terça-feira, agosto 31, 2010

Essa Insensatez

O lirismo da vida, aquele que mexe connosco e estremece o peito para que tenhamos a certeza que a vida também está ali, tem apêndice certo, também, na bossa nova

Hilda e Deliza. Caiu na privada!

Noto aqui um padrão. É a segunda vez que acontece num espaço de uma semana. Tenho até receio da próxima semana. O mesmo poderá acontecer a Yasmina, Clarice e outras. Não sei. Talvez seja desculpa, talvez seja um inevitável padrão feminino e poderá a todas acontecer. Vá! Tenham cuidado quando levam o telemóvel para o WC. 

Para quê? Caiu na privada? Puxa. 

A Hilda ficou atrapalhada. Quis ler aquela mensagem deliciosa e entre o papel higiénico e autoclismo e ploc-flussh deixou escorregá-lo. Deve estar agora a navegar em águas escuras e desconhecidas, ou talvez afundado de vez. O mais provável é estar afundado de vez. Voilá. Tinha um encontro com um possível-quase namorado e o roteiro para entregar ao director de cena, depois que ele acabasse o ensaio. Claro. Eles ligariam. 

- “Amiga, você acha que alguém vai acreditar nesta parada? Puxa, é muito bizarro. Celular cair na privada, parece pegadinha. Fala sério. Desculpa de nada, né? Você é o único número de celular que eu sei de cor. Pôxa, ainda bem. Mas a vantagem é que a essa hora o celular já desligou né. Tem o silêncio a meu favor. Tem o silêncio como meu alibi”. 

É, o alibi-silencioso. Não haveria por que não acreditar. 

Com a Deliza foi mais ou menos a mesma coisa. Ela quis justificar o silêncio e mandou-me uma mensagem quase em código. Achei que ele se tivesse mudado para algum país árabe, sem me avisar. Obrigou-me a ler a mensagem da direita para a esquerda, várias vezes, que é o mesmo que dizer que tive de voltar atrás para a entender. Mesmo assim, estou com dúvidas e só consigo entender “cluhar prvada, stu s nmeros”. Privada. Que de privada agora não tem nada, desde este post, público!

Kodak 1922 Kodachrome Film Test

As primeiras imagens a cores da Kodak...

quinta-feira, agosto 26, 2010

Devia ter uns 12 anos. A professora pediu que decorássemos um poema de Fernando Pessoa. Lembro-me bem daquela lombada preta e dourada, a imagem de Pessoa a azul, na capa, e o livro denso, paginado a um universo incrível que agora tenho vontade de revisitar. Devo voltar. Preciso, urgentemente de lá voltar, Agora, sim, talvez esteja um pouco mais preparada para o périplo de voltar a ser o Pessoa. Desta vez só o Pessoa, com o mundo todo nele. Com a física quântica a sair-lhe de dentro para se verter em palavras, que são dúvidas; dúvidas que são ponteiros escangalhados, às vezes omissos, outras acelerados como os dos segundos, ou uma espécie de não tempo. 

Era nessa procura-inquieta, nessa dúvida de questionador que encontrava um pouco mais de paz em si e se resolvia com o mundo por um dia. No seguinte, tudo começava. Transformou todas essas dúvidas em criação e, por isso, talvez hoje o conheça um poucochinho melhor. Tenho, assim, essa relação íntima com o Pessoa. Com o Tempo. Que coisa esta de pensar tanto no Tempo. Até porque, falamos a mesma linguagem, que é o mesmo que dizer que a gente se entende direitinho. Até nas dúvidas. Até nas horas mortas, como este poema que decorei sem pestanejar em minutos. Devo tê-lo acabado de ler com vontade de ligar ao Pessoa e dizer-lhe: como foste capaz de decifrar? 


Hora Morta 
                             
                        
Lenta e lenta a hora
Por mim dentro soa
(Alma que se ignora !)
Lenta e lenta e lenta,
Lenata e sonolenta
A lua se escoa...Tudo tão inútil !
Tão como que doente
Tão divinamente
Fútil - ah, tão fútil
Sonho que se sente
De si próprio ausente...
Naufrágio ante o ocaso...
Hora de piedade...
Tudo é névoa e acaso
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida 
(Que Poente me invade?)
Porque lenta ante olha
Lenta em seu som, 
Que sinto ignorar ?
Por que é que me gela 
Meu próprio pensar
Em sonhar amar ?

quarta-feira, agosto 25, 2010

Um pouco de Hilda

Hilda está namorando. Sério. Hilda está mesmo namorando. Há melhor anti-depressivo do que o amor? Vês? Começou com um encontro. Depois outro. Outro e outro. E mais outro que significou mais que todos os outros.

