sexta-feira, julho 27, 2012

Um Porto por dia [.#4]

O mar parece mais perto, porque as gaivotas dormem na cidade. Grasnam e revolvem caixotes do lixo como pandilhas competentes. Bicam, rasgam o plástico em três golpes marciais, e depois pipilam regozijadas por contribuir para a imundície coletiva. Chegam a comer restos de carne e a fazer recreio com embalagens de plásticos. Parecem abutres pós-modernos. Parecem mutantes de tão grandes e de meter medo. Saem do mar para a cidade, como mendigas, porque o peixe não se lhes chega. 
Ao fim da tarde é ver os sacos estraçalhados, a misturar odores de vizinhos, de moradores incautos que os deixam, frágeis, desapropriados e mal atados, nos passeios, no rês-do-chão das gigantes caixas verdes que guardam os nossos detritos. Terreno maculado, poluto, pincelado com as tintas ácidas da matéria em decomposição.
A velha costuma ajudar à orgia escatológica, tal qual um alcatraz ávido a debicar. Revolve a lixeira, indiferente a quem passa e a olha com asco burguês. Ela usa uma bengala para se apoiar; às vezes serve de vara exploradora naquela sujidade. Tem o cabelo lavado aparentemente lavado, pela humidade visível, os fios grisalhos, uns óculos desajeitados; saia remendada e uma combinação bege por baixo do véu feminino. Manuseia lixo como um cozinheiro manuseia os ingredientes para o jantar; ou como o oleiro acaricia o barro; ou a costureira a máquina para a bainha. 
Enquanto ela o faz, o bairro acontece na rotina, a produzir o lixo que ela - e as essas aves marinhas, amanhã - estarão a chafurdar. Vós ainda não sabeis, ou não vos lembrastes, mas o lixo é uma política entranhada nos dias, uma ditadura liberal, uma servidão voluntária, outrora triunfo de Porcos, hoje triunfo das marias-velhas, gaivotas-mutantes. 

quinta-feira, julho 26, 2012

Um Porto por dia [.#3]



Pífaros leiteiros e vasos naturais [#literatura crónica]

"Rosa sai da água e vê o pastor. Ri-se. Pega nas roupas, corre para ele, e Ari, a cheirar a carneiro e a queijo e a azeite, agarra-a. Sente a pele dela, olha-a nos olhos e dá-lhe um beijo desajeitado. Os dentes batem uns nos outros, e ela ri-se. Ele fica um pouco irritado, agarra-a pela cintura e fá-la deitar-se na terra. Rosa põe as roupas debaixo da cabeça e abre as pernas. O pastor deita-se em cima dela, que já não ri. Arquejam e misturam os seus cheiros salgados com as margaridas silvestres que despontam corajosas debaixo dos corpos de ambos. O cheiro de azeite do queijo ficará como memória indelével daquela manhã, e de cada vez que Rosa comer ao almoço lembrar-se-á do pastor que a tomou esmagando margaridas. "
in Jesus Cristo bebia Cerveja, Afonso Cruz, Alfaguara, 2012

quarta-feira, julho 25, 2012

O ponto G está na orelha


LIVROS

Isabel Allende: "Continuo a ter medo ao começar um livro"

por Vanessa Rodrigues, Publicado em 10 de Agosto de 2010   (no jornal i)


É mandona, ainda erra "muito", escreve poesia erótica e diz que o ponto G está na orelha. Foi um dos nomes maiores da Festa Literária Internacional de Paraty, e conversou com o i sobre o Chile e as suas letras

Sentou-se altiva na cadeira do palco da tenda dos autores da 8.a Festa Literária Internacional de Paraty, FLIP, para falar na mesa "Veias Abertas" (o mesmo título do livro de Eduardo Galeano, que conta com prefácio de Allende). Em menos de duas horas, a escritora chilena Isabel Allende trocou a camisa de organza que usara na conferência de imprensa por uma écharpe de cores quentes, por cima do negro do vestido. A mulher-escritora diz que é mandona, detesta eventos sociais e acha que vai ser "uma velha louca". Comporta-se como uma lady. Tem um olhar grande e doce; melancólico para falar do passado. Gosta de escrever poesia erótica. 

