terça-feira, janeiro 19, 2010

Pashtina de Bielman F.


Quando ele chegou a Pashtina, essa cidade imaginária que todos temos dentro de nós, como dores irreais que nos arrancam do sossego da nossa cama quieta e quente, viu pessoas a dormirem em autocarros queimados. Viu casas em ruínas, poeira que se entranhava nos pulmões e homens de cabelos compridos, envelhecidos, gastos pelo vento e pelo suor do descontentamento.

Sentou-se naquele autocarro, justamente naquele onde viu o nome dela gravado num dos bancos, o das janelas estilhaçadas, talvez pela pilhagem dos homens que ali dormiam, sem mulheres para fornicar, ou lhes aquecer o corpo frio, depois, de tanto suar, e lhes lamber as feridas envelhecidas, sobretudo as de dentro, que as de fora já estavam em putrefacção, numa solidariedade colectiva que torna os homens de Pashtina os mais sofridos e merecedores da angústia. Ele viu o nome dela. Há muito que não via o nome dela. Chegou a andar noites, depois do expediente, para procurar, de novo, o nome dela escrito em letras garrafais naquelas paredes. Deu faltas injustificadas na repartição das finanças, onde trabalha, diligentemente, mas discreto, há 30 anos, sem que o chefe saiba, afinal quem é Bielman F., só para reencontrar o nome dela onde quer que fosse naquela cidade.

Nunca mais o viu e, depois disso, tratou de arranjar outra obsessão, ou outra namorada imaginária, como lhe chegaram a dizer na repartição das finanças. E, lá estava: naquele dia vira o nome dela. Em Pashtina. Anos depois.

Bielman F. percorre, recorrentemente, lugares estranhos. Alguns imaginários, sofregamente, que a memória lhe traz de tempos que nunca sabe se conheceu. Ele também não sabe, sequer, por que o autocarro que apanha, ao fim do dia, depois do expediente, o leva aos subúrbios do que acha ser – porque Bielman F. não é homem de saber estas coisas – a alma humana, em putrefacção. Ele vê muitos lugares assim. Chega até a dormir por lá, porque não consegue achar o caminho que o leva a casa. Mas depois de adormecer (não quando quer, mas sem dar por ela), acorda sempre no desvão empoeirado daquele beco sem saída que o salário da repartição lhe permite pagar.

Quando a eles vai parar, aos lugares estranhos (tantos, que poderia enlouquecer!)Bielman F, contou-me, acha que fica numa espécie de capa invisível e que ninguém o vê, porque nunca meteram conversa com ele. Não que ele seja um exemplo de comunicação, sempre de olhos metidos no chão, a ruminar por que a vida lhe traz Invernos tão rigorosos, como a infância vivida a pão, papas e vinho avinagrado, para enganar a bolor entranhado. E, depois, aquele ar insalubre, de cabelo lambido de óleo hormonal acaba por ter uma espécie de efeito repelente. Há outra coisa, porém, que o leva a pensar que isso não é suficiente. Por isso, quando chegou a Pashtina, que talvez exista, de verdade, no nome de algum letreiro de autocarro; possa até ser terminal de alguma coisa, nome de alguma cidade de interior onde vivem homens mais felizes, sem putrefacção, ou bolores que tornam a vida um fungo entranhado do qual ninguém se livra nunca; ele fingiu que dormia.

Em vez de explorar essa terra de homens carcomidos, Bielman F., cansado dos lugares a que vai sem pedir, resolveu ser um farsante na arte do sono. Encolheu-se muito, quase a abraçar-se. Encostou a cabeça ao ombro, entortou-se para se acomodar no banco disforme e, contou-me, simulou uma respiração profunda, quase a roncar. E ele, sei-o, não ressona. Não demorou mais de um minuto este número de teatro barato, quando ouviu ruídos de bichos, achou, que não conhecia, ou talvez fossem os homens que agoniavam das feridas em putrefacção, sem mulheres para as lamber, limpar e curar.

Incomodou-se com aqueles barulhos estridentes, como se a agonia fosse um assobio canino intermitente que traz os poros à condição de galinha e lhe entra com um vento gelado pelo corpo. Pela primeira vez, Bielman F. incomodou-se verdadeiramente por tamanha condição humana (ou talvez a sua), numa terra onde, parecia, o sol nunca entrava para secar as lágrimas que eles nunca antes tinham feito jorrar, mas gostariam, por não saberem que condição é essa de aliviar o sufoco com líquidos salgados que podem sair dos olhos. Ele não aguentou. Irritou-se, até, e apeteceu-lhe berrar um “calem-se”, para ficar mais aliviado e poder, quem sabe, continuar a farsa da sonolência, do ressonar, e da indelével indiferença premeditada. Pôs as mãos nos bolsos, tirou um cigarro e usou-o como "conta-tempo" para decidir o que deveria fazer; e como poderia sair dali, de Pashtina, que estava a tornar-se uma valsa lenta de agonias. E logo ele que não era homem para essas coisas.

Esses seres de cabelos compridos, unhas enegrecidas, rostos farruscos, rugas profundas em caras que aparentavam acabar de conhecer a puberdade e que pareciam desenhadas com cinzeis empurrados por mãos pesadas, não se moveram de si.

Aquele som, afiança Bielman F., só ele ouviu. Não olharam, não perceberem o fumo do cigarro, fingiram, talvez, que Bielman F. não existia realmente. Foi por isso que ele, sorvendo o cigarro lentamente, desconcertado e sem saber como sairia dali, demorou ainda outro cigarro, pedindo ao tempo que se demorasse. Depois levantou-se daquela cadeira de estofo rasgado, com o nome dela, pisou os escombros do autocarro queimado e caminhou sozinho pelas ruas, cheias de homens que aqueciam as mãos em latões de fogueiras infernais.

Viu lixo empilhado, electrodomésticos estragados, oxidados e despedaçados, sofás rasgados, cadeiras amputadas, quinquilharias e, talvez, tivesse visto monstros. Ele não soube contar-me quem ou o que eram aqueles homens maiores que estavam encostados aos prédios em chamas. Ele caminhou muito. Correu, quis gritar e não conseguiu. Quis abraçar-se e teve medo. Tentou falar com os homens mas eles não ouviam e sequer falavam entre si. Bielman F. teve medo, muito medo. Como nunca tivera alguma vez na vida. Ele nunca foi de ter medo. E não sabe dizer-me onde fica Pashtina e por que estava lá o nome dela, depois de anos desaparecido das paredes dos becos sem saída por onde anda.

E, talvez por isso, ele não sabe ao certo, Bielman F. chorou muito em Pashtina, soluçou e pensou que não tinha ninguém para lhe lamber as lágrimas, limpá-las e curá-las. Não chegou a fechar os olhos, mas não sabe dizer-me como chegou, no dia seguinte- talvez tenha acordado lá, já, ou despertado de um sonho profundo- até ao beco sem saída que tem por casa, aos lençóis frios que aquece com o corpo franzino e pontiagudo que o pão, as papas e o vinho avinagrado lhe deram como herança. Ele só sabe que chorou muito e teve medo. E que não quer nunca mais voltar a Pashtina. Jurou nunca mais apanhar aquele autocarro.

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Motel Perdición (em pt do Brasil)

- Mesmo sabendo, você faria?

- Não achei que tivesse que te contar… O que nos corre no corpo e se traduz em beijos e mãos que vão escorregadias não se explica nunca. Se vive como se o momento fosse o último, com magnetismo e desnorte.

Acendeu o cigarro. O ar saiu seco. O rosto agoniou com o fumo e saiu a medo da boca, pausado. Os olhos umedeceram. A fumaça voou pelo quarto. As palavras foram atrás. Silêncio. O ar ficou denso. O peito ficou apertado e engoliu argumentos antes mesmo que eles soubessem que o eram. Ela no chão, envolta em lençóis de prazer, angustiada. Ele do alto, olhando as cortinas de veludo, em convulsão líquida interna para não ceder à vontade de a agarrar e apertar contra o peito. Mas homem vivido não se arrebata por vergonha dos cabelos brancos. E das rugas que servem de anticoncepcional ao parto de afectos.

- Não vamos falar por quê aconteceu. Melhor o silêncio e quebrar o tempo para que a memória guarde tudo como um sonho. Não tem mais futuro.

- Nunca falamos dele, nem do passado. Você disse que era o momento. Que tudo se reduzia a um gozo. Como a amor. E já ninguém morre de amor. Eu concordei.E já ninguém conta histórias assim. De longas noites de palavras e partilha. Com amanheceres no alto. E sem que a sofreguidão e a ansiedade do toque no corpo se intrometessem. Já ninguém se arrebata; e se deixa arrastar. Ou luta por ele. Falamos sempre de presente. Da textura da carpete no chão. De seu cheiro em minha pele. De nossa linguagem de sentidos sem traduções. Da leveza e do bom humor que nos agarra e cola os olhos ao pensamento, traduzindo sem legendas ou retóricas.

- É tarde!

- É sempre tarde, antes de ser o cedo que gostaríamos. Não há tempo ideal que nos registre a escala de sentimentos. A paixão é um gozo só. Ou vários. E que quer dormir depois para se encantar ao amanhecer. O amor é um gozo lento. Ou talvez nunca chegue a sê-lo.

-Você lembra daquele beijo? De seus lábios ainda guardando o vinho daquele jantar nas reentrâncias da boca como se fossem impressões digitais que marcavam os meus? Deixa, não responda. As memórias são para soltar. Nada mais importa, Jeane!.