Quem vê Hilda, agora, não diz que é a mesma, mas ainda continua a ver Hilda. Essa Hilda. A minha Hilda, que não é de ninguém. Precisava aprender com Hilda. Já disse que todas temos inveja dela. Um pouco mais, às vezes nada, outras vezes muito! Oh, Hilda! O que deixas sempre em nós! É Hilda, assim deixas-nos sem saída, na noite, na rosa, na noite perdida. E essa dos de que estás jogando uns brincos no lixo e vais tirar o esmalte e pôr um outro parecia metáfora sobre o teu amor antigo para começar um novo.

Hilda, já viste? Estás namorando! Parece que ele, agora, até vai começar a correr contigo. Vá, correr, ali no calçadão. Ali, entre o Leblon, Ipanema até, quem sabe, Copacabana. O amor pode começar em Copacabana e nunca terminar, mesmo que chegue até Ipanema.

Será que um amor que começa em Copacabana dura mais do que o que começa em Ipanema? Ah, moça do corpo dourado desse sol de lá. Samba que passa. Uma bela festa!

O amor de Hilda parece, agora, uma bela festa. Mas o mais sincero deste amor de Hilda é isto e, somente isto. É tudo o que importa: "Ele acha a loucura dela normal". Encontrou alguém que acha a loucura dela normal. E a loucura de Hilda é fome de vida. Só fome de vida, como andava com fome de amor. Que bom, Hilda, que estás namorando!

quarta-feira, agosto 18, 2010

O inquilino I

Vivo no fim de mim, que é o mesmo que dizer que não há mundo, como o vemos, que caiba no pouco que vivo. Não saio, não me dou com os vizinhos, não os conheço, nunca os vi, nem sequer faço questão de ter qualquer convivência com a orgânica de uma comunidade fingida e forçada como pode ser a de um prédio.

Não escolhi os meus vizinhos e, se pudesse escolher, não os escolheria. Andamos todos aqui a fingir que nos toleramos, quando, no fundo, o que desejamos é apagar vidas da nossa, e que nunca mais nos apareçam à frente. Só que, por um certo decoro do código social, aprendemos a imitar os gestos e a ensaiar as respostas da boa convivência. Uma treta. Somos uns farsantes. E a mesma palavra proferida por bocas diferentes pode ter gravidade de verdade ou mentira, conforme a formação avançada do farsante. Só que, como não andamos por aí com medidor desses níveis, acabamos por fingir que acreditamos, embora a intuição, o melhor dos medidores, e que ignoramos, nos diga o contrário. Foi por isso que decidi, há três anos, circunscrever-me, voluntariamente, a quatro paredes, com dois pilares principais que seguram a estrutura deste habitat. Houve outras razões, mas isso nada importa agora. Estariam a querer saber mais do que estou preparado para vos contar. O passado pode tornar-se um livro queimado: fi-lo, e orgulho-me de o ter feito com isenção das queimaduras que pode deixar a heresia de se o fazer o mental Fahrenheit 451 (o calor ideal para queimar a literatura).

É, a memória é um livro volátil e perecível, melhor se o pudermos liquidar. E a nossa literatura mental tem lugares muito mal-frequentados. Se aprendermos a dar-nos com o cérebro, podemos convencê-lo a apagar esse livro biológico, queimando-o.

Quanto aos vizinhos, se tivesse que escolher, reforço, não escolheria nenhum deles, porque preferia viver sem anexos ao redor. Não me incomoda o barulho da rua, da avenida, as motos a passar, aceleradas, às quatro da manhã, os travões dos autocarros velhos a chiar e o inferno sonoro à hora de ponta. Juro, não me incomoda esse estrondo de urbanidade. Incomoda-me mais a algazarra doméstica. Os cães a ladrar (nunca entendi como é que alguém pode ter um animal num prédio: fora com eles) os berros das crianças mal-educadas que saem do 5ºC como se lhes estivessem a arrancar os cabelos (não posso assegurar que isso não possa estar, realmente, a acontecer; mas mesmo que estivesse estar-me-ia pouco nas tintas), as conversas vazias sobre a telenovela e queixumes das beatas do 5ºA e 5ºB.

