terça-feira, agosto 02, 2011
Um tango, uma gueixa, uma folha de jornal e time lapse...
Lupe timelapse from two twelve on Vimeo.
Geisha from two twelve on Vimeo.
Love from two twelve on Vimeo.
segunda-feira, agosto 01, 2011
Conversatório
...o silêncio será sempre o melhor remédio, ainda que cá dentro se ouça o som de pensamentos. A máquina voltou a trabalhar, com as devidas arritmias e soluços. Por favor, não incomodar, o silêncio está em trabalho de parto...
domingo, julho 31, 2011
Mandim
Mandim podia ser uma estação do ano. E, se fosse, seria o melhor da Primavera. Se realmente fosse (e não há nada que garanta que não seja), seria ainda o lado ameno do Verão. E hoje ela pareceu-me feliz, apesar de silenciosa, meditativa, um tanto hibernada, com esse pouco de preguiça de Estio, daqueles de um corpo de fim de tarde num rescaldo pós-praia, e depois do banho.
Mandim pareceu-me tudo isso, ainda que seja apenas uma estação de metro, a caminho do norte. Pareceu-me um lugar que a minha imaginação criaria, se não existisse. Talvez seja, por essa razão, que Mandim ficou-me ao ponto de certificar que seria um bom sítio para a minha mente lá ir sempre que quiser.
É apenas um ponto de encontro de um transporte público no meio da mata norte: eucaliptos altaneiros, pinheiros em esplendor de veraneio, num bacanal natureba de invejar qualquer fotossíntese. Cheira a pinhas e resina, clorofila fresca, trespassada pelos raios dissipados que juro ter visto entre a neblina. E antes de ver isso, vi um largo de granito, desaproveitado, circular, com candeeiros estilosos e modernos, ao redor.
E isto é apenas uma estação de metro, porque ao lado, uma casa rectangular com um éme azul-grande como assinatura insinuante o impõe, mas não o suficiente para ser impositiva no meio desta floresta.
Os trilhos mal se vêem já, de tão verdes ao redor.
É, Mandim, é apenas uma estação de metro silenciosa, mas nem por isso um repouso fantasmagórico que os lugares desabitados de vida humana podem ter. É uma estação em suspenso, com o termómetro equilibrado. Hei-de passar em Mandim no Inverno a ver se a Primavera existe, se esse Verão ameno lá mora. Mandim, hoje, foi muito bom nessa verdade. É como os nossos humores: têm estações do ano!
sexta-feira, julho 29, 2011
quarta-feira, julho 27, 2011
Das coincidências e dos sonhos
Bem sei que é um tema recorrente falar-se daqui das minhas vigílias pelo reino de Morfeu e pelo insondável não-lugar, quase distópico que ele será (não tenho certeza de que Italo Calvino tenha por aqui passado nas "Cidades Invisíveis, mas gostaria). E ocorre-me hoje que essa geografia não mapeada deve ser um celeiro, a cérebro fechado, onde se labuta com afinco e dedicação. Funcionará assim: os expeditos donos das mãos que os debruam, com novelos de várias cores, reúnem-se para decidir dos temas. Uma caixa (Pandora?) terá milhares de papéis e alguém arrisca pinçar um do imenso branco-homogéneo que a tinta da china os terá escrito.
segunda-feira, julho 25, 2011
domingo, julho 24, 2011
sábado, julho 23, 2011
Amy, 27
A primeira coisa que o meu irmão disparou, esta tarde, quando lhe disse que a Amy Winehouse tinha sido encontrado morta no apartamento, em Londres, foi:
-Há muita gente que vai ganhar dinheiro com isso!
De imediato pensei, claro, na fortuna deixada; nas discórdias para dividir o património que a senhora da voz jazzística, soul, densa e grave, avassaladora, sexy e aveludada, inevitavelmente terá deixado, como todos os grandes artistas deixam como assinatura post mortem.
Eu estava profundamente equivocada.
quinta-feira, julho 21, 2011
Aforismos oníricos de Kafka, ou melhor não jogar na lotaria
| Caranguejeira, a.k.a Tarântula, Ilha de Cotijuba, Amazónia - Vanessa Rodrigues |
Tenho uma relação estranha com os sonhos. Nós não nos falamos, propriamente. Sabemos da presença um do outro e nenhum dá o primeiro passo. Eles nunca me perguntaram: - E aí, van, o que você quer sonhar hoje? Pois é: e eu também nunca pedi nada. Fico quietinha. Deito-me a pensar que vou descansar, só isso. Apago a luz e é quase automático: zzzzzzz.... uma sorte.
Acontece que eu presencio algumas metamorfoses na minha cabeça. Neles, os sonhos de facto - não aqueles que de olhos acordados vamos planeando para que eles aconteçam. Mas aqui, na cuca cerebral, eles acontecem, mais ou menos a cada ciclo de dois em dois dias, quando me lembro deles, e são uma espécie de filmes gratuitos, sem pipoca, desconto de estudante (que já não tenho idade para isso, mas devia), papel de rebuçado ou chocolate em crunch-crunch ressoante, enfim, os adereços necessários para sabermos que vai fazer-se cinema comercial. Talvez seja por isso: é outra coisa!
Já aqui dei conta de alguns sonhos kafkianos. E o escritor checo não se livra da metáfora categorizadora para tudo o que é estranho, relacionado com as recônditos caminhos da mente, labiríntico, absurdo e de certa forma implica transformações físicas: sai deste corpo que não te pertence.
Foi o que quis gritar, anteontem, quando estava dentro deste sonho: uma rua cinzenta que sobe, as minhas pernas e, de repente, (isto não é para pessoas sensíveis, por isso, ainda vai a tempo de aqui parar) um rato entranha-se na minha perna. Entra pele adentro.
Que coisa nojenta, penso agora que escrevo; como vou tirá-lo da perna?: pragmatismo dentro do sonho. E pragmatismo dentro do sonho aconteceu: enrolei a pele onde ele se encontrava e a coisa transformou-se em aranha; quando saiu, morta, era um pássaro amarelo.
Três seres dentro e fora da minha pele. Acordo e tudo isto é um absurdo. Que coisa anda a mente e magicar. Talvez sejam efeitos colaterais do processo de hibernação desde a semana passada. Quando a vontade vem, convém agarrá-la a jeito.
Tinha-me esquecido desse sonho, até que alguém me fez chegar um vídeo, que acredito ser spam, de uma miúda (eu não vi), com uma aranha como inquilina no corpo: via-se uma teia farfalhuda à volta do seio.
