sexta-feira, fevereiro 19, 2010

.Marthia.

Às vezes tenho saudades da Márcia. Daqueles discursos nexo sem nexo; dos momentos de lucidez, da esquizofrenia inflamada, lúcida, e doente; da percepção de que o mundo é um lugar mal frequentado e de que só nos valem as esquinas, que são dobras de suspensão de nada, como intervalos da nossa indecisão inflingida e sem culpa, em que, afinal, não estamos em lugar nenhum, enquanto não arredarmos pé dali. Eu tenho saudades dela. E nunca a conheci, realmente. Depois, ela não se chama Márcia, e o Márcia dela escreve-se com “ph”, como as farmácias da nossa Língua de outrora. Até faz algum sentido: a Marthia tem algo de asséptico. A insanidade dela é mais coerente que muitas realidades e esquinas. Chegou a dizer-nos o nome verdadeiro. Que Marthia era uma ficção (“A Marthia não existe”), que lhe roubaram o RG quando chegou a São Paulo; que o nome era uma invenção consentida pelo ego verdadeiro para que, uma miúda violada pelo padrasto, vinda do Rio, nascida lá em cima, num Brasil de pó que se entranha nos pulmões para enganar a fome, melhor se adaptasse a um presente-cidade: era como se nascesse de novo. O que estava para trás não importava. Depois, “Marthia” era “legal”.

Quem começou tudo foi o Dárcio. Ele falava muito daquela mulher que dormia na rua e punha papéis numa parede de um casarão, perto da Faculdade Mackenzie. Folhas A4, com letra escrupulosamente desenhada, fantasmagórica, (a Márcia tinha algo de espectral na escrita dela) a vermelho, preto ou azul. Quase sempre a preto, ensandecida. Azul mal-disposta. O vermelho: só quando ela estava calma.

No dia em que me escreveu foi cor-de-fogo, feliz. Começou a desenhar as letras uma-a-uma, até formar frases miméticas que repetia no discurso, nas folhas A4. E eu devo uma explicação à Márcia. Ela chegou a enviar-me, também, um e-mail (a preto), depois

(“Ola Vanessa,
Tenho uma bomba para contar para voce,
me procure,
um abraço,
Marthia”)

Chegou, ainda, a ligar-me de uma cabina telefónica (e ela nunca o faz) e eu já estava (tão) longe para lhe responder. Poderiam ser os usuais devaneios, eu sei. Aqueles! E não os mesmos que a fez dizer-me:

“Aquele livro que você me deu, de um tal de Nassar, não é muito legal, não. Eu não gostei nada. Só mesmo o título é que tem a ver comigo: ‘Um copo de cólera’!, ahahahah. É que eu sou colérica, mesmo. Fico louca e rodo a baiana. Mas eu não vou fazer mais isso, não”.

E tudo começou com o Dárcio, sim. Precisávamos de uma personagem de Higienópolis. Ele lembrou-se dela. Um, mais um, mais um e mais uma (eu): e não sabíamos, afinal, como chegar até ela. A mulher da rua. Dos papéis. A louca de Higienópolis. Xuxa. Xuxa Velha: era o nome feio que os estudantes lhe chamavam. Ela aí é que rodava a baiana: dizia que todos eram filhos-da-puta! (Embora fizesse uma nota-de-rodapé concomitante: “Eu também já fui uma, nada contra. É mais força de expressão e eu não vou fazer mais isso não”). Diziam que a Marthia se parecia com a Xuxa quando era mais nova: loira, esguia, cabelo curto, franja milimetricamente cortada. Chegou a mostrar algumas fotos. Tinha traços aqui e ali. Nada de mais. Até hoje estou para entender o que ela viu em mim como almofada de confessionário: para não se exaltar comigo, não me insultar, confiar, e fingir que os outros rapazes não existiam .

Era como se ela contasse a histórias só para mim. E eu gostava. Gostava que ela, a ensandecida, que todos insultavam, e a quem ela ripostava, serenasse comigo e me contasse tudo, como se fossemos velhas amigas. Era um monólogo, claro. Bastava só que eu tivesse escuta atenta e participativa. E ela falava de tudo como se fosse a história mais importante do mundo. E era. E é. A Marthia, às vezes, falava como se tudo fosse uma conspiração e nós fossemos, realmente, duas agentes secretas com a missão de salvar o mundo, mesmo que ele estivesse a ser demasiadamente mal frequentado. Ligações perigosas, políticos, homens sem escrúpulos, violência doméstica. Putas. Proxenetas. Ela falava, falava. E eu ouvia, ouvia. Atenta e participativa.

