quinta-feira, abril 21, 2011

1. A Paixão saiu à rua num fim de tarde assim: remelas, cicuta, ondjaki e caio f.









Vamos à rua. Primeiro na rua para falar de paixões. Haveremos de entrar. Tudo começa na rua, quando não começa dentro de nós. E nós também somos rua. Vadios. Geografia retalhada de sons, vida, frenesim, um formigar atarefado, fervente, solitários, rodeados, torpes, vagueantes, boémios. Apaixonados. E nada mais desapropriado, parece, por estes dias, dizem, do que a rua para a revolução. Dias de geografia de crise.


- Fala baixinho, não vá alguém ouvir-te.





Mas esse violento sentimento não se cala. Tem sex appeal, baby! É puro marketing pessoal.
Não haja mordaça para que se cale. E ninguém quer apaixonar-se com cinzento cobalto nos
céus, moinha sentimental, húmida cidade, a carregar nuvens, e pingas impertinentes a
turvar-nos os afectos arruados. E, não, não é Paixão Católica, que nestes dias, também, ousa
pincelar de roxo alguns desejos, como se lápis azul ousasse ser.



E eu, em “meio silêncio”, a
cantar um “blues” baixinho, caminhava pela rua apressada; havia calçada portuguesa, as
pingas gotejavam-me no guarda-chuva, e as botas velhas deixavam entrar água pluviosa. 



É:
eu não estava preparada para a paixão. E, depois, já estava atrasada para ela. “Tinha 
Paixão”,colóquio de literaturas brasileira e africana, em sala de casa nobre a ver-praça 
carlos-alberto, já subira o pano às três pancadas das 18h30. 





Será que a Paixão me deixaria entrar? Ou apontaria o dedo inquisitivo: 

- Também tu, Vanessa?

Por direito à absolvição, mea culpa (eu pecadora me confesso...mas...): paixão que se preze chega sem avisar. Mas, depois, paixão prez devida, sabemos, ainda, nasce em noite de lua cheia, sol, um pouco de bossa nova ajuda, começa com uma enroscadinha de pele, arco-íris em pantone improvisado, perto de viçosas e carnudas flores, perto de relva fofa para o corpo inebriado, na praia, no baloiço, no banco de jardim, de mãos dadas pela calçada, perto de árvores com troncos maduros para gravar o amor.

Mas amor é outra coisa, é farinha de mandioca a querer sê-lo, pubando debaixo de casa de palha; e a paixão é rastilho, limite.

Na paixão estamos sempre no limite para ousar. Há o palpitar, as mãos suadas, os olhos brilhantes, o fôlego afobado, os olhos perto da boca a quererem fechar, sem poderem abrir, de tanta explosão de afecto. Paixão é explosão de afecto. E ali - ali - meus caros, ali, a paixão saiu à rua num fim de tarde assim. Tão cinzenta.

É deus e o diabo na terra do sol. O diabo é pai da paixão. Há-de ser. Um capeta de milongas sôfregas. Pode haver milongas sôfregas? A Paixão saiu à rua, já o disse, mas voltou a entrar em casa de viscondes, de Balsemão, de casa exilada de reis e nobres (e eles lá estavam nas paredes da sala a lembrar-nos que também estavam atentos às nossas paixões). E havia gente atenta, sentada, escutando, apaixonada. Suspiro. Silêncio.

Mais a sério, meus caros. Mais a sério. Falemos de paixões, mas com respeitinho que o Ondjaki é um homem comprometido. Já com o Caio Fernando Abreu (a.k.a Caio F.) sempre podemos ter um pouco mais de sacanagem, e sexo, e vida, medo, morte e um pouquinho de solidão. E foi a Patricia Lino quem tocou no assunto, citando-o: “paixão é plenitude e solidão”.

Ah, um certo autismo dos amantes de literatura! É preciso solidão para respirar letras de prosa, poesia e poema em prosa, até nos apaixonarmos e ficarmos em apneia. Somos outros, na pele de autores por quem choramos quando se vão. Que falta nos fazem; nos hão-de fazer!

E, Patrícia, queremos folhear-te, de novo, as páginas dessa declaração de amor. (Como gostamos de cartas de amor, daquelas, rídiculas, de fazer inveja a Pessoa). Dessa epístola intimista que ao confessionário do “Tinha Paixão” tu leste. Essa que fala de que, à beira do gole de cicuta, o-senhor-só-que-nada-sei, só queria aprender, mesmo que lhe falhassem as pernas (e nós até gostamos que nos formiguem as pernas quando ficamos entorpecidos de pasión).

Ele era um apaixonado, esse socrático homem. Acreditemos na memória da literatura. Ao menos para nos consolar que só nos resta aprender. E paixão é isso. Paixão é um pouquinho mais o que o pai do escritor colombiano Hector Abad Faciolince (Somos o Esquecimento que Seremos, Quetzal) lhe disse, quase em manifesto: "Mas tu já começas a compreender e a sentir todo o esforço, o trabalho, a angústia, o isolamento, a solidão e intensa dor que a vida exige a quem escolhe o difícil caminho de criar beleza".

E paixão, ali, gostamos de saber, é entrar dentro das pessoas, disse-nos o Francisco Topa - que é apaixonado por Ondjaki, o qual gosta de fins de tarde na Livraria da Travessa em Ipanema, a folhear novidades literárias; e desculpa-me a confissão, camarada, é para um bem maior: é paixão, pá!.

Paixão, segundo Topa, é isso e remelas amarelas que parecem caramelos, em linhas ondjakianas. Ramelas lentas com ampulhetas de fina areia parcimoniosa a contar quantas madrugadas a noite terá. Paixão: Cartas entre o jovem angolano, agora um pouco mais carioca, e a escritora angolana Ana Paula Tavares. Mapa de afectos. Respeito ancião. “Ramela é um caramelo que o olho usa”. E paixão é isso. Olhar com mais atenção as hipérboles dos outros, as fraquezas alheias que nos tornam mais perto de entrarmos na vida de autores que queremos, antropofagicamente, comer. Que sejam nossos só nossos! Paixão é falta de tempo para respirar, quase falhando-nos a voz, é babel de dicionários que Barthes tentou decifrar.

Paixão é hipótese lispectoriana: “porque há o direito ao grito, então eu grito!” É isso: é tempo de sair à rua e gritar.

Com overdose de Paixão,
V.R.
(apaixonada visceral pela vida)

2 comentários:

Marília Miranda Lopes disse...

Excelente texto! Parabéns!

Marília Miranda Lopes

Vanessa Rodrigues disse...

Olá Marília. Muito Obrigada! Beijinho