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terça-feira, junho 16, 2009

Clínicas?



Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE). Ambulatório dos Viajantes. DMIP-HC-FMUSP-SUCEN… Aaatchim! Não é o lugar ideal para espirrar. Retire sua senha aqui. Jaguar: 13h23. Alerta aos viajantes: Cuidado com a febre-amarela. Vacine-se antes de viajar para os estados da região Norte, Centro-Oeste, Maranhão, Minas Gerais, ou para as margens do Rio Grande e Rio Paraná.
-595?
- Eu!
- Da gripe, né?
- Já tomou a vacina?
- Você pega quando?
- Hoje?
-Ah, tá bom então!
Apoiar sobre a barra para abrir. Abre o saco. Plástico encorrilhado. Tlac! O lápis na mesa.
-Ah, mas é rápido, rapidinho.
- Precisa tirar senha, né?
- Maria?

“Favor não retirar as cadeiras do lugar”. A pele tão sensível, amargada com chagas pontuais. A pele alva sem defesas. Parece pele de réptil esfacelado, tão solta, em ferida, queimada de um sol indesejado. Pestanas transparentes, quase imperceptíveis. Os pés gastos de ar, secos, vento e água. Gretados… Em queda livre para a crónica desidratação.
A mulher arrasta-se nos chinelos. Lambe um cone de gelado, “ta-ta-plac”.

-597, 598, 599?
Calendário oficial de vacinação para o Estado de São Paulo. Ao nascer: vacinas BCG – previne formas graves de tuberculose; Hepatite B – previne Hepatite B; 2 meses: vacinas poliomielite: previne paralisia infantil; Tetravalente (DTP+HIB); Difteria, Tétano, Coqueluche (Alguém sabia que esta doença existia? E tem vacina?); Hemófilo b; Rotavírus; 12 meses: Tríplice viral (SCR)- Sarampo, Caxumba, Rubéola; 60 anos ou mais: Influenza - previne a Gripe. Sociedade Beneficente Sírio-Libanês. Bata alva, cabelo dourado, olhos verde-cor-de-água. Retire a sua senha aqui. Parece sangue na boca. Comichão na cabeça; comichão nas articulações: diagnóstico: alergia a ambiente hospitalar. Assepsia. 071-71. O último número: V-Z-D-0-60-Z. Saída. Bairro Vila Ruiz, Campo lindo. É lá? Folheia a Gula: América Latina. Duas doses? Entra-sai-tac-tac. “Jesus te ama” – e saca a revista.

- Obrigada não vou querer.
-Mas Jesus te ama!
Cadeiras-de-rodas só pela saída. Não dê a volta, aqui é a entrada. Sapatilhas, sandálias. “Princípios de Neurociência, versão Brasil. A t-shirt. Bengalas, crachás.
- Já tô sentindo a dor no braço e ainda nem tomei vacina.
Bbatalhão de batas brancas; chinelos, sapatos sapateados. Atenção: Sala de espera, vacinas ao lado. Voz esganiçada-tomei-hélio-e-não-sei.
-Qual a vacina?
-A vacina!
-Qual vacina?
-Você não veio tomar vacina? Sim, mas qual vacina?
-Ah, a da gripe!

Fisiogel, Farmácia, Guararu, a capital do Forro. Parece um lagarto vermelho-queimado. Exposis. Luvas. Antibióticos. Infecção Urinária. Medicação, Prevenção. Amoxicilina? Galochas com capa? Laboratório de Malária. Próximo? Risco Biológico.
- Eu vou fazer uma história de um ano. Eu na verdade não sou jornalista. Sou estudante de jornalismo e vou ficar estudando uma comunidade na Índia. Ah não…eu trabalho em Escola. Está ficando difícil aqui.
“Proibido trocar fralda neste local”. “Não entre”. “Proibida a entrada de pessoas não autorizadas”. “0800”. “Hospital das Clínicas”. Sabrinas, sandálias, pés gretados, calças de ganga; calças de fato-de-treino; cadeiras, chão, chão, calças verdes de sarja, água. Dois óculos. Careca. Bata branca com jeans. EEP – investigando a vida. Braçadeira. Três doses. Contra a raiva.