Ela dizia-me que não tinha medo da morte. Que queria ser cremada e ir para um lugar bem longe para se livrar de todo o sofrimento. Que quando era nova, começaram a dar-lhe choques no pé. Que ainda hoje isso acontece. Que ninguém envelhece, assim, como ela envelheceu nos últimos anos, sem que ninguém nos dê choques no pé. Os nosso choques talvez sejam menos lúcidos. Mais perceptíveis. E ela tenha razão, também. Que a pele de galinha, a carne caída e flácida dos braços são dos choques que lhe dão nos pés. O Filipe dizia que era tudo fruto da imaginação dela. Isso e a bomba atómica que ela resgatava sempre no discurso. Eu também achava que sim, até que ela nos desconcertava, às nove da manhã, com as gordas da imprensa:

- “Vocês viram? Os espanhóis vão tomar conta das estradas do Brasil. Não tarda nada tomam conta do país. A Telefónica não é deles?”

Olhávamos muito para ela, admirados. E ela saía-se com um desabafo que nenhum lugar a fazia feliz, e que os choques no pé eram cada vez mais frequentes. Eu dizia ao Filipe que teríamos de ser zelosos na forma como a retrataríamos. Cautos na forma de lhe falar. Até que percebi que gostava de lidar com ela. Por isso, ela se afeiçoou. Por isso, talvez eu me tenha afeiçoado e sinta saudades dela. Ou de personagens assim. Ensandecidos, lunáticos, lúcidos na esquizofrenia. Talvez tenha sido a minha ideia, que me fez acaso providente no contexto das boas graças.

Não sabíamos como chegar até ela. Apenas que ia sempre aos mesmos lugares e que os papéis que escrevia (com letra escrupulosamente pensada e fantasmagórica: Luciano Zanfir, Barão de Tatuí, prostituta, nordestinos, Seu Salvador, Xuxa, 493, balconista, …) estariam agarrados àqueles muros do casarão, presos por pequenos galhos caídos das árvores que a Marthia aproveitava para furar as A4, a servir de presilhas para as grades dos muros da mansão. Foi lá que parámos. Foi lá que esperámos meia hora. Eu não aguentava de tanta espera. Ela poderia não aparecer. Parecíamos quatro estátuas, inúteis, a desperdiçar energia, embasbacados em frente à Mansão. Senti formigueiros, muitos. A voz estava engasgada. Havia uma corda qualquer que me prendia o pescoço, fazendo filtro anti-som (ahhhhhhhh!). Quando saía alguma coisa, com mil dedos para não ferir susceptibilidade, os rapazes faziam ouvidos moucos ao que lhes dizia. Foi como se me tivesse acabado a água quente, a meio do banho, no dia mais frio do ano. Plaff! 

- “Ok, vocês podem ficar aqui quietinhos, mas se ela sempre anda por aqui, com certeza, e parece-me óbvio, toda a gente a conhece. Vamos começar a perguntar às pessoas onde ela poderá andar: taxistas, arrumadores, o senhor da padaria, boteco. Bora?”. 

-“Ah, agora em vez de ficarmos esperando uma, vamos ficar esperando duas” , gracejou o Carlos.

- “Se ela aparecer vocês ligam-me e venho cá ter. Se eu a encontrar, trago-a até aqui”

- “Ah, e como assim você a traz até aqui?”

- “Sei lá, depois eu improviso. Logo se vê”.

Houve o peso do cepticismo. Houve o olhar da troça, com umas pitadas adocicadas até de quem tem pena da miúda, que sai da caverna para ver, finalmente, a luz do dia. Tive sorte. Menos de uma hora depois do bocejar colectivo em frente aos papéis da Marthia, onde estavam os meninos, e da minha escapadela para a liberdade da corda anti-som, ela, a Marthia, dobra a esquina do quarteirão abaixo. Isso, enquanto eu falava com um amigo dela, o Santiago, que era arrumador de carros. 

- “Logo, logo, ela vai pintar. Fica aqui do meu lado, que logo, logo ela vai aparecer”. 

E logo, logo a Marthia pintou. ("Olha ela aí”, brincou o Santigao). Desgrenhada, com pão na carteira, muitos sacos, cheia de saias, e com um rádio escondido no peito de onde saía um samba. Se tivesse pensado, não me teria ocorrido nada para lhe dizer. Acho que, por isso, e só por isso, reagi, como se ela fosse uma amiga de longa data e que não via há muito tempo: “Marthia!”. Ela olhou-me espantada, ouviu-me, perguntou quanto ia ganhar se me desse uma entrevista para o documentário, e depois, conformada, anuiu e concordou ir ter com os rapazes. Foi falando, falando, falando. E eles não queriam acreditar quando cheguei ao pé deles com a Marthia. Não conseguiam dizer nada. Ela ignorou-os. Perguntei se ela se queria sentar no chão. Falou, falou, falou. E disse que não era possível marcar hora com ela para gravar. Apareçam por aí. Deixei-lhe o meu número. Duas semanas depois o Santiago ligou-me: 

-“Dona Vanessa, a Marthia está muito irada hoje, mas ela quer falar com a senhora para gravar!”