Seis cigarros depois e as bocas adormecidas ferem, de novo. Sete cigarros por cada pecado. E aqueles que nunca sabemos se existem. Ainda partilharam um. O batom dela no filtro. O cheiro do corpo seduz a cinestesia à perdição, em adultério com os cheiros assépticos que as discussões devem ter. A deles não chegava a sê-lo, porque tudo acabara antes mesmo de começar.

Ela se levantou. A porta rangeu. Se ouviu os lençóis a deixaram o corpo: som de roça-na-pele: “flap”! Se vestiu. Não se tocaram. Não falaram. Não se olharam.

Ele deu o último gole no gin. Deixou cair a cinza na carpete que ainda ardia dela. O celular tocou.

- Só para dizer que havia muito para falar!

E ouviu-se um beijo metálico (aqueles lábios degustando o telefone). Saiu do quarto. Deixara a coragem por ali. Pôs na bagagem a amargura, o pecado e a perdição. Porque já tinha gozado de uma vez.

Bateu com a porta. A fechadura gemeu. O vidro se estilhaçou no chão. A placa caiu: quarto 77. Pagou. Deixou o néon: “Motel Perdición”. Acendeu um cigarro e deixou a fumaça na noite. Pensou: ”Mesmo sabendo, eu faria!”

sexta-feira, janeiro 15, 2010

Peito A.berto e Gripe (B)Oba!

Há uma nova categoria de homens a surgir em Portugal. (Acho que a cada cinco anos, não sei se, por tendência geracional, se por influência do aquecimento global, há uma nova colheita do que serão os homens portugueses do futuro, e não auguro grande esperança para os interessados no género: estão cada vez mais rudes, para não desiludir a nossa "portugalidade"; têm comichões quando se pronuncia a palavra cavalheirismo, isso quando sabem sequer o que significa; são cada vez mais metrossexuais, e a querer parecer-se, em doses hiperbólicas, com estrelas de pop (ou até quem sabe com os cantores de um determinado programa de televisão).

Ainda não o são, mas um dia, vão fazer-se machos, viris, de pêlos no peito, por onde, agora, se sobrepõe o rosado de uma pele virgem para conquistas pélvicas, poro por poro. Um rosado que, na verdade, enrubesce com o frio glaciar (ou antárctico, ou nem uma coisa nem outra, porque não entendo nada disto) que se tem sentido na minha cidade emprestada (nasci em Matosinhos, por isso estou mais para peixeira do que para tripeira, embora por afinidade me considere a mais genuína portuense, do que muitos que por aí andam), e que anda a tomar conta dos peitos destes pseudo-homens lusitanos, imberbes, ainda. Eles chegam de todo o lado, não sei se é tendência no Norte - que é uma aldeia, praticamente, e se a categoria já se disseminou para o resto do país como a gripe e as constipações - andam na rua, estão nos bancos de jardins, à saídas das escolas; mas acho particularmente curiosa a passeata em grupos, em transportes públicos. O metro é o melhor lugar para vê-los. É onde perdem o glamour, com aquele sotaque cerrado, nasalado, do "Puorto", que acho ter o seu interesse, mas para estrela de pop, a coisa fica estranha. O importante mesmo é dizer que eles andam de peito aberto. Alguém mais desatento poderá pensar que me perdi por aqui e me quero, na realidade, referir à expressão solidária e abnegada de alguém que gosta de receber os outros de “peito aberto”. São truques que aprendi do outro lado do Atlântico, em terras de samba e gingado de palavras, que me elevam à categoria de uma perfeita farsante da linguagem (não acreditem numa palavra deste post, a não ser naquelas que dizem a verdade).

Estes “peitos abertos”, que muito tenho visto, observado, investigado, interpretado, mas com quem ainda não falei, são miúdos de 15 e 16 anos que, para dizer a verdade (porque até aqui tudo era mentira) são verdadeiros heróis, grandes meditadores do zen budismo, por vencer essa perdição do corpo rendido ao frio (Lembro-me, a propósito, de uma vez na Finlândia, com neve, neve, neve, menos 7 graus, um activista ir para as aulas apenas vestido com uns calções de ganga e sandálias, numa caminhada de meia hora. Aquilo é que era um peito aberto. Talvez a coisa tenha vindo daí).

Agora, enquanto eu, do alto da minha constipação (ou gripe B, como lhe chamo: de “boba”, porque todas as gripes são uma perda de tempo), encasacada, de cachecol até às orelhas, chapéu, sobretudo, botas e meias de lã quentinhas, tento, elegantemente, caminhar pelas ruas da minha cidade emprestada, estes miúdos, de camisolas em lã fininhas e decote em V, pavoneiam-se, mais elegantemente que qualquer outra pessoa na rua, sem t-shirt a servir de forro para o peito, sem casaco, nuns sibéricos (pirinéicos, andinos, patagónicos, sei lá) nove graus, de peito à mostra, rosado pelo frio, virgem, qual pop star no seu mais alto glamour, pronto para os paparazzi, mas sem um pingo no nariz, sem um tossir brônquico, ou outros indícios de uma gripe Boba. Assim de repente ocorre-me que nem sequer um casaco eles têm para oferecer a alguém interessado no género destes "um-dia-homens" e é só isso que verdadeiramente me preocupa. Isso e a gripe B, que ainda não curei.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Frida Kahlo, o tempo como catarse dos nossos vícios


Ainda não tinha visto o filme de Julie Taymor, com Salma Hayek (e a sua brutal e desconcertante semelhança com a pintora mexicana Frida Kahlo). Era um dos DVD´s que estavam esquecidos no armário de casa dos meus pais e que recordo ter comprado numa dessas promoções de fim de ano. Três anos depois, num segundo “round” depois do “À Prova de Morte” do Tarantino, ontem, enrolada na manta, com o vento frio a rugir lá Poderia falar da fotografia, das cenas espectaculares que recriam quadros da Frida, da representação brilhante de Hayek e Alfred Molina (Diego Rivera), e outras observações intelectuais exigidas por quem se preze a criticar um filme. Deixo isso para quem entende realmente da coisa, até porque é o "invisível" que me é "essencial aos olhos".

O que é realmente belíssimo, tal como no documentário de Vinicius de Moraes (Miguel Faria Jr), ou no “Into the Wild” do Sean Penn, são as várias lições de tempo do filme sobre a Frida, da importância da procura da insatisfação pela constante satisfação de nadas e agoras, do amor, do sexo por sexo, ou do sexo por contextos, da criação, da ansiedade como procura do interior, e da cegueira do nosso quotidiano, que nos vicia numa imensa redoma em contraluz que nos arranca do essencial. Talvez “a condição humana” seja mesmo essa (perdoe-me o André Malraux) que nos torna realmente mais sartrianos do que sabemos ser (somos profundamente estrangeiros de nós): a dos vícios que toldam a nossa história em recriações deturpadas do essencial (e por elas, no nosso contexto ou até mesmo nas utopias interiores, recriamos um mundo só nosso, que nos fecha num hermético globo de percepções individuais).

É como se em todas as lições de tempo precisássemos de um choque de contrariedades que nos questionem os vícios de personalidade, do dia-a-dia, dos nossos, dos outros. Por exemplo, há um momento em que Kahlo recebe um telegrama, nos EUA, sobre a mãe doente, no México, e se apressa a abraçá-la na casa da sua infância. Depois, já lá, vai ter com o pai, angustiado, que tenta arranjar as flores do jardim que a mãe diligentemente cuidava, para que não se morram, com receio de que esposa lhe ralhe, ainda que enferma. Ele quase nunca cuidou das flores; desabafa que houve momentos em que achava que nunca tinha gostado dela, que a detestava, até; confidencia-lhe que, depois de tantos anos juntos, as pessoas já nem sabem o que sentem, discutem muito, e num embalo de uma relação deteriorada, como muitas, tantas, desses vícios da intimidade, que nos podem tornar tão desumanamente frios e pérfidos (estrangeiros de nós?) com alguém que partilhou tanto da nossa intimidade, deixam-se estar quietinhas à espera de sobreviver até ao fim, e a fazer mal um ao outro, por medos e, paradoxalmente, pelos mesmos vícios interiores. Frida abraça-o, põe a flor morta no ouvido. Ela própria viveria o dilema da relação deteriorada (pelas constantes infidelidades) com Diego Rivera (“É melhor separarmo-nos. Damos-nos melhor como amigos e companheiros do que como marido e mulher”). Kahlo fica destroçada. Anos mais tarde envolver-se-ia com Trotsky, exilado na casa do pai dela, a pedido de Rivera. Mais outro punhado de anos e Diego volta para ela, como quem volta para o útero (e Kahlo já estava, nessa altura, muito debilitada, cheia de dívidas, mais azeda, amarga, mas intensamente lutadora pelo tempo em si). Só que o essencial é isso, o tempo em nós. Visto assim, numa retrospectiva de uma vida, com uma hora e cinquenta minutos, com cortes e recriações do que possa ter sido a vida de uma mulher, que nos momentos de maior angústia pintava com as dores de dentro, parindo sempre as catárses que a libertavam dos vícios de um mundo hiperbolicamente pessoal, sofrido e destroçado, é uma imensa lição de vida, de tempo, de leves adormeceres para um imenso e mais maduro amanhã. O essencial é sempre esse, na realidade, o aprendermos a gerir o caos que há em nós, promovermos as contrariedades constantes para ver o essencial, para quem sabe pouparmos anos de azedume, porque sabemos que o mais importante está sempre ao redor de nós, contrariando os nossos vícios de teimar em ser estrangeiros de nós...

