quarta-feira, abril 13, 2011

Na vida, como no xadrez (e isto não são as memórias de cárcere)

Vamos à estratégia. Em Fevereiro passado, o reputado campeão mundial de xadrez (gosto pouco destas generalizações, pois ser algo "mundial" implica sempre uma limitação no universo amostral - nunca percorremos, realmente, todas as pessoas do mundo), o russo Garry Kasparov, esteve na Casa da Música, no Porto, para falar de liderança. 

Quando me apercebi da vinda do senhor cheque-mate já era tarde demais para que pudesse ouvi-lo. Ele já tinha aberto o tabuleiro, posto os peões na vanguarda, deslizado bispos em diagonal sob a plateia, posto torres à defesa na Invicta, falado sobre cavalos em "éle", defendido rainhas e mandado uns bitaites sobre Portugal, os descobrimentos,"o rei" Mourinho e encetado uma generalização: não são os mais inteligentes que vão sobreviver à crise, mas aqueles que tiverem capacidade de se adaptar. Amén. 

Depois, proferiu algo como: para vencer, é preciso seguir a intuição, não mudar de estratégia o tempo inteiro e, claro, ter objectivos e não apenas reagir às adversidades. Aqui há, parece, na lógica formal, uma incongruência, ou será apenas um truque do estratega. Se quem irá sobreviver são aqueles que têm capacidade de se adaptar, então, sabemos, reagindo às adversidades é uma forma de nos irmos adaptando, para que os efeitos colaterais tenham menos impacto. 

É que, diz o senhor do jogo da inteligência, a vida imita o xadrez, tendo inclusive escrito um livro sobre a analogia. Mas já antes ouvíramos coisas parecidas com outras artes, como se se tratassem de planetas distantes, e pudéssemos, realmente, de livre arbítrio escolher que tipo de vida queremos que a nossa imite: o cinema imita a vida; a vida é um palco; o Futebol é uma grande arena, imitando a vida; a vida imita a arte, ou vice-versa; já para não falar da fotografia como representação da realidade, evitando cair nas filosofias estéticas para dissertar sobre meta-explicações. 

Por aí... tacteando metáforas para sintetizar a existência a fórmulas mais ou menos categóricas. Se tudo fosse assim tão simples, esvaziando as variáveis e a imprevisibilidade dos factos, afectos e percalços, a vida seria pois, convenhamos, uma desinteressante alquimia. Um macaquinho de imitação. É, eu nunca tive cérebro de estratega.  


2 comentários:

Dora disse...

Quem se adapta, sobrevive, é certo. Mas interessará apenas sobreviver? Sem rasgo, sem risco, sem aqueles atrevimentos e aquela loucura que pode ser fatal, mas é o que nos faz realmente viver?

Vanessa Rodrigues disse...

A vida com suas texturas vibrantes, Dorinha. Claro! Não há risco, nunca: mas sabor, gostinho de vida. Eu não sou de equações estratégicas, sou fermento da imprevisibilidade, com um bocadinho de risco, para equilibrar...beijoca