domingo, novembro 07, 2010

O mundo à porta de casa

Podemos sempre ter o mundo à porta de casa e não o percebermos de imediato. Acontece-me, frequentemente, achar que o Porto está mais cosmopolita do que nunca, e que o mundo, as pessoas, as etnias, as línguas, a multiculturalidade, nunca tiveram tanta identidade, e nunca estiveram tão dispersos, como nunca. É o meu lugar de referência, apenas, um pedaço dessa ideia de que o mundo está nos passeios das ruas, basta olharmos com atenção. A ser verdade, a meu ver, ao meu olhar, o mundo está em todas as cidades, em pequenas aldeias, porque somos gente que sofre da mesma maneira. 

Mas é um erro comum e pessoal de contemporaneidade. Não podemos analisar a contemporaneidade fazendo parte dela assim, com esta efervescência como pastilha de Vitamina C que tomamos para ver se a gripe vai (foi o que fiz hoje de manhã, daí a pertinência da palavra). Ou seja, é um erro porque as temporalidades dão pequenos saltos, mas os problemas, as dúvidas, as preocupações são demasiado semelhantes – e com eles as contemporaneidades. Então, ocorre-me que, ciclicamente, o mundo, a vida, o dia-a-dia, as pessoas (e não são necessariamente a mesma coisa) pelo movimento inevitável do fluxo da gente de um lado para o outro, são homens e mulheres sem fronteiras e estiveram desde sempre, desde o boom para seres que respiram e tomam vitamina C efervescente, com o mundo à porta de casa. 

Então, os elementos mínimos de nós, gente, passam sempre à nossa porta: judeus, brasileiros, portugueses, franceses, muçulmanos, libaneses, rock-billies, imitações de Elvis Presley, Emos, Hello Kities, punks, espanhóis, nordestinos, católicos, evangélicos, swingers, vegetarianos, zen budistas, cabalistas, sportinguistas, boavisteiros, actores, actrizes, jornalistas, jornaleiros, homens-do-lixo, moradores de rua, loucos, taxistas... 

Às vezes, penso nisto, e volto a esquecer-me. Como alguém já se deve ter esquecido por mim, noutra contemporaneidade. Relembro-me de cada vez que faço o trajecto inevitável da Avenida Paulista até à porta de casa e me detenho no já ritual cliché, entre amigos, para explicar onde moro, e para explicar a Rua Augusta, como síntese de São Paulo e, no fim das contas, como metáfora sobre o Brasil e da co-existência das raças, tribos, ou lá o que isso seja. O ritual para chegar a casa, paredes-meias num perímetro de 100 metros é este: primeiro passo a Igreja Evangélica, depois o Vegetariano, Cinesesc (sala de de bom cinema alternativo), o bar de swing Nefertiti....e eis a entrada do prédio onde moro. 

Sucedeu que hoje apercebi-me que, no fim das costas, somos todos o mundo, e estamos todos à porta uns dos outros da mesma forma, porque somos todos gente com dúvidas, a tentar encontrar a melhor forma de passar por esta vida como se ela fosse um pouco a nossa casa.  

terça-feira, novembro 02, 2010

Dizem que a forma como escrevemos tem muito a ver com a forma como sentimos. Com a forma como olhamos. Com a forma como caminhamos. Eu sou um bocado sôfrega-contemplativa. Tem dias! E tem dias em que não vejo, faço por não sentir nada, não olhar nada. Só caminhar, para que a janela da cabeça se abra. Caminhar. E, mesmo que não queira, com tanta a gente a roçar o mesmo ar que respiro, lado a lado, eu invento uma outra forma de sentir, ver, olhar. Não invento, faço de conta, para ser rigorosa. Esforço-me mais um bocado para tentar lá chegar.

Sinto, então, o que está dentro da caixinha do pensamento. Transporto-me para lá e tudo ao redor se torna alheio, a não ser que aconteça alguma coisa de maior, que me obrigue a sentir, a ver e a olhar, saindo da caixa da cabeça, para a caixa do que acontece, e onde estou na primeira fila, como fã atenta da minha vida. Nem sempre escrevo o que realmente vejo. A auto-censura silenciosa é uma coisa lixada. A auto-censura insconsciente, uma tirana, é uma coisa obnóxia. Um homenzinho que esfrega as mãos, arregala os olhos e dá uma daquelas risadinhas, em falsete, com os dentes arreganhados. Já estou ouvi-lo, admito. É como quem diz: 
- Já te estou a cortar detalhes das mensagens subliminares que não vês, não sentes e nem porás nunca os olhos em cima. Caminha lá, então!

Eu caminho, vou. A caixinha está lá. Quando quero voltar a ver o que, realmente, acontece à minha volta, penso que tenho de escrever aquilo tudo, tão sôfrego-contemplativo. Chego a casa, sento-me e deve ser defeito de ter estado na primeira fila como fã do filme da minha vida, mas em fast-forward. É um filme de uma vida inteira. Não podemos nunca lá voltar, com rigor. Não consigo transcrever um frame do que vi, senti, olhei. Caminho, portanto. Contento-me em caminhar...  

terça-feira, outubro 26, 2010

sexta-feira, outubro 22, 2010

terça-feira, outubro 19, 2010

O meu novo flirt chama-se...

Obrigada A.

FALA COM ELA - RADAR

"Tudo o que ela não teve coragem de dizer, pintou-o..."

Entrevista com Paula Rego



Taxar o Amor 
(Sinais: Fernando Alves, TSF)

quinta-feira, outubro 14, 2010

Por falar em Tropa de Elite 2






























© Vanessa Rodrigues
Rio de Janeiro

quarta-feira, outubro 13, 2010

O mundo, em imagens

Revista Digital de Fotografia Documental 7.7

Traz 5 ensaios fotográficos 1. sobre um culto sexual chamado os Kaotians na Austrália;
2. Comunidades remotas na Califórnia atrasadas pela Depressão de 30;
3. Os palestinianos;
4. Selecção de Illinois de cadeira de rodas;
5. Selva peruana

terça-feira, outubro 12, 2010

TROPA DE ELITE 2

Está a preparar-se para ir ver de novo este TROPA DE ELITE 2 porque é muito bom. Inteligente, com punho cerrado de vários socos no estômago. Um sistema polvilhado a estilhaços de feridas crónicas e seus tentáculos onde a palavra violência é só um eufemismo. Um aprendiz de eufemismo!

segunda-feira, outubro 11, 2010

Mesinha-de-cabeceira

A Louca Lucidez!

Homem Ultra Mud.Erno [15]

É ditirâmbico...

Apologia dos Sobreviventes e o início de um inferno implacável para fugitivos

De imagem inalcançável, suspensa, longe, detida na linha imaginária. A parede pintada descascada. A janela aberta, trespassada de vento, areia, silêncios. Ela, sentada na cadeira de plástico de alpendre, lê “A invenção de Morel” de Adolfo Bioy Casares. 


Descansa as pernas na outra cadeira de plástico, onde lhe repousa o mundo. Todo o mundo está naquelas pernas, com a quilometragem do que viveu em caminhadas, ainda que nem sempre as tenha movido de si para as percorrer. Silencia-se. Há a janela. Se estivesse numa deserta ilha poderia estar mais consigo do que quando a ilha em si se desertifica. Seca. Nunca seca. Muda-se. Que ilha é agora, não saberíamos dizer. Quantas ilhas pode ser um homem, não saberemos nunca.

