quinta-feira, junho 11, 2009

quarta-feira, junho 10, 2009

Anatomias de liberdade

Chove lá fora, como agulhas pontiagudas lançadas do céu. Às vezes ela pensa que alguém acorda, lá do alto bem alto - no fim de um paradoxal infinito vertical- abre a janela e começa uma rumba de tiros ao alvo cá para baixo. Não vê nada. E em vez de pequenas gotas, envia ponteiras de água para se vingar. Por isso, as árvores vergam-se para as deixar passar, mesmo sedentas. Habitadas por pó, fumos, rejeições e intempéries, que as esfacela. Abdicam do vento. E enrolam-se umas às outras no esforço contínuo de viverem mais um pouco agarradas aos galhos.

Agora, as janelas das casas assobiam com rajadas de ares que trespassam os tecidos de Inverno colados aos corpos impreparados e arrepiados como rugas de pele de galinha. Eles não reparam. Olham-se. Engasgam palavras. Cada um mergulhado em silêncios abstractos. Deixam passar. Lá fora, milhões de formigas humanas, passam ininterruptamente agarradas aos casacos impermeáveis, como salvação do frio que esgarça a réstia de calor. Ouve-se o tilintar das chávenas. Os passos arrebatados na calçada. A máquina de café em som locomotiva –a-vapor.

– Todas histórias de amor deveriam ser breves.
- Como assim?
- Princípio, meio e fim.
- Mas isso tiraria os efeitos secundários.
- Por isso mesmo, não deveria haver. Já não temos idade para isso. E deveríamos saber quando seria a hora de deixar ir. Até que outro vício nos arrebatasse a alma.
- Beauvoir e Sartre viviam assim, separados, não só por princípio, mas porque não queriam ficar “estranhos” ao amor. À sensação de liberdade. Ou seja estrangeiros à vida.
- Nunca tinha pensado nisso. Mas não é disso que falo. Quero dizer: mais do que liberdade. Uma certa leveza que as histórias independentes nos dão, antes de se tornarem comuns. Com a idade deixamos de ter paciência para as histórias em comum e apenas nos satisfazemos na autonomia de um e outro, para cruzarmos, por vezes as experiências, as singularidades e, claro, aquilo que nos une. Como curiosos pela anatomia do outro.
- E à medida que deixares ir, vais agregando.
- Claro! Há dezenas de pessoas que te enchem a alma e que por decoro social não te permites estender a elas.
- Goethe falava disso ao falar do jovem Werther: “Nada melhor do que uma alma que se estende a nós”.
- Mas Werther era escravo da obsessão. Esses amores arrebatados são pesados e não libertam. É ainda mais sobre aquilo que dizes: quantos não se estendem a nós? Vê lá. Quantas pessoas já se estenderam a ti? Como se fossem, realmente, parte de ti?
- Três.
- E no final?
- Nenhuma.
- É isso. Perde-se a leveza com o desgaste. Não estamos ainda preparados para reinventar a paixão. E é nessa liberdade que nunca chegaremos lá. O encantamento é um vício que só se vive um momento em cada história. Se descobríssemos como reviver isso sem efeitos secundários, seríamos mais leves.
- O problema é que tudo é líquido. Não estamos preparados para partilhar. O que dizes é uma tentativa de fugires de ti.
- Nada! É a minha curiosidade pelos outros, e de achar que há sempre mais para viver. E que não temos de ficar presos a nada, a não ser à nossa liberdade de viver e olhar, exactamente como estamos preparados para ser.

O guardanapo voou. Caiu na calçada. Em segundos embebeu-se de chuva, que nunca tinha provado. Em segundos os passos apressados desfizeram-no. Em segundos respirou e voou. Viveu efémero. Um fôlego. Um rasgo.

Escorreguei no teu vinho...(Mais uma série de ficções)

A noite até começou molhada… Escorregadia. Mas longe de imaginar o que aconteceria depois. O deslize, esse. Ela dizia que era chuva oblíqua. Lembrei-me de Pessoa, o Fernando, que a descreve como rasgos desesperados da alma. O céu estava assim. Quase 22h e nós a olhar do alto do 11º andar. A cidade neste ciclo é uma mulher em pleno ataque de nervos, com overdose de TPM.

