terça-feira, setembro 15, 2015

A eterna condição de ser vento

O Homem carrega em si uma insatisfação prosaica, um dilema ancestral, que é o amor à terra e, simultaneamente, a vontade de se desprender dela, em busca de felicidade, de um eldorado, escapando a opressões, guerras e misérias, ou apenas para chegar ao pão para comer. Tamanha ilusão essa, de que podemos esquecer-nos da natureza de nós, só poderá ser filha de uma quimera mundana, em que os sonhos podem o infinito e o éter, o desamor e a esperança, tal como o palpitar de um coração apaixonado. Parece, desconfia-se, que, nesse logro de tentar enganar-se a si próprio, a vida sentencie ao Homem o cárcere maior, paulatino e contundente, que é a saudade. Mácula da insatisfação perpétua e condoída, um vazio interno que se vai alimentando com o tempo. É essa a condição intermitente daquele que migra, quaisquer que sejam as razões.
Cremos, porém, quase como militantes convictos, que o mundo salta e se adianta progressista, que de geração em geração tudo muda sofisticadamente, numa regra tácita de civilização maior, mais tecnológica. Síndrome crónico da nossa quimera ilusória de superioridade absoluta sobre a ancestralidade. Falácia!
Eu própria, embrenhada nesta reflexão, apercebo-me que embalo nesse limbo do descontentamento geográfico, apenas dissipado quando se cumprem as duas terras no mesmo ano: Brasil e Portugal. Encarcerada nessa condição de ter sido emigrante, de ter voltado, e de firmar esta ponte aérea que, felizmente, se tem cumprido. Eu, relendo um texto de 2010, onde desvelava o amanhecer em Ipanema, olhando para as Ilhas Cagarras, constato que firmei um pacto com a cidade de que voltaria, e constato esta insatisfação prosaica de precisar da dupla geografia, entre os ais e os ois. Apercebo-me, porém, que já não consigo olhar o Brasil como estrangeira, sendo-a, e que já não me desliza a caneta perante o deslumbramento, porque passou a ser terra que se estende a mim, intrínseca. É curioso, porém, que regresse ao Rio de Janeiro, na condição de insaciada emigrante que volta ao país emigrado, já com vontade de partir e saudade de cá estar, sentindo na pele o arrepio telúrico, com um projeto sobre … emigrantes. E estes dias, olhando as fichas consulares, os passaportes de outrora e agora, é como se revisitasse um passado-presente, a minha própria vida. É como se, através dos olhares das fotografias tipo passe – às vezes a preto e branco, outras a sépia –, de milhares de mulheres e de homens que vieram, também, à procura de um novo mundo, se configurasse uma imagem clara do futuro. Cristalina imagem que se cadencia com o latejar do peito, de quem sente a dupla terra, a insatisfação prosaica que se repete: essa eterna condição de ser vento.