Repousa o livro na mão direita, agarrando as páginas amareladas com o polegar. Mantém a abertura com a mão esquerda, mais solta. E, talvez, menos vivida. Uma mão que é menos usada, não pode ter vivido mais, mas com certeza poderá afagar a outra quando se sentir cansada. A vida é, raramente, ambidextra. Raramente. O fio ténue do balanço exacto não é fórmula que se saiba decifrar. 

Leu o prefácio de Borges. Cansou-se. Leria sobre Casares depois, no final, quando já tivesse tirado as ilações pessoais, para poder ler o que os outros escrevem sobre outros e que, por mais brilhantes que sejam, não deixam de nos turvar os sentidos. Lia em inglês, pensava em inglês, mas não sabemos no que se transformou depois o pensamento. Leu isto e deteve-se a olhar a imagem inalcançável, turvada, pela garoa do fim da manhã.

“I am writing this to leave a record of the adverse miracle. If I am not drowned or killed trying to escape in the next few days, I hope to write two books. I shall entitle them Apology for Survivors and Tribute to Malthus. My books will expose the men who violate the sanctity of forests and deserts; I intend to show that the world is an implacable hell for fugitives, that its efficient police forces, its documents, newspaper, radio broadcasters, an border patrols have made every error of justice irreparable”.





segunda-feira, outubro 04, 2010

Uma Favela#

O destino, ou Zadig

“O grande mago começou por propor esta pergunta: ‘Qual é de todas as coisas do mundo a mais longa e a mais curta, a mais rápida e a mais lenta, a mais divisível e extensa, a mais desdenhada e lamentada, sem a qual nada se pode fazer, que devora tudo o que é pequeno e vivifica tudo o que é grande?’ (…)
Uns disseram que a chave do enigma era a fortuna, outros a terra e outros a luz. Zadig respondeu que era o tempo.
- Não há nada mais longo, acrescentou, pois ele é a medida da eternidade; nada é mais curto, pois ele falta a todos os nossos projetos; nada é mais lento para quem espera, nem mais rápido para quem goza; estende-se até o infinito em grandeza, divide-se até o infinito em pequenez; todos os homens o desdenham e todos lamentam a sua perda; nada se faz sem ele; faz esquecer tudo o que é indigno de posteridade e imortaliza os grandes feitos.
A assistência admitiu que Zadig tinha razão.”


Zadig, conto filosófico de Voltaire

domingo, outubro 03, 2010

Toda a coincidência será a verdade

Passei a tarde no hospital. A dor de ouvido não passa, piorou, a garganta está cúmplice das ligações enfermas de otorrinolaringologia pessoal, e a febre tomou conta deste corpo. Com a espécie de folga que me saiu na rifa durante a tarde de hoje, fui até ao Hospital das Clínicas, a arrastar este corpo de metro, chuva e frio, rabugenta por ter de passar o que me resta de descanso numa sala cinzenta de hospital, sozinha. Eu própria não estava com melhor cor. Duvido se estaria no mundo dos vivos. A língua agarrou-se à geografia da febre e os meus olhos vermelhos não enganam o mais desprevenido dos médicos.

-A senhorita tem dormido bem? (Não, claro que não, não se nota?)

Devo ter esperado umas três horas até ser atendida. Sentei-me, abri o livro e ouviu-se:

-"Você pode calar a boca. Desde que aqui cheguei você não parou de falar. Cale-se, Cale-se, Cale-se".

As palavras ecoaram na sala quase vazia onde esperei por quase três horas. Estes foram, talvez, os centésimos de tempo mais animados naquela sala cinzenta. Olhei de esguelha: vi uma mulher a levar soro, envergando uma bata de médica. A enfermeira que ela mandava calar saiu da sala e mandou o recado para alguém:

-"Você se importa de ir ver o que se passa com a médica lôquinha? Ninguém merece".

Tirei o meu olhar de esguelha, enquanto a médica "lôquinha" já me fitava.

Olhei para a capa do meu livro e não tive certeza se não seria tudo fruto de uma alucinação pessoal, imposta pela doença, e aquilo não passava de um filme imaginário que o meu cérebro me infligia: "Diário do Hospício" e "O Cemitério dos Mortos" de Lima Barreto. Foi este o livro que atirei para a bolsa antes de sair de casa, como paliativo para a espera que já sabia sair-me na bola de cristal desta tarde modorrenta. Foi este o livro que folheei e deitei os olhos vermelhos, enquanto esperava - e o ouvido latejava, e a febre arrepiava o corpo.

Então, pensei que tudo isto era um sonho. Outro. Ou um pesadelo, que é um sonho mais pesado. Depois de quase três horas ouvi o meu nome ser pronunciado no corredor, ecoando.

-Diagnóstico: Está com uma infecção viral no ouvido e na garganta, por isso a febre. Muitos líquidos, anti-inflamatório, e descanso.

Não consegui discernir se era verdade ou mentira o que ouvia. Outra alucinação? Mas só sei que o pesadelo começa aqui. Descanso: só depois de segunda de manhã. Vou dormir, a ver se a dor passa, para amanhã fingir que estou bem, que nada se passa e que a minha voz estará maravilhosa e, quem sabe, os olhos menos vermelhos. Quem sabe poderei fingir que tenho outra carcaça, ou que outra Vanessa, sem dor, habita aqui.

terça-feira, setembro 28, 2010

segunda-feira, setembro 27, 2010

"O tempo, medida do movimento"



"Queres que eu aprove a quem diz que o tempo é o movimento de um corpo? Não, não aprovo. Sei que não há corpo que não se mova no tempo: tu mesmo o afirmas. Mas não acredito que o movimento de um corpo seja o tempo; isso nunca ouvi, e nem tu o dizes.


Quando um corpo se move, sirvo-me do tempo para medir a duração de seu movimento do começo ao fim. Se não vejo o começo, e percebo seu movimento sem ver seu fim, só posso medi-lo do momento em que observo o corpo mover-se até o momento em que já não o vejo.

Se o vejo por muito tempo, apenas posso afirmar que a duração de seu movimento é longa, mas não posso dizer quanto é longa, porque só determinamos o valor de uma duração comparando-a. Dizemos, por exemplo: “isso durou tanto quanto aquilo, ou essa duração é o dobro daquela”, semelhantes. Se podemos notar o ponto do espaço onde se inicia um movimento, e o ponto de chegada, ou suas partes, seele se movesse em círculo, poderíamos dizer quanto tempo levou para ir de um ponto a outro o movimento do corpo ou dessas partes.

Assim, o movimento de um corpo é diferente da medida de sua duração; que não vê, pois, a qual dessas coisas se deve chamar de tempo? Se um corpo se move de forma irregular, e outras vezes se detém, ora, é o tempo que nos permite medir, não apenas seu movimento, mas também seu repouso, e afirmar: “Ficou em repouso por tanto tempo quanto em movimento – ou qualquer outro intervalo que tenhamos calculado ou estimado aproximadamente”. O tempo não é pois a mesma coisa que o movimento."