- “Santiago, hoje é impossível, porque não tenho câmara. Dá para marcar amanhã? Pergunta para ela, por favor”

... ansiedade,ansiedade (torcer os dedos para dar sorte...)

- “Tá bom, ela topa”.

E topou uma, duas vezes.
Topou, até, ir à casa onde morara pela primeira vez que pisara São Paulo há 30 anos. Tocou à campaínha, ninguém atendeu, até que veio uma memória viva aquele tempo. Cumprimentou a mulher, velha, baixa, de nariz encolhido, como se lhe tivessem dado um soco oco que o fez recuar, perguntou se estava tudo bem. A outra mulher, incomodada pelo espectro Marthia, disse vários sins rapidamente, meneou as ancas para a frente e para trás, ameaçou entrar, quis despedir-se com o virar de costas, enquanto a Marthia espreitava para dentro do grande corredor, que há 30 anos podia percorrer livremente. 

Gravámos seis horas com ela. Ela leu pedidos, dos anjos, da religião que tem sem ser religiosa, dos santos, falou da vida (se “desvida” fosse palavra teria sido disso de que ela falou), da história que não teve, dos sonhos, das esperanças, dos choques no pé, dos beijos mal dados, dos homens que nunca amou, dos homens por quem se apaixonou, dos pais, dos amigos, das fotografias que tirou, dos botões que desabotoou, dos sonos, dos soluços e dos peitos apertados. Aproveitámos 20 minutos. Era só isso que tínhamos para ser curta-metragem. Ela queria mais: a merecida longa metragem, em slow motion. Queria que tivéssemos feito muito mais. Que havia muita coisa para contar. Que há muita coisa para contar, para falar, para confidenciar. Como quem diz baixinho que fomos incompetentes e não percebemos nada. Que talvez ela tenha andado a perder o tempo dela. Que mais valia os choques nos pés.  

Ela não disse nada disso, realmente. Nem o pensou. Mas gostaria, e aí estaríamos perdidos. Eu e o Filipe, porque no fim, começou a ser um menos um, sobrando só um e uma. Dois solos para a mente de uma Marthia que poderia gostar-nos a preto, azul, ou vermelho. E, entre choques nos pés (até hoje não entendemos, verdadeiramente, o que significa - ela mudava de assunto, ficava amarga, azedava o olhar quando passava alguém de quem ela não gostava) e conversas no ar, pairando, nunca chegamos, de facto, a falar a sério dos papéis que ela colocava lá na mansão. E havia muito mais para falar. Há muito mais para falar. As histórias dela eram muito mais que papéis A4 (há vidas brilhantes que se escrevem em muito menos), como se eles fossem apenas o pretexto para ela conspirar comigo contra lugares mal frequentados, como o mundo. Por isso, tenho saudades da Marthia. Dos papéis A4 e das “desvidas”

2 comentários:

darcio disse...

fiquei surpreso.... quando vi o documentario achei que a Marcia tinha ficado em segundo plano,talvez por estar ausente nas gravacoes nao percebi que poderia ser mais uma historia sem personagem do que um personagem sem historia.....agora, nao sei pq, decidi abrir o blog e dou de cara com o texto Isabella, delicioso de leer decidi espiar um pouco mais e leio Marthia e me questiono se realmente uma imagem fala mais que 1000 palavras, por ter comecado tudo fiquei com um gosto amargo na boca mas lendo o seu texto fico satisfeito de ter lancado a faisca e vc ter finalizado com tanta sensibilidade.
um gd beijo

Vanessa Rodrigues disse...

Dárcio, meu querido, que boa coincidência você ter pintado por aqui. Você já voltou ao Brasil ou continua no México?
Obrigada por sua leitura, paciência e palavras. Esse dia foi incrível. Os dias seguintes das gravações da Marthia foram uma lição de despojamento do nosso mundo para o dela. O Filipe segurou a onda. Eu tentei deixar-me levar pelo mundo dela, sem questionar, e foi intenso. Tanto que me lembro bem de cada momento.
Você foi o mentor e lançou a faísca. Nós fizemos o curto-circuito girar. Quem sabe não haverá outras "Marthias"?
A nossa é uma personagem incrível. Merece uma outra história, talvez, mais literária. Se fosse hoje - e já vi o doc' vezes sem conta - faria outras coisas. Talvez como continuação. Porque o que marcou muito na época - e nisso o Filipe tiha razão - foi a confiança dela em mim: "Tem muita coisa para contar para você", dizia ela. Isso marcou-nos.
Nossa percepção imprime a linguagem de vida segundo um contexto, um olhar sobre a vida, que agora, talvez, tenhamos ampliado um pouco mais.
Um grande beijo para você.
Dá notícias, please!