Fui por isso, tentar perceber o que significava aquele meu sonho: e, a acreditar nesses muitos dicionários de sonhos da internet da vida uma coincidência, não é, como previa, coisa boa. Todos os bichos estão relacionados com negócios e dinheiro. O rato significa perdas financeiras, a aranha dinheiro, mas morta est, logo nada prenúncio de coisa boa; e o pássaro amarelo, que saiu no final, e que eu aniquilei, é auspício de azar nos negócios, perdas financeiras. A fazer-me valer pelo pragmatismo da vida vou considerar que tal como o e-mail, esse sonho foi um spam do sistema cerebral, na verdade nunca chegou a realmente a acontecer. Querem apostar?
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Algo acontece na Alma...
... ou no coração, quando cruza a Ipiranga com a Avenida São João. Está preparado para viver a mil? Sim, na cidade que não dorme...
quarta-feira, julho 20, 2011
Três verdades contemporâneas
"Creio no invisível
Creio na levitação das bruxas
Creio em vampiros
Porque os há"
Pag. 37
Conceição Lima, O País de Akendenguê (poesia), Editorial Caminho, 2011
terça-feira, julho 19, 2011
O cheiro do ralo
O meu nome não é Johnny, muito menos Selton Mello, o grande, mas atrevo-me a evocar para título deste post o nome do filme de humor negro que levou a prosa do brasileiro Lourenço Mutarelli (vénia: gosto da escrita deste homem) à telona em 2007. Não se sentia o cheiro daquele ralo, em close-up, do escritório do Lourenço (Selton) mas quase que o podíamos imaginar. De alguma forma, já estivemos perto de um ralo assim. Estamos a vê-lo, ali. E ficarmo-nos por imaginar o sni-snif com a sugestão da imagem, neste caso, não é mau de todo.
Pior seria caso os artistas da vanguarda cinematográfica tivessem arranjado uma forma de nos transferir o olor do filme para a sala de cinema. Por isso mesmo, fiquem descansados, o cheiro que se segue não se sente desse lado, estão salvaguardados, mas, advirto: requer algum estômago na dissecação e digestão da escatologia.
A ela: os nossos queridos WC, em viagem. Quem não tem uma história com WC que faça a primeira descarga....Uns segundos. Pausa...
Prosseguimos então perante o silêncio do autoclismo.
Prosseguimos então perante o silêncio do autoclismo.
Ocorreu-me falar sobre isto depois de uma longa conversa de fim-de-semana sobre cerveja e efeitos diuréticos. Eu sei, há melhores assuntos, mas vá-se lá entender o que se passa na nossa cabeça, once in a while!
Depois, lembrei-me que no dia de São joão, às cinco da matina, apertadinha, um dos únicos cafés abertos em Miragaia, negou-me a entrada triunfal para aliviar a sufocada bexiga. Como fosse a resposta pouco convincente, pelo olhar de gozo da anafada moçoila que se sentava no balcão do bar, proferindo um desleixado discurso com cunhado sotaque à "Puorto", veio reminiscência sobre o assunto:
- "Num pode ir?"
Depois, lembrei-me que no dia de São joão, às cinco da matina, apertadinha, um dos únicos cafés abertos em Miragaia, negou-me a entrada triunfal para aliviar a sufocada bexiga. Como fosse a resposta pouco convincente, pelo olhar de gozo da anafada moçoila que se sentava no balcão do bar, proferindo um desleixado discurso com cunhado sotaque à "Puorto", veio reminiscência sobre o assunto:
- "Num pode ir?"
- Porquê?
- Num póde?
- Porquê?
- Tá abariáda!
Várias vezes ouvi este "avariado" em cafés, onde entrei, esporadicamente, para tentar obedecer à fisiologia. A nega inevitável da nossa portugalidade, e claro de um direito que assiste ao dono de deixar entrar quem lhe convier: Só pessoal que está a consumir pode usar a casa-de-banho. Ámen!
Cheguei a tomar café, água, sumos, enfim, uma série de consumos só para poder usar o WC. É um tema para discussão, mas dou-lhe um ponto final, porque estamos esclarecidos do contexto geral. Interessa o que se segue.
Desventuras de WC, em trânsito.
Várias negas tive, também, em cafés em Munique, Alemanha, Estrasburgo, na França. Três pontinhos para outras geografias... Curiosamente nunca levei uma nega dessas no Brasil, terra de gente generosa e solidária, talvez a sociologia explique alguma coisa sobre o assunto. E, depois há isto: a saga por um WC.
3 notas: entre a Bolívia e a Amazónia.
3 notas: entre a Bolívia e a Amazónia.
1. São 5 da manhã e estamos quase de partida. É Manaus; é a base aérea da Força Brasileira. Ali ao fundo está um Caravan, avião, 10 lugares, onde passarei duas horas de sufoco, encolhida. Última estação, antes de voar: WC, check.
Por isso, não sei por que razão, meia hora depois, a bexiga temperamental avisaria querer ser esvaziada. Coisa muita para quem adora voar. Coisa muita, para quem vê um manto verde lá em baixo com rios e igarapés a serpenteá-lo de azul barrento. Coisa muita, para quem está com desconhecidos, militares e não pode propriamente dizer:
- Oh senhor piloto, faça o favor de encostar ali na próxima estação de serviço que a portuguesa tem de aliviar a bexiga rebelde.
Coisa muita! Olhei para P., várias vezes, desesperada, que tentou arranjar forma de me acalmar dizendo que estamos quase a chegar e o que o melhor a fazer é não pensar no assunto! Tento. Eu tento. Mas é coisa muita, quando se tem a bexiga a rebentar. Eu vejo verde, vejo cockpit, vejo verde, sorrio, penso na viagem, olho o verde, mexo na máquina, desejo que não falem comigo, desejo que a bexiga se lembre de, como eu, pensar noutra coisa. Foram duas horas de exercício nirvana para ficar zen e não pensar. A pista está ali ao fundo, exígua, e ainda bem que mesmo assim adoro voar, adoro estar num Caravan com 6 militares, e dois pilotos experientes, com a bexiga cheia, enquanto tentamos acertar na pista. Ainda me lembro de filmar o momento e lá se foi desejo de WC, um minuto. Mal motor pára, sou a primeira a sair. As boas vindas de Santa Maria do Boiaçu, em Roraima, foi no WC, num lento sussurrado líquido.
