sexta-feira, maio 29, 2009

[Geração Raz/ca #4]

Entendem a linguagem VHS, são fãs de Cerélac e de pastilhas elásticas "Gorila". “Agora Escolha” é um nome que não esqueceram. Um certo jornalista e uma certa ministra da Educação baptizaram-nos de "Geração Rasca". Escolheram. Andam a fazer do mundo um estudo de caso com rebeldia na alma e mobilidade nas veias. No meio, aprendem o que é ser português. Sem lápis azul, reinventam os sonhos e uma certa ideia de cidadania. A "Crónica Luna Samba" anda à procura desses portugueses. A quarta dose: glup, com muita preguiça!

[“Minuim”, biodiversidade e, afinal, o que é isso tem a ver com Preguiça?]

Anda a sair da casca. E a culpa é da preguiça no Brasil. A comum. Está de malas feitas para o Acre, na Amazónia, onde vai ver de perto os passos do extractivista seringueiro Chico Mendes. Em nome da biologia, a sua paixão. Na do neotrópico encontrou-se e resolveu virar o jogo ao contrário. Pesquisador-objecto de estudo- pesquisador. Como a pesquisa da preguiça-comum é uma redescoberta. E não, isto não é terapia: “é biodiversidade”.

[Zoom in]
Sofia Marques Silva, 27, Porto

[Fermento Royal] Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

[Fuso horário] São Paulo, Brasil (GMT-3). Pesquisadora na Universidade de São Paulo

[Adenda] Estou a estudar genética populacional de preguiça – comum, com o objectivo de conhecer mais sobre a espécie e, eventualmente, contribuir para a sua conservação e do seu habitat. Uma frase grande e meia pomposa que significa que trabalho tanto como qualquer outra pessoa – não é só estudar, ler e ir às aulas – é um emprego.

[Mapa Mundo] Estagiei no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina e trabalhos de campo em algumas Áreas Protegidas de Portugal. Estive, ainda, em Espanha a aprender técnicas laboratoriais.

[Kit SOS] Um conjunto de situações levou-me a esta decisão. Não era um sonho que tivesse. Saí para fazer currículo, pelo trabalho, pela ligação profissional que já tinha com São Paulo. Mas também para me libertar, para conhecer mais do mundo e das pessoas fora do meu universo.

[Kit de Costura] Ter ido para o Brasil.

[S.a.u.d.a.d.e.] Essa palavra que descobri agora… Faz-me sentir mais portuguesa. Tenho saudades da família e dos amigos, como é óbvio. Mas até me parece que tenho mais saudades das coisas simples: de peixe assado, da carne grelhada, do capuccino de máquina do local de trabalho. Do passeio na Foz a comer um copo grande de gelado quando estou com TPM. Do bar, do vinho, da rádio, do carro, do pôr-do-sol no mar…

[Selo de garantia] Um carimbo de algures (ou “nenhures”) de África. Gostava de poder trabalhar em conservação de elefantes. Este talvez seja um dos tais projectos não planeados. A ver se a vida me leva até lá…
[Oxigenar os neurónios] O que fazes para reinventar o teu dia-a-dia? Com conversa. Até posso baptizar o que gosto mais de fazer: “actividade tremoço e minuim”. Procuro conviver com as pessoas que gosto e que me fazem bem.

[No divã] O meu maior obstáculo sou eu mesma. Estou ultrapassando-me aos poucos… Por acaso o Brasil ajuda muito no processo.
[T.P.C.] Mudar Portugal? Ideias para o nosso canto. Se fosse possível devíamos tirar todos os portugueses de Portugal, instalá-los uma temporada algures no mundo e reuni-los novamente numa espécie de “aula de revisão”: precisamos de reaprender a ser humildes e orgulhosos – temos estas características, mas usamo-las na hora errada.

[Q.I] Esta experiência surgiu com um intuito profissional, mas tem sido muito pessoal. Tenho-me aprendido, sobretudo. Porém também descobri que a realidade é totalmente diferente aqui: no Brasil quando dizes “biodiversidade” nem sabes o quanto de espécies, ecossistemas, interacções é que estás na realidade a falar.

[Prémio Nobel da Paz] Olhar a Natureza como igual e não apenas como recurso.

