quarta-feira, novembro 30, 2011

Bielman F. sai





Esteve feito ermita num espaço que poderia ser casa, se não fosse caverna. Esteve hibernado no que restava de si, para poder sair. Sempre tinha as sombras. E os espectros são silêncios inofensivos ao olho e nocivos à mente. É que esta feira de vaidades inflige sobre ele um efeito colateral. Chama-se efeito-de-dor e a dor é como carne aberta, ulcerosa, que não cicatriza.

Bielman F. Saiu. Foi ver o povo beber tinto ao fim do dia. Ver as luzes que aumentam a conta de electricidade da metrópole. Devem ter o filamento ardente enquanto há gélido frio ao redor. Enquanto há homens circunspectos no que resta de calor de um cobertor esburacado. É a lente por onde vêem o mundo. E ver o mundo pelo buraco de um pedaço de lã junta, fio-a-fio, é perceber o esfiapado da vida que levam. É encolher-se enquanto os outros passam, de passo feito, frio; em cadência de vida apressada para lado nenhum.

Bielman F. vê isso pela lente inquieta que o encolhe no cubículo que resta. E amarga. Arrasta um certo azedume paro o cinismo. É daí que lhe vem a lucidez. No inquieto e impotente crédito gasto pela incapacidade de trocar na Feira de Vaidades que é a tentativa de uma certa existência.

Como visse e sentisse este pus salivante da carne - social derme - ele encolhe e vagueia, de passo lento, frio, pensante na dor, porque o vento que corta não deixa réstia de sossego para a mente. Mas o sossego da mente pode estar na privação; e privação pode ser apenas privarmos connosco.

Vê-os e não sabe como sair dali. Vê-os e não sabe o que fazer para acreditar; para acreditar que o redor vale o justo, quando é povoado de almas tão parcas e mesquinhas. Bielman F. sai e percebe que este lugar não é dele, sendo; e perde a ideia de onde poderá ser. 


Na impossibilidade de o perceber, por ora, Bielman F. conclui que os espectros reais são mais rasto do que sobra do que aquelas da caverna. Eu poderia ser Bielman F. mas apenas o traduzo.  É que Bielman, sabemos, é um homem esquisito.

pavio

Vela que arde atroz, voraz, saliva o ar, bruxuleante
é fôlego um sufoco de luz
fio de vida, íngreme, diáfana
a esgarçar pavio...
e pavio é limbo ardente
e limbo que queima é espaço que fere.
Haverá espaços a ferir?
Geografia intercalada no mapa fugidio aqui dentro
perceber o dentro é estar fora, como a chama que se acaba
um veio de luz efémera, tão trémula
a esvair-se em ar
uma veia quente no espaço etéreo
que lugar ocupa se o lugar fere
e se fere, como cicatriza?
Como regenera o ar depois de uma atroz linha de luz?
de lá para cá, ao redor, na cera líquida, transparente
que resta

segunda-feira, novembro 28, 2011

A Baía dos Tigres

É uma alucinação, mas também pode ser a vida a acontecer com a intensidade de um desvairo, se bem que o deslumbramento deixa este tipo de efeitos secundários. É um fôlego só e podemos ficar sem ar. Pelo menos sinto o pulso, ao ritmo de um trote. Respiro.

A leitura de "A Baía dos Tigres" (1999, Dom Quixote), do jornalista-escritor Pedro Rosa Mendes, é lugar marcado no jipe maltrapilho onde viaja. Estamos lá, como num teletransporte que a mente sabiamente faz, na maestria da literatura. 

Chegamos a passar fome com ele. Há frio. Há medo. E o medo tem cheiro. Cheira a pneu queimado. Cheira a cacimbo. Cheira a homens sem rumo. Até chegamos a ser irascíveis com o interrogatório. Há a política vertida a sangue. 

Chegamos mesmo a desesperar numa angústia, no vazio da tenda, e não estamos isentos de ser levados por essa alucinação. Arfamos. Respiramos acelerados como numa corrida voraz.

A escrita é rápida, seca. A vida lenta. E na lentidão da vida acontece o inesperado, enquanto o nada pode ser ruído. O nada é vida cheia. O silêncio de vida suspensa tem esse feito.

