quinta-feira, março 26, 2009

domingo, março 08, 2009

Pessoal e ....transmissível"

Deliciosa esta entrevista do jornalista Carlos Vaz Marques, TSF, à cantora africana Oumou Sangaré. Nasceu em Bamako, no Mali, em 1968.


"Foi abandonada pelo pai na infância, foi mutilada sexualmente por uma tradição contra a qual se revoltou mas decidiu chamar 'Alegria' ao novo disco que agora está a lançar". Uma lição sobre feridas saradas, perdoar e cultura maliana.
Entrevista, TSF, Oumou Sangaré

quinta-feira, março 05, 2009

Ras.cunhos

Já somos demasiado novos para envelhecer e demasiado vividos para perceber que aquilo que realmente lapida - a ventos, lágrimas, sorrisos, abraços e texturas - em nós são os olhares que nos deitam e importam; a pausa dos silêncios que aprendemos a partilhar e o chão em que nos sentamos como antídoto a cadeiras com assento falso. E as brancas são sinais de pausa, fôlego, ardências. Deixamos de ser sedas nas palavras e passamos ao veludo, que não agrada a todos, arrepia, repele. Se deitado devagarinho quase é talco de bebé. É quando o relógio deixa de importar e só queremos espremer cada laranja-lima para aproveitar o doce e entregar à terra o que é das entranhas para voltar e sê-lo. Já somos demasiado conscientes e impuros para acreditar em nuvens de algodão, mas passamos a vida a lá querer voltar, arranjando desculpas para o fofo dos abraços. E a serenidade do rosa-fucsia do amanhecer.

Uma vez aprendi com o dia. Só se nasce luz-a-luz depois das trevas assistidas a lanternas para dissimular;e que duram breves grãos caídos de um centésimo andar vezes mil. Visto de lá, achamos que nunca chegamos a sê-lo. Porque nunca resgatamos do baú os sonhos que ainda havemos de fazer e-que-nunca-os-faremos-se-não-os-começarmos. É que os acasos existem porque estávamos atentos. E os sonhos acontecem porque calejamos os dedos, ampliamos os olhos, acordamos sem despertador para seguir o instinto e gastamos a pele da perseverança para que seja. Achamos que devem ficar quietinhos na textura das páginas do inconsciente colectivo, mas passei a desligar-me do abecedário em massa para começar um dicionário vanessiano. Na realidade sempre o tive. E mais do que imaginava está lá resgatado, escrito por todos os que lapidaram em mim; construído por capítulo de resgate. Não para sobreviver, mas como lembrete das histórias que comecei e encerrei; das que ainda estão para escrever a tinta invisível; das que nunca serão escritas mas estão lá; das que comecei e recuperei; das que recuperei em queda livre e perda de tempo; das que ainda não estou preparada para ler em voz alta; das que grito e se riem; da l i b e r d a d e com sinónimos de pôr-do-sol, arco-íris, mochila, olhar, pensar… Talvez nunca lá cheguemos até sabermos que os borrões da vida são muito mais importantes que os arquivos codificados que nos obrigam a criar. E se este texto é demasiado vanessiano para se perceber, não importa. É só um rascunho…