








































Ficar demasiado tempo com um texto em mãos é um exercício doloroso, de expiação de palavras desnecessárias e penitência. É aí que perdemos os filtros e nos concentramos nos vícios da nossa escrita, como um rasgo de cegueira condicionada. Perdemos a paciência e deixamos de ver onde, realmente, temos ainda de mudar. Tudo nos parece, já, dolorosamente mau e penoso para olhar novamente. Mas achamos que não está bom o suficiente. E talvez nunca venha a ficar. Problema o meu; e de quem perder tempo a ler-me. Escrever é, portanto, entenda-se, uma neurose insuperável que cria indeléveis e irreversíveis recalcamentos. Onde a terapia deveria sê-lo, percebemos, agora que a terapia precisa da terapia de si. Alguma sugestão para recuperação de costureiros-de-palavras-em-crise?

Saiu do hospital às 4h12 “sharp”. Flashback: às 4h entrou-lhe nos cuidados intensivos a mulher em coma alcoólico. Overdose de Prozac e muitos cigarros no cardápio biológico. Conhecia-lhe os vícios. O casamento é fio que se ata esfiapado. O dele fora um de pesca, invisível, mas que lhe incomodava as entranhas e os electrólitos do corpo, quando se anula. O corpo é electricidade. Porque não haveria de os ter? Ziiip!Se ele não falar, existe? Dito assim faz sentido. A vida é mecânica, deixá-la ser. Melhor mesmo só a literatura de W.C. Luvas esterilizadas. Análise.Respira? Responde? Diagnóstico. Apatias. Corpo-gelatina! O rosto desfigurado roubou-lhe a identificação daquele “era”. O ser não é! Já disse que lhe conhecia os vícios. Ah? Deixou-lhe o cheiro nos lençóis gastos, a tarde passada. Saíra às 18h22 “sharp”! Deixou sola nas escadas. Pele no puxador da porta. Um afecto acomodado nas entranhas! E agora, não lhe conhecia a textura. Saiu do contexto: tem percepção viciada. Não vemos o é, apenas o “foi-já-visto”. Bielman A. não a percebeu. 4h07. Corpo deixado, anulado, já era. Dezenas viu, em noites assim. Domingo para segunda. A noite mais deprimente para elas. Eles têm a TV. A comida rançosa no sofá. O cheiro nauseabundo da discussão em fase terminal. Mas onde há onda electromagnética, há reacção. E elas não suportam as ruas de Domingo à noite. Resta-lhes Prozac fora da validade. Álcool a 5 reais. E um orgasmo simulado. 4h11.Bielman A. mandou-a para a morgue. Apanhou a caixa de fósforos que lhe deixou na mesa-de-cabeceira. Ainda cheirava a vela ardida. Pensou se teria ardido, antes, ou depois do fôlego final. Lembrou-se! Ainda iria a tempo de saber!
Às vezes parece que "me estou a ler". Evito pensar alto, porque me perco. Sou páginas em branco, às centenas, ou livro mal acabado. E o formigueiro em mim resgata-me de o fazer. Quando penso, sequer, agarro-me ao chão para encontrar o lado esotérico que me falta. E, nas entrelinhas do asfalto, já encontrei o calor ausente desta alma de blocos de gelo. Não cedo. Aquele brilho irrita-me. Ofusca-me os olhos e tira-me lucidez. A+B. Se a vida, afinal, fosse assim tão higiénica e equacionada, não precisaríamos da abstracção para nos complicar o diálogo. Espera, contigo sempre foi monólogo, afinal. Asséptico. Se pudesse derretia o que sinto por ti nesse asfalto quente, colado a piche negro com gravilha para ser a base plana por que atravessam os pneus desesperados. Como as pessoas em ti. Ok. Gostava de saber se faz sentido afinal. Mas não há juízes do bom senso. Cabe em nós. Deveria? Se nós é tão díspar de eu. 
O ano passado foi o sul. O estado de Santa Catarina, um dos mais desenvolvidos em todo o Brasil, foi devastado pelas cheias, em 2008. A chuva foi implacável. Agora os estados do Maranhão, Pará, Piauí, Rio Grande do Norte e Bahia estão a ser fustigados pelas chuvas. Milhares de desalojados, vítimas mortais, risco de epidemias, subida do nível da água dos rios que tudo arrasta e a miséria...





