domingo, maio 29, 2011

As aparências

Sim, ainda nos importa o que os outros pensam, dizem, ou apontam sobre nós; como nos fazem sentir, porque senão não nos incomodaria tanto a vivência por aqui. Precisamos do reconhecimento dos outros, para existir. E algo de disfuncional parece estar aqui subjacente. Parece! Somos animais sociais, precisamos da cerveja, dos disparates em grupos, das bobeiras, do Trivial, às vezes; mas também precisamos, quer-me parecer, de um certo status quo, da conivência do sistema, que nos dá uma certa ilusão de equilíbrio, para que não pareçamos tão inadaptados: espécie de colheres, num serviço de faca e garfo. Deve ser isso: as colheres disfarçam a desordem, inflando o ego e assumindo que conseguem fazer as vezes da faca e do garfo. Cortam e agarram para levar à boca. É disfuncional, mas em lugar de carência, há-de a falta ser compensada com o que mais à mão está: vai à colherada!

Na crónica "Lar Desfeito" (Comédias da Vida Privada), o escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo, tira a faca, o garfo e a colher do serviço e põe-nos à mesa. O casal harmonioso, apaixonado, romance no ar, depois de dez anos de casados, muito amor, família e filhos. Habituados a conviver com amigos com pais divorciados, os filhos estranham este "paz e amor matrimonial" e dão exemplos dos pais dos amigos: o Sérgio só sai ao domingo com os filhos, com uma nova namorada que é do teatro; os pais do Haroldinho andam sempre à turra e à massa; enquanto aquele casal transborda equilíbrio. Os filhos questionam se eles nunca se chateiam; que aquilo não é normal! 

Eles ensaiam uma discussão. Combinam um número de insultos assistido pelo substantivo que exala veneno: víbora; e pior que isso, para os filhos não se sentirem tão inadaptados perante os amigos. Depois disso, a separação torna-se inevitável e eles, apaixonadíssimos, acabam por se encontrar às escondidas, para manter as aparências, achando que um dia, quando os filhos saírem de casa, poderão voltar a viver juntos.

Agora ao contrário: tenho um casal amigo que vive uma situação semelhante. Ele, divorciado, uma filha. Ela, livre disponível. Apaixonadíssimos. Entendem-se. Maravilha. A mãe dele não a aceita, mas cuida-lhe do gato quando eles vão passar férias. O pai até que aceitaria, apesar de "mais católico que a mãe". Mas a mãe: a mãe é fogo: não aceita. Para ela, ele, o filho, "assumiu compromisso perante deus", terá de honrá-lo - a deus e ao compromisso - até ao fim (até que a morte os separe) porque há filhos pelo meio. E uma convenção: um certo status quo!

A ex-mulher dele continua a ser convidada para as festas de aniversário do pai dele, e a outra, a nova namorada não. Este ano, por isso, ele não foi. Se não aceitam a X. ele também não iria à festa do pai, sozinho, para reencontrar a ex-mulher, mãe dos filhos. Outra vez a disfuncionalidade a fazer das suas. É o nosso efeito secundário no sistema-padrão-das aparências. Neste aqui e agora!

Para os pais dele, há um certo equilíbrio, convencional, que foi furado, com a separação. Sim, o diabo! E eles até já deram um jantar em casa dos pais dele, quando estavam para fora. Eles sabem. Anuíram que ela, a outra, agora legítima ilegítima ali estivesse, na ausência deles. Sabem que o filho e ela vivem juntos, mas fingem que ela não existe. 


2 comentários:

Rita disse...

Grande Van =) Tudo bem?
Sempre com grandes textos não é? ;)
Pois infelizmente ainda vivemos numa sociedade em que se dá demasiado valor ao que os outros pensam, dizem ou fazem! Por vezes não agimos pensando no que os outros vão dizer ou fazer! É triste sermos assim, perder por vezes oportunidades em prol de outros que muitas vezes nem nossos amigos são, talvez pelo medo de ouvir uma critica ou de cair "na boca do povo"! Infelizmente é aquilo a que a sociedade nos obriga.. ou seremos nós fracos por nos regermos pelas leias da sociedade?! Tema controverso este!!!
De qualquer forma é assim que levamos a vida, muitas vezes mascarada de falsas aparências, de mascaras para que não nos recriminem! Se somos felizes?! Isso cabe a cada um saber, agora uma coisa é certa.. seriamos certamente mais felizes se não vivessemos de aparências e se ligassemos menos ao que os outros dizem ;)

Beijinhos*****

Vanessa Rodrigues disse...

Ritinha, querida, que paciência passares por aqui, heim? Obrigada pelo teu comentário. ;-) Acredito muito que somos nós quem temos de transformar algo de dentro para fora: a consciência é coisa carregada de vivência e ela é assim meia silenciosa: é como querermos procurar a dança nas pernas, né? Mas quando ela vem para transformar traz mudança boa: desde que queiramos ser, cada dia, pessoas um pouco melhores, como auto-conhecimento e uma certa serenidade de vida, então, acho, fica tudo certo! Beijo grande e super semana!
Chuack!