árvores. Não se via. Mas sentia-se o cheiro de sangue. Se ficcionada ou real, melhor é nem querer saber. Não se quer, como os outros. “Viver assim é foda”, diz-se!
E por momentos pararam as suas vidas: 22h22.
O homem fugiu. O polícia seguiu!
“Aí quando o cara puxou da arma, policial não teve outra. Matou o cara!”
22h23

terça-feira, novembro 27, 2007

segunda-feira, novembro 26, 2007

Próxima estação! Depois da última!

Fuuuuu! Vuuu..Griiii! O ar condicionado alivia as respirações.
Próxima estação:
"Liberdade"!
Os trilhos faíscam. Ouve-se o guinchar dos ferros.(Alguém me disse que os trilhos não guincham... Aqueles sim!). TRAVA!
Entra mais uma:
-Senta, Cátia!
-Caroline, segura!
-Senta, mãe"
-Segura, filha! Próxima Estação:
"São Joaquim".
Galga o túnel. Só as luzes do interior estão acordadas. Ziiii! Chiam as faíscas. Zinem! Atropela-se o casal nas portas. "Primeiro sair, depois entrar".Próxima estação
:"Vergueiro"!

Três miúdas de três tamanhos. A que viveu a chupeta, a que acabou de passá-la e a que ainda a chucha. Aquela mulher charmosa poderia ser mãe. Ou ainda deseja. Ou abdicou daquela maternidade pelos livros que lhe pesam na mão, num sábado à tarde!
Próxima estação:
"Paraíso"!

As formigas saem da toca. Não há cigarros. Há vontades. Sente-se o formigueiro do metro. O eco, o zunzum dos tubos sujos. Dos ratos que moram nas entranhas.
"Emergência".
Correcção: uma mangueira em caso de desespero! Leia-se: É o que podemos ter! Ele arrasta o guarda-chuva no chão. Roça com o som que rasga os círculos salientes do piso.Ou do céu ao contrário! Deprimente, primeiro, depois sujo. Porque nem toda a sujidade é depressiva.
A que cheira o metro?
A todos os odores que passam e se misturam. E mais aqueles que há-de experimentar. Eco irritante. Parecem ventoinhas gigantes, ávidas de engolir pensamentos. Depressa nos habituamos a eles. Habituamos-nos a tudo! Até à fila de metro. Ao empurrão com sufoco entre o pânico e a normalidade.
"Assentos de cor cinza são de uso preferencial. Respeite esse direito".
Juvenal poderia ser o nome dele. Esguio. Não sabemos quanto dinheiro já contou na vida. Seu, dos outros, de outros lugares, onde aqui esses não têm valor. Já foi! Saiu enquanto eu não o via. Saiu pela porta elástica que cerra e encerra como uma sugadora. Nem arrastou os pés como o homem de guarda-chuva. Olha o céu ao contrário!Desinteressado, como se todo o desinteresse fosse já um interesse!
"Pedir esmolas e o comércio nos trens são práticas ilegais".
E agora mendigamos dignidade e nem sequer há multas por isso. Verdadeiras práticas ilegais, essas dos homens! Parece que vamos levantar voo à velocidade da luz. Vemos os vultos das faíscas..Fuuu!!!...Vuuu!!!!Griii!
"Saída de emergência"

sexta-feira, novembro 16, 2007

quinta-feira, novembro 15, 2007

Cidades a Spray



Uma arte que não domino - do rol das muitas, cujos traços nunca serei capaz de fazer - mas que desde sempre me fascina, pela leveza e espontaneidade com que se desenha no ar, para deixar as paredes respirarem as cores. E depois se entranhar, entranhar. Esta é uma das primeiras fotos que vai mostrar como as paredes de São Paulo respiram o Graffiti.

Autor do Graffiti desconhecido!