"Confissões", Santo Agostinho
A Primavera chegou tímida a este lado de cá, o Outono do outro lado de lá. As estações recomeçam e chegam para nos relembrar. Chove, ainda chove. A lua: fase minguante convexo. Talvez esteja cheia. Talvez haja silêncio.

Poema que aconteceu - Carlos Drummond de Andrade


"Nenhum desejo neste domingo 

nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.
A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse."

Carlos Drummond de Andrade (Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, 31 de outubro de 1902 - Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987) - Considerado um dos maiores poetas brasileiros, autor de uma vasta obra poética, que também inclui contos e crônicas. Morou no Rio de Janeiro a maior parte de sua vida, onde, foi funcionário público. Foi traduzidos para vários idiomas e é uma referência na poesia brasileira. Nesta semana, poemas do seu primeiro livro Alguma Poesia - 80 anos da sua primeira publicação.

sábado, setembro 25, 2010

mais um anexo do cérebro

A Revista Literária "The Paris Review" disponibiliza arquivo de entrevistas com escritores, dos últimos 50 anos...

terça-feira, setembro 21, 2010

sexta-feira, setembro 17, 2010

inquilino

Somos inquilinos de nós e, às vezes, pagamos um aluguer demasiado alto pelo uso deste corpo.

terça-feira, setembro 07, 2010

Para que serve o horário eleitoral: os tais (medíocres) 15m de fama

A mulher do padre fala por ele. “Política abençoada, começa em casa. Por isso eu, Mara Maravilha, conto com o seu voto para o meu esposo servo de deus”. Diz que o marido, puro evangélico, não bebe, não fuma, é um bom homem. Ele não fala, sorri, só sorri, e mais não se diz, para manter a compostura, embora, lá no fundo, já se a tenha perdido. Afinal, por trás de um grande homem, sabemos, está uma grande mulher. E por detrás de uma grande mulher, quanto mais não seja a avaliar pelo tamanho do silicone peitoral da miúda pode, também, estar uma pêra. Isso mesmo, leram bem: uma pêra. (E não nos estamos a referir ao formato da mama: isto é sério, muito sério). “Sou a mulher Pêra. 1911 para deputada Federal”. Outra colheita.

E como a política precisa de fruta, de muita fruta, já não bastavam os “laranjas” da corrupção no senado (perguntem ao Renan Calheiros do PMDB), a Pêra, convenhamos, pode ser um bom partido, até porque, é a produção frutífera com menos expressão no Brasil. Precisa ser incentivada, portanto. Só que em matéria de fruta a coisa engrandece, fica mais dura e chega a ter pevides: a "Mulher Melão" é candidata a deputada estadual no Rio de Janeiro. O silicone foi generoso. O programa eleitoral nem por isso: se ele existisse. Há ainda a Mulher Melancia, mas era fruta a mais. Não se candidatou.

Menos doce e sexy, Luciana Costa parece um bulldog a rosnar palavras, enraivecida : “combato drogas e pe-dó-fi-li-a, Paz na Família e quem me ensinou foi o Éneas; Deputada Federal, 2252”. Acho que aqui levamos um susto, dos grandes, não percebemos se com toda esta agressividade ela nos quer dar um raspanete (onde raio está o comando da TV para mudarmos de canal?). E o Éneias, meus caros, é um senhor de barba displicente (juízo meu), com óculos fundo de garrafa, que abana o "corpixo" para a esquerda-e-para-a-direita sempre que repete o número eleitoral seguido de um objectivo: “1956 é trabalho”, e por aí vai. Mas o melhor da paródia (e olhem que isto é muito a sério) é o “Tiririca, pior que tá não fica”. A coisa aqui fica preta, ou melhor amarela, pois o sorriso inicial que se esboça ao ver aquele homem (?) vestido de palhaço (se não é, parece: outro juízo meu) a repetir um-pior-que-tá-não-fica é matizado com as nuances da gema de ovo.

A coisa piora aqui, enquanto abana o cabelito loiro: “Sou candidato a deputado federal. E o que faz um deputador federal? Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto”. Não sabemos bem, se é caso para rir, ou chorar. Talvez seja o caso para ele se aconselhar com Ronaldo Esper que quer “agulhar os políticos para mudar Brasília” Vamos lá: "rewind" no vídeo. Enquanto ele diz “a-gu-lhar" levanta as mãozinhas em forma de garra como se fizesse um show de dragqueen. (Falta o “rowwww! Ficaríamos mais felizes com o rowwww felino")” E não percebemos muito bem onde ele quer chegar com aqueles óculos de sol de armação bordô e um duvidoso fato castanho, ornado com uma não menos dúbia gravata-puída. Será ele fã do Crepúsculo? Os vampiros também anda aqui?

Andam, sempre andam de outra forma. Numa forma mais Zeca Afonso. E a política brasileira também é isto: as figuras da comédia (amadora) que falam muito a sério, enquanto usam o horário nobre para brincar ao sem-noção. Gozar com a nossa cara. Se isto é democracia, percebemos: é um perverso sistema que permite que gozem com a minha inteligência. E eu nem vou votar. No fundo, esta velada falência democrática, é-o o ano todo, de outra forma, com mais retórica e gente mais bem vestida. 


Há umas semanas, o Estadão trazia a seguinte banda-desenhada: um casal em pé, especado em frente à TV: lia-se as palavras de um político que prometia roubar, lixar-lhes a vida, aumentar a corrupção e os impostos. A lista era mais completa. No final, o casal vai embora e diz: “Vou votar nele, ao menos ele não mente.” 

sábado, setembro 04, 2010

sexta-feira, setembro 03, 2010

Fechou o boteco para balanço, que é como quem diz que o expediente terminou agora.

Julie London...You're right!

quinta-feira, setembro 02, 2010

A culpa é do gatinho, da banana e outras (nada) importantes banalidades Será que a poesia é Literatura, mesmo?



A alquimia é uma coisa complicada, pessoal, intransmissível, mas serve para explicar muita coisa. Ou nada. Porque o nada tem sempre uma boa dose de tudo, que se dissipa por aqui como vento, ar, podendo o ar gasoso, que por vezes exala, paira e não se vê, sufocar. E se a alquimia é pessoal serve para o espanto, a indignação, a transformação das emoções em sentimento e para suportarmos melhor a vida.

Há emoções que de tão pessoais são um todo colectivo: todos sentimos o mesmo, em diferentes cadências e intensidades, com maior ou menor peso, mais ou menos moderado, mais ou menos importância, mais ou menos reflexão. Choramos, berramos, esperneamos, sufocamos, atiramo-nos ao chão, achamo-nos feios e incapazes, inferiores, desgastados, lentos, nadas, pequenos nadas. O sentimento é o mesmo. A intensidade é que oscila.
A noção de nós aqui-e-agora. Ele vai por esse caminho, sem atalhos, mas nunca anda por lá.