Na FLIP, à conversa com o jornalista e escritor brasileiro Humberto Werneck, embora tenha esmiuçado o humor para responder às questões sobre a vida privada, na última quinta-feira, poucos perceberam que o exercício lhe foi, de certa forma, doloroso. A voz tremeu, subtilmente, algumas vezes. Nessas alturas, agarrava-se à piada e à ironia para se rir de si e da vida. Ou evocava a história de amor com o actual marido, o escritor norte-americano, Wiliam C. Gordon, que a acompanhou à FLIP. Ele é uma espécie de lugar afectivo a que ela recorre, com carinho. Estão juntos há 23 anos. É talvez essa a mesma função que cumprem as cartas íntimas que mantém com a mãe, de 90 anos, e que estão guardadas na sua casa nos Estados Unidos. Entusiasmado, Werneck desafiou-a a publicá-las. Allende desmarcou-se. A mãe não permitiria, e muito menos lhe escreveria o que escreve, naquele "espanhol literário perfeito", se soubesse que seriam lidas por outros. "Somos muito fofoqueiras, dizemos mal de muita gente", gracejou. Hoje, a escritora de "Ilha Debaixo do Mar", lançado no final do ano passado em Portugal, e só agora publicado no Brasil, usa mais o Skype e o email para responder à mãe. Reconhece que, por isso, "muitas coisas se perdem". Foi, precisamente, numa vertigem que o poeta Pablo Neruda a deixou, em 1973, quando ela era jornalista. De gravador novo na carteira, almoçou com o Nobel da Literatura na Isla Negra, onde ele morava. Na hora de gravar, ele desconcertou-a: "Jamais aceitaria que me entrevistasses! És a pior jornalista deste país. Tu mentes o tempo todo. Passa a dedicar-te à literatura e todos os teus defeitos serão virtudes." Obedeceu, deve--lhe, de certa forma, o facto de se ter consagrado como escritora. Conheceu o actual marido numa digressão. Voltou para o Chile a suspirar. Teve de voltar a vê-lo. "Ele começou a contar-me a história da sua vida e eu apaixonei-me por essa história, é por isso que eu costumo dizer que o ponto G está na orelha." Até hoje ele não terminou de contar a história.Meia hora antes da entrevista que a escritora chilena Isabel Allende deu em exclusivo ao i, durante a 8ª Festa Literária Internacional de Paraty, fez uma sessão fotográfica para uma revista espanhola de celebridades. Sorriu muito, mas, a cada clique, respirava de alívio na esperança de que fosse o último. Esta semana está na Jamaica, também a trabalho. Se o sucesso dos livros a sufoca, por outro, escrevê-los, diz, é encontrar a liberdade. A mesma que diz usar “para cambiar el mundo”, melhorando a condição das mulheres

Chamam-na feminista. Revê-se nessa “condição”?
Trabalhei toda a minha vida com e para mulheres. Era muito jovem quando já tinha todos os ideais e causas do feminismo. Apesar de o feminismo ter mudado e de as pessoas não quererem usar a palavra, as causas continuam. Continua a haver muitas mulheres que estão submetidas e têm vidas miseráveis. Como mulher privilegiada que sou, porque tenho educação, saúde e recursos, posso ajudar. Então, sinto que a minha missão e a das mulheres como eu, sobretudo as mulheres mais velhas, que já criaram os seus filhos, é ajudar os seus irmãos no resto do mundo. Por isso concentrei-me nas mulheres e nas meninas com a Fundação [Isabel Allende, com sede nos EUA, fundada em 1996, em homenagem à filha Paula], angariando fundos. Por cada dólar que a filantropia investe em causas de mulheres, investe-se 20 dólares em programas para homens. Contudo, o dinheiro que se usa para ajudar as mulheres, ergue toda a família, ergue a aldeia, ergue a sociedade. É uma inversão muito importante. 

Em que é que os seus livros a ajudaram?
Eu acredito que me ajudaram em tudo. Primeiro, a “Casa dos Espíritos” foi como uma tentativa de recuperar o Chile que eu tinha perdido depois da ditadura. Ajudou-me muito escrevê-lo porque pude recrear a memória que começava a perder-se enquanto estava no exílio. Escrevi “Paula”, quando a minha filha morreu, ainda jovem. Por sua vez, a dor não foi embora, mas pelo menos pude organizar o que se passou, contê-la em livro. Parece que antes de escrever o livro a dor invadia toda a minha vida e, depois, no processo de escrever e ordenar as recordações e os acontecimentos, pude geri-la melhor. Com isso, acredito que todos os meus livros provêm de uma experiência intensa e pessoal e quase sempre uma experiência muito dolorosa, ou uma paixão muito forte. Então, é uma verdadeira obsessão pela liberdade individual e também a liberdade colectiva, pela justiça. São coisas que sempre me apaixonaram. Então, são coisas que eu exorcizo com a escrita.

