sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Mais uma vez, todo o futebol que há em mim (III)



A Cris lembrou-me, há bem pouco tempo, que gostou muito deste texto, que os comentários no fim dele foram animadores, e que houve mais gente a interessar-se pela prosa. Na época, o Alf teve uma espécie de ataque de generosidade exacerbada e elevou o caso a elogios rasgados, divulgando o pequeno texto sempre que pudesse, como se ganhasse à percentagem por peça lida; o Veiga entusiasmou-se e chegou mesmo a ligar-me, impressionado, pelo facto de esse ser o texto que ele me viu a parir num sprint de 10 minutos depois do jogo PortugalxBRasil, com o "deadline" a apertar pela diferença horária. Percebo muito pouco de futebol, aliás não tenho interesse algum no desporto (deve ser coisa de mulheres mesmo, tudo bem!), mas em tudo o que há emoção eu acho que até me vou safando, porque, parece, especializei-me em observar os outros e a fazer deles meus personagens principais. Depois, as melhores coisas que podemos ter dos amigos e das pessoas mais próximas, em relação ao nosso trabalho é, em primeiro lugar, a sincera crítica severa, ou, com sorte, o elogio. Nunca a indiferença. Nunca a indiferença.  

Recordo a prosa. Obrigada Cris.


Há o remate: quase golo. E neste quase-golo, aos 17", a Tânia começou a roer as unhas. Voltou a elas várias vezes. Prendeu o cabelo, mexeu no lenço atado ao pescoço com as cores da selecção portuguesa, levantou-se da cadeira e tirou a bandeira atada à cintura. Foi buscar mais uma cerveja para acalmar os nervos. Bebeu e não funcionou. Já não se sentou mais, solidária, com a meia centena de portugueses, que assistiam ao jogo Portugal-Brasil numa sala de uma pizzaria em São Paulo, em pé. Fervilhavam, de um lado para o outro, com pele de galinha. 


Ninguém se sentou nas cadeiras à volta da mesa. Espalharam-nas pelo centro da sala: "bagunçaram", para poder ver melhor o "onze" do "telão". Houve alguns "traidores": sentaram-se na janela, decorada com as cores da equipa canarinha, para fumar. Só os brasileiros, da sala ao lado, conseguiam conter a ansiedade do corpo. Barulhentos, mas sentados. Quando o José passou por eles, para descer as escadas e fumar um cigarro, como paliativo para o corpo suado, inquieto, relaxou. "E aí, portuga, você vai levar um cartão amarelo, se voltar a passar aqui". Sorriu, gracejou com eles e já não desceu as escadas. Ficou "batendo um papo" para "não levar um amarelo" e juntou-se à torcida da equipa de Dunga, do outro lado da sala. Quando a bola dos navegantes roçou ao lado da baliza da selecção brasileira, não se conteve. Gritou: "A culpa é daJabulani. Aquela rotação está errada! Isto tem de acabar, temos de marcar". Culpa: tinha encontrado o bode expiatório para a tensão que estava na ponta da língua, pronta a disparar, depois da desilusão que não o beneficiava no marcador. Aí, os brasileiros da sala ficaram tensos. Não acharam "engraçado" ter um português na mesma sala que eles. Deram-lhe um cartão vermelho. "Melhor você voltar para lá, junto com seus amigos", ouviu-se. Voltou. Encontrou o Alfredo a mexer no telemóvel, irritado: "A ligarem-me a uma hora destas, com o jogo a decorrer?".

Mais calmo, o brasileiro Rodrigo, descendente de portugueses, torcia por Portugal em silêncio. Só se denunciava aqui, desassossegado: enrubescia sempre que o Brasil tomava a posse da bola. Susteve a respiração, inúmeras vezes. Tal como o Justin, luso-americano que cirandava pela sala, entre os "tugas". O oxigénio voltou no final: marcador "zerado" foi, no fundo, "um alívio". É que, no futebol, como na vida, os nervos não têm nação. Ganham sempre!


Texto publicado no jornal Público, editoria de Desporto, no dia 26 de Junho de 2010

3 comentários:

ar disse...

Pois foi :)

Já dá saudades...

Beijo

Cris =) disse...

:) De nada. De facto, o artigo está excelente e valeu recordá-lo novamente.

Beijinhos

Vanessa Rodrigues disse...

Gracias, Gracias. Beijos dos grandes!!!!