quarta-feira, abril 28, 2010

subconsciente

apeteceu-me pôr "a alma a desatar" ...e fui roubar a segunda parte ao blog do ar

Não sabemos rigorosamente nada sobre o Amor até termos experimentado de um certo tipo de Amor que só uma minoria se pode regozijar de o ter vivido. Só que esse dura a vida inteira e, por isso, ninguém está verdadeiramente preparado para dele falar. E os contemplados desse tal,  só arriscam a dar a cara e a voz em amostra muito parca.

É, há um certo tipo de Amor que talvez já não se fabrique e que só o tempo, em acto prolongado e contínuo, poderá provar a respectiva genuinidade, o que implica que muitos de nós já não estaremos lá para saber.

É, estou certa, de que há um certo tipo de Amor que alguém, alguma coisa, ou uma série de equívocos que nos impuseram, tratou de limitar, e que esteja talvez hoje ao alcance de uma minoria. E isso, para que não haja enganos, porque ouvi hoje uma senhora de 72 anos - cujo marido de 80 está acamado há dez, a respirar por um tubo, sem se mexer, com problemas de circulação e a comer papas pelas mãos dela - dizer, com os olhos humedecidos e carregados de sinceridade como quem conta um segredo, que amar é paciência, rezingas, doces e amargos, palavras avinagradas e açucaradas, noites em silêncio, "dando as mãos juntos para vencer a vida" e "juntar os cacos que ela às vezes separa. 

Ela, a mulher de 72 anos, que escrevia poemas sentada no sofá sob a imensa luz do quarto e na cadência de um respirar asmático, disse-me que voltaria a fazer tudo de novo. (Dizer que se volta a fazer tudo de novo é manter a vida pelo que ela foi e poucos podem, apesar de tudo, asseverar que o faziam).

Garantiu-me que nunca lhe faltou. Nem ele até onde pôde. E continua a amá-lo, com saudades daquele "homem alto e forte" que a agarrava sempre que lhe queria "roubar um beijo". Porque os beijos roubados, mesmo no amor, são os mais saborosos.

Apeteceu-me, por isso, elogiar esse tipo de Amor porque, embora saiba isso tudo e o tenha repetido como mantra desde que comecei a perceber que amar traz esse formigueiro ao coração, sei que é tão raro e delicado que só lá no fim da linha saberei se fui digna. É esse certo tipo de Amor que desejo que lá esteja. Aquele que não tem medo de juntar os cacos mesmo quando a vida trata de cravá-los na pele. O resto não importa realmente nada.

Elogio do Amor, por miguel esteves cardoso

“Quero fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.  Já ninguém quer viver um amor impossível. já ninguém aceita amar sem uma razão. hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.

porque dá jeito. porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.
porque se dão bem e não se chateiam muito. porque faz sentido.
porque é mais barato, por causa da casa. por causa da cama. por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”.
o amor passou a ser passível de ser combinado. os amantes tornaram-se sócios. reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. o amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. a paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. o amor tornou-se uma questão prática. o resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.
eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.

incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá tudo bem,tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. já ninguém se apaixona? já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

o amor é uma coisa, a vida é outra. o amor não é para ser uma ajudinha. não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. odeio os novos casalinhos. para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. o amor fechou a loja. foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.
amor é amor.
é essa beleza.
é esse perigo.

o nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. tanto pode como não pode. tanto faz. é uma questão de azar. o nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

o amor é uma coisa, a vida é outra. a vida às vezes mata o amor. a”vidinha” é uma convivência assassina. o amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. o amor puro é uma condição. tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. o amor não se percebe. não dá para perceber. o amor é um estado de quem se sente. o amor é a nossa alma. é a nossa alma a desatar. a desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. o amor é uma verdade. é por isso que a ilusão é necessária. a ilusão é bonita, não faz mal. que se invente e minta e sonhe o que quiser. o amor é uma coisa, a vida é outra. a realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. a vida que se lixe.

num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. ama-se alguém.
por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. o coração guarda que se nos escapa das mãos. e durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem. não é para perceber. é sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. não se pode ceder. não se pode resistir.
a vida é uma coisa, o amor é outra. a vida dura a vida inteira, o amor não. só um mundo de amor pode durar a vida inteira. e valê-la também.”