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Regresso silencioso



O meu amigo N. Ferraz enviou-me, há pouco, um link com um texto do Paul Theroux, sobre uma viagem no "Expresso da Patagónia". Estava lá tudo. As gentes, os gestos, as percepções, as angústias, a leveza, a solidão, a ternura dos outros, a vida dos desconhecidos, na partilha de tanto; os sons, a percepção aguçada dos sentimentos que em nós vão fervilhando. Tudo isso, como se viajar fosse, apesar da experiência pessoal, uma grande festa universal, para os atentos que gostam de sentir, simplesmente. Antes de uma viagem ali, aonde for, ao redor de nada, de tudo, ou simplesmente do vento, viajar é uma viagem a nós, cá dentro, num carrossel autista. O que deitamos cá para fora, depois, é mais nosso e rico, do que a marca que deixámos num qualquer lugar que nunca mais se lembrará das nossas pegadas. Só que Theroux tocou no essencial, para mim, para me entender, para me alertar do perigo e da tirania dos regressos.

Voltar da Amazónia, das Amazónias, das viagens ao interior de mim e ao redor de um pedaço de mundo, foi a experiência mais dolorosa que até aqui tive. Tudo lá foi intenso, com momentos menos bons, mas de bela transformação. Só que o mais difícil, foi o regresso. Este regresso, a mim. Nada mais dilacerante do que o regresso. Foi duro, pesado, não pela minha urbanidade, pelo desejo de uma cama fofa, comida caseira, abraços quentinhos e carinhosos, mas porque já não era a mesma Vanessa que foi. Sabia-o, claro. Queria-o, tanto. Mas voltei profundamente silenciosa, inadaptada, recolhida, confusa com tudo ao redor: os barulhos, as pessoas, a urbanidade, as conversas que me irritavam de tão superficiais, desnecessárias e vazias. Para mim, que estava sensível, como se tudo fosse uma imensa primeira vez, carcomia-me a respiração ofegante, ansiosa. Não queria estar, falar com ninguém. Voltei, sim, profundamente silenciosa, em apneia voluntária dos pensamentos, como se mais nada importasse. Voltei num estado que não o sou, triste, acabrunhada e revoltada com a intensidade da mudança que não percebia, ou percebo bem em quê. Viajar é uma desaparição. E, viajar assim, é viver demasiados anos, em poucos meses. É escrever rugas e cabelos brancos com itinerâncias e histórias de vida, que se tornam a nossa. É ir até ao esquecimento. Ir até à importância dos olhos virgens dali, e voltar com sentido, com os olhos cansados, de tanto (vi)ver...

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Cartas

Gosto de postais, de cartas, de papéis avulsos, de cadernos. Há qualquer coisa de mágico em escrever-se sobre aquele momento para alguém, naquele pedaço de papel. Por isso, ao longo destes quase 4 anos de Brasil acumulei resmas de papéis, cadernos, postais e papéis avulsos; entre outras colecções involuntárias. A mala veio mais pesada porque não sabia o que lhes fazer do outro lado do Atlântico. Esse exercício de, finalmente, decidir se deveria rasgá-los ou guardá-los não poderia ser feito de uma forma qualquer. Merecia um ritual, pausado, e com disposição. Hoje comecei essa empreitada, que, para dor de cabeça dos meus pais, já andava a arrastar-se há uns dias - mas a anestesia de ter a filha emigrante que regressa a casa tem um efeito de tolerância sobre a desarrumação do quarto e do hall dos quartos (CD´s, livros, mais CD´S, papéis avulsos, revistas, postais, cartas, e mais CD´s). No meio dessa confusão descobri um postal que escrevi para o meu irmão a 3 de Novembro de 2008 e que acabou por ficar perdido no meio de tudo e de nada. Nunca lhe cheguei a enviar e acabei de o pousar na almofada. Lembro-me bem ao que me referia e resgatar esse momento foi perceber o quão distante no tempo já está, como se anos, enfim, tivessem já passado. E São Paulo é isto no tempo: vive-se com a percepção de que um mês parecem outros tantos...

Aqui caminha-se com os olhos no chão com medo dos gigantes do céu. Há lojas 24 horas, hospital de sapatilhas, homens que dormem na rua- e a rua como casa, num chão que todos olham e ninguém vê. Aqui, stress é religião! As amizades são perecíveis e, por pouco, perde-se amigos - ou talvez nunca o tenham sido. Aqui o mundo é uma possibilidade e o Alfabeto um emaranhado de letras avulsas. Aqui sou um pouco mais mundo. Talvez nada, um chão sem rua, e uma rua que é casa.

domingo, janeiro 03, 2010

Rasgar memórias

Às vezes ponho-me a vasculhar os textos antigos deste blog. Sinto vontade de apagar tudo e recomeçar de novo. "Como fui, algum dia, capaz de escrever uma parvoíce destas?", penso. E depois,a auto-punição: "densa", "hermética"; "que chatice". Mas depois entendo. Eles só continuam perdidos nesta densidade virtual, talvez para me lembrar que a intensidade das palavras, como os sentimentos, são profundamente contextuais e que a vida passa tão levezinha, em paralelo, que mesmo aquilo que não importa, e que já foi tão importante, como se fosse a última gota de água num imenso deserto, é apenas um meio para chegarmos a casa, a nós, e para percebermos o quanto crescemos, este tempo todo.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Quantas vidas tem um ano?


Gosto do fim-do-ano. Da ilusão do tempo, que teimamos em carregar de peso linear, como se ele fosse o elixir de uma nova era de salvação e como se, de um dia para o outro, fossemos expiar todos os “pecados”, heresias pessoais, ou as incapacidades crónicas que não fomos capazes de mover de nós. Divirto-me com isso, num jogo pessoal de desafios. Afinal, o que fui capaz de expiar este ano? O que mudou? Nesse capítulo, privilegiadamente, sou uma pena apaixonada pelo vento. Levezinha! Este ano que agora dizem passar, vivi uma mão cheia de outros anos (com a intocabilidade das rugas físicas e a sapiência das interiores), aprendi vários idiomas da vida, recebi tanto das gentes, dos sinais, das entrelinhas, do mundo ao redor, como se dizer “2009” contivesse a síntese do que precisei para ser feliz.
Chorei, ri, amei, senti, abracei tanto, dormi ao relento, em rede, no chão, não tive o que comer, para depois conhecer a fartura; mergulhei em igarapés, tive raiva, revoltei-me, sofri, movi-me de mim, bebi das lágrimas, vi o arco-íris nas palavras dos amigos, alucinei, caminhei sem lua (entre gafanhotos e tarântulas), apaguei cartas duras de palavras tristes, que me expiaram as dores e as mágoas; rasguei pedaços de sentimentos, que agora nada significam com a mesma intensidade; estive em perigo, para me resgatar de mim; despojei-me de amarguras, para sozinha, longe das minhas referências, perceber que a lucidez só é possível depois da ressaca das agruras; e recebi (como recebi) tanto!!! Por isso, gosto do fim-do-ano. Porque depois deste, que parecem ter sido tantos, com a indelével intensidade das pequenas coisas, e com a leveza da bagagem de um ano que parece já tantas vidas, só pode melhorar...

quarta-feira, setembro 23, 2009

Insónia como lenha quente a roçar o corpo no deserto; Desgaste como cubo de-gelo-antárctico; Falta de lucidez: maior que qualquer lente desfocada; e, depois de tantas páginas escritas, rasgadas, em branco, rabiscadas, até coladas, o livro lacra-se e não consigo queimá-lo...

quinta-feira, setembro 17, 2009

amor fóssil

Há destroços no ar que ainda não sedimentaram. Parecem cinza que renasce como Fénix para voltar a sê-lo, mas sabem que nunca ao útero voltarão. O que se pare é só uma vez genuína e irrepetivelmente. São restos de desafectos que um dia foram antónimos certos de que nunca deixariam de sê-lo.
Há papéis rasgados. Há vidros estilhaçados. Cacos colados, imperfeitos, esburacados. O pó que de lá saiu era tudo, o suficiente, para que agora se fragilizem. São fósseis tão recentes que parecem antigos, e ainda assim como se tivessem sido amassados por mãos de artesãos sábios que sabem, sempre, que a matéria prima moldada é o melhor do que o adorno para que servem depois no vazio dos nossos olhares em devaneio e que, por isso, se esquecem do que criam, para se empenhar como mãe que sente a água a dilatar, o ventre a romper, à espera que o filho chore a primeira emancipação e a primeira reivindicação por oxigénio. É que depois, passamos a vida a querer oxigénio nas coisas mais simples e sufocamos porque nos esquecemos de respirar…

quinta-feira, agosto 20, 2009

SinaisdaGente


A Crónica Luna Samba vai ser um pouco mais "Sinais da Gente", numa travessia pela Amazónia brasileira, nos próximos quatro meses. Por isso este blog vai hibernar um pouco e migrar, de certa forma, para aqui:
Sinais da Gente (www.sinaisdagente.com)
e aqui: www.twitter.com/sinaisdagente
Acompanha-me nesta viagem...

quarta-feira, agosto 12, 2009

episódios...