E, depois, há os insultos do burgesso do 6º D, bem por cima de mim, que resolve bater na Jasmina – ouço-lhe da boca- sempre que chega a casa, como desporto - apercebi-me - escancarando, religiosamente, a garrafa de cerveja do chão quando ela lhe bate a porta do quarto. Ou o óbvio ruído das molas da cama a chiar de luxúria-animal, sempre cadenciadas pelo treme-treme do meu candeeiro do quarto, todos os dias. Resolvi, por isso, mudar o colchão onde durmo para outra divisão. Só tinha três hipóteses: o WC, a sala ou cozinha. Rendi-me ao mais óbvio, que esfria sempre um pouco quando chega o Inverno rigoroso do Norte (mas não pensem que esta será alguma coordenada para decifrarem onde moro), pois a corrente de ar dos anexos, trespassa as frinchas das janelas da cozinha.

Nunca as arranjei, nem permito, agora que algum marmanjo, estranho, me entre pela casa e me invada. Precisaria de um mês para me recompor do contacto, que é o mesmo que dizer, para me purificar de uma certa ideia de humanidade, que não passa de uma grande léria. Nós não somos todos humanidade, e não deixamos legado nenhum. E um mês é demasiado tempo para o perder a recompor-me no contacto, quando o tempo é um fio ténue e esgarçado, que se esfiapa cada vez mais, dia-a-dia, até ao rompimento final.

Apercebo-me que se, por acaso tivesse de conviver com alguns desses palermas que formam o microcosmos da minha vizinhança, que para mim não passam de maiores parasitas do que eu (não faço mal a ninguém e ainda os poupo à minha insignificante, porém perturbante presença), não saberia como fazê-lo, limitando-me a grunhir alguma coisa e virar costas, arrastando-me - que foi a melhor forma que encontrei de me deslocar. Sou uma figura arrastada, já perceberam.

E se perceberam, há uma coisa que gostaria de rectificar neste discurso. Há pouco equivoquei-me. Não fui absolutamente sincero quanto aos vizinhos. Em três anos, por aqui, muita coisa mudou, e desde que arranjaram o elevador já não sei dizer ao certo quais os supostos contíguos que vi, no início, antes da minha reclusão, para poder, com acuidade, cruzar o conhecimento sobre a genealogia da vizinha actual. Mas rectifico: recordo-me que conheci uma vez a velha do rés-do-chão. Uma louca macilenta. Que me pedia sempre para lhe ir comprar pão. Parece que me esperava.

De todas as vezes, como não estava para aturá-la, respondia-lhe torto e dizia-lhe que, se ela tinha pernas e ainda poderia fazer bom uso delas, para alguma coisa serviam. Ela baixava a cabeça, recolhia-se e trancava a porta. Só que, no dia seguinte, ela voltava a fazer o mesmo. E foi assim por dois anos, até me recolher. Era uma mulher esquisita, que, como eu, não deveria andar por aí solta, fora de portas de um certo habitat. Aliás, deveria ser feita uma lei que assim o determinasse. As pessoas esquisitas, estranhas e sem boa figura para se mostrar, deveriam ser proibidas de sair à rua.

terça-feira, agosto 17, 2010

Com mais doses destas ainda vai enlouquecer...

segunda-feira, agosto 16, 2010

Barulhar

Barulhos a borbulhar quando e onde haveria de haver silêncios...

Obnóxio

Não sei muito bem o que fazer com isto. Atropelo uma carpa. Nagib Nagme, Loterias paralelas, sorte, arre, FUTUROUTU₣ (éfe-invertido). Vivendo do ócio, negócio, negar o ócio, Tatuagens, Fiscalização de velocidade de semáforo. Material obnóxio, uma Augusta rua, uma rua Augusta, Lavenderia. Tac. 

Da São Luis, domingo-pasmo às cinco da tarde, depois da morrinha-cinzenta, sofá de um céu: “Arranque meus olhos com um broche”. “A sabedoria é mais preciosa do que as jóias, tudo o que agente deseja não se pode comprar com elas. Provérbios 3:15. 