Por isso, não sei por que razão, meia hora depois, a bexiga temperamental avisaria querer ser esvaziada. Coisa muita para quem adora voar. Coisa muita, para quem vê um manto verde lá em baixo com rios e igarapés a serpenteá-lo de azul barrento. Coisa muita, para quem está com desconhecidos, militares e não pode propriamente dizer:
- Oh senhor piloto, faça o favor de encostar ali na próxima estação de serviço que a portuguesa tem de aliviar a bexiga rebelde.
Coisa muita! Olhei para P., várias vezes, desesperada, que tentou arranjar forma de me acalmar dizendo que estamos quase a chegar e o que o melhor a fazer é não pensar no assunto! Tento. Eu tento. Mas é coisa muita, quando se tem a bexiga a rebentar. Eu vejo verde, vejo cockpit, vejo verde, sorrio, penso na viagem, olho o verde, mexo na máquina, desejo que não falem comigo, desejo que a bexiga se lembre de, como eu, pensar noutra coisa. Foram duas horas de exercício nirvana para ficar zen e não pensar. A pista está ali ao fundo, exígua, e ainda bem que mesmo assim adoro voar, adoro estar num Caravan com 6 militares, e dois pilotos experientes, com a bexiga cheia, enquanto tentamos acertar na pista. Ainda me lembro de filmar o momento e lá se foi desejo de WC, um minuto. Mal motor pára, sou a primeira a sair. As boas vindas de Santa Maria do Boiaçu, em Roraima, foi no WC, num lento sussurrado líquido.
2. Bolívia, 10 horas de viagem e um autocarro velho. É deserto: e é nele que paramos depois de passar Oruro, enquanto tentamos chegar a outro árido lugar, perto do Atacama, o Sal. Cinco horas depois e amanheceria. Não há WC. Há muito lixo ao redor do deserto cinzento. Há casas de adobe lá ao fundo. Estou com a Manu e mais umas duas dezenas de bolivianos e uma equatoriana louca, também, chamada Vanessa que dorme com um cobertor em cima da cabeça. Acordamos com cheiro de gente e panos velhos. Saio para ir comprar alguma coisa para comer e WC.
Caminho.
Há ali um Motel. Um Motel deve ter WC. Algo parecido. Bato à porta. Vem uma dessas cholitas de tranças compridas, cabello negro, e chapelito. As saias são compridas; a vida dela também já o deve ser, e a pele confirma-o, enrugada. Abriu um imenso portão para ver o meu entusiasmo. Lá ao fundo quartos. Depois, vê a minha desilusão: ela a garantir-me que não há WC's. E fica nisto:
Caminho.
Há ali um Motel. Um Motel deve ter WC. Algo parecido. Bato à porta. Vem uma dessas cholitas de tranças compridas, cabello negro, e chapelito. As saias são compridas; a vida dela também já o deve ser, e a pele confirma-o, enrugada. Abriu um imenso portão para ver o meu entusiasmo. Lá ao fundo quartos. Depois, vê a minha desilusão: ela a garantir-me que não há WC's. E fica nisto:
- donde esta el coche? Donde está el coche? hã! hã? donde está? yo quiero verlo. Donde está el coche malogrado?
Eu é que estou malograda senhora, penso. WC ali ao fundo, hã, não? Motel, aqui, hã? Certo? Ficamos nisto uns 10 minutos. Chego mesmo a mostrar-lhe o autocarro, lá ao longe (grande acontecimento na região). Até que abro a mão, soles: é ela quem tira e por pouco menos de 1 euro decide que, afinal, o motel tem casa-de-banho e que posso usá-la, ali ao fundo. É ela a ver de novo o meu entusiamo. É eu a ver o entusiasmo dela: soles e bus malogrado!
3. O deserto ainda e agora sim, o cheiro do ralo; e desta nem o Mutareli se lembraria.
Mais umas 4 horas depois de autocarro e ainda faltam 3 para chegar ao Yuni, pertinho do Deserto do Sal onde Dali se inspirou para desenhar alguns dos seus quadros surrealistas. Um deserto que é branco e que tem um monte de terra que é ilha, habitada por centenas de cactos como os da foto deste post, há-de ter a sua quota de surrealismo e nós, que a percorremos, estaremos um pouco mais próximas de André Breton. Vamos.
O autocarro parou de novo. Desta vez paragem técnica e queremos pois um WC.
- Qué?
Pergunta-me uma senhora, como se folheasse um dicionário à procura de uma descrição. Até que ela percebe onde queremos chegar e descreve aquilo que parece um buraco no chão; ou, segunda opção: um arbusto.
Ao redor: adobe e pó cinzento. Uma cidade fantasma e casas insalubres. Bem-vindos ao faroeste boliviano. Uma estação de comboios desactivada, lá longe, a cinco minutos, de portas fechadas. Não há cafés, as casas têm pequenas portas de madeira nas traseiras, que presumo que seja o tal buraco no chão. Rendo-me, mas a Manu fica em pânico.
Salva-se ali, perto da estação, dois blocos de cimento com mais 2 buracos no chão (algo quase SlumDog milionário, mas um pouco menos). Enfrento a fisiologia com fervor antropológico e sugiro que ela faça o mesmo, pois ainda faltam 3 horas para o destino final, que não sabemos se será pior. Melhor?
Salva-se ali, perto da estação, dois blocos de cimento com mais 2 buracos no chão (algo quase SlumDog milionário, mas um pouco menos). Enfrento a fisiologia com fervor antropológico e sugiro que ela faça o mesmo, pois ainda faltam 3 horas para o destino final, que não sabemos se será pior. Melhor?
Ela ignora e sai à procura de um WC como se não tivesse ouvido e visto o mesmo que eu. Sigo. A minha estratégia: toalhitas de bebé, fresquinhas e cheirosas no nariz e pronto, uma história para contar.
E a Manu ainda às voltas, até que a camioneta vem à procura dos passageiros (des)aventurados na exploração de uma casita. Ela rende-se, mesmo sem toalhitas.
Agora que me lembro disto, que vos conto, ocorre-me uma declaração de rigor: com as toalhitas a viciar o odor a creme fofo no meu narizito não senti o verdadeiro cheiro do ralo do faroeste boliviano. Antes, assim, ao menos sobrou alguma coisa para imaginar. Vou pensar com carinho no assunto!
Agora que me lembro disto, que vos conto, ocorre-me uma declaração de rigor: com as toalhitas a viciar o odor a creme fofo no meu narizito não senti o verdadeiro cheiro do ralo do faroeste boliviano. Antes, assim, ao menos sobrou alguma coisa para imaginar. Vou pensar com carinho no assunto!