-É bem doloroso. Nossa!
Consulta do viajante: Angola, Amazónia, Índia.
-Ah, eu vou para Portugal, achei melhor me consultar também. Precisa alguma vacina?
14h55. DIMEP. Ela troca fralda nesse local, abençoada pela placa: “Proibido trocar fralda neste local”. Bis, bis. C02. Autocolante. Extintor. “Quebrar em caso de emergência”. Borbulhas. Ombros à mostra.
-“Solange”!
- A gente vai tomar a da varicela, porque vamos fazer estágio no SGESP. Mas a gente já teve varicela.
- Tamo imune né? Eu não tô achando o comprovante.
Português deve ser bicho estranho…Ninguém se senta ao lado. –
Nossa, minha amiga tomou. E ela teve depois da vacina. –
Patrícia Cristina Ferreira. Vem!
Arrasta o pé como quem pede conversa.

- 623? 624? Venha por aqui senhora. 623, aqui! O que senhora está fazendo aqui? É para ficar ali e depois eu chamo para vocês virem para aqui [mudar de sala de espera a 50 centímetros].
- Mas eu já estou aqui. Você acabou de me chamar. –
Mas sou eu que chamo. E como vocês não responderam do lado de lá, veio essa senhora e passou na vossa frente.
- E qual a diferença se eu já estou aqui, não sabia, e me adiantei.
- Porque eu que sei. É para ficar esperando mesmo. Eu é que chamo. Lamento mas essa senhora, agora, vai primeiro.

- Você também veio tomar vacina, foi? Eu não vinha, vim visitar um amigo que está aqui internado. Mas como vi todo o mundo, pensei por que não, heim? Mas não trouxe minha carteirinha de vacinas. Uê? Não vou andar sempre com ela, né? Nem vinha preparada, mas já que vim, aproveitei. E você não vai tomar não? Tem que tomar todo o mundo para prevenir. Eu quando era pequena não tomei da rubéola e sofri para caramba! Nunca pensei que se pudesse morrer de rubéola. É forte pr’á cacete! Poxa! Mas e você não vai tomar?
- A senhora tá querendo que todo o mundo tome. Já percebi, tá nervosa perguntando para todo o mundo.
– Ah, mas agora anda aí esse vírus da gripe, melhor tomar.
- Ah, mas a senhora não sabe que não tem nada a ver uma com a outra.
- Como não? É tudo gripe! Assim, se todos tomarmos, ninguém pega.
- Próximo?
- Eu vim com meu filho fazer o exame de coração. A médica se enganou e mandou ele fazer o mesmo exame duas vezes. E ele não pode. Fica exposto aos raios. É demais. É uma violência para a criança.
- Febre-amarela? Ah, tá.
Extintor. Zlap, zlap de porta.
- Volta cá amanhã.
- Dá um beijo à tia. Valeu!
O homem das senhas.
- Boa tarde. É aqui mesmo!
Sentado com o dorso na parede falsa, cadeira rolante de escritório, bata cor-de-leite.

- Ele vai tomar a primeira dose. Não tem carteirinha. Anti-tetánico. Tem esquema desconhecido. E aí vai trazer a carteirinha do neuro-projecto, mas para já é isso!
Anemia! Falciforme.
- Oi?
Arrasta os pés no hão, como feira popular.
- Tem que fazer duas ou três placentas. E depois sorologia.
-É da professora de higiene.
Roça as mãos nas meias, nas sapatilhas, puxa-as: brancas-leite. Pele chocolate.
- Mãe? Mãe?
“Proibido trocar fralda neste… Sala de Espera de vacina.
- Por favor, aguarde ser chamado.
Uh! A mãe sai. Filho no colo. Fralda trocada.
- Até amanhã viu? Cadê a tia Cármen?
Olhos esbugalhados de sono. Olhos de choro, mimos, ternura. “Atenção: não devem receber as vacinas contra a febre-amarela, sarampo, caxumba, rubéola, varicela, catapora, …. As pessoas que…
- A senhora já teve câncer? Ah, é que não pode. Sistema asséptico. Anti-séptico humanidade.

segunda-feira, junho 15, 2009

Bielman F. Divã...