Parede rugosa, dilatada, fendida, reentrância, zerbada. Glac a fender, fede, como a cidade ferve! O inimigo. Muros de betão, concreto armado, blocos à porta da casa judaica, ali. Augusta-rua. E a polícia na fiscalização da velocidade de semáforo. Eu disse que era céu-cinzento, sofá de infinito. Paredes fedidas, deslizantes, quase repetidas de papéis lambe-lambe: Verdurada, o inimigo Live by the fistt. Leptospirose, o cúmplice. Obnóxio, demasiado obnóxio. Speedkills +debate/palestra. Amanhã,hoje, aqui. A rua como palestra, debate silencioso fervilhante. Micro-short: 12,90 reais. Medo de dirigir: treinamento para habilitados.

ENQ TO
ALG M
FE TA
AINDA
QUER MOS
MOTIVOS

Plastificação, recargas de cartuchos, XEROX, OX, OBNOXIOUS. Massagem, drenagem linfática. Edifício Marachá, Bar do Matão. Atropelo a carpa, de novo. Soutiens pretos no lixo. Verdade. Preto. No lixo-chão, com beatas e cigarros, cigarros e beatas. Cego que fuma à porta do boteco. E as paredes reentrâncias. É domingo à tarde chuvoso, meloso, pachorrento, melancólio, obnóxio. Riso. Vermelho-semáforo. Vermelho-nariz. Dizer vermelho não é a mesma coisa que vertê-lo assim, humano.

FUTUROUTU₣ (éfe-invertido) ex-Bush. Vivendo do ócio. Negócio.Negação do ócio. A repetição não é atestado de incompetência, limitação, handicap, é org|ânica-cidade-crônica-crónica. Vá, acorda-me na ortografia. Corrector ortográfico-humano. Ortografia Corretora.Horto-grafia, corre-tora, cor-re-to-ra, acordo-rotográfico. Língua em pornografia, exposta, deposta, caída, maniqueísta, maquiavel urbano vertido em língua, fala, axial, eixo. Tatuagens, body piercing, 1388 (um-três-oito-oito) Veja que. Vejo? Iacoooooo. Reflexões de um liquidificador. Service Unavailable...zip

domingo, agosto 15, 2010

Chegamos aos 40 e achamos que já sabemos tudo da vida. Não queremos ouvir as histórias dos outros porque já achamos que todas vão dar ao mesmo. Começam com a e acabam em z. Um alfabeto de vida tão simples quanto isso. Como se tudo fosse tão linear assim. Sabemos. 

Chegamos aos 40 e somos donos das palavras e dos conselhos caros. Serão sempre caros, porque esse ar galante com que os dizemos torna-nos uma espécie de psicologia de botequim, mas com cadeiras forradas a pele. E um botequim com cadeiras forradas a pele exige uma certa elevação a categoria superior. 

É. Chegamos aos 40 cheios de certezas, infladas, que a vida se resume a uma fórmula homogénea: sabemos-lhes as cenas, os episódios e até mesmo que o material em bruto sofreu cortes significativos. Sabemos sempre, até, quais foram essas edições propositadas. Chegamos aos 40 e temos receitas para as relações dos outros, e achamos que ingenuidade é tudo aquilo que não é igual às nossas fórmulas. Sabemos e achamos que temos de catalogar indelevelmenre a psicologia alheia. 

-"Tens 30, com mentalidade de 30. Tenho uma amiga com 33 com sabedoria de 80." 

É chegamos aos 40 e tornamo-nos ainda mais chatos, pois na verdade não sabemos realmente nada da vida. Estaremos sempre longe de o saber.

Aviso: resolvi parar nos 29. Tudo o que vier daqui em diante, será lucro de tempo que passará, sem passar.  

terça-feira, agosto 10, 2010

Minimais

Diz qualquer coisa inteligente. Minimais. Inteligente? Minimais. O que é que isso tem de inteligente? Minimais é, por si, uma palavra inteligente: faculdade de ligar-algo-a... para estabelecer uma hipótese de compatibilidade. Como a inteligência: passar algo de um lado para o outro: vá lá: conhecimento. Uma hipótese de conhecimento. Minimais é o todo, pela parte do que queremos que seja o todo, ou que achamos que é o todo. É o mundo aí contido, porque as relações um-e-outro-todos-nós-outros-quaisquer-que-sejam são minimais. As pessoas também são mundo. E elas são minimais. Essa coisa de inventares palavras e de as colares à tentativa de realidade é uma coisa arrebatadora. Problemática. Tens sempre de explicar para te entenderem. Não é bem colar. É organizar o pensamento no espaço-tempo convencionado com o espaço-tempo de dentro. É sempre de dentro-para-fora-e-de-fora-para-dentro. Inspira-expira-inspira-expira. E é muito fácil de entender. Até mais explícito no exercício de entender, se lermos com atenção o óbvio. Desaprendemos a ler o óbvio. E perdemo-nos nas palavras.

