segunda-feira, maio 04, 2009

Bielman A. diz

A minha garganta secou. Os pés arrastam-se em sofreguidão para te encontrar. Ou para recolher da terra o vestígio do que resta de ti, desde que me arrastaste para este sussurro de perseguição vadia. Os joelhos rangem. A boca desértica diz-me que o teu amor táctil sempre me foi estranha paisagem que tentei mudar. De lá, arranquei todas folhas vermelhas que cresciam da terra. E comecei a semear as gotas de sémen que escorriam solitárias depois das noites de insónia. Rasgo-te. Como te rasgo! E rasgo os pedaços de sociedades putrefactas, hipócritas que me arrastam a um dever social de amar duramente quem saiu do mesmo ventre que eu. Enterro os pés na gravilha, como penitência das imagens que faço de ti. Esfrego-me na terra para nascer de novo, e deixo que a sujidade se entranhe para me purgar, vergado.

#"Foges-te"..# *


*"Foges-te"- Não me parece que caiba no dicionário comum uma "palavra" tão exacta para designar algo, alguém, coisa, semi-ser, que foge de si próprio na ansiedade de chegar a ser outro que não ele. Daí este "Foges-te" ser possível neste blog e, pretensiosa e propositadamente, enquadrado num dicionário vanessiano.

quinta-feira, abril 30, 2009

Fixa.ções Bielman A.

Cidade-Fantasma

Têm cheiro a paredes velhas e bafo amadeirado, suado, de casas usadas. Fumam a vida como éter. Puff! Esvão-se em pó velho. Têm tinta nas paredes para esconder o sangue das ditaduras. A das palavras e as silenciosas. As mais perigosas que deixamos entrar. Abrimos a porta. "Clav...Clic..Rank". Deixamos que ela se meta na cama como uma amante discreta: dissimula os cheiros do cigarro, não usa batom, nem perfume, só o do corpo depois ido com sabonete neutro; e tem sempre uma camisa a mais para ele com o número exacto, a marca precisa que enganaria a mais exímia das mulheres e é especialista em produtos anti-sépticos contra a polícia conjugal. As cidades-fantasma que habitam em nós são assim. Aquelas que metem as amantes numa casa vazia. São lugares esvoaçantes, idos, que deixam o lixo povoar as ruas, as casas, e toda a beleza de uma brisa tardia sem rasto, exangue, silenciosa, em neurose com a memória porque nunca existiram.

terça-feira, abril 28, 2009

Luxúria...


Estava longe de “abismar-me”, do ruborizar do “embaraço” e bem distante de qualquer probabilidade remota de “ascese”, quando o livro de Roland Barthes “Fragmentos de um discurso amoroso” (1977), na estante do 11º andar com vista para o Museu de Arte de São Paulo, onde moram Anna Ullic, Lorac Ahnisuol, Mu e MadMax começou a magnetizar-me. Claro: num desses olhares lascivos e com segundas intenções que só livros com uma certa maturidade e sabedoria sabem fazê-lo a miúdas despreparadas, como eu, para digerir o que é o Amor, afinal, sobretudo quando ela está acabada de aterrar à cidade que é, essencialmente, o Amor Líquido de Zigmunt Bauman levado ao êxtase.

Folhei-o, portanto. E lá encontro Racine, Freud, Werther, Jung, Sade, Stendhal, Nietzche, Baudelaire e mais uma série de falhados no amor, mas com muita classe e sapiência na arte da orgia, qualquer que ela seja – e desta leva Sade é mestre na cantilena. São outros tempos, pensarão alguns. Mas eu digo, que não. Os "tempos" são, sensivelmente, os mesmos. As neuroses é que são mais crónicas, porque muda a nossa vontade de transmiti-los. Os meios. E nós recalcamo-nos, por isso. Os mesmos animais amorosos individualistas com medo de saber que a intensidade dos laços valem mais que os desafectos e o medo de peito amargo, pesado, rasgado por nadas.

Saibam, então, o que Barthes tem para nos dizer de palavras como estas, baseando-se nas entrelinhas de alguns dos autores desta história.

Abismar-me.
Me abismo, me sucumbo. Lufada de aniquilamento que atinge o sujeito apaixonado por desespero ou por excesso de satisfação. Sartre: desmaio para escapar a esta compacidade.

Catástrofe. Crise violenta no decorrer da qual o sujeito, sentindo a situação amorosa como um impasse definitivo, uma armadilha da qual nunca poderá sair, se vê fadado a uma destruição total de si mesmo.

Cena. Troca de contestações recíprocas. Sade: A cena é luxuosa, ociosa- tão inconsequente como um orgasmo perverso: ela não marca, não suja. Paradoxo: em Sade a violência não marca – o corpo é restaurado constantemente.

Carta- A figura visa a dialéctica particular da carta de amor , ao mesmo tempo vazia (codificada) e expressiva (cheia de vontade de significar o desejo).

Desrealidade. Sentimento de ausência , fuga da realidade experimentada pelo sujeito apaixonado, diante do mundo..

Louco. O sujeito apaixonado é atravessado pela ideia de que ele está ou está a ficar louco.

