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quinta-feira, dezembro 31, 2009

Quantas vidas tem um ano?


Gosto do fim-do-ano. Da ilusão do tempo, que teimamos em carregar de peso linear, como se ele fosse o elixir de uma nova era de salvação e como se, de um dia para o outro, fossemos expiar todos os “pecados”, heresias pessoais, ou as incapacidades crónicas que não fomos capazes de mover de nós. Divirto-me com isso, num jogo pessoal de desafios. Afinal, o que fui capaz de expiar este ano? O que mudou? Nesse capítulo, privilegiadamente, sou uma pena apaixonada pelo vento. Levezinha! Este ano que agora dizem passar, vivi uma mão cheia de outros anos (com a intocabilidade das rugas físicas e a sapiência das interiores), aprendi vários idiomas da vida, recebi tanto das gentes, dos sinais, das entrelinhas, do mundo ao redor, como se dizer “2009” contivesse a síntese do que precisei para ser feliz.
Chorei, ri, amei, senti, abracei tanto, dormi ao relento, em rede, no chão, não tive o que comer, para depois conhecer a fartura; mergulhei em igarapés, tive raiva, revoltei-me, sofri, movi-me de mim, bebi das lágrimas, vi o arco-íris nas palavras dos amigos, alucinei, caminhei sem lua (entre gafanhotos e tarântulas), apaguei cartas duras de palavras tristes, que me expiaram as dores e as mágoas; rasguei pedaços de sentimentos, que agora nada significam com a mesma intensidade; estive em perigo, para me resgatar de mim; despojei-me de amarguras, para sozinha, longe das minhas referências, perceber que a lucidez só é possível depois da ressaca das agruras; e recebi (como recebi) tanto!!! Por isso, gosto do fim-do-ano. Porque depois deste, que parecem ter sido tantos, com a indelével intensidade das pequenas coisas, e com a leveza da bagagem de um ano que parece já tantas vidas, só pode melhorar...

quarta-feira, junho 11, 2008

Vida Plástica


Guarda as facas num saco plástico. Agora é que o bagulho vai ferver. Arruma as coisas na mala. Ultrapassa o carro da frente. Acelera. Buzina. São todos burros! Acelera. Ah, quer vencer-me pela força! “Perdeu. Oh babaca! Pára no vermelho. Avança com o vermelho! Vou comprar um LCD amanhã! Estou quase sem espaço na sala. Um maior. Zoom in. Zoom out. Já quase com duzentos canais. Multifunções. Pay- per- view! Get a discount and watch whatever you want. The world is in your hands. At a distance of a remote control. Control. Control. Control”. Ah, modernidade. Comodidade! Infernidade! Enfermidade! Ela é burra. De que vale ter a nossa, se passam a vida a falar das dos outros. Ele humilha-a. Passadeira. Verde para peões. Peões de estrada. Xadrez. Quem é o rei? Posso ser castelo? Carrinho para bebé. Está na hora de ter o seu. Ou um LCD. Ter um filho ou um LCD? Hum... Não é tudo a mesma coisa? O que precisamos para lá chegar? “Tac- tac” das solas gastas no passeio. Entra no quiosque. Três homens assustam-se! Coisa boa. Estavam a fazer! Tem cigarros?, ele pergunta. Mais um isqueiro. Do mais barato que tiver! É! Ela deu “uma emagrecida”. Ela era mais gordinha, não? Caramba! Folheia a revista. Quiosque. Ainda lá estamos! Folheia. Não era uma menina, esta mulher? Fêmea de branco, multiplicada nas páginas. Machos. Seres observadores. Folheiam. Olhar directo para a fêmea. Actriz de telenovela. Volta! Folheia! E o "New York Times" descortina a fórmula de sucesso da Globo. Depois do beijo! De jovem freira a posadora malandra, heim? Indecente mesmo! Plástico no lixo. Jardim maltrapilho. Lixo num vagão que poderia ser casa de alguém. Horas de malhar! Roça o corpo no vizinho de autocarro. Aqui até as malas são promíscuas. Liga o IPOD, Mp3, que pode já ser 4, 5? Ou o telemóvel. "Tac-Tac" metálico! Não fui educado para estes sons! Viagem solitária. E o mundo lá fora. Cá dentro! Os nossos ruídos são formatados. MPB. Rock. Punk. Indie. Sertanejo. Pop industrial. Electrónica. Dó, ré, mi, fá, soooolllll… sintetizado!"Baauuu!" Metálico, estridente… “Oh, baby, then we fell apart. We fell apart, like we´ve always done. Then they fell apart”… Pizzaria. Churraquinho na grelha. Tubos de escape. Dióxido…o de carbono! Lança-se búzios. Desfaz-se encantos! Lê-se mapa astral. Reiki. Massagem ayurvédica. Shiatsu. Massagem corporal. Pode ser com palavras? “Lift me up, Lift me up”. Entra no elevador. Não espera o sorriso. Ah, gratuito! Abre a porta do elevador. Espera. Terceiro, quarto, quinto. “Tchau, bom final de semana”! Porta, quarto. Quarto, sala. Sala, cozinha. Sala: “I´m exactaly where I want to be right now”. A mota acelera. Trac-Trac do escape! Ah… Lá fora. Aqui há janelas! Todas motas da cidade em sintonia de trac menor, sem tenor, e morreríamos pelo ruído! Para quê ter filhos assim, quando se pode ter um LCD, na sala sem espaço? E é: “he´s exactaly where he wants to be right now”! Nem demasiado cedo para a cama. Nem demasiado tarde para amanhã!