Uma escrita mais madura? 
Mudei muito. Mas o mundo e a literatura também. Quando eu comecei a escrever, nos anos 80, era o boom da literatura latino-americana. Eram todos homens. E havia uma voz latino-americana. Isso já passou. Eu vivo em inglês. Vivo nos Estados Unidos, leio muita ficção americana. Influenciou-me porque mudou o meu estilo. Escrevo de uma forma muito mais directa, com frases mais curtas. Já não se usa o estilo demasiado barroco, que eu usava um pouco. Logo, creio que amadureci no sentido de que conheço melhor o ofício da escrita. Mas continuo a cometer muitos erros, continuo a ter muito medo de cada vez que começo um livro. Nunca me sinto segura, porque cada livro é diferente. E cada livro tem a sua forma de ser contado. Não serve a fórmula que aplicaste no livro anterior. Então existe essa angústia: serei capaz de escrevê-lo, ou não? E, também, a sensação de que há uma parte que é inspiração, outra parte que é trabalho, outra parte que é sorte. Sem a sorte, não sai.

É considerada uma referência da literatura latino-americana. Os seus livros fluem como relatos vívidos. Onde começa e onde acaba a ficção?
O boom da literatura latino-americana deve-se à censura. No Chile, por exemplo, como a ditadura silenciava os jornais, tivemos de começar a escrever livros para falar sobre o que estava a acontecer e como nos sentíamos. A ficção pode ser uma ferramenta para contar a verdade.

E o novo romance falará de que realidade?
Com ele fecha-se um ciclo. Não vou começar a escrever mais a 8 de Janeiro, como fazia até aqui. Faço-o desde 1981. Na altura estava a viver na Venezuela e recebi um telefonema do meu avô que estava a morrer. Escrevi-lhe, nesse dia, uma carta que se tornou depois o meu primeiro romance. Mas estou numa fase em que preciso ficar mais relaxada, estou farta desta vida militar de entrevistas, autógrafos e viagens.

Face quê?

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Um Porto por dia [.#2]


terça-feira, julho 24, 2012

segunda-feira, julho 23, 2012

Acordar num outro planeta, o corpo



Hoje estou particularmente atenta às pessoas. Alerta, para ser mais rigorosa. Porque me incomodam. Como se tivesse acordado com pele hiper-sensível, que se estende aos olhos, às mãos, aos ouvidos, ao nariz, aos estímulos eléctricos que chegam ao cérebro. E tudo isto me dá cansaço, me tira energia, me atira para uma letargia que não quero sentir. Estou zonza. Desperta a tudo. E cada gesto é um golpe de que me tento defender. As pessoas que fumam, as que atravessam a rua, as que brincam com crianças, as que atravessam a rua, de novo, as que passam de carro, vão e voltam, correm, riem, saltam, namoram, dão passos largos e largas passas num cigarro, no burburinho, nas falas sussurradas que se tornam ruído, seguram tabuleiros com bolos de chocolate fartos, se beijam... 

Tudo em simultâneo, enquanto vidas individuais acontecem no coletivo. É um frenesim concomitante, como todos os dias, quotidianamente renovado, vivido, como animais pavlovianos. Mas hoje algo acontece e eu não sei o que aconteceu. Escrevo tudo isto com uma certa tontura. Tontura de clima: este calor? Será o ar que está impuro? A água contaminada, o queijo estragado, a maçã azeda; e não senti?

Penso isto, e as pessoas passam, todos estranhos, os outros, como o são as más companhias para os nossos pais, os filhos dos outros, nunca nós, e ocorre-me a conversa com o Rubim: o amor, o medo, a gratidão, as vidas obscuras de cada um. E eles a pensar que tudo isto, este nada, não vale a pena. Ocorre-me isto e penso, inevitavelmente, em Sassetti. Eu não quero pensar nele, mas penso muitas vezes. Penso neste peso irreal que nos transcende, concreto da fugacidade dos dias, do tempo. Penso na alegria, na pessoa feliz que sou, grata e em toda a impossibilidade de explicar tudo, na aceitação de factos; no bosão de Higgs, na inutilidade dos objetos, na inutilidade das revistas cor-de-rosa, no recreio mediático sobre a Licenciatura de um Ministro e na capa desta semana de uma revista reputada: os EUA morreram? Eu sinto que tudo isto já aconteceu, outrora, quando não existíamos, e os nossos velhos sonhavam com i-phones. Voltará a acontecer, quando não existirmos, e alguém há-de pensar que o futuro já aconteceu.