Querer- Possuir. Ao compreender que as dificuldades da relação amorosa vêm do facto de que ele está sempre a querer se apropriar de um modo ou de outro do ser amado, o sujeito decide abandonar a partir de então todo “querer-possuir” a respeito dele.
Em Wagner p. e.g. "O outro deve-me aquilo de que preciso".

Rapto. Episódio tido como inicial para o sujeito ser capturado e encantado. Freud chama-lhe efeito hipnótico.

Saídas.
Soluções enganososas, quaisquer que sejam, que dão ao sujeito apaixonado um repouso passageiro, apesar do seu carácter quase sempre catastrófico; manipulação fantasiosa das saídas possíveis da crise amorosa.

sábado, abril 18, 2009

quinta-feira, março 26, 2009

terça-feira, março 10, 2009

domingo, março 08, 2009

Pessoal e ....transmissível"

Deliciosa esta entrevista do jornalista Carlos Vaz Marques, TSF, à cantora africana Oumou Sangaré. Nasceu em Bamako, no Mali, em 1968.


"Foi abandonada pelo pai na infância, foi mutilada sexualmente por uma tradição contra a qual se revoltou mas decidiu chamar 'Alegria' ao novo disco que agora está a lançar". Uma lição sobre feridas saradas, perdoar e cultura maliana.
Entrevista, TSF, Oumou Sangaré

quinta-feira, março 05, 2009

Ras.cunhos

Já somos demasiado novos para envelhecer e demasiado vividos para perceber que aquilo que realmente lapida - a ventos, lágrimas, sorrisos, abraços e texturas - em nós são os olhares que nos deitam e importam; a pausa dos silêncios que aprendemos a partilhar e o chão em que nos sentamos como antídoto a cadeiras com assento falso. E as brancas são sinais de pausa, fôlego, ardências. Deixamos de ser sedas nas palavras e passamos ao veludo, que não agrada a todos, arrepia, repele. Se deitado devagarinho quase é talco de bebé. É quando o relógio deixa de importar e só queremos espremer cada laranja-lima para aproveitar o doce e entregar à terra o que é das entranhas para voltar e sê-lo. Já somos demasiado conscientes e impuros para acreditar em nuvens de algodão, mas passamos a vida a lá querer voltar, arranjando desculpas para o fofo dos abraços. E a serenidade do rosa-fucsia do amanhecer.

Uma vez aprendi com o dia. Só se nasce luz-a-luz depois das trevas assistidas a lanternas para dissimular;e que duram breves grãos caídos de um centésimo andar vezes mil. Visto de lá, achamos que nunca chegamos a sê-lo. Porque nunca resgatamos do baú os sonhos que ainda havemos de fazer e-que-nunca-os-faremos-se-não-os-começarmos. É que os acasos existem porque estávamos atentos. E os sonhos acontecem porque calejamos os dedos, ampliamos os olhos, acordamos sem despertador para seguir o instinto e gastamos a pele da perseverança para que seja. Achamos que devem ficar quietinhos na textura das páginas do inconsciente colectivo, mas passei a desligar-me do abecedário em massa para começar um dicionário vanessiano. Na realidade sempre o tive. E mais do que imaginava está lá resgatado, escrito por todos os que lapidaram em mim; construído por capítulo de resgate. Não para sobreviver, mas como lembrete das histórias que comecei e encerrei; das que ainda estão para escrever a tinta invisível; das que nunca serão escritas mas estão lá; das que comecei e recuperei; das que recuperei em queda livre e perda de tempo; das que ainda não estou preparada para ler em voz alta; das que grito e se riem; da l i b e r d a d e com sinónimos de pôr-do-sol, arco-íris, mochila, olhar, pensar… Talvez nunca lá cheguemos até sabermos que os borrões da vida são muito mais importantes que os arquivos codificados que nos obrigam a criar. E se este texto é demasiado vanessiano para se perceber, não importa. É só um rascunho…

sábado, fevereiro 14, 2009

Mondo.tagem

Será que ninguém crê, isso sim, que as mais recentes imagens do Fidel Castro com Cristina Kirchner, Michel Bachelet, "and so on", têm algo de muito errado? Ninguém suspeita que são fotomontagens? Tenho feito o papel de desmancha-prazeres, mas ninguém me convence do contrário! Talvez estejamos demasiado insensíveis à farsa. Vivemos nela há demasido tempo para saber distinguir, nesta altura, o que é real, ou fabricado!