*Crónica publicada a 15 de Setembro no Porto24, com a chancela Bairro dos Livros

quinta-feira, agosto 27, 2015

Respigar contos magistrais

Vou levar-vos a um lugar mágico. Por baixo de uma avelaneira, esguelho-me pelas folhas rendilhadas e, nas negas dos céus, os olhos conseguem entrever o infinito diluído em tintas celestes inverossímeis. Uma metamorfose tão subtil, pincelada por um rasto de brisa, formando um tecido incorpóreo que parece esfarrapar-se entre as folhas. Estou neste embalo, deitada num lameiro, ouvindo a ópera das cigarras e o ânimo dos chocalhos das vacas que, a esta hora, sob a luz dourada a rasar nos vales, ainda mascam a refeição vegetariana. Estou neste aparente marasmo telúrico, sentindo o hálito de terra molhada, cingida pelo murmúrio do ribeiro e percebo tudo. Constato que sentir Trás-os-Montes é um exercício de reconhecimento e familiaridade, como se fosse encontrar todos os personagens e mais alguns a que me habituei, nos livros de Ferreira de Castro, Bento da Cruz, Miguel Torga, Fernando Namora, Assis Esperança e Aquilino Ribeiro, apenas para citar alguns. Estou neste babujar profundo, nesta geórgica que exalta a vida nos campos e eis que ele, Aquilino, pelo livro que na mão tenho, me responde aos pensamentos.
“O romancista vai de indivíduo em indivíduo, como a abelha quando forrageia o pólen, e a um pede o físico, a outro a índole, a este uma anedota, àquele um pormenor característico, e assim amassa por aglutinação os seus figurantes. Feita a dosagem com inteligência e obtido um bom ajustamento, ninguém dirá que não foram copiados do natural e que não ’falam’. E o orgulho do criador estará em dar a ilusão de que são cópias exactas do mundo em carne e osso”.
Perante este palavreado, como pêndulo que ora se esgueira para a direita, ora para a esquerda, move-se a minha meditação, quase sonâmbula pela dengosa serenidade do campo, e pelo sol que lambe a pele, perdida nesta magia de prosa que atende às inquietações. Apetece-me, com soberba e cobiça, roubar a esta terra todas as suas histórias, para costurar personagens ou figurantes perfeitos. Personagens entre aranhas, formigas, sardaniscas-bebé que se atrevem a deitar na liteira comigo, trevos daninhos, leiras e lameiros, ameixoeiras de casca áspera e gretada, toupeiras, vespeiros secos, varejeiras, bichas-cadelas, pulgões transparentes, folhas caídas, moscas, cabras e aranhas chorudas, sapos enfronhados em severidade, piscos, lavadeiras, rumorejar de vento, caules nus, marias-café fossilizadas no parapeito das namoradeiras, castanheiros, flores-de-maracujá e tantos outros. Predisponho-me, por isso, a esquivar-me como borboleta, levando de indivíduo em indivíduo um pouco deles para as estórias magistrais. A dos bebés que rolam em altares, da cruz no pão no forno, do mito da fonte do Caílho, do filão de ouro na aldeia do Parâmio, do episódio do caga-na-velha, das lengalengas, ou canções de amor e guerra, na época do volfro, das andanças de quem madrugava para as malhadeiras de milho, da ternura da Maria das Cajatas, aventuras de saltos e contrabandos. A Fernanda, a Emília, a Lurdes, a Catarina e a Inês contam-me tudo e eu anoto. Anoto para, quem sabe, um dia agradecer à terra. Por agora, hei-de voltar para o rebusco, pelo outono.