Acordamos-vivemos-dormimos, acto contínuo, e achamos que a vida é isto, que nos entendemos todos muito bem, porque falamos todos a mesma linguagem. É uma ilusão. Não nos entendemos porque falamos todos linguagens muito diferentes. E essa não tem tradução, ilustrações, desenhos animados. Há-de haver um dia em que o cérebro dispara em circuito electrónico e temos no ecrã a reprodução dessa neblina cerebral todo o processo do-que-penso. Com todas a suas perversidades e angústias. Outra ilusão: primeiro a dos códigos que organizamos para processar essa informação, sempre baseada naquilo que conhecemos, restringindo o universo infinito do conceptual. O que existe para lá do infinito? Depois, a ilusão evidente da interpretação. Ela depende sempre da linguagem pessoal. A que construímos, que muda diariamente, e que se desajusta sempre um pouco- e ainda mais, por isso – aos outros-esses-nós-eu-tu.

E é aí que entram os minimais. São plataformas possíveis de entendimento. Ouve: plataformas, por isso, coisas fabricadas. Escadas; peças de leggo; chave-fechadura; tomada-ficha-eléctrica (alta-baixa-voltagem); sapato-38-pé-37;ião-positivo-negativo-positivo-positivo. Todos fazem parte do mesmo esquema funcional (disfuncional), mas não falam a mesma linguagem. São extensões naturais de um mesmo média, mas não compatibilizam. E em minimais fazemos sempre um esforço para forçar a entrada-a-saída. Sobretudo a saída! 

domingo, agosto 08, 2010

...os factos não têm piada nenhuma. a ficção tem mais de verdade do que toda a dose de realidade junta...Re-a-quê?

quarta-feira, agosto 04, 2010

Cenas de Padaria


Tenho saído pouco à rua. De cada vez que abro a porta de casa e percebo que o mundo é uma possibilidade, outra vez,  é como se ele se tornasse um contínuo psicoactivo. Tudo me parece novo. Alucinadamente novo e deslumbrante, sem que nada de extraordinário realmente aconteça. A Padaria do senhor Amândio, por exemplo. Um pedaço de Portugal, plantado no bairro de Perdizes. Misto quente e café para o fim de dia, naquele que seria lanche e jantar. Chapa a fervilhar. Quente-quente. E aquele homem que não pára de trautear uma música que nem ele sabe o que é. Atende-me. Põe o queijo e peito de peru na chapa. Tira o café. Corre para atender o cliente que quer pão, fiambre e queijo. Trauteia. Faz tudo de passos rápidos. Gestos céleres. Desconcertadamente céleres. Ficamos zonzos, rodopiantes, ansiosos. 

Ele enrola tudo num papel reciclado. Põe dentro do saco plástico. Corre para a chapa quente. Trauteia. Assobia. Atende o cliente que quer Coca-Cola e batatas fritas. Corre para outro cliente-pão. Processo seguinte já mencionado. Trauteia. Abre o pão. Põe tampa em cima do queijo na chapa. Quase no ponto. Pão aberto. Sai batatas com Coca-Cola. Peito de peru e queijo enroladinhos no pão. Servir no prato. Trauteia. Frenético. Mais um cliente-pão. Pergunta básica: desde que horas você está trabalhando? Resposta: “A gente chega aqui umas sete, né! Falta uma hora para eu sair! Cê acredita que ainda não parei?"

nota de rodapé

Justificação para a quantidade de visitas deste blog, sem nenhum comentário: está escrito numa língua esquisita...

High-Tech-High-Tech-High-Tech-humpf....!!!