terça-feira, abril 27, 2010

Embevecida: Prémios Fotografia

Os meus grandes amigos Paulo Pimenta e Ricardo Meireles estão de Parabéns, pois foram distinguidos este fim-de-semana com um prémio de Fotojornalismo da Estação Imagem/Mora. O Pimenta foi Vencedor do Prémio Internacional de Fotojornalismo com um trabalho sobre a Linha de Comboio do Sabor. O Meireles sobre o Desemprego. São genuínos, está tudo dito...

segunda-feira, abril 26, 2010

Homem UltrA Mud.Erno [5]


Poluído de estereótipos, intrigas e tricô social. É uma farsa legitimada, "ultra fashion"

Black and White

Obrigada a todos pelo Prémio do Público, no 7º Festival Black and White da Univ. Católica, Porto. Fica aqui o link para a sequência (no Sinais da Gente) das fotinhas seleccionadas a concurso e dos vencedores deste ano em todas as categorias.



Grande Prémio B&W (IBERTELCO - SONY AWARD)
"Traffic Jam"
Arthur Franck & Oskar Forstèn, Finlândia.

Melhor Vídeo Ficção
"Magicians"
Andrey Getov, Bulgária.
For its intemporality and intriguing narrative development.

Melhor Vídeo Documentário
"Traffic Jam"
Arthur Franck/Oskar Forstèn, Finlândia.
For the use Black White and all the other cinematic elements in the construction of a narrative that bring characters together.

Melhor Vídeo Experimental
"Last Message of Mr. Coguito"
Ana Woch, Canada.
For its achievement in visual aesthetics it’s immersive atmosphere.

Melhor Vídeo Animação
"Homeland"
Juan de Dios Marfil, Espanha.
For its simplicity in portraying a creative and emotional story.

Melhor Vídeo Musical
"Bottom of the River"
Alasdair Brotherston & Jock Mooney, UK.
Gracious Representation of the song.

Melhor Peça Sonora (YAMAHA – MÚSICA AWARD)
"O Dia do Baptizado do Nuno"
Nuno Cruz, Portugal.
For its Creative Energy and sensitivity in the articulation between Poetry, Rhythm and Silence.

Melhor Fotografia (CENTRO DE CRIATIVIDADE DIGITAL AWARD)
"Expressão"
Pedro Machado, Portugal.
For the ability to subvert the practice of traditional portrait photography.

menções honrosas

Menção Honrosa Vídeo Ficção
"Ona"
Pau Camarasa, Espanha.
For its Photography and Sound Design.

prémios do público

Prémio do Público: Vídeo
"La Carte"
Stefan Le Lay, França.

Prémio do Público: Audio
"Mostrengo - Interlude"
Rita Torres, Alemanha.

Prémio do Público: Fotografia
"Movimento dos Trabalhares Rurais Sem Terra"
Vanessa Rodrigues, Brasil.



Outras Referências aos prémios e Festival:

a 35 mm
Split Screen
Cinema is my life
C7nema
dmagia
Produção Profissional
Central de Informação

sexta-feira, abril 23, 2010

a inveja

Peco todos os dias percebo e, parece, à luz dos olhos de um certo paradigma divino, porque padeço desse mal crónico que é a inveja, quando se fala dele, ou dos que escrevem sobre o "meu" Brasil. Na verdade isso acontece com as coisas de que gosto muito. E, por isso, agregado vem sempre um certo ciúme. Bom, talvez não seja verdadeiramente inveja aquilo que sinto e que seja, então, uma coisa mais de estética qualificativa: invejosa. É isso, sou uma invejosa no que diz respeito às coisas dos meus afectos. Quero-as só para mim .

Por essa razão, causa-me um certo formigueiro (ou comichão interna, sei lá) que ele esteja na moda; e que veja tanta coisa, e que ouça tanta gente a  falar dele, e que tantos estejam a pensar ir para o "meu" Brasil (alguns na minha sombra, outros até que o ignoraram no passado e que dele mal falavam; outros até porque acham que tenho uma vida farta e de sonho: tão enganadinhos estão, mas para demovê-los é preciso uma certa hiperdose de realidade) como se tivessem descoberto a pólvora (Eureka!). Ah, essa vaidade irritantemente falsa e mediática, só porque fica bem dele, agora, falar, como se fosse garante de um certo tipo ascensão no status social!

Eu não o descobri, longe estou do pretensiosismo, entregue à minha pouca existência para reivindicá-lo como meu (embora seja realmente um pouco mais meu) e a somar uns míseros anos de abrasileiramento.  E se por um lado não vejo a hora de assentar arraiais na minha terra matriz, no meu Portugal, por outro é  num certo Brasil que ainda respiro um pouco melhor. Não o escolhi, em nenhuma das vezes. É como se fosse uma imposição, percebo-o.