*Crónica publicada a 27 de Agosto, no Porto24, com a chancela Bairro dos Livros

quarta-feira, agosto 05, 2015

Pessoal do meu bairro

O caso sucedeu numa destas noites, enquanto se dava o primeiro ciclo de sono REM, ou movimento rápido dos olhos, quando os sonhos se tornam mais fulgurantes. Formei a imagem idílica do meu bairro. Teria seis cabeleireiros, dois hotéis e uma hospedaria – mais uma casa semi-clandestina –, seis cafés, três restaurantes regionais (as tripas à moda do Porto, ao sábado: chamar lhe íamos um figo), sete lojas abandonadas com a placa “Vende-se”, em destaque, três frutarias à moda antiga, dois quiosques (onde também se faria a raspadinha, teria payshop e, numa delas, também se venderia geleia, tabaco e super-heróis), uma loja de roupa para mulheres ousadas (a avaliar pelos tops rosa-fúcsia que deixariam tudo ao léu), outra para aquelas mais conservadoras (denunciar se ia pelos vestidos avózinha-beata na montra: nada contra), trinta prédios de três e quatro andares (lascados, reabilitados, modernos, do século passado), quinze deles teriam varandas, das quais sete teriam vasos com sardinheiras vermelhas e oito com caninos (que cumprimentariam os transeuntes com um ladrar ora esganiçado, ora grave, dependendo da raça ou do complexo vira-lata); teria dezoito moradias (cinco delas seriam devolutas e uma já teria sido casa de meninas), duas casas fantasma (uhuhhhhh), uma mulher que passaria dia-e-noite, à janela, fizesse chuva, fizesse sol; uma farmácia que faria promoções de marcas de cosmética e de champôs para piolhos, no inverno; um padre que dividiria a casa com estudantes, uma igreja católica e outra evangélica (dica: costumaria estar sempre mais animada às quintas-feiras), cinco passadeiras (duas novas com patadas de cães, marcadas, e três com cor de burro quando foge), cinco semáforos, uma costureira (que estaria sempre à conversa com a vizinha do segundo andar e atrasaria, em meses, a entrega da roupa), uma loja de reparações de eletrodomésticos (ficaríamos na dúvida se não seria uma loja bricabraque), dois andaimes e um taipal, cem carros estacionados, oito caixotes do lixo comum, uma loja de colchões ao lado de uma sex shop, um supermercado, uma ilha que não se vê – mas eu veria –, uma escola, uma ourivesaria-que-nem-se-perceberia-que-o-era. E uma mercearia que seria o local mais internacional que conheceríamos: onde se venderia pêssegos do Paraguai, cerejas do Fundão, maçãs de Setúbal, limões do senhor Amílcar que moraria em Paredes, laranjas do Algarve, ovos da dona Adelaide da rua transversal, amante do padeiro chileno, tomates da dona Ivete da rua de baixo e que seria viúva, ameixas da casa 5, pêras do tal Rocha, alheiras de Mirandela, broa de Avintes, pão da Bairrada e morangos de proveniência incerta. Seria uma rua com cerca de 700 metros, começaria (ou acabaria), num buraco, seria sempre a subir, e terminaria (ou começaria) num jardim com uma estátua ao caixeiro viajante, onde os cães costumariam fazer as suas necessidades.
E como se acordasse desta onírica contabilidade urbana, ocorreu-me ir à janela. Pois qual não foi o meu espanto, cara leitora, caro leitor, quando me apercebi que tudo isto era a verdade. Como o sei? A mulher da janela-faça-chuva-ou-faça-sol acenou-me, lá do fundo, e posso jurar que ainda ouvi dela aquele riso cinematográfico, terror série b. Isso ou é melhor deixar de tomar sumos naturais à noite.

*Crónica publicada a 5 de Agosto, no Porto24 , com a chancela Bairro dos Livros.