Fico com a sensação de que todas estas preocupações são universais, já foram (não seríamos nós, seres bizarramente excêntricos para os nossos antepassados?), servem-nos de mistelas high-tech e ilusões capitalistas e entorpecem-nos (e nós deixamos) e, também por isso, falhamos o verdadeiro pulo humano: saber como estarmos perto de nós, da nossa natureza e transpor isso para quem virá, não sei, para que faça algo que realmente valha a pena construir, para que saibamos por que razão isto que sinto é um lento e constante dejá-vù. E que construir alguma coisa signifique não deixar que enquanto uns se deitam, por agora, nas praias de Verão, deste lado do globo, outros se deitam em córregos de sangue, numa Síria tão perto.

Sei que tudo isto até aqui soa a filosofia de botequim-deve sê-lo de verdade-, talvez porque todos os gestos me incomodam e há suspensões do pensamento que me levam a considerar que se há um fim, zás, agora estou daqui a pouco não estou, ou o que o Rubim diz, por outras palavras, ser o estado do não garantido - por que razão temos um ciclo transitório, existimos. Eu sei, todo este latim não vale nada, que bem posso ter acordado num outro planeta. Pior, no entanto, é perceber que esse mesmo planeta, é o meu próprio corpo. Eu juro que não ando a ler Kafka, muito menos a tomar Ayhuasca. 

quinta-feira, julho 19, 2012

Onde está o Rei dos Queijos?

Sempre que eu aparecia para um café ao fim da tarde a senhora de cabelo curto perguntava-me:
-A menina já voltou do Brasil? Como tem sido lá?
E depois trazia-me o café e a fofa Clarinha para acompanhar, que eu degustava sempre com a mesma lentidão de quem prova pela primeira vez. Lugar exíguo, espelhos empoeirados, ferros oxidados, vitrines a esconder garrafas de vinho do Porto e o whiskey nunca abertos e que, com certeza, o tempo e o ar avinagraram. Havia aquele som metálico das moedas na máquina registadora, uma cadência hipnotizante e que remotamente nos transportava para tempos onde a polifonia dos telemóveis não era sequer uma possibilidade. Sentia-me em casa, por ali. Abria o caderno e ficava a ouvir, numa bisbolhotice quase imposta pelo pouco espaço daquele lugar familiar. Cumprimentava sempre o senhor de óculos fundo de garrafa à entrada, mas ele nunca me reconhecia. Era simpático por natureza. Um olá menina não chegava a ser indiferente, mas era gratuito e relativo. Pairava no ar. A certa altura, em tardes com mais calma, ficava a saber a vida de uns e outros. Que a velhice é um estado de auto-comiseração para uns; um estado precoce para outros, uma simpatia para outros. Deixava-me estar. Agora que faço as contas, faz mais de dois anos que não lá vou. Há uns meses tentei levar várias pessoas aquele canto especial no centro do Porto, mas deparei-me sempre com o mesmo bilhete na porta: "Fechado por motivos de saúde". Não consigo perceber que doença prolongada será esta que acometeu o Rei dos Queijos. Anda esquecido, faz-me falta, faz falta ao Porto. 

quarta-feira, julho 18, 2012

Filmes, metro a metro e eu dentro dos frames

Nunca estive tão envolvida com os frames como desta vez. Ando dentro deles, parece. É isto: vilanagem, esta é a minha nova aventura: a sétima arte, em modo curta. Com argumento e realização de Rui Pilão, direção de fotografia de António Morais, contracenando com a pequena Sofia e Artur Miguel Moreira Rubim; maquilhagem de Marta Ramalho. Espreitem. A Ju Vaz é assistente de câmara e o Francisco Lobo assistente de realização.https://www.facebook.com/pages/Desespero/467881563222629