[Ger.ação Raz/ca é...] um nome que uma geração parental deu à sua geração filha. Eu que tenho um pé na genética digo apenas que é tudo uma questão de hereditariedade.

[Liberdade de expressão] A nossa geração é excelente! É rasca e está à rasca porque está bem no meio da globalização e das alterações à velocidade da luz. Andamos pelo mundo a tentar sintetizar o excesso de informação. O que nos ensinaram em criança já não se aplica, o que estava certo (e é certo), hoje já não tem tanto valor e temos que agir com base em ensinamentos inúteis porque o mundo se expandiu mais rapidamente que nós.

Sugestões de entrevista para vnrodrigues@gmail.com

quarta-feira, maio 27, 2009

Olhar...

Dia cinzento que se transformou, em instantes, numa valsa do olhar.

terça-feira, maio 26, 2009

SOS palavras!

Ficar demasiado tempo com um texto em mãos é um exercício doloroso, de expiação de palavras desnecessárias e penitência. É aí que perdemos os filtros e nos concentramos nos vícios da nossa escrita, como um rasgo de cegueira condicionada. Perdemos a paciência e deixamos de ver onde, realmente, temos ainda de mudar. Tudo nos parece, já, dolorosamente mau e penoso para olhar novamente. Mas achamos que não está bom o suficiente. E talvez nunca venha a ficar. Problema o meu; e de quem perder tempo a ler-me. Escrever é, portanto, entenda-se, uma neurose insuperável que cria indeléveis e irreversíveis recalcamentos. Onde a terapia deveria sê-lo, percebemos, agora que a terapia precisa da terapia de si. Alguma sugestão para recuperação de costureiros-de-palavras-em-crise?

quinta-feira, maio 21, 2009

[Geração Raz/ca #3]

Iam para a cama com o "Vitinho", cresceram a ver MacGyver, um tal de "Duarte e Companhia" e são do tempo em que K7 era sinónimo de música. Um certo jornalista e uma certa ministra da Educação fizeram o diagnóstico (precipitado?): "Geração Rasca". Nunca mais foram os mesmos. Atravessaram oceanos, sairam de mochila às costas para galgar uma certa ideia de cidadania. Estão aí, espalhados, a viver sonhos e a fazer do mundo um laboratório. A "Crónica Luna Samba" continua à procura desses portugueses. Eis a terceira dose!Sem moderação!

[.Schengen, euro, Tintin e chocolate. Isto é civilização!.]


Adora sair de férias com a caixa de e-mail vazia. Fã de anime, de cinema, literatura. Sofre de excesso de organização e garante que não tem cura. Apaixonou-se pela ideia da Europa e agora é “tu-cá-tu-lá” com os corredores da civilização europeia. Diagnóstico: Síndrome de Schengen. A reinventar a linguagem do sonho kantiano e a traduzir tolerância, para português.

[Zoom in] Telma Martins, 27, Vila Nova de Gaia.

[Fermento Royal] Comunicação Social

[Fuso horário] Bruxelas (GMT+1), Assistente de Comunicação na Comissão Europeia.

[Mapa Mundo] Lamento não ter feito Erasmus. Trabalhei sempre na Bélgica de forma permanente com missões: Bulgária, Itália e Holanda. Aprendi que a tolerância é a alma do negócio.

[Kit SOS] Ser nubente no assento n.º 02/2008 na Embaixada Portuguesa em São Tomé e Princípe.

[KIT Costura] Saí de Portugal para poder regressar apenas para férias.

[Q.I] Aprender uma nova língua cada 3 anos. Acrescentar uma “linha de código” ao meu ficheiro pessoal todos os dias.

[S.a.u.d.a.d.e.] Bacalhau com natas, vitamina D e VO (versões originais).

[Selo de garantia]Japão, porque pertenço à comunidade de fãs dos anime.

[Oxigenar os neurónios]Juntar um nome à minha lista de contactos.

[No divã] Criar o hábito de cozinhar só para uma pessoa. Não o ultrapassei...

[T.P.C] Um sistema social que permita às empresas beneficiar da mobilidade de trabalhadores e não a temer. E Portugal não é diferente dos restantes países europeus, mas que enterrou o espírito de desenvolvimento noutro tipo de massa cinzenta.

