Sampa é uma sanduíche com todos. Homens-tomates, suco escorregadio, X-salada mix.ta, multípara, mãos com cheiro a suor, testas suadas, bafo de alho. Para degustar, lentamente
Misto quente, Bauru Especial; Churrasco com molho americano; Calabresa com molhos, americano, queijo quente, mortadela, peito de peru; grávida com água, cupuaçu com água, água com manga, pêssego-polpa, maracujá, cajá, cajú; vitamina mista, morango com leite.
-Olha lá o suco!
mortadela com queijo, bocejo, filé de frango – hum, esse rango! -; molho; 6 horas só. 18 horas da vida, já?
- Quer sentar na cadeira?
- Vem, aqui para a minha beira, queridinha! Tem pão-de-queijo patrão (sem beijo)! Manda croissant (cruá-assam) – frios sortidos. Frios tudo, salame, salame com queijo (“Cadê-meu-beijo?”).
- Tem esfiha?
- Tenho de carne, tenho. Ah, tanto!
- De frango?
- Sim, kibe.
- Não, filho, você tá doido?
- Manda esfiha de carne.
- A esfiha acabou, senhora.
- Vamo’ bora?
Espeto de carne. Des.arme a moça. Ai!
- Um suco de maracujá.
- É para já.
Com água. Copa Aurora, salame com queijo. Queijo fresco, minas. Romeu e Julieta. Carioqiinha, X(chíízi)-salada, X-Bacon, X-egg, X-egg salada, X-Burger, X-maionese, X-bacon salada, X-tudo, X-tudo reforcado (sem cê, de cedilha)…Churrasco com queijo + suco de cajú= 4 reais e 20 centavos; Beirutes 6 reais;
- “X-salada é pr’a você?”
Supervitaminas e sucos; coxinha de frango; empanadinhas de frango; moscas voadoras. Olha…Tic-tac…Pa-pa-p-a-pa-pa-tuc-plac-tuc-plac-plac-ploc-nhac-tlim-plim-zefétz. Ketchup, mostarda- Minhac-minhac! Skol, Coca-Cola, Clóvis, Sapatarias. Slaac… Tztztztz. Sucos Naturais! Animais!!!! Tzzplc…
- Posso pegar essa cadeira?
- Ai que lindo!
tititititi…Ti-ti-ti-ti| Sucos e lanches Tevitá. É doido! Animal!
-Bruno?
Tira os óculos. Dobra as hastes. Coloca os óculos. Um guardanapo som plástico. Amarfanha. Quem apanha? Sacode as mãos. Maionese na mão. Chupa-as. Bip! Roça-as nas calças de ganga. (Saudade do “blacky-suite”, morena!) Dois guardanapos som plástico. Que saco! Sacode as mãos. Olha de lado. Chupa-as. Lambe-as. Roça-as nas calças, de Gang-A. Olhe sempre de lado como se nada interessasse. –
Interessa, mano?
Ninguém deve ter reparado… Tzaac-Tzaac, mais três guardanapos, efeito-elástico amarrotado, enxovalhado. Tluuc, my dear! Marisa, Clóvis- a Sapataria – Sucos e Lanches Tevitá. A sanduíche. Traz outro suco de cajú, a fruta, não a castanha! Três completo. Churrasco com molho + suco de cajú; fuuuinng! Funga o nariz.
- Temos de ir jantar, filho! Não, filho, você vai jantar.
Vitamina completa: 2 reais e 50 centavos. A vida cardinal (ordinal) e a nossa por extenso (extensa, curta, célere). Assobia. Compra-se ouro usado. Plllaac. Placa 1 amarela: vermelho palavras garrafais. Caneta na orelha.
- Como é que é?
Uáááá! Vai na Farmácia e compra aqueles coisinhos prá pôr “aliviador” – Alivia-a-Dor? Diga Oi!
Ela poderia ter sido mais discreta. O top colorido, o casaco castanho, comprido, cintado, o lenço rosa-forte, os olhos delineados, os lábios carnudos, suculentos, o cabelo solto, disforme e desfiado, escuro. Aquele ar empertigado dela, Isabella, de ego polido, como peça de cristal. Até porque ela sabe que, depois de dias assim, vêm outros arrastados de alma pequena e refastelados na modorra lenta do esquecimento. Ela gostava de sorvê-los, sofregamente, como boémia hormonal, sem amanhãs e dias depois, porque a vida, diz, gasta-se no uso e desfruto de lânguidas sensações. Se as sentimos, há que agarrá-las quentes e queimarmo-nos de vez, nem que seja de uma só. Empolada. Voluptuosa nos sentidos.
E, agora, nas formas. Ganhara uns quilinhos a mais – para compensar os a menos que depois viriam, e que antes também lhe deixavam folgas nos soutiens e nas calças de ganga. L. disse-lhe que lhe fazia bem assim, encher as formas, para justificar os moldes ocos que a natureza lhe deu; e para que ele enchesse as mãos. Que gostava de a apertar e sentir os declives como se fossem terra fofa e farta, em linhas inesperadas de rios que se entranham nas encostas. E Isabella era terra húmida, macia, de cheiro morno, no convite lascivo ao ócio dos sentidos. t
Era da barriga que ele mais gostava. De sentir a curva depois do umbigo, “perfeita” de corpo de mulher como deve de ser. Tinha de haver alguma coisa para tactear, em deleite de texturas e degustações apalpáveis. "Barriga-tanquinho" era coisa de mulher doente, escanzelada, desprazida, dissaborosa. Nós dizíamos-lhes que ela estava sempre bem. Engordar nunca lhe fazia mal. Era deliciosa, sempre. E gostávamos de a chatear por causa das escapadelas e noites varadas em casa dele. Era ciúme o que sentíamos, na verdade. Muito ciúme. Não dela; da forma de ela justificar a vida, afeitos e presos que estamos à nossa cláusula quotidiana timorata de viver.Somos todos uns cobardes, embora tudo aqui nos parecesse uma lascívia de espírito fraco. A princípio olhávamo-la indiferentes, como se não percebêssemos o que se estava a passar. Depois ficamos com ciúmes, muitos. Depois com raiva porque Isabella não contava absolutamente nada e comportava-se como se nada se passasse e fosse, na realidade, a coisa mais natural do mundo. E era. Mas incomodávamo-nos que ela não contasse. Tudo teria ficado mais fácil. Aquilo, para os dois, tornara-se um vício. E, a nós, moía-nos a falta de cumplicidade. Ela tinha de nos ter contado.
Eles não estavam “bem-bem” juntos. Nós sabíamos. Sabíamos que aquilo não ia durar, apesar de percebermos que se entendiam. Nenhum dos dois teria vocação para abdicar daquilo que os unira. A liberdade de estar. O desafogo do respirar dos dias sem cobranças de afectos e desafectos. Laços líquidos, sempre. Desapertadinhos, feitos de seda e cetim, para escorregar melhor. Quando nos encontrávamos todos, era como houvesse um vazio. Eles não disfarçavam o querer. Só não mostravam o nó, levezinho. E a moinha de raiva tomava conta de nós. Isabella, caramba, que raiva!, pensávamos.
Nenhum dos dois forçava o lado do nó. Atavam-se com leves enrolares que não chegavam a ser nós. Deviam-se fidelidade enquanto durasse. Bom, assim-assim. Nós sabíamos que aquilo era uma espécie de probidade em linguagem comum, a dois, porque havia o R., ainda, onde a cabeça dela ainda estava. Talvez ele ainda aparecesse. Na verdade não se deviam nada, um ao outro. Era bom estarem, ponto, e gostarem-se, ponto. Nunca chegou a haver palavras. Houve vários afectos, mais sinceros que muitos casamentos, mas palavras nunca; e Isabella chegou a desejar ouvi-las. Por enquanto estava só com ela.
Ela não estava só com ele. Isabella tinha queda para os problemas amorosos. Ainda tem. Ela é muito irisada nas relações. Talvez porque ainda tem o R. na cabeça. E talvez ele ainda apareça. Não chegámos nunca a dizer-lhe isso, embora tivéssemos desejado, várias vezes. Fora uma amizade matizada (e enrolada), também, aquela que ela tivera, com S., o actor; e talvez com T., o designer, anos antes. Mantinha assim, um cardápio recorrente de paletas para pintar a vida e o sexo. Sempre foi discreta, reincidente nas cores, claro. Com S., o actor, duas noites foram o suficiente para perceberem que aquilo poderia ficar sério, já que havia ali alguma coisa de alquimia dos deuses que fazia com que tudo funcionasse, sem esforço. E no sexo ela tinha sempre a alquimia. Escolhia-os a dedo cerebral dos fluxos químicos. Havia uma história por trás. E plaf: não se enganava! Com S., não deu certo. Nunca daria. Nenhum dos dois queria o peso de uma relação e a seriedade da contabilidade amorosa. Estavam apenas de passagem. Faziam um belo par. Não era o momento. Depois, aquelas duas vezes foram arroubos químicos para os quais não estavam preparados, imbuídos pelo álcool.
Naquela noite, porém, ela poderia, ter sido um pouco mais reservada. Estava inflamada de desejo e os dois ali, na mesma mesa: S., o actor, e L., o bancário. Provou um vinho, depois outro, veio outro, a roda animada dos cavaqueios de viagens, aventuras, quem-dorme-com-quem-e–deixou-de-dormir, as piadas sem graça, as piadas com graça, o gracejar, as pequenas coisas, as grandes, o papel higiénico da casa de banho, os projectos de vida.
