segunda-feira, abril 18, 2011

afinal, o buraco negro existe (e, às vezes, faz centrifugação lá em casa)

porque antónio prata é um cara legal, vai, e eu adoro esta crônica

31/03/2011

Navegar é preciso?

Publicado na revista VIP      
Autor: António Prata                                                        

Talvez seja uma característica masculina, talvez apenas um traço meu - ou, como diz minha mulher, um defeito. O negócio é que descobri, aos trinta e três anos, que não gosto de novidades. Isso inclui: viagens a lugares desconhecidos, passeios por galerias de arte, estudos freqüentes do guia de fim de semana, em busca dos horizontes intocados de nossa grande cidade.
Não tenho prazer na exploração, mas no reconhecimento. Gosto de ir correr no parque do meu bairro, fazendo sempre o mesmo trajeto: dou a volta no laguinho, passo atrás do bambuzal, depois vou em direção ao estacionamento e sinto aquela tranquilidade: aí está o cenário amigo de tantas das minhas tardes. Mais do que descobrir artistas, gosto de ler livros e ver filmes dos meus autores e diretores preferidos. Mais um do Kurt Vonnegut, mais um do Woody Allen: que bom poder reencontrar o mesmo estilo, as mesmas idiossincrasias. Sou feliz nos bares em que chamo o garçom pelo nome e cujo cardápio posso invocar, a qualquer momento, na tela da memória.
Sabe cachorro, que adota um tapete encardido e dali não sai, por mais que você compre camas acolchoadas ou faça uma casinha de madeira? Pois eu sou esse cachorro. E minha mulher, que adora novidades, é a pessoa que vem tentando, há quatro anos, seduzir-me com as camas acolchoadas e casinhas de madeira.
Eis o problema: sou um Homer Simpson, casado com uma Marca Póla. Chega sábado, ela quer me levar para ver um espetáculo incrível de fantoches tchecos que dançam balalaica ao som de uma banda performática búlgara, ou ao Teatro Municipal, para ouvir o coral de monges tibetanos exilados no Canadá, ou a um badalado restaurante de comida coreana feita por um chef cearense - no fim da zona norte.
Beleza. Em teoria, acho tudo isso fantástico. Se, antes de nascer, pudesse ter optado entre o modelo que adora os fantoches tchecos e o que prefere a velha poltrona, encarnaria no primeiro, sem dúvida. Ponho até um polegar pra cima, no Facebook, sobre cada um dos programas citados: Antonio likes this. A vida é curta, o mundo é grande, é preciso vê-lo enquanto é tempo. Mas o que posso fazer se, na prátrica, não sou assim?
Demorou para que eu assumisse esse meu provincianismo existencial. Por anos, tentei acostumar-me a gostar de lugares onde não tenho o costume de ir. Esforcei-me, em sábados e domingos, para não ficar mal-humorado enquanto buscávamos vaga no estacionamento abarrotado da Bienal. Esmerei-me em manter o mesmo inabalado sorriso no rosto quando minha mulher propunha, diante de mapas abertos: “aí a gente aluga um carro aqui, cruza a cordilheira, pega um barco ali, vai até essas ilhas, faz uma trilha até...”. Não sei se o que mais me assusta na frase são os verbos – aluga, cruza, pega, vai, faz – ou os substantivos – carro, cordilheira, barco, ilha, trilha -, mas em respeito ao sujeito – a gente -, já atravessei até deserto em lombo de cavalo. Confesso que, em muitos momentos, enquanto o sol se punha atrás dos montes arenosos, por exemplo, alongando as belas sombras dos cactos por metros e metros sobre rochas vermelhas, eu aproveitei. Mas não conseguia evitar um vergonhoso pensamento: “acho que estaria mais feliz no Quiosque do Ademir, lá em Ubatuba”.
Depois que assumi essa minha, digamos, posição, tento defender-me das acusações de “preguiçoso” e “encostado” invocando supostos traços genéticos e antropológicos. Num domingo, lutando para conseguir ver Corinthians e Ponte Preta, em vez de assistir O encouraçado Potemkin, no Memorial da América Latina, criei a seguinte teoria: por muitos séculos, as mulheres ficaram em casa, cuidando da vida doméstica, enquanto os homens saíam pelo mundo, para caçar, pilhar, conquistar, guerrear ou, nos últimos cem anos, bater o cartão. Agora, elas querem recuperar, nos sábados, domingos, férias e feriados de suas juventudes, o tempo perdido em centenas de anos de cama, mesa e banho, enquanto nós, que trazemos em nosso DNA a exaustão dos exploradores e dos escravos, de gregos e troianos, mouros e cristãos, só queremos uma poltrona, um copo de cerveja e Corinthians e Ponte Preta, às cinco e meia da tarde.
Você acha que minha explicação colou? Claro que não. Consegui assistir ao jogo, mas triste, porque minha mulher foi sozinha ao filme, e ficou um pouco chateada. O que eu posso fazer? Eu amo minha mulher. Eu gosto muito da minha poltrona. Uma quer me levar para longe. A outra quer manter-me bem perto. Por que tanta dificuldade? Será o cansaço dos antigos navegadores e dos escravos nas galés, que acomete meus velhos músculos, ou apenas uma falha de caráter, uma preguiça monstra que impede-me de ir ao teatro, ao cinema e aos confins do mundo, ver como o sol se põe?
Não sei, meu amor. Não sei. Mas fora isso, até que eu sou legal, vai?