Ferreira Gullar. Lançou, ontem, na Livaria da Travessa do Leblon, no Rio de Janeiro, “Em Alguma Parte Alguma”. Não publicava há onze anos. “A poesia não tem lugar no mercado”. Foi “Abduzido”. “busco/tateando/no escuro/o interruptor da lâmpada de cabeceira/e/ao acendê-la/deparo-me/comigo/em frente a mim/como se fosse um outro:/estarei noutro?/(e de pijama/o mesmo pijama verde-grama/com que durmo/em minha cama)/e/apa/go/a/luz/na treva/cismo/que/esse eu-mesmo-outro/habita/agora/abduzido/um abismo/(bem rente à cama/do quarto de um hotel/na capital paulista”.

A alquimia dele é a poesia. “Ajuda as pessoas; dá uma alegria às coisas”. E as coisas é isto. As coisas é a divisão da casa do nosso encantamento. É-o. Não são. Porque as coisas são singular e o plural das coisas só serve para equívoco. Pode ser isto. Bem que podia ser isto. E agora começamos a entrar no mistério da vida. É pessoal o que lhe vai lá dentro, mas podemos tirar lições – com sorte, uma receita biológica. Com sorte, embora o azar paire neste texto. Mas se azar for a descrição de sorte e sorte a descrição de azar no nosso mundo pessoal, está tudo bem. Fica sempre tudo bem.

O homem, o poeta, a intermitência poética de quem aqui se fala não tem receitas. E, embora, as coisas que lhe ocupam a cabeça sejam universais, não há coisa mais pessoal do que a anarquia dele – tão nossa e lugar-comum. “Quando a indagação surge é como se começasse a pensar pela primeira vez e isso é mais importante do que qualquer coisa que eu escreva”. O mais importante. Nunca sabemos o que é mais importante, porque a hierarquia das coisas não existe. É singular, lembram? Claro. “Será que a poesia é literatura mesmo, ou é outra coisa?”

Talvez outra coisa. Talvez poesia. Talvez Literatura. Talvez apenas palavras e alquimia. “Ela é tão Minerva. É assistémica. É uma outra coisa.” Mas qual foi a pergunta, mesmo? A Literatura é poesia? Não: a Poesia é Literatura? “O Poeta resiste a ser adulto e isso é verdade. A criança desobedece e não vê o mundo com métodos”. Voltamos a ser criança com a Poesia. As bananas apodrecidas, o gatinho, os dragões, as aranhas na pia – mas já lá voltamos. Bananas apodrecidas. Que coisa tão banal! Que coisa tão Gullar!

A vida correndo, o universo explodindo, as estrelas brilhando, enquanto as bananas apodrecem. Banana 3, Banana 4, Banana 5. Os poemas. As bananas. “O mundo está no sistema solar e as bananas estão lá” . Como se algo ali permanecesse vivo no exacto apodrecimento. “O Universo nasceu, houve um princípio, ma antes dele havia o nada e não pode haver o nada – não pode haver o nada. Não consigo conceber que não exista nada. Big Bang? Tenho horror ao universo porque é grande demais. Com ele, a gente vira nada de nada”. Só vale pelo seu espantoso vão silêncio. “Não quero saber do universo, quero saber de gente”. Do seu ambiente íntimo, de quanto dura o seu gatinho, e de quantas bananas vão apodrecer ainda nas páginas de seus livros. “O poema é uma invenção do lugar que não pode ser dito. Na hora de escrever, eu reduzo o grau de probabilidade do que há em mim”.

Química interna. Começa a palavra condicionada, que vem. “O resto é uma mistura. A vida é feita de acasos. E o poema é uma mistura de acaso com necessidade”. Necessidades, acasos de alguma parte alguma, de algum Gullar Nenhum, de Gullar de alguma parte. “Eu vivo numa cidade de 30 amigos meus, Não conheço a maioria das pessoas” E não importa. “Ferreira Gullar, famoso eu não sei quem é”. Ouviriamos do mendigo. Depois vem o Amor. A alquimia da Poesia. Parte vertida de Amor. “Como de Machado de Assis para Carolina, que estava morta.” E o que é a poesia hoje (se é que foi alguma coisa algum dia)? “Eu não sei responder”.



Morro da Providência, Rio de Janeiro


O romance como recriação do tempo e da memória

Na máquina de escrever do Luciano Trigo a entrevista com a escritora brasileira Christiane Tassis, em slow motion... E olhem que isto é o Melhor do Inferno



O inquilino II


Não devia continuar com isto. Estou a tentar amarrar os dedos, mas eles ganharam vida própria. E quando os nossos membros ganham vida própria a rotação voluntária pode ser mais longa e libertadora do que imaginamos. Não estou certo de que deva fazê-lo. Os dedos armadilham-se nas teclas e vertem neste écran branco de nada a quase-metade do pensamento que entrou em combustão na máquina cerebral. 

A máquina cerebral. É isso. Quase-metade: isto de acharmos que a linguagem traduz fac simile aquilo que pensamos é uma grande e retumbante gargalhada. Nada: não traduz absolutamente nada. Apenas roça uma probabilidade aproximada do algo de parte que se passa nesta maquineta impregnada de defeitos de fabrico, à nascença, com tendência certa de piorar com o tic-tac do tempo externo. Sobretudo exposto ao tempo externo. O suor também ajuda. Vai degradando com as bofetadas sociais, as hipocrisias, o desgaste natural da falta de amizades verdadeiras, da falta de amor, até faltar o sexo higiénico. Pelo menos, o higiénico. Descartável. Pode faltar o sexo higiénico. 

A vizinha debaixo nem deve saber o que é isso. Eu soube-o muito tempo. Até à abstinência viril. Temos sempre de dizer que é abstinência viril quando já não nos querem. O resto vocês sabem. Ao resgate voluntário para este compósito asséptico das divisões. Descartável. É. Até as putas me começarem a rejeitar no asco sólido que pode ser a decisão alheia. Como dependemos do asco sólido da decisão dos outros. Depois, as erosões internas: como nos fazemos mal, porra! É, quando pomos tudo a girar, esta máquina entra em elipse. Trata-se de uma mecânica e química alquimia que gorgulha, engrena, circula, gira, amortece e enferruja. 

Como pode enferrujar!: até o óleo biológico deixar de ser suficiente para nos valer na hora de friccionar os freios necessários para o derradeiro crash. Mas bem sei que devia parar, agora, mesmo de escrever. Vou parar. Eu vou parar. Continuar pode sempre parecer forçado. E quando forçamos o mecanismo de nós, já estamos a trair o veio escorreito da vida, que é o mesmo que dormir com várias amantes ao mesmo tempo, ansiar, asfixiar o peito, multiplicando fingimentos. Multiplicamos sempre fingimentos por solidariedade. Elas sabem que minto. Fingem acreditar, mas tudo fica bem. É agora, preciso de parar. Há isto que não me deixa: eu preciso de testemunhas. É por isso, que os dedos vão, quem manda é a maquineta cinzenta. 

O processo é simples: há o espanto. A indignação. A inquietude. Tudo começa com a inquietude. O peito aperta, prende, como se o agarrassem a seco e fosse espremendo um pano lá dentro, devagarinho. Passa para o corpo: ah, e vai formigar! Comunica com a máquina cerebral: o curco-circuito disfuncional já começou, há a ebulição, a tempestade, a explosão, a corda rompe: clash: haverá sempre relâmpagos internos e as lâmpadas fundem sempre. Temos muitas lâmpadas aqui dentro de nós que fundem todos os dias: além dos fusíveis! Convém que as tenhamos em doses suplentes. Alta voltagem. 