Foto: vnrodrigues

Espera!



terça-feira, novembro 13, 2007

"Se não quiserem acabar com a vossa carreira académica, evitem os idem e os ibidem nos vossos artigos", P.M. numa aula da USP.
Por menos do que isso, há muito boa gente que fazia melhor se estivesse calada. Sem idem. Nem ibidem!

quinta-feira, novembro 08, 2007

Do lado esquerdo, pelo vidro molhado do autocarro, vê-se uma placa de sinal proibido. Lá, rasgado, está um autocolante com a fotografia de George W. Bush. O bigodinho que lhe puseram é igual ao de Adolf Hitler. Por baixo do nome dele substitui-se o "s" pela cruz suástica. Olho para dentro. Na minha frente leio, pelo ombro de uma mulher: "Por que razão estudar o anti-cristo!". Enquanto isso, a chuva lá fora ainda grita por liberdade!

sábado, novembro 03, 2007


Somos absolutamente culpados e, infinitamente, inocentes. Porém, responsáveis pela ingenuidade que nos vai na alma. Sem ela, continuamos a lutar em vão, por causas que os outros não entendem. É por eles que lutamos. E estão tão longe de lá chegar.

sexta-feira, novembro 02, 2007

Há 40 anos!


A ouvir, a antropofagia cultural...Ou o que resta da nossa memória. Podíamos ser todos um pouco mais tropicalistas!Psicadélicos amorais!

Bem-te-Vi

Às quatro da manhã, ouve-se chilrear da minha janela. Este sim, é um lugar especial!

Porque somos especiais, com jeitinho!

Aviso que, o que de seguida vai ler, não é nada de novo. Por isso, talvez seja melhor desistir desde já. Será uma perda de tempo.
A perda: A verdade é que nunca consegui entender a incapacidade de uma tal de massa cinzenta, que dizem que alguns de nós têm, para interpretar as situações do momento, independentemente, do que mandam as convenções para uma situação específica. Chama-se: adequar ao contexto! [Talvez seja por isso que me irrito, facilmente, quando as coisas são tão óbvias, não importa a formação que temos, que me parecem desnecessárias quaisquer legendas; ou mesmo um desenho - mas sou péssima em ambas as tentativas, por isso não adiantaria de nada].
O tempo: ontem, hoje, que poderia ser amanhã. A lógica: Se uma casa-de-banho pública de um cinema, por exemplo, tem só cinco sanitas, com cinco portinhas, cinco puxadores abre/fecha e, à porta, estão 20 pessoas na fila à espera de as usar, na ausência de opções, esperamos, ou vamos embora claro está! Mas se ao lado - coladinho na verdade, porta com porta - está um WC vazio para pessoas com mobilidade reduzida [como diz a linguagem pós-tudo] e não há ninguém com esse perfil, continuam as vinte pessoas na fila? Algumas, olharam em redor, não viram outra prioridade para aquela WC vazia e entraram para que a fila fluísse. E assim foi, uma, duas...À terceira, veio uma mulher histérica, funcionária do lugar,a dizer que ninguém pode usar aquele WC, senão "pessoas especiais"...A solução: continuar a penar na fila das 20 pessoas, entretanto chegaram mais,por uma sanita, enquanto esse WC fica vazio. Depois dos gritos, a mulher entrou, e usou a casa-de-banho para "pessoas especiais", ultrapassando a fila. Portanto, aqui está uma pessoa especial!

sexta-feira, outubro 26, 2007

"Há duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana. E quanto à primeira não tenho bem a certeza."
Albert Einstein

quinta-feira, outubro 18, 2007

A Kirchner o que é de Kirchner:

http://mgzine.blogspot.com/

Ela não existe

A Márcia não existe. A Márcia foi inventada! Quem existe é a Terezinha Ferreira da Silva do Rio Grande do Norte. Mas a Márcia é real! E "é tudo verdade", diz.
Ela é a voz do meu primeiro documentário, em parceria com Felipe Gavioli. Com "estreia" prevista para fim de Novembro. Até lá! Prometo não me esquecer de escrever.
Tem fases que só por muita teimosia continuamos a ser jornalistas. Todos os dias!

segunda-feira, outubro 15, 2007

Post-It

"Não esquecer de escrever"

sexta-feira, outubro 05, 2007

quarta-feira, setembro 12, 2007

domingo, setembro 09, 2007

repúblicas

Antes dele pisar aquela calçada suja outros, diferentes dele, pisaram-na.