sexta-feira, abril 15, 2011

Hilda, o dia em que ela virou homem e sobrou para mim

Estava eu muito diligente a transcrever uma daquelas longas e chatas entrevistas (e, sim, eu ainda funciono muito à moda antiga de caderno e gravador na mão - até porque, sei lá, nunca se sabe o que uma menina da rádio pode fazer, no futuro, com sons; há-de haver aproveitamento), quando a Hilda me interrompe no bate-papo do gmail.

-Van, cê tá por aí?

Não, eu não estava, estava em modo "invisível", dedicada à arte da transcrição, ou a desgravar, no rigor da língua, mas não tem como dizer não à Hilda, né? As histórias dela são sempre deliciosas e eu, viciada em histórias, não posso vacilar, correndo o risco da maldição de um dia ficar sem elas e passar mal. Posso passar muito mal, e isso só daria em síndrome de Lima Barreto, terminando em hospício. Ó Pessoa, traz o ópio, pá!

Depois, como contava, ontem, ao J. adoro histórias de pessoas que saiam fora de mim, i.e., que vão além de mim, a universos tão diferentes dos meus. Que me levem onde eu nunca iria sozinha, por voluntária opção. É como se vivesse, então, várias vidas na pele dos outros, experimentando, mas sem os efeitos colaterais e intrínsecos, como pode ser o de fazer uma tatuagem e não gostar. huuuu!!!!

- Van, você não vai acreditar. Tô muito louca estes dias. Ou melhor lôquinho! virei homem.

- What?

- Verdade. Tô me inspirando para uma nova peça de teatro que tô bolando. Vou escrever e encenar.

- Hilda: me conta isso direitinho que não tô entendendo muito bem. Como assim você virou homem? Um mulherão que nem você, me parece muito difícil virar homem. Você é super feminina, e esses peitão não enganam ninguém, ne!

- Nada que uma boa maquilhagem e disfarce de figurino não disfarcem. Van, você tá falando com a profissional do disfarce. Então, olha só: me andei informando com os meninos. Fiz uma pesquisa e pus em prática: aprendi a coçar o 'negócio' com os melhores caras, sem machucar com o zipper, dei cantada na mulherada, que me achou um docinho de macho, chavequei dondoca da zona sul, tomei todas na calçada do posto 9 de seu joão e acabei caindo na Gamboa em casa de mulher da vida; e ainda consegui enganar transeunte na rua, fingindo saber a arte de pichar parede com aquilo que você sabe; ainda tive tempo para escrete no Flamengo, subi o morro para sabadão de feijoada, trabalhei em lava-jacto, como taxista. Van, se liga no negócio que o papo é federal.

- E você andou sozinha?

- Claro Van, ninguém desconfiou. Só um probleminha.

- Então, fala logo, que aconteceu?

- Ismael brigou comigo e me deu um chute esse final de semana.

- Como assim? Por causa de você virar homem? Você não contou para ele?

- Não, Van. Para ser real ninguém pode saber. Mas o bagulho não foi esse não. Ele brigou comigo, não deixou sequer explicar por isto: - Quem era aquele cara que entrou em sua casa às cinco da madrugada e acendeu a luz de seu quarto? Aí deixei cair o telefone na privada, de novo, sem querer! Tá ligada no problema?

-Tô Hilda, Tô. você quer que eu ligue para ele né?

-Van, você não se importa?