Castro e Bachelet

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Todos os nomes

Seja com o mar a servir de escalda-pés; seja com o manto azul de um céu cinematográfico a dar-nos uma lição de liberdade; seja com um lago imenso, que mais parece mar-de-noite-sozinha a servir de espelho para a redonda luminosa lá em cima, insinuante no manto negro do tecto do mundo, só com o silêncio; nós somos aquilo que parecemos para os outros e nada mais. O que já fui, bem sei, em cada linguarejar esdrúxulo! Em cada país que me reencontro com o espelho, percebo que há uma profunda ideia de nós, no mundo! É: quando me olham e vêem o que está além. Lembro de cada nome que disseram que tinha, como se rasgassem o meu em pedaços e eu nascesse de novo. E com o olhar e palavras serviram o ritual de iniciação: é! À conta disso já fui Joanna de um pescador em Cabo Verde; Lis para as amigas do Rio; Marta para o amigo da amiga; Débora para uma professora; Helena, Leonor, Clarice, Va, Van... silêncio...e Luna! Talvez a mesma que eu vi sobre o lago que parecia, que parecia mundo!

terça-feira, fevereiro 03, 2009

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Anatomia de mar


Há maré alta domada pelo vento desgarrado que leva os grãos aos olhos e embacia a alma dos barcos. Há brisa forte que é leme e bolina, desalinhados nas coordenadas de ondas já mareadas e que hoje despertaram mal-humoradas pela frieza da neblina.
Dizem, os mais antigos, que Janeiro é assim, um tempo de expiação na costa do Sal, em Cabo Verde. Com homens de pés nus, escamados, gretados por lágrimas de um mar vadiado, mãos sulcadas por cordas envelhecidas, ásperas, rudes, virgens de terra e sábias na arte de segurar o peixe roubado à água. Depois há barcos que perderam a conta aos segredos sussurrados. E levam cultura nas tábuas coloridas.

Ainda não são 9h da manhã e o sol já queima a pele escurecida do Hermes. Tem olho de criança, ternura adoçada. Mas hoje está zangado. A sobrancelha eleva-se quando fala, os lábios endurecem e a magreza responde com o corpo hirto. Em gestos acelerados, irritados, ignora as palavras de boca cheia que Itu lhe diz como rixa de adolescentes. Já se fizeram homens, mas há nesta nossa maneira de viver um certo deslize quanto ao tempo presente, que nos leva lá para o despertar das hormonas.

Cabelo arrepiado, pele espicaçada como gato ameaçado. Quase guincha com o corpo. Num só golpe de braços no ar, pega no cesto de plástico. Arrasta o peixe para que Itu não se esquive a tirar-lhe a clientela. Contorna a multidão que se vai como íman à única pescaria que chega aqui a esta hora. Agarra na faca, mergulha as mãos no peixe e zás-flit-flit: vai escamando a pele do desprevenido. Talvez turvado pelas águas aflitas; talvez ludibriado pelas redes labirínticas que as mãos fizeram para não escapar.
- Hoje só há este, que o mar não quer dar mais, diz Hermes. E olha irritado, concentrado, com resignação - que é como quem quer desabafar que a culpa é deste vento endiabrado que Janeiro mandou dar.

Depois, mais cortes afundados. Rasgos que soam a tecido rompido. Sangue que pinta as mãos. E, a esta hora, o pontão já está, de novo, impregnado de escamas ásperas; e envaidecido com os reflexos dos corpos que ainda resistem às agruras do vento devorador. Sacode. Sacode. Levanta as escamas expulsas. E como a fúria do corte acalmou o pescador de olhos ternurentos! Agora, já o sangue do olhar voltou ao crioulo doce da fala. Talvez espere, que da mesma forma, o mar perca essas rédeas revoltas e lhe siga o exemplo. É que alma de pescador ternurento já sabe que é mar...

quarta-feira, janeiro 28, 2009

terça-feira, janeiro 27, 2009

Sabe-me a pouco...


Dali escorregam hormonas que só crioula sabe domar. Nada contam ao vento, que fustiga esta costa de sal adocicado. Há crónicos paradoxos como este que só se explicam com as mãos enroladas na areia e o beijo rasgado da brisa antes do tempo. Em jeitinho atrevido que só os olhos pedem para não denunciar. Como é que Sal não sabe assim quando molhamos os lábios com a língua para saber o que é o vento nos traz, ali, a ver-o-mar? Não há afectos que partam destes portos. Nem sabores que se desconheçam. Não se sabe o que há. Sabor de relento. Sede de mar. Aqui resta o amor do tempo perdido e a sageza dos humores do paladar. Há pessoas que sabem doce, ainda que não as provemos. Depois há o manto rudimentar sedimentado. Pontilhado de rochas que já o foram. E ele enterra os pés, secos e rugosos de quilómetros queimados em grãos sempre novos, desconhecidos. Raspam sim, como se estivessem a ronronar um prazer displicente por serem assim massajadas por pés pesados. E o suor que lhes escorre gotejando pelo corpo nu, portentoso, em chocolate- derretido-queda-livre, maliciosamente exibido em birra contra a luz. São pés que lutam por direito a um leve roçar redondo na amante promíscua em cada toque. Ela já não sabe quantos dedos a envolveram num encantamento de fim de tarde. Saltou, rebolou, bruxuleou como vela, rodopiou, rasgou prazeres grão-a-grão, voou em tiro livre para redes alheias, sem dono, em cada posição adversária. Essa bola, amante fácil, que precisa do movimento alheio para se exibir, como as hormonas destes corpos dedilhados por luz com sede de mar. Paridos ao relento, filhos de Sal, de água e de vento gotejado. Como será?

sexta-feira, janeiro 16, 2009