-Vais levá-la?
-Não, estás louca! Com este temporal. Tem de ficar na garagem. Esperamos lá em baixo que passe um táxi.
-Não, espera! Rua Monlevade, por favor. 15 minutos.
Aperta o botão. Aquele cheiro a madeira antiga andar a baixo, “click”.
-Vamos directas, melhor!
E esquecemo-nos do número. Só a Rua. Ali, na M.A. E o trânsito não tem solução. Pára-arranca na Paulista. Um verde-arranca que roça o vermelho-simbólico. Parados! E o taxista a insistir que eu era Corinthiana.
-E você, Palmeirense?
-São Paulino.
Entrou a "Portuguesa" ao barulho: o Clube. $ 13,70. 604. É este aqui!
-Viste as portas? Parece uma masmorra. Cárcere.
-É assim que vivem os paulistanos. Um dormir descansado enclausurado. É frio, sem nada. Paredes nuas.

Resgatamos o calor da casa. Na cozinha. E saltamos para o que importa: as caipirinhas, onde realmente começa a noite, e a sessão de abdominais louca-risada, remédio-malhação-perfeita-sem-grande-esforço-anfetaminas…

Ok, o sotaque estava lá. Ok, a camisinha dele até que tinha o ar da sua graça imigrante-geração-surf-eu-até-que-sou-jovem. E ok, as caipirinhas eram óptimas.
-Sabia que o morango é o fruto da paixão?
-Hum, sei! “Mas ‘passion fruit’ é a verdadeira e até que significa maracujá” – pensamento anulado segundos antes de cometer a heresia de dizer uma piada árida, quando a noite até tinha começado húmida.

-Eu conheço este senhor! (contaram a piada vezes sem conta a uns e outros que iam chegando, com sessões gratuitas de “la risada therapeuthique”, mas nunca encontramos a forma fidedigna de atingir a pureza e autenticidade da boca de onde saiu).
-Acho que já me foi apresentado! É director de uma empresa portuguesa qualquer. Espera, nem sei. Eu até achava que ele tinha sido contratado para fazer as caipirinhas.

“Laugh situation em OBS”: as piadas só têm realmente piada quando inseridas em determinado contexto… Excepção: esta terá sempre piada e quase iniciou um “sitcom-made-in-sampa”. Mas o rolê continuou. O B. está cá há dois meses. E D. resolveu dar uma lição a valer sobre como-comprar-bem-e-caro na Óscar Freire:

-“Querido, presta muita atenção na decoração das lojas. Isso é essencial aqui em São Paulo. Só assim você sabe se a loja é de qualidade, ou não. O mesmo está valendo para Restaurantes”.
Ao que F. se insurgiu em surdina, depois do relato:
-“Nisso tenho a teoria do meu pai: se o Restaurante estiver vazio, não entro. Nem que tenha de esperar na fila muito tempo, é lá que fico até encontrar um lugar à mesa”.

Já não sabemos é se essa conversa foi antes ou depois do diálogo astro-esotérico, com atendimento "Web-cam" desde o Brasil. E, depois aquela imagem: um metrossexual é sempre um ser esquisito digno das páginas da "National Geographic". Lá estava ele: Cintinho milimetricamente estudado para ser desalinhado. O mesmo para o cabelo. Um riso oco e sem vontade, mas aceite socialmente, diz a etiqueta. E tenho dúvidas se aquele discurso era real, fabricado ou improvisado-fajuto que todos fingiram acreditar.

A noite até nem ia nada mal, não fosse F. entornar vinho na cadeira alheia, M. começar com discurso pró-Serra, e G. (não o ponto, o Gajo) querer brindar aos portugueses com a namorada de L. de RG brasileiro (pior a emenda que o soneto):

-“Ah, pois não pode ser só um brinde aos portugueses, está aqui ela! Ok, brindemos, então: aos filhos dos portugueses”.
OOps!!! Fazendo com que a moça enrubescesse e L. emitisse biologicamente um engasgo controlado que passou para o olhar fulminante entre um “cala-te–lá-que-agora-é-que-me-vais-arranjar-problemas” e um "não-sei-que-te-faça-agora-se-estivéssemos-sozinhos".