[Prémio Nobel da Paz] Ideias para mudar o mundo ...
Acredito que a rede global em que vivemos pode incentivar práticas individuais para a concretização dos princípios colectivos que todos dizemos defender.

[Ger.ação Raz/ca é...] Um erro de cronologia.

[Liberdade de expressão] Existe uma larga diferença entre o que é possível e a vontade humana de fazer seja o que for. Se considerarmos a imperfeição de uma forma generalizada, teremos sempre algo para fazer.

Snapshots..

quarta-feira, maio 13, 2009

Bielman A. 1a vela e uma caixa de fósforos [a.k.a: Turno da noite...]

Saiu do hospital às 4h12 “sharp”. Flashback: às 4h entrou-lhe nos cuidados intensivos a mulher em coma alcoólico. Overdose de Prozac e muitos cigarros no cardápio biológico. Conhecia-lhe os vícios. O casamento é fio que se ata esfiapado. O dele fora um de pesca, invisível, mas que lhe incomodava as entranhas e os electrólitos do corpo, quando se anula. O corpo é electricidade. Porque não haveria de os ter? Ziiip!Se ele não falar, existe? Dito assim faz sentido. A vida é mecânica, deixá-la ser. Melhor mesmo só a literatura de W.C. Luvas esterilizadas. Análise.Respira? Responde? Diagnóstico. Apatias. Corpo-gelatina! O rosto desfigurado roubou-lhe a identificação daquele “era”. O ser não é! Já disse que lhe conhecia os vícios. Ah? Deixou-lhe o cheiro nos lençóis gastos, a tarde passada. Saíra às 18h22 “sharp”! Deixou sola nas escadas. Pele no puxador da porta. Um afecto acomodado nas entranhas! E agora, não lhe conhecia a textura. Saiu do contexto: tem percepção viciada. Não vemos o é, apenas o “foi-já-visto”. Bielman A. não a percebeu. 4h07. Corpo deixado, anulado, já era. Dezenas viu, em noites assim. Domingo para segunda. A noite mais deprimente para elas. Eles têm a TV. A comida rançosa no sofá. O cheiro nauseabundo da discussão em fase terminal. Mas onde há onda electromagnética, há reacção. E elas não suportam as ruas de Domingo à noite. Resta-lhes Prozac fora da validade. Álcool a 5 reais. E um orgasmo simulado. 4h11.Bielman A. mandou-a para a morgue. Apanhou a caixa de fósforos que lhe deixou na mesa-de-cabeceira. Ainda cheirava a vela ardida. Pensou se teria ardido, antes, ou depois do fôlego final. Lembrou-se! Ainda iria a tempo de saber!

sábado, maio 09, 2009

Quase-nada!

Às vezes parece que "me estou a ler". Evito pensar alto, porque me perco. Sou páginas em branco, às centenas, ou livro mal acabado. E o formigueiro em mim resgata-me de o fazer. Quando penso, sequer, agarro-me ao chão para encontrar o lado esotérico que me falta. E, nas entrelinhas do asfalto, já encontrei o calor ausente desta alma de blocos de gelo. Não cedo. Aquele brilho irrita-me. Ofusca-me os olhos e tira-me lucidez. A+B. Se a vida, afinal, fosse assim tão higiénica e equacionada, não precisaríamos da abstracção para nos complicar o diálogo. Espera, contigo sempre foi monólogo, afinal. Asséptico. Se pudesse derretia o que sinto por ti nesse asfalto quente, colado a piche negro com gravilha para ser a base plana por que atravessam os pneus desesperados. Como as pessoas em ti. Ok. Gostava de saber se faz sentido afinal. Mas não há juízes do bom senso. Cabe em nós. Deveria? Se nós é tão díspar de eu.