Calhou-se-me na rifa, mas se tivesse de escolher, talvez, tivesse por ele ansiado. Em todo o caso, percebo agora um pouco melhor o que dizia Jorge Luis Borges sobre a "sua" cidade portenha. "Não venham a Buenos Aires, queremo-la só para nós". É, não venham ao Brasil (os dos meus afectos são excepções óbvias, devem ignorar esta última frase e marcar viagem) quero-o só para mim.

Cosmogolé, ou o dia em que descobriram a careca à cultura brasileira



Escreveram-lhe que "a pureza é um mito"; e a frase, a ser aplicada à cultura brasileira, deixa o Brasil (substantivo masculino, mas assumidamente feminino: uma miúda-mulher), mergulhada numa depressão que nem samba salva.  Mito? Pureza?

No final dos anos 60, um pouco antes do "Peace and Love" norte-americano, a "antropofagia" criativa de vários artistas brasileiros (Lina Bo Bardi, Tom Zé, Caetano e Gil, Lygia Clark, and so on) devorou uma certa ideia de Brasil-cultura (eles comeram tudo e não deixaram nada), sujando de rua, improvisação e , por isso, Tropicalismo, a imposta disciplina e ilusória homogeneidade por onde ela andava a ser educada. Más companhias, portanto.

O artista plástico (entre outras coisas) Hélio Oticica (1937-1980) tirou-lhe o uniforme, tratou-lhe da saúde, ofereceu-lhe psicanálise e levou-a para a rua (ai, esses parangolés), como quem diz: vês como és muito mais feliz ao te aceitares miscigenada (não estamos certos de que ela tenha entendido à primeira, mas a experiência curou-a um pouco do estrabismo mental). No fim da terapia tropicalista-oticiana, em ruptura com um passado, ela deixou-se de manias e aceitou-se multipolar. Era metade caminho para a cura... (Ai essa revolução pagã!)

A "coisa" e ele são tão importantes, hoje, na cultura brasileira, que o Itaú Cultural, além de uma exposição que lhe dedica até final de Maio , "Mundo é museu", a primeira depois do incêndio do ano passado que sugou parte do espólio do artista, lançou uma revista para crianças: Cosmogolé (é um "jornal de brincadeira, mas no fundo é de verdade").

um pouco de selva

Seguir o rasto da (formiga) Tucandeira (aka Tocandira) aqui

(cuidado para que ela não te ferre - sim são ferrões; serão 24 horas de pura dor)

quinta-feira, abril 22, 2010

Povo Lindo, Povo Inteligente

Fiz parte da Still photography deste documentário da autoria do GAG e produzido pela DGT Filmes, São Paulo, do Toni Nogueira e sócios.
"A poesia é o esconderijo do açúcar, da pólvora, do doce, uma bomba.
Depende de quem devora"
No dia em que fomos ao Capão Redondo, em 2007, considerado um dos bairros mais violentos de São Paulo, houve uma "Blitz" da polícia à porta do Café, onde todas as quartas-feiras a Cooperifa organiza o Sarau Literário, uma certa Academia das Letras Marginal. Um Quilombo Cultural!

"Povo Lindo, Povo Inteligente" está carregado de palavras e gente de alma cheia. No Brasil, a revolução cultural está a ser cozinhada na periferia. E não tarda muito a descer o morro da favela Preconceito. Contágio! É que ali "o silêncio é prece" e "as palavras quebram vidraças". Estreou em 2008 no Cinesesc em Sampa.



quarta-feira, abril 21, 2010

calcular o espaço das nuvens...

A capital brasileira faz hoje 50 anos. Meio século depois não saiu da adolescência. Assexuada, babélica, utópica e vaidosa de modernismo tropical, é um admirável mundo estranho, assimétrico, com seus prédios calculados para as nuvens, e onde os crimes de Clarice Lispector não seriam de amor.

Há 4 anos coloquei estas fotos no BLOG sobre a passagem por lá.













Por Vanessa Rodrigues @ Copyright

Uma Outra Cidade

São Paulo por Iatã Cannabrava




terça-feira, abril 20, 2010

...e a cibelle tem novo álbum, apocalíptico

a menina-mulher que faz shows de purpurina e fantasia ("temos de encontrar o sol dentro de nós por muito que nos custe", disse há dois anos num espectáculo no auditório ibirapuera em são paulo) roubou ao rock (progressivo), ao punk, ao tropicalismo; vendeu-se ao cabaret e fez isto:"Las Vênus Resort Palace Hotel", sem serviço de quartos!