Haverá sempre alta voltagem e um flash pequeno, transmitido para as ligações internas até às pontas dos dedos. Eles excitam-se. Convencem a mão a saltitar pelas teclas. Sabem as letras precisas que têm de premir para formar uma frase, texturizar o conteúdo certo, na língua certa e não noutra. Por que raio não é noutra? E são as pontas dos dedos que mandam, sabiam? As pontas dos dedos. São mais donos do nosso mundo: porque mais responsáveis de fazerem o caminho inverso à máquina cerebral. E isto é tudo em câmara lenta, entendam. Esperem. Acho que alguém bateu à porta. Tchekov a esta hora? Tchekov terá acordado de novo de madrugada. Mas Tchekov foi-se há muito. Só a mãe dele toma agora conta daquele apartamento soturno e cinzento. Não gosto de gente cinzenta. E há tanta gente a espalhar cinzentismo por aqui. Carregam uma nuvem pesada a ameaçar chover só para chamar a atenção. 

Sempre me afastei de gente assim. Bajuladores. Depressivos. Inseguros! Detesto gente depressiva. Só a mãe de Tchekov era assim. Ele era branco-puro. O cinzentismo deixava para a poesia, que a propósito era uma porcaria. Só se satisfazia depois de várias vodkas puras. No final, tornou-as frequentes ao dia, porque não conhecia mais outra forma de enfrentar a vida sem o entorpecimento dos sentidos pelo álcool. “Não consigo ficar sóbrio o tempo suficiente para achar graça em ficar sóbrio”, citava F. Scott Fitzgerald. 

O fígado não aguentou. Tchekov ficou carcomido. Era dono de um sebo na Rua Augusta ao lado do neón das putas. Não existe mais Tchekov, nem o sebo, nem o poeta. A arte do carcomimento (não me importa que a palavra não venha no dicionário é esta a quase-justa que me traduz o que lhe aconteceu) levou-o cedo. A vodka deu um empurrão. Os néons ainda lá estão. As putas também. Acho que bateram de novo à porta. Ouve-se um eu não sabia. Três pancadas na porta. Ouve-se um leva-me, depois um vens cá fora, seguido de um queres que arrombe a porta. Ouve-se um não me podes deixar assim. Não me podes deixar nunca. Ouve-se um sua puta tu dependes de mim e nunca mais ninguém te vai querer! 

O baque estremecedor dos pontapés na porta. Há um, dois, três. Há mais. Há a voz. É aqui? É a voz azeda e rouca de um homem que deve ter gritado toda a vida. As cordas vocais agora traem-no em vingança necessária, atroz, senil. É a voz do vizinho de cima. O vizinho dos cacos de vidro da cerveja. As pancadas são secas. Ou sou eu que estou sensível. Não poderia nunca ser nesta porta. Não é na minha porta, claro. Não depois que Tchekov se foi. 

Os russos sempre lidaram melhor com a solidão. Há a vodka e o Dmitri Dmitriyevich Shostakovich ( Дмитрий Дмитриевич Шостакович). Sinfonia N. 7 “Leningrado”. Obrigou-me a ouvi-la dezenas de vezes. E dizia-me olha como a vida acalma agora: são as armas depostas. Olha como se torna violenta agora, a revolução vai avante. Olha como se escondem como ratos, olha como se vergam, olha como se traem, olha como se vendem, olha como a essência humana....

Era quando lhe dizia sempre para parar. Não aguentava aquilo. Nunca podia aguentar aquilo tudo até ao fim. Obrigava-me a ouvir a música vinda da casa dela, à tarde, quando o prédio estava vazio. Punha a música alta e interfonava-me. Ouves? Ouves? Quando não me apetecia não lhe atendia, mas ele punha a música na mesma. Era uma espécie de terapia obssessiva-compulsiva. Eu ficava desesperado. Só que a gente habitua-s a tudo, menos aos outros. E a melhor forma de ganhares uma guerra é cederes. Eu não podia sair de casa. Era o meu Inferno Particular.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Perplexidades, Gullar

Do novo livro de Ferreira Gullar, prémio Camões, Alguma Parte Alguma, lançado hoje no Rio de Janeiro...


Perplexidades 
a parte mais efêmera
de mim
é esta consciência de que existo
e todo o existir consiste nisto
é estranho!
e mais estranho
ainda
me é sabê-lo
e saber
que esta consciência dura menos
que um fio de meu cabelo
e mais estranho ainda
que sabê-lo
é que
enquanto dura me é dado
o infinito universo constelado
de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las
fulgindo no presente do passado

Trailer Moscou

Revista Minotauro

Revista Minotauro lançada a semana passada no Rio de Janeiro. Para quem andava faminto de boa prosa sobre arte e literatura... É, tem sotaque carioca...

Bueiros e Graffiti, em São Paulo- Dupla 6emeia

terça-feira, agosto 31, 2010

Essa Insensatez

O lirismo da vida, aquele que mexe connosco e estremece o peito para que tenhamos a certeza que a vida também está ali, tem apêndice certo, também, na bossa nova

Hilda e Deliza. Caiu na privada!

Noto aqui um padrão. É a segunda vez que acontece num espaço de uma semana. Tenho até receio da próxima semana. O mesmo poderá acontecer a Yasmina, Clarice e outras. Não sei. Talvez seja desculpa, talvez seja um inevitável padrão feminino e poderá a todas acontecer. Vá! Tenham cuidado quando levam o telemóvel para o WC. 

Para quê? Caiu na privada? Puxa. 

A Hilda ficou atrapalhada. Quis ler aquela mensagem deliciosa e entre o papel higiénico e autoclismo e ploc-flussh deixou escorregá-lo. Deve estar agora a navegar em águas escuras e desconhecidas, ou talvez afundado de vez. O mais provável é estar afundado de vez. Voilá. Tinha um encontro com um possível-quase namorado e o roteiro para entregar ao director de cena, depois que ele acabasse o ensaio. Claro. Eles ligariam. 

- “Amiga, você acha que alguém vai acreditar nesta parada? Puxa, é muito bizarro. Celular cair na privada, parece pegadinha. Fala sério. Desculpa de nada, né? Você é o único número de celular que eu sei de cor. Pôxa, ainda bem. Mas a vantagem é que a essa hora o celular já desligou né. Tem o silêncio a meu favor. Tem o silêncio como meu alibi”. 

É, o alibi-silencioso. Não haveria por que não acreditar. 

Com a Deliza foi mais ou menos a mesma coisa. Ela quis justificar o silêncio e mandou-me uma mensagem quase em código. Achei que ele se tivesse mudado para algum país árabe, sem me avisar. Obrigou-me a ler a mensagem da direita para a esquerda, várias vezes, que é o mesmo que dizer que tive de voltar atrás para a entender. Mesmo assim, estou com dúvidas e só consigo entender “cluhar prvada, stu s nmeros”. Privada. Que de privada agora não tem nada, desde este post, público!

