Devia ter uns 12 anos. A professora pediu que decorássemos um poema de Fernando Pessoa. Lembro-me bem daquela lombada preta e dourada, a imagem de Pessoa a azul, na capa, e o livro denso, paginado a um universo incrível que agora tenho vontade de revisitar. Devo voltar. Preciso, urgentemente de lá voltar, Agora, sim, talvez esteja um pouco mais preparada para o périplo de voltar a ser o Pessoa. Desta vez só o Pessoa, com o mundo todo nele. Com a física quântica a sair-lhe de dentro para se verter em palavras, que são dúvidas; dúvidas que são ponteiros escangalhados, às vezes omissos, outras acelerados como os dos segundos, ou uma espécie de não tempo.
Era nessa procura-inquieta, nessa dúvida de questionador que encontrava um pouco mais de paz em si e se resolvia com o mundo por um dia. No seguinte, tudo começava. Transformou todas essas dúvidas em criação e, por isso, talvez hoje o conheça um poucochinho melhor. Tenho, assim, essa relação íntima com o Pessoa. Com o Tempo. Que coisa esta de pensar tanto no Tempo. Até porque, falamos a mesma linguagem, que é o mesmo que dizer que a gente se entende direitinho. Até nas dúvidas. Até nas horas mortas, como este poema que decorei sem pestanejar em minutos. Devo tê-lo acabado de ler com vontade de ligar ao Pessoa e dizer-lhe: como foste capaz de decifrar?
Lenta e lenta a hora Por mim dentro soa (Alma que se ignora !) Lenta e lenta e lenta, Lenata e sonolenta A lua se escoa...Tudo tão inútil ! Tão como que doente Tão divinamente Fútil - ah, tão fútil Sonho que se sente De si próprio ausente... Naufrágio ante o ocaso... Hora de piedade... Tudo é névoa e acaso Hora oca e perdida, Cinza de vivida (Que Poente me invade?) Porque lenta ante olha Lenta em seu som, Que sinto ignorar ? Por que é que me gela Meu próprio pensar Em sonhar amar ? |
1 comentário:
Por que é que me gela; Meu próprio pensar; Em sonhar amar?
Bonito Princesa!
Bjs Papi
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