Dobro a esquina de sempre, as escadas da rua apertada, o “quase-elevador” e lembro-me que é mecânico. Não devo ir por ali. Pelo menos desde a semana passada. Nunca achei que quisesses que voltasse para casa. Estavas neurótica e achavas o contrário. Aliás, nunca te vi de outra forma. Esqueço-me por hábito. Depois, não atendias o telefone e dizias que não queria saber de ti. Vítima. Sempre tu! Foi essa a história que criaste no BI da família. Ok! Sim, o bode expiatório de que todos precisamos. Ainda cedia, ao ritmo da tua linguagem anti-depressiva: Fluoxetina, Amitriptilina, Nefazodone,... E as tuas palavas já eram só bulímicas para mim. Depois, não respondias às mensagens. Desculpavas-te pós-vitimização: que estavas cansada e adormecias, depois do cigarro de sempre: nicotina. Mesmo depois de lavares os dentes. Ainda desligavas o telemóvel. Para não sofrer, dizias. Parecia conversa de divã falhado. Ou talvez pressão psicológica. Sempre foste exímia nessa arte de dissimulação. Acho que todas as mulheres o são, sem anti-depressivos. Já nascem com a manha aguerrida de soltar as pinças afiadas, invisíveis e silenciosas da dissimulação doentia. Rede certa, que magnetiza a emoção dos outros.

Mudaste as fechaduras. Nem consegui ir buscar aquela camisola amarela que tanto odiavas: "amarelina", seria? Não me lembro que gostasses de alguma coisa sequer. Ou era a barba. Ou o cabelo desalinhado. O mau hálito que nunca tive. A louça mal lavada que tu própria lavavas; e dizias que eu não sabia secar os pratos. Os pêlos do pano nos copos. Que devia deixá-los secar, mas se de manhã eles estivessem no mesmo escorredor, eras o meu despertador matinal, estridente e intermitente. Sabes, nunca me cansei de ti, até ao momento em que perdeste o brilho. Não é fácil perdê-lo. Só o deixaste ir por desgaste. Depois, os telefonemas, de novo. Que devia realmente voltar para casa. O jantar, aquele jantar que nunca chegou a sê-lo. Poderia ter sido o primeiro jantar em oito anos. O realmente jantar. Não fosse aquilo. Depois percebi que tinhas mudado tudo de lugar e não deixaste sequer um sopro de que gastei essa casa. Numa semana? Foi aí que percebi que me estava a ler, como as tuas posologias médicas. Em cada gesto teu, em cada grito, histeria, neurose, estavam os recalcamentos que nunca superaste e que, afinal, eu não tinha nada a ver com isso. Foi o meu diagnóstico para a cura! Até hoje não sei se existes.

sexta-feira, maio 08, 2009

Então...

-Oi, bom dia! Gostaria de falar com A. para resolver a questão de erro de pagamento?
- Erro? De quê?
-De um pagamento.
-Referente a quê?
-Ao pagamento final.
-Mas erro nosso? Não somos nós que cuidamos disso, nem do pagamento final. Isso é outro departamento. Deixa eu passar.
-Não, é vosso, da empresa, que seja. Mas quem cuida desse assunto é A. que representa o outro departamento nestes casos e é daí.
-Ah, tá! Mas A. não está? Saiu de férias. Volta amanhã!
-E quem o substitui?
-É R.
-Posso falar com R?
-R. não está saiu de férias.
-E quem substitui R. quando não está, que é quem substitui A. quando está de férias.
-Ah sou eu!
-Então você vai-me ajudar.
-Ah, não. Vou entrar em reunião agora e não vou poder ajudar você.
Então me liga mais logo….

Três horas depois…
-Ok. Agora vamos resolver..
- Então (quando começa o "então" é porque a seguir ou já vem desculpa, problema ou uma maneira de fugir à questão). Não tem como te ajudar agora (são 16h de quarta-feira e sexta-feira será feriado). Só na segunda-feira.
- Como assim? Ainda tem hoje e amanhã.
-Ah pois é. Mas o pessoal do departamento não está e não tem como eu levantar isso para você.
-Hum… Mas tem amanhã.
- Ah, então, amanhã eu não estarei aqui. Vou compensar o final-de-sema. Mini-férias, sabe….

Cinco Dias depois. Segunda-Feira em ponto...