Kodak 1922 Kodachrome Film Test

As primeiras imagens a cores da Kodak...

quinta-feira, agosto 26, 2010

Devia ter uns 12 anos. A professora pediu que decorássemos um poema de Fernando Pessoa. Lembro-me bem daquela lombada preta e dourada, a imagem de Pessoa a azul, na capa, e o livro denso, paginado a um universo incrível que agora tenho vontade de revisitar. Devo voltar. Preciso, urgentemente de lá voltar, Agora, sim, talvez esteja um pouco mais preparada para o périplo de voltar a ser o Pessoa. Desta vez só o Pessoa, com o mundo todo nele. Com a física quântica a sair-lhe de dentro para se verter em palavras, que são dúvidas; dúvidas que são ponteiros escangalhados, às vezes omissos, outras acelerados como os dos segundos, ou uma espécie de não tempo. 

Era nessa procura-inquieta, nessa dúvida de questionador que encontrava um pouco mais de paz em si e se resolvia com o mundo por um dia. No seguinte, tudo começava. Transformou todas essas dúvidas em criação e, por isso, talvez hoje o conheça um poucochinho melhor. Tenho, assim, essa relação íntima com o Pessoa. Com o Tempo. Que coisa esta de pensar tanto no Tempo. Até porque, falamos a mesma linguagem, que é o mesmo que dizer que a gente se entende direitinho. Até nas dúvidas. Até nas horas mortas, como este poema que decorei sem pestanejar em minutos. Devo tê-lo acabado de ler com vontade de ligar ao Pessoa e dizer-lhe: como foste capaz de decifrar? 


Hora Morta 
                             
                        
Lenta e lenta a hora
Por mim dentro soa
(Alma que se ignora !)
Lenta e lenta e lenta,
Lenata e sonolenta
A lua se escoa...Tudo tão inútil !
Tão como que doente
Tão divinamente
Fútil - ah, tão fútil
Sonho que se sente
De si próprio ausente...
Naufrágio ante o ocaso...
Hora de piedade...
Tudo é névoa e acaso
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida 
(Que Poente me invade?)
Porque lenta ante olha
Lenta em seu som, 
Que sinto ignorar ?
Por que é que me gela 
Meu próprio pensar
Em sonhar amar ?

quarta-feira, agosto 25, 2010

Um pouco de Hilda

Hilda está namorando. Sério. Hilda está mesmo namorando. Há melhor anti-depressivo do que o amor? Vês? Começou com um encontro. Depois outro. Outro e outro. E mais outro que significou mais que todos os outros.

Quem vê Hilda, agora, não diz que é a mesma, mas ainda continua a ver Hilda. Essa Hilda. A minha Hilda, que não é de ninguém. Precisava aprender com Hilda. Já disse que todas temos inveja dela. Um pouco mais, às vezes nada, outras vezes muito! Oh, Hilda! O que deixas sempre em nós! É Hilda, assim deixas-nos sem saída, na noite, na rosa, na noite perdida. E essa dos de que estás jogando uns brincos no lixo e vais tirar o esmalte e pôr um outro parecia metáfora sobre o teu amor antigo para começar um novo.

Hilda, já viste? Estás namorando! Parece que ele, agora, até vai começar a correr contigo. Vá, correr, ali no calçadão. Ali, entre o Leblon, Ipanema até, quem sabe, Copacabana. O amor pode começar em Copacabana e nunca terminar, mesmo que chegue até Ipanema.

Será que um amor que começa em Copacabana dura mais do que o que começa em Ipanema? Ah, moça do corpo dourado desse sol de lá. Samba que passa. Uma bela festa!

O amor de Hilda parece, agora, uma bela festa. Mas o mais sincero deste amor de Hilda é isto e, somente isto. É tudo o que importa: "Ele acha a loucura dela normal". Encontrou alguém que acha a loucura dela normal. E a loucura de Hilda é fome de vida. Só fome de vida, como andava com fome de amor. Que bom, Hilda, que estás namorando!

quarta-feira, agosto 18, 2010

O inquilino I

Vivo no fim de mim, que é o mesmo que dizer que não há mundo, como o vemos, que caiba no pouco que vivo. Não saio, não me dou com os vizinhos, não os conheço, nunca os vi, nem sequer faço questão de ter qualquer convivência com a orgânica de uma comunidade fingida e forçada como pode ser a de um prédio.

Não escolhi os meus vizinhos e, se pudesse escolher, não os escolheria. Andamos todos aqui a fingir que nos toleramos, quando, no fundo, o que desejamos é apagar vidas da nossa, e que nunca mais nos apareçam à frente. Só que, por um certo decoro do código social, aprendemos a imitar os gestos e a ensaiar as respostas da boa convivência. Uma treta. Somos uns farsantes. E a mesma palavra proferida por bocas diferentes pode ter gravidade de verdade ou mentira, conforme a formação avançada do farsante. Só que, como não andamos por aí com medidor desses níveis, acabamos por fingir que acreditamos, embora a intuição, o melhor dos medidores, e que ignoramos, nos diga o contrário. Foi por isso que decidi, há três anos, circunscrever-me, voluntariamente, a quatro paredes, com dois pilares principais que seguram a estrutura deste habitat. Houve outras razões, mas isso nada importa agora. Estariam a querer saber mais do que estou preparado para vos contar. O passado pode tornar-se um livro queimado: fi-lo, e orgulho-me de o ter feito com isenção das queimaduras que pode deixar a heresia de se o fazer o mental Fahrenheit 451 (o calor ideal para queimar a literatura).

É, a memória é um livro volátil e perecível, melhor se o pudermos liquidar. E a nossa literatura mental tem lugares muito mal-frequentados. Se aprendermos a dar-nos com o cérebro, podemos convencê-lo a apagar esse livro biológico, queimando-o.

Quanto aos vizinhos, se tivesse que escolher, reforço, não escolheria nenhum deles, porque preferia viver sem anexos ao redor. Não me incomoda o barulho da rua, da avenida, as motos a passar, aceleradas, às quatro da manhã, os travões dos autocarros velhos a chiar e o inferno sonoro à hora de ponta. Juro, não me incomoda esse estrondo de urbanidade. Incomoda-me mais a algazarra doméstica. Os cães a ladrar (nunca entendi como é que alguém pode ter um animal num prédio: fora com eles) os berros das crianças mal-educadas que saem do 5ºC como se lhes estivessem a arrancar os cabelos (não posso assegurar que isso não possa estar, realmente, a acontecer; mas mesmo que estivesse estar-me-ia pouco nas tintas), as conversas vazias sobre a telenovela e queixumes das beatas do 5ºA e 5ºB.

E, depois, há os insultos do burgesso do 6º D, bem por cima de mim, que resolve bater na Jasmina – ouço-lhe da boca- sempre que chega a casa, como desporto - apercebi-me - escancarando, religiosamente, a garrafa de cerveja do chão quando ela lhe bate a porta do quarto. Ou o óbvio ruído das molas da cama a chiar de luxúria-animal, sempre cadenciadas pelo treme-treme do meu candeeiro do quarto, todos os dias. Resolvi, por isso, mudar o colchão onde durmo para outra divisão. Só tinha três hipóteses: o WC, a sala ou cozinha. Rendi-me ao mais óbvio, que esfria sempre um pouco quando chega o Inverno rigoroso do Norte (mas não pensem que esta será alguma coordenada para decifrarem onde moro), pois a corrente de ar dos anexos, trespassa as frinchas das janelas da cozinha.