Mr.Dheo

BYMALODJA 2011 from Okerland on Vimeo.

quinta-feira, abril 14, 2011

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência (e a coisa revela muito sobre o estado de -in-sanidade de uma pessoa)




Freudianos, Lacanianos, psicanalistas na sombra, filósofos do tempo e do encantamento, cépticos, sonhadores, oníricos apaixonados, uni-vos.


Juan Bastardo


Esta bem poderia ser uma obra de pura ficção, dominada pelo fantástico, não tivesse eu a certeza, certezinha, de que se passou dentro da minha cabeça, sem que eu sequer assinasse o despacho diário para autorizar os homenzinhos dos sonhos a picar o ponto.

Nada lhes pago, que estes dias de vacas degenerativamente magras dão uma certa tirania patronal, mas eles insistem em trabalhar regime lay-off, trazendo-me figuras, seres, personagens e cenários de outro mundo, que não o meu, e eu até gosto que me levem para universos tão distintos.

A memória onírica é uma coisa volátil, tipo missão impossível, por isso melhor passar a vias de facto, contando-vos, antes que ela se auto-destrua em segundos. 

Mas, primeiro, enquanto despertava de um mirabolante sonho - que pode até ser uma boa ideia para uma peça de teatro de ficção científica: uma peça de teatro, dentro de outra peça de teatro, estão a ver? - ouvi, do outro lado da janela, hoje, já o sol raiava entre as frinchas, com uma luz incrível, como se alguém tivesse tido a generosidade de pôr os watts do astro-rei no máximo, um som que me fez perder uns vinte anos (credo! agora entendo os cabelos brancos), levando-me para dias em que os guarda-chuvas iam para arranjar. Cessa-se a chuva e eles saem à rua. Melhor: saíam à rua, naquele tempo.

Não estranhei o som familiar. Já ontem ele, por ali passara, mas de qualquer maneira, lá veio o cérebro acusar que algo estava desconforme. O que fazia o som do assobio do homem arranjador de guarda-chuvas, ali, na rua, logo pela manhãzinha?

Eis que o som se aproximou cada vez mais. Até se materializar num homem de casaco cinzento puído, que enquanto soprava ar para o objecto do meu encantamento, rolava uma roda onde pude perceber alguns guarda-chuvas. Pois, claro: o bom homem leva os guarda-chuvas e devolve-os, quando arranjados.

Aí está: sustentabilidade, naquele tempo, era isso. Ainda não o tinham baptizado era com o termo capitalista. Hoje, se um dos nossos se estraga, há-de o lixo encaminhá-lo para o devido cemitério, com sorte. A chuva, portanto, não mais será guardada por aquele.

E eis, então, que surge o sonho. Andei a noite toda, parece, ocupada com isto: uma peça de teatro. O encenador, cujo rosto não me lembro, mas com ares de quem me conhecia bem, reuniu a malta e propôs um desafio para o dia da apresentação.

Não ensaiaríamos nada, mas iríamos trocando umas ideias sobre o assunto. Eu iria representar uma mulher madura, cheia de energia, conselheira, nem amorosa, nem desamorosa. O jogo consistia em arranjarmos os figurinos, tentarmos perceber qual a nossa relação com os outros personagens e inventar o texto. 

Só que, a meio destes nossos encontros, apercebi-me que com o iphone poderia viajar no tempo - e que o próprio iphone assumia formas de acordo com a época (ah tá, como se o iphone existisse desde sempre, né?): tinha teclado, não tinha, linguagem html, ou outra coisa qualquer.

Mas se alguém, ao mesmo tempo que tocava na tecla chave que me fazia viajar no tempo, repetisse a mesma palavra que eu no momento da viagem, essa pessoa iria comigo. Não me lembro da palavra, claro. Sei que ainda andei por aí a viajar. Vi amigos mais novos, com outro ânimo de vida, e em momentos cruciais de viragem da vida deles: uma censura que os mudou, uma resposta mal dada, mal interpretada que mudou o rumo dos dias que depois vieram...

E, quando voltei ao tempo do sonho dentro do sonho, era o dia da estreia da tal peça. Como andei nestas viagens inter-temporais, não tive tempo nem de fazer pesquisa, nem de perceber a minha relação com os outros personagens. Bonito!

Fui ter com o encenador e pedi-lhe umas dicas: como era a personalidade da minha mulher madura e que expectativas tinha ele em relação a ela: era uma mulher vivida, sofrida, amargada pelos homens, virgem, experimentada, doce, aziaga, que momentos na vida a marcaram, qual era a missão dela ali, naquele jogo de cena. 