- Oi. E aí resolveu?
- Olha só. Realmente você tinha razão. Houve um erro de pagamento.
- Isso eu já sei. Qual é a solução?
- Então (de novo!) a gente tá vendo a melhor forma de resolver.
- Hum, e como será?
- Ah!É que agora vai ser mais difícil e a gente tá vendo como fazer.
- Mas se o erro foi vosso porque devo ficar prejudicado num valor que já deveria ter sido pago e que vocês com essa lentidão fazem-me andar aqui de um lado para o outro a cobrar um erro grave - que foi vosso.
- Pois é. Tô vendo com S.
- E para quando uma resposta?
- Ah não sei, não.
- Porque você não liga para S. para saber agora e já me responde?
- Ah, é verdade. Espera 5 minutinhos que já te ligo…

Cinco minutinhos será um dia depois, entenda-se. De novo. Liga-se!

-Oi! Uau seus cinco minutos se transformaram num dia.
- Ah é que acabei esquecendo.
- E aí? Já sabe como vai ser.
- Pois é, então, deixa eu te falar: ainda não sei, porque S. ficou de dar uma resposta e ainda não deu.
- Caramba R. Mas você não acha isso um abuso, já?
- Olha, nem queria te falar, mas é que S. entrou de férias?
- Ai é e quem substitui S. quando ele vai de férias?
- Eu…

quinta-feira, maio 07, 2009

Mais perto de virar anarquista, Zen budista; naturalista ou outra proposta de vida terminada em "ista" que me leve para outro planeta e me tire deste sistema dependente dos outros. Sem vocação para ficar em "stand by"...

quarta-feira, maio 06, 2009

Cheias..


O ano passado foi o sul. O estado de Santa Catarina, um dos mais desenvolvidos em todo o Brasil, foi devastado pelas cheias, em 2008. A chuva foi implacável. Agora os estados do Maranhão, Pará, Piauí, Rio Grande do Norte e Bahia estão a ser fustigados pelas chuvas. Milhares de desalojados, vítimas mortais, risco de epidemias, subida do nível da água dos rios que tudo arrasta e a miséria...

Love.story [Variações]

“Ainda o farias? Estás a falar a sério? Contigo não teria problema. Foste a primeira. Eu faria. Agora. Nervoso, vinte anos depois, puxou-a para ele, deslizou as mãos no rosto e encostou os lábios para o efeito almofada. Quando sentiu a boca molhada, puxou os lábios carnudos e saboreou o desejo com o doce do Porto que ainda se escondia, lascivamente, nas reentrâncias digitais da boca. O que imprimiste em mim? O mesmo cheiro. O mesmo sabor, apesar do adocicado líquido. Resgatei vinte anos. Assim tanto e nada mudou. O tempo do amor é de baú. O polegar roçou-lhe nos olhos, sentiu-lhe a vida por eles. As rugas. O branco dos cabelos. E a intensidade rasgada do brilho que ainda respondia como fruta madura que se esmaga na mão, como se derretesse o tempo. Eu faria. Ainda quero. Não sabia que queria. Assim. Lamento-o por ser tarde. O corpo atirou-se para cima da mesa. Não queria era que tivesse esse peso. Não. Só porque realmente quero. E não sabia que queria. Estás mesmo a falar a sério? Puff. Só não tenho dinheiro. Quero sentir-te de novo. Vamos embora. O casaco roça o corpo. Engana o frio. A humidade faz com que o respirar seja bafos visíveis. Afinal tenho frio. Mesmo que não tivesse fingiria só para que me agarrasses de novo. Lembras-te? Daquela primeira vez? Foram várias até ser. Será como a primeira? Quero ir-me. Leva-me. Não sei como será. Mas é magnético. Será bom. Agora não posso, deixa-me lá. E amanhã? Ainda terás tempo para mim? Mais um dia. Um tempo. Aqui, depois de almoço. Manda-me mensagem quando chegares a casa. Acordei a pensar em ti. O desejo levou-me a sonhar-te. A entrar em ti, com beijos em ti. Seria como um Almodôvar em preto-e-branco que entra nela. Ou ela que nunca saiu dele. Eu também. Leva-me. Como me adivinhaste? Lembras-te que me disseste que depois do final seríamos amantes eternos? Vamos. Sem rodeios agora. Foi demasiado bom e inesperado para te perder. É como se ficasse para sempre com este desejo, esta história para acabar. És feliz? Não achas que seja. Agora é tarde. Mas não para o desejo. Não sabia que ainda te desejava assim. Estás diferente. O tempo rasgou-te. Ao menos, agora, não foges de ti. Leva-me. Segue. Vais por aqui. E já aqui estiveste? Com quem? Há muitos anos. Não interessa. Abre a porta. Acende a luz. Aquece a água. Enrosca-te em mim, como fazias. Estou nervoso. Só quero olhar-te. Outros quereriam despachar o voraz negócio líquido. Eu quero saborear-te. Adoro esta sensação. A de me levares. Antes era diferente. É novo para mim. Bom. Melhor ainda. Lembras-te quando adormecia no teu peito antes do pôr-do-sol? Ardente. Acordávamos suados com a porta a bater. Desliza-me em ti. Se calhar nunca mais nos vemos. Viste o perigo disto? Não sabia que ainda te queria assim, depois de tudo. Absoluto. Inesperado. Magnético. Vem. Demasiado. Foi há vinte anos. E agora se não é só isto e também não é amor o que é? Vem. Fecha os olhos. Solta-me. Troca comigo. Agora estou aqui. Amanhã já não. Quando voltas? Nunca saberei. Será que volto? Vamos? Temos de ir… É tarde. Porque não ficamos? Percebeste como somos intocáveis. Perigosos. Agora vais. Ainda te quero. Ela vai estar em casa. Deixa-a. Agora vai. Um dia. Será que nos reveremos, mais vinte anos? Não aqui. Onde será? Nesta vida nada se resolve. As agruras ficam. adormecem. É magnético. Vai. Desliza em mim. Deixa-me ir. “Ainda o farias?"