Saravá! O Kitsch vai nu, com Cibelle


planosequencia, aka Paranoid Park [em sampa]


um projecto do Cauê Ito


Skatepark Sumaré from Cauê Ito on Vimeo.

segunda-feira, abril 19, 2010

Homem UltrA Mud.Erno [4]

Sorri muito, anui muito, não faz muito. É um fingidor profissional.

Se isto é um Festival...

Oh, no, it´s her again! Endereço a partir de amanhã até sábado: Se perguntarem por mim, digam que fui até ao Black and White e já volto.
Este ano, estou na competição de fotografia do Festival Black and White da Universidade Católica, Porto, com um trabalho sobre as crianças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em Marabá, no sudeste do Pará, Brasil. Uma outra Amazónia.

Fica aqui um rascunho:

[.sinopse.]


O “Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra” (MST), organização popular brasileira, luta pelo direito à propriedade, sobretudo a que está ilegalmente na posse de grandes fazendeiros, para fazer cumprir a Reforma Agrária Popular. Vivem  modestamente em acampamentos - muitos sob ameaça de morte - têm rádios, escolas, igrejas, histórias de sofrimento e a espontaneidade das crianças.


Participei pela primeira vez em 2007 com "Miragens: luz, sombra, textura"


A cidade é ruptura; fragmentos; reflexos perdidos: nos vidros, na água, na lente fotográfica, espelhos, semáforos. Em cada uma dessas miragens [de realidade líquida, fugaz] reencontramo-nos; identificamo-nos com o lugar de abrigo; ou perdemos a noção de pertença - individualidade. Elas são memória, tristeza, alegria, passagem, sentimento: rasgos do meu tempo.


e depois em 2008 com Sonhos de Ninar

O sonho é um lugar estranho, indecifrável (?). Sem coordenadas. Não sabemos como lá voltar. Há muitos que nos embalam. Outros que nos levam à insónia. E há aqueles que nos levam ao lugar da memória, ao refúgio da infância, ou à ideia do que ainda está para vir, como histórias do nosso fôlego. São esses lugares reais? Imaginários? Silhuetas de esperança? Ou pedaços de um lugar extraordinário que pode ser a nossa utopia? 

domingo, abril 18, 2010

O meu nome não é Vanessa


Posso dizer – ainda com alguma lucidez, e isso se conseguir terminar este post até ao fim, sem que a pele me mude - que talvez este seja um ataque causado pelo Síndroma da Onomatópose*
Até há instantes não sabia que poderia tê-lo, ou sequer que existia. (Vamos despachar isto antes que o juízo se vá: serve este post, por isso, como truque para enganar a mente). E ainda não estou realmente convencida de que esse seja, efectivamente, o problema, muito embora comece a aperceber-me (ainda com um certo discernimento, enquanto não vem a outra personalidade), que o mal esteja já a tornar-se crónico e em acelerada fase de contágio. 

Chegou-nos, ontem, a informação oficial de que os portugueses, como cidadãos do mundo, estão a ser “vítimas” de apropriação de dados pessoais, para fins dúbios: espoliados e depredados, pornograficamente, por larápios, farsantes e contrabandistas de identidades. 

Pode até acontecer que durante a leitura deste post alguém tenha deixado de ser quem era para mudar-se para outra carapaça, ainda que fictícia, apropriando-se, indevidamente de outro, e mudando a circunstância de um indivíduo ser aquele que diz ser ou aquele que outrem presume que ele seja, numa espécie de jogo eu-sou-quem-sou-e-quem-tu-dizes-que-eu-sou. 

Pode ser, por isso não correrei riscos: o meu nome não é Vanessa. Nem Luna, nem Crónica, nem Samba. Eis, portanto, a minha declaração de princípio onomástico: agora o meu nome é X….