Ele foi dando sôfregas pistas, evasivos adjectivos, sempre com pressa, com muita pressa: o público estava a chegar. Eu não tinha mais tempo. Três pancadas secas na madeira. Luzes. Abre-se o pano e eu ali, imposta para interagir e fazer do palco uma vida, um diálogo com consistência, fazendo com que parecesse que entre nós, éramos todos amigos de longa data, diferentes, mudados por algum momento crucial na nossa vida, que nos fez pensar e repensar que rumo, afinal, queríamos dar-lhe.

Há outros pormenores deste sonho que me lembro e nada acrescentam aqui, e outros que se foram. Esta semana vi um programa na National Geographic que falava sobre o sono, os sonhos, e os distúrbios dele.  Além do tempo, sou apaixonada pelo universo cerebral, pela neurobiologia da consciência, e o poderoso mundo enigmático da massa cinzenta. Nesse documentário desmitificavam a ideia de que os nossos sonhos são baseados em histórias que nos acontecem e que hão-de acontecer - em jeito premonitório.

Ali defendia-se que, quando dormimos, o racional desliga e apenas a biologia e um pedaço de massa a que se chama hipotálamo fica ali a processar, isoladamente. Ou seja, os nossos movimentos ficam à mercê, e talvez um "random" de conceitos chave passem por ali, durante a noite.

Simplificando: imaginem um gajo que sai sozinho à noite para fazer uma rave, toma uns ácidos e faz a festa. É mais ou menos isso que acontecesse durante o sono-sonho. 

Não me posso, por isso, lembrar de muito mais do sonho, pois o racional estava de licença sem vencimento por umas horas, mas lembro-me do texto que inventei para a peça de teatro e que bem pode atestar sobre o meu grau de (in)sanidade mental nestes dias de Primavera:

Os loucos são lúcidos senhores
desprovidos dos vícios da pele desta nossa cultura
desprovidos de códigos e linguagens da bolha poluidora dos defeitos que nos fazem reagir à opressão dos outros
Os loucos são esses que andam aí, a avisar-nos dos nossos egos
São medidores de honestidade
São realistas obstinados a dizer o que ninguém quer ouvir
Os loucos são isto, senhores, bárbaros incontroláveis da nossa condição
Loucos silenciados somos todos nós

Homenagem a George Harrison, dois anos depois da sua morte

Via P.M.




No viola Eric Clapton, na outra o filho de Harrison, no piano Paul McCartney. Na 1ª bateria Ringo Star, na segunda Phill Collins, na guitarra, Tom Petty. No órgão e vocal Billy Preston.

quarta-feira, abril 13, 2011

(D)a importância de ser caderno

Eles vão-se amontoando nas estantes como se fossem obras-primas literárias. Relíquias inauditas, representantes de um espólio de obras póstumas que alguém há-de encontrar para lhe dar uma nova roupagem de papel, dar-lhe páginas como deve de ser, outros cheiros, mais industriais, e pô-los por aí a circular no mundo. 

Com sorte, ainda hão-de parar a uma estante decente, onde alguém generosamente, há-de guardar e retirar para ler e reler o que contêm assim pequenas páginas que de pequenos cadernos viraram literatura a sério. Penso tudo isto e outras coisas que sempre acontecem por milésimos de segundo no cérebro quando mexemos em memórias, enquanto folheava cadernos antigos, pequenos, onde, apercebo-me estão pedaços da minha vivência, da minha passagem por São Paulo, das minhas inquietações aqui, como lá. São listas, exposições, notas culturais, reflexões absurdas, poemas soltos, crónicas de cidade, reportagens-conto durante uma viagem de metro, desejos, contactos de e-mail, mais listas, ideias, reportagens, e mais resoluções para o ano que decorre.

Releio tudo isto e apercebo-me que os desenhos são quase sempre os mesmos, as ansiedades também, a ânsia de criar também, como se de uma espécie de padrão se tratasse: mudaste, mas não mudaste assim tanto.

Releio tudo isto e encontro uma carta de amor. Encontro poemas a dois, surrealistas, palavras de amor, trocas e promessas até ao fim, ternuras sobre tecidos mornos.