sábado, julho 14, 2012

Hilda, camas estranhas

Com corpo a rodar mundo. Com as costas moldadas às noites cálidas, frias, mordazes, cautas, perigosas e de sexo. Corpo na rede. Bunda em lençóis brancos, a olhar tectos azuis, azul-cueca, sofás, colchões fofos, varandas, chão, areia, barco, assento de avião, ônibus, carrinha, motéis, camas de hotéis duvidosos, sem janelas, sofás extensíveis-cama, bem acompanhada, no teu corpo, carne-na-carne, mamilos almofada, barriga repouso de mão, cadeiras, mesas, camas de solteiro, colchões no chão, taco-a-taco, duros, cimento, no teu colo, no colo deles, nas tuas mãos, no teu regaço, no arpoador, na rocha, colcha de nafetalina, solteira, de casada, no sótão, águas-furtadas, beliches, no mosteiro, na pousada, guest-house, acampada, debaixo da tenda, debaixo da árvore, no tecido cálido do teu véu de derme, na carpete, no azulejo, sempre em cama alheia, na dele, dela, dele, dela, dele, dela, duras, tão duras de solteiras, casadas, tão atadas, poltronas, divãs, sagradas, benzidas, amaldiçoadas. Só durmo em camas estranhas e começo na minha, que o corpo foi feito para voar e dormir em nuvens.

quarta-feira, julho 11, 2012

ardo maria, ai

Parece que as musas vão despir Camões, outra vez. Esta quinta-feira, 12 de julho, a performance ardo maria, ai (teatro, música e poesia) será às 17h, no Largo São Domingos, em frente à ESAP. Um fim de tarde com traição, amores e desamores, perdão, mil mulheres, suspiros, Lianor e pífaros leiteiros, dizem as más línguas. Venham, venham que nós vamos lá estar a encantar homens e mulheres, a seduzir a chama bruxuleante do Amor. 



quinta-feira, junho 21, 2012

Lenine é vírus de incubação crónica e eu tô infetada

Donde esta veio há mais, mas convém degustar, lentamente. Meu amado Lenine, semana passada, em Toulouse. Sem filtros, máscaras, tratamento de imagem, sem retoques, apenas zoom (70-200mm e marca de água, com direitos de autor)


quarta-feira, junho 20, 2012

Rio+20

Na boa: de que adianta um documento higienicamente aprovado por 193 "líderes mundiais", nessa Rio+20, para o desenvolvimento sustentável - aliás conceito higienicamente ignorado pelos mesmos senhores do mundo na hora de brincar com calculadora - sem medidas concretas, compromissos, critérios, punições... Passos em diante para uma economia sustentável, preservação de meio ambiente, sustentabilidade quotidiana nos direitos fundamentais? Tudo isto soa-me sempre a uma pesada e tácita hipocrisia diplomática. É o papel, a teoria. É a mesma coisa que fingirmos que não vemos, não ouvimos e não denunciamos... É pouco muito pouco, é um nada!

terça-feira, junho 19, 2012

A Calcedónia não é um fenda, é nós


Se me tivessem dito que iria subir pedregulhos sobre pedregulhos, sem poder voltar, durante uma hora, com uma Go Pro na cabeça, roçar a bunda na pedra,  passar entre fendas de pedras seculares, resvalar granito abaixo, ver abismo e gelar, esmurrar os joelhos, subir pelo corpo de uns e outros (ora joelho, ora ombros, ora braços), com a necessidade de escaladora semi-profissional, eu não acreditaria. 

Pior: eu nem sequer teria alinhado. Eu e mais quatro, que o António, o quinto elemento, estava com vontade por todos nós, era bem capaz de ir sozinho e dizer que nos poderíamos encontrar ao fim do dia, enquanto, com certeza, escalaria pedra sobre pedra, qual lagarto que se agarra à geologia. Era toda uma tontura vê-lo subir àquelas pedras. Mas pior era quando, minutos depois, nos apercebíamos que teríamos de fazer o mesmo. 


Primeiro passar as mochilas, depois... bom, depois transpor gigantes de pedra, sempre a subir, que a coisa era agreste, íngreme e ainda bem que ninguém se lembrou do filme 127 horas, em que um alpinista fica preso no Canyon. Lembrar não lembramos mas A. fez questão de referir ("Vá pessoal, espero que nenhum de vocês tenha visto o filme 127 horas". Só podia estar gozar né?).  Acho que, por isso, a adrenalina acabou por nos anestesiar e uma vez lá, de lanternas munidos e o farnel na mochila (ao menos fome não passaríamos), seguimos como equipa maravilha. O Paulo na retaguarda a servir de escada, A. como batedor, e as miúdas, nós, na obediência a confiar nos homens das cavernas. Deve ter-nos vindo alguma reminiscência Neandertal e lá achamos que o instinto de sobrevivência deles haveria de nos carregar a todas.  