Só voltaram para casa

Augusto Boal e agora o poeta Mário Quintana. No fundo, eles só voltaram para casa. Nisso sou muito "chapliniana". Que a vida pode terminar em "rewind", apenas e somente como se de um orgasmo se tratasse. E estes senhores, que nestes últimos dias a imprensa diz que se foram, eu sei que gozaram esta vida da melhor maneira. E eu admiro os homens que não têm medo de o ser. A obra de Boal conhecia de perto, porque fiz Teatro do Oprimido. A de Mário Quintana ainda sou pequena para o desfrutar como merece...Pelo menos apanharam o comboio juntos e cumpriram o velho sonho de infância.

POEMA DA GARE DE ASTAPOVO

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo
Contra uma parede nua...
Sentou-se ...e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Gloria,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E entao a Morte,
Ao vê-lo tao sozinho aquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali a sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se ate não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos que realizam os velhos sonhos da infância!

Mário Quintana

Seguindo Bielman A.


A 300 milímetros é perfeita para isto. Pus-me de sentinela nas janelas no 11º andar com vista para o céu da Anna Ullic, Mad Lorac Ahnisuol e Um. Às 10h em ponto saiu. Zoom in. 150 milímetros: As mesmas calças pretas vincadas, o guarda-chuva chaplin na mão esquerda e o corpo vergado mal saído da cama. Desceu a rua. Atravessou a ponte. Desceu as escadas. Mão no bolso (talvez puído de tanto esconder a mão, ir-à-máquina, lavar-à-mão, amaciador, sabão-em-pó; traças, aranhas e ácaros sub-reptícios que assentam patas por ali) e sacou uma nota. Zoom in. Foca. 300 mm. "Click". "Tac-tac". Vinte reais para um jornal e um maço de cigarros: "Carlton, por-gentileza". E só com isto o homem do quiosque pode passar os próximos dois minutos a praguejar. Não tem trocado? Será que o disse. "Humpf"..."Click". Virou as costas. Zoom out. Troco trocado. A passadeira. Volte-face. Vermelho-vermelho. Verde para os carros. "Vuuummm". Um. Dois. Três. Quatro. Um autocarro. Dois autocarros. Outro articulado. Azul, bordô, bordô, azul. "Vuumm". Vermelho. Vermelho. Pó. Fumo-de-escape. Moto. Camioneta. Poeira. Zoom in. 200 mm. A mulher que dança. A criança que grita. A mulher que corre. De ombros pesados (devem estar vermelhos de má circulação). Zoom out. Bielman A. não sorri. Vermelho. Vermelho. Verde. “Não há camiões a esta hora”. Bielman A. pensará. Zoom, mas sem click. Verde-semáforo-pedestre. A passadeira (desbotada, estragada, gasta – dos quilómetros de pés ali roçados: solas, solas, solas ardentes). Uma, a outra. Sobe a escada. Atravessa a ponte. Sobe a rua. Não chove. O guarda-chuva ciumento com o jornal partilha a mesma mão. A do bolso dorme com os sub-reptícios. Sem zoom suficiente para saber quantos. Entra. 2Switch off". Dez minutos de vida de Bielman A. por uma lente. Nada a declarar.

