sexta-feira, janeiro 10, 2014

Ouvir demais, a pele da cultura

Nos últimos dois anos, têm-me acusado de ouvir demais. Eu explico: a televisão está sempre com o volume demasiado alto para mim (quando os demais se queixam que não ouvem nada), ouço sempre barulhos ou incoerências de som nas peças de rádio que estou a montar, quando os outros nada percebem; tendo a descriminar quantos sons tem uma música; sofro com os volumes de áudio das salas de cinema e estou sempre a dizer a algumas pessoas para falarem mais baixo. 

Se o primeiro cenário pode ser irritante para muitos (eu juro que o volume normal me fere os ouvidos), acreditem que é muito mais irritante para mim, tal como o derradeiro cenário. Ter, pelos vistos, alguém que ouve demais pode ser um problema. Não me ocorre, porém, nenhum caso em que tenha ouvido uma conspiração, ou confissão que merecesse um exclusivo jornalístico, mas gostaria, pelo bem do alegado dom (ou defeito). 

Eu confesso que não noto nada de especial, até o António me dizer que eu só posso ouvir em frequências sonoras que o comum dos mortais não ouve. Deve ser a isto que se chama ter ouvidos de tísico, cuja sensibilidade atinge níveis de audição premium. 

E por que razão me lembrei disto agora? Simples: além de ser uma constante na minha vida, concluí que talvez não seja por acaso, esse suposto "dom". Isso porque hoje voltei a fazer uma coisa que já não fazia há muito tempo e cuja atividade mantive durante anos: fechar os olhos na rua, no jardim, no autocarro e enumerar os sons ao meu redor. Um riacho, um pássaro, dois, três, passos, carros, folhas a tremer na árvore, gravilha, casaco a roçar, um motor, paragem de autocarro, ruídos brancos, tosse, risos. Fiz isso durante muitos anos - o ouvido há-de ter ficado treinado, sensível à quantidade de sons, dissecando-os na atividade cerebral. Fiz isso durante muito tempo, depois de ler o livro "A Pele da Cultura" de Derrick de Kerchove (discípulo de Marshall Macluhan, "O Meio é a Mensagem") em que a certa altura ele sugeria esse exercício: fechar os olhos e identificar os sons à volta. Na era do ruído, como esta, corro sempre o risco de ter uma overdose sonora. Talvez esteja na altura de fazer ouvidos de mercador. Usar tampões nos ouvidos também não me parece má solução.