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Relações Experimentais
Yijun Liao
Não tem wikipedia, nasceu em Shanghai, fartou-se de ser freelancer, fez mestrado em belas artes e agora mudou-se para Nova Iorque.
Não tem wikipedia, nasceu em Shanghai, fartou-se de ser freelancer, fez mestrado em belas artes e agora mudou-se para Nova Iorque.
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Yinjun Liao
segunda-feira, julho 18, 2011
A linha do horizonte
Aquela linha ali ao fundo, nem mar, nem céu, um meio, é o horizonte. Primeira lição: podemos alargá-lo, fazer dele futuro, ontem, fazê-lo um longo hoje, expandi-lo, ver-lhe as cores que tem e quanto há nele de verticalidade, a diagonal, virá-lo de cabeça para baixo e vice-versa, esquecê-lo, e perceber, afinal, que por isso, ele não tem nada de horizontal. É uma linha invisível, da nossa cabeça, não existe.
Com sorte, terá pôr-do-sol, far-nos-á querer tocá-lo, apalpar a densidade da sua transparente existência e que tanto nos está no imaginário colectivo. Ter horizonte. E ter horizonte é arregaçar mangas e enfrentar a vida olhos nos olhos, ou o quer que isso signifique.
Segunda lição: os olhos têm horizonte. E é assim que lá chegamos pela lente de Steve McCurry.
Em 1992 o fotógrafo norte-americano mostrava o olhar da guerra no Afeganistão através de Sharbat Gula, a menina que destapou o rosto tenro, por momentos, para ser capa da National Geographic. Eram notícias de um certo Oriente. Mas é raro o Oriente entrar assim no Ocidente, a não ser para falar de intolerância e fundamentalismo. Só se dermos um salto à Aljazeera vemos que há mundo com outro horizonte daquele lado, com músicas do mundo. Aquele lado não é o nosso. Ensinam-nos que não é. E o contrário também há-de acontecer. Nós não conhecemos os horizontes do mundo.
Terceira lição: é pelo lado inverso do espelho que lá chegamos. E pelo olhar. Ziba tem esse mesmo olhar, mas não entrou no Ocidente. Esses mesmos olhos intensos, claros e afegãos. Tem outra guerra. Tinha. Acabou por perdê-la. Foi assassinado há uns meses em Kabul. O corpo foi esquartejado e entregue à família. Era travesti, dançava em festas. E, embora muito meninos, desde tenra idade, conforme testemunha o repórter Plàcid Garcia-Planas na revista digital Frontera D, sejam obrigados a vestir-se de meninas para dançar em festas, como cultura arraigada, matar um travesti no Afeganistão pode equivaler a ter um lugar reservado no céu. E num país que é ground zero, matar um travesti é um efeito colateral sem importância.
Quarta lição: o jornalismo tem esta perversidade. Contamos histórias de pessoas em perigo. Estamos lá, sentimos-lhe o bafo e o apelo. Voltamos. Trazemos um pedaço da história, mesmo que o outro fique sem horizonte. Naquele momento fomos presente e futuro. E horizonte é esperança. E continuidade aqui é não ter para onde olhar, porque não há linha invisível, a não ser o fio ténue de vida.
Quinta lição: a linha do horizonte é demasiado oblíquia, como a chuva, para falarmos de verdades. Plutão planeta foi. Cogito ergo sum. Mas há esta verdade: não há água para flores no Afeganistão. E os afegãos adoram flores. Um povo rude a gostar de flores já é um horizonte.
domingo, julho 17, 2011
domingo, julho 10, 2011
Minha FLIP privada...
Como já aqui tinha dito, é a minha primeira vez sem Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), em alguns anos. Por isso, decidi fazer a minha FLIP privada, embora confesse que talvez por isso, me doa menos um poucochinho não lá estar. Hiberno um pouco, vejo a maior parte dos vídeos disponíveis; reconheço escritores ali convidados já na minha pequena bagagem (viagem) literária, e resolvo recolher-me para me inspirar na vida leve e intensa que essas FLIP's me deram. Se sou um pouco melhor naquilo que faço, também, o devo a esses dias, a essas andanças literárias. É FLIP na bagagem e isso há-de importar alguma coisinha!
Um passaporte e La Tripla Frontera
A Laura achou melhor que mal eu chegasse a Foz de Iguaçu apanhasse um autocarro para ir às Cataratas.
Pôr-do-sol a marcar fim de tarde, poupar tempo e, afinal, uma mochila com máquina fotográfica, três pares de cuecas e uma muda de roupa, não haveria de pesar até ali.
Pôr-do-sol a marcar fim de tarde, poupar tempo e, afinal, uma mochila com máquina fotográfica, três pares de cuecas e uma muda de roupa, não haveria de pesar até ali.
Os cacifes resolveriam o problema e a única coisa que carreguei, além da máquina para caçar imagens no Parque de Iguaçu, lado brasileiro (da janela-miradouro vê-se a Argentina), foi a minha ideia das Cataratas: um Niagara em miniatura, sem nunca ter estado antes nem num lado, nem no outro.
Hordas de turistas e uma fila pica-o-bilhete marcaram de imediato a minha ideia daquilo. Parque para turista ver. Eu sem paciência. Paciência sem mim. Mas já que ali estava, ao menos pudessem os meus olhos despir as afamadas Cataratas.
Veio o guia dizer que as fotos eram melhores de lá de baixo dos barcos. E dava para ir a pé? Não. E o bilhete incluía a visita? Não. Então como queria ele que eu tirasse fotos lá em baixo ? Por 400 reais, cerca de 180 euros, teria os melhores cartões-postais na minha câmara.
Veio o guia dizer que as fotos eram melhores de lá de baixo dos barcos. E dava para ir a pé? Não. E o bilhete incluía a visita? Não. Então como queria ele que eu tirasse fotos lá em baixo ? Por 400 reais, cerca de 180 euros, teria os melhores cartões-postais na minha câmara.
- "E está cheia de sorte, porque o meu grupo vai sair agora?".
Por 400 reais, pensei, comprei bilhete de ida e volta de avião São Paulo-Foz, paguei as 4 noites de alojamento e ainda me sobraram uns trocos para comer. Voilá.
- Obrigada, mas não estou interessada! Boa viagem para si!
- Obrigada, mas não estou interessada! Boa viagem para si!
Carrancudo, virou-me costas. E eu fiz zoom in para o lado argentino...
