sexta-feira, novembro 17, 2006

Filho da esquerda

(Versão original: Português do Brasil)
O cigarro apressado sai da boca mal sorvido. Os dedos trêmulos. A voz inquieta. Olhar desfragmentado entre a realidade e o desejo dela, Bia (Simone Sploadore), de ficar ali, naquela casa, aconchegada, enquanto espera o marido, Daniel (Eduardo Moreira), sempre atrasado. Malas inquietas, que palpitam de improviso. Passos desnorteados. Férias que começam, assim, ansiosas e desregradas de entusiasmo.
Debruçado sobre a mesa envelhecida - cansada de raspagens pueris - o pequeno Mauro (Michel Joelsas) extravasa a imaginação: empurra botões que disputam entre si o gol e a defesa do goleiro. Brincadeiras que sustentam a metáfora do longa-metragem de Cao Hamburger, premiado neste ano no Festival do Rio e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”.
Saída abrupta. Um fusca azul parte de Belo Horizonte com destino a São Paulo - ao bairro do Bom Retiro, mais exatamente.
“Quando vocês voltam?” - inquieta-se o garoto.
“Na Copa, filho. A gente volta na Copa” - sossega-o, trêmulo, o pai, antes de partir em seu fusca.
Daí, discorre toda a psicologia infantil de Mauro, forçado a sentir as agruras dos pais de férias codificadas pela clandestinidade da esquerda, num país de democracia adormecida e ditadura acordada de insônias – repressão, silêncios, bocas amordaçadas e memórias apagadas de reflexos do que poderia ser. Reflexos simbólicos esses, traduzidos na fotografia de Adriano Goldman, que bafeja imagens em contraponto no espelho do banheiro, no relógio antigo, no vidro do carro. E depois a música estilhaçada de 1970. Os ruídos da agulha a roçar no vinil. Beto Villares se encarrega da carga simbólica sonora.
Mas Mauro, ao contrário da previsão dos pais, não é amparado pelo avô Mótel (Paulo Autran), que morre pouco antes da sua chegada. É o vizinho que se encarregará do pequeno. É a maturidade forçada que espicaça Mauro; as histórias por viver; a infância por contar; as saudades; e a esperança de que a Copa do Mundo traga de novo aqueles que o deixaram à porta do prédio de um avô que também não voltou a ver.


Salas de Cinema próximas
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Bristol - Sala 312h45 14h55 17h05 19h15 21h25 23h35 somente sexta e sábado Sessões NÃO válidas na terça.

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Reserva Cultural de Cinema - Reserva Cultural 313h 15h05 17h10 19h20 21h30
Texto publicado originalmente na intranet da Energias do Brasil

2 comentários:

ÁguaDiCoco disse...

confesso que me deu um bocado de sono...:P

Ana Pinheiro disse...

Que saudades...........! Um dos meus momentos culturais por terras paulistas!
Adorei o filme. A fotografia é fantástica.