segunda-feira, agosto 20, 2012

Cidade nua [#prosa]


A cidade está inerte, num silêncio a contraluz. Diz-se que o volume do silêncio se mede pela luz que trespassa as pontes, e vem do mar, antes de se pôr, enquanto o burburinho dos turistas, e dos miúdos a atirarem-se da ponte que lhes serve de rampa de mergulhos corajosos, estremece, retumbante, no ar. Empoleiram-se nos ferros, passam as grades, esgravatam com os dedos e as mãos e a adrenalina turva-lhes os sentidos. E as hormonas em explosão lhes impele desejos e egocentrismos para um ritual de passagem. A idade adulta é saltar da ponte. Há-de ter sido isto uma herança. Ou está-lhe nos genes atirar-se do ferro quente para a água esverdeada do Douro. 
Há gaivotas. Há gaivotas o ano inteiro e neste Verão aquietam-se nas margens a ver os putos ensinaram uns e outros a atirarem-se. A cidade está grave, um pouco atribulada, parece uma viúva a querer descansar as mágoas do ano inteiro. Este Porto tem humores e deveria estar feliz. Anda frágil, bem o vejo, entorpecido, acanhado; uma cidade constrangida por trás de um sol altivo e desejado.

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