Pôr-do-sol, um sumo de abacaxi por 6 euros, mochila e autocarro de volta. A casa da Laura é uma velha vivenda com quartos para alugar. O Guia Michelin diz que é o lugar mais acolhedor de Foz. Qualidade-preço! Na internet, vários turistas foram-se embora deslumbrados. Os comentários ali estão entusiasmados. Um deles, um alemão, nunca mais voltou. Casou-se com uma brasileira. Ali ficou ancorado em Foz.
A casa tem micro-ondas, frigorífico, televisão, e uma campaínha para anunciar quem chega. Um longo e enferrujado portão de ferro. Desliza.
- Pensei que não vinha mais!
Ela quer conversa. Eu quero descanso.
Vence o elo mais forte: - venha, venha, menina, você tem de ir ao Paraguai. Fomos lá hoje, olhe só o que eu comprei: batôns de várias cores, escolha um: eu ofereço...;
- Eu, eu....
_ Vá, não seja tímida, escolha um. Olhe este roxo na minha mão, demais. O preto, oh, não é mesmo preto; veja, comprei duas perucas, mudo sempre de visual; e óculos, olhe esta armação; e estes bolinhos, prove um...
- Eu, eu...
- Vá, prove! Não seja tímida...
Está nesta excitação, quer mostrar-me tudo o que é o mundo dela, talvez jogar cartas, ver televisão, ouvir-lhe as histórias do dia em que a aquela casa (a mesma onde dormirei, num quarto lá ao fundo) foi tomada por um bando de criminosos, fugidos da prisão de Mato Grosso do Sul. Fizeram-na de refém e ela, inabalável, como se nada se passasse, ia às compras de sorriso nos lábios...
- Eu, eu, só queria descansar um pouco, por favor, antes de jantar. Estou muito cansada da viagem e tive hoje demasiada informação para um só dia..
-Claro, mas você tem de ir ao Paraguai. É uma loucura. Você pega o ônibus, sai nas lojas, tem várias, dezenas, centenas, é só escolher, o que tem de eletrônicos, menina!!!...
É o paraíso fiscal, é a maravilha do contrabando; é o povo feliz com quinquilharia a atravessar a ponte da Amizade. E eu sozinha, na casa que já foi tomada por criminosos, sem mais hóspedes. À noite, tiros que vêm do rio Paraguai.
Isto é o mundo em Foz de Iguaçu, em Ciudad del Este, em Iguazu. A tripla fronteira é uma realidade que, nestes moldes, nenhuma ficção a tornaria tão normal.
Amanhã: passo a fronteira para Iguazu, mas é como se nunca tivesse saído do Brasil. Não há carimbos. Poderia dali evadir-me sem deixar rasto... É um bom lugar para nos escondermos. É um bom lugar para ir às compras, como se nada se passasse, enquanto guardamos em casa foragidos da justiça...
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sábado, julho 09, 2011
soy cambio,
turbilhão dos outros,
fogueira a arder da lenha quente dos dias
destes dias...
cera fina de pavio interminável
espelho invertido
renda
raiz
crime e castigo
metamorfose
noites brancas
palpitação
latino movimento de corpo
crioulizada voz,
destes dias
soy cambio, el olvido de los otros
desafino, adormeço
rendilho sonhos na geografia do que virá
país sem bandeira, voz sem hino
caixa de pandora no discurso dos teus sonhos, morfeu
vermelho e negro
auto da barca do inferno
branco e preto, preto e branco (sou ying e yang)
morte e vida severina
sou maktub, para voltar a reescrever
valsa lenta,
flor do mal
a dor,
metamorfoses (ovídio?)
a idade da inocência
sou, sim, no fim, um fahrenheit 451
anota-me: soy cambio, página 69
edição limitada
turbilhão dos outros,
fogueira a arder da lenha quente dos dias
destes dias...
cera fina de pavio interminável
espelho invertido
renda
raiz
crime e castigo
metamorfose
noites brancas
palpitação
latino movimento de corpo
crioulizada voz,
destes dias
soy cambio, el olvido de los otros
desafino, adormeço
rendilho sonhos na geografia do que virá
país sem bandeira, voz sem hino
caixa de pandora no discurso dos teus sonhos, morfeu
vermelho e negro
auto da barca do inferno
branco e preto, preto e branco (sou ying e yang)
morte e vida severina
sou maktub, para voltar a reescrever
valsa lenta,
flor do mal
a dor,
metamorfoses (ovídio?)
a idade da inocência
sou, sim, no fim, um fahrenheit 451
anota-me: soy cambio, página 69
edição limitada
Hilda, não sabe o que a espera
Nunca sabemos. E há algum tempo que não lhe falo, ainda que todos os dias haja uma voz adoçada que a ela me leva. Nem sequer tempo tenho tido para responder ao disparo de mensagens que dela me chegam todos os dias. (Confesso que desconheço como consegue ter tempo, embora o tempo do outro lado, ali, acolá, aqui, além, seja um movimento diferente).
Até postal cheguei a receber estes dias. Tinha a curva dos morros. E algo que suava a cidade maravilhosa, embora uma parte desses poros transpirados, nas texturas do papel amarelecido de sol quente das vitrines da papelaria, tivesse muito de Hilda. Por trás dele, unido por um clip, tinha outro: um carro antigo e letras rendilhadas: Havana.
- Van, eu fui, você acredita?
- Van, eu fui, você acredita?
E, agora, que Buena Vista Social Club está emancipado na vitrola, com violino, viola, saxofone e uma batucada Chan Chan respira, urge que lhe responda.
- Lembras-te quando dançaste de rum na mão direita, em rodopio, dizendo que eras Cuba, depois de seres Rio? Nunca conseguimos entender como alguém pode sê-lo. Ser uma cidade, Hilda? Ainda mais uma que não se conhecia. E imaginar é distorcer um pouco mais a realidade.
Todos olhavam e, claro, repetias que De Camino a La Vereda, eras borboleta, e que esse movimento de rodopio já tinha influenciado o tempo, e unido Rio a uma Cuba. E estávamos nós a ver-te girar, como mundo. Eras mundo. E ser mundo é ser quinto elemento.
Subiste as escadas. Era um bar. Bar que é casa de antiguidades. Estavas diletante, mas viajando no pó; e podíamos jurar que foste etérea. Que te fundias num Amor de Loca Juventud. Veio-te o delírio de te sentares em cima do piano.
- Olha Van : é português: "Eliodoeo D'Oliveira - Lisboa".