Estavam todos à mesa: J., o livreiro gay, K., o arquitecto, T., a lojista, H., o cozinheiro, A., a manicure e J.1, o controller financeiro de uma grande empresa. Depois estavam S., o actor e L., o bancário. E Isabella, a produtora de moda. Percebemos,claro, o jogo em que ela se tinha metido, sem se querer meter, embora se o soubesse de antemão, tê-lo-ia desejado. A nossa Isabella é pródiga em encontros e desencontros e constrangimentos em lugares comuns. J., sacou alguma coisa. A Isabella estava saindo com S., o actor? Não. Mas algo já se havia passado ali. Há alguns anos sim. Dois talvez. Não passara de duas noites. Os poros da cumplicidade começam a suar quando se reconhecem. J. sabe reconhecer o cheiro. Chegou a comentar com T., que lhe negou primeiro, e confessou depois. O que J. não identificou foi o cheiro de L. e Isabella. Talvez porque nessa noite ela estava mais S.(iderada) com o S.(épia) da vida. Não queria dar a entender a L.. Ele nem chegou a perceber (talvez hoje ele saiba, porque nós deixamos escapar, de propósito, de uma das vezes em que fizémos tricô sobre a Isabella).
Naquela noite, ele não desconfiou sequer. Era a primeira vez que via S. Hoje são grandes amigos (as voltas que esta manha da vida dá). Chegaram a ir lá para fora conversar. Entenderam-se, gracejaram, juntaram o botão à casa certa, e abotoados nas pequenas coisas, trocaram números de telefone para porem a conversa em dia, um dia!
S. queria a Isabella. L., também. Entenderam-se talvez porque quisessem a mesma mulher e não sabiam. Nada disso, penso hoje. As mulheres não têm nada a ver com o entendimento dos homens. Entenderam-se porque há uma qualquer equação que bateu certo naquele contexto.
L. mandou depois, naquela noite, uma mensagem que Isabella só viu quando chegou a casa, depois de ter beijado S., que a agarrou no carro, sôfrego como sempre (ela detesta beijos sôfregos), sem lhe dar segundos para pensar, porque a cabeça dela tinha, ainda, R., L., e também F., que lhe andava no encalço há meses - esse ela sabia que não poderia nunca mais ver: duas vezes, por menos de meia hora, foram o suficiente para entender que era a química arrebatada, sem sequer se tocarem – além do mais era um homem muito mais velho, 16 anos: o vermelho piscou várias vezes em “bips” intermitentes. É actor, também.
A mensagem de L dizia: “vamos fazer dos nossos corpos a manta perfeita?”
Como quem diz: “Afinal, dormes lá em casa ou não?”. Se ela tivesse visto, talvez tivesse voltado para casa sozinha, sem boleia. Não chegou a pensar que S. a agarraria assim, anos depois. Nós sabemos que ela gosta do jogo. De se sentir desejada, voluptuosamente cobiçada. E para sermos sinceros, sabemos que ela tem, apesar de tudo, um problema de auto-estima: aqueles quilinhos a mais. Gostaríamos que ela tivesse sido mais discreta em tudo, porque nós percebemos, e ficámos moídas porque ela não nos contara nada. Parece que o segredo, que não o era, inchava-nos de desconforto, como se nos roesse um pouco a amizade. Naquela noite, embora ela não nos tivesse confiado nada, sabemos que Isabella voltou a casa arrasada. Subiu as escadas. Sentiu o bafo vazio do quarto. Da sala e da cozinha. Fumou um cigarro à varanda. Olhou a cidade do alto e não conseguiu chorar. Não podia. Tinha de ser discreta para si, para uma Isabella anti-comiserativa das fraquezas da outra, e para o vazio da casa sem ninguém. Nunca aí desejamos ser Isabella, por isso perdoámos-lhe o silêncio. O de ser Isabella.
Às vezes tenho saudades da Márcia. Daqueles discursos nexo sem nexo; dos momentos de lucidez, da esquizofrenia inflamada, lúcida, e doente; da percepção de que o mundo é um lugar mal frequentado e de que só nos valem as esquinas, que são dobras de suspensão de nada, como intervalos da nossa indecisão inflingida e sem culpa, em que, afinal, não estamos em lugar nenhum, enquanto não arredarmos pé dali. Eu tenho saudades dela. E nunca a conheci, realmente. Depois, ela não se chama Márcia, e o Márcia dela escreve-se com “ph”, como as farmácias da nossa Língua de outrora. Até faz algum sentido: a Marthia tem algo de asséptico. A insanidade dela é mais coerente que muitas realidades e esquinas. Chegou a dizer-nos o nome verdadeiro. Que Marthia era uma ficção (“A Marthia não existe”), que lhe roubaram o RG quando chegou a São Paulo; que o nome era uma invenção consentida pelo ego verdadeiro para que, uma miúda violada pelo padrasto, vinda do Rio, nascida lá em cima, num Brasil de pó que se entranha nos pulmões para enganar a fome, melhor se adaptasse a um presente-cidade: era como se nascesse de novo. O que estava para trás não importava. Depois, “Marthia” era “legal”.
Quem começou tudo foi o Dárcio. Ele falava muito daquela mulher que dormia na rua e punha papéis numa parede de um casarão, perto da Faculdade Mackenzie. Folhas A4, com letra escrupulosamente desenhada, fantasmagórica, (a Márcia tinha algo de espectral na escrita dela) a vermelho, preto ou azul. Quase sempre a preto, ensandecida. Azul mal-disposta. O vermelho: só quando ela estava calma.
No dia em que me escreveu foi cor-de-fogo, feliz. Começou a desenhar as letras uma-a-uma, até formar frases miméticas que repetia no discurso, nas folhas A4. E eu devo uma explicação à Márcia. Ela chegou a enviar-me, também, um e-mail (a preto), depois
(“Ola Vanessa,
Tenho uma bomba para contar para voce,
me procure,
um abraço,
Marthia”)
Chegou, ainda, a ligar-me de uma cabina telefónica (e ela nunca o faz) e eu já estava (tão) longe para lhe responder. Poderiam ser os usuais devaneios, eu sei. Aqueles! E não os mesmos que a fez dizer-me:
“Aquele livro que você me deu, de um tal de Nassar, não é muito legal, não. Eu não gostei nada. Só mesmo o título é que tem a ver comigo: ‘Um copo de cólera’!, ahahahah. É que eu sou colérica, mesmo. Fico louca e rodo a baiana. Mas eu não vou fazer mais isso, não”.
E tudo começou com o Dárcio, sim. Precisávamos de uma personagem de Higienópolis. Ele lembrou-se dela. Um, mais um, mais um e mais uma (eu): e não sabíamos, afinal, como chegar até ela. A mulher da rua. Dos papéis. A louca de Higienópolis. Xuxa. Xuxa Velha: era o nome feio que os estudantes lhe chamavam. Ela aí é que rodava a baiana: dizia que todos eram filhos-da-puta! (Embora fizesse uma nota-de-rodapé concomitante: “Eu também já fui uma, nada contra. É mais força de expressão e eu não vou fazer mais isso não”). Diziam que a Marthia se parecia com a Xuxa quando era mais nova: loira, esguia, cabelo curto, franja milimetricamente cortada. Chegou a mostrar algumas fotos. Tinha traços aqui e ali. Nada de mais. Até hoje estou para entender o que ela viu em mim como almofada de confessionário: para não se exaltar comigo, não me insultar, confiar, e fingir que os outros rapazes não existiam .
Era como se ela contasse a histórias só para mim. E eu gostava. Gostava que ela, a ensandecida, que todos insultavam, e a quem ela ripostava, serenasse comigo e me contasse tudo, como se fossemos velhas amigas. Era um monólogo, claro. Bastava só que eu tivesse escuta atenta e participativa. E ela falava de tudo como se fosse a história mais importante do mundo. E era. E é. A Marthia, às vezes, falava como se tudo fosse uma conspiração e nós fossemos, realmente, duas agentes secretas com a missão de salvar o mundo, mesmo que ele estivesse a ser demasiadamente mal frequentado. Ligações perigosas, políticos, homens sem escrúpulos, violência doméstica. Putas. Proxenetas. Ela falava, falava. E eu ouvia, ouvia. Atenta e participativa.
Ela dizia-me que não tinha medo da morte. Que queria ser cremada e ir para um lugar bem longe para se livrar de todo o sofrimento. Que quando era nova, começaram a dar-lhe choques no pé. Que ainda hoje isso acontece. Que ninguém envelhece, assim, como ela envelheceu nos últimos anos, sem que ninguém nos dê choques no pé. Os nosso choques talvez sejam menos lúcidos. Mais perceptíveis. E ela tenha razão, também. Que a pele de galinha, a carne caída e flácida dos braços são dos choques que lhe dão nos pés. O Filipe dizia que era tudo fruto da imaginação dela. Isso e a bomba atómica que ela resgatava sempre no discurso. Eu também achava que sim, até que ela nos desconcertava, às nove da manhã, com as gordas da imprensa:
- “Vocês viram? Os espanhóis vão tomar conta das estradas do Brasil. Não tarda nada tomam conta do país. A Telefónica não é deles?”
Olhávamos muito para ela, admirados. E ela saía-se com um desabafo que nenhum lugar a fazia feliz, e que os choques no pé eram cada vez mais frequentes. Eu dizia ao Filipe que teríamos de ser zelosos na forma como a retrataríamos. Cautos na forma de lhe falar. Até que percebi que gostava de lidar com ela. Por isso, ela se afeiçoou. Por isso, talvez eu me tenha afeiçoado e sinta saudades dela. Ou de personagens assim. Ensandecidos, lunáticos, lúcidos na esquizofrenia. Talvez tenha sido a minha ideia, que me fez acaso providente no contexto das boas graças.