Episódio número um: isto não é uma história. Episódio número dois: as histórias só existem se as vivermos. Episódio número três: as histórias não o são de cada vez que as esquecemos de viver. Episódio número quatro: não viver uma história é rasgo de segundos, lentos, em "loopings" de eternidade,"flashbacks" e "rewinds" que poderíamos evitar se não tivéssemos tido medo de sentir. Episódio número cinco: há histórias que nunca se cumprem e que nunca chegarão a sê-lo quando vividas a um. E o um, sabemos, não é uma história.
O das caminhadas sem destino. O dos assentos vazios à espera do inesperado. Há silêncios absolutamente lentos, como o do rio de águas mansas, que escorre luas-laranja, antes que alguém mande avisar que a casa abandonada era a nossa. Poderia; é? Pode, desde que tenha janelas sem portadas para respirar...com cadências de silêncio. Muitos, segredados com suspiros que acontecem pela noção de perda, desafectos, alucinadamente em vertigem, que ela rasgou do ventre para que não sentisse dor. E por que razão as persianas estão corridas? Não deixam ver a figueira que dá figos com pingas de néctar a começar, branco, pegajoso, ainda agarrado à vida, como se soubesse que um dia escorrerá na boca de alguém, goela abaixo, como o vinho que o avô mandava pisar, e que tanta comichão nos deixava nas pernas, cor-bordô-pisado, deixando o mosto nervoso de tantas pisadelas inexperientes, e depois só saíam das pernas com sabão esfregado como se esfregam as panelas da cozinha com fogo a lenha, lento para defumar os chouriços que há pouco se encheram; e aquela fumaça que me deixou a respirar como se tivesse gatos dentro do peito, salvava-se o pão no forno com chouriço a fumegar, a malga de vinho verde tinto com cebola de fazer chorar, ácida, depurativa e o chiado dos ouvidos do tio Zé - que aquele aparelho era luxo na região; e como cheirava a orvalho no Invernos das nossas madrugadas, do cobertor quente que nos aquecia o corpo, o cheiro a madeira velha, defumada que viajava nas entranhas para se restar na infância; e os calendários com santos que a bisavó insistia em pregar na parede ano-a-ano, as vinhas da janela com geada a descansar no topo, e a inocência das tardes lentas, do tempo escorrido a sol, sombras e anoiteceres que achamos injustos depois de um dia que nos roubavam, só confortados pelas malgas da sopa de couve e feijão que a avó servia, horas depois de as colher. É, há silêncios absolutamente lentos, e os do envelhecer, gota-a-gota como o orvalho de cada ano daqueles Invernos das nossas tardes, são serenos e mais vadios, e só os percebemos como ausências de nós, quando o olhar se dá conta que o tempo mudou a respiração do outro. Esse, o dos nosso afectos...

sábado, julho 18, 2009

A Cafetina



- Só tem cafajeste na zona. Aqui é gente de respeito. Minhas meninas são gente fina! Cuido disto há 40 anos e nunca vi nada assim. Sai da frente. Pega ele Zezão. Isso, soca bem nesse sem vergonha e faz ele pagar para mim. Meu dízimo ele tá devendo, e ninguém sai daqui até ele pagar, nem que seja com a vida.

Eloquente, vozinha metálica, grossa, quase-rouca, sem tons de amargura, pescoço enrugado e mão pesada, ninguém passa a perna em dona Zica. Puta que se preze trabalha com dona Zica na região. Sua saia preta impecavelmente engomada, blusa decote em V por onde se escondem mil estrias e rugas marcadas que lhe encorrilham o peito farto. Nunca levou homem para o quarto (a não ser aquele há 40 anos). Isso é com as meninas, com quem ela grita, insulta, maltrata - mas isso ela pode, é patroa. Só tem uma que é a predileta: Maria chegou à casa há cinco anos. É a protegida. Rosto angelical, peitos naturalmente musa grega, fina, doce ("Só não pode abrir a boca, de onde só saem barbaridades", diz Zica): a mais disputada pela clientela. Por isso, a mais cara. Puta por opção.

- Aqui não há vítimas. Ou se aceita, ou vai ter de engolir essa.

Amarga-lhe ainda mais a voz se cliente não paga serviço.Parece bala perfurando madeira.

- Usou, vai ter que pagar. Nem que seja um papai-mamãe rapidinho, ou apenas para jogar conversa fora. Tem que pagar. E se ele veio para espionar minhas putas e levar para outra casa, assinou a sentença de morte.

Dona Zica tem o batalhão Zezão para limpar a área. O distinto senhor Bielman queria fugir pela janela. Rondava as cidades nesse esquema. Chapéu gentleman-I-am. Calça de vinco cinzenta, cheiro naftalina armário-nunca-lhes-dou-uso-a-não-ser-para-ir-à-zona. Mas dona Zica estava avisada e deixou o filme rolar na tela, até que ficasse preso e virasse “hardcore”-sessão-proibida-da-meia-noite. Ela o topou na entrada. Ele subiu pelo elevador até o décimo andar. Desceu as escadas, andar por andar para escolher a garota. Nada de mexer com elas até levá-las para o quarto. Nisso dona Zica era a patroa exemplar. Dava as dicas necessárias: nunca beijar na boca – "Isso é romance e aqui não tem romance"; tomar sempre banho depois (uma torneira de água fria em cada andar, chão levantado, sem azulejo, cimento negligente na parede dizendo “aqui-é-pré-fabricado”, e uma janelinha insalubre por onde entra o único ar do andar); usar sempre camisinha; actuar como se o gozo fosse o processo final; não se apaixonar por cliente; nunca aceitar presente; nunca contar nada sobre a vida privada; nunca sair da zona para morar com cliente; nunca ter cafetão; e nunca confiar na cafetina.

Quebrando as regras, ou suspeita de corromper o código da casa, as represálias poderiam ser duras. Duras penas. Talvez a mesma que acabou carcomendo gentleman Bielman. Ele ainda suspirou, suplicou, imprecou aos deuses um a um, apelou aos carrascos, interpôs recursos afetivos. Não tem como pagar. O sangue escorre pela boca. Está branco e suplicando para parar. Dona Zica detesta homem mole. Quando ouve homem suplicar, o jeito é dar o que ele precisa.

-Pára aí Zezão. Já chega de teatro. Minha casa não é palco gratuito de nada. Que show é esse, gente? Só de sexo e esse tem de pagar. Pára Zezão, já disse. Me dá aí o tal negócio. Esse pilantra não vai mais pisar aqui ou meter o pau em mais nenhum lugar. Quer ver só?

Quando aqueles gemidos urram, todo o bairro sabe o que acontece. Ambulância chegou minutos depois. Bielman não era mais homem.

- Vamos voltar ao trabalho. Com minhas meninas ninguém zoa. Aqui não é nenhuma ONG ou Santa casa da Misericórdia. Pode ir Zezão. Hoje te libero. Tão cedo não aparece mais ninguém para deixar de ser homem em casa de puta.

sexta-feira, julho 17, 2009

James Bond Day...At your service

Ligação: Estás em São Paulo? Tens disponibilidade para sair ainda hoje para Brasília?
Resposta: ok, disponível.
Mala, contactos, voo, hotel… e claro: "black suit with a borrowed coat". Talvez para não deixar vestígios. Táxi, Guarulhos, entrada VIP. Jacto privado com o presidente de uma grande empresa. Destino: Brasília, duas horas da manhã. Dormir rápido. Acordar: 7 horas, “and-the-black-suit-please”! Óculos de sol. Táxi. Planalto em obras, carro do presidente de um país imenso, piquete de espiões de informação debaixo de uma árvore (ainda escreverei um post sobre isso chamado Governo Sombra). Chega o presidente da grande empresa, de sacos plásticos na mão, vai feliz e animado. Caminha, passos apressados. Atravessa a grade, raio X. À porta fechada. Vinte minutos, Trinta, quarenta, uma hora. O avanço imediato. “Gadgets” que não funcionam: o improviso; telefone que não funciona: o improviso; telemóvel que não funciona: o improviso; gravador que não funciona: o improviso (fiz escola com o MacGyver, por isso)… Quase tudo termina: sprint james bondiano. Transfere, ouve, corta, edita, escreve, grava, corta. E o mundo parece que vai cair. Mas James Bond salva. Vem o MacGyver de novo. Missão "almost accomplished". Objectivo número Dois chega e autodestruir-se-à em segundos. 16h30. Missão jacto privado espera. Já sobrevoamos Brasília. "Time to destiny: 1h25m. Feet: 40000. O sol põe-se em laranja-rosa. Depois azul quase cobalto pela janela. Sandwich gourmet, imprensa do dia, café… Congonhas. We´ve arrived. Táxi. Cheque - not credit card, although it accepted visa. Arrived e outra missão: entrar pelos fundos porque não há ninguém em casa. Mudar de elevador. Entrar pelos fundos. E...E...E...Porta da cozinha trancada. Accordingly: we can not enter, except if we break the windows… Sem crédito no telemóvel, agora. E o telefone na divisão do lado, ali tão perto, inalcançável. Não podemos passar! Reminder: E aquele tunel, ainda existe? Comecem a ouvir a música: agora misto de missão impossível, James Bond e MacGyver. Qual a porta? Mad: onde está o alicate para puxar o parafuso? É esta? Será esta? (I´m still in my black suit, remember?) Alicate: check! Pluc… abriu…Está cheio de coisas… Tirar tudo..Afinal onde vai dar o túnel? Estamos debaixo da pia da cozinha. Sai tudo. Será que caibo? Tira tudo: até suportes de rodas tinha lá dentro… Ploc e, voilá, a portinhola dá para a cozinha. Mergulho com meu black suit no túnel. Encolho-me. As costas batem nos canos. Encolho-me. Contorço-me (seria um número de circo?) Mad segue-me: também quer ser bond, mas é border, o collie. E voilá, respirar.. Abrir a porta. Segundos depois a porta da entrada abre-se... Chegou alguém...(Agora parece um filme de comédia)
-Sério, você fez isso? Que louco! Coitada!