“E o senhor vai descer até nós! E vai iluuuminaaarrr o caminho!”

Antes dele vestir aquelas calças desajeitadas, sujas, roçadas, bafientas, outros como ele o desdenharam. “Ele é omnisciente e poderoso! Te reconhece em cada gesto dele!”

Podia ser por amor. Paixão. Ignorância. Mas nem isso ele sabia!

Bafo seco, retardado da semana passada, ainda, quem sabe. (Bafo: ar exalado dos pulmões; mas nisso os brasileiros são mais perspicazes: bafo é conversa fiada. É isso mesmo - a palavra justa. Obrigada Brasil! Que se lixe o acordo ortográfico).

E ele, nesse bafo bem brasileiro: desfiava palavras como quem tira a mão do bolso, quando se o tem. Ele não tinha. Mas berrava no meio da praça. E este senhor, meus senhores, é louco! Por berrar, claro. Não interessa o que ele diz. (nada mesmo! Mas, até que, bem vistas as coisas, quando comparado com alguns directos da TV portuguesa até que ele diz muito, não?). Sintético, o homem!

“Venham até mim. Eu vos salvarei!”

Ou não. Até podia ser. Mas não me salvou a mim. Também não fui até ele. Deveria? E passei por ele, como toda a gente. No desejo de tapar os ouvidos. Sobretudo no momento em que a voz estridente saiu – como fisgada o meu ouvido. “Não o ouvis? Ignorais os desígnios do senhor?”

É, parece que esse senhor vai ter de esperar mais um pouco. Como um pouco de dicção a voz até que poderia ficar mais radiofónica. Televisiva, quem sabe, com um pouco mais de performance. “Ele é poderoso. Redentor!” Olha!, melhorou!

Empunhava aquele livro rasgado na mão. Empunhava como arma poderosa – o poder do “primo-não-primo-o-gatilho”. E era ele. República. Na praça da República. Em pleno uso da democracia: era o senhor F. de calças sem bolsos - voz sem dicção, sem amor, sem marketing próprio "eficiente" (diz-se da causa que produz efeito certo, explica a Filosofia – e seria o que ele fazia, da barata, sem propósitos comerciais) [Saberia o senhor que até podia ter lucro com uma dicção melhor?] - quem premia o gatilho das palavras que só eu ouvia para perceber se faziam algum sentido. E faziam? Interessa a quem, mesmo?

Meus senhores, deixai o povo julgar o homem da Praça da República que não faz mais do que a sua obrigação, com a responsabilidade de berrar num lugar, com um nome assim, e ninguém o ouvir!

por vnrodrigues

sábado, setembro 08, 2007

A segunda pele conta histórias que se entranham na primeira. Ela respira o mundo, mesmo quando não o conseguimos respirar.
Os cheiros nauseabundos rasgam a roupa de odores que lá se escondem. Os aromas adocicados apaixonam-se por ela. E, mesmo assim, não sabemos que cheiros elas carregam quando se coram ao sol. Ou o fazem corar.

sexta-feira, setembro 07, 2007

Gafes do fracasso

Os Estados Unidos da América (EUA) podem até ser um exemplo de como se fabrica um candidato. A subtileza da máquina política; da inteligência tecnológica; da manipulação dos media; da propaganda de guerra; da política subversiva, condicionada; do federalismo disfuncional; da cultura sem tradições, sem raiz... E, como alguns críticos afirmam, o chefe de estado dos EUA pode até ser uma amostra da mentalidade norte-americana! Mas de uma coisa eu tenho a certeza, por muito que fabriquem um presidente, ainda está por descobrir como se fabrica a inteligência. É mais fácil a falência dela!
Um país que nasce com pés de barro e alimenta essa base, mais cedo ou mais tarde, está condenado ao sucesso da mediocridade.
Mais uma gafe brilhante desse tapete vermelho da política norte-americana!