Não sabíamos como chegar até ela. Apenas que ia sempre aos mesmos lugares e que os papéis que escrevia (com letra escrupulosamente pensada e fantasmagórica: Luciano Zanfir, Barão de Tatuí, prostituta, nordestinos, Seu Salvador, Xuxa, 493, balconista, …) estariam agarrados àqueles muros do casarão, presos por pequenos galhos caídos das árvores que a Marthia aproveitava para furar as A4, a servir de presilhas para as grades dos muros da mansão. Foi lá que parámos. Foi lá que esperámos meia hora. Eu não aguentava de tanta espera. Ela poderia não aparecer. Parecíamos quatro estátuas, inúteis, a desperdiçar energia, embasbacados em frente à Mansão. Senti formigueiros, muitos. A voz estava engasgada. Havia uma corda qualquer que me prendia o pescoço, fazendo filtro anti-som (ahhhhhhhh!). Quando saía alguma coisa, com mil dedos para não ferir susceptibilidade, os rapazes faziam ouvidos moucos ao que lhes dizia. Foi como se me tivesse acabado a água quente, a meio do banho, no dia mais frio do ano. Plaff!
- “Ok, vocês podem ficar aqui quietinhos, mas se ela sempre anda por aqui, com certeza, e parece-me óbvio, toda a gente a conhece. Vamos começar a perguntar às pessoas onde ela poderá andar: taxistas, arrumadores, o senhor da padaria, boteco. Bora?”.
-“Ah, agora em vez de ficarmos esperando uma, vamos ficar esperando duas” , gracejou o Carlos.
- “Se ela aparecer vocês ligam-me e venho cá ter. Se eu a encontrar, trago-a até aqui”
- “Ah, e como assim você a traz até aqui?”
- “Sei lá, depois eu improviso. Logo se vê”.
Houve o peso do cepticismo. Houve o olhar da troça, com umas pitadas adocicadas até de quem tem pena da miúda, que sai da caverna para ver, finalmente, a luz do dia. Tive sorte. Menos de uma hora depois do bocejar colectivo em frente aos papéis da Marthia, onde estavam os meninos, e da minha escapadela para a liberdade da corda anti-som, ela, a Marthia, dobra a esquina do quarteirão abaixo. Isso, enquanto eu falava com um amigo dela, o Santiago, que era arrumador de carros.
- “Logo, logo, ela vai pintar. Fica aqui do meu lado, que logo, logo ela vai aparecer”.
E logo, logo a Marthia pintou. ("Olha ela aí”, brincou o Santigao). Desgrenhada, com pão na carteira, muitos sacos, cheia de saias, e com um rádio escondido no peito de onde saía um samba. Se tivesse pensado, não me teria ocorrido nada para lhe dizer. Acho que, por isso, e só por isso, reagi, como se ela fosse uma amiga de longa data e que não via há muito tempo: “Marthia!”. Ela olhou-me espantada, ouviu-me, perguntou quanto ia ganhar se me desse uma entrevista para o documentário, e depois, conformada, anuiu e concordou ir ter com os rapazes. Foi falando, falando, falando. E eles não queriam acreditar quando cheguei ao pé deles com a Marthia. Não conseguiam dizer nada. Ela ignorou-os. Perguntei se ela se queria sentar no chão. Falou, falou, falou. E disse que não era possível marcar hora com ela para gravar. Apareçam por aí. Deixei-lhe o meu número. Duas semanas depois o Santiago ligou-me:
-“Dona Vanessa, a Marthia está muito irada hoje, mas ela quer falar com a senhora para gravar!”
- “Santiago, hoje é impossível, porque não tenho câmara. Dá para marcar amanhã? Pergunta para ela, por favor”
... ansiedade,ansiedade (torcer os dedos para dar sorte...)
- “Tá bom, ela topa”.
E topou uma, duas vezes.
Topou, até, ir à casa onde morara pela primeira vez que pisara São Paulo há 30 anos. Tocou à campaínha, ninguém atendeu, até que veio uma memória viva aquele tempo. Cumprimentou a mulher, velha, baixa, de nariz encolhido, como se lhe tivessem dado um soco oco que o fez recuar, perguntou se estava tudo bem. A outra mulher, incomodada pelo espectro Marthia, disse vários sins rapidamente, meneou as ancas para a frente e para trás, ameaçou entrar, quis despedir-se com o virar de costas, enquanto a Marthia espreitava para dentro do grande corredor, que há 30 anos podia percorrer livremente.
Gravámos seis horas com ela. Ela leu pedidos, dos anjos, da religião que tem sem ser religiosa, dos santos, falou da vida (se “desvida” fosse palavra teria sido disso de que ela falou), da história que não teve, dos sonhos, das esperanças, dos choques no pé, dos beijos mal dados, dos homens que nunca amou, dos homens por quem se apaixonou, dos pais, dos amigos, das fotografias que tirou, dos botões que desabotoou, dos sonos, dos soluços e dos peitos apertados. Aproveitámos 20 minutos. Era só isso que tínhamos para ser curta-metragem. Ela queria mais: a merecida longa metragem, em slow motion. Queria que tivéssemos feito muito mais. Que havia muita coisa para contar. Que há muita coisa para contar, para falar, para confidenciar. Como quem diz baixinho que fomos incompetentes e não percebemos nada. Que talvez ela tenha andado a perder o tempo dela. Que mais valia os choques nos pés.
Ela não disse nada disso, realmente. Nem o pensou. Mas gostaria, e aí estaríamos perdidos. Eu e o Filipe, porque no fim, começou a ser um menos um, sobrando só um e uma. Dois solos para a mente de uma Marthia que poderia gostar-nos a preto, azul, ou vermelho. E, entre choques nos pés (até hoje não entendemos, verdadeiramente, o que significa - ela mudava de assunto, ficava amarga, azedava o olhar quando passava alguém de quem ela não gostava) e conversas no ar, pairando, nunca chegamos, de facto, a falar a sério dos papéis que ela colocava lá na mansão. E havia muito mais para falar. Há muito mais para falar. As histórias dela eram muito mais que papéis A4 (há vidas brilhantes que se escrevem em muito menos), como se eles fossem apenas o pretexto para ela conspirar comigo contra lugares mal frequentados, como o mundo. Por isso, tenho saudades da Marthia. Dos papéis A4 e das “desvidas”
Do homem que dorme no sofá do Guarany, refastelado, talvez na angústia de um lar desfeito, vazio, oco, de ecos que as paredes abafam;
do chá quente, enquanto não arrefece; do açúcar-torrão, ou de grãos escorregadios, refinados, para as chícaras moldadas por máquinas aceleradas; do relógio estragado, vivo, pulsante, pusilânime, avariado, por se recusar a ir, a contar e reduzir os mundos a soares gastos e mecânicos, sem saber o que é suor dos poros;
das cadeiras empoeiradas, de couros gastos, tábuas quentes dos ourtros que ali estiveram - serão os mesmos?; das mãos que ganham calos e texturas mais das coisas da vida que tocam, às vezes etéreas e impalpáveis;
dos olhares que ampliam, reduzem, pairam;
das saídas de emergência em nós – quantas saídas de emergência já o fizemos sem simulação e sem bombeiros para nos apagar fogos; das portas enferrujadas, (de)dobradiças esganiçadas; dos passos do chão gasto; do homem que ainda dorme no sofá, enquanto o resto se foi, veio depois, antes mesmo destas páginas serem tinta barata, (virtual)? palavras de sucessão de momentos em que se desenrolam as coisas, que estão velhas e tão novas;
das luzes intermitentes; dos sons que numa emitimos e devíamos, porque desconhecemos, tememos, receamos não saber, porque ignoramos;
que tempo há; que tempo tem?; que tempo é as coisas em nós e dos mundos?; que tudo é ele sem o ser; saber ser pétala arrancada de jardins; tudo é ele, sem ele e compassadamente temporário, numa perene amálgama de "tudos" circulares em misteriosos receios de estar aqui e não estar, em espectros vibrantes de sermos esta e outra Pessoa.
Ele examina, minuciosamente, a garrafa de azeite, como se tivesse descoberto um líquido exótico, que não sabe para o que serve mas acha bonito. Hesita, abre-a, timidamente, inclina-a de forma ligeira e delicada, e fica a observar aquele fio viscoso óleo de oliveira, com espanto infantil, a cair na comida.
Antes, comera um pastel de nata. Fotografou-o com a máquina nas mãos acanhadas, para que poucos percebessem o que estava a acontecer. Quando a comida chegou, depois, arregalou os olhos e deu um outro clique demorado e contemplativo. Insensível, já, que estou, reactivamente, às feições orientais, por durante quatro anos viver numa cidade que é a mais populada por japoneses, filhos de japoneses, netos, bisnetos, depois do Japão, não percebi, de imediato, (tudo me parecia demasiado normal, como ouvir um japonês a falar português do Brasil) que este rapaz de chapéu da Nike, sapatilhas Asics, blusão de penas, guia Lonely Planet, borbulhas da cara como qualquer um, sem estampas de nacionalidade ou cultura, está, apenas, de passagem por Lisboa. Como eu, com a diferença de que não tiro fotografias aos pratos.
Claro, também indiferente e viciada nos costumes que me criaram na portugalidade enraizada. Só que não deixo de me sentir, também, solidária com o rapaz, talvez por uma vontade secreta de que ele seja solidário comigo, na minha condição de estrangeira em terra própria (e de há quatro anos para cá não tenho sido outra coisa senão estrangeira nas pequenas coisas: também em casa de meus pais, onde já a dona Elvira conhece mais manhas da casa do que eu: as manhas da fechadura da garagem, onde se guardam as cebolas). Por isso, esse meu acto solidário compadece-se com a minha estranheza de que as coisas de cá, da capital, me são alheias. Sobretudo no que diz respeito, agora percebo-o, aos comes e bebes.
Ontem pedi, no Café Gelo, em frente à Praça do Rossio, um Compal de Tutti-Frutti. A senhora trouxe-me um de cenoura-laranja-manga, já aberto. Educadamente disse-lhe que ela se tinha enganado, mas uma vez aberto, não iria ser por isso que se iria estragar. Beberia-o.