 Foi por isso que subimos até ao céu. Rocha sob rocha. As mãos assolapavam-se à pedra, os pés serviam de estacas provisórias, os joelhos de molas e lá fomos. Ao início nada denunciava que assim seria. Um verde imenso, sim; havia declives e A. não teve bem a certeza onde era a entrada. Encontrou-a. "Alguém é claustrofóbico?". Mudos, todos. Ninguém teve coragem de perguntar o grau de claustrofobia a que ele se referia.


Advertência, depois das lanternas na mão: "Malta, a partir de agora é o seguinte: isto é trabalho de equipa. Não saímos dali de dentro sem a ajuda de uns e outros. Ajudamos sempre o que está atrás de nós. Eu vou à frente e o Paulo fica em último". Obedecemos e, mais uma vez, ninguém teve coragem de reagir quando viu a fenda da Calcedónia, em plena serra do Gerês. Quer dizer, o Paulo estrebuchou: "Tens a certeza de que nós cabemos ali?" Silêncio. E seguimos. 


Primeiro veio um arrepio na barriga, depois uma ansiedade no peito, depois uma coisa que nós não sabíamos o que era, mas que eu quis pensar que era a tal da adrenalina. À medida que avançávamos, mais íngreme se tornava a escalada e mais intransponíveis e maiores pareciam as pedras. Um jogo de corpo que se molda à pedra, e porque os membros servem para mais uma dezena de funções acrobáticas que desconhecemos. 

Houve uma pausa. Houve espanto. Houve êxtase e de que a vida é bela. Houve o júbilo de que este lugar é incrível. E, sim, muitos momentos em que apesar de A. conseguir transpor os gigantes, nada garantia de que cada um de nós conseguiria com tamanha destreza e competência. 





No final, uma sensação incrível de liberdade e uma paisagem de desafiar as leis que atestam que precisamos de ar para respirar. Acho que respirei uns segundos sem ele. O espanto é paralisia temporária. 




O almoço veio, em cima das pedras, vendo este vale imenso. E, agora que sabemos, seria apenas o reforço do que nos esperaria para a segunda parte. Acariciar ainda mais o céu, no topo das pedras que fazem a fenda da Calcedónia. De resto, só nos ocorreu o seguinte: de que toda esta aventura é um resumo do que precisamos para a vida: não há impossíveis, nem problemas intransponíveis. O que parece um pedregulho intransponível é apenas uma coisa à espera que lhe detectemos a falha, com o nosso corpo moldado, ajudados pelas pessoas que melhor nos querem. E eu tenho os melhores amigos do mundo!


Revista Pessoa on the road

Galera é o seguinte: a Revista Pessoa acabou de sair do forno e Mirna Queiroz e Luiz Ruffato (nossos cozinheiros) ainda estão na cozinha. Cheira a bolo de fubá, uxi, carambola, açaí. Nós na roça. Tem Guimarães Rosa, Marçal Aquino, mar sem fim e matéria minha sobre a Amazônia. É de comer. É a revista que fala nossa língua. 

Aqui fica o LINK. 

segunda-feira, junho 18, 2012

Falta justificada

Hoje é dia 18 e eu não sei por onde começar. A Dora diz que sou como o lume das bruxas, não paro quieta. Que não se me põe a vista em cima durante um mês e já se tem um mundo de desatualização. Até pode ser, mas não penso muito nisso. Só que agora que penso nisso, começa a fazer algum sentido. Isso uma vez que há memórias recentes que me parecem tão longínquas, remotas mesmo, como se anos tivessem, vestidas de um casaco puído, com ombreiras e remendos. 

Apercebo-me, e o tempo também disso é responsável, de que ardo em chama forte. Ardo em combustão lenta, pujante, com repulsa ao gelo da monotonia. A vida só faz sentido para mim assim, vivendo-a com uma intensidade que rompe, todos os dias, com uma estrutura consolidada, como se precisasse de nascer todos os dias, mas com uma memória de vivências e aprendizagens que não se sabe muito bem de onde virão. Reinventar é, pois, um mantra. 