quinta-feira, setembro 06, 2007

terça-feira, setembro 04, 2007

quarta-feira, agosto 29, 2007

quinta-feira, agosto 16, 2007

Contrastes

De manhã estava de tacão alto, maquilhada e calcorreva por entre os barulhos de trânsito e restaurantes requintados.
Ao fim do dia, calcei as sapatilhas, vesti calças de ganga coçadas e levei o meu olhar para vivenciar um sarau literário na zona sul de São Paulo - naquela que é considerado uma das áreas mais perigosas e degradadas da cidade de São Paulo. A verdade é que perigoso perigoso são as palavras que lá disseram. Quando as pessoas se põem a pensar é isso que dá - talvez para tirar a máscara de muitos estereótipos que nos fazem engolir. "Aqui o silêncio é prece" e "as palavras quebram vidraças".

quinta-feira, agosto 09, 2007

Via São Paulo

-“Vai entrar?”
O velho sempre ciranda pelo autocarro. “Czum, czum!”. Arrasta os pés. Assim: de jeito desengonçado, malcheiroso. Cabelo amarelado do pente fino, empoeirado da prateleira remelenta e fétida da lavanda bolorenta, essa do frasco carcomido pelo sol da janela. Sempre pela luz da manhã.
É rabugento com quem não quer passar o torniquete, porque o transporte está cheio; apinhado de suor (deste, daquele; da mulher de camisola azul, do rapaz de blusa verde, da velha de saia branca). O que mais há: lotação de impaciência. Estão todos impreparados para o jogo de cintura vai, cintura vem; do roça-roça-que-quero passar! (ou pelo menos tentam; não há como tentar!).
Ele vai. Vem! Acotovela toda a gente. Empurra os corpos como se empurram peluches gigantes em lojas de brinquedos. Somos brinquedos, ora aí está! Chega, aos pouquinhos, o corpo mais para o lado. Para cima da rapariga. Calca os sacos do chão, às trapalhadas. O autocarro sacode. Passa uma lomba.
Encosta o cheiro nauseabundo ao corpo dela. “Zás”!: está já colada à mulher do outro lado. Efeito sanduíche!
-“Importa-se de se segurar do outro lado, que tem mais espaço. Você tá me machucando e esmagando, senhor”!
- “Porra, que ninguém chega pra lá neste ônibus”
- O senhor não ta vendo que não tem espaço”!
-“Que se arrumem todos para lá!”
Ele passa. Empurra toda a gente. Sim: com aquele cheiro pestilento. Um mijo ressequido. Cheiro seco, amargo. Os lençóis velhos passaram para ele o mofo. Blusa laranja-algodão suja nas pontas. Salpicada de uma gelatina qualquer. É melhor nem saber. Ou quem sabe: pode ajudar a entender a história.
-“Vai passar?”

quarta-feira, agosto 01, 2007

Choque térmico

Há dois dias ouvia-se em bom sotaque Português do Brasil:
- "Hoje dormi com dois pares de calças de pijama. `Meu´, está um frio! E o problema é que as casas já não estão preparadas para estas temperaturas. Tô usando ceroula direto!";
-"Fui nas lojas ´Americanas´ e me disseram que às cinco da tarde os aquecedores iam chegar. São sete da tarde. Passei por lá agorinha mesmo. Cês acreditam que esgotou na hora. Não havia mais aquecedores ´prá´ ninguém!";
Hoje, o termómetro subiu de seis para 19 graus. O cobrador estava de t-shirt. As miúdas na rua já mostravam a barriga com tops reduzidos. O vendedor da esquina - que anteontem, usara cachecol e blusão de penas, gorro, luvas - mostrava os ombros ao sol mais ou menos quente que tomou conta de São Paulo esta manhã ("Basta um raiozinho que a galera já vai saindo mostrando o corpo"). Eu, ainda não conformada com o choque térmico, levei o meu cachecol a passear, vestindo meia calça por baixo da ganga e um casaco de lã - não vá o tempo mudar, assim, de novo, da noite para o dia.

terça-feira, julho 31, 2007

foto.grafias vnrodrigues

quarta-feira, julho 25, 2007

Tom Zé "fabricado" igual a si mesmo, irrepetível!