* Onomatópose -(onomato- + grego poiéo, fazer, fabricar, construir, compor, criar)
s. f. - Disfarce do nome; nome falso.

quinta-feira, abril 15, 2010

Estação Trindade


Se tivesse escolhido a estação da Casa da Música sempre seria mais chique. A de São Bento já foi mais frequentada – que isto do metro é tirania concorrencial - e a da Campanhã, sem ser preciso um grande olhar efeito-lupa, é mais esponjosa e sumarenta no suor antropológico, com poros de onde sai gente de todos os cantos do país e condição social. Mas, a estação da Trindade, parece-me, tem mais ar de laboratório das gentes, bem entranhada num coração de Porto com arritmias e veias grossas que sentimos a palpitar de vida: confusa; gente a esbarrar em ombros e um tsts-tsss irritado;  olhos cabisbaixos, escondidos, disfarçados; gente de calções, chinelos-praia e toalha (se o domingo já acorda solarengo); pastas pesadas; fatos, saias, gravatas, sapatilhas, hormonas, borbulhas e cheiro a suor; peitos imberbes; decotes e seios fartos, bundas proeminentes; violinos na mala; perdidos-achados-perdidos; metros avariados; metros expresso: Póvoa de Varzim; Ismai, Senhor de Matosinhos, Estádio do Dragão, Câmara de Gaia, Paranhos; abre-porta-fecha-porta; casais de mãos dadas, juntinhos, beijos (e há tantos beijos de Primavera, mais leves que os de Inverno); cheiro a café; dlim-dlom impertinente, camuflado de burburinhos, barulhos, ruídos, tocs, tap-tap de solas de plástico, pele, borracha, rolantes (hoje há as crianças de sapatilhas-patins-em-linha). 

Talvez alguém já se ali tenha perdido. Talvez alguém ali já se tenha encontrado. Talvez muitos "talvezes" já tenham sido a solução para dúvidas e outras divagações mais. Talvez alguém ali já tenha reprimido o desejo de voltar a casa. Tenha chorado, rido, amado, vivido muito, intensamente. Talvez ali o chão já tenha sido cama, e o tecto abrigo; talvez ali casais já se tenham separado; outros já se acotovelaram sem saberem que eram um grande amor. 

A estação Trindade é uma cidade. É a minha cidade, também, e nada é dela, como se nos pedisse, todos os dias, que lhe fizéssemos respiração boca-a-boca para sobreviver, porque ela se morre todos os dias; porque (sobre)vive todos os dias, sem bolsas de oxigénio. É cidade aparente (e sem laços filiais): onde ninguém se conhece e todos se vêem, a passar, nem que eu seja só um corpo parado na linha amarela (não atravessar: quantos já pensaram em fazê-lo?). Há estatísticas de coisas imaginárias que nunca o serão porque não podem ser contabilizadas. E eu gosto, sobretudo, das coisas que não podem sê-lo. Há números que nunca teremos para perceber o viés das nossas arritmias. Ali, na Estação Trindade, as veias cruzam-se como rios, para vários destinos dentro desta  tacanha e nova cidade. Que gente é esta que ali passa? Quantas Anas ali estão ao mesmo tempo? Quantos Josés, Marias, Joaquins, Manuéis, Cristinas, Soraias, Vanessas, Joanas, Martas, Luíses, Alices, Leonéis, Ricardos, Miguéis, Albinos, Daniéis, Jões, Paulos, Ruis. Quantos marceneiros, domésticas, psiquiatras, padeiros, carpinteiros, secretárias…Quantas diferenças? E o ser o humano é uma peça terrivelmente frágil e despreparada para a vida.  Tão igual, por isso!

De onde vem tudo isto, agora? Sobretudo, porque hoje ainda não saí de casa (o jardim não conta), num prolongado namoro com o meu computador, (ardem-me os olhos de tanto ler; prendem-se-me os dedos de tanto teclar) que só não dorme comigo porque ainda não inventaram um que se ligue ao cérebro (ufa!):- ou melhor inventaram mas ainda é cedo para popularizar a coisa. Por isso, o meu chega a ser é filho, que carrego ao colo, ditador, marido, tirano: uma costela de mim. É só isto, então: a Estação Trindade vem da memória, agora. Surpreendente. Isso porque sou uma distraída inconsciente ( sem querer hormonal para o óbvio, complicando). Talvez porque a vida me passa pela cabeça em fast-forward, erase-and-rewind, e onde milhões de circuitos, ideias, hipóteses e possibilidades se enrodilham quase em curto-circuito de uma vez só.  Em arritmia. Dá um aperto por tanta coisa boa que há para fazer. E é tão imensamente fácil desligarem-me: pára e vamos ver o mar. Ele sabe bem fazê-lo!