De resto, não sabemos absolutamente nada do que se passou na antecâmara ao lado, as fontes não se manifestaram e não houve nada, realmente, NADA, que fosse estridente e mediático o suficiente para que tivéssemos reparado. Zoom in. Sala para onde interessa, com vista para a M.A.: M. estava a passar despercebido, como um pano molhado que suga vinho, depois da peleja pró-Serra que motivou uma conversa intelectual sobre o mercado brasileiro, até que, num surto psicótico,M., gajo, dá um beijinho na cara de L., Gajo, com a namorada ao lado - possivelmente a ponderar seriamente se valeria a pena ter filhos de portugueses.

-“Querido, faz uma vasectomia que é melhor, sempre pode sair alguém parecido com M.!”, pensaria!

Depois X. entediado, e com a lata de gelo na mão, disse que tinha de se ir embora pois no dia seguinte, intensa actividade física, seca - assegura - o esperava, na fazenda de alguém importante, que ninguém sabe que tem um caso com alguém proibido, depois de uma fotografia papparazzi ter vazado na internet. Sim, ninguém sabia até ali. O segredo está portanto muito bem guardado. Se agora me esqueço de algo é porque a minha religião não permite, não é digno de registo, ou a minha memória de mulher "pós-moderna", filtrou como deve de ser o que realmente não importa mais…

Next stop: J. Eugénio de Lima, mas antes uma incursão pedestre pela Óscar Freire – eu, herege, me confesso, porque que não prestei atenção à decoração interior das lojas, ainda que as luzes estivessem num momento “penumbra-by-light”.

Começou, depois, uma conversa escatológica sobre as razões de F. e A. quererem frequentar a JAL, antes do Charme e do glamour da Augusta. Mas a recepção da Eugénio veio a confirmar-se mais eficaz …. No canal erótico na recepção de A. e F. com cenas “Sado-maso” e "gajas boas" (acho que não eram de Ermesinde).

O Charme deu-me alucinações: parece que vi o Axel Rose, versão piorada e em plena crise adolescente; M. confessou ter o hábito de se levantar de madrugada para sugar tudo que existia de Fórmula 1 – (Convenhamos que há coisas piores, poderíamos não reparar na decoração da Óscar Freire). E mergulhei num estado de primeiro sono que quase me estragou a noite às 4h da manhã. O café intragável salvou-me a honra, para aquilo que seria, segundo F. e A., a minha real primeira vez, para roubar a virgindade de Augusta (olha que este também daria um título genial).

Foi então que nesse Vegas “huntz-tch-tch-puntz”, vimos o pai Natal sem barba "shaking-that-ass"; mexemos o corpo como quem leva pequenos choques e sai da maca para se sacudir ainda aturdido, como se o corpo regurgitasse em forma de espasmos; vimos o Pai-Natal novamente; a malta dancing queen no engate e a dançar como se os ombros se fossem desfazer percorrendo, liquidamente, as veias como ondas electromagnéticas que expelem pelos dedos; e vimos o Pai Natal a dançar de novo, desta vez num pára-arranca de quem quer andar mas não anda. Sem barba, já o disse? E nós ainda a abanar o corpo como adolescentes na sua primeira vez nas lides da noite, até ser dia. Sem o sabermos assim seria. Até que num vai escada-acima-escada-abaixo-escada-acima ficamos com a mania de dizer: o SOM-AQUI-É-SEMPRE-MUITO-BOM, mesmo que já o tenhamos dito nessa giga de cima-e-abaixo. “Click, blat”. Mais uma cerveja, o líquido âmbar que cai aveludado pela garganta depois de um primeiro teste na boca.

-Stella? Como é que pedes Stella Artois, aqui?
Ou ele estava bêbado, ou com surto de imersão antropológica a fazer trabalho de campo, e busca de respostas inusitadas, ainda às 5h da manhã, seriam? Mas o mais inusitado seria isto:

-O meu primo tem a mania de me apresentar pessoas a altas horas da matina, que não conseguem manter um diálogo e que certamente não se lembrarão de mim no dia seguinte!
Mas foi o primo, o lúcido, no passo seguinte. A. dixit:
-“Não se assustem, lá fora com o sol. Vai ser dia!”.
Dúvidas… E os óculos de sol imprescindíveis, quando ainda a música ia alta e a porta se abria assim, na escuridão do que seria ainda noite, para nos dar o dia…
-Este aqui é o D-Edge né? Vim de propósito aqui mostrar aos meus amigos este bar: o D-Edge né? Muito bom!
-Tá louco cara, aqui não é o da D-Edge não. Aqui é o Vegas. O D-Edge é lá na Barra Funda.
-A sério? Que bar horrível então. Legal é o da D-Edge.
Com este diálogo começaria portanto um novo capítulo nesta saga. Ebriedade. Ah, antes de chegarmos lá temos de passar em todos os botecos da rua.
-Ah, há um que é onde tem mais drogados. Isto é São Paulo. Perdon, una copa?
-Oi?
- Ah é muito legal aqui, com estes copos todos. Mal-educado, não tem sentido de humor. Bohemia ou Brahma?
-E tu? Não bebes nada. Ah fraquinha. Estás bem?
-Gente vamos embora. Aqui já deu o que tinha a dar. Então, bom dia, é isso! Ah, você é da Gol? Ah, TAM, muito bem. E você chora sempre que ele vai embora? E vai voar? Ah, não fala nisso não.
-Olha um pólo igual ao teu. Com crocrodilo, em preto. Boa? Na mesma loja.
-Ah, vá não me deixem para trás. Até fiquei com medo.
-Olhe, você é daqui do Savoy? Sabe quanto fica um quarto.
-Depende?
-Ah, para três? Oi? (Mãos devem ter deslizado no suado. O gole da saliva deve ter sido em seco. As pupilas dilataram e os olhos esbugaralham). Como assim? Ah é que a gente está sempre junto e só fazemos tudo os três. Não tem jeito. Mas você sabe quanto fica um quarto aqui para nós?
– Ah, para três é difícil, não dá não. É só para duas pessoas.
-E como a gente faz para três?
– Mas quanto tempo seria? Ah, até eu g...
(Glup, de novo, desta vez com um trago mal dado da saliva que saiu ácida e em velocidade azia. Ahhck).

-3 horas?
-Ih, você acha que três horas chegam?
Enquanto isso o segundo elemento contorcia-se de risos convulsivos encostado a uma parede e o terceiro elemento, que entretanto assistira a tudo em primeira fila, sem proferir uma palavra, ainda em estado de choque.
-Mas vai lá perguntar, talvez eles possam te ajudar. Vai lá, vai.
-Como você se chama? Valeu Tiago. (E o Tiago com certeza a partir de agora poderia brilhar no circuito das amizades com uma história assim transformada em piada que pareceu, afinal, ser muito séria.

Os próximos passos têm duas letras: BH… O mais famoso lugar da Seleta na Augusta. Para um prato feito às 8h da manhã e a destoar um suco de goiaba e uma salada de frutas do segundo elemento, entre o sei-lá-o-que-comerei-só-não-quero-arroz-e-batatas-logo-pela-manhã. Mas acabou por depenicar o arroz de A., que por sinal estava óptimo. A dar sinais de fraqueza o primeiro elemento, que entretanto ainda não tinha gozado, começa a baixar a cabeça, até que M. o cara do "não-não-não-não-não-tem-problema" chega com ar dúbio e desconcertado. E ainda tinha de rodar os olhos até uma qualquer cidade do interior porque era dia das mães e ele, afinal, ainda não tinha comprado a prenda que queria. Por esse andar talvez não comprasse nunca e usasse aquela resposta óbvia e obsoleta: você quer melhor prenda do que eu, seu filho? Ahhhh,pois então…

A. mostrava cada vez mais sinais de irritabilidade. Levantou-se de zás-final-é-agora e pagou. Nunca mais lhe sentimos o rasto. Restou uma mesa a dois. Uma salada de fruta inacabada, com banana. Arroz por comer. E a manhã ali tão alta… A Augusta assim é um antídoto contra a crise e onde o mundo se refugia para expiação. Céu, inferno, pecado e abolvição. Perdição engenhosa para cuidar das coisas da alma e da insónia. Anti-depressivo que se dissolve na alma, em vertigem de vícios irreparáveis, irreversíveis. A noite terminaria assim. Num começo de um dia. Com expiação.

P.S: Ah, é verdade! Escorreguei no teu vinho… A sapatilha ainda plissou no líquido frutado que se entranhou “no chão daquela varanda”… Oops! Olha, bem vistas as coisas esse poderia ser o título do livro! No chão daquele varanda… Quinky?

terça-feira, junho 09, 2009