Neste preciso momento em que escrevo, Junho, não o parece. O ano ainda só agora começou - relembro que o comecei a levar com um globo de espelhos de dancetaria (o que só prenunciaria, realmente, que seria um grande ano) - e já vou a meio dele, com tanto mundo, gente, vida e aprendizagens. E viagens. E páginas folheadas e wishlist 2012 deliciada. E com tanto ainda para fazer. Parece que o mundo me pôs numa estrada de Fórmula 1 e eu virei piloto profissional, por aí, a 300km/h, com muito estilo, qualidade e com a melhor equipa na pit stop. 

quinta-feira, maio 31, 2012

Marrar em tempos modernos

Hiberno, eu tento, mas não é possível. A nossa caverna, agora, tem Facebook, twitter, vimeo, jornais online, youtube, sites, mensagens, telemóvel. Eu tento: desligo o telemóvel e, quando ligo, logo martelam mensagens de voz, mensagens escritas, multimédias, notificações. Aprendi, surpreendo-me, de que sou a high tech lady in a ultra high tech world. Muito diferente dos meus tempos de Faculdade: havia os apontamentos, as fotocópias. Ponto final.

Porém, eu até gosto, assim como gosto de desligar e amar com um livro no colo, deixando a relva do Palácio, do Parque da Cidade, ou do Jardim Botânico, folhear as páginas dos meus livros silenciosos, da minha pele. Do sol a roçar-me o rosto. E, nestes dias, redescobri o que é ser ermita para o estudo, por agora.

Nunca desligo, nunca estou absolutamente concentrada, e estou, porque sou uma miúda altamente visual no exercício do estudo. Preciso do estímulo para entender e consolidar conhecimento. Dos meus esquemas a tinta no papel em branco, aos sites de podcasts e vídeos sobre o tema. Porque os Direitos Humanos são transversais, indivisíveis, intersectoriais. É nisto que ando mergulhada para o exame que me espera sábado. Ao menos não poderei dizer que não me divirto, apesar da obrigação. Tornar a disciplina numa reinvenção hiperactiva (porque eu continuo com o síndrome dos bichos carpinteiros). E estudar, para mim, revelou-se isto, em tempos contemporâneos, estar antenada em reclusão. Vou só ali ler mais um pouco sobre justiça de transição: o direito à verdade, justiça e reparação. Talvez encontre algum romance sobre o assunto e me perca durante a tarde com a Literatura. 

segunda-feira, maio 28, 2012

introdução à espionagem


Talvez seja o meu lado Mata Hari a pôr-se na pele aflorada, não sei. Ou, então, talvez me tenha entusiasmado com este caso das secretas em Portugal, que pôs todo o sistema de segurança nacional em causa, a propósito de alguns espiões fajutos e da mais baixa estirpe, esgoto abaixo. 


Em todo o caso sempre gostei de filmes de espiões, bandas sonoras que remetessem para o género e ouvir a música de "O Santo" dá um certo arrepio suspicaz na espinha, como se tivesse sido escrita a pensar em mim. Adrenalina boa, acredito. Depois, há os filmes do 007 sempre clássicos para ver e rever em casa e sempre me imaginei a fazer aquelas acrobacias intelectuais para fintar o inimigo, soltando o lado estratega que há em mim, na ficção, já que na vida real, ele passa-me ao lado, mas com estilo e muita pinta. 


Acho que com alguma competência poderia aprender línguas e mudar de sexo, quem sabe. A missão Bond Girl sempre me pareceu demasiado desinteressante, por isso acredito que com um exímio treino como deve de ser poderia, pois, num mundo paralelo, quem sabe em noctívagas investidas, dedicar-me à arte da vida dupla, ao serviço de sua majestade inventada. 


Enquanto tudo isso não se materializa, posso dar-me por satisfeita por folhear o preâmbulo do manual da espionagem. É que este é o meu mais recente brinquedo oferecido por A. Quem sabe o meu Padrinho na arte "undercover". 


A russa Kneb 30 que anda nas minhas mãos (vintage russian spy camera), trazida diretamente da Jordânia, onde posso ver a vida a 16mm, subrepticiamente (o rolo há-de estar a caminho) dá vontade de responder: my name is Bond, Vanessa Bond!