"Fabricando Tom Zé"

de Décio Matos Júnior (Brasil, 2006, 90min)






Céu, cantora e compositora brasileira

terça-feira, julho 24, 2007


Peter Bjorn and John, "Young Folks", 1999

incapacidades

Acidente da TAM, em Congonhas, São Paulo, a semana passada.
Não há verdades. Há pontos de vista. Opiniões. Não sabemos o que são os factos - porque todos os dias somos obrigados a engolir alguns, que são apenas parte dos pontos de vista.
Mas o que é pior (desumano, falso) é que nestes pontos de vista, nestes "factos", opiniões, condolências maquilhadas de retórica e muita incompetência de gestão estrutural da aviação civil brasileira (o Governo por inerência), dizem (perdoem-me os nomes "rebuscados" para melhor entenderem a minha ironia) é sempre a incapacidade de se reverem no lugar do outro. Por muito que imaginemos e nos compadeçamos com a dor dos outros (eles?, nós?); por muito sensíveis que sejamos, nunca vivemos a experência na primeira pessoa. Sim, a que sofre!
Se é assim com os sensíveis vejamos com os opostos: dizem que os insensíveis governam o mundo, e o nosso espaço público está na incapacidade do lugar do outro - que é governado por eles: os que não sentem. Parece, também, que isso é universal. O outro somos sempre nós, dentro nós! E sempre para nós...

segunda-feira, julho 23, 2007

sexta-feira, julho 20, 2007

quarta-feira, julho 11, 2007

foto.grafia vnrodrigues

quinta-feira, junho 28, 2007

Querô

"Foi nesse tempo que fiquei sozinho que deixei de ser pivete trouxa. Ali, sozinho na surda, comecei a me ligar na bosta toda. Cresci. Cresci paca. Todas as pancadas que me deram, as sacanagens todas que me fizeram começaram a se escancarar em mim. Comecei a perceber que estava ficando duro ou sacana. Já podia olhar bem pras coisas, sem me pavorar, sem ter pena de mim. Então, abri bem as janelas e pude cheirar a bosta toda. Um salve-se-quem-puder. Um puta fedor".

"Querô (uma reportagem maldita)" de Plínio Marcos
Anos 60
Prémio Melhor Livro da Associação Paulista dos Críticos de Artes
Agora o filme de Carlos Cortez

quarta-feira, junho 27, 2007

Aos pares..

Não sei se é alguma tendência da moda zoófila que me tenha escapado no São Paulo Fashion Week deste ano [muita coisa me escapou na verdade. É fácil isso acontecer - menos com as Melissa e a Natura] mas hoje, pela terceira vez, assisti ao mesmo fenómeno: as "tiazinhas" passeiam, pela manhã, com seus "cachorrinhos" padrão: rasos, pequenos, peludos, aos pares iguaizinhos - a desafiar qual irmão gémeo mais parecido. Melhor: com as suas coleiras extensíveis, a dupla ocupa o passeio todo (largo, por sinal) para coscuvilhar cada canto de mijo já demarcado em cada lado (oposto).
Nós: humildes transeuentes, rendemo-nos ao fio (vai-e-vem) que atravessa todo o passeio, para estes "gémeos" passearam a dona (parecido!). Descemos o pavimento. E com sorte não levamos com uma bênção líquida (bem amarela a julgar pelo território canino) da última tendência da moda nos bairros paulistanos.