Mas acho que a Estação Trindade vem, sobretudo, da droga: se houver um dia que não escreva começam os suores, as palpitações e aquela angústia. E, de repente, achando que na verdade não estava a prestar a mínima atenção a determinadas coisas lembro-me, dias depoism deste ou daquele pormenor da rua, da pessoa, de ouvir. Coisas que não tive, na época, a menor percepção de que tinham entrado para o meu clube de memórias com lugar já cativo e sem convite oficial. As minhas memórias são assim. Vão ficando sem as convidarmos para entrar. Aconteceu-me há uns tempos na esplanada da Praia dos Ingleses, numa tarde sem livro para folhear, dedicando-me por isso, involuntariamente, à arte da observação esquerda-direita-esguelha-direita-esquerda. Dias depois a coisa ganhou uma tentativa de poema fajuto. Há coisas que poderia fazer melhor. Há coisas que até faço melhor. Mas não consigo fazer outra coisa senão escrever, para o bem das minhas arritmias. E das memórias!

E agora para algo completamente diferente (ou isto é apenas um dejà vú)

A revolução página a página...(enviada por AO)


Amazónia no "Mais Cedo ou Mais Tarde"- TSF

Hoje podem ouvir-me (a gaguejar um pouco) na antena da TSF, às 15h, à conversa com o João Paulo Meneses, no programa "Mais Cedo ou Mais Tarde", sobre a viagem de 4 meses pela Amazónia...

quarta-feira, abril 14, 2010

a verdade...



Sou um dissidente da verdade. Não creio na ideia de discurso de verdade, de uma realidade única e inquestionável. Desenvolvo uma teoria irónica que tem por fim formular hipóteses. Estas podem ajudar a revelar aspectos impensáveis. Procuro reflectir por caminhos oblíquos. Lanço mão de fragmentos, não de textos unificados por uma lógica rigorosa. Nesse raciocínio, o paradoxo é mais importante que o discurso linear. Para simplificar, examino a vida que acontece no momento, como um fotógrafo. Aliás, sou um fotógrafo”
Jean Baudrillard

“Universos Paralelos” estava talhado ao esquecimento. Ali, mesmo, naquela cave. Naquele baú antigo; abolorecido. Remexido de poeira e ruídos de roedores, ansiosos. Cheiro a mofo; humidades. Um recanto de silêncios onde descansava; na familiaridade de outras películas; 8mm. Já não roda na casa que lhe dá vida: o projector há muito o esqueceu. 

Ele (eu ou nós – porque todos remexemos em memórias insólitas esquecidas: paradoxos, obliquidades) abriu aquela caixa apodrecida. Desembaraçou as dezenas de películas amadoras. Degradadas, esbatidas, demitidas das cores originais. Não tinham autoria. O tempo encarregou-se do esquecimento. 

Havia a fresta na janela; a luz entrava. Ele pegou na película. Exibiu-a à luz.
Fotograma a fotograma viu uma história (?). Não sabia se encenação; se realidade. Onde; como?; quem? Só via a corrosão e a predominância química do ciano e do magenta. 

Ao ritmo desse desgaste ele via o enredo. Fictício? Real? Cada vez mais desconcertado, ele absorvia o argumento. A interpretação fluía livre; sem vícios. Tudo era insólito. A ordem estabelecida estava, ali, desafiada. Não entendia. O mundo parecia ter a sua dicotomia; uma espécie de analogia que não estava, de imediato, ao seu alcance. Mas aquela pedra lançada, muito revelava. Afinal, o que ele entendia é que um outro lado estava ali espelhado. E queria desafiar o mundo a conhecer-se a si próprio, naquele próprio paradoxo. Sem hesitar – e temer a degradação do filme – ele arriscou e ampliou os fotogramas daquela aventura. “Universos paralelos” seriam revisitados. Não mais destinados à omissão daquela verdade...

segunda-feira, abril 12, 2010

Homem UltrA Mud.Erno [3]


Acha que tribos urbanas são peças de museus de História Antiga

quarta-feira, abril 07, 2010

FAB

Sobrevoar a floresta amazónica e aterrar no meio do mato (quase-virgem) em Santa Maria do Boiaçu, Roraima, com a Força Aérea Brasileira. A viagem, por estes dias, vê-se aqui: no lugar do costume

segunda-feira, abril 05, 2010

Homem UltrA Mud.Erno [2]

Cultiva a estética fibrosa. O peeling social.

sábado, abril 03, 2010

Sim, quando for grande quero ser como os avós

M.- Onde estavas?
A. - Lá fora!
M. - À chuva?
A. - À chuva não, foi até começar!
M. - E ele, que quer, o António?
A. -Quer falar! Sem a gente lhe falar, quer falar. Tem fome de falar, é por isso. Eu sei mais a dormir do que todos eles acordados.