terça-feira, janeiro 08, 2013

o silêncio do metro

O ruído deve ser uma coisa muito relativa. Um som inarmónico para uns, harmónico para outros, deixando de ser o que para certos é o fragor, o estrondo. É por isso que talvez o que de seguida escreverei não seja mais do que um mero desalinho melódico, com se o piano do meu cérebro, ou as cordas de um violão, como talvez seja (ou lira, ou pandeireta, cuíca, ou banjo, sei lá), estivesse a precisar de afinação. Dobrem os sinos, toquem as trombetas, rejubilem-se os preguiçosos, porque isto é valor-notícia naquele que é considerado o universo vanessiano.  

Não tenho conseguido agarrar um livro e harmonizar os elementos necessários para conseguir pautar, palavra a palavra, linha a linha, aquela que é a melodia da leitura. A serena sucessão rítmica que assiste o ato de ler. 

Não consigo, e estarei longe de perceber a razão. Não que os autores não sejam prosadores de interesse reconhecido, para manter uma mente ocupada aos amantes da leitura; não que a orquestra da minha mente ande conturbada com preocupações maiores; não que não esteja habituada ao exercício paulatino da negação do ócio em troca de um livro. 

Talvez tenha sido acometida por algum vírus do fim do mundo que me tenha usurpado o gosto pela leitura ou, ainda, haja algum ruído branco que me entorpece senso e sentido, orgulho e preconceito. O que sei, isso sim, como me disse certeiro o Alexandre, numa dessas tardes de sábado no Candelabro, é que estou sendo invadida pela vontade assoberbada, ansiosa de escrever, num conflito evidente entre querer viver e parar para escrever. Acontece-me agora - e precocemente-, pois há ainda tanto para ler antes de parar para ter a ousadia de esboçar em prosa o que quer que seja, ser assaltada por uma vontade incontrolável de escrever sobre tudo o que me rodeia. Sobre o casal de namorados no banco de jardim do Palácio, do velho do Jardim São Lázaro, do taxista da Rua Sá de Bandeira, mas depois atrapalho-me e não sei como envolver as histórias. 

Atrapalho-me e desisto, quando muitos me dizem que é preciso técnica (dá-me uma certa repulsa, resistência) e que não posso desistir. Ataranto-me e acho que estou a perder tempo, que é melhor ir viver, em vez de me atrapalhar. Convenço-me que é mais uma forma de ruído, como aquele que me investe quando estou no metro, a viver: também me apetece escrever nos lugares mais inusitados, como uma carruagem em andamento.  

É talvez por isso que hoje resolvi parar para escrever isto de tão banal que possa ser, na devida prova irrefutável, que os ruídos são uma coisa relativa

A mulher que serve cafés na estação de metro da Casa da Música inquietou-se quando lhe disse boa tarde, como estivesse de costas, lavando louça. Assustou-se apesar do barulho à volta, de gente apressada, metros a ir e vir, um frenesim de adolescentes, escadas rolantes a chiar.
 
-Ah, boa tarde. Com tanto silêncio do metro, assustou-me.

O barulho, meus caros, é relativo. É preciso habituarmo-nos a ele até que seja silêncio. Deve acontecer a mesma coisa com a literatura.
som inarmónico produzido por corpo que cai ou estala; estrondo, fragor

ruído In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-08].
Disponível na www: http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/ru%C3%ADdo
>.
som inarmónico produzido por corpo que cai ou estala; estrondo, fragor

ruído In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-08].
Disponível na www: http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/ru%C3%ADdo
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3 comentários:

Cris =) disse...

Lindo ;)

pedro leão disse...

Se tudo é uma questão de hábito,a esse barulho estou muito desabituado. Muito bom o texto.

Vanessa Rodrigues disse...

Obrigada meus caros, muito obrigada! :-)Beijos