Nunca as arranjei, nem permito, agora que algum marmanjo, estranho, me entre pela casa e me invada. Precisaria de um mês para me recompor do contacto, que é o mesmo que dizer, para me purificar de uma certa ideia de humanidade, que não passa de uma grande léria. Nós não somos todos humanidade, e não deixamos legado nenhum. E um mês é demasiado tempo para o perder a recompor-me no contacto, quando o tempo é um fio ténue e esgarçado, que se esfiapa cada vez mais, dia-a-dia, até ao rompimento final.

Apercebo-me que se, por acaso tivesse de conviver com alguns desses palermas que formam o microcosmos da minha vizinhança, que para mim não passam de maiores parasitas do que eu (não faço mal a ninguém e ainda os poupo à minha insignificante, porém perturbante presença), não saberia como fazê-lo, limitando-me a grunhir alguma coisa e virar costas, arrastando-me - que foi a melhor forma que encontrei de me deslocar. Sou uma figura arrastada, já perceberam.

E se perceberam, há uma coisa que gostaria de rectificar neste discurso. Há pouco equivoquei-me. Não fui absolutamente sincero quanto aos vizinhos. Em três anos, por aqui, muita coisa mudou, e desde que arranjaram o elevador já não sei dizer ao certo quais os supostos contíguos que vi, no início, antes da minha reclusão, para poder, com acuidade, cruzar o conhecimento sobre a genealogia da vizinha actual. Mas rectifico: recordo-me que conheci uma vez a velha do rés-do-chão. Uma louca macilenta. Que me pedia sempre para lhe ir comprar pão. Parece que me esperava.

De todas as vezes, como não estava para aturá-la, respondia-lhe torto e dizia-lhe que, se ela tinha pernas e ainda poderia fazer bom uso delas, para alguma coisa serviam. Ela baixava a cabeça, recolhia-se e trancava a porta. Só que, no dia seguinte, ela voltava a fazer o mesmo. E foi assim por dois anos, até me recolher. Era uma mulher esquisita, que, como eu, não deveria andar por aí solta, fora de portas de um certo habitat. Aliás, deveria ser feita uma lei que assim o determinasse. As pessoas esquisitas, estranhas e sem boa figura para se mostrar, deveriam ser proibidas de sair à rua.

terça-feira, agosto 17, 2010

Com mais doses destas ainda vai enlouquecer...

segunda-feira, agosto 16, 2010

Barulhar

Barulhos a borbulhar quando e onde haveria de haver silêncios...

Obnóxio

Não sei muito bem o que fazer com isto. Atropelo uma carpa. Nagib Nagme, Loterias paralelas, sorte, arre, FUTUROᴙUTU₣ (éfe-invertido). Vivendo do ócio, negócio, negar o ócio, Tatuagens, Fiscalização de velocidade de semáforo. Material obnóxio, uma Augusta rua, uma rua Augusta, Lavenderia. Tac. 

Da São Luis, domingo-pasmo às cinco da tarde, depois da morrinha-cinzenta, sofá de um céu: “Arranque meus olhos com um broche”. “A sabedoria é mais preciosa do que as jóias, tudo o que agente deseja não se pode comprar com elas. Provérbios 3:15. 

Parede rugosa, dilatada, fendida, reentrância, zerbada. Glac a fender, fede, como a cidade ferve! O inimigo. Muros de betão, concreto armado, blocos à porta da casa judaica, ali. Augusta-rua. E a polícia na fiscalização da velocidade de semáforo. Eu disse que era céu-cinzento, sofá de infinito. Paredes fedidas, deslizantes, quase repetidas de papéis lambe-lambe: Verdurada, o inimigo Live by the fistt. Leptospirose, o cúmplice. Obnóxio, demasiado obnóxio. Speedkills +debate/palestra. Amanhã,hoje, aqui. A rua como palestra, debate silencioso fervilhante. Micro-short: 12,90 reais. Medo de dirigir: treinamento para habilitados.

ENQ TO
ALG M
FE TA
AINDA
QUER MOS
MOTIVOS

Plastificação, recargas de cartuchos, XEROX, OX, OBNOXIOUS. Massagem, drenagem linfática. Edifício Marachá, Bar do Matão. Atropelo a carpa, de novo. Soutiens pretos no lixo. Verdade. Preto. No lixo-chão, com beatas e cigarros, cigarros e beatas. Cego que fuma à porta do boteco. E as paredes reentrâncias. É domingo à tarde chuvoso, meloso, pachorrento, melancólio, obnóxio. Riso. Vermelho-semáforo. Vermelho-nariz. Dizer vermelho não é a mesma coisa que vertê-lo assim, humano.

FUTUROᴙUTU₣ (éfe-invertido) ex-Bush. Vivendo do ócio. Negócio.Negação do ócio. A repetição não é atestado de incompetência, limitação, handicap, é org|ânica-cidade-crônica-crónica. Vá, acorda-me na ortografia. Corrector ortográfico-humano. Ortografia Corretora.Horto-grafia, corre-tora, cor-re-to-ra, acordo-rotográfico. Língua em pornografia, exposta, deposta, caída, maniqueísta, maquiavel urbano vertido em língua, fala, axial, eixo. Tatuagens, body piercing, 1388 (um-três-oito-oito) Veja que. Vejo? Iacoooooo. Reflexões de um liquidificador. Service Unavailable...zip

domingo, agosto 15, 2010

Chegamos aos 40 e achamos que já sabemos tudo da vida. Não queremos ouvir as histórias dos outros porque já achamos que todas vão dar ao mesmo. Começam com a e acabam em z. Um alfabeto de vida tão simples quanto isso. Como se tudo fosse tão linear assim. Sabemos. 

Chegamos aos 40 e somos donos das palavras e dos conselhos caros. Serão sempre caros, porque esse ar galante com que os dizemos torna-nos uma espécie de psicologia de botequim, mas com cadeiras forradas a pele. E um botequim com cadeiras forradas a pele exige uma certa elevação a categoria superior. 

É. Chegamos aos 40 cheios de certezas, infladas, que a vida se resume a uma fórmula homogénea: sabemos-lhes as cenas, os episódios e até mesmo que o material em bruto sofreu cortes significativos. Sabemos sempre, até, quais foram essas edições propositadas. Chegamos aos 40 e temos receitas para as relações dos outros, e achamos que ingenuidade é tudo aquilo que não é igual às nossas fórmulas. Sabemos e achamos que temos de catalogar indelevelmenre a psicologia alheia. 

-"Tens 30, com mentalidade de 30. Tenho uma amiga com 33 com sabedoria de 80." 

É chegamos aos 40 e tornamo-nos ainda mais chatos, pois na verdade não sabemos realmente nada da vida. Estaremos sempre longe de o saber.