Releio tudo isto e não ganho coragem para me livrar dos cadernos que generosamente se vão amontoando nas estantes do quarto entre livros de Filosofia, a Terceira Vaga, Amor Líquido, Geopolitique du chaos, Hegemony or Survival, o Poder em Cena, os Talibãs, Globalização, Palestina e Israel, Pequena História Abreviada da Desinformação, as Palavras e as Coisas...e por aí vai (sim os cadernos estão amigados com a estante de Teorias da comunicação)...

Penso em tudo isto e ocorre-me que estes pedacinhos de vida em papel são prova de que vivi tanto, com muitos cadernos ainda por vir. É essa, talvez, a importância de ser caderno...

Lançando Semeadura...

Na vida, como no xadrez (e isto não são as memórias de cárcere)

Vamos à estratégia. Em Fevereiro passado, o reputado campeão mundial de xadrez (gosto pouco destas generalizações, pois ser algo "mundial" implica sempre uma limitação no universo amostral - nunca percorremos, realmente, todas as pessoas do mundo), o russo Garry Kasparov, esteve na Casa da Música, no Porto, para falar de liderança. 

Quando me apercebi da vinda do senhor cheque-mate já era tarde demais para que pudesse ouvi-lo. Ele já tinha aberto o tabuleiro, posto os peões na vanguarda, deslizado bispos em diagonal sob a plateia, posto torres à defesa na Invicta, falado sobre cavalos em "éle", defendido rainhas e mandado uns bitaites sobre Portugal, os descobrimentos,"o rei" Mourinho e encetado uma generalização: não são os mais inteligentes que vão sobreviver à crise, mas aqueles que tiverem capacidade de se adaptar. Amén. 

Depois, proferiu algo como: para vencer, é preciso seguir a intuição, não mudar de estratégia o tempo inteiro e, claro, ter objectivos e não apenas reagir às adversidades. Aqui há, parece, na lógica formal, uma incongruência, ou será apenas um truque do estratega. Se quem irá sobreviver são aqueles que têm capacidade de se adaptar, então, sabemos, reagindo às adversidades é uma forma de nos irmos adaptando, para que os efeitos colaterais tenham menos impacto. 

É que, diz o senhor do jogo da inteligência, a vida imita o xadrez, tendo inclusive escrito um livro sobre a analogia. Mas já antes ouvíramos coisas parecidas com outras artes, como se se tratassem de planetas distantes, e pudéssemos, realmente, de livre arbítrio escolher que tipo de vida queremos que a nossa imite: o cinema imita a vida; a vida é um palco; o Futebol é uma grande arena, imitando a vida; a vida imita a arte, ou vice-versa; já para não falar da fotografia como representação da realidade, evitando cair nas filosofias estéticas para dissertar sobre meta-explicações. 

Por aí... tacteando metáforas para sintetizar a existência a fórmulas mais ou menos categóricas. Se tudo fosse assim tão simples, esvaziando as variáveis e a imprevisibilidade dos factos, afectos e percalços, a vida seria pois, convenhamos, uma desinteressante alquimia. Um macaquinho de imitação. É, eu nunca tive cérebro de estratega.  


terça-feira, abril 12, 2011

segunda-feira, abril 11, 2011

Um Nobre Vira Casaquismo

Quando um homem jura a pés juntos, entregando-se sem pudor ao registo da comunicação social assegurando, peremptoriamente, e erguendo-se com tom de voz quase enojado, há dois meses, a quem ouse levantar tal suspeita, a de que algum dia integraria um partido político (ouvir o noticiário das 9h de hoje da TSF) e tem, ainda, para aguçar o contrasenso, Nobre no final do nome, pactuando agora com boçal orgânica clientelista, como se a social-democracia fosse já uma espécie de fisiologia, dá vontade de ir pedir explicações, pedir o voto de volta e exigir um auto-de-fé.  
Este é o maior e infeliz exemplo de um vira-casaquismo. A política nunca andou boa de saúde, mas com metáforas destas: um médico, político propalando-se independente, a convergir com a social-democracia, há-de ser um atestado de óbito à política nacional. E, meu caro, não se dê ao trabalho de se justificar, num velado mea culpa naif, de que esse há-de ser um acto incompreendido. É um adultério dos mais condenáveis: o da dignidade.

domingo, abril 10, 2011

sexta-feira, abril 08, 2011

Anda a congeminar texturas amazónicas, linguajares de uma Babel em Língua Portuguesa, para a Pessoa, e sentiu o cheiro intenso, vibrante, da pele da cultura, de gentes que fazem História da Natureza. A vida explica-se de memória, e sai resgatada na voz maternal de Dona Martinha. Prossiga, Dona Martinha, prossiga. Estamos de ouvidos afinados, e as velas podem arder até ao fim, que trouxe mais. Sopre-nos visagens, lendas e mitos da mata e dos rios....

quinta-feira, abril 07, 2011

Há um Paço, que já foi Torre...

Agora, também passamos pela Alma de Viajante. Por aí, algures num Portugal doce a ver o Vouga e o maciço serrano da Gralheira, no Paço da Torre...

O bicho

Quem por ele é picado, dizem, não tem cura. Chama-se rádio e é um tesão. Olha os sons! Sim, porque ouvir é olhar de outra forma; ler texturas na cadência de pequeníssimas linguagens. E isso, porque as pedras também falam, as calçadas cantam e a rua tem onamatopeias que só olhando de perto podemos escutar, devagarinho...Não me importa muito. Não temo os efeitos secundários e espero que não haja, realmente, cura...

quarta-feira, abril 06, 2011

Hilda, os lábios do homem que beijo

A Hilda deu-lhe para me enviar títulos. 
Títulos e mais títulos têm, incessantemente, desde ontem, chegado ao meu e-mail. Tenho passado os últimos dois dias a ler e-mails, apenas, ao fim do dia e eis que me deparei com uma dezena de e-mails de hilda@uol.com.br. Muitos foram directamente para o spam. Hilda, então: spam, baby. Levei um susto. 

Respondi-lhe de imediato: 

-Endoideceste? O que se passa?

-Estou escolhendo títulos para meus próximos livros Van. Peças de Teatro. Achei melhor escolher primeiro o título e, depois, achando o bom nome do filho, escrever a história. Assim me inspiro: tá me entendendo? E queria que você escolhesse alguns. 

"Foi no mês que vem; Teus passos que me levem da rua; A rua onde nasce o fim; sabor de maio para abril que não veio; aos peixes; sermão do homem que nunca aconteceu; bárbaros motivos; meia-noite sempre vem; tinta fresca; trem na estação final; fim de primavera; Verão inventado; Nico-tina; retratos a sépia; Bandeirada dois; lentos, os lábios do homem que beijo..."

Podia por aqui continuar a transcrever os nomes inventados por Hilda. Estes arroubos sempre acontecem na madrugada. Acredito, portanto, que neste momento ela esteja a trabalhar, afincadamente, na invenção de novos títulos, até que lhe passe. 

domingo, abril 03, 2011

Vende-se, eternidade!

Vende-se eternidade! Há corpos esquecidos no granito do chão. No frio condensado dos passeios gastos. Há fim. E há princípio. Há esquecimento onde começa um e fina outro. Há frio, tanto frio, feio, aflito nos gritos reverberados das mordaças de gente. Ali, ali. Ali estendida. Vende-se, um pedaço de infinito sem fim. Vende-se o pleonasmo da hipótese de labirinto infinito. Endless! Infindo! 

Vê. traduz: sem fim. E o que não tem fim pode ter salvação. Vê. Quantas imagens de memória cá dentro. Como se guilhotina um país com a ameaça do corte fatal de uma política algoz, implacável, predadora, voraz, pertinaz no rasgo impetuoso em bolso alheio. Vê o sufoco dos outros e talvez estejas em espectro na parede espelhada. Vê a hipótese. Pensa: quantos de nós sufocam estendidos? Quantos de nós se rendem ao aflito silêncio da cinza das horas. E quando as horas são cinzas é porque não há tempo. É porque deixamos de ser na cadência aflitiva de um calendário imaginário. Folheia-o. 

Vá, folheia-o e verás o gesto estendido da eternidade. Sem fim. Verás sempre um rasto. E um rasto é pedaço do que foi. Viste tudo isso ali estendido, no frio granito da calçada calada. Porque nunca falou. Porque a pedra desgastada nunca há-de falar até que nela repares, para que te fale da erosão. E erosão é vida. 

Onde há erosão há pedaços de vida. Refractárias vidas de alguém que por ali passou. Sim, há-de haver sempre corpos esquecidos no chão. Porque há. Digo-te que há. Há sempre etéreas existências carnais no caminho por onde passamos. Vidas alheias, não interessa. Basta sermos, para que queiramos comprar a eternidade. Hei-de ver o letreiro, num mundo onde tudo se compra. Vende-se, eternidade. 

Há-de ser um algoz implacável, em letras garrafais, a não ser que a compremos às parcelas. Aceita cartão de crédito?