Não tanto quanto gostaria. Demasiado para o sossego da minha cabeça. Não-sou-high-tech-sou-high-tech. O Nitin é quem melhor entende do assunto: I´m a low tech man in a high tech world. Como será que se diz high-tech, quando o high tech já se ultrapassou, já não chega, já não é? Desculpa? Pré-História é o quê mesmo? Tem antes? Ah sim? Era? Foi? Como? Seu Gadget!
Não me lembro bem quando a minha vida high-tech terá começado. Mas talvez tenha sido quando o médico que fez o parto me bateu na pele flácida, enrugada, sangrenta, visceral, acabada de sair do quente e me pôs a chorar. É uma forma de tecnologia, milenar, mas que funciona, como quem diz “bem-vinda-miúda-o-mundo-é-isto-agora-aprende-a-respirar”. À bruta, claro. Sempre à bruta, como toda a tecnologia. (E, às vezes, até nos falta o oxigénio). Terá vindo, depois, não por esta ordem, mas por alinhamento evidente, o cobertor, outra tecnologia (nasci em Janeiro, em Portugal, por isso, certamente faria frio), o berço, o biberão, a chupeta, os tarecos-a-que-se-chama-brinquedos e outras coisas menos óbvias que a memória imberbe me ocultava. Salto, por isso, todo o resto da biografia garimpada de alta tecnologia que se transmuta em tecidos artificiais, para aquele écran negro, com espectros verdes para jogar computador que havia em casa dos primos. Ah: abrir-tampa-colocar-cassete-fechar-tampa-play erzzzzzzzzzzzzztziiiiiirzzzzzzzzzzzz: aquele barulho metálico e de contacto com extraterrestres (poderia jurar que deveria ser uma ligação intergaláctica; como é que será que eles nos chamam? "Terráqueos" não me convence) que poderia demorar entre 30 minutos a uma hora. Voilá: haveria todo um (admirável) mundo novo no ecrã – e sem extraterrestres, talvez da próxima. Agora, a coisa - a tecnologia pah-, até me deixa zonza. Não vou entrar em detalhes (são demasiados botões; demasiados manuais de instruções; "demasiado" em hipérbole-da-hipérbole-da-hipérbole). Gosto deles para a vida, e não para os acessórios artificiais que a fazem rodopiar (mais uma voltinha-mais-uma-viagem). Mas os meus detalhes são outros. As manhãs de inverno com sol, as surpresas e as vontades espontâneas. Preciso desses lembretes mentais para justificar a minha inércia anti-sofreguidão (embora caia nela, opostamente, todos os dias) para que não me sinta tão alienada desta bolha.  (Fim de citação)...

sábado, julho 31, 2010

Montrómetro

Estaremos mais perto de isso acontecer. E São Paulo será o primeiro lugar a tê-las. O dia tem humores frios, temperados e fervorosos. Tem suor de manhã, cabelo molhado à tarde e arrepios ao fim do dia. Other way around, ou vice-versa. Por isso se carrega sempre aquele casaco de malha na bolsa, ou um suplente que fica residente no trabalho. Imprevisível saber se o dia se mantém ameno, frio, ou chuvoso. Micro-clima, humores de tempo. Meteorologia. Aqui cientistas de previsão do tempo não ganham dinheiro. A probabilidade de errarem é maior. 

Imagino, por isso, que as montras serão, em pouco tempo, o espelho ideal para sabermos, com precisão, minutos antes, se nos entregaremos um pouco depois ao arrepio, ao suor ou a escapar das pingas. Um "montrómetro". Imagino, então, aquelas montras de roupa a mudar, automaticamente, os tecidos, as cores, as texturas, conforme o tempo que fará dali a pouco. 

Imagino que, quando começar a temperatura a subir, aquelas caras pálidas, hirtas, de não-gente a querer sê-la nas vitrines das lojas estejam de tops floridos, calções de cinta subida, ou de biquinis vermelhos e de fio dental a puxar praia. Se a pele de galinha começar a ameaçar fazer-se à derme, haverá sempre camisolas de algodão no tronco de plástico desses manequins ou, na pior das hipóteses, é provável que se cubram de casacos pesados e escuros. Impermeáveis haverá quando a garoa vier. E, se vier tudo ao mesmo tempo, acredito que esses modelos de gente fiquem nus, como se se negassem a trabalhar.  

sexta-feira, julho 30, 2010

Conversas com Hilda

Saí da rotação. Entendi o mecanismo biótico. Nós não, Hilda, explica. Como assim, não percebem? Fácil. Então o que é sair da rotação? Nem eu sei para falar verdade. Ok, mas tenta. Da outra vez estava no caos de mim, lembras-te? Oh, Hilda, és sempre tão complicada; o caos de ti. Que mania tens de intelectualizar o tu. Fala, assim, uma linguagem que se possa entender. Traduz, Hilda, traduz. Dá os sinais que tentarei entender. 