Aquilo ainda tocava, e por trás dos teus dedos, desafinados, mas em sintonia com mundo, que viver com essa intensidade é inveja certa à inércia, lia-se: "Rud IBach Sohn". Sabíamos lá o que isso queria dizer. Mas tu insistias que o mundo estava ali e não havia coincidências. Que rum era Cuba, tudo isto Rio e o piano Portugal. E que Portugal era todo o mundo, e todos os países em nós. Voltaste a rodopiar. Tiramos-te o rum e disparaste:
- Não façam isso. Eu não sei o que me espera!
E nisto ele veio.
-Señorita, me acompaña a dançar?
E foste a Cuba.
Eu sei: efeito borboleta!
Eu sei: efeito borboleta!
sexta-feira, julho 08, 2011
domingo, julho 03, 2011
quarta-feira, junho 22, 2011
Hilda, o amor em overdose, vazio!
Maria Clara casada com Vinicius, que gosta de Hilda, que gosta de Chico, que não ama Hilda, que Pedro ama, que Hilda não ama, amada por Carlos, amada por Sérgio, amada por Paulo, amada por André. E a vida e a gente e o cesto básico dos afectos, por aí mal distribuído, é um desperdício de Amor... não é Drummond?
terça-feira, junho 21, 2011
"Fernando Pessoa anuncia fusão de heterônimos"
Deu no "Piauí Herald"...
Estava eu sossegada da vida, no meu desassossego, proseando por terras de croniquetas tropicais, pensando em Veríssimo, até mesmo evocando Gil Vicente e resgatando Pessoa, quando um simples e inocente clique, descomprometido, despersonalizado, mas deliberada e pertinentemente competente e intuitivo, me levou às últimas novidades da economia literária (se é que isso existe). Não quis acreditar, mas com a crise, seria de esperar que um dia, também o mestre da heteronímia se rendesse ao mercado capital (pena capital - ai se Cesariny desconfiasse!). A culpa é da tmese, lê-se, e eu já temia que isto acontecesse. A partir de então, as obras serão uma raridade (às estantes, hereges!!!), e quando pensarmos nas máquinas, as máquinas, pensaremos num Pessoa mais contido, abreviado, uma amálgama de coisas e eus e é desta que o homem tem um chilique...
"LISBOA – Em pronunciamento que pegou de surpresa o mercado editorial, o poeta e investidor Fernando Pessoa anunciou ontem a fusão dos seus heterônimos. Com o enxugamento, as marcas Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro passam a fazer parte da holding Fernando Pessoa S.A. “É uma reengenharia”, explicou o assessor e empresário Mario Sá Carneiro, acrescentando que “de uns tempos para cá ficou claro que era preciso fazer um streamlining na nossa operação se quiséssemos sobreviver num ambiente poético cada vez mais competitivo.” Pessoa confessou que a decisão foi tomada “de coração pesado”, mas o seu CFO não lhe deu alternativas. “Drummond sempre foi um só. A operação dele é enxutinha. Como competir?”, indagou. O poeta chegou a pensar em terceirizar os heterônimos através de um call-center em Goa, mas questões de gramática e semântica acabaram inviabilizando as negociações. “Eles não usam mesóclise”, explicou Pessoa."
5# som da semana: mais filosofia itinerante: estado vegetal do país e (loucas) vacas magras
A bancarrota está ao fundo, como tapete do som, os pepinos, os tomates e as vacas loucas são munição para começar conversas, quando para alguns também se começa o dia. Temas quentes da actualidade, dias antes de o Governo começar a aquecer as cadeiras do executivo, sob o signo de uma tríade, a que se chama troika. Na camioneta, a caminho do trabalho, do mercado, da manhã a meio, há outra tríade que se junta, doutorada em vida dura, para maldizer o estado vegetal a que se resumiu o país, em tempos, parece de vacas magras, quem sabe, um pouco mais loucas.
#som da semana# filosofia itinerante: tomates, pepinos e vacas loucas, a troika na camioneta by vanessar
segunda-feira, junho 20, 2011
Hilda, filosofia itinerante
- Alguma vez você se sentou num ônibus e pensou que consegue imaginar essas pessoas que te acompanham com 10, 12, 15 anos? Menos até? Já? Me acontece frequentemente, Van. Você olha os olhos de relance, e faz esse exercício de descaracterização: tira as rugas, o peso do olhar, o branco cabelo se houver, as manchas de sol, as olheiras das mal dormidas noites, preocupadas, angustiadas; de peito apertado!
E, nesse instante, você se apercebe de que há sempre essas duas vidas: a que vivemos, e a que sonhamos. E o mais próximo que estamos do meio termo é quando a gente se desprende de quem tem sempre o dedo apontado para a geografia que traçamos. Você não acha?
Há sempre alguém a querer te anular. E você deixa. E quanto mais você deixa, mais difícil fica que alguém, um dia, te faça o mesmo exercício com competência para te ler, qual das vidas um dia você preferiu.
Há sempre alguém a querer te anular. E você deixa. E quanto mais você deixa, mais difícil fica que alguém, um dia, te faça o mesmo exercício com competência para te ler, qual das vidas um dia você preferiu.
E já alguma vez, nesse interlúdio, itinerante mental, selvagemente cerebral, olhando a rua, a gente, o povo, a calçada, e o relógio da igreja, em que você está com você, nessa fauna urbana, meio de gente, amarrada e desprendida a gente que você não conhece e imagina com 10, 15, 20 anos - apesar de muitas deles se olharem no espelho e não se reconhecerem (voltamos ao inquilino que paga um preço muito alto pelo uso deste corpo), pensou que o ideal seria se pudesse registar o pensamento, tal qual acontece?
Chegaria ao fim do dia, antes da cama, e, quem sabe, das olheiras que ganhari na seguinte manhã, depositá-lo numa caixa de memória. Plug in aos pensamentos do dia. Colocaria um tag ao que realmente interessa para fazer a triagem necessária: e depositaria o pensamento que importa nessa caixa. Como um filme. Tudo registrado. Tudo. Mesmo tudo.
Penso em tudo isto, Van. Talvez para que não me esqueça de pensar alguma coisa importante que me esqueci de registrar. Sim, penso em tudo isto, enquanto penso para quê, para quê, Van? Se o que realmente importa, em qual das vidas for, é o que lembramos. O que esquecemos, ou queremos, por ora, esquecer, não importa, em nada acrescenta, e com sorte, há-de ser o início de coisa boa! Tô indo, Van. Não esquece!