P.S. Estou a aceitar contratação de serviços impossíveis para a próxima temporada. Com desconto!

sábado, julho 11, 2009

Já não se cedem casacos, nem se carregam livros até casa. Por onde andam os papeizinhos?

E agora vêm as feministas acusar-me de submissão pelo título. Que venham! Não me interessa. Lembrei-me dos papeizinhos na sala de aula. Lembram-se? Aquelas folhas amarfanhadas: “Queres namorar comigo? Sim, Não ou talvez?”. Isso quando o talvez ainda significava que a miúda até poderia mudar de ideias e isso inflamava o coração (do miúdo) de esperança. Claro: as miúdas que o ousassem fazer eram ATREVIDAS: logo ali marcadas por todas como oferecidas. Hoje, quando muito, o pedido nem vem: curte-se- (será que essa palavra ainda existe, actualizem-me , por favor) na esquina (e eu até gosto de esquinas, são viés do mundo) e, no dia seguinte, não se sabe muito bem se realmente aconteceu e se devemos ou não aproximarmo-nos para perceber: então, namoramos ou não? Na melhor das hipóteses formaliza-se a coisa por mensagem, hi5, orkut, e-mail, e outras estratégias não-comunicação (O que se partilha afinal nesses-divãs-ilusórios-de-amizade que nos põem todos a viver uma esquizofrenia da possibilidade invisível, a angustiar para que “talvez” aconteça).

Percebi, assim devagarinho. Mas continuo a gostar dos papeizinhos. Não que tivesse recebido muitos. Lembro-me que não, talvez dois ou três no histórico. Vinham cheios de corações, de lápis de cor, canetas de filtro (sim, lembro desse) e com aromas de chiclete, ou arrancados do caderno: o que dizia algo sobre a personalidade do interessado: mais “nerd”-marrão, certo?-, sensível, ou assim, à bruta. Miúdo que arranca a folha do caderno, com certeza, é prático, bruto, sem meias-medidas, mas ok ainda usa o velho método, porque é tímido para falar com ela, comigo, seria? De resto, só me lembro que não tinha, depois, muita paciência para os miúdos da classe: um bando de putos, claro está - como se eu fosse, muito grande. Alta sim, para a idade, mas com as mesmas carências que uma miúda de 10 anos tem, quer, sente, pede - assim baixinho para que não ouçam demais e se saiba (acho que o primeiro bilhete veio nessa altura e eu não me achava assim tão criança – era a maior, pensava, e queria já ser tratada como uma mulherzinha, se faz favor).

Ok que as circunstâncias obrigaram a “crescer” mais cedo, (mas havia alguma coisa de cada-coisa-no-seu-tempo que eu achava aquém). E depois, claro, lembro que sempre tive o complexo da altura; do corpo que veio antes do tempo (Afinal não mudaste muito desde os teus 15 anos, dizem.). E tudo era muito mais ponderado. Talvez por isso, tinha o terrível vício de me apaixonar (ou achar: porque a paixão não se percebe bem o que é, naquela idade – ou nesta – apenas que é intenso e verdadeiro e absoluto para nós) por rapazes que além de inalcançáveis, platónicos, eram sempre os bonitões mais velhos: o que, naquela idade, claro está, significa sofrimento a triplicar. Ok: nunca na vida ele vai olhar para mim. Óculos ovais, magrela-atlética e claro um misto de nerd com Maria- rapaz. “Vês como consigo subir a esta árvore; vês como ando bem de bike; vês como corro mais rápido que tu; vês como ganho ao braço de ferro”. (Que chata! – e não tenho bem a certeza se isso terá mudado muito).

Bem vistas as coisas: nunca na vida alcançaria a atenção deles: até porque não queriam alguém que corresse mais rápido que eles, ou ganhasse ao braço-de-ferro. Óbvio. Mas nunca pensei mudar de estratégia. A questão é que eram sempre inalcançáveis. Depois até consegui um bonitão ou outro mais velho, sem papeizinhos, na realidade, mas logo percebi que eles não eram para mim. Eles têm um grave problema com as miúdas. Ou seja, estão sempre rodeadas de miúdas. Ih. Quando a coisa é muito concorrida, gosto de ser do contra. Perco o interesse. Sim, ok: com baba e ranho, e parece-que-o-mundo-vai-acabar. Lembro-me de um bonitão (era-o, na altura: vi-o há pouco tempo e realmente não percebo o que nós víamos nele) que me disse: “Só não namoro contigo porque não és loira”. Ok, o rapaz tinha um fetiche por elas. Na altura, aquilo doeu: hum, se doeu! E não percebemos o alcance do que realmente significa. As nossas preocupações eram outras.

Hoje, lembro-me disso e não consigo deixar de rir. Gargalhar. E Gargalhar de novo. Tem a sua piada. Mas ele até era bom rapaz. Passei dias de detective a tentar descobrir o número de telefone de casa dele (Lembram-se? Não havia internet, nem e-mail, nem msn, nem hi5, nem facebook, nem telemóvel.) A via-sacra era portanto mais penosa, difícil e quase-inalcançável. Folheei a Lista Telefónica, página a página para encontrar o último nome da família: só sabia isso e o nome da rua. Vá lá, quem não o fez? Só consegui ligar uma vez: na hora H, tive um ataque de mudez: lembro que estarreci, congelei, eu sei lá. No dia seguinte sonhei com um papelzinho que nunca chegou. A história passou num ano lectivo. Até que veio aquele. Outro inalcançável que afinal até cheguei lá, num bate-e-volta de três anos.

Chegava as férias de Verão e: plofff! A malta desencontrava-se. Cada um para seu canto. Não havia a maturidade e percepção de dar continuidade: férias de Verão significava, simplesmente, caminhos diferentes. E esse não veio com papelzinho. Mas era intenso. Hoje percebo que era mais importante do que a distância que lhe dávamos: ou por insegurança, ou por me achar menos merecedora e envergonhada por, afinal, ele ser três anos mais velho, e não ser visto com uma miúda – sobretudo essa que ganhava os corta-mato todos da escola. Uma vergonha, achava eu. Melhor manter assim a distância. Depois, no meio de crise – sim porque nós também temos crises aos 13 anos – veio o das férias (5 anos mais velho, lindo!) e outro popular lá da escola logo de arranque no ano lectivo. Para mim tudo muito ponderado. Para ele uma seca. Era certinha depois, só pode!

Encontrei-o: está careca e tem dois filhos. A mulher veio logo ver com quem ele estava a conversar no meio de um shopping: “É uma amiga que não vejo há muito tempo”- lindo, de novo!) Mas claro, naquela época, já estava timbrada como a ex do gato-sucesso-da-escola. Veio, depois, o mesmo – o dos três anos, lembram-se? - e ok, a paixão e o encantamento de novo. Mais uma colheita no ano seguinte e pluff: sai-me outro bonitão na rifa (tinha mesmo a mania, mas com todos tive o mesmo problema: ou seja eles tinham um problema com as miúdas). Esse até hoje ficou-me atravessado. Se fosse a atrevida, teria, quem sabe, mandado o papelzinho: pelo menos não ficaria com a dúvida. Adivinhem o que vem a seguir: isso mesmo! Mais um para o histórico. Veio com um quase-papelzinho e durou 5 anos e meio. Do resto não falo, porque não é da época dos papeizinhos. Entrou na era telemóvel e, com ele os papeizinhos: em formato de extracto da conta do fim do mês. Eis-los! (E acho que o meu pai na altura, depois disto, não se importaria que os papeizinhos, também, tivesse vindo, em vez da conta do telefone).

domingo, julho 05, 2009

Fim de festa em Paraty

Mar de gente na chuva de Paraty

Ela tenta equilibrar-se entre as pedras. Chuvisca. As gotas adormecem mal tocam o chão. As solas das sandálias dela deslizam nas pedras traiçoeiras. Chapinhou na poça, molhou o pé. No sentido inverso, ele caminha sem olhar para a rua, com andar pausado, como se desde pequeno lhe conhecesse os segredos. E é a primeira vez que a pisa.

Pose irrepreensível, nariz pontiagudo, camisa cor-de-rosa, gravata verde-lima, fato moldado ao corpo. Este gentleman de chapéu elegante é Gay Talese, escritor norte-americano e um dos mestres do Novo Jornalismo, convidado para a Festa Literária Internacional de Paraty, FLIP - que hoje fecha o capítulo da sétima edição, no Brasil.

E... "Do Rio a Manaus, relatos de um certo Brasil"
Publicados hoje no Diário de Notícias

terça-feira, junho 23, 2009

Festas juninas!

Uma vez perguntaram-me, com ênfase, pompa e um certo tom embevecido:
-Van, você já foi em festa junina? Conhece? É muito legal. É uma tradição aqui do Brasil.
Resposta:
- Ah, é? Que óptimo! Estou curiosa. Engraçado, nós também temos uma coisa parecida. Acho que importamos do Brasil.

terça-feira, junho 16, 2009

Clínicas?



Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE). Ambulatório dos Viajantes. DMIP-HC-FMUSP-SUCEN… Aaatchim! Não é o lugar ideal para espirrar. Retire sua senha aqui. Jaguar: 13h23. Alerta aos viajantes: Cuidado com a febre-amarela. Vacine-se antes de viajar para os estados da região Norte, Centro-Oeste, Maranhão, Minas Gerais, ou para as margens do Rio Grande e Rio Paraná.
-595?
- Eu!
- Da gripe, né?
- Já tomou a vacina?
- Você pega quando?
- Hoje?
-Ah, tá bom então!
Apoiar sobre a barra para abrir. Abre o saco. Plástico encorrilhado. Tlac! O lápis na mesa.
-Ah, mas é rápido, rapidinho.
- Precisa tirar senha, né?
- Maria?

“Favor não retirar as cadeiras do lugar”. A pele tão sensível, amargada com chagas pontuais. A pele alva sem defesas. Parece pele de réptil esfacelado, tão solta, em ferida, queimada de um sol indesejado. Pestanas transparentes, quase imperceptíveis. Os pés gastos de ar, secos, vento e água. Gretados… Em queda livre para a crónica desidratação.
A mulher arrasta-se nos chinelos. Lambe um cone de gelado, “ta-ta-plac”.

-597, 598, 599?
Calendário oficial de vacinação para o Estado de São Paulo. Ao nascer: vacinas BCG – previne formas graves de tuberculose; Hepatite B – previne Hepatite B; 2 meses: vacinas poliomielite: previne paralisia infantil; Tetravalente (DTP+HIB); Difteria, Tétano, Coqueluche (Alguém sabia que esta doença existia? E tem vacina?); Hemófilo b; Rotavírus; 12 meses: Tríplice viral (SCR)- Sarampo, Caxumba, Rubéola; 60 anos ou mais: Influenza - previne a Gripe. Sociedade Beneficente Sírio-Libanês. Bata alva, cabelo dourado, olhos verde-cor-de-água. Retire a sua senha aqui. Parece sangue na boca. Comichão na cabeça; comichão nas articulações: diagnóstico: alergia a ambiente hospitalar. Assepsia. 071-71. O último número: V-Z-D-0-60-Z. Saída. Bairro Vila Ruiz, Campo lindo. É lá? Folheia a Gula: América Latina. Duas doses? Entra-sai-tac-tac. “Jesus te ama” – e saca a revista.

- Obrigada não vou querer.
-Mas Jesus te ama!
Cadeiras-de-rodas só pela saída. Não dê a volta, aqui é a entrada. Sapatilhas, sandálias. “Princípios de Neurociência, versão Brasil. A t-shirt. Bengalas, crachás.
- Já tô sentindo a dor no braço e ainda nem tomei vacina.
Bbatalhão de batas brancas; chinelos, sapatos sapateados. Atenção: Sala de espera, vacinas ao lado. Voz esganiçada-tomei-hélio-e-não-sei.
-Qual a vacina?
-A vacina!
-Qual vacina?
-Você não veio tomar vacina? Sim, mas qual vacina?
-Ah, a da gripe!

Fisiogel, Farmácia, Guararu, a capital do Forro. Parece um lagarto vermelho-queimado. Exposis. Luvas. Antibióticos. Infecção Urinária. Medicação, Prevenção. Amoxicilina? Galochas com capa? Laboratório de Malária. Próximo? Risco Biológico.
- Eu vou fazer uma história de um ano. Eu na verdade não sou jornalista. Sou estudante de jornalismo e vou ficar estudando uma comunidade na Índia. Ah não…eu trabalho em Escola. Está ficando difícil aqui.
“Proibido trocar fralda neste local”. “Não entre”. “Proibida a entrada de pessoas não autorizadas”. “0800”. “Hospital das Clínicas”. Sabrinas, sandálias, pés gretados, calças de ganga; calças de fato-de-treino; cadeiras, chão, chão, calças verdes de sarja, água. Dois óculos. Careca. Bata branca com jeans. EEP – investigando a vida. Braçadeira. Três doses. Contra a raiva.

-É bem doloroso. Nossa!
Consulta do viajante: Angola, Amazónia, Índia.
-Ah, eu vou para Portugal, achei melhor me consultar também. Precisa alguma vacina?
14h55. DIMEP. Ela troca fralda nesse local, abençoada pela placa: “Proibido trocar fralda neste local”. Bis, bis. C02. Autocolante. Extintor. “Quebrar em caso de emergência”. Borbulhas. Ombros à mostra.
-“Solange”!
- A gente vai tomar a da varicela, porque vamos fazer estágio no SGESP. Mas a gente já teve varicela.
- Tamo imune né? Eu não tô achando o comprovante.
Português deve ser bicho estranho…Ninguém se senta ao lado. –
Nossa, minha amiga tomou. E ela teve depois da vacina. –
Patrícia Cristina Ferreira. Vem!
Arrasta o pé como quem pede conversa.

- 623? 624? Venha por aqui senhora. 623, aqui! O que senhora está fazendo aqui? É para ficar ali e depois eu chamo para vocês virem para aqui [mudar de sala de espera a 50 centímetros].
- Mas eu já estou aqui. Você acabou de me chamar. –
Mas sou eu que chamo. E como vocês não responderam do lado de lá, veio essa senhora e passou na vossa frente.
- E qual a diferença se eu já estou aqui, não sabia, e me adiantei.
- Porque eu que sei. É para ficar esperando mesmo. Eu é que chamo. Lamento mas essa senhora, agora, vai primeiro.

- Você também veio tomar vacina, foi? Eu não vinha, vim visitar um amigo que está aqui internado. Mas como vi todo o mundo, pensei por que não, heim? Mas não trouxe minha carteirinha de vacinas. Uê? Não vou andar sempre com ela, né? Nem vinha preparada, mas já que vim, aproveitei. E você não vai tomar não? Tem que tomar todo o mundo para prevenir. Eu quando era pequena não tomei da rubéola e sofri para caramba! Nunca pensei que se pudesse morrer de rubéola. É forte pr’á cacete! Poxa! Mas e você não vai tomar?
- A senhora tá querendo que todo o mundo tome. Já percebi, tá nervosa perguntando para todo o mundo.
– Ah, mas agora anda aí esse vírus da gripe, melhor tomar.
- Ah, mas a senhora não sabe que não tem nada a ver uma com a outra.
- Como não? É tudo gripe! Assim, se todos tomarmos, ninguém pega.
- Próximo?
- Eu vim com meu filho fazer o exame de coração. A médica se enganou e mandou ele fazer o mesmo exame duas vezes. E ele não pode. Fica exposto aos raios. É demais. É uma violência para a criança.
- Febre-amarela? Ah, tá.
Extintor. Zlap, zlap de porta.
- Volta cá amanhã.
- Dá um beijo à tia. Valeu!
O homem das senhas.
- Boa tarde. É aqui mesmo!
Sentado com o dorso na parede falsa, cadeira rolante de escritório, bata cor-de-leite.

- Ele vai tomar a primeira dose. Não tem carteirinha. Anti-tetánico. Tem esquema desconhecido. E aí vai trazer a carteirinha do neuro-projecto, mas para já é isso!
Anemia! Falciforme.
- Oi?
Arrasta os pés no hão, como feira popular.
- Tem que fazer duas ou três placentas. E depois sorologia.
-É da professora de higiene.
Roça as mãos nas meias, nas sapatilhas, puxa-as: brancas-leite. Pele chocolate.
- Mãe? Mãe?
“Proibido trocar fralda neste… Sala de Espera de vacina.
- Por favor, aguarde ser chamado.
Uh! A mãe sai. Filho no colo. Fralda trocada.
- Até amanhã viu? Cadê a tia Cármen?
Olhos esbugalhados de sono. Olhos de choro, mimos, ternura. “Atenção: não devem receber as vacinas contra a febre-amarela, sarampo, caxumba, rubéola, varicela, catapora, …. As pessoas que…
- A senhora já teve câncer? Ah, é que não pode. Sistema asséptico. Anti-séptico humanidade.

segunda-feira, junho 15, 2009

Bielman F. Divã...



- Pode sentar-se no divã. O doutor já vai atendê-lo!
Tirou o casaco que se colava ao corpo. O deslizar das mangas na pele nua roçou os pêlos suados. Mergulhou no cadeirão. Olhou o tecto branco, vazio e pronto para a associação livre até à neurose. A sala cheirava a flores. Pensava que todos os consultórios cheiravam a hospital tentando ser assépticos para que o cérebro permaneça alertado de que o “não-lugar” é apenas de passagem e não se entregue aos truques psicossomáticos que só existem na utopia fora do corpo.