Sair da rotação é agarrar os azimutes: essas pontas descoordenadas que temos em nós, que nunca vemos e plaf, disparam em várias direcções. Se prestarmos atenção, devagarinho, sobretudo quando acordamos, percebemos os azimutes desalinhados. Agarramo-los sem que percebam, porque estão mais frágeis e visíveis quando a nossa cabeça abre os olhos e começa a pensar. Antes do exercício estou-no-mundo-outra-vez agarramo-los. Aí, podemos sair da rotação, se a houver. Mas há sempre uma rotação, e o corpo é o eixo que faz o mundo rodar, sem sairmos do lugar.

Gira, gira: os pensamentos entram-saem; outros entram e nunca chegam a sair. Há pensamentos velhos nessa rotação e nem damos conta deles. Estão lá todos misturados a contaminar os mais novos. Só que não me adiantou de nada ter saído da rotação. Se não é pela mesma, virá sempre outra. Se não é pela outra, vem sempre outro lugar intermédio que não deixa o corpo e cabeça soltos, assim agarradinhos, como se fossem almas gémeas. Mal me apercebi que saíra da elipse e flit. Deslizei no lugar-conflito. Oh, Hilda, tu és muito engraçada para encontrar palavras que, à partida, não fazem sentido algum. Disse “quase” Hilda, repara, porque sei que logo encontrarás uma resposta bem fundamentada do teu jeito.

É. Lugar-conflito. A palavra composta é essa. O vocabulário que temos à disposição não equivale necessariamente às palavras exactas que traduzem o que cá vai dentro. Há pergaminhos tão bem dobrados que desconhecemos. Há papéis soltos nas estantes dos nossos livros. Empoeirados. Novos. Sábios. Esquecidos. Que nunca leremos. Falham à catalogação. É esse mundo interior. E temos todos linguagens diferentes. O ponto de equilíbrio, raro, é só uma forma de nós não nos perdermos.


Estás a dar uma de filosofia à Woody Allen. Nada disso. O Woody é mais feliz que eu. Ri da vida, ri-se, graceja, salta, ri-se dele. Faz da vida uma comédia porque não tem outro remédio. Caso contrário estaria a ansiolíticos, preso numa camisa-de-forças. Depois, é evidente. O Woody sabe demasiado sobre a vida para se dar ao trabalho de inventar filosofias como perfeita psicanálise de si. Os filmes são a terapia de divã. Eficaz, parece.

No meu caso não há terapia que valha: nem pôr as mãos em água a correr, nem mexer em areia, nem dar gritos numa praia deserta, nem cantar no chuveiro, escrever livros, sexo, comida, plafff. Olha, nada disso. O problema é evidente e desse mal todos padecemos. Mal genético de humanidade. Ser-humano-em-efeito-de-fabrico. Aquilo que nos arrasta para a inércia é o lugar-conflito. E todos temos um lugar-conflito?

Nascemos com ele e vamos desenvolvendo-o cada vez mais. Sobretudo quanto maior for a dose  na receita da teimosia. Há diversos níveis. É preciso é saber identificá-lo. E eu percebi-o, assim que o efeito-rotação se foi. Não estou a perceber. 

Lugar-conflito, ó, é o filtro da neurose, insatisfação, plano intermédio que deixa a nossa vida em suspenso, ou na adversativa contínua, gerúndio-gerúndio em transe! Quando estamos bem, arranjamos forma de querer mais alguma coisa, quando estamos "gris" há sempre aquela masturbação mental incessante de solitários-pobres-coitados em modo vibração: eu-eu-eu. Quando acordámos de manhã, gostaríamos que ainda fosse madrugada para podermos dormir; quando estamos no WC, gostaríamos de estar na cozinha já a tomar o pequeno-almoço; quando fazemos alguma coisa de que não gostamos, gostaríamos de que o tempo se esgarçasse rápido; quando escrevemos um texto, queremos que ele termine logo; quando não escrevemos queremos muito escrever; quando nos apaixonamos gostaríamos de não nos ter apaixonado para nos apaixonarmos outra vez; quando saímos de nós queremos voltar, mas quando estamos dentro de nós, desejamos sair.