Muito segura ela negou:
- "Não, não me enganei. Não temos de tutti-frutti e esse é o mais tutti frutti que tenho. Tem três frutas!"
Sorri, à espera de uma cena de “apanhados”, mas ela continuou com um ar sério, inabalável, seguro, como se estivesse a cumprir alguma ordem divina. Se pudesse, teria fotografado aquele momento. Mas o japonês já tinha saído. E não havia ninguém solidário com uma estrangeira, em terra própria, nas coisas alheias.
Já me apaixonei no autocarro. Havia aquele rapaz muito bonito, de olhos verdes, com o cabelo castanho médio que caía nos ombros, e o nariz empinado, longo. Era muito magrinho e sentava-se sempre lá atrás, nos últimos bancos, quieto, constantemente acompanhado por miúdas. E eram elas que falavam tudo, em risinhos de garotas a suspirar pelos olhos verdes, percebia-se, como eu, em pé, e com o rosto muito sério, com vergonha de que ele me notasse. E havia aquele amigo dele, num véu de mudez absoluta, também, com um cabelo escuro, liso e médio que me fazia querer adivinhar a que tribo indígena, talvez, pertencesse aquela herança capilar. Comecei a aperceber-me que às quintas e terças – como comecei a ansiar as quintas e terças! – o 54 trazia-me os olhos verdes para me fazer feliz no curto percurso de dez minutos até à minha paragem. Foi assim durante um ano. Saía da escola, corria 15 minutos para não perder o 54 e a minha felicidade da semana, a de um entusiasmo pueril de poder vê-lo.
Depois vieram as férias de Verão e foi-se o 54, os olhos verdes, o nariz empinado e comprido, o sorriso leve que esboçava das graçolas das miúdas suspirantes, que ele sabia, via-se, serem para ele. Ainda pensei nele, algumas vezes. Depois esqueci a história, veio a praia, as viagens, a liberdade juvenil, o peito insinuante, mudança de escola para o secundário, e a decisão de que iria para o Carolina Michaelis. Quando apanhei o primeiro 54, em Setembro, de regresso a casa, numa segunda-feira, não poderia adivinhar que me traria, de novo, aqueles olhos verdes, agora saturados por um leve bronzeado de rescaldo de Verão.
O entusiasmo voltou e um novo número. Poderia ocorrer que o 87 também trouxesse o verde dos olhos dele. Ficava mais afastada da paragem, para ter tempo de perceber se os lugares lá atrás, do 54 ou 87, trariam quem eu queria, num gáudio, agora, entre sessenta a quarenta minutos, pois a jornada era mais longa do Porto até casa. Não era muito difícil, ora, perceber que ele, certamente, andaria, também, numa escola ali do Porto e sobreveio-me a iluminação cartesiana de que poderia ser no Rodrigues de Freitas. Era-o. Pela primeira vez a perspicácia que diz aos neurónios x e y que zzzz não anda a dormir, serviria para alguma coisa. Eu ficava muito quieta no autocarro, para ele não me perceber, e depois dei-me conta que o amigo de herança capilar indígena andava na mesma escola que eu. Acho que fiz um carnaval cá dentro, com confetis, serpentinas e, talvez, um espectáculo pessoal de hormonas em pirotecnia, ou qualquer coisa parecida. Poderia, então, ser mais fácil descobrir coisas sobre ele.
A C., entretanto, começou a perceber e a dar-me conselhos. “Se queres que ele saiba quem és, vai mais lá para trás”. Eu, numa profunda vergonha, respondia-lhe que nunca uns olhos daqueles se interessariam pelo castanho-mel que mancha o meu olhar. Não me recordo quando comecei a perder o acanhamento. Talvez quando uma das miúdas se chegava muito a ele, com discrição, como se isso fosse denunciador de algum propósito mais íntimo que me começou a inquietar as hormonas e o pensamento. Cheguei-me mais para trás. Para ele. E pensava nas voltas que a vida dava, embora eu não saísse do lugar. Cogitei: (tantas vezes reflecti) Há um ano, começara a apaixonar-me por aqueles olhos do 54. Por isso, poderia reivindicar o direito de ter visto primeiro. Seria agora ou nunca.
E vieram os saltos altos. Aos 15 anos vieram os saltos altos. Poderia andar de saltos altos e aquilo era uma coisa que, achávamos, nos tornava mais femininas. Não sei se foi por isso que ele começou a reparar em mim (claro que não Eros, desculpa-me!). Talvez antes. Manias de achar que os rapazes reparam nessas coisas. A importância que damos aos detalhes são supérfluas nuances: pura perda de tempo. Só sei que o dia dos saltos altos foi o dia do primeiro olhar: verde e castanho-mel. Um "After-Eight" mais claro, falsificado, portanto, em que eu, supus, era o chocolate derretido, e ele a menta fresca que fica um pouco mais na boca. Saí do autocarro, mais lentamente, por causa dos saltos, que afinal nem eram assim tão altos, apenas manha feminina num jogo de sedução, solidário com o menear vagaroso das ancas.
Olhei para trás e do outro lado do vidro, dentro do autocarro, ele inclinara a cabeça e olhou-me. brevemente. Enrubesceu, eu enrubesci e achei que aquilo era um sinal. A partir daíi vieram outros olhares. O aperto no peito que parece que vamos desfalecer de tanto derreter cá dentro. Os arrepios bons dos pensamentos de breves momentos, que não passam de olhares. O platonismo de um amor assim, que não existe, parece impossível, ainda que a esperança começasse a latejar, por mais pequena que fosse. Quis o acaso que, um mês depois, estivesse sentada lado a lado como os "meus" olhos verdes não no autocarro, mas na sala de um curso de línguas que fazia há anos e cujas aulas retomaram. Quando cheguei à sala, quase tive uma coisa, um susto, um desfalecer momentâneo, pernas tremulas, olhar furtivo em estado de “vou- corar” e zás: o único lugar disponível era ao lado dele. Ele baixou os olhos. Ficou muito vermelho e ficamos assim os dois, muito calados e envergonhados, talvez a pensar, de novo, nas voltas da vida, sem sairmos do lugar. Sei que ele me disse, depois, que já estava escrito. Daí até ao primeiro beijo foi uma semana. O que fora um amor impossível e começara um ano antes num 54, numa tarde improvável de adivinhação da reincidência do transporte público que uniria um verde com castanho-mel.
Só que eu, do alto das minhas teorias palermas e ilógicas (e numa presunção do "raramente-me-engano- nessas-absurdas-conjecturas") pensei: "Se o primeiro beijo não correr bem, lá se vai tudo." Cheguei a imaginar que a magia do impossível era mais intensa e interessante do que a desilusão do beijo, do todo, das conversas vazias - e que medo sentia. Pronto o primeiro beijo não foi grande coisa. Não conseguíamos acertar a melodia que une as glândulas gustativas num júblio de coro de anjos afinados, ouvir sininhos celestes e sabe-se lá mais que viagens dos sentidos os beijos têm, como se quisessem desafiar o mais poderoso dos alucinógenos. Eu só queria ficar a olhar para aquele verde.
Só que, depois, vieram as flores, os cartões apaixonados, os 54 ao lado dele e a outra miúda de trombas porque ele, agora, tinha menos motivos para olhar para ela; os passeios perto de casa (a imaginação não era muita)– e da minha avó ameaçar que iria fazer queixa aos meus pais, porque andei de mão dada com um rapaz de aspecto duvidoso perto de casa (eram só uns olhos verdes, mas acho que todos os rapazes têm aspecto duvidoso para a nossa família, quando temos 15 anos) e de eu chegar a temer e a crer que, talvez, andar de mão dada, fosse, na verdade, uma coisa muito má. Depois vieram ainda os abraços cada vez mais perto, veio aquele regozijo pessoal de "Uau, apaixonei-me no autocarro e um ano depois, o amor acontece e o castanho dos meus olhos até fica bem com o verde do olhar dele"; a inveja das amigas porque ele era muito giro; os encontros mais prolongados no intervalo grande de 15 minutos: o encontro a meio do caminho entre o Carolina e o Rodrigues, que apimenta a coisa numa espécie de novela mexicana de romântico e melado de mais para ser verdade.
A coisa durou assim uns 3 meses. Até que ele começou a inventar desculpas. O 54 já não o traziam e só nos víamos no Curso de línguas, uma vez por semana, e por obrigação de que ele não podia fugir. A covardia de enfrentar uma conversa. E as coisas terminam assim, em fumo vazio e vago. Quando começara o fim eu não me recordo, verdadeiramente. Só me lembro de ter pensado, depois, que apesar do entusiasmo das flores e da paixão – que vai esmorecendo se não construímos a cumplicidade suficiente para nos apaixonarmos todos os dias por aquela pessoa - eu enfeitiçara-me, sim, e apenas, por aqueles olhos verdes, ;só aqueles olhos verdes. O resto eram apenas anexos desnecessários. Como o primeiro beijo.
Muitos passos, ressoares na calçada em tiquetaques lentos, saltos altos, rasos, suores frios, arrepios, sapatilhas baixas e voos rasos, os das pombas impertinentes. Ele ri-se muito, falso. Tem bom aspecto, cabelo grisalho, Levis 532, enquanto fala ao telemóvel, nervoso, e coça os tomates, como se fosse tique.
“Oh, Marta, eu não lhe disse que aquilo não ia andar para a frente!”