Nome de Código: Pulga

A ideia que A. tem de mim (um caso a pensar, bem curioso por sinal!!!) num diálogo possível de início do dia:

"-Já pensaste em pulgas?
-Pulgas?
-Sim, pulgas; pareces uma: sempre de um lado para o outro, sem parar.
-Nunca tinha pensado nisso, mas é uma hipótese. É: quando era pequena os meus pais chamavam-me piolho electrónico: é parecido, não?
-Pois é, mas pareces mesmo uma: eléctrica e sempre ocupada!
- É. Pode ser: devo ter sido pioneira no que hoje se chama hiperactividade=pulga/piolho elecrónico. Uma delas! [Juntar um pouco de ironia por aqui]
-Tens cada uma!
-Ou então sou uma (in)definição pós-moderna a roçar o esquizofrénico diário.
-Vês, até nisso és uma pulga: a tua cabecinha está sempre a pensar numa forma de dar a volta às palavras. "

Qualquer semelhança com a realidade, é pura coincidência.

segunda-feira, junho 25, 2007

Que venha a FLIP


Tem Nelson Rodrigues, Música, Cinema e, felizmente, muita cor! Só podia ser lá: Paraty...


Pantanal, há um ano

vnrodrigues


Há um ano, pescávamos piranhas; comíamos arroz carreteiro; e olhávamos de esguelha os jacarés...Ou então: nadávamos com uma sucuri que se escondia lá em baixo, dissimulada entre as pedras.


Pantanal e Bonito...Para relembrar...

http://cronicalunasamba.blogspot.com/2006_06_01_archive.html

a cultura do(s) estigma(s)

Pagar sete reais (cerca de três euros) com cartão de débito (mais taxas de uso do serviço bancário) foi o valor que o casal à minha frente na fila, no supermercado, pagou: uma coca-cola e um pacote de bolachas. O valor podia até ser mais baixo; mais alto é demasiado óbvio e, à partida, mais corriqueiro para o europeu- e sem o estigma! Hoje, por exemplo, C. pagou o almoço de dez reais com cartão de débito. Ontem, D. pagou o lanche (oito reais) no mesmo processo. A surpresa é, precisamente, os valores baixos da compra. E ainda por cima mais uma taxa sobre o valor. As razões? Resposta de C: "Vivemos sob o estigma do assalto e aí muitos poucos andam com dinheiro; mas antes disso foi a constante desvalorização do real na crise económica: nos mentalizamos a não guardar dinheiro em casa. Por isso o dinheiro electrónico é tão popular". E mais seguro...Virtual?



Há qualquer coisa de Raduan Nassar em "Álbum de Família" (1945). Ou a Lavoura Arcaica é um mero esboço da disfuncionalidade de Nelson Rodrigues. Melhor: da família edipiana (além disso) que está em cena no "Espaço Parlapatões", em São Paulo. Mais do que o espectro de Édipo, é a teoria de Freud caricaturada - revista, hiperbolizada e publicada.


O pai Jonas ama a filha Glória (que odeia a mãe) que vai para colégio interno - e desde então ele só consegue ter sexo com "cabritinhas virgens" (com a anuência da mulher "Senhorinha" - a mãe- que o traiu com o filho "Nono" - que depois elouqueceu e corre nu aos gritos pela casa (antro de perdição?) e com o patrocínio da cunhada beata (que o ama desde que ele a desflorou, bêbado, numa noite assim e assim; a filha Glória é expulsa do colégio por ter uma relação lésbica; o irmão Guilherme, seminarista, castra-se porque não consegue viver sem o amor da irmã Glória (e depois, num arroubo de "os-deuses -devem -estar- loucos" mata-a em frente à imagem santa do cristianismo [previsível] porque ela lhe nega o amor que só ao pai (que acha parecido com Jesus Crsito) quer dar. Mas o fôlego não se esgota aqui: uma das cabritinhas desfloradas morre no parto - de um filhos bastardos- por ter a bacia pequena demais para que a criança abra os olhos ao mundo. Mais:"Senhorinha" sabe que Eduardo (outros dos filhos para encerrar o álbum) a ama desde novo e deixou Heloísa - a mulher com quem se casou para esquecer o incesto mental. Mas nós sabemos que ela também o ama. Morte, Tragédia- sem heróis ou heroínas. A causa e efeito de uma família dos nossos tempos. Pode ser, não foi? Seria?

segunda-feira, junho 18, 2007

a inveja...