Percebes, nós somos lugar-conflito. Temos trincheiras onde nos encafuamos para lutar contra nós próprios. Precisamos de camisas de forças para nos defender. Vetamo-nos muito, quando o mais importante é saber perpetuar a adolescência como estado de transição permanente, antes que o boicote da balela da vida adulta faça das suas e torne o lugar-conflito num dínamo que dispara a cada 10 segundos. E sabes o que acontece quando lhe começas a dar ouvidos? Entras no efeito-rotação. 

sexta-feira, julho 23, 2010

domingo, julho 18, 2010

Calcinha brochante

Se há coisa que (des)aprendi no último dia, aqui em São Paulo, foi sobre a "calcinha brochante". Advirto, desde já, que o episódio pode ser impróprio para consumo. Claro que não se pode esperar muito de uma conversa com seis actores, uma jornalista e um director de cena experiente (provocador hormonal), à uma da manhã, num boteco em São Paulo, quando ainda não se jantou.

A Rua Augusta parece, porém, ser a única coerência deste episódio, micro-cidade da indústria do sexo dentro de uma grande metrópole como esta, onde se pode encontrar os mais variados exemplos das chamadas tribos urbanas. Há personagens como aquele de pele escura, que não chega a ser negra, de olhos azuis inquietantes, cabelo desgrenhado e roupa suja, com o bafo colado ao vidro, a ver, como se de uma vitrine se tratasse, algumas dessas tribos, encafuadas no boteco da esquina da Augusta com a Luís Coelho. Esse onde estávamos.

- “Você viu só, parece uma entidade. Baixou o Santo”, comentou R.

Mais uma, duas e não-sei-quantas-vezes de episódios semelhantes, num espaço de 5 minutos, seriam suficientes para fundamentar a tese. São Paulo é um lugar estranho. Habitável q.b., mas estranho. Estranho porque a vida acontece mais rápido do que a nossa capacidade de processamento. Talvez tenha encontrado, nisso, a explicação que me fundamenta as constantes tonturas que sinto ao deambular por ela. Fico sempre demasiado ansiosa, como se a taquicardia estivesse próxima. E se, naquela altura do personagem de olhos de azuis-penetrantes e perturbadores (não consegui encarar o olhar do homem, como se me estivesse a arrancar a alma, se existir), terá baixado uma divindade qualquer (o R. advertiu mesmo: “Se vocês derem a volta, vão perceber que aquele homem não está lá, é uma alma penada) também J. deixou cair a santidade que a pouca idade lhe atestava com um “odeio calcinha brochante”.

Não sei dizer, agora, por que razão o tema lhe veio à cabeça, mas acredito que tenha sido porque T. lhe perguntou que história era essa de ver “bonecos de banda desenhada” na hora do “vamo ver” com uma miúda, entre lençóis. A calcinha brochante tornou-se, pois, tema de debate à mesa melada do boteco. Saravá! Afinal, o que é isso de calcinha brochante? A fórmula sairia disparada da boca do “chaveirinho”:
- Ah, calcinha cor de pele, de cores pastéis, nem pensar. Já imaginou? É horrível. Se for para teatro, que a mulher precisa que não se note para estar em palco com a roupa, tudo bem. Agora no dia-a-dia, não. Depois tem aquelas que vocês usam que parecem shorts. Bom, para dormir é legal, agora para estar comigo não dá!
Ah, bom! Mas não estávamos, ainda, totalmente, esclarecidos.
Passou o caso para R.
Silêncio. Silêncio. Silêncio. Risos. Silêncio.
- Na minha opinião depende. A calcinha tem que ornar com a pessoa. Se for alguém muito clássico, formal, e nos surpreende com algo mais informal, ela tem que ter um corpo que segure o todo. Há mulheres em que as cores pastéis, ainda que eu não goste, pode ficar bem. Há lingerie que vista na mão, simples, sem corpo a moldá-la, parece vulgar. Mas, colocado num corpo que orne, pode-nos surpreender. Por, isso, na minha opinião, não podemos ser tão simplistas. Agora, cara, num momento de “não-rola-esta-lingerie” você pode sempre ter um ataque de fúria sexual e arrancar tudo. Só que aí tem um perigo, você pode perceber que o brochante não era a calcinha.

P.S. Eu avisei que este post era impróprio para consumo. E não estou certa de ter aprendido alguma coisa, ontem.