Ele andou, cirandou, fez círculos com o corpo e com os pés, gastou solas na calçada portuguesa da Baixa Chiado, à frente do homem de branco, com o pé encostado à porta da Divani & Divani, careca e uma estrela disforme tatuada na testa, olhando numa intensa e atenta contemplação de girar a cabeça para a esquerda e para a direita, à medida que o povo passa. Correcção: elas. Ele só olha para elas. Só persistiu na esquerda quando a loira de minissaia, esboço de Brigitte Bardot, com matizes suaves de Sophia Loren (e alguma coisa de mulher de Berlusconi) passou, muito agitada e lolita com o seu "puppy" pequerrucho e esquelético, vestido com uma camosolinha de lã a condizer com a camisola da dona. Ela sentou-se, quase ao lado do Pessoa, pediu um café e uma água de morango, pôs o puppy nas pernas de minissaia e roubou um cigarro à caixa Marlboro. Enquanto afagava o seu bicho-amostra-canina abriu o mapa de Lisboa e começou a contemplar as manchas coloridas que reduzem a capital a uma paleta de bairros, zonas e regiões com veias sem vida.
O homem de branco, que agora coça o nariz com os dedos e a mão aberta, deteve-se nesses gestos femininos oferecidos a céu aberto por uma pintura viva, que se tivesse essência autoral, seria, com certeza italiana, com um puppy rosa. Por isso ele não viu, nem será assombrado em pesadelos, reduzindo a selecção do olhar ao anominato dos que não vê, o homem de óculos escuros, barba de dias, mãos nos bolsos (e a mexê-los muitos, em círculos), chapéu rural, um homem estranho, muito estranho, que rondava as mesas, como se olheiro fosse o ofício que exerce por vocação (seria um detective de filmes de pornochanchada?), que o nosso homem de estrela tatuada melhor exercia, por atributo de subtileza, camufladamente encostado à Divani, e sem que a loira se apercebesse momento algum. Se acontecesse, talvez o repreendesse pela invasão da malha invisível que nos permite a nós, transeuntes públicos, à dissimulada ilusão de que se não vemos quando nos olham, não nos incomoda, mas se nos olham quando percebemos, o confronto do olhar do desconhecido é reprimenda suficiente para que voltemos à virtual malha invisível que reivindicamos por direito ao sossego e ao delével anonimato, como espaço privado capcioso em praça pública.
Mesmo eu, não obstante a presunção, devo ser observada por olhos que desconheço, ignoro e nunca saberei, porque me encolho no ofício de olhar quem passa e ouvir, manhosamente, quem por aqui anda.
"Eu ando a guardar os talões todos, porque quando chegar a altura de pagar, eu vou perguntar que taxas é que eu ando a pagar”. “Felizmente já está tudo ultrapassado. Só podes fazer disparates para o mês que vem. Ainda não falei com o Manel. Sim, senhor. Está combinado, então. Ah, ok. Um abraço. E veja lá se não faz asneiras no Brasil.” “Oh, Preta gostosa. Ela sabe que é gostosa”. “Com ou sem Canela?” “Ali tem o Pessoa, e você pode sentar-se ao lado dele”.
E, agora, mães de mãos dadas com filhas, camisolas amarelas, ombros à mostra, a despeito do frio de Lisboa, olhos vermelhos – os de um novo olheiro cansado, talvez- que se encosta à montra da Sisley. Vê duas mulheres luxuosamente ornadas, vai ter com elas como ave de rapina e levando a mão à boca, diz que tem fome, e se elas não lhe podem dar algum para comer. Enxutam-no com olhares azedos, de desprezo atroz e ameaçador, mais denso do que as palavras aziagas. “Eh, pá, por favor”. E afastam-se. Ele sorri, com os olhos tresloucados, lunáticos em órbita descontrolada, e deambula em círculos como se imitasse o rapaz da Levi´s, que há pouco coçou o saco, puxando as calças de ganga para cima e para baixo, para baixo e para cima, enquanto se ria muito com a tal Marta ao telefone – e se ela soubesse talvez desligasse, para que ele terminasse o ofício da fisiologia pública masculina e deveras viril, não fosse ele, distraído, trilhar os pêlos, por engano. Os pêlos, claro!
O homem que ria já se foi, enquanto os predicados aqui discorreram, e a mulher-palito entra na Benetton. A loira também abandonou o recinto e o alcance de visão do homem de branco, que agora, voltou aos exercícios de alongamento do pescoço esquerda-direita-esquerda e outra mais oxigenada passeia de mão dada com uma velha de cabelo muito curto e preto, enquanto as sirenes da ambulância soam tão perto que parece que mundo se acaba aqui, ou que o Haiti também é aqui, ou onde nós quisermos, se não foi onde sempre foi.
“É do interesse deles, sempre!”. “Vais-me dizer, agora, que a culpa é minha?”
Brasileira, lá está, entre 120 e 122, esquina com o homem de estrela tatuada na testa. Transversal à loira do puppy que já se foi e paralela ao homem de olhos vazios (existem olhos vazios, desses mesmo que só ali estão por estar, sem talento, mas disciplina obrigatória), que é como quem pede um olhar de atenção, nem que seja de reprimenda pela transposição da malha invisível. Mais ombros à mostra na sombra fria de Lisboa, voos rasos e destemperados, passos, tantos, com tom de fim de dia, que serão os mesmos ao começo da manhã e a meio dela, decotes profundos, sem mamilos arrepiados na pele morena da moça de cabelos pretos, gostosa, muito agarrada ao braço do moço de peito aberto, imberbe, e a coçar os tomates. “Cuidado”, talvez ela lhe dissesse, se soubesse. “Ainda podes trilhar os tomates.”
Se eles se encontrassem agora, certamente, teriam muito para dizer. Ou nada. Talvez! Depois de tanto tempo não sabiam, realmente, se haveria assim tanto para dizer.
Tantos frios nas mãos, frieiras no pensamento - dessas nunca curadas por vontade pessoal - angústias, reclamações, cobardias, tantas manhãs sem sol que fazem cabelos brancos, tantas insónias, tantos chilreares abafados em árvores recém-podadas, tantas mulheres, tantos homens, tantas angústias, problemas, contas, traições e nadas, dívidas, tantas certezas incertas e precipitações seguras, erros, filhos (haveria filhos?), casamentos desfeitos, divórcios, barrigas flácidas das noites de cerveja a ver futebol no sofá (ou a novela, ou o CSI, ou o House, ou da cerveja, apenas, a acompanhar com tremoços; e bolos porque uma delas estaria, certamente, carente, doces, muitos, e a cabal incapacidade de suar num ginásio para que não vissem o corpo que ela tem).
Haveria estrias, celulite, queixumes, horas em salões de cabeleireiro e a escolher a cor do verniz (ou a folhear as gordas da imprensa pink, baby!) sorrisos falsos, gastrites, filhos (tê-los-iam desejado?), promessas, juras, ilusões (teriam casado com a cara-metade na esperança de que se mudariam mutuamente, e aquele: “Gosto de ti como tu és” virara um: “Lá vens tu, outra vez, com essa merda!).
É, realmente se eles se encontrassem agora, os cinco, para recordar os bons velhos tempos do secundário, seria um confessionário de lamechices do que não fizeram, mas gostariam, do que não são, e um dia almejaram; do que meteram na vida na incapacidade de lidarem com eles próprios, ou com medo da solidão e de não terem filhos, como todos, e de não casarem, como todos, e de não terem ido para um resort na República Dominicana, como toda a gente faz; de não terem um plasma, como todos, de não terem mais uma série de inutilidades que o tempo esconde, antes que dêem por isso.
Se eles se encontrassem agora, imagino-os, certamente S. quebraria o gelo e diria algo como: “Acho que foram os tempos mais felizes da nossa vida.”; e H., que já pensara muitas vezes nisso começava a “acreditar que sim” e que se não fosse “a vaca da R." ele "não estaria endividado até aos 60 anos" (aquela casa de luxo tão fantástica na Foz, com vista para o mar, virara o inferno que o levou a más companhias como álcool e haxixe, que as putas, essas, é que estavam portanto em má companhia). J., calado e cabisbaixo, diria que, nessa altura, não tinham “nada” a que se pudesse chamar problemas”, e S. impertinentemente segura de si, como sempre, discordaria, dizendo que “tudo é contextual, tudo é demasiado contextual, não julguemos as coisas assim”.
T. que sempre implicara com S., numa paixoneta mal curada, como as frieiras do pensamento que temos, por vontade própria, e não gostaríamos, dir-lhe-ia alguma coisa como: “Não mudaste nada, continuas a mesma chata”. Ela, agora, madura, empresária de sucesso, habituada aos livros de liderança e a gestão de conflitos, estaria, portanto, ainda mais quezilenta, ardilosamente amarga e irónica, e seria implacável nas observações: “E, vocês, a desviarem o assunto para falarem de mim”. Rir-se-iam, muito, nervosos e incomodados. Talvez demasiado e por demasiado tempo, com medo de não encontrarem, depois, algum e outro tema de conversa.
Fizeram algumas pausas. Disseram que teve muita piada, sim senhor, foi fantástico, não tinham mudado nada. E foi só isso. Quando o riso, e o rescaldo do gracejar, saíram do ponto de rebuçado aceitável e se reduziram a cinza, fumaram. Foram fumando. E fumaram muito. Até ser cinza de novo. E voltarem aos dedos nervosos do maço de cigarros, um e mais um, o isqueiro, a chama, tudo com cautela medida para que o momento durasse, como se o acto de fumar fosse a solidariedade necessária para os manter unidos sem dizerem nada. Talvez se se encontrassem, agora, não teriam nada para dizer. Há coisas que mais vale ficarem quietas onde têm de estar, mesmo que a ganhar celulite, estrias, barrigas flácidas. Antes isso que o bolor das conversas ocas.
