segunda-feira, julho 18, 2011

A linha do horizonte

Aquela linha ali ao fundo, nem mar, nem céu, um meio, é o horizonte. Primeira lição: podemos alargá-lo, fazer dele futuro, ontem, fazê-lo um longo hoje, expandi-lo, ver-lhe as cores que tem e quanto há nele de verticalidade, a diagonal, virá-lo de cabeça para baixo e vice-versa, esquecê-lo, e perceber, afinal, que por isso, ele não tem nada de horizontal. É uma linha invisível, da nossa cabeça, não existe. 

Com sorte, terá pôr-do-sol, far-nos-á querer tocá-lo, apalpar a densidade da sua transparente existência e que tanto nos está no imaginário colectivo. Ter horizonte. E ter horizonte é arregaçar mangas e enfrentar a vida olhos nos olhos, ou o quer que isso signifique. 

Segunda lição: os olhos têm horizonte. E é assim que lá chegamos pela lente de Steve McCurry. 

Em 1992 o fotógrafo norte-americano mostrava o olhar da guerra no Afeganistão através de Sharbat Gula, a menina que destapou o rosto tenro, por momentos, para ser capa da National Geographic. Eram notícias de um certo Oriente. Mas é raro o Oriente entrar assim no Ocidente, a não ser para falar de intolerância e fundamentalismo. Só se dermos um salto à Aljazeera vemos que há mundo com outro horizonte daquele lado, com músicas do mundo. Aquele lado não é o nosso. Ensinam-nos que não é. E o contrário também há-de acontecer. Nós não conhecemos os horizontes do mundo.

Terceira lição: é pelo lado inverso do espelho que lá chegamos. E pelo olhar. Ziba tem esse mesmo olhar, mas não entrou no Ocidente. Esses mesmos olhos intensos, claros e afegãos. Tem outra guerra. Tinha. Acabou por perdê-la. Foi assassinado há uns meses em Kabul. O corpo foi esquartejado e entregue à família. Era travesti, dançava em festas. E, embora muito meninos, desde tenra idade, conforme testemunha o repórtePlàcid Garcia-Planas na revista digital Frontera D, sejam obrigados a vestir-se de meninas para dançar em festas, como cultura arraigada, matar um travesti no Afeganistão pode equivaler a ter um lugar reservado no céu. E num país que é ground zero, matar um travesti é um efeito colateral sem importância. 

Quarta lição: o jornalismo tem esta perversidade. Contamos histórias de pessoas em perigo. Estamos lá, sentimos-lhe o bafo e o apelo. Voltamos. Trazemos um pedaço da história, mesmo que o outro fique sem horizonte. Naquele momento fomos presente e futuro. E horizonte é esperança. E continuidade aqui é não ter para onde olhar, porque não há linha invisível, a não ser o fio ténue de vida.

Quinta lição: a linha do horizonte é demasiado oblíquia, como a chuva, para falarmos de verdades. Plutão planeta foi. Cogito ergo sum. Mas há esta verdade: não há água para flores no Afeganistão. E os afegãos adoram flores. Um povo rude a gostar de flores já é um horizonte.  

2 comentários:

Joéliton dos Santos disse...

Olá!!!
Como está? Espero que bem!
Gostei da postagem, viu! Voltarei mais vezes com calma para conferir tudo!

Grande abraÇoOooO!!!!

Vanessa Rodrigues disse...

Olá Joéliton, obrigada!!Passe sempre que quiser, a casa é sua! Forte abraço!!!:-)