terça-feira, julho 08, 2008

Crises de (Res)Piração!

Tirou o casaco. Sentou-se. Recostou-se, tranquilamente, na cadeira esfarrapada. Passou a mão pelo nariz torto e, desajeitadamente inclinou-se para a frente, deixando o rabo na ponta da cadeira. Depois, preparou, como de costume [esse, que tal como a tradição, nunca morre de velho ou de doenças crónicas contemporâneas, pelo contrário: dotados do elixir da juventude] o ambiente propício à criação. Página em branco, pontilhada de dúvidas e interrogações sobre quantas letras, afinal, o fazedor de enredos de palavras iria depositar nela. Vomitar até pode ser uma boa palavra... Sim: dessas de naúseas linguísticas que nem a bula de “gurosan” resolve!

Cheio de gana para começar e... e... os dedos estavam estarrecidos, perante a apatia da imaginação. Angústia no peito!Arritmias... Piquinhos cardíacos de ansiedade! Falta de ar! Arfa! Arfa! [Sabia que nem um boca-a-boca resolveria a (res)piração]. Um sabor azedo molhou a língua, que depressa pediu mais saliva às glândulas da senhora. Poderia ter antevisto a situação ridícula a que se expunha ali, em frente ao computador. Poderia, sim! Aliás, tinha obrigação! Porque nos últimos dois dias, que antecederam a preparação do momento - a ler e a folhear as histórias e o inferno dos outros, ou quem sabe o próprio – ele não sentira aquela sacudidela que lhe dizia: “É assim que te vou parir!” O texto entenda-se! Pelo menos o enredo dele, que parece que as palavras se dão bem, assim, umas com as outras [ou as outras com umas quaisquer que sejam]!

Os dedos bem queriam escorregar, acelerados, no teclado, mas o mestre, o cérebro, ordenava que eles ficassem quietinhos ["sugaditos", heim!]. Um vai- e- vem de “enter”,”scroll up”; “scroll down”; “assinatura“;“título;“pós-título”; e alguns “xis“[xxxxxxx] como quem diz: aqui-deverá-ser-escrito-alguma-coisa” para enganar a página virgem [ não por ser em branco, porque as noivas também vão, ainda - em geral, vá! - e nem por isso o são. Blasfémia! Venha a expiação, mas como excomungado que é, já de nada vale!]. Resumindo: Aquela página por corromper parecia um pão sem manteiga [e ele nem gostava porque era intolerante à lactose]; parecia um Martini sem azeitona [shaked but not sturned]; ou então em versões mais acostumadas: “parecia um café sem bagaço; ou quem sabe: uma portuguesa sem bigode”.

Pronto! Talvez precisasse de férias. Quem sabe passear pela rua, ajudasse. Sempre resolve essas crises de palavras com uma investida pelos autocarros da cidade, suados de histórias vagabundas que ele gosta de corromper com o olhar esguelhado e um caderno em punho, pautado, escondido lá no fundo, atrás de um assento cravado, nas costas, aquela literatura, tipicamente urbana: “Jean loves Gezebel”, ou “António loves Karina”. Ora nem mais! Ontem, por exemplo, o “fazedor-de-enredo-de-palavras-com-crise-de-inspiração” lembra-se do rapaz que entrou no autocarro e, assim, como se diz em bom português, num “como-quem-não-quer-a-coisa”, passou o cartão.

Pipipi. Vermelho! Afastou-se. Deixou passar a rapariga. Fingiu que foi ver se tinha outro cartão. Rectifico: foi ver se tinha “dinheiro” para passar o torniquete. Fingiu. Sabia que não tinha. Como estava escuro ninguém viu aquele fingimento! Lá foi. Passou, novamente. Pipipi! Vermelho nada! Depois pergunta ao cobrador: A Alfonso Bovero está muito longe? Hum,! Umas três quadras! Dá para ir a pé? Dá! E quantos pontos de ônibus? Dois! Ah! E eu posso passar? Tou sem crédito no bilhete único.... O cobrador acena com a cabeça. Silêncio. Apenas os sons de “pára-arranca” de um autocarro velho! O corpo do miúdo dobra-se naquele torniquete que mais parece cancela de feira popular. Vai!

Ninguém vê. Ninguém sabe. Ninguém ouve! E a Alfonso Bovero já ali. Mas o puto não saiu. E essa poderia ser começo de uma boa história. Mas ele passa. Não se lembra do que se passou a seguir. Não tinha o caderno em punho. E pior! Não estava sentado lá atrás para sentir, suficientemente, o cheiro de suor dessa história vagabunda, que mais lhe pareceu banal. E ainda: estava demasiado concentrado a pensar numa crise de falta de ar mental: “Shaked not sturned”; tradicionalmente 100% livre de lactose! Recostou-se, tranquilamente, na cadeira esfarrapada. Passou a mão pelo nariz torto e, desajeitadamente, inclinou-se para a frente, deixando o rabo na ponta da cadeira, como a sua crise de inspiração!

1 comentário:

nm disse...

Se isto é crise de inspiração, tens que me arranjar uma crise de inspiração dessas. beijocas

noddy