quarta-feira, julho 15, 2015

A chuva do corpo

Não chove há dois dias em Bissau, a capital guineense. A terra teve tempo de secar, o bafo quente é o céu que respira e o sol exuberante vigia-nos. Está implacável e jocoso da nossa condição ofegante. Talvez seja ele que faz a terra palpitar. O maestro tribal que cadencia os passos dos homens e das mulheres, das crianças e dos recém-nascidos. O compositor das emoções, dos sonhos e dos sorrisos. Há-de ser responsável pela percussão telúrica e pela forma como o corpo de Ernesto Nambera contorna o ar, esses interstícios da respiração do infinito. Este bailarino do Ballet Nacional da Guiné-Bissau movimenta-se com explosão, gira rápido, pisa o chão com força e gravidade, desliza os pés, e salta como um funâmbulo sob o fio invisível das leis da Física. Parece que levita.
O tambor é o coração acelerado. O compasso entra-nos pelos poros, parece que nos rasga, faz-nos explodir numa espécie de catárse. A terra em transe, e o corpo a parecer que quer levantar-se, mover-se, dançar. Ernesto, aquele que dança, o engenheiro informático que está no segundo ano de gestão. O dançarino guineense que estudou três anos na École des Sables (escola de areia, essa chuva do chão), em Dakar, Senegal, com uma bolsa da embaixada norte-americana quer, um dia, ser diretor-geral de cultura, para dar o seu conhecimento ao país. Foi o número um da turma dele e o pai foi o maior impulsionar da carreira de dançarino, quando os amigos lhe chamavam “bandido” por só gostar de dançar. Começou a fazer playback, em concursos, nas festas da adolescência. Hoje é coreógrafo e um bailarino forte, robusto, com alma, de olhos focados no horizonte.
É balanta, palavra que significa literalmente “aqueles que resistem”, uma etnia dividida entre a Guiné-Bissau, o Senegal e a Gâmbia. São o maior grupo étnico guineense, representando mais de 25% da população total do país. São binhan braza, povo braza. Entre fulas, manjacos, bijagós, papéis e mandigas, reinam os balantas. Há os balantas bravos, balantas cunantes, balantas de dentro, balantas de fora, balantas manés e balantas nagas. Ernesto já nasceu em Bissau, tem esse sangue quente e foi a dança que o levou a saber mais sobre as origens, ao pesquisar sobre a música Tabanca. Redescobriu-se guerreiro. Em 2005, a coreografia que preparou para o Carnaval, mesclando folclore africano com dança contemporânea, foi vencedora. Agora, ali no palco do Centro de Cultura, é novamente a sua dança a mesclar estilos e tradições de ritmos do folclore de África. Um corrupio explosivo, que faz o corpo dos homens e das mulheres latejar.
É ele, Ernesto Nambera, sem perder o fôlego, como se homenageasse os antepassados, a condição tribal, exaltando a vida, a morte e o infinito. Celebra como se evocasse os janbacos, os feiticeiros, ou curandeiros tradicionais. E, neste embalo, vamos juntos, numa emoção forte, incontornável, porque, afinal, ela veio. É nesta erupção súbita, que redescobrimos poros por onde expelir toda uma tempestade tropical, quente e fria. É esta chuva no corpo. Ernesto nela e nós em Ernesto.

*Crónica publicada a 15 de Julho, no Porto24, com a chancela Bairro dos Livros. 

quarta-feira, junho 24, 2015

As letras no caminho

Depois da última crónica, nunca mais me dediquei à literatura de chão. Até porque, apercebi-me, esse efémero estilo literário, apenas cultivado pelas divagações de quem olha a cidade com o ímpeto ingénuo de achar que, ainda, lhe poderá descobrir interstícios, é exercício reservado a quem já esgotou todas as possibilidades de inventar charadas no regresso a casa.
Acho que a culpa, no fundo, é do varredor de ruas, esse ofício invisível e de ruidosa condição, sobre a qual as formigas, as baratas e as aranhas rogam pragas, com toda a certeza. Poderia ter sido apenas o poste, mas não. O varredor de ruas acabou de vez com essa minha experiência iniciática em olhar o chão, privando-me de querer resgatar o dia anterior, pela cartografia do solo. Ele liquida o que resta do dia, aniquila quaisquer vestígios de buliço humano. Se a civilização humana acabasse, no dia seguinte de manhã cedo, no vazio, e os extra-terrestres viessem indagar quem morou na minha rua, com certeza, não restaria qualquer fragmento que pudesse reunir provas para uma narrativa. É que só os restos da rua são capazes de contar a história de um dia numa cidade, ou sobre os seres que as habitam. São excertos fugazes, ao mesmo tempo que epicuristas.
Porém, no caminho para casa, tive uma ideia. Podem aniquiliar os fragmentos do chão, mas não podem fazer desaparecer as letras do caminho. Era isso, as letras do caminho. Foi então, caros leitores, que meti a mão à carteira, e como caderno não houvesse, saquei a conta do almoço e comecei a escrever nas costas nuas desse papel fino e frágil, toda a literatura que encontrava no percurso, olhando agora para o intervalo médio entre o chão e o telhado das casas. Mas acho que vou deixar isto para outra crónica, não me levem a mal, porque, enquanto anotava com dificuldade, e como a caneta começasse a falhar, lembrei-me da Márcia, personagem do meu primeiro documentário, em parceria com F. Gavioli, no contexto do curso da Academia Internacional de Cinema de São Paulo.
Márcia, uma moradora de rua, em Higienópolis, que escrevia em folhas A4 uma mescla de orações aos anjos e episódios soltos da sua vida de rua. Um bom coração a querer dizer que existe além das vicissitudes do funambulismo da vida.
Naquela altura, eu e Felipe voltamos para lhe mostrar o documentário de 20 minutos. Ela achou que ficara curto. Que ficara muita coisa para contar, que há sempre muita coisa para contar. Um ano depois, em 2008, ela enviou-me um e-mail a dizer que precisava falar comigo. Respondi que já não estava em São Paulo, mas perguntei como a poderia ajudar. Nunca mais me respondeu. O tempo, varredor de ruas da memória, tomou conta do esquecimento pendular. Porém, na segunda-feira, fiquei a saber que o F. mudou de bairro e mora perto dela, da Márcia. Depois destes anos todos, reencontrou-a. Está a ajudá-la.
“- Ela conseguiu um pequeno serviço que permite que durma em uma pensão, está fazendo um curso de costura que é seu sonho, além de receber essa pensão e ter uma conta em banco que lhe dá bastante dignidade. Outro dia fomos em uma pizzaria comemorar seu aniversário, fazia mais de 20 anos que não entrava em uma. Apesar de ainda divagar ferozmente sobre vários assuntos que são abordados em nosso documentário, ela diminuiu, consideravelmente, o número de papéis que cola nas ruas, sinto que está mais calma e mais centrada, já que tem mais perspetivas.”
Acho que a Márcia, agora, aos 66, já pode inventar charadas no regresso a uma casa. Podem ser letras no caminho?