“Ainda o farias? Estás a falar a sério? Contigo não teria problema. Foste a primeira. Eu faria. Agora. Nervoso, vinte anos depois, puxou-a para ele, deslizou as mãos no rosto e encostou os lábios para o efeito almofada. Quando sentiu a boca molhada, puxou os lábios carnudos e saboreou o desejo com o doce do Porto que ainda se escondia, lascivamente, nas reentrâncias digitais da boca. O que imprimiste em mim? O mesmo cheiro. O mesmo sabor, apesar do adocicado líquido. Resgatei vinte anos. Assim tanto e nada mudou. O tempo do amor é de baú. O polegar roçou-lhe nos olhos, sentiu-lhe a vida por eles. As rugas. O branco dos cabelos. E a intensidade rasgada do brilho que ainda respondia como fruta madura que se esmaga na mão, como se derretesse o tempo. Eu faria. Ainda quero. Não sabia que queria. Assim. Lamento-o por ser tarde. O corpo atirou-se para cima da mesa. Não queria era que tivesse esse peso. Não. Só porque realmente quero. E não sabia que queria. Estás mesmo a falar a sério? Puff. Só não tenho dinheiro. Quero sentir-te de novo. Vamos embora. O casaco roça o corpo. Engana o frio. A humidade faz com que o respirar seja bafos visíveis. Afinal tenho frio. Mesmo que não tivesse fingiria só para que me agarrasses de novo. Lembras-te? Daquela primeira vez? Foram várias até ser. Será como a primeira? Quero ir-me. Leva-me. Não sei como será. Mas é magnético. Será bom. Agora não posso, deixa-me lá. E amanhã? Ainda terás tempo para mim? Mais um dia. Um tempo. Aqui, depois de almoço. Manda-me mensagem quando chegares a casa. Acordei a pensar em ti. O desejo levou-me a sonhar-te. A entrar em ti, com beijos em ti. Seria como um Almodôvar em preto-e-branco que entra nela. Ou ela que nunca saiu dele. Eu também. Leva-me. Como me adivinhaste? Lembras-te que me disseste que depois do final seríamos amantes eternos? Vamos. Sem rodeios agora. Foi demasiado bom e inesperado para te perder. É como se ficasse para sempre com este desejo, esta história para acabar. És feliz? Não achas que seja. Agora é tarde. Mas não para o desejo. Não sabia que ainda te desejava assim. Estás diferente. O tempo rasgou-te. Ao menos, agora, não foges de ti. Leva-me. Segue. Vais por aqui. E já aqui estiveste? Com quem? Há muitos anos. Não interessa. Abre a porta. Acende a luz. Aquece a água. Enrosca-te em mim, como fazias. Estou nervoso. Só quero olhar-te. Outros quereriam despachar o voraz negócio líquido. Eu quero saborear-te. Adoro esta sensação. A de me levares. Antes era diferente. É novo para mim. Bom. Melhor ainda. Lembras-te quando adormecia no teu peito antes do pôr-do-sol? Ardente. Acordávamos suados com a porta a bater. Desliza-me em ti. Se calhar nunca mais nos vemos. Viste o perigo disto? Não sabia que ainda te queria assim, depois de tudo. Absoluto. Inesperado. Magnético. Vem. Demasiado. Foi há vinte anos. E agora se não é só isto e também não é amor o que é? Vem. Fecha os olhos. Solta-me. Troca comigo. Agora estou aqui. Amanhã já não. Quando voltas? Nunca saberei. Será que volto? Vamos? Temos de ir… É tarde. Porque não ficamos? Percebeste como somos intocáveis. Perigosos. Agora vais. Ainda te quero. Ela vai estar em casa. Deixa-a. Agora vai. Um dia. Será que nos reveremos, mais vinte anos? Não aqui. Onde será? Nesta vida nada se resolve. As agruras ficam. adormecem. É magnético. Vai. Desliza em mim. Deixa-me ir. “Ainda o farias?"
Augusto Boal e agora o poeta Mário Quintana. No fundo, eles só voltaram para casa. Nisso sou muito "chapliniana". Que a vida pode terminar em "rewind", apenas e somente como se de um orgasmo se tratasse. E estes senhores, que nestes últimos dias a imprensa diz que se foram, eu sei que gozaram esta vida da melhor maneira. E eu admiro os homens que não têm medo de o ser. A obra de Boal conhecia de perto, porque fiz Teatro do Oprimido. A de Mário Quintana ainda sou pequena para o desfrutar como merece...Pelo menos apanharam o comboio juntos e cumpriram o velho sonho de infância. 
Se há coisa que me deixa em rotação de desnorte são as janelas em ti. Abres uma e deixas o vento entrar. Esqueces de a fechar. Depois abres as portadas da de madeira rangente, com as dobradiças ainda mal acordadas do sono de velhice, sem as deixares chiar devagarinho como merecem. Abandona-la porque o que vês através dela, o além de agora, não é suficiente. As de vidros estilhaçados já não te servem. Nem as de persianas verdes. Os teus olhos já não o são. Já não os querem mais. Nunca te lembras de as fechar. Depois não sabes porque vem o vendaval. És como uma corrente de ar que bate as portas entreabertas até partires as fechaduras. Melhor do que isso, seria estares no alto do miradouro de olhos vendados. Verias melhor sem o frio da brisa cortante. Não precisas delas para ser...