A Cronica andou por missas de burro, por belíssimos olhares de Pimenta
Ode ao burro, dois zurros, e um rio nosso que nos une
1. a missa, ó hereges!
Antes que as velas ardam até ao fim, zurremos. Ainda temos tempo! Antes que a santa ignorância tome conta de nós, excomunguemos o arlequim que zoa do portuense povo e lhe lança veneno perfumado: conspirações, sub-réptícias imposições, propaganda silenciosa, cobra dízimo para motores engrenados a ver-o mar, por estes dias, e um ai engasgado dos nossos bolsos (é, no fundo, um ui carpideiro antecedido de érre; reprobatório) LER MAIS
quinta-feira, junho 16, 2011
segunda-feira, junho 13, 2011
Fernando Pessoa. O primeiro português a entrar na casa da língua portuguesa
Porque há em mim um pedaço de ti; um velado e indomável desassossego, um estar e não estar desenraizado; de não ser do nada do que todos somos, de não ser do todo que preenchemos, do não ser a soma, mas a simples subtracção de uma certa inquietude;
porque há sempre em todos nós um narcisismo que sempre nos amarra, desata de ser,
porque há sempre uma hora morta onde nos detemos em chuvas oblíquas, dessas tuas iguais do descontentamento, escapando de nós;
da pátria que carregamos e não somos; da língua lógica;
da estreita mão que tinge em papel tristezas finas, porque aqui e agora quando visto à lupa atravessa-nos em picadas violentas, crónicas;
porque as reticências que imprimiste no branco, são receios evidentes dos ocultos pontos finais, antes das vírgulas, antes do traço pontiagudo preso no ponto de baixo: exclama!
Porque hoje farias 123 anos e ainda continuas cá; porque contigo aprendi a amar a prosa, através da poesia, nessa lenta e lenta a hora, lenta e sonolenta a lua se escoa...lenta, em seu ser!!!
© museu da língua portuguesa, divulgação![]() |
| © museu da língua portuguesa, divulgação |
quarta-feira, junho 08, 2011
isto é um gueto, ou sou eu que ando mal-humorada
O teatro do absurdo foi certamente criado a partir de uma certa teoria a que se chama circo mediático, com muitos histriões medíocres na mesma incubadora, sobretudo aqueles que não usam o nariz vermelho da justa máscara são, certamente, os piores da propaganda silenciosa.
Teatro do absurdo é este palanque diário de jornalistas a afagar jornalistas. Não entenderei nunca, nem há lógica que o legitime (e há um código deontológico a cumprir, embora se feche os olhos, se amordace, e se faça ouvidos de mercador com precisa e eficiente competência) que jornalistas entrevistem jornalistas, sobre o exercício do jornalismo. É muita areia para a minha camioneta e os grãos além de turvarem a visão é um velado atestado de incompetência. Quando os jornalistas são elevados a vedetas e nós, torpes e anestesiados, o aceitamos de grado leve e jocoso (uma coisa é reconhecida competência e valor, outra coisa é one man show), ou estamos muito amansados pela lavagem cerebral, ou andamos quietinhos a tentar sobreviver. Isto não é nada de novo, eu sei! E, se calhar, sou eu que ando mal-humorada. Isto passa!
segunda-feira, junho 06, 2011
Guerreiros de Selva; a Amazónia brasileira
A semana passada mais de 4 mil militares brasileiros andaram a simular uma guerra na selva amazónica. E para estes, treinados pelo rijo crivo da arte da guerra, um fio de lã pode ser uma questão de vida ou morte, um canivete pode ser tudo o que eles, guerreiros de selva, precisam para vencer a fome, a sede, o sono. Há vida além da selva amazónica, ou como sobreviver-lhe em 4 meses, nadando com jacarés, rastejando entre folhagem densa, com rasto de onça... Para ler aqui
Reportagem de Vanessa Rodrigues, com fotos de Pedro Mota, publicada a 4 de Junho de 2011 na revista Notícias Sábado, com o jornal Diário de Notícias
quinta-feira, junho 02, 2011
Carioquês, para principiantes
Sempre me avisaram:
- Van, cuidado que carioca é malandro.
Eu sempre levei os meus cuidados a sério. Malandragem bilateral comigo não funciona. Mas malandragem carioca tem um q.b. hiperbolizado no humor. Os cariocas são engraçados. A minha amiga Ana Paula sempre sabia dar a volta por cima, mesmo quando foi sequestrada e se tornou quase amiga do cara. Na hora de a matar, ele vacilou, não quis e a namorada ficou furiosa. A Aninha quase provocou uma separação conjugal. Sobretudo, depois, que estavam a tentar ultrapassá-lo na estrada e a Aninha começou a gritar, sequestrada:
Eu sempre levei os meus cuidados a sério. Malandragem bilateral comigo não funciona. Mas malandragem carioca tem um q.b. hiperbolizado no humor. Os cariocas são engraçados. A minha amiga Ana Paula sempre sabia dar a volta por cima, mesmo quando foi sequestrada e se tornou quase amiga do cara. Na hora de a matar, ele vacilou, não quis e a namorada ficou furiosa. A Aninha quase provocou uma separação conjugal. Sobretudo, depois, que estavam a tentar ultrapassá-lo na estrada e a Aninha começou a gritar, sequestrada:
- cara, vai, acelera que esse aí não sabe dirigir.
É. No dia seguinte, depois de os sequestradores terem roubado todo o dinheiro dela, levado o carro, ameaçado o dia inteiro que a iam matar, de a largarem para pegar o bonde em São Gonçalo, a única coisa que ela respondeu a quem lhe perguntou se ela estava bem foi:
- Gente, vocês não imaginam. Faz tempo que eu não ia lá. São Gonçalo está tão bonitinho! Moderno!
É, a Aninha é assim. Dá sempre a volta por cima, espontaneamente. Mas, com o tempo, apercebi-me que isto tem muito de carioca. Carioca é malandro, mas é muito engraçado. Carioca é um stand-up-comedy ambulante, parado no boteco, na esquina, na praia, no calçadão, no morro, no bonde, ou na van. (É, não eu, mas a carrinha em "ingrês" mesmo, assim, oh: van).
É isso. Comprovei a tese de todas as vezes que lá fui, mas tive a certeza que a vida dos cariocas é uma comédia (e não por folhear mais de perto as deliciosas crónicas do Luís Fernando Veríssimo) em Belém, em 2009. (É: a Amazónia está quase a fazer 2 anos em Agosto).
Engenheiro Florestal. Maneiro! Cara engraçado contando história: tipo carioquês!