-Boa tarde. O meu nome é K. Você é o senhor Bielman?
- Dizem!
- É a primeira vez com um psicanalista?
- É, parece que vai ser um homem a tirar-me a virgindade nesse assunto.
- Não vai doer. Prometo!
- Sempre achei essa história de terapia coisa de loucos. Talvez eu esteja. Mas o que acontece é que nos últimos meses nem eu mesmo me aguento.
- E por que razão?
- Não consigo envolver-me com ninguém.
- E por que razão acha que isso é um problema?
- Desde que me divorciei o ano passado, entrei num ritmo de conhecer várias mulheres. Todas elas diferentes, Doutor. Mágicas, os corpos tenros, as ternuras. Mas, depois, quando querem coisa séria…Tudo começa com a escova de dentes, depois a lingerie, a maquilhagem. Quando percebo já fizeram cópia da minha chave-de-casa e estão a cozinhar para mim. Não aguento isso. Não quero mais isso. Chega uma altura em que mergulho num balde de água fria e começo a atirar-lhes gelo. Agredi uma, Dr.
-Costuma esclarecer, desde o início, as regras do jogo?
- Sempre. Conheço-as na noite, na paragem de autocarro, no metro, nos quiosques de jornais, no supermercado… Você sabia que o supermercado é o melhor ponto de engate para os solteiros? E aos 37 fica difícil resistir. Mas tem uma que sempre volta.
- Uma mulher?
- É. Não sei nada sobre ela. Já nos encontramos algumas vezes. Eu não pergunto nada. Não sei o que faz. Mas é como se a conhecesse desde sempre. Aqueles cabelos negros. A pele branca, escorregadia. O olhar embalado. Ela sempre aparece assim, sem avisar. De alguma forma acho que procuro por ela em todas as mulheres. Mas ela sempre desaparece antes de eu acordar. Não deixa rasto, nada. Eu não tenho coragem de lhe perguntar nada para não estragar o momento. É intenso, Dr. Fico em êxtase só de a ouvir falar. Ela passa semanas sem dizer nada. Simplesmente desaparece. Mas o melhor de tudo: é aquele cheiro que me hipnotiza e me leva ao útero Dr. Sinto-me a renascer. Mas há dois meses que não sei nada dela. …Acho que estou de ressaca.

-Acorda querido. Estavas a delirar. Deve ter sido da Fluoxetina que te injectaram. Estavas em transe profundo.
- Não, profundo é o poço do passado em que me arrastaste. Não sais da minha cabeça. És a minha doença, Loren.
Levantou a cabeça e o dorso para a abraçar.
- Não vais mais fugir de mim.
"Plufff". Ela desapareceu como espectro de fumo. O abraço foi um não-abraço seco ombro-no-ombro. Inexistente. Saiu bafo frio da boca dele. Nevava. Ouviu o eco do próprio pensamento. Um grito silencioso que rasga a alma e a despedaça por dentro. Mas no fundo do poço ninguém ouve. Mordeu a língua. E adormeceu…

sexta-feira, junho 12, 2009

quinta-feira, junho 11, 2009

quarta-feira, junho 10, 2009

Anatomias de liberdade

Chove lá fora, como agulhas pontiagudas lançadas do céu. Às vezes ela pensa que alguém acorda, lá do alto bem alto - no fim de um paradoxal infinito vertical- abre a janela e começa uma rumba de tiros ao alvo cá para baixo. Não vê nada. E em vez de pequenas gotas, envia ponteiras de água para se vingar. Por isso, as árvores vergam-se para as deixar passar, mesmo sedentas. Habitadas por pó, fumos, rejeições e intempéries, que as esfacela. Abdicam do vento. E enrolam-se umas às outras no esforço contínuo de viverem mais um pouco agarradas aos galhos.

Agora, as janelas das casas assobiam com rajadas de ares que trespassam os tecidos de Inverno colados aos corpos impreparados e arrepiados como rugas de pele de galinha. Eles não reparam. Olham-se. Engasgam palavras. Cada um mergulhado em silêncios abstractos. Deixam passar. Lá fora, milhões de formigas humanas, passam ininterruptamente agarradas aos casacos impermeáveis, como salvação do frio que esgarça a réstia de calor. Ouve-se o tilintar das chávenas. Os passos arrebatados na calçada. A máquina de café em som locomotiva –a-vapor.

– Todas histórias de amor deveriam ser breves.
- Como assim?
- Princípio, meio e fim.
- Mas isso tiraria os efeitos secundários.
- Por isso mesmo, não deveria haver. Já não temos idade para isso. E deveríamos saber quando seria a hora de deixar ir. Até que outro vício nos arrebatasse a alma.
- Beauvoir e Sartre viviam assim, separados, não só por princípio, mas porque não queriam ficar “estranhos” ao amor. À sensação de liberdade. Ou seja estrangeiros à vida.
- Nunca tinha pensado nisso. Mas não é disso que falo. Quero dizer: mais do que liberdade. Uma certa leveza que as histórias independentes nos dão, antes de se tornarem comuns. Com a idade deixamos de ter paciência para as histórias em comum e apenas nos satisfazemos na autonomia de um e outro, para cruzarmos, por vezes as experiências, as singularidades e, claro, aquilo que nos une. Como curiosos pela anatomia do outro.
- E à medida que deixares ir, vais agregando.
- Claro! Há dezenas de pessoas que te enchem a alma e que por decoro social não te permites estender a elas.
- Goethe falava disso ao falar do jovem Werther: “Nada melhor do que uma alma que se estende a nós”.
- Mas Werther era escravo da obsessão. Esses amores arrebatados são pesados e não libertam. É ainda mais sobre aquilo que dizes: quantos não se estendem a nós? Vê lá. Quantas pessoas já se estenderam a ti? Como se fossem, realmente, parte de ti?
- Três.
- E no final?
- Nenhuma.
- É isso. Perde-se a leveza com o desgaste. Não estamos ainda preparados para reinventar a paixão. E é nessa liberdade que nunca chegaremos lá. O encantamento é um vício que só se vive um momento em cada história. Se descobríssemos como reviver isso sem efeitos secundários, seríamos mais leves.
- O problema é que tudo é líquido. Não estamos preparados para partilhar. O que dizes é uma tentativa de fugires de ti.
- Nada! É a minha curiosidade pelos outros, e de achar que há sempre mais para viver. E que não temos de ficar presos a nada, a não ser à nossa liberdade de viver e olhar, exactamente como estamos preparados para ser.

O guardanapo voou. Caiu na calçada. Em segundos embebeu-se de chuva, que nunca tinha provado. Em segundos os passos apressados desfizeram-no. Em segundos respirou e voou. Viveu efémero. Um fôlego. Um rasgo.

Escorreguei no teu vinho...(Mais uma série de ficções)

A noite até começou molhada… Escorregadia. Mas longe de imaginar o que aconteceria depois. O deslize, esse. Ela dizia que era chuva oblíqua. Lembrei-me de Pessoa, o Fernando, que a descreve como rasgos desesperados da alma. O céu estava assim. Quase 22h e nós a olhar do alto do 11º andar. A cidade neste ciclo é uma mulher em pleno ataque de nervos, com overdose de TPM.

-Vais levá-la?
-Não, estás louca! Com este temporal. Tem de ficar na garagem. Esperamos lá em baixo que passe um táxi.
-Não, espera! Rua Monlevade, por favor. 15 minutos.
Aperta o botão. Aquele cheiro a madeira antiga andar a baixo, “click”.
-Vamos directas, melhor!
E esquecemo-nos do número. Só a Rua. Ali, na M.A. E o trânsito não tem solução. Pára-arranca na Paulista. Um verde-arranca que roça o vermelho-simbólico. Parados! E o taxista a insistir que eu era Corinthiana.
-E você, Palmeirense?
-São Paulino.
Entrou a "Portuguesa" ao barulho: o Clube. $ 13,70. 604. É este aqui!
-Viste as portas? Parece uma masmorra. Cárcere.
-É assim que vivem os paulistanos. Um dormir descansado enclausurado. É frio, sem nada. Paredes nuas.

Resgatamos o calor da casa. Na cozinha. E saltamos para o que importa: as caipirinhas, onde realmente começa a noite, e a sessão de abdominais louca-risada, remédio-malhação-perfeita-sem-grande-esforço-anfetaminas…

Ok, o sotaque estava lá. Ok, a camisinha dele até que tinha o ar da sua graça imigrante-geração-surf-eu-até-que-sou-jovem. E ok, as caipirinhas eram óptimas.
-Sabia que o morango é o fruto da paixão?
-Hum, sei! “Mas ‘passion fruit’ é a verdadeira e até que significa maracujá” – pensamento anulado segundos antes de cometer a heresia de dizer uma piada árida, quando a noite até tinha começado húmida.

-Eu conheço este senhor! (contaram a piada vezes sem conta a uns e outros que iam chegando, com sessões gratuitas de “la risada therapeuthique”, mas nunca encontramos a forma fidedigna de atingir a pureza e autenticidade da boca de onde saiu).
-Acho que já me foi apresentado! É director de uma empresa portuguesa qualquer. Espera, nem sei. Eu até achava que ele tinha sido contratado para fazer as caipirinhas.

“Laugh situation em OBS”: as piadas só têm realmente piada quando inseridas em determinado contexto… Excepção: esta terá sempre piada e quase iniciou um “sitcom-made-in-sampa”. Mas o rolê continuou. O B. está cá há dois meses. E D. resolveu dar uma lição a valer sobre como-comprar-bem-e-caro na Óscar Freire:

-“Querido, presta muita atenção na decoração das lojas. Isso é essencial aqui em São Paulo. Só assim você sabe se a loja é de qualidade, ou não. O mesmo está valendo para Restaurantes”.
Ao que F. se insurgiu em surdina, depois do relato:
-“Nisso tenho a teoria do meu pai: se o Restaurante estiver vazio, não entro. Nem que tenha de esperar na fila muito tempo, é lá que fico até encontrar um lugar à mesa”.

Já não sabemos é se essa conversa foi antes ou depois do diálogo astro-esotérico, com atendimento "Web-cam" desde o Brasil. E, depois aquela imagem: um metrossexual é sempre um ser esquisito digno das páginas da "National Geographic". Lá estava ele: Cintinho milimetricamente estudado para ser desalinhado. O mesmo para o cabelo. Um riso oco e sem vontade, mas aceite socialmente, diz a etiqueta. E tenho dúvidas se aquele discurso era real, fabricado ou improvisado-fajuto que todos fingiram acreditar.

