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terça-feira, maio 31, 2011

Areias movediças

Estou confusa. Não sei se foi anteontem, se esta noite. Ainda por cima bati com a cabeça, ontem à tarde, à procura de um cabo inexistente para ligar a net ao computador no meu novo cafofo de trabalho. Não vi estrelas, é certo, mas há-de a pancada ter agitado alguns neurónios. E com isto nada quero justificar: mas sonhei com areias movediças; esperem: rewind, vamos ao cérebro, a memória ram dos sonhos ainda deve estar fresca, hum: não esta noite sonhei com outra coisa, coisa estranha de se sonhar, diz-me a sensação no peito, e ontem sim, ontem foi com lama muito viscosa e movediça. A imagem que vos criei é péssima, eu sei, quase tão má quanto aqueles desenhos animados macabros da Fox com bonecos fofos a serem degolados, mas também não sigamos tão longe; embora saibamos que pensar é acto de violência auto-inflingido, logo isso faz de nós um pacote um pouco masoquistas,com a advterência no pacote: contém pedaços "sado".

Volto: Atravessava a ponte. O carro fugia para o lado, alguém que não eu, conduzia-o diligentemente, mas a voiture acabou por guinar na ponte de tábuas de madeira. Caiu na lama. A porta não abria (ai que coisa), mas lá  a custo consegui e nadei em lama (chlop-chlop) até agarrar tábua. Não custou muito. Não sei se algum significado terá isto, se é que os sonhos realmente significam algo (e ainda o mês passado li artigo digno de lente, académico, estudado, entendido e testado, de que os sonhos não podem dizer muito sobre nada, uma vez que o cérebro adormece, e só uma pequena parte, parece, fica a fazer um rave sozinho; é: - já imaginaram alguns neurónios a curtir uns ácidos, numa qualquer festa privada de trance? é isso ; é: não há-de ser coisa boa de se confiar com a consciência alterada - embora quando a ciência e filosofia se juntam a coisa dê em algo como: a consciência não existe, é algo que o nosso cérebro faz ou produz...

Pelo sim pelo não, vou ali produzir umas reportagens a ver se a minha conta bancária ganha alguma consciência, então!

quinta-feira, abril 14, 2011

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência (e a coisa revela muito sobre o estado de -in-sanidade de uma pessoa)




Freudianos, Lacanianos, psicanalistas na sombra, filósofos do tempo e do encantamento, cépticos, sonhadores, oníricos apaixonados, uni-vos.


Juan Bastardo


Esta bem poderia ser uma obra de pura ficção, dominada pelo fantástico, não tivesse eu a certeza, certezinha, de que se passou dentro da minha cabeça, sem que eu sequer assinasse o despacho diário para autorizar os homenzinhos dos sonhos a picar o ponto.

Nada lhes pago, que estes dias de vacas degenerativamente magras dão uma certa tirania patronal, mas eles insistem em trabalhar regime lay-off, trazendo-me figuras, seres, personagens e cenários de outro mundo, que não o meu, e eu até gosto que me levem para universos tão distintos.

A memória onírica é uma coisa volátil, tipo missão impossível, por isso melhor passar a vias de facto, contando-vos, antes que ela se auto-destrua em segundos. 

Mas, primeiro, enquanto despertava de um mirabolante sonho - que pode até ser uma boa ideia para uma peça de teatro de ficção científica: uma peça de teatro, dentro de outra peça de teatro, estão a ver? - ouvi, do outro lado da janela, hoje, já o sol raiava entre as frinchas, com uma luz incrível, como se alguém tivesse tido a generosidade de pôr os watts do astro-rei no máximo, um som que me fez perder uns vinte anos (credo! agora entendo os cabelos brancos), levando-me para dias em que os guarda-chuvas iam para arranjar. Cessa-se a chuva e eles saem à rua. Melhor: saíam à rua, naquele tempo.

Não estranhei o som familiar. Já ontem ele, por ali passara, mas de qualquer maneira, lá veio o cérebro acusar que algo estava desconforme. O que fazia o som do assobio do homem arranjador de guarda-chuvas, ali, na rua, logo pela manhãzinha?

Eis que o som se aproximou cada vez mais. Até se materializar num homem de casaco cinzento puído, que enquanto soprava ar para o objecto do meu encantamento, rolava uma roda onde pude perceber alguns guarda-chuvas. Pois, claro: o bom homem leva os guarda-chuvas e devolve-os, quando arranjados.

Aí está: sustentabilidade, naquele tempo, era isso. Ainda não o tinham baptizado era com o termo capitalista. Hoje, se um dos nossos se estraga, há-de o lixo encaminhá-lo para o devido cemitério, com sorte. A chuva, portanto, não mais será guardada por aquele.

E eis, então, que surge o sonho. Andei a noite toda, parece, ocupada com isto: uma peça de teatro. O encenador, cujo rosto não me lembro, mas com ares de quem me conhecia bem, reuniu a malta e propôs um desafio para o dia da apresentação.