Naquela casa, perto de Ipanema, talvez ela tenha tudo o que precisa para ser feliz. Tem a cozinha para os pratos vegetarianos (que não passam de soja com cebola e beringela ou cenoura e molho de shoyo); a coca-cola zero no frigorífico; a sala com o computador; o quarto com o colchão; e a mesa pequena no corredor, com as cartas da sorte, onde ela procura, todos os dias, uma resposta àquela pergunta só dela, como se fosse um oráculo. Talvez ali, naquele apartamento, tão perto da praia, ela tenha tudo para ser feliz, embora nunca o esteja, ou arranje constantes subterfúgios, para se sentir, cronicamente, descontente do todo que diz não ter, mas poderia, para sê-lo. E talvez pudesse, tanto, se se esforçasse mais um pouco. “Só mais um pouco Hilda”, dizíamos-lhe. E ele desatava a enrolar-se no sofá, a esmifrar cigarros, uns atrás dos outros. Depois, saía, batia com a porta e dizia que não a compreendíamos, que ninguém a compreendia.
Sempre conheci a Hilda assim. E talvez, bem no fundo, entenda por que é que ela, tão delicada e absurdamente depressiva, nunca se contente com nada, a não ser a amargura de arranjar problemas, lá dentro dela, em grandes nós (as crises de Hilda não eram bonitas de se ver) e apaixonar-se pelos "homens errados", sobretudo os casados. Estava lá em casa quando aquele actor famoso lhe ligou, às quatro da manhã, para que ela aparecesse em casa dele (correcção: na cama dele). Ele, casadíssimo, e que até há bem pouco tempo apareceu nas páginas cor-de-rosa como uma das estrelas de TV com o casamento mediático mais duradouro. Hilda ria-se muito, gracejava, dizendo-lhe que não, intercalando, com um “você-tá-louco-cara-me-ligando-a-uma-hora-dessa”. Não iria, claro que não. E nós ríamo-nos muito, no fundo com inveja da Hilda, talvez. Ela sabe que não precisa disso: de aquecer leitos, onde outras se deitam; de consolar prazeres furtivos; de ser fantasia juvenil. Não é essa, realmente, a história dela.
Meter-se com o editor do livro do pai dela, casado, já foi lição suficiente, para que mantivesse a braguilha apertada, num voto de castidade, com homens casados. A mulher dele perseguiu-a, durante dias, e fez um escândalo à porta do apartamento em Copacabana, insultando-a. Não era bom para a reputação dela. Com vergonha, mudou-se para Ipanema e jurou "nunca mais". Não sei, verdadeiramente, se Hilda não seria mais feliz com uma mulher. Houve uma altura em que pensei muito nisso. Mas a ela não lhe interessava esse assunto, a não ser como tema dos livros que escrevia. Uma mulher assim, como Hilda, com um karma sexual tão forte, e um interior já tão corroído e desequilibrado, não é fácil de perceber. "Não haverá homem que a entenda", lembro-me de ter pensado. Apesar de não haver homem que lhe resista. Só que ela, nunca construiu verdadeiramente nada com ninguém. Talvez esse actor, até ficasse com ela, como brinquedo, mais tempo que o comum. Um ano. Poderia ser que chegasse a tanto. Ou que ele pudesse ser o brinquedo de Hilda, por uns tempos. Ela sabe dar-lhes a volta, quando quer. Só que ela não precisa disso. De nada disso. Ela só precisa dela e não consegue. E de nós. Ela precisa muito de nós. Mas nós, às vezes, não temos paciência para tanta reincidência no desequilíbrio. Tanto peso!
Depois sei que Hilda não seria Hilda se não tivesse esse útero doente, onde pare os filhos das suas geniais criações. E como escreve Hilda! Chega a dar inveja de como ela escreve com dor, acidez, azia: a escatologia da vida como coisa bela. Acho que todos os grandes artistas precisam de um útero constante e de dores de parto. E eu sempre conheci a Hilda assim. Acho que no fundo invejo-a, devagarinho, sem chegar a ser feio porque gosto muito dela. Vê-la criar, chega a doer, na verdade. Dói porque ela destrói-se, lentamente. Enche-se de cerveja, fica ansiosa, fuma como uma desalmada, enche-se de coca zero (de gastrites) e de anti-depressivos. Não se deita antes das quatro da manhã, com sorte. Levanta-se às 10h para ir correr, à conta de uma obsessão anoréctica que herdou da adolescência. Isso quando não está a contar as calorias da comida. "É obssessivo e doentio, Hilda, chega", dizemos-lhe. Ela faz de conta que não é com ela e continua. E nós fazemos de conta que não a vemos a fazer aquilo. Pedimos a nossa comida e a conversa continua, porque alguém a desviou.
E Hilda é tão linda. Aquele rosto terno e de traços eslavos que lhe misturam um esboço de Lispector. Os olhos apertados como se estivesse sempre a sorrir. Aquelas palavras geniais, porém tão doentes, e tão profundamente crónicas da dor que vai ali dentro dela, da nossa Hilda, para criar. E como ela cria naquele cubículo em Ipanema. Cria tanto, que chega a doer-lhe. Só que ela é tão feliz quando cria. Acho que são os únicos momentos, em que ela é verdadeiramente feliz: a esmifrar cigarros em fila indiana, a beber cerveja que nem louca, com coca zero nas vírgulas da criação e as insónias para parir um texto - uma ideia, um roteiro, um diálogo - à mão, naquele caderno cor-de-rosa, com tantas perguntas, que não chegam a ser dúvidas, mas formas de ela lhe responder, a ela própria, página a página, que aquela Hilda, sim, é feliz, por instantes de lucidez, no cubículo de Ipanema.
Quando ele chegou a Pashtina, essa cidade imaginária que todos temos dentro de nós, como dores irreais que nos arrancam do sossego da nossa cama quieta e quente, viu pessoas a dormirem em autocarros queimados. Viu casas em ruínas, poeira que se entranhava nos pulmões e homens de cabelos compridos, envelhecidos, gastos pelo vento e pelo suor do descontentamento.
Sentou-se naquele autocarro, justamente naquele onde viu o nome dela gravado num dos bancos, o das janelas estilhaçadas, talvez pela pilhagem dos homens que ali dormiam, sem mulheres para fornicar, ou lhes aquecer o corpo frio, depois, de tanto suar, e lhes lamber as feridas envelhecidas, sobretudo as de dentro, que as de fora já estavam em putrefacção, numa solidariedade colectiva que torna os homens de Pashtina os mais sofridos e merecedores da angústia. Ele viu o nome dela. Há muito que não via o nome dela. Chegou a andar noites, depois do expediente, para procurar, de novo, o nome dela escrito em letras garrafais naquelas paredes. Deu faltas injustificadas na repartição das finanças, onde trabalha, diligentemente, mas discreto, há 30 anos, sem que o chefe saiba, afinal quem é Bielman F., só para reencontrar o nome dela onde quer que fosse naquela cidade.
Nunca mais o viu e, depois disso, tratou de arranjar outra obsessão, ou outra namorada imaginária, como lhe chegaram a dizer na repartição das finanças. E, lá estava: naquele dia vira o nome dela. Em Pashtina. Anos depois.
Bielman F. percorre, recorrentemente, lugares estranhos. Alguns imaginários, sofregamente, que a memória lhe traz de tempos que nunca sabe se conheceu. Ele também não sabe, sequer, por que o autocarro que apanha, ao fim do dia, depois do expediente, o leva aos subúrbios do que acha ser – porque Bielman F. não é homem de saber estas coisas – a alma humana, em putrefacção. Ele vê muitos lugares assim. Chega até a dormir por lá, porque não consegue achar o caminho que o leva a casa. Mas depois de adormecer (não quando quer, mas sem dar por ela), acorda sempre no desvão empoeirado daquele beco sem saída que o salário da repartição lhe permite pagar.
Quando a eles vai parar, aos lugares estranhos (tantos, que poderia enlouquecer!)Bielman F, contou-me, acha que fica numa espécie de capa invisível e que ninguém o vê, porque nunca meteram conversa com ele. Não que ele seja um exemplo de comunicação, sempre de olhos metidos no chão, a ruminar por que a vida lhe traz Invernos tão rigorosos, como a infância vivida a pão, papas e vinho avinagrado, para enganar a bolor entranhado. E, depois, aquele ar insalubre, de cabelo lambido de óleo hormonal acaba por ter uma espécie de efeito repelente. Há outra coisa, porém, que o leva a pensar que isso não é suficiente. Por isso, quando chegou a Pashtina, que talvez exista, de verdade, no nome de algum letreiro de autocarro; possa até ser terminal de alguma coisa, nome de alguma cidade de interior onde vivem homens mais felizes, sem putrefacção, ou bolores que tornam a vida um fungo entranhado do qual ninguém se livra nunca; ele fingiu que dormia.
Em vez de explorar essa terra de homens carcomidos, Bielman F., cansado dos lugares a que vai sem pedir, resolveu ser um farsante na arte do sono. Encolheu-se muito, quase a abraçar-se. Encostou a cabeça ao ombro, entortou-se para se acomodar no banco disforme e, contou-me, simulou uma respiração profunda, quase a roncar. E ele, sei-o, não ressona. Não demorou mais de um minuto este número de teatro barato, quando ouviu ruídos de bichos, achou, que não conhecia, ou talvez fossem os homens que agoniavam das feridas em putrefacção, sem mulheres para as lamber, limpar e curar.
Incomodou-se com aqueles barulhos estridentes, como se a agonia fosse um assobio canino intermitente que traz os poros à condição de galinha e lhe entra com um vento gelado pelo corpo. Pela primeira vez, Bielman F. incomodou-se verdadeiramente por tamanha condição humana (ou talvez a sua), numa terra onde, parecia, o sol nunca entrava para secar as lágrimas que eles nunca antes tinham feito jorrar, mas gostariam, por não saberem que condição é essa de aliviar o sufoco com líquidos salgados que podem sair dos olhos. Ele não aguentou. Irritou-se, até, e apeteceu-lhe berrar um “calem-se”, para ficar mais aliviado e poder, quem sabe, continuar a farsa da sonolência, do ressonar, e da indelével indiferença premeditada. Pôs as mãos nos bolsos, tirou um cigarro e usou-o como "conta-tempo" para decidir o que deveria fazer; e como poderia sair dali, de Pashtina, que estava a tornar-se uma valsa lenta de agonias. E logo ele que não era homem para essas coisas.