terça-feira, maio 05, 2009

Inadaptada

Corro de manhã cedo para ler as notícias. Já eram. Já não o são. O meu telemóvel toca. Detesto que toque de manhã cedo, por isso, desligo-lhe o pio, até que me arrependo por não estar em contacto com o "mundo". E esse talvez não seja o meu! Mas depois, ai, aquele formigueiro, switch on... E aquela invasão de privacidade que me pode perceber a voz ainda de cama desarma-me e deixa-me irritada. Depois o computador. Ando sempre mais acelerada que ele. Mais a frente. Ah, palpitações, arritmias, ansiedade. O teclado que está desconfigurado. Talvez eu! Enter. Enter. Enter. Eu teclei "enter", porque não respondes? Que chatice. Depois os programas. Sim. O Negrito do Word demora sempre uma eternidade a surgir – ou sou eu de novo acelerada. Ah e tem ainda o tempo. As janelas que abro aqui e ali no computador. Mais uma. E leio aqui. Ah, espera está a demorar a abrir. Melhor ver se o negrito já apareceu. Ok, agora itálico. Ih, outra demora. Será que o gmail já abriu???… Ah, deu erro. Espera estão a chamar-me no skype, no gmail – mas não estava a bloquear? Telefone. E aquela notícia? Já se foi…. Estou irritada. Fiz tudo e não fiz nada. Queria ter lido tudo e esta angústia no peito, de respiração presa porque ainda tenho muito para teclar faz-me parecer letras minúsculas numa página em branco. Quanto tempo levará o CAPS LOCK a aparecer? Ah, Fui. Delete!

Janelas...

Se há coisa que me deixa em rotação de desnorte são as janelas em ti. Abres uma e deixas o vento entrar. Esqueces de a fechar. Depois abres as portadas da de madeira rangente, com as dobradiças ainda mal acordadas do sono de velhice, sem as deixares chiar devagarinho como merecem. Abandona-la porque o que vês através dela, o além de agora, não é suficiente. As de vidros estilhaçados já não te servem. Nem as de persianas verdes. Os teus olhos já não o são. Já não os querem mais. Nunca te lembras de as fechar. Depois não sabes porque vem o vendaval. És como uma corrente de ar que bate as portas entreabertas até partires as fechaduras. Melhor do que isso, seria estares no alto do miradouro de olhos vendados. Verias melhor sem o frio da brisa cortante. Não precisas delas para ser...

segunda-feira, maio 04, 2009

Bielman A. diz

A minha garganta secou. Os pés arrastam-se em sofreguidão para te encontrar. Ou para recolher da terra o vestígio do que resta de ti, desde que me arrastaste para este sussurro de perseguição vadia. Os joelhos rangem. A boca desértica diz-me que o teu amor táctil sempre me foi estranha paisagem que tentei mudar. De lá, arranquei todas folhas vermelhas que cresciam da terra. E comecei a semear as gotas de sémen que escorriam solitárias depois das noites de insónia. Rasgo-te. Como te rasgo! E rasgo os pedaços de sociedades putrefactas, hipócritas que me arrastam a um dever social de amar duramente quem saiu do mesmo ventre que eu. Enterro os pés na gravilha, como penitência das imagens que faço de ti. Esfrego-me na terra para nascer de novo, e deixo que a sujidade se entranhe para me purgar, vergado.

#"Foges-te"..# *


*"Foges-te"- Não me parece que caiba no dicionário comum uma "palavra" tão exacta para designar algo, alguém, coisa, semi-ser, que foge de si próprio na ansiedade de chegar a ser outro que não ele. Daí este "Foges-te" ser possível neste blog e, pretensiosa e propositadamente, enquadrado num dicionário vanessiano.