Dia do amigo secreto: trocamos prendas com um grupo de amigos. Quase-Natal. Ele não conhecia a pessoa a quem tinha de dar prenda: comprou um pólo básico-preto. Mote para a conversa: Shopping. Fazia tempo que ele não ia lá. A última vez fora no Rio, com a mulher.
Ela: Oi, amor, a gente se encontra no final do dia no shopping, tá?
Ele: Tá bom meu amor. Comemos alguma coisa por lá, então.
Ela: Aquele do costume tá? O shopping do Bota-Fogo.
Ele: Tá bom!
(Ele pega no carro. Ruma ao shopping. Senta-se no banco e espera. E espera. E espera. E espera...)
Ela: Oi amor, peguei muito trânsito, mas estou chegando. Onde você está?
Ele: Na entrada, amor. Logo no banco da entrada, do costume.
Ela: tá bom. Em cinco minutos te encontro.
(Ele continua à espera. Espera. Espera. Ela liga)...
Ela: Amor, onde você está agora?
Ele: Ué? Na entrada!
Ela: É mesmo? Não te encontrei.Pera, vou voltar para trás!
Ele: ok (e continua esperando)
Ela liga, de novo.
- Amor, cadê você?
- Então, tô na entrada no banco da frente. Tem uma loja da C&A aqui do lado. Tô vendo biquinis em promoção.
- C&A? Mas o shopping do Bota Fogo não tem C&A. Isso é no shopping da Gávea!
(Ele engole em seco. Tem consciência que se enganou no shopping, agora, mas continua segurando)
Ele: - Não pode ser. Você tem certeza meu amor?
Ela: CARDOSO! ABSOLUTA. Você está no shopping errado. Nunca ouve o que eu digo.
Ele: Ai, amor, tô indo!
(Ela espera, espera, continua esperando, enquanto ele tenta que o carro dê uma de jactinho privado, voando sobre os céus cariocas...Chegou!Encontrou-a duas horas depois do combinado!)
Ele: - Não fala nada. Toma o cartão de crédito!
quarta-feira, junho 01, 2011
Mulher é fogo*
Mulher é fogo. Lento se a brisa estiver forte. Inflamado se a paixão lhe arrebatar o peito. Metafórico se as curvas generosas do corpo deixarem os outros em estado de Pavlov, com aquela pinga boba e involuntária no canto da boca a que se chama: baba, ou em delírios (porno) gráficos como pimenta (arghh) apurada por saberes indianos (ou o kama sutra não fosse...).
É fogo é. É fogo talvez um pouco mais se ela fumar. Se fumar é fogo de inferno. Que me perdoem as mulheres que não fumam, mas mulher que fuma é a perdição do capeta (e dos programas de apanhados; e dos estudos de caso dos analistas).
É fogo, porque nunca sabe onde anda o isqueiro.
Os homens são mais pragmáticos nisto: bolso da calça e pronto. Mas mulher sempre precisa de um GPS para encontrar o isqueiro; um detector de metais ajudaria: um chip, um alarme, um bip, um íman, um fio preso ao pulso; é que nem com cor garrida e estrambólica a coisa chega lá.
Os homens são mais pragmáticos nisto: bolso da calça e pronto. Mas mulher sempre precisa de um GPS para encontrar o isqueiro; um detector de metais ajudaria: um chip, um alarme, um bip, um íman, um fio preso ao pulso; é que nem com cor garrida e estrambólica a coisa chega lá.
Puxa, mesmo. Mulher é fogo, sem isqueiro. Nós percebemos sempre quando ela puxa do cigarro e põe a mão na bolsa: começa devagar num bolso, vem o outro bolso, a bolsa, a carteira da carteira; e, quando nos apercebemos, já tirou quase tudo o que a bolsa tem e continua fogo, sem lume e o cigarro na ponta do lábio, entediado ("vai-me matar, ou não vai me matar?"; Isto sim é tortura de cigarro).
Ela continua: já vemos a cuequinha lavada, o soutien, o batom, dois batôns, três, quatro (afinal quanto batom a mulher tem?: deve ser como a teoria do isqueiro); pinça, tampão, toalhetes de bebé, livros, cadernos, espelho, guarda-chuva, mais outro livro (por isso é que a bolsa fica pesada, heim?); a conta do ano passado do jantar com o ex; a conta de há dois anos de jantar com o ex-ex; a conta de supermercado; papel de cigarro; vem tudo, só não vem o isqueiro.
Fogo, caramba! Até que, quando já se pode gritar o nome dentro da bolsa, ecoando por fibras e costuras entediadas com tanto mexe e remexe, eis que podem surgir dois estudos de caso para bons observadores, depois de serem hipóteses:
1. A mulher não encontra isqueiro algum (a. compra outro; b. pede alguém na rua, ou perto; ou, ainda, dependendo da hora do dia e da intenção há ainda a hipótese c. que já lá vou mais adiante);
2. Encontro o primeiro isqueiro, o segundo, um terceiro e talvez um quarto (de tanto nunca saber dele acaba tendo suplentes), ouvindo frases como:
- Mas, afinal, quantos isqueiros você tem?
- Mas, afinal, quantos isqueiros você tem?
(Ela responde quase se sentindo ofendida como se fosse a coisa mais natural do mundo)
- Eu, sei lá, uns dois!
(E faz questão de mostrar; mal ele sabe que há mais dois e, com sorte, ou azar, a caixa de fósforos do motel com o ex-ex-ex; ou você terá pegado do bolso do casaco dele? Não se lembra!)
É isso, mulher é fogo, mas no fundo, eu acho que este fogo todo, este estudo de caso em volta da bolsa tem segundas intenções. Analisem bem o cenário ao redor, quando virem a mulher puxar do cigarro, deixá-lo na boca e começar o périplo explorador (qual Jacques Costeau) pela CARTEIRA. Acho que toda a mulher espera pelo momento certo, na esperança involuntária de que um dia ELE chegue(o príncipe encantado até aos 40 funciona; o capeta a partir daí, porque cansamos de esperar por homem romântico) e das duas uma (eu sei que é brega, mas a cada momento a sua história):
- Come on baby, light my fire!
Ou, então, claro, a hipótese cê de há pouco (cê de "chaveco", "cantada";)
- Olá, dás-me lume?
tssssssssssssssssssssssssss............
É por isso que eu...
Experiências religiosas encolhem parte do cérebro (Oh, meu Deus!)...Um atrofiamento do hipocampo. Auch! Na Scientific American (o que será que eles ganham com isto?)...
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