*Crónica publicada a 24 de Junho, no Porto24, com a chancela Bairro dos Livros. 

sábado, junho 13, 2015

Manual para a Literatura de chão

Olhar para o chão pode não ser, necessariamente, condição melancólica, ou síndrome de bisonhice e muito menos infortúnio. Conheço personagens reais que se dedicam, diligentemente, no ofício da caminhada, à cogitação filosófica de investigar os interstícios do passeio, seus alinhamentos, ora geométricos, ora esburacados, driblando fezes de animais (campo minado e oleoso), invólucros de batatas fritas, folhas velhas, jornais estropiados e pastilhas elásticas com o ADN de alguém. Como se percebe, há todo um universo de indagação e infinito raciocínio, digno das teses mais doutas da academia. Outrora, eu própria já pude contemplar notas de cinco euros, anéis e pulseiras de prata, bugigangas, farrapos, fios, cascas de laranja e beatas. Tudo coabitando na mais serena harmonia, como se fossem o princípio do universo e estagiários da decomposição. Ultimamente tenho sido bastante afortunada em moedas de um cêntimo. Posso jurar que a lata de chá onde guardo as moedas de cor de cobre já deve dar para pagar dois cafés e meio no estaminé do senhor Manuel. Mais surpreendente, porém, será a descoberta que fiz recentemente.

Caros leitores, sim, o chão que pisamos é terreno fértil para parir aquilo que denomino de agora em diante por literatura de chão. Bem sei que poderia ter-me dedicado a encontrar um nome mais sexy, digno dos anais da literatura comercial e que criasse buzz na comunicação social, do que simplesmente ter resumido a coisa a literatura escatológica. Conquanto essa possibilidade fosse a saída mais escorreita, devo confessar que seria indigna designação para o zelo que merece.