Aviso: resolvi parar nos 29. Tudo o que vier daqui em diante, será lucro de tempo que passará, sem passar.  

terça-feira, agosto 10, 2010

Minimais

Diz qualquer coisa inteligente. Minimais. Inteligente? Minimais. O que é que isso tem de inteligente? Minimais é, por si, uma palavra inteligente: faculdade de ligar-algo-a... para estabelecer uma hipótese de compatibilidade. Como a inteligência: passar algo de um lado para o outro: vá lá: conhecimento. Uma hipótese de conhecimento. Minimais é o todo, pela parte do que queremos que seja o todo, ou que achamos que é o todo. É o mundo aí contido, porque as relações um-e-outro-todos-nós-outros-quaisquer-que-sejam são minimais. As pessoas também são mundo. E elas são minimais. Essa coisa de inventares palavras e de as colares à tentativa de realidade é uma coisa arrebatadora. Problemática. Tens sempre de explicar para te entenderem. Não é bem colar. É organizar o pensamento no espaço-tempo convencionado com o espaço-tempo de dentro. É sempre de dentro-para-fora-e-de-fora-para-dentro. Inspira-expira-inspira-expira. E é muito fácil de entender. Até mais explícito no exercício de entender, se lermos com atenção o óbvio. Desaprendemos a ler o óbvio. E perdemo-nos nas palavras.

Acordamos-vivemos-dormimos, acto contínuo, e achamos que a vida é isto, que nos entendemos todos muito bem, porque falamos todos a mesma linguagem. É uma ilusão. Não nos entendemos porque falamos todos linguagens muito diferentes. E essa não tem tradução, ilustrações, desenhos animados. Há-de haver um dia em que o cérebro dispara em circuito electrónico e temos no ecrã a reprodução dessa neblina cerebral todo o processo do-que-penso. Com todas a suas perversidades e angústias. Outra ilusão: primeiro a dos códigos que organizamos para processar essa informação, sempre baseada naquilo que conhecemos, restringindo o universo infinito do conceptual. O que existe para lá do infinito? Depois, a ilusão evidente da interpretação. Ela depende sempre da linguagem pessoal. A que construímos, que muda diariamente, e que se desajusta sempre um pouco- e ainda mais, por isso – aos outros-esses-nós-eu-tu.

E é aí que entram os minimais. São plataformas possíveis de entendimento. Ouve: plataformas, por isso, coisas fabricadas. Escadas; peças de leggo; chave-fechadura; tomada-ficha-eléctrica (alta-baixa-voltagem); sapato-38-pé-37;ião-positivo-negativo-positivo-positivo. Todos fazem parte do mesmo esquema funcional (disfuncional), mas não falam a mesma linguagem. São extensões naturais de um mesmo média, mas não compatibilizam. E em minimais fazemos sempre um esforço para forçar a entrada-a-saída. Sobretudo a saída! 

domingo, agosto 08, 2010

...os factos não têm piada nenhuma. a ficção tem mais de verdade do que toda a dose de realidade junta...Re-a-quê?

quarta-feira, agosto 04, 2010

Cenas de Padaria


Tenho saído pouco à rua. De cada vez que abro a porta de casa e percebo que o mundo é uma possibilidade, outra vez,  é como se ele se tornasse um contínuo psicoactivo. Tudo me parece novo. Alucinadamente novo e deslumbrante, sem que nada de extraordinário realmente aconteça. A Padaria do senhor Amândio, por exemplo. Um pedaço de Portugal, plantado no bairro de Perdizes. Misto quente e café para o fim de dia, naquele que seria lanche e jantar. Chapa a fervilhar. Quente-quente. E aquele homem que não pára de trautear uma música que nem ele sabe o que é. Atende-me. Põe o queijo e peito de peru na chapa. Tira o café. Corre para atender o cliente que quer pão, fiambre e queijo. Trauteia. Faz tudo de passos rápidos. Gestos céleres. Desconcertadamente céleres. Ficamos zonzos, rodopiantes, ansiosos. 

Ele enrola tudo num papel reciclado. Põe dentro do saco plástico. Corre para a chapa quente. Trauteia. Assobia. Atende o cliente que quer Coca-Cola e batatas fritas. Corre para outro cliente-pão. Processo seguinte já mencionado. Trauteia. Abre o pão. Põe tampa em cima do queijo na chapa. Quase no ponto. Pão aberto. Sai batatas com Coca-Cola. Peito de peru e queijo enroladinhos no pão. Servir no prato. Trauteia. Frenético. Mais um cliente-pão. Pergunta básica: desde que horas você está trabalhando? Resposta: “A gente chega aqui umas sete, né! Falta uma hora para eu sair! Cê acredita que ainda não parei?"

nota de rodapé

Justificação para a quantidade de visitas deste blog, sem nenhum comentário: está escrito numa língua esquisita...

High-Tech-High-Tech-High-Tech-humpf....!!!

Não tanto quanto gostaria. Demasiado para o sossego da minha cabeça. Não-sou-high-tech-sou-high-tech. O Nitin é quem melhor entende do assunto: I´m a low tech man in a high tech world. Como será que se diz high-tech, quando o high tech já se ultrapassou, já não chega, já não é? Desculpa? Pré-História é o quê mesmo? Tem antes? Ah sim? Era? Foi? Como? Seu Gadget!
Não me lembro bem quando a minha vida high-tech terá começado. Mas talvez tenha sido quando o médico que fez o parto me bateu na pele flácida, enrugada, sangrenta, visceral, acabada de sair do quente e me pôs a chorar. É uma forma de tecnologia, milenar, mas que funciona, como quem diz “bem-vinda-miúda-o-mundo-é-isto-agora-aprende-a-respirar”. À bruta, claro. Sempre à bruta, como toda a tecnologia. (E, às vezes, até nos falta o oxigénio). Terá vindo, depois, não por esta ordem, mas por alinhamento evidente, o cobertor, outra tecnologia (nasci em Janeiro, em Portugal, por isso, certamente faria frio), o berço, o biberão, a chupeta, os tarecos-a-que-se-chama-brinquedos e outras coisas menos óbvias que a memória imberbe me ocultava. Salto, por isso, todo o resto da biografia garimpada de alta tecnologia que se transmuta em tecidos artificiais, para aquele écran negro, com espectros verdes para jogar computador que havia em casa dos primos. Ah: abrir-tampa-colocar-cassete-fechar-tampa-play erzzzzzzzzzzzzztziiiiiirzzzzzzzzzzzz: aquele barulho metálico e de contacto com extraterrestres (poderia jurar que deveria ser uma ligação intergaláctica; como é que será que eles nos chamam? "Terráqueos" não me convence) que poderia demorar entre 30 minutos a uma hora. Voilá: haveria todo um (admirável) mundo novo no ecrã – e sem extraterrestres, talvez da próxima. Agora, a coisa - a tecnologia pah-, até me deixa zonza. Não vou entrar em detalhes (são demasiados botões; demasiados manuais de instruções; "demasiado" em hipérbole-da-hipérbole-da-hipérbole). Gosto deles para a vida, e não para os acessórios artificiais que a fazem rodopiar (mais uma voltinha-mais-uma-viagem). Mas os meus detalhes são outros. As manhãs de inverno com sol, as surpresas e as vontades espontâneas. Preciso desses lembretes mentais para justificar a minha inércia anti-sofreguidão (embora caia nela, opostamente, todos os dias) para que não me sinta tão alienada desta bolha.  (Fim de citação)...