Esses seres de cabelos compridos, unhas enegrecidas, rostos farruscos, rugas profundas em caras que aparentavam acabar de conhecer a puberdade e que pareciam desenhadas com cinzeis empurrados por mãos pesadas, não se moveram de si.
Aquele som, afiança Bielman F., só ele ouviu. Não olharam, não perceberem o fumo do cigarro, fingiram, talvez, que Bielman F. não existia realmente. Foi por isso que ele, sorvendo o cigarro lentamente, desconcertado e sem saber como sairia dali, demorou ainda outro cigarro, pedindo ao tempo que se demorasse. Depois levantou-se daquela cadeira de estofo rasgado, com o nome dela, pisou os escombros do autocarro queimado e caminhou sozinho pelas ruas, cheias de homens que aqueciam as mãos em latões de fogueiras infernais.
Viu lixo empilhado, electrodomésticos estragados, oxidados e despedaçados, sofás rasgados, cadeiras amputadas, quinquilharias e, talvez, tivesse visto monstros. Ele não soube contar-me quem ou o que eram aqueles homens maiores que estavam encostados aos prédios em chamas. Ele caminhou muito. Correu, quis gritar e não conseguiu. Quis abraçar-se e teve medo. Tentou falar com os homens mas eles não ouviam e sequer falavam entre si. Bielman F. teve medo, muito medo. Como nunca tivera alguma vez na vida. Ele nunca foi de ter medo. E não sabe dizer-me onde fica Pashtina e por que estava lá o nome dela, depois de anos desaparecido das paredes dos becos sem saída por onde anda.
E, talvez por isso, ele não sabe ao certo, Bielman F. chorou muito em Pashtina, soluçou e pensou que não tinha ninguém para lhe lamber as lágrimas, limpá-las e curá-las. Não chegou a fechar os olhos, mas não sabe dizer-me como chegou, no dia seguinte- talvez tenha acordado lá, já, ou despertado de um sonho profundo- até ao beco sem saída que tem por casa, aos lençóis frios que aquece com o corpo franzino e pontiagudo que o pão, as papas e o vinho avinagrado lhe deram como herança. Ele só sabe que chorou muito e teve medo. E que não quer nunca mais voltar a Pashtina. Jurou nunca mais apanhar aquele autocarro.
- Não achei que tivesse que te contar… O que nos corre no corpo e se traduz em beijos e mãos que vão escorregadias não se explica nunca. Se vive como se o momento fosse o último, com magnetismo e desnorte.
Acendeu o cigarro. O ar saiu seco. O rosto agoniou com o fumo e saiu a medo da boca, pausado. Os olhos umedeceram. A fumaça voou pelo quarto. As palavras foram atrás. Silêncio. O ar ficou denso. O peito ficou apertado e engoliu argumentos antes mesmo que eles soubessem que o eram. Ela no chão, envolta em lençóis de prazer, angustiada. Ele do alto, olhando as cortinas de veludo, em convulsão líquida interna para não ceder à vontade de a agarrar e apertar contra o peito. Mas homem vivido não se arrebata por vergonha dos cabelos brancos. E das rugas que servem de anticoncepcional ao parto de afectos.
- Não vamos falar por quê aconteceu. Melhor o silêncio e quebrar o tempo para que a memória guarde tudo como um sonho. Não tem mais futuro.
- Nunca falamos dele, nem do passado. Você disse que era o momento. Que tudo se reduzia a um gozo. Como a amor. E já ninguém morre de amor. Eu concordei.E já ninguém conta histórias assim. De longas noites de palavras e partilha. Com amanheceres no alto. E sem que a sofreguidão e a ansiedade do toque no corpo se intrometessem. Já ninguém se arrebata; e se deixa arrastar. Ou luta por ele. Falamos sempre de presente. Da textura da carpete no chão. De seu cheiro em minha pele. De nossa linguagem de sentidos sem traduções. Da leveza e do bom humor que nos agarra e cola os olhos ao pensamento, traduzindo sem legendas ou retóricas.
- É tarde!
- É sempre tarde, antes de ser o cedo que gostaríamos. Não há tempo ideal que nos registre a escala de sentimentos. A paixão é um gozo só. Ou vários. E que quer dormir depois para se encantar ao amanhecer. O amor é um gozo lento. Ou talvez nunca chegue a sê-lo.
-Você lembra daquele beijo? De seus lábios ainda guardando o vinho daquele jantar nas reentrâncias da boca como se fossem impressões digitais que marcavam os meus? Deixa, não responda. As memórias são para soltar. Nada mais importa, Jeane!.
Seis cigarros depois e as bocas adormecidas ferem, de novo. Sete cigarros por cada pecado. E aqueles que nunca sabemos se existem. Ainda partilharam um. O batom dela no filtro. O cheiro do corpo seduz a cinestesia à perdição, em adultério com os cheiros assépticos que as discussões devem ter. A deles não chegava a sê-lo, porque tudo acabara antes mesmo de começar.
Ela se levantou. A porta rangeu. Se ouviu os lençóis a deixaram o corpo: som de roça-na-pele: “flap”! Se vestiu. Não se tocaram. Não falaram. Não se olharam.
Ele deu o último gole no gin. Deixou cair a cinza na carpete que ainda ardia dela. O celular tocou.
- Só para dizer que havia muito para falar!
E ouviu-se um beijo metálico (aqueles lábios degustando o telefone). Saiu do quarto. Deixara a coragem por ali. Pôs na bagagem a amargura, o pecado e a perdição. Porque já tinha gozado de uma vez.
Bateu com a porta. A fechadura gemeu. O vidro se estilhaçou no chão. A placa caiu: quarto 77. Pagou. Deixou o néon: “Motel Perdición”. Acendeu um cigarro e deixou a fumaça na noite. Pensou: ”Mesmo sabendo, eu faria!”
Há uma nova categoria de homens a surgir em Portugal. (Acho que a cada cinco anos, não sei se, por tendência geracional, se por influência do aquecimento global, há uma nova colheita do que serão os homens portugueses do futuro, e não auguro grande esperança para os interessados no género: estão cada vez mais rudes, para não desiludir a nossa "portugalidade"; têm comichões quando se pronuncia a palavra cavalheirismo, isso quando sabem sequer o que significa; são cada vez mais metrossexuais, e a querer parecer-se, em doses hiperbólicas, com estrelas de pop (ou até quem sabe com os cantores de um determinado programa de televisão).
Ainda não o são, mas um dia, vão fazer-se machos, viris, de pêlos no peito, por onde, agora, se sobrepõe o rosado de uma pele virgem para conquistas pélvicas, poro por poro. Um rosado que, na verdade, enrubesce com o frio glaciar (ou antárctico, ou nem uma coisa nem outra, porque não entendo nada disto) que se tem sentido na minha cidade emprestada (nasci em Matosinhos, por isso estou mais para peixeira do que para tripeira, embora por afinidade me considere a mais genuína portuense, do que muitos que por aí andam), e que anda a tomar conta dos peitos destes pseudo-homens lusitanos, imberbes, ainda. Eles chegam de todo o lado, não sei se é tendência no Norte - que é uma aldeia, praticamente, e se a categoria já se disseminou para o resto do país como a gripe e as constipações - andam na rua, estão nos bancos de jardins, à saídas das escolas; mas acho particularmente curiosa a passeata em grupos, em transportes públicos. O metro é o melhor lugar para vê-los. É onde perdem o glamour, com aquele sotaque cerrado, nasalado, do "Puorto", que acho ter o seu interesse, mas para estrela de pop, a coisa fica estranha. O importante mesmo é dizer que eles andam de peito aberto. Alguém mais desatento poderá pensar que me perdi por aqui e me quero, na realidade, referir à expressão solidária e abnegada de alguém que gosta de receber os outros de “peito aberto”. São truques que aprendi do outro lado do Atlântico, em terras de samba e gingado de palavras, que me elevam à categoria de uma perfeita farsante da linguagem (não acreditem numa palavra deste post, a não ser naquelas que dizem a verdade).
Estes “peitos abertos”, que muito tenho visto, observado, investigado, interpretado, mas com quem ainda não falei, são miúdos de 15 e 16 anos que, para dizer a verdade (porque até aqui tudo era mentira) são verdadeiros heróis, grandes meditadores do zen budismo, por vencer essa perdição do corpo rendido ao frio (Lembro-me, a propósito, de uma vez na Finlândia, com neve, neve, neve, menos 7 graus, um activista ir para as aulas apenas vestido com uns calções de ganga e sandálias, numa caminhada de meia hora. Aquilo é que era um peito aberto. Talvez a coisa tenha vindo daí).
Agora, enquanto eu, do alto da minha constipação (ou gripe B, como lhe chamo: de “boba”, porque todas as gripes são uma perda de tempo), encasacada, de cachecol até às orelhas, chapéu, sobretudo, botas e meias de lã quentinhas, tento, elegantemente, caminhar pelas ruas da minha cidade emprestada, estes miúdos, de camisolas em lã fininhas e decote em V, pavoneiam-se, mais elegantemente que qualquer outra pessoa na rua, sem t-shirt a servir de forro para o peito, sem casaco, nuns sibéricos (pirinéicos, andinos, patagónicos, sei lá) nove graus, de peito à mostra, rosado pelo frio, virgem, qual pop star no seu mais alto glamour, pronto para os paparazzi, mas sem um pingo no nariz, sem um tossir brônquico, ou outros indícios de uma gripe Boba. Assim de repente ocorre-me que nem sequer um casaco eles têm para oferecer a alguém interessado no género destes "um-dia-homens" e é só isso que verdadeiramente me preocupa. Isso e a gripe B, que ainda não curei.
