quarta-feira, agosto 18, 2010

O inquilino I

Vivo no fim de mim, que é o mesmo que dizer que não há mundo, como o vemos, que caiba no pouco que vivo. Não saio, não me dou com os vizinhos, não os conheço, nunca os vi, nem sequer faço questão de ter qualquer convivência com a orgânica de uma comunidade fingida e forçada como pode ser a de um prédio.

Não escolhi os meus vizinhos e, se pudesse escolher, não os escolheria. Andamos todos aqui a fingir que nos toleramos, quando, no fundo, o que desejamos é apagar vidas da nossa, e que nunca mais nos apareçam à frente. Só que, por um certo decoro do código social, aprendemos a imitar os gestos e a ensaiar as respostas da boa convivência. Uma treta. Somos uns farsantes. E a mesma palavra proferida por bocas diferentes pode ter gravidade de verdade ou mentira, conforme a formação avançada do farsante. Só que, como não andamos por aí com medidor desses níveis, acabamos por fingir que acreditamos, embora a intuição, o melhor dos medidores, e que ignoramos, nos diga o contrário. Foi por isso que decidi, há três anos, circunscrever-me, voluntariamente, a quatro paredes, com dois pilares principais que seguram a estrutura deste habitat. Houve outras razões, mas isso nada importa agora. Estariam a querer saber mais do que estou preparado para vos contar. O passado pode tornar-se um livro queimado: fi-lo, e orgulho-me de o ter feito com isenção das queimaduras que pode deixar a heresia de se o fazer o mental Fahrenheit 451 (o calor ideal para queimar a literatura).

É, a memória é um livro volátil e perecível, melhor se o pudermos liquidar. E a nossa literatura mental tem lugares muito mal-frequentados. Se aprendermos a dar-nos com o cérebro, podemos convencê-lo a apagar esse livro biológico, queimando-o.

Quanto aos vizinhos, se tivesse que escolher, reforço, não escolheria nenhum deles, porque preferia viver sem anexos ao redor. Não me incomoda o barulho da rua, da avenida, as motos a passar, aceleradas, às quatro da manhã, os travões dos autocarros velhos a chiar e o inferno sonoro à hora de ponta. Juro, não me incomoda esse estrondo de urbanidade. Incomoda-me mais a algazarra doméstica. Os cães a ladrar (nunca entendi como é que alguém pode ter um animal num prédio: fora com eles) os berros das crianças mal-educadas que saem do 5ºC como se lhes estivessem a arrancar os cabelos (não posso assegurar que isso não possa estar, realmente, a acontecer; mas mesmo que estivesse estar-me-ia pouco nas tintas), as conversas vazias sobre a telenovela e queixumes das beatas do 5ºA e 5ºB.

E, depois, há os insultos do burgesso do 6º D, bem por cima de mim, que resolve bater na Jasmina – ouço-lhe da boca- sempre que chega a casa, como desporto - apercebi-me - escancarando, religiosamente, a garrafa de cerveja do chão quando ela lhe bate a porta do quarto. Ou o óbvio ruído das molas da cama a chiar de luxúria-animal, sempre cadenciadas pelo treme-treme do meu candeeiro do quarto, todos os dias. Resolvi, por isso, mudar o colchão onde durmo para outra divisão. Só tinha três hipóteses: o WC, a sala ou cozinha. Rendi-me ao mais óbvio, que esfria sempre um pouco quando chega o Inverno rigoroso do Norte (mas não pensem que esta será alguma coordenada para decifrarem onde moro), pois a corrente de ar dos anexos, trespassa as frinchas das janelas da cozinha.

Nunca as arranjei, nem permito, agora que algum marmanjo, estranho, me entre pela casa e me invada. Precisaria de um mês para me recompor do contacto, que é o mesmo que dizer, para me purificar de uma certa ideia de humanidade, que não passa de uma grande léria. Nós não somos todos humanidade, e não deixamos legado nenhum. E um mês é demasiado tempo para o perder a recompor-me no contacto, quando o tempo é um fio ténue e esgarçado, que se esfiapa cada vez mais, dia-a-dia, até ao rompimento final.

Apercebo-me que se, por acaso tivesse de conviver com alguns desses palermas que formam o microcosmos da minha vizinhança, que para mim não passam de maiores parasitas do que eu (não faço mal a ninguém e ainda os poupo à minha insignificante, porém perturbante presença), não saberia como fazê-lo, limitando-me a grunhir alguma coisa e virar costas, arrastando-me - que foi a melhor forma que encontrei de me deslocar. Sou uma figura arrastada, já perceberam.

E se perceberam, há uma coisa que gostaria de rectificar neste discurso. Há pouco equivoquei-me. Não fui absolutamente sincero quanto aos vizinhos. Em três anos, por aqui, muita coisa mudou, e desde que arranjaram o elevador já não sei dizer ao certo quais os supostos contíguos que vi, no início, antes da minha reclusão, para poder, com acuidade, cruzar o conhecimento sobre a genealogia da vizinha actual. Mas rectifico: recordo-me que conheci uma vez a velha do rés-do-chão. Uma louca macilenta. Que me pedia sempre para lhe ir comprar pão. Parece que me esperava.

De todas as vezes, como não estava para aturá-la, respondia-lhe torto e dizia-lhe que, se ela tinha pernas e ainda poderia fazer bom uso delas, para alguma coisa serviam. Ela baixava a cabeça, recolhia-se e trancava a porta. Só que, no dia seguinte, ela voltava a fazer o mesmo. E foi assim por dois anos, até me recolher. Era uma mulher esquisita, que, como eu, não deveria andar por aí solta, fora de portas de um certo habitat. Aliás, deveria ser feita uma lei que assim o determinasse. As pessoas esquisitas, estranhas e sem boa figura para se mostrar, deveriam ser proibidas de sair à rua.

5 comentários:

Anónimo disse...

Belíssimo :)

Vanessa Rodrigues disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vanessa Rodrigues disse...

Obrigada Hugo, beijoca!

Anónimo disse...

Brilhante.

Vanessa Rodrigues disse...

Obrigada, Anómimo!!!