A noite até nem ia nada mal, não fosse F. entornar vinho na cadeira alheia, M. começar com discurso pró-Serra, e G. (não o ponto, o Gajo) querer brindar aos portugueses com a namorada de L. de RG brasileiro (pior a emenda que o soneto):

-“Ah, pois não pode ser só um brinde aos portugueses, está aqui ela! Ok, brindemos, então: aos filhos dos portugueses”.
OOps!!! Fazendo com que a moça enrubescesse e L. emitisse biologicamente um engasgo controlado que passou para o olhar fulminante entre um “cala-te–lá-que-agora-é-que-me-vais-arranjar-problemas” e um "não-sei-que-te-faça-agora-se-estivéssemos-sozinhos".

De resto, não sabemos absolutamente nada do que se passou na antecâmara ao lado, as fontes não se manifestaram e não houve nada, realmente, NADA, que fosse estridente e mediático o suficiente para que tivéssemos reparado. Zoom in. Sala para onde interessa, com vista para a M.A.: M. estava a passar despercebido, como um pano molhado que suga vinho, depois da peleja pró-Serra que motivou uma conversa intelectual sobre o mercado brasileiro, até que, num surto psicótico,M., gajo, dá um beijinho na cara de L., Gajo, com a namorada ao lado - possivelmente a ponderar seriamente se valeria a pena ter filhos de portugueses.

-“Querido, faz uma vasectomia que é melhor, sempre pode sair alguém parecido com M.!”, pensaria!

Depois X. entediado, e com a lata de gelo na mão, disse que tinha de se ir embora pois no dia seguinte, intensa actividade física, seca - assegura - o esperava, na fazenda de alguém importante, que ninguém sabe que tem um caso com alguém proibido, depois de uma fotografia papparazzi ter vazado na internet. Sim, ninguém sabia até ali. O segredo está portanto muito bem guardado. Se agora me esqueço de algo é porque a minha religião não permite, não é digno de registo, ou a minha memória de mulher "pós-moderna", filtrou como deve de ser o que realmente não importa mais…

Next stop: J. Eugénio de Lima, mas antes uma incursão pedestre pela Óscar Freire – eu, herege, me confesso, porque que não prestei atenção à decoração interior das lojas, ainda que as luzes estivessem num momento “penumbra-by-light”.

Começou, depois, uma conversa escatológica sobre as razões de F. e A. quererem frequentar a JAL, antes do Charme e do glamour da Augusta. Mas a recepção da Eugénio veio a confirmar-se mais eficaz …. No canal erótico na recepção de A. e F. com cenas “Sado-maso” e "gajas boas" (acho que não eram de Ermesinde).

O Charme deu-me alucinações: parece que vi o Axel Rose, versão piorada e em plena crise adolescente; M. confessou ter o hábito de se levantar de madrugada para sugar tudo que existia de Fórmula 1 – (Convenhamos que há coisas piores, poderíamos não reparar na decoração da Óscar Freire). E mergulhei num estado de primeiro sono que quase me estragou a noite às 4h da manhã. O café intragável salvou-me a honra, para aquilo que seria, segundo F. e A., a minha real primeira vez, para roubar a virgindade de Augusta (olha que este também daria um título genial).

Foi então que nesse Vegas “huntz-tch-tch-puntz”, vimos o pai Natal sem barba "shaking-that-ass"; mexemos o corpo como quem leva pequenos choques e sai da maca para se sacudir ainda aturdido, como se o corpo regurgitasse em forma de espasmos; vimos o Pai-Natal novamente; a malta dancing queen no engate e a dançar como se os ombros se fossem desfazer percorrendo, liquidamente, as veias como ondas electromagnéticas que expelem pelos dedos; e vimos o Pai Natal a dançar de novo, desta vez num pára-arranca de quem quer andar mas não anda. Sem barba, já o disse? E nós ainda a abanar o corpo como adolescentes na sua primeira vez nas lides da noite, até ser dia. Sem o sabermos assim seria. Até que num vai escada-acima-escada-abaixo-escada-acima ficamos com a mania de dizer: o SOM-AQUI-É-SEMPRE-MUITO-BOM, mesmo que já o tenhamos dito nessa giga de cima-e-abaixo. “Click, blat”. Mais uma cerveja, o líquido âmbar que cai aveludado pela garganta depois de um primeiro teste na boca.

-Stella? Como é que pedes Stella Artois, aqui?
Ou ele estava bêbado, ou com surto de imersão antropológica a fazer trabalho de campo, e busca de respostas inusitadas, ainda às 5h da manhã, seriam? Mas o mais inusitado seria isto:

-O meu primo tem a mania de me apresentar pessoas a altas horas da matina, que não conseguem manter um diálogo e que certamente não se lembrarão de mim no dia seguinte!
Mas foi o primo, o lúcido, no passo seguinte. A. dixit:
-“Não se assustem, lá fora com o sol. Vai ser dia!”.
Dúvidas… E os óculos de sol imprescindíveis, quando ainda a música ia alta e a porta se abria assim, na escuridão do que seria ainda noite, para nos dar o dia…
-Este aqui é o D-Edge né? Vim de propósito aqui mostrar aos meus amigos este bar: o D-Edge né? Muito bom!
-Tá louco cara, aqui não é o da D-Edge não. Aqui é o Vegas. O D-Edge é lá na Barra Funda.
-A sério? Que bar horrível então. Legal é o da D-Edge.
Com este diálogo começaria portanto um novo capítulo nesta saga. Ebriedade. Ah, antes de chegarmos lá temos de passar em todos os botecos da rua.
-Ah, há um que é onde tem mais drogados. Isto é São Paulo. Perdon, una copa?
-Oi?
- Ah é muito legal aqui, com estes copos todos. Mal-educado, não tem sentido de humor. Bohemia ou Brahma?
-E tu? Não bebes nada. Ah fraquinha. Estás bem?
-Gente vamos embora. Aqui já deu o que tinha a dar. Então, bom dia, é isso! Ah, você é da Gol? Ah, TAM, muito bem. E você chora sempre que ele vai embora? E vai voar? Ah, não fala nisso não.
-Olha um pólo igual ao teu. Com crocrodilo, em preto. Boa? Na mesma loja.
-Ah, vá não me deixem para trás. Até fiquei com medo.
-Olhe, você é daqui do Savoy? Sabe quanto fica um quarto.
-Depende?
-Ah, para três? Oi? (Mãos devem ter deslizado no suado. O gole da saliva deve ter sido em seco. As pupilas dilataram e os olhos esbugaralham). Como assim? Ah é que a gente está sempre junto e só fazemos tudo os três. Não tem jeito. Mas você sabe quanto fica um quarto aqui para nós?
– Ah, para três é difícil, não dá não. É só para duas pessoas.
-E como a gente faz para três?
– Mas quanto tempo seria? Ah, até eu g...
(Glup, de novo, desta vez com um trago mal dado da saliva que saiu ácida e em velocidade azia. Ahhck).

-3 horas?
-Ih, você acha que três horas chegam?
Enquanto isso o segundo elemento contorcia-se de risos convulsivos encostado a uma parede e o terceiro elemento, que entretanto assistira a tudo em primeira fila, sem proferir uma palavra, ainda em estado de choque.
-Mas vai lá perguntar, talvez eles possam te ajudar. Vai lá, vai.
-Como você se chama? Valeu Tiago. (E o Tiago com certeza a partir de agora poderia brilhar no circuito das amizades com uma história assim transformada em piada que pareceu, afinal, ser muito séria.

Os próximos passos têm duas letras: BH… O mais famoso lugar da Seleta na Augusta. Para um prato feito às 8h da manhã e a destoar um suco de goiaba e uma salada de frutas do segundo elemento, entre o sei-lá-o-que-comerei-só-não-quero-arroz-e-batatas-logo-pela-manhã. Mas acabou por depenicar o arroz de A., que por sinal estava óptimo. A dar sinais de fraqueza o primeiro elemento, que entretanto ainda não tinha gozado, começa a baixar a cabeça, até que M. o cara do "não-não-não-não-não-tem-problema" chega com ar dúbio e desconcertado. E ainda tinha de rodar os olhos até uma qualquer cidade do interior porque era dia das mães e ele, afinal, ainda não tinha comprado a prenda que queria. Por esse andar talvez não comprasse nunca e usasse aquela resposta óbvia e obsoleta: você quer melhor prenda do que eu, seu filho? Ahhhh,pois então…

A. mostrava cada vez mais sinais de irritabilidade. Levantou-se de zás-final-é-agora e pagou. Nunca mais lhe sentimos o rasto. Restou uma mesa a dois. Uma salada de fruta inacabada, com banana. Arroz por comer. E a manhã ali tão alta… A Augusta assim é um antídoto contra a crise e onde o mundo se refugia para expiação. Céu, inferno, pecado e abolvição. Perdição engenhosa para cuidar das coisas da alma e da insónia. Anti-depressivo que se dissolve na alma, em vertigem de vícios irreparáveis, irreversíveis. A noite terminaria assim. Num começo de um dia. Com expiação.

P.S: Ah, é verdade! Escorreguei no teu vinho… A sapatilha ainda plissou no líquido frutado que se entranhou “no chão daquela varanda”… Oops! Olha, bem vistas as coisas esse poderia ser o título do livro! No chão daquele varanda… Quinky?

terça-feira, junho 09, 2009