- Pode sentar-se no divã. O doutor já vai atendê-lo!
Tirou o casaco que se colava ao corpo. O deslizar das mangas na pele nua roçou os pêlos suados. Mergulhou no cadeirão. Olhou o tecto branco, vazio e pronto para a associação livre até à neurose. A sala cheirava a flores. Pensava que todos os consultórios cheiravam a hospital tentando ser assépticos para que o cérebro permaneça alertado de que o “não-lugar” é apenas de passagem e não se entregue aos truques psicossomáticos que só existem na utopia fora do corpo.

-Boa tarde. O meu nome é K. Você é o senhor Bielman?
- Dizem!
- É a primeira vez com um psicanalista?
- É, parece que vai ser um homem a tirar-me a virgindade nesse assunto.
- Não vai doer. Prometo!
- Sempre achei essa história de terapia coisa de loucos. Talvez eu esteja. Mas o que acontece é que nos últimos meses nem eu mesmo me aguento.
- E por que razão?
- Não consigo envolver-me com ninguém.
- E por que razão acha que isso é um problema?
- Desde que me divorciei o ano passado, entrei num ritmo de conhecer várias mulheres. Todas elas diferentes, Doutor. Mágicas, os corpos tenros, as ternuras. Mas, depois, quando querem coisa séria…Tudo começa com a escova de dentes, depois a lingerie, a maquilhagem. Quando percebo já fizeram cópia da minha chave-de-casa e estão a cozinhar para mim. Não aguento isso. Não quero mais isso. Chega uma altura em que mergulho num balde de água fria e começo a atirar-lhes gelo. Agredi uma, Dr.
-Costuma esclarecer, desde o início, as regras do jogo?
- Sempre. Conheço-as na noite, na paragem de autocarro, no metro, nos quiosques de jornais, no supermercado… Você sabia que o supermercado é o melhor ponto de engate para os solteiros? E aos 37 fica difícil resistir. Mas tem uma que sempre volta.
- Uma mulher?
- É. Não sei nada sobre ela. Já nos encontramos algumas vezes. Eu não pergunto nada. Não sei o que faz. Mas é como se a conhecesse desde sempre. Aqueles cabelos negros. A pele branca, escorregadia. O olhar embalado. Ela sempre aparece assim, sem avisar. De alguma forma acho que procuro por ela em todas as mulheres. Mas ela sempre desaparece antes de eu acordar. Não deixa rasto, nada. Eu não tenho coragem de lhe perguntar nada para não estragar o momento. É intenso, Dr. Fico em êxtase só de a ouvir falar. Ela passa semanas sem dizer nada. Simplesmente desaparece. Mas o melhor de tudo: é aquele cheiro que me hipnotiza e me leva ao útero Dr. Sinto-me a renascer. Mas há dois meses que não sei nada dela. …Acho que estou de ressaca.

-Acorda querido. Estavas a delirar. Deve ter sido da Fluoxetina que te injectaram. Estavas em transe profundo.
- Não, profundo é o poço do passado em que me arrastaste. Não sais da minha cabeça. És a minha doença, Loren.
Levantou a cabeça e o dorso para a abraçar.
- Não vais mais fugir de mim.
"Plufff". Ela desapareceu como espectro de fumo. O abraço foi um não-abraço seco ombro-no-ombro. Inexistente. Saiu bafo frio da boca dele. Nevava. Ouviu o eco do próprio pensamento. Um grito silencioso que rasga a alma e a despedaça por dentro. Mas no fundo do poço ninguém ouve. Mordeu a língua. E adormeceu…

sexta-feira, junho 12, 2009

quinta-feira, junho 11, 2009