Ainda não tinha visto o filme de Julie Taymor, com Salma Hayek (e a sua brutal e desconcertante semelhança com a pintora mexicana Frida Kahlo). Era um dos DVD´s que estavam esquecidos no armário de casa dos meus pais e que recordo ter comprado numa dessas promoções de fim de ano. Três anos depois, num segundo “round” depois do “À Prova de Morte” do Tarantino, ontem, enrolada na manta, com o vento frio a rugir lá Poderia falar da fotografia, das cenas espectaculares que recriam quadros da Frida, da representação brilhante de Hayek e Alfred Molina (Diego Rivera), e outras observações intelectuais exigidas por quem se preze a criticar um filme. Deixo isso para quem entende realmente da coisa, até porque é o "invisível" que me é "essencial aos olhos".
O que é realmente belíssimo, tal como no documentário de Vinicius de Moraes (Miguel Faria Jr), ou no “Into the Wild” do Sean Penn, são as várias lições de tempo do filme sobre a Frida, da importância da procura da insatisfação pela constante satisfação de nadas e agoras, do amor, do sexo por sexo, ou do sexo por contextos, da criação, da ansiedade como procura do interior, e da cegueira do nosso quotidiano, que nos vicia numa imensa redoma em contraluz que nos arranca do essencial. Talvez “a condição humana” seja mesmo essa (perdoe-me o André Malraux) que nos torna realmente mais sartrianos do que sabemos ser (somos profundamente estrangeiros de nós): a dos vícios que toldam a nossa história em recriações deturpadas do essencial (e por elas, no nosso contexto ou até mesmo nas utopias interiores, recriamos um mundo só nosso, que nos fecha num hermético globo de percepções individuais).
É como se em todas as lições de tempo precisássemos de um choque de contrariedades que nos questionem os vícios de personalidade, do dia-a-dia, dos nossos, dos outros. Por exemplo, há um momento em que Kahlo recebe um telegrama, nos EUA, sobre a mãe doente, no México, e se apressa a abraçá-la na casa da sua infância. Depois, já lá, vai ter com o pai, angustiado, que tenta arranjar as flores do jardim que a mãe diligentemente cuidava, para que não se morram, com receio de que esposa lhe ralhe, ainda que enferma. Ele quase nunca cuidou das flores; desabafa que houve momentos em que achava que nunca tinha gostado dela, que a detestava, até; confidencia-lhe que, depois de tantos anos juntos, as pessoas já nem sabem o que sentem, discutem muito, e num embalo de uma relação deteriorada, como muitas, tantas, desses vícios da intimidade, que nos podem tornar tão desumanamente frios e pérfidos (estrangeiros de nós?) com alguém que partilhou tanto da nossa intimidade, deixam-se estar quietinhas à espera de sobreviver até ao fim, e a fazer mal um ao outro, por medos e, paradoxalmente, pelos mesmos vícios interiores. Frida abraça-o, põe a flor morta no ouvido. Ela própria viveria o dilema da relação deteriorada (pelas constantes infidelidades) com Diego Rivera (“É melhor separarmo-nos. Damos-nos melhor como amigos e companheiros do que como marido e mulher”). Kahlo fica destroçada. Anos mais tarde envolver-se-ia com Trotsky, exilado na casa do pai dela, a pedido de Rivera. Mais outro punhado de anos e Diego volta para ela, como quem volta para o útero (e Kahlo já estava, nessa altura, muito debilitada, cheia de dívidas, mais azeda, amarga, mas intensamente lutadora pelo tempo em si). Só que o essencial é isso, o tempo em nós. Visto assim, numa retrospectiva de uma vida, com uma hora e cinquenta minutos, com cortes e recriações do que possa ter sido a vida de uma mulher, que nos momentos de maior angústia pintava com as dores de dentro, parindo sempre as catárses que a libertavam dos vícios de um mundo hiperbolicamente pessoal, sofrido e destroçado, é uma imensa lição de vida, de tempo, de leves adormeceres para um imenso e mais maduro amanhã. O essencial é sempre esse, na realidade, o aprendermos a gerir o caos que há em nós, promovermos as contrariedades constantes para ver o essencial, para quem sabe pouparmos anos de azedume, porque sabemos que o mais importante está sempre ao redor de nós, contrariando os nossos vícios de teimar em ser estrangeiros de nós...
O meu amigo N. Ferraz enviou-me, há pouco, um link com um texto do Paul Theroux, sobre uma viagem no "Expresso da Patagónia". Estava lá tudo. As gentes, os gestos, as percepções, as angústias, a leveza, a solidão, a ternura dos outros, a vida dos desconhecidos, na partilha de tanto; os sons, a percepção aguçada dos sentimentos que em nós vão fervilhando. Tudo isso, como se viajar fosse, apesar da experiência pessoal, uma grande festa universal, para os atentos que gostam de sentir, simplesmente. Antes de uma viagem ali, aonde for, ao redor de nada, de tudo, ou simplesmente do vento, viajar é uma viagem a nós, cá dentro, num carrossel autista. O que deitamos cá para fora, depois, é mais nosso e rico, do que a marca que deixámos num qualquer lugar que nunca mais se lembrará das nossas pegadas. Só que Theroux tocou no essencial, para mim, para me entender, para me alertar do perigo e da tirania dos regressos.
Voltar da Amazónia, das Amazónias, das viagens ao interior de mim e ao redor de um pedaço de mundo, foi a experiência mais dolorosa que até aqui tive. Tudo lá foi intenso, com momentos menos bons, mas de bela transformação. Só que o mais difícil, foi o regresso. Este regresso, a mim. Nada mais dilacerante do que o regresso. Foi duro, pesado, não pela minha urbanidade, pelo desejo de uma cama fofa, comida caseira, abraços quentinhos e carinhosos, mas porque já não era a mesma Vanessa que foi. Sabia-o, claro. Queria-o, tanto. Mas voltei profundamente silenciosa, inadaptada, recolhida, confusa com tudo ao redor: os barulhos, as pessoas, a urbanidade, as conversas que me irritavam de tão superficiais, desnecessárias e vazias. Para mim, que estava sensível, como se tudo fosse uma imensa primeira vez, carcomia-me a respiração ofegante, ansiosa. Não queria estar, falar com ninguém. Voltei, sim, profundamente silenciosa, em apneia voluntária dos pensamentos, como se mais nada importasse. Voltei num estado que não o sou, triste, acabrunhada e revoltada com a intensidade da mudança que não percebia, ou percebo bem em quê. Viajar é uma desaparição. E, viajar assim, é viver demasiados anos, em poucos meses. É escrever rugas e cabelos brancos com itinerâncias e histórias de vida, que se tornam a nossa. É ir até ao esquecimento. Ir até à importância dos olhos virgens dali, e voltar com sentido, com os olhos cansados, de tanto (vi)ver...
Gosto de postais, de cartas, de papéis avulsos, de cadernos. Há qualquer coisa de mágico em escrever-se sobre aquele momento para alguém, naquele pedaço de papel. Por isso, ao longo destes quase 4 anos de Brasil acumulei resmas de papéis, cadernos, postais e papéis avulsos; entre outras colecções involuntárias. A mala veio mais pesada porque não sabia o que lhes fazer do outro lado do Atlântico. Esse exercício de, finalmente, decidir se deveria rasgá-los ou guardá-los não poderia ser feito de uma forma qualquer. Merecia um ritual, pausado, e com disposição. Hoje comecei essa empreitada, que, para dor de cabeça dos meus pais, já andava a arrastar-se há uns dias - mas a anestesia de ter a filha emigrante que regressa a casa tem um efeito de tolerância sobre a desarrumação do quarto e do hall dos quartos (CD´s, livros, mais CD´S, papéis avulsos, revistas, postais, cartas, e mais CD´s). No meio dessa confusão descobri um postal que escrevi para o meu irmão a 3 de Novembro de 2008 e que acabou por ficar perdido no meio de tudo e de nada. Nunca lhe cheguei a enviar e acabei de o pousar na almofada. Lembro-me bem ao que me referia e resgatar esse momento foi perceber o quão distante no tempo já está, como se anos, enfim, tivessem já passado. E São Paulo é isto no tempo: vive-se com a percepção de que um mês parecem outros tantos... Aqui caminha-se com os olhos no chão com medo dos gigantes do céu. Há lojas 24 horas, hospital de sapatilhas, homens que dormem na rua- e a rua como casa, num chão que todos olham e ninguém vê. Aqui, stress é religião! As amizades são perecíveis e, por pouco, perde-se amigos - ou talvez nunca o tenham sido. Aqui o mundo é uma possibilidade e o Alfabeto um emaranhado de letras avulsas. Aqui sou um pouco mais mundo. Talvez nada, um chão sem rua, e uma rua que é casa.
Às vezes ponho-me a vasculhar os textos antigos deste blog. Sinto vontade de apagar tudo e recomeçar de novo. "Como fui, algum dia, capaz de escrever uma parvoíce destas?", penso. E depois,a auto-punição: "densa", "hermética"; "que chatice". Mas depois entendo. Eles só continuam perdidos nesta densidade virtual, talvez para me lembrar que a intensidade das palavras, como os sentimentos, são profundamente contextuais e que a vida passa tão levezinha, em paralelo, que mesmo aquilo que não importa, e que já foi tão importante, como se fosse a última gota de água num imenso deserto, é apenas um meio para chegarmos a casa, a nós, e para percebermos o quanto crescemos, este tempo todo.