Em democracia (quase) tudo é possível. Desigualdades: já sabemos; uso e abuso de poder também...E fazer tudo sem dizer nada.
Estudante de 20 anos convocou a "1ª Parada do Orgulho Hétero"- ontem na Avenida Paulista...30 pessoas...O propósito? Show off. Reinvindicação? Patrocínio oficial da prefeitura para que, em 2008, haja verba para contratar dançarina e duplicar o número de participantes...
Não havia necessidade!

quinta-feira, junho 14, 2007

Regressos

Vento; temporal; chuva; frio; geada; poeira; gravilha; ondas gigantes com possibilidade de maremoto; trepidação a roçar a vontade de terramoto; velocidade ilimitada de ventos sussurrantes na hipótese de furacão; sol tórrido; dores de estômago; dentes; sono; insónias; ansiedade; nervosismo... Podia ter sido! Não foi. Nada disto. Nem sequer perto. Regressar a SP foi uma brisa na ponte Dona Maria; ou no mar de Paraty. O lugar não importa. Só as pessoas! SP é aquilo que seria sempre que não seja: um ciclo de retorno para regressar e voltar ao que se é (se ainda não se foi; ou não se o é).
Aqui ou aí; cá ou lá. Só o pensamento não engana. Aproxima.
Agora sim, o que foi: uma rolha de champanhe que dispara; sorrisos estampados por inerência;e talvez uma réstia de solidão para me reconciliar com as ideias. Depois, a missão: um recomeço como oportunidade para cortar as amarras do que não foi e podia ter sido; do que não é e já foi. São regressos. Com a criatividade da pupila dilatada; e das insónias da criatividade.

quinta-feira, maio 31, 2007

recomendações...Versão "O Padrinho"

Antes [seis anos: serão?], quando os meus pais iam de férias [isto se eu e o meu irmão não fossemos com eles] as preocupações baseavam-se em nos portarmos bem. "Não façam asneiras. Obedeçam. Alimentem-se"... etc...
Agora, claro, os tempos são outros. Hoje recebemos um postal deles. As recomendações eram para o meu irmão. A saber: "Não me gastes o perfume todo e deixa-me algum whisky"...

terça-feira, maio 29, 2007

foto.grafia vnrodrigues

Última hora: Papa recebe Urso


É um urso o protagonista desta história. Vai à missa; é capa de jornais; dedicam-lhe directos; vai a Fátima (em peregrinação mediática); passa férias no Algarve; e nesta receita abusiva ainda não exige cachet. Agora, parece que Papa o vai abençoar. Segundo uns, esta consagração vai ajudá-lo a não ser esquecido; segundo outros: é marketing falso contra a tirania da memória! Todos o vêem. Ninguém o ouve: está em black out...para sempre. Mas a sua imagem vale mais que todas as palavras. Desde há 23 dias que engolimos o urso da criança desaparecida no Algarve, num excessivo mediatismo que, há demasiado tempo, não diz nada. Atenção: nada contra investigação. Tudo a favor dos apelos (sem descanso !!! - mas para todos os casos). Porém, tudo contra a exploração dos media. Sempre os não-acontecimentos: a retórica do nada de uma cacófona televisão. Esmiuça-se uma não-informação; estraçalha-se o que ainda se chama jornalismo. "Nada de novo!"- poderia pensar. Mas há muita novidade: estamos bem piores do que há uns anos! Ainda se criticava a linha editorial da TVI. Pois bem, lamento informar: É um urso o protagonista desta história. Um urso!!! E é-o em todas as televisões (imprensa?). Não só na TVI! E porque estamos bem pior?: parece que gostamos de passar por ursos, perante as migalhas desta (des)informação.

p.s. se depois disto ainda achar que a foto não tem nada a ver com o texto pense duas vezes (ou as que forem necessárias!). Pelo menos não temos um urso para pagar direitos de autor!

sexta-feira, maio 25, 2007

São coisas da terra, sim senhor.
Coisas boas de recordar, enquanto não vivemos tudo!

foto.grafia vnrodrigues

terça-feira, maio 22, 2007

segunda-feira, maio 21, 2007

sp...

foto.grafia vnrodrigues

domingo, maio 20, 2007

foto.grafias vnrodrigues

quarta-feira, maio 16, 2007