A semana foi profícua nessa contabilidade literária. Não fosse este escrutínio detetivesco para as coisas do chão e eu não teria encontrado, cento e sessenta e nove passos depois de sair de casa, a-fotografia-tipo-passe-de-um-rapaz. Deveria ter, mais ou menos, dez anos, era ruivo, sardento à la Tom Sawyer, certamente fugitivo da carteira de uma avó babada, pusilânime e conservadora – a avaliar pelo desgaste –, provavelmente caída no momento em que guardava o troco dos docinhos húngaros acabados de comprar na confeitaria em frente. Não teria, da mesma forma, me deparado com o bilhete da Zulmira: “Deixei bacalhau à brás no frigorífico”; o resto de um exame de História da Sandra: “a II Guerra Mundial foi um momento de grande importância, porque…”; um andante rasgado; uma oração a santa rita de Cássia: “a santa dos casos impossíveis e desesperados”. Não fosse eu o mais próximo do CSI português, exímia dissecadora das palavras calcadas no chão e, claro, nada disto seria possível: “Sandrine, não me deixes, és a minha cena. Amu-te”. Bem sei, não é bonito, mas pode ser profundo, dependendo dos magotes contundentes que se dá na Língua Portuguesa.

Caros leitores, estava preparada para que tudo acontecesse, menos para isto: mil quatrocentos e setenta e oito passos depois, um bilhete que era pura poesia, uma ode a este texto: “Sem ti, fico no chão.” Estava quase a empreender um projeto especial diário, apenas dedicado à literatura de chão, mas temo que durante uns tempos terei de me recolher. Quando me levantei para recolher este último exemplar da mais excelsa literatura, o meu universo ficou, de facto, mais perto do solo, entrou em transe, vendo estrelas, luzes, seguido de uma dor aguda. É, meus caros, aquele poste de iluminação não estava nos meus planos.

*Crónica publicada a 5 de Junho, no Porto24, com a chancela Bairro dos Livros.

quarta-feira, junho 03, 2015

Arqueólogos descobrem destroços de navio negreiro português na África do Sul

>>> "Pela primeira vez foram encontrados vestígios de um naufrágio que terá ocorrido com escravos a bordo. Uma descoberta histórica que poderá avançar o conhecimento actual sobre o tráfico transatlântico, dizem os investigadores." Notícia no jornal Público. 

>>> "Underwater archaeologists believe they have achieved a milestone moment in the study of the slave trade after making what is thought to be the first ever discovery of a sunken slave ship.
Long-buried artifacts from the wreck of the Sao Jose-Paquete de Africa, a Portuguese vessel which sank off the South African coast on its way to Brazil in 1794, are due to be unveiled in Cape Town."


quinta-feira, maio 14, 2015

A vida num contentor

É fácil. Neste caso começa com um anúncio na internet: “Procura-se gestor de empresas para empresa internacional”. O candidato envia currículo, é selecionado de imediato, comemora com os amigos, não faz perguntas – até porque tem um percurso imaculado, só não encontra trabalho entre nós –, não participa em nenhuma entrevista, não considera isso estranho. Só sabe que vai ganhar um salário de sonho e, por isso, aluga a casa no país de origem, despede-se da família e parte, uma semana depois, com um bilhete que “será depois recompensado à chegada”.

Só que, “à chegada”, ele é raptado. Sim, raptado! A estrada para o inferno começou quando deixou de fazer perguntas, ou cegou com a luz de uma pequena esperança. Não é juízo de valor, é a função do narrador omnisciente a contar o final da história.
É, depois, obrigado a entrar num camião, com outros rostos tão perdidos e desesperados quanto o dele. Percebe que a estrada é sinuosa, galga-se quilómetros de buracos e lombas, a grande velocidade. Entranha-se, nas narinas secas, um cheiro a savana e suor em ebulição. Homens enclausurados.

Pensa no fim, porque cogitar no pior seria ter uma réstia de esperança, e a ilusão já não entra num coração aflito depois da primeira cegueira fatal. Horas depois, sob um calor tórrido, o motor para. Abre-se a porta, é noite cerrada, gélida, sepulcral. Ele pergunta o que está a acontecer e leva uma coronhada de metralhadora. O sangue que escorre desde a ferida exposta na cabeça até à boca sacia-lhe a sede, embora já nada disso importe. É enclausurado, novamente, num contentor com os mesmos rostos cansados, carcomidos pelas horas de agonia.

Tenta falar, mas sente que a voz falha. Será o medo a velar por ele? Ter medo pode ser uma réstia de esperança. Uma janela que se abre por dentro e sussurra: estou vivo! A camisa nova e nívea que comprou numa loja de marca, no país de origem, está maculada com espirros vermelhos.

Durante algum tempo é ele e aqueles outros homens, no meio do mato, sozinhos, encarcerados, desolados, imiscuídos de existência. Não sabe durante quanto tempo, mas dormiu muito, morto de cansaço, vencido pelo ar rarefeito, mas sobretudo no fio existencial de que essa réstia de esperança fosse um acordar de novo, percebendo que, afinal, tudo não passava de um sonho muito ruim.

Quando, enfim, abriram a porta, percebeu que, se fossem mais uns dias, talvez não voltasse a acordar. Pensou que seria o melhor. Chamam-no. Obrigam-no a ligar à família em Portugal. Pedem um resgate: 500 mil euros. Crime organizado. Extorsão. Rapto. Tráfico. Sabe-se lá mais o quê. Deixaram-no aos pontapés, com risos alarves. Esqueceram-se da porta aberta.

Durante a noite arriscou a vida. Com o coração a ensurdecer o pensamento correu até onde pôde. Aprendeu a rezar. Viu uma luz. Arriscou uma povoação. Acudiram-no. Voltou para casa com ajuda de um homem que não sabe o nome. Está entre nós, são e salvo, pelas ruas deste país. O tráfico de pessoas existe e pode estar à distância de um clique. Mais difícil e desconcertante: esta história foi-me testemunhada num balcão de atendimento; poderia ter sido qualquer um de nós, com a vontade de uma réstia de esperança.

*Crónica publicada a 14/o5/2015 no Porto24

sábado, abril 04, 2015

António Trovão, ou como fazer uma faísca

Este homem magro e de chapéu verde-musgo a condizer com a camisa, simpatia ancestral, viu-nos passar e chamou como quem ordena lei: – “Oh, não querem tomar um vinho?”. 
ilha de Santa Maria, Açores, Março 2015|@Vanessa Rodrigues

Conheci o Trovão, logo ao descer a reta do Desterro, depois de ter passado Brasil, pela manhã, Almagreira e Santa Bárbara, embora ele more na Graça. É a sua adega com vinho de cheiro e jaquês que o prende à baía de São Lourenço, nestes dias com mar calmo e vigília de lua cheia. Dizem que sustenta Impérios, todos os anos, esse pagamento de promessas religiosas à conta do Espírito Santo, alimentando as bocas da ilha de Santa Maria, nos Açores, que se reveza nas copas comunitárias. Há de ler-se n’”O Baluarte”, logo em janeiro, para ver se o nome dele não consta na lista anual de homens de sopas do Espírito Santo. Sopas com cozedura especial, pão e muita carne de vaca e uns segredos que apenas três a quatro famílias conhecem em toda esta ilha, espraiada nos seus 98 quilómetros quadrados.
Este homem magro e de chapéu verde-musgo a condizer com a camisa, simpatia ancestral, viu-nos passar e chamou como quem ordena lei: – “Oh, não querem tomar um vinho?“. Mal percebemos e já estamos na loja com olor a bagaço e mosto, entre barricas envelhecidas e conversas de água salgada, usada para preservar este vinho de cor cobre-salmão. Mal nos tenta sair resposta pensada na ousadia do não e já estamos encafuados, sabe-se lá como e por que magnetismo insular, na toca deste pai de duas filhas que são a fotocópia da mãe. E, afinal, como se chama este homem que não tem um pulmão, nem um rim, e que esteve de junho a outubro, para morrer, no ano em que fez meio século, naquela que foi a sua primeira viagem ao continente? Já lá vamos que ele mantém suspense no parlatório. – ”A receita que os médicos lá no continente [Lisboa] me passaram é que não tinha solução. Era para ter ido embora. Estive meses sem comer e agora é isto.” Este agora são nove anos depois e isto duas horas diárias de caminhadas a pé, desde então, na companhia da pequena égua, que isto de não ter alguns órgãos é uma revolução na anatomia. Talvez tenha sido a condição insular, para o homem que vive duas vezes: uma hora a menos nos Açores é a Portugalidade a viver em mundos paralelos, um hiato de uma hora que fica suspensa. Uma vida extra, como nos jogos. E lá se lembra, enfim, da pergunta anterior, lá em cima: – Eu não me chamo, os outros é que me chamam a mim.” Diga: como é que os outros lhe chamam? – ”Isso varia. Se mandar uma carta para António Moura Moreira, ela é bem capaz de não chegar até mim. Agora, se puser António da Margarida, que era minha mãe, há-de chegar-me às mãos.“ E são estas mãos calejadas, de mar, de terra, de vinho, de vento, de esperança. ”Há também quem me chame cachaneta, ou então António Trovão. O Trovão.” Um homem que é uma tempestade? – ”É coisa muito antiga. Andei um dia na pancadaria, com o Malaquias, que tem casa lá no continente, e levei uma pancada que parecia um trovão. E como não há Trovão sem Faísca, dei -lhe o troco. E, pronto, lá ficou ele conhecido como Faísca.

*Crónica publicada originalmente a 11 de Março de 2015, no Porto24, com a chancela Bairro dos Livros.

terça-feira, março 17, 2015

"Da ideia à estória: reportagens que funcionam" é já na próxima segunda-feira, dia 23, na sede BagaBaga Studios, Lisboa,na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Workshop de um dia. Já se inscreveram? Partilhem, por favor, esta vossa aia, agradece.


segunda-feira, março 16, 2015

Feeling inspired

Açores 2015|Vanessa Rodrigues

quinta-feira, março 05, 2015

Linha de Fronteira

Contrabando, tiros, tempestade, crime organizado, polícia militar, uma anfitriã raptada por presos foragidos e apagão em casa de um escritor-desconhecido. Se isto não era fruto da minha imaginação bem podia estar metida numa alhada.


Laura fez questão de me mostrar as perucas, os batons, a variedade de armações de óculos e os doces que comprara nessa tarde, em Ciudad del Este, no Paraguai, a meia hora de autocarro de casa dela, em Foz de Iguaçu, no Brasil. Também fez questão de me dizer que no mês anterior tinha sido mantida refém, na própria casa, quando dois foragidos de um estabelecimento prisional do estado do Mato Grosso, membros de um cartel, tomaram conta da residência. Ela alimentou-os e nem os vizinhos desconfiaram quando esta mulher de cabelo louro-garrido, voz grave e rouca, ar um pouco psicótico e vontade desenfreada de falar, “saía para ir às compras, dia sim, dia não” e deixou de receber visitas.
Caros leitores, foi nesta casa-hospedaria, onde, em 2010, fiquei durante três noites. Soube de tudo isto ainda nem sequer tinha tirado a mochila para me instalar. Se a hesitação me acometeu, outra hipótese não tive às dez e meia da noite deste lado da cidade-fantasma.
Para intensificar o cenário bizarro, eu não pregaria olho a noite inteira, atordoada com os tiros que a Polícia Militar brasileira disparara, para dispersar os contrabandistas do rio Paraná, que tentando enganar a vigilância na Ponte da Amizade, entre o Brasil e o Paraguai, esquivam às margens fluviais o mais que podem em produtos eletrónicos, armas, tabaco e bebidas.
A mim bastava-me o carimbo de saída do Brasil e de entrada no Paraguai ou na Argentina, para poder, posteriormente, permanecer por mais três meses em terras brasileiras.
Da primeira vez que saí para a linha de fronteira, o autocarro que saiu do Brasil nem sequer parou na fronteira brasileira. Afinal, a minha dor de cabeça começaria aqui, quando à noite tentasse voltar, parada para interrogatório. Nesta primeira viagem, ia encontrar um conceituado jