Respondo a A. e ocorre-me isto: "mereces um beijo do tamanho de ti". Há gente que merece beijos do tamanho do que elas são, gente genuína, com tanta leveza, com abraços ternos, lentos e amorosos. Ocorre-me tudo isto e pensar que tenho saudades de beijos e abraços lentos, sinceros, demorados, genuínos, do tamanho de mim. Escrevo-lhe e penso que há gente que merece, pois, beijos e abraços do tamanho do que elas são, amigos gigantes, intemporais, incondicionalmente presente, cúmplices.
Há, pois, na ausência do afecto do tamanho de nós o inevitável exercício à Clarice Lispector ("porque há o direito ao grito, então eu grito") com mescla de Caio F. e Drummond (os nossos meios silêncios).
Há, no entanto, gente que não merece, realmente, nem sequer beijos, nem abraços lentos, nem sequer um segundo da nossa atenção e andamos aqui a tentar perceber por que razão ainda nos preocupamos e dedicamos ao exercício genuíno da ternura, a quem não dá a mínima. Será sempre um desperdício de afecto.
Obrigada, A. pelo beijo de hoje do tamanho de mim.
Uma pessoa atravessa o Atlântico e parece que traz com ela a tristeza dos outros. Uma pessoa, faz ao contrário e parece que carrega de novo a melancolia dos outros.
A Hilda tem dias em que parece que carrega o peso dos outros mais o seu. Há-de ficar com um crónico problema de costas, ou a fibra lombar cederá mais rápido, que nem tudo se aguenta a analgésicos e paninhos quentes. Já lhe disse para se cuidar. Já lhe disse, inúmeras vezes, que ninguém merece arrancar-nos energia assim.
Se passamos o tempo inteiro a levantar os outros, mais depressa cairemos nós. Se passamos a maioria do nosso precioso tempo a injectar auto-estima e adrenalina nos outros, havemos de querer enfiar-nos na cama para dormir mais depressa, para que o dia passe, o peso adormeça até ao dia seguinte, e nos sintamos um pouco mais rejuvenescidos do cinzento alheio.
Mas ninguém aguenta tanto, Hilda. Ninguém aguenta anular-se assim, mostrar que tudo está bem, engolir rudezas e ausências de carinho, quando dás tanto. Ninguém aguenta estar sozinho, estando acompanhado. Estando tão mal acompanhado. Já te disse Hilda. Mas tu retrucas que nunca foste boa na escolha dos afectos. Falaste-me em dedo podre para escolher. Não te recrimines. Amacia com generosidade, e ensaia a presunção da inocência.
Eu sei que te digo muitas coisas que tu sabes, mas que não consegues encontrar a fórmula que te permita dar-lhe prática no dia-a-dia. Estás em casa, agora, por exemplo. Na inércia do desafecto. Estás em casa, a querer dormir, apagar o dia, com os olhos a quererem jorrar água salgada, mas não consegues, porque estás envergonhada de ti, o suficiente, para teres a certeza de que deixaste que te tirassem a energia. Deixaste que te tirassem o equilíbrio, quando tinhas prometido que não irias deixar fazê-lo. Demora tanto para chegarmos a esse estado.
Por que é que deixaste? Por que perdeste o equilíbrio Hilda? A demasia dos afectos é uma overdose que leva à perda de fôlego saudável. Respira. A uma anulação que te pesa, te faz cair e desejar adormecer até ao dia em que tudo passe. Para te regenerares mais um bocadinho e arranjares forças para o equilíbrio. Para não deixar que te roubem o equilíbrio de novo. É um volte-face, Hilda, eu sei. Eu avisei-te. Tu sabias. Mas estou aqui, de novo, para o que precisares.
Protegeste-te até teres uma incerta certeza de que valia a pena voltares a cair de novo para viver. Tiveste provas disso. O salto inesquecível que palpita de vida. Só assim valeria a pena, disseste. Quando tiveste a incerta certeza de que valeria a queda, porque alguém estaria ali para te apanhar ao colo.
E, agora, caíste, pelo excesso, pela demasia. E, quando viste, havia um vazio no final e nem uma sombra para te amparar. Eu estou aqui, Hilda, se quiseres. A uma certa distância, a praticar também a arte do funambulismo com alguma perícia e cansaço e, também, eu não estou certa - porque receio olhar lá para baixo; em frente, respirando, está uma certa superação - se haverá braços suficientes para me amortecer o corpo, caso não chegue ao outro lado da corda. Hei-de chegar Hilda. Havemos de lá chegar!
Voltámos à Hilda. Às vezes não tenho pitada de inveja dela. Imagino-lhe o turbilhão de vida e prefiro o meu aparente sossego, o sol de verão, os livros pachorrentos e as amenidades. Aliás, não sei se deva começar por elas, falando da sinfonia descoordenada dos chilreares que ainda ouço (não sei se cá dentro, se lá fora), do trabalho que me pede uma certa dança de limbo e permanente jogo de cintura (e logo eu que estou a perdê-la), a ansiedade, a aprovação do povo pelo governo Lula, das praias do Rio, ou da crise esmagadora que nos atrofia a respiração. Não sei. Esqueci-me de falar disso tudo a Hilda. Com ela as amenidades perdem, realmente, todo o sentido. São desnecessárias. Leio-lhe as palavras inteligentes, secas, maduras e absorvo-lhe as densidades como lições de vida.
Hilda inquietou-me. Inquieta-me sempre. Ela não anda bem. Aquele karma com os homens é um desassossego e, por isso, a miúda mergulha em doses de fluoxetina. Desta vez está apaixonada pelos dois. Chegou a haver três. Chegou a falar-me de quatro. Quatro? Oh, Hilda, o Diabo! Aquela paixão antiga, mal resolvida, que lhe revolve os sentimentos numa anarquia: acorda de peito apertado e olhos humedecidos, como lhe dói.
Tento sempre, firme.
- Hilda, temos afastar-nos de tudo aquilo que nos faz sentir mal!”; Depois ele é um imaturo, um rude, um parvo, contigo, mulher!”.
Depois, é esse amor, pesado, que a deixa ainda mais densa.
- “Pois, Hilda, não sei. Tens de pesar o que te faz sentir bem. O que vocês têm de bom e único quando estão juntos e entender-se. O importante é procurar os pontos comuns para lidar com as diferenças. E ceder naquilo que é relativo e não essencial”.
Hilda sufoca. As palavras não ajudam.
Um dia disse-me que gostaria de ser eu. Disse-lhe que ela não estava a funcionar muito bem dos neurónios.
-“Eu, Hilda?”
Não lhe recomendei em nada esta vida de apneia.
- “Hilda, todos temos os nossos problemas. Paciência. Concentra-te em ti e nos teus projectos: é o mais importante e permite-te crescer; despender energia numa construção autónoma”, aconselhei-a.
Ela é linda. Todas gostariam de ser Hilda. Ela discordou. Pegou-me na mão. Riu-se e deu-me um abraço. Pude, por isso, sentir-lhe o bafo de tabaco e um certo desespero no peito. Desânimo, talvez. Com a vida. E ela já lhe tentou pôr fim algumas vezes, sem querer. Sem querer. Ou por greve de fome, por achar o corpo esquelético gordo. Ou por causa de litradas de Coca-Cola com whisky que lhe trazia gastrites críticas para a cama, de estômago vazio. (“Oh, Hilda, cuida de ti, miúda!”)
Desta vez inquietou-me forte. Não que haja qualquer sinal de perigo real na vida dela, mas porque uma mulher assim não terá sossego nunca. Esta mulher é intensa. Um pouco insegura, com uma certa indecisão lá dentro. Arrebatada, apaixonada. Viva. Oh, Hilda, o Diabo! Está dilacerada, sempre, entre um dever antigo, um passado, do qual não se desvincula, e um presente que a deixa, por vezes, amargurada. Mandou-me o e-mail dos dois. Aconselhei-a a apagar tudo.
- "Mensagens, e-mails, fotos. Tudo, tudo. Em nada te acrescenta. Pelo contário. Infla-te a amargura. A tristeza. O desassossego desnecessário. Sai dessa. Sai de casa. Faz outras coisas. Comigo sempre resultou esse corte radical. É um remédio essencial, para seguir em frente" - disse-lhe, sem querer parecer dona das curas sentimentais.
- “Se quiseres”.
Como pode ela amar tantos homens em simultâneo? Aquela cabeça. Aquele coração. Aquele desatino. Aquele karma! Acho que foi por isso que me lembrei da brincadeira que ela sempre fazia, das poucas vezes que fui a casa dela. Desafiava.
- Queres ver como tenho um karma que não controlo?
Dava-me o baralho do tarot, e pousava o livro com a explicação dos símbolos na mesa, para que lhe lesse em voz alta o que ela já sabia, assim que a carta saísse. No início entrava de boa, na brincadeira. Depois aquilo começou a assustar-me, mas não podia contrariar-lhe os humores. Ela andava sempre sensível.
Eu baralhava as 78 cartas. Fazia questão de misturar quase uma a uma. Ela não teria como saber. Inspeccionava as marcas. Mas depois, para que não houvesse dúvidas, a Hilda fazia-o de olhos vendados.
Das cinco vezes que ela o fez, em cegueira infligida, saiu-lhe o Diabo. Era a carta dela. Hilda, o Diabo. Ela ria-se em voz alta. E eu lia-lhe o que ela já sabia.
- “O Diabo manifesta o destino (bom ou mau). Revela poder de sedução, impulso cego, tentação, obsessão. Manifesta desvio sexual. Estado mental (confessional). As paixões carnais descontroladas. Posição invertida revela carta daninha, fatalidade, mau uso da força. Fraqueza , cegueira, desordem. Efeitos maléficos. A patética condição humana que prefere a ilusão, à verdade”.
- Desvio sexual; patética condição: sabes que patético vem de Pathos, Van? É sofrimento, em grego; que simpatia é partilha de dor?
- Sei, Hilda, sei. Mas já chega destas parvoíces.
Ontem, ela reforçou-o.
– O Diabo, Van. Saiu o Diabo. Ahahahah.
E parece que lhe ouvia as gargalhadas. Penso nela e estilhaça-se-me uma certa condição de ansiedade, por ela. E por aquilo que a vida pode ser, quando o tempo de infância e de tolerância para sermos alguém passa. E não acho que isso possa ser delimitado. Por muito que tentemos nunca estamos preparados para o ser. Ah, Hilda, o Diabo!