Não ensaiaríamos nada, mas iríamos trocando umas ideias sobre o assunto. Eu iria representar uma mulher madura, cheia de energia, conselheira, nem amorosa, nem desamorosa. O jogo consistia em arranjarmos os figurinos, tentarmos perceber qual a nossa relação com os outros personagens e inventar o texto. 

Só que, a meio destes nossos encontros, apercebi-me que com o iphone poderia viajar no tempo - e que o próprio iphone assumia formas de acordo com a época (ah tá, como se o iphone existisse desde sempre, né?): tinha teclado, não tinha, linguagem html, ou outra coisa qualquer.

Mas se alguém, ao mesmo tempo que tocava na tecla chave que me fazia viajar no tempo, repetisse a mesma palavra que eu no momento da viagem, essa pessoa iria comigo. Não me lembro da palavra, claro. Sei que ainda andei por aí a viajar. Vi amigos mais novos, com outro ânimo de vida, e em momentos cruciais de viragem da vida deles: uma censura que os mudou, uma resposta mal dada, mal interpretada que mudou o rumo dos dias que depois vieram...

E, quando voltei ao tempo do sonho dentro do sonho, era o dia da estreia da tal peça. Como andei nestas viagens inter-temporais, não tive tempo nem de fazer pesquisa, nem de perceber a minha relação com os outros personagens. Bonito!

Fui ter com o encenador e pedi-lhe umas dicas: como era a personalidade da minha mulher madura e que expectativas tinha ele em relação a ela: era uma mulher vivida, sofrida, amargada pelos homens, virgem, experimentada, doce, aziaga, que momentos na vida a marcaram, qual era a missão dela ali, naquele jogo de cena. 

Ele foi dando sôfregas pistas, evasivos adjectivos, sempre com pressa, com muita pressa: o público estava a chegar. Eu não tinha mais tempo. Três pancadas secas na madeira. Luzes. Abre-se o pano e eu ali, imposta para interagir e fazer do palco uma vida, um diálogo com consistência, fazendo com que parecesse que entre nós, éramos todos amigos de longa data, diferentes, mudados por algum momento crucial na nossa vida, que nos fez pensar e repensar que rumo, afinal, queríamos dar-lhe.

Há outros pormenores deste sonho que me lembro e nada acrescentam aqui, e outros que se foram. Esta semana vi um programa na National Geographic que falava sobre o sono, os sonhos, e os distúrbios dele.  Além do tempo, sou apaixonada pelo universo cerebral, pela neurobiologia da consciência, e o poderoso mundo enigmático da massa cinzenta. Nesse documentário desmitificavam a ideia de que os nossos sonhos são baseados em histórias que nos acontecem e que hão-de acontecer - em jeito premonitório.

Ali defendia-se que, quando dormimos, o racional desliga e apenas a biologia e um pedaço de massa a que se chama hipotálamo fica ali a processar, isoladamente. Ou seja, os nossos movimentos ficam à mercê, e talvez um "random" de conceitos chave passem por ali, durante a noite.

Simplificando: imaginem um gajo que sai sozinho à noite para fazer uma rave, toma uns ácidos e faz a festa. É mais ou menos isso que acontecesse durante o sono-sonho. 

Não me posso, por isso, lembrar de muito mais do sonho, pois o racional estava de licença sem vencimento por umas horas, mas lembro-me do texto que inventei para a peça de teatro e que bem pode atestar sobre o meu grau de (in)sanidade mental nestes dias de Primavera:

Os loucos são lúcidos senhores
desprovidos dos vícios da pele desta nossa cultura
desprovidos de códigos e linguagens da bolha poluidora dos defeitos que nos fazem reagir à opressão dos outros
Os loucos são esses que andam aí, a avisar-nos dos nossos egos
São medidores de honestidade
São realistas obstinados a dizer o que ninguém quer ouvir
Os loucos são isto, senhores, bárbaros incontroláveis da nossa condição
Loucos silenciados somos todos nós

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Diz-me o que lês que dir-te-ei quem sonharás...


Sonhos. Raramente me lembro deles, mas consigo perceber se foi bom ou mau, pela sensação do acordar. O aperto no peito para um pesadelo, a serenidade depois de uma onírica história.
Há dias sonhei com o escritor Miguel Torga. Andava a ler “Os Contos da Montanha” que a ditadura salazarista censurou – e Torga foi durante anos editor dos seus próprios livros.

A prosa deste livro é um caldo de mortes, acertos de contas, alguma bruxaria, traição e emigração portuguesa para o Brasil. Tem invernia, mãos gretadas, corpo amadurecido de sol-a-sol, rugas do gelo montanhoso, cristandade, desamores, republicanismos, cheiro a queimado da lenha ardida, mofo de casa de pedra húmida, silêncio gelado, resignação, mesquinhez popular. Está feita, então, a súmula do conteúdo, deixando à margem, claro, a erudita cozedura das palavras do chef Torga a partir de saberes populares, e o bom emprego da Língua Portuguesa, resgatando os adágios e a sabedoria das gentes do interior da nossa portugalidade.

Mas, voltando ao sonho, eis a razão deste post, além-literatura: sonhei com Torga e recordo que lhe dizia que não concordava com alguns contos daquele livro. Questionava-o sobre a razão da sua insistência na temática. Não me lembro do rosto dele, nem sequer da resposta, mas tive a certeza que a minha condição esponjosa, de me estender aos livros que leio, às músicas que ouço, aos filmes que vejo e, logo, à realidade que me envolve, pode ter benefícios (ou malefícios, claro) se deles souber desfrutar.

Imagino, pois, que posso escolher agora o meu usufruto cultural de acordo com o assunto que me apetece sonhar. Vou, daqui em diante, e sobretudo, ter mais cuidado com a aparência dos escritores que escolho para me entreter. Já pus de lado, por isso, os autores dos livros que esperavam na fila para este ano: Oscar Wilde, Goethe, Cesariny, Rubem Fonseca, Machado de Assis, Eça de Queirós (ao menos acaberei, por ora, o Mandarim)... Pelo menos por enquanto, numa espécie de quarentena a ver se a coisa se repete ou não. Não vá o diabo tecê-los, em sonhos, num pacto com Morfeu.  

segunda-feira, maio 31, 2010

Cuidados Paliativos IV

Regresso aos sonhos, ou como desvendar o segredo de morfeu, sem ser convidado

foto vanessa rodrigues, osgemeos, 2006

Tive uma série de ideias para os próximos tempos. Títulos de livros, exposições, fotografias, documentários, filmes, instalações artísticas, lugares, histórias de gente, ideias de posts, crónicas, projectos e ideias mirabolantes que podem revolucionar uma parte do mundo. Ainda que esse mundo possa ser apenas o meu. Suficiente, parece-me, para que seja um pouco mais feliz. Se me pagassem para ter ideias certamente já teria juntado o dinheiro suficiente para dar a volta ao mundo. Curiosamente, de manhã, já não me lembrava de nenhuma dessas ideias fantásticas. 

Acordei sim com a sensação de que, afinal, não tinha era dormido nada e passara a noite em absoluta e exemplar vigília, mas de olhos fechados. Talvez fingisse, embora não o quisesse, apenas rendida à vontade do corpo. Já me convencera de que ter o gravador na mesinha-de-cabeceira como fazem algumas almas geniais (outras de tão geniais, acabam sempre por se lembrar de tudo, revisitando os sonhos sempre que queiram) é a solução perspicaz e de escorreita eficiência para cumprir as deambulações nocturnas, ainda que em estado hipnótico pela embriaguez que pode ser o sono e o alheamento dos estado pós-sonho. Um caderno, talvez, também ajudasse. Mas falho sempre. As vezes em que isso acontece são tão raras, por isso insuficientes para me obrigar à diligente tarefa do pronto registo para que não haja desculpas. Falho sempre. 

Mas a ideia de que a memória habita um universo tão paralelo e longínquo da razão durante a noite leva-me a pensar num modo de induzir esse estado de pura criatividade, parece, como se pudesse revisitá-lo sempre que quisesse. Dizem que é isso que o realizador David Lynch faz com a sua meditação transcendental, e que já originou obras tão fantasmagóricas, quanto geniais, como o estranho mundo de "Inland Empire". Talvez ele tenha, assim, encontrado a fórmula que o leva a poder mostrar-nos quase tal qual o se passa nos seus sonhos, pela tela de cinema, com actores, que não sendo exactamente aqueles personagens que lhe habitam o onírico, se assemelham ao universo da sua cabeça e das lembranças das suas inquietações. A catarse. Uma cópia aproximada, vale mais do que não chegar sequer lá perto. 

Como não sou adepta de qualquer tipo de meditação – um pouco por incompetência, acredito – , a não ser as minhas prolongadas caminhadas e longas contemplações sozinhas em esplanadas a ver povo e , de certa forma, a atraí-lo - vou ter de arranjar uma forma de no próximo sonho encontrar a porta de entrada que me leva lá sempre que quiser, para que no meu mundo real, transfigure o que vejo, sinto, ouço, por mais abstruso que possa ser, depois, neste lado de cá em que se desperta com o relógio do telemóvel, e que o dia fina numa cadência similar, todos os dias. 

Morfeu conhece-me bem mas, dizem, não é de grandes confianças nem subornável. Em todo o caso não encontro nada que lhe pudesse justificar a troca, ou a querença de um suborno, sendo ele o administrador vitalício do lugar onde todas as coisas são possíveis.  Talvez tenha sido ele que me roubou essas ideias todas.