"A Baía dos Tigres", essa viagem de literatura vivida, da costa de Angola à contra-costa de Moçambique, na travessia lenta de um tempo que se perde nos dias que ele deixa de contar. Atravessamos o sul do Congo, galgamos a Zâmbia, o Zimbabwe e Malawi. Passamos, sim, todo o tempo carentes de comida, a comer arroz com açúcar e abrimos a última lata de salsichas, no luxo do aniversário do Pedro. 
Talvez, por isso, há, neste livro, uma economia de palavras. Exercício jornalístico para falar de muito, escrevendo pouco. Poucos o sabem fazer.

Vejo a página 105 (enquanto há Portishead ao redor, no ar, na minha vida real); há outras 300 e tal para comer, devagar. Já precisava respirar, porque o Pedro quer-nos de uma vez nesta asfixia, num nó górdio. E já sinto o buraco no estômago, o busílis do devaneio. Preciso parar um pouco porque tenho pó nos olhos; as botas corroídas pelo ácido do motor; e o jipe vai em primeira para fazer apenas 12 quilómetros, porque de novo, o imprevisto mecânico atrasa-nos a mobilidade.

Há homens trôpegos. Macacos a comer maçãs, como quem goza com a fome de um homem. E um homem com fome é uma fera. 

terça-feira, novembro 22, 2011

Azul

Ando a sonhar com cobras. Grandes. Daqueles que cabem no pesadelo dos homens. Deste que ontem sonhei. Uma cobra grande, medonha, uma mamba azul sonhei. Brilho pegajoso e uma cabeça que parecia de cão raivoso. Desconheço que haja cobras com cabeça de cães raivosos, mas os predadores têm todos a mesma expressão momentos antes do ataque à presa. Neste sonho aflitivo ela rastejava na água e depois quedava-se a mirar-me, exercitando esse acontecimento que antecede um ataque. 

Era água rasa. Havia pedras, seixos, desses que as águas têm de subir para transpor. Eu por ela passava, sem angústia, embora depois acordasse inquieta de tanta aflição e logo com uma mamba azul. Haverá? Asco manifesto. 

Porque sei que era uma, questiono, quando, na realidade, nunca antes vira uma. O que conheço sobre cobras não chega para terminar uma escola primária, mas as sucuri brasileiras com as quais cheguei a estar tête-à-tête, ou vendo-as lá em baixo, adormecidas, enormes, métricas, nesse lago que é chamado de Aquário natural de Bonito, na região do Pantanal, enquanto snorkel fazia, talvez faça de mim uma iniciante no ritual dos répteis ofídios. 

Sei que era uma mamba porque a Rita esteve recentemente em Moçambique e descreveu-me uma. Mas não era azul. Não sei de onde tirei isto. O mais próximo que possa explicar para o fenómeno, sendo que a cobra de porte respeitoso não me chegou a atacar (mas eu tive medo, e medo num sonho é sono angustiado, na certa) é que hoje, coincidência ou não, reflicto, vesti-me de azul-camisola e pintei-me de azul-olhos, com azul-cachecol. Agora que penso nisso, o A. disse-me uma vez que se pensasse em mim numa cor eu seria azul. O que raio significara isto? 

E, depois, duas coisas que não interessam para nada, a não ser o meu exercício de curiosidade: vesti 3 peças do avesso sem dar por ela. Talvez para espantar bruxas. Haverá bruxas azuis?

domingo, novembro 20, 2011

quinta-feira, novembro 17, 2011

hélas, P. perguntou-me: como se desama?

O CD onde cabe o mundo...

... porque aquilo que verdadeiramente nos pode salvar de nós próprios e dos outros é o Amor, aqui fica o novo CD do Pedro Osório...Piano com musicas do mundo... Sejam felizes e amem que o egoísmo nunca fez bem a ninguém...

terça-feira, novembro 15, 2011

espaço de luta livre, concurso da calcinha e mulheres na lama...

...estive para mudar este blogue para fotografias de gajas nuas, luta na lama, miss t-shirt molhada, depois de um banho de espuma sem soutien e tal (já animada com a ideia de publicidade e assim), só para aumentar um niquinho a audiência deste blogue (creio que os motores de pesquisa já devem ter accionadas estas palavras chave e amanhã, terei certamente picos de visitas: oba, oba!!!! ). Mas depois ocorreu-me que era muita concorrência e eu sempre tive um fraco desviante pelo não óbvio. (Talvez devesse terminar este post com um smile, não?) 
P.S. Só não o fiz porque sei que vós, fiéis e queridos leitores, até não se importam com as diatribes desta vossa escrava da prosa e aqui vêm para a prática da sado-literatura!!! Apushhh!!!! (imaginar o som do chicote, tá?)

como andasse este blogue um bocadinho sem cor, exultamos a orgia saturada dos vermelhos, Saravá! Até já me sinto um bocadito acima do Mercúrio!



a inquietante aventura, o que um homem faz com o tempo

José Rodrigues Miguéis (JRM) tem um dado curioso neste surpreendente e filosófico policial, "Uma aventura Inquietante", sobre a condição de um homem a lutar, em cárcere, pela liberdade, com argumentos e lucubrações sobre a sua inocência, levantando metódicas dúvidas, como que lançando pó de cinza para que os olhos dos carrascos acusadores vejam, mais lúcidos, a verdade. E ela pode ser mais transparente e óbvia quando um homem está turvado, percebo.

Tem, pois, este livro de 1958 vários dados curiosos e brilhantes, além da cerebral prosa que denuncia um homem formado na tábua do direito, na síntese da jurisprudência, já que o enredo, amortecido por sólidas formas estilísticas da riqueza da língua, como o parodoxo, é puro exercício de lógica a escorrer. 

Tem, claro, outras mais, mas enquanto a chuva escorrega sozinha, gotejando a querer ser gelatinosa no reflexo do vidro e faz aquele barulhinho que é embalo meditativo - e também um pouco chamativo de uma certa sonolência - nada me deixa mais animada do que as datas dos capítulos. 

Poucos são os escritores que nos dizem em que dia e ano escreveram aquele determinado capítulo. E JRM era um homem de fôlegos rápidos, pois escreveu vários deles, ou na "mesma madrugada" de uns e outros, ou na "mesma data" daqueles e tal. O livro "Uma Aventura Inquietante" - nesta 5a edição da Editorial Estampa (1982), que nas mãos tenho - indaguei, folheando até ao fim, antes de o terminar, tem 278 páginas de brilhantes raciocínios, técnica de suspense e inteligência da psicologia de um homem (tão actual quanto o jornal da próxima semana, por exemplo). E foi escrito em pouco mais de três meses. Creio que quatro dias foram necessários para devorar esta prosa, pois o pano, adivinho, fecha hoje à noite, quando encerrar as poucas menos de 50 páginas que me restam.   

segunda-feira, novembro 14, 2011

Inocentes, linchadores, Fúria, Lang e Miguéis


A fórmula das coincidências é como o buraco negro do cérebro: as equações físico-químicas ideais que produzem a consciência é altar sacrossanto, insondável, das Neurociências, ainda. Deixei, portanto, de tentar explicar o que leva a que episódios tão improváveis - como aquele que vem de seguida - sucedam a dois tempos: no sideral e no técnico (porque a cosmologia racional serve pelo menos para situarmos os episódios).
Sábado dia inteiro a vasculhar relíquias no Candelabro, alfarrabista em Cedofeita,  casa com seis décadas, ainda que com novo endereço há dois anos, para pinçar qual criança num parque infantil, entre outras coisas, dois exemplares da prosa de José Rodrigues Miguéis. Dois foi aquilo que o bolso permitiu e ainda com desconto generoso do dono Luis Moutinho. JRM é autor raro nas livrarias e só com muito périplo se consegue encontrar toda a sua obra. Todavia, o Candelabro descansa a sola e recompensa os audazes da busca.

Ainda comecei a folhear "Uma Aventura Inquietante" (Editorial Estampa, 1982) nessa mesma tarde, curiosamente, no Candelabro-café/bar, a uns generosos metros de Cedofeita, onde outrora estava originalmente a casa-sebo. A luz que entrava pela janela desmaiava em tarde de Outono, enquanto a que restava era tamisada pelo vidro fosco. O suficiente para me alhear do redor e fazer do livro a cadência do pensamento ocupado. 


Página-a-página, como quem desjejua de uma noite de sono na primeira refeição da manhã, começou a ganhar-me no pulso. Já agarrada à história da burguesa assassinada e que atira um homem inocente para o cárcere. Zacarias de Almeida, um português na Bélgica. Um homem que no estrito cumprimento do bem escorregou numa série de coincidências, relatos alheios, magnetizando a polícia àquele quarto honesto e simples, onde ele de pijama já se preparava para o descanso merecido. Ainda teria tarefa hercúlea pela frente, involuntariamente, e sem saber por que razão.


Do quarto ao cárcere, com alguma pancada, saldando hematomas, lábios macerados e expectoração sanguinolenta, foi um ápice. A autoridade foi desmoralizando a palavra de um homem, baseado na sucessão de relatos dos outros. É aí, nessa clausura que mede o desespero de um homem, que JRM nos revela quem é Zacarias, entra-lhe no pensamento, para que ele conte a sua (des)graça, enquanto ele brinca às prisões, tentando encontrar uma brecha para onde possa escapar, ao menos, a agonia. 


Ele, tão espartano no dia-a-dia, esperneia, abana as grades, enquanto ouve o silêncio sepulcral da cela, ferrolhos e o eco metálico das fechaduras. O que vai acontecer de seguida, ainda está no tempo técnico de que preciso para o saber. Mas hoje pela manhã, ainda no autocarro, pude deter-me nesta frase na página 103: "Porque, em suma, a experiência mostra que é mais fácil perder-se um homem por um acto de pública honradez do que por uma patifaria bem disfarçada". 


Não sei se Zacarias, nas páginas seguintes, vai clamar por justiça e vingança como o personagem de "Fury" do realizador austríaco, Fritz Lang (1936), o primeiro filme realizado nos EUA, onde dividia o tempo. Por coincidência - agora sim - terminei a noite, antes de dormir, neste preto e branco de 1h37m, com imagens e planos expressionistas incríveis, onde a luz recorta, de cima para baixo, a densidade dos rostos, e o cross-and-dissolve cumpre uma função quase silenciosa para nos dizer: que o tempo da nossa desgraça pode ser simultâneo e numa voracidade, enquanto o resgate da inocência de um homem, anos de desgate, se a ventura, com um rasgo de sorte, assim o permitir.


Em "Fury" um homem viaja ao encontro da amada, que não vê há um ano, mas é parado por um xerife. Recentemente houvera um rapto de crianças. Um vício antigo torna-o o principal suspeito: amendoins no bolso do casaco. Um boletim de ocorrência dá conta do caso e os polícias não têm dúvidas e atiram-no para o cárcere. JRM poderia ter sido o argumentista de Fritz Lang neste Fury (assinado por Norma Krasna), porque a psicologia do personagem vem nessa consciência de castramento da liberdade. Vemos, então, Joe Wilson (Spencer Tracy) a tentar sacudir as grades, clamando inocência. Lá fora, a população faminta de vingança brama, retumbante, por um linchamento. Acabam por atear fogo à prisão, e Joe Wilson morre, pensamos porque a isso somos induzidos. Mas ele aparece em casa dos irmãos, de expressão dura, azeda, de um homem inflexível na reinvindicação de vingança, para condenar aqueles que o "mataram". 


Lang joga com a inocência, os jogos de justiça, a sede popular e a insanidade colectiva, regulada pelo mais primário dos instintos que pode ser a necessidade fisiológica por fazer justiça com as próprias mãos. E sabiamente enreda-nos numa ansiedade de gritar que aquele homem é inocente, tal como o Zacarias de JRM. É que o leitor e o espectador, na maioria das vezes, sabem sempre muito mais do que os personagens de uma obra. Somos instruídos a saber mais um pouco, como estando fora de tudo, isentos, mas um pouco mais amordaçados. Quis o acaso que tropeçasse, sem querer, nestas duas obras de crime e castigo (Dostoievski aparece, inclusive, citado no livro), adensados pela inocência dos homens. Tudo acabará por terminar bem, creio, na Aventura de JRM, tal como acabou em Fúria. Mas, sabemos, os filmes imitam a vida e não o contrário e apesar das coincidências que juntaram, na minha vida, estas duas obras, não creio que possam dar-me grande lição sobre o correr dos dias.  


sexta-feira, novembro 11, 2011

O homem das meias brancas, sob sandálias

Bocejou um pouco antes de entrar. Esperava, como eu, que a Biblioteca abrisse. Chovia copiosa e generosamente. Céu cinzento, agora azul. Nuvens alvas e altas, movidas e atrás de galhos-palitos, nus. E aquela chuva era a natureza a tomar banho. Ela gosta de se empapar, de polir as folhas da poeira de Outono. Sente que o verde desmaia num laranja, até esmaecer para amarelo. E a natureza desmaia um pouco menos se chover, assim, como hoje. 

Talvez ele pensasse nisso, ou já naquele livro que tem entre mãos. Folheia-o com delicada atenção. Folheia-o percorrendo o olhar. É um calhamaço, espreito agora e parece importante. Assim, deve ser um livro de História de Arte e pinturas escuras, castanhas, da cor das sandálias dele. Não sei como consegue ter as meias brancas secas, depois da chuva que a manhã fazia correr. 

Entramos à hora a que abrem as portas e havia o silêncio interrompido por passos sobre madeira. Os dele, reparei, faziam menos ruído. Eram as sandálias.

Sentou-se na mesa em frente à minha e, bisando neste segundo dia, abasteceu-se do Diário de Notícias, e de outros jornais que não consegui ver a capa. Deixou menos opção para a rapariga de computador branco, como as meias dele, que se senta em frente. 

Tem o rosto cansado, as mãos desgastadas, as rugas entranhadas na face, e um guedelha a cair-lhe nos olhos. Tem um olhar concentrado no livro, mas perdido na vida. Se a vida dele fosse aquele livro, poderíamos dizer que é um homem empenhado. Mas há uma suspensão que lemos na silhueta dele. Há o corpo esguio, que talvez finte a chuva, mas não tenha acertado algo na vida. A camisola está puída, de um azul-marinho e as calças de ganga muito coçadas. Tem algo de asséptico e um bigode penteado. Há pouco, tomou um café, contou os trocos e fez um cigarro que há-de ter ido fumar lá para fora. Agora, vejo, apagou a luz do candeeiro, levantou-se e arrumou os calhamaços. Afinal, havia mais que um. Os óculos caem-lhe ligeiramente, deslizando para o nariz- como se quisesse evidenciar que estão ainda mais concentrados que ele, a olhar, contemplando. 

Ergueu-se e pude ver-lhe a camisa que sai da puída camisola: é verde e branca, axadrezada. Será que saberá movimentar as peças do xadrês: que peça será ele no tabuleiro? Um bispo silencioso mais estratégico e essencial? Um peão, a dar dois passos a primeira, defendendo propriedades e os outros. Um rei silencioso que conheço, parece, os cantos à biblioteca? Que livros trará agora? Será que os foi requisitar? É que ninguém aqui pega nos livros para devolver às estantes, é regra, pedem os funcionários: melhor deixar nas mesas para que os entreguem aos devidos lugares. Não voltou ainda, não sei e volta, porque este homem não tem mais nada a não ser a roupa e o corpo magro. Não o vejo ao redor e perdi-lhe o rasto. Não fossem as sandálias castanhas e as meias brancas sob elas eu não teria reparado nele.  

quinta-feira, novembro 10, 2011

E-mail telegrama (generoso) da Hilda; e nem sms daria conta do recado

"Van, entendi, as pessoas só querem algo de nós quando estamos bem, nos sugam energia, que nem vampiros dias sem enterrar dentuça na pele tenra. A gente mima, levanta o astral,  mas quando ficam bem a gente fica na lama se esquecem, porque quem a gente gostaria que nos enxugasse e deveria, está preocupada exibindo seu ego que a gente ajudou a levantar. Tá foda, Van. um bj do tamanho de vc, se cuida e vê se volta para cá."

Bestiário privado, para quem tem tempo

1. Não receio o que os (bons ) livros me podem dar, inusitadamente; ou os caminhos para onde me podem levar, pois, como respostas a perguntas que não surgiriam, acaso não os tivesse folheado. De resto, procuramos, acredito, inspirações para continuarmos a trilhar um caminho que nos deixa, mais ou menos, em equilíbrio para que acreditemos que tudo isto vale realmente a pena. Muito. E criar já é valer a pena. Ontem o Pako dizia-me, algo, semelhante: que se todo o ser humano descobrisse a criação artística, entre outras coisas, não haveria televisão e andaríamos todas na rua a conversar e a trocar ideias. Achei a imagem bonita. 

quarta-feira, novembro 09, 2011

Sonho interrompido por guilhotina



A memória tem truques e vida própria. É um monstro tentacular, outras um polvo sem tentáculos, perdidos. E a vida pode ser uma vontade alheia quando não depende de nenhuma decisão racional, sobretudo quando a memória é esse ser que decide no que pensar, em determinado momento, mesmo que seja, por vezes, o menos conveniente. Aliás, sempre no episódio mais inoportuno. 

Podemos, por exemplo, estar na casa-de-banho num íntimo momento com a porcelana, quando nos ocorre enviar mensagem a alguém, omitindo claro, porque nada interessa ao caso, que estamos a exercitar a mais escatológica das adivinhações esotéricas, dignas de um exemplar de Patrícia Melo, qual Jonas, O Copromanta da vida. E isto apenas como exemplo: vale?

Pois estava eu de regresso a casa, a pensar no frio do corpo, e outras fisiologias e balanços do dia, quando um nome aflorou à minha memória. Mais do que o nome, um lugar específico com aquelas palavras: uma estante, que acontece ser a do meu quarto, secção Literatura brasileira, Joca Reiners Terron e um "Sonho interrompido por guilhotina". Na mouche!

Fui, então, interrompida pela lâmina cortante desse buraco negro do cérebro que me guiou até casa no impulso de ao quarto chegar e pinçar das capas e contracapas, de entre os livros tão apertadinhos - quais sardinhas enlatadas, que pode ser o mesmo que transeuntes em hora de ponta no metro a caminho de casa - esse livro que, confesso, ter folheado em 2007, em São Paulo, pela primeira vez. 

Mas, confidencio sem memória como e em que circunstâncias o dito chegou às minhas mãos, embora me recorde vagamente de o ter comprado (ou alguma editora mo pode ter enviado). Lembro, isso sim, de me ter impressionado com a capa toda nervos, que cheguei a pensar que os neurónios vistos ao microscópio devem ser olhos imensos, perscrutadores tanto quanto inquisitivos. Já me tinha esquecido deste livro e, inclusive, do nome que nele configurava. Tinha-me esquecido, mas a memória não. Cravara-o. 

Até que, num arroubo, ela toda excêntrica e exibicionista comandou o resto dos passos a casa.

O que lembro deste livro: comecei pelas badanas e tive a certeza de que todos os escritores, mas todinhos, heim, sofrem do mesmo: quem sou eu, o que ando aqui a fazer, esta coisa de escrever é uma crise existencial, os livros estão mortos, só sei que escrever para nada serve, e depois ainda inventam personagens que exteriorizem e carreguem o peso que levam e, às vezes, até conseguem fazer a catárse. 

Isto até pode ser teoria da libertinagem literária e tal, e daqui a pouco hão-de vir associações puritanas da defesa dos direitos dos escritores (a vantagem é que este blogue tem meia dúzia de leitores), qual teoria da banalidade aqui imposta, alegando que estou a tratá-los como farinha do mesmo saco (ou fermento da mesma lata...ou tinta do mesmo tinteiro, ou...) mas essa é a verdade. Escrevem como exercício e ímpeto porque não conseguem equilíbrio se não o fizerem. E disso depende uma certa leveza ou um certo peso: o reconhecimento é um antídoto para a melancolia e mesmo essa só o Amor a consegue salvar, porque a abraça.

E é isso que Terron faz neste livro, abraça uma certa melancólica dúvida desse ofício de escrever (os escritores são personagens principais) misturando várias linguagens, e salva a Literatura pelo Amor que lhe tem - porque sem ela não consegue viver. E começa por induzir-nos a um abismo: o da cegueira que pode até ser esse buraco negro da memória.

Esqueçam tudo o que sabem e façam tábua rasa a esta prosa, parece impor: "O leitor ideal é cego". E permeia o texto com delírios lúcidos. Com notas, cartas, orações, maldições. Mergulha num surrealismo. E faz um cadavre exquis; de repente. 

Ou, quem sabe, também pode escrever sob efeito de um ácido, mas mesmo para isso é preciso alguma sabedoria. Caso contrário como teríamos na página 119 algo como "O que drogas psicoactivas causam em aranhas? Nestes testes ocorreu o seguinte". (Ele e o Lourenço Mutarelli têm quase-quase a mesma escola: devem ter sido companheiros de carteira).

E seguem-se hipóteses como maconha, Benzedrina (não sei bem o que é; vou ali primeiro ao dicionário); Cafeína, sedativos... Talvez sob o efeito de literatura as doidas aranhiças, acaso soubessem ler, pudessem ter um outro efeito mensurável, porque isso sim a droga que ela é - com tantos efeitos secundários sobre escritores-, há-de ser veneno suficiente para ficarmos numa teia tão ou mais pegagosa que a de uma viúva negra. 

Eu, quando era miúda, adorava coleccionar aranhas em frascos vazios, furando o topo para que respirassem, e arrumando-os nas mesmas estantes de onde hoje tirei o Terron. Se calhar, eu já fazia uma espécie de literatura na vida real, até o meu pai resolver atirar com os frascos para verdes e vazios campos, em pânico. Ainda é cedo para saber se deva, então, voltar a apertar o livro nas estantes. Se lhe dar o destino dos frascos. Ou um descanso mais merecido na minha memória. Por agora estou na teia seguindo a interrupção do sonho por guilhotina. 

Duplo ofício

Estou mais "acostumada" a conhecer o autor brasileiro Rubens Figueiredo na versão tradutor. Traduziu Susan Sontag, Paul Auster, Philip Roth - para enumerar apenas alguns. Falha minha, com tantos clássicos na estante, na fila de espera, uma avidez pela crónica brasileira, pela qual tenho, digamos, um naco apaixonado; e a tenra vivência neste auto-didactismo que sempre é a Literatura, para quem a redacção e a editoria são um parente muito afastado.

Rubens é um rigoroso e exímio explorador de inglês e, sobretudo, de russo para português, com selos como a Companhia das Letras, Cosac Naify. Mas é também homem de punho extraordinário na prosa. Ontem, foi o vencedor do Prémio Portugal Telecom de Literatura em São Paulo (se lá estivesse, picaria o ponto, pelo convite insistente que me chegava ao e-mail; em rigor, o ano passado lá estava para ver Chico Buarque a subir ao pódio) com o livro "Passageiro do Fim do Dia" (2010)- podem ler um excerto aqui-, nessas deambulações de ônibus pelo Rio de Janeiro, esventrando a antropologia da cidade maravilhosa: as paragens no meio do nada, os transeuntes desobedientes a quererem entrar fora do lugar, na psicologia colectiva, nos humores do pensamento. Uma espécie de João do Rio do século XXI, observador hábil e insigne no corpo de um Pedro-personagem. 

O autor está de Parabéns (tinha já na bagagem o Prémio São Paulo, o Prémio Jabuti 1999, categoria Conto e Crônica, com o livro: As Palavras Secretas, 1998; outro Jabuti em 2002, na categoria Romance, com o  Livro: Barco a Seco, 2001) mas também o Gonçalo M. Tavares pelo igualmente extraordinário "Uma Viagem à Índia! (Caminho, 2011). O terceiro lugar foi para "Minha Guerra Alheia", de Marina Colasanti.

Os dez finalistas do prémio deste ano, além de Rubens Figueiredo, com "Passageiro do fim do dia" (Editora Companhia das Letras), foram João Tordo, com "As três vidas" (Editora Língua Geral), Gonçalo M. Tavares, com "Uma viagem à Índia" (Editora Leya), José Castello, com "Ribamar" (Editora Bertrand), João Almino, com "Cidade Livre" (Editora Record), Marina Colassanti, com "Minha guerra alheia" (Editora Record), Alberto Martins, com "Em Trânsito" (Editora Cia das Letras), Elvira Vigna, com "Nada a dizer" (Editora Cia das Letras), Ricardo Aleixo, com "Modelos Vivos" (Editora Crisálida) e Donizete Galvão, com "O homem inacabado" (Portal/Dobra Editorial).

Papa Demos

Não admira que a Grécia esteja com um buraco crónico na despensa, com tantos comilões no executivo: depois de Papandreou, vislumbra-se um outro glutão para a mesa de repasto. Mas este promete ser uma espécie de exorcista papão, exterminando demónios às refeições: Papademos. E querem saber a melhor? Na Antiga Grécia sabem como se chamava à  circunscrição administrativa? "Demo" - "subdivisão da tribo".


Estão, portanto, no bom caminho.


P.S. Deveria ter escrito, em vez de mesa de repasto, "O Banquete", é mais platónico e grego. 

segunda-feira, novembro 07, 2011

A intimidade do nome

Há uma estranheza tão entranhada neste espanto que me parece que deva, de alguma forma, figurar nalgum livro de mitologia onomástica. E esta história tem até cronologia verificável, documentos e outras nuances subtis que podem ser usadas como provas. Poderia, inclusive, com tudo isto, ensaiar uma genealogia credível que fizesse dela o sublime estético de uma questão existencialista: Eu sou? 
Poderia, se não desse um certo medo, misturado com um q.b. de divertimento e constatação de que os nomes são um mimetismo, também, do acaso. 
  
No Brasil chama-se xará (os índios é que sabiam), e neste caso, então, é um duplo xará. 

A primeira vez que isto me aconteceu foi há sete anos. Outrora habitante frequente de biblioteca pública agarrei um livro de Filosofia, onde ainda constava o nome do último requisitante: Vanessa Rodrigues. Isto poderia ser meta-literatura, se não fosse realidade. Apanhei um susto, claro, mas recordo que ainda levei uns segundos para perceber o que se passava. 

A assinatura não era a mesma, mas o nome próprio e o final sim. Guardei a cópia do talão no bolso e ainda o detive umas quantas vezes na palma da minha mão, mirando, como se meditasse numa qualquer teoria que pudesse revolucionar o mundo. 

O senhor da requisição não deu pela coincidência: ainda esperei que reparasse. Guardei o livro e procurei no bolso aquele papel com o nome que era o meu e não me pertencia. Ainda devo ter esse papel algures, no labirinto bibliófilo em que forro as paredes do meu quarto. Deixei-me a librar naquilo por uns tempos, até, anos depois, ter recebido um e-mail de um conhecido investigador e político de Sociologia do Porto (pelos vistos amigo em comum), convocando-me para uma reunião de departamento, sem falta, no dia seguinte, para discutir as linhas mestras de um projecto qualquer. 

De imediato, a luz fez-se no filamento cerebral como se fosse a primeira vez, desde aquele episódio, que aquela coincidência sucedia. Aquela Vanessa Rodrigues era investigadora de Sociologia da Faculdade de Letras e, em dada altura, precisara daquele livro de Filosofia numa qualquer diatribe interdisciplinar, presumo, ou poderia ser como eu: uma curiosa que ainda pode ser salva pela Filosofia. E, por acaso, nesse dia, o tal professor, enganara-se no correio electrónico para a Vanessa. 

Claro o nome era o mesmo, a terminação de e-mail parecida (o meu mete um "ene"), mas a mala tinha sido enviada para o porto errado. Adverti-o, evidentemente, e o equívoco desfez-se. 

Acontece que, agora, apercebo-me de que sei mais dela do que ela saberá de mim (sim, uma especulação porque nunca falámos, mas talvez devêssemos). Pois quis o destino que uma página de fotografia com o nome dela aterrasse num e-mail de um amigo, o ano passado, que me perguntou se a página era minha, apesar de indicar que a garota em Matosinhos city morava. 

Pois, como não? Mas não, realmente eu não era. E dizer eu não era, reparem, é diferente de dizer que eu não sou. 

A semana passada, numa conferência de imprensa, cruzei o olhar com um rapaz que conheço de um workshop de teatro e, no final, cumprimentamo-nos, naquele tempo, ainda sem saber de onde nos conhecíamos. Até que me apresentei: primeiro e último nome. E ele afirmou um convicto claro e acrescentou: de Sociologia. 
- Não, Vanessa Rodrigues sou eu.
Bem lhe vi a cara desconcertada. A realidade indefinida. Uma evidente turvez lógica e os olhos a denunciarem um "não-estou-a-entender-nada-mas-tu-não-és-a-vanessa-rodrigues". Pois sim, era, mas não sou a que ele queria que eu fosse. 

Em rigor, tudo isto pode ser um exercício filosófico, porque a coisa começa com um livro de Filosofia que toda a confusão pode ter lançado (quem sabe não terei aberto uma caixa de pandora), não fosse esta a realidade-real com que agarro o etéreo temporal. É-o. Vejam bem.

E tudo poderia ter ficado por aí, não fosse dar-se o caso disto acontecer num Facebook perto de mim: uma janela do lado direito, uma fotografia e o meu nome escrito: Adicionar Vanessa Rodrigues como amiga. O mais curioso é que há seis meses, recebi uma mensagem de uma rede social de uns amigos em comum de uma outra VR que me dizia que tinha apanhado um susto, quando viu alguém com o mesmo nome a comentar uma frase de uma amiga em comum. Toda esta trama me relembra o Homem Duplicado de Saramago. Quem sabe um dia também trocaremos de vidas: porque somos íntimas do nome, embora não o sejamos.  

Extra! Extra!

Novo sinónimo para a semântica portuguesa: abstenção do PS sobre OE 2012 = cobardia descarada, depois de Seguro tanto propalar que haveria de apresentar alternativas (posso assegurar que os ouço a balir). 

sexta-feira, novembro 04, 2011

Hum..me gusta las tapas de revistas de periodismo narrativo...

... Para empezar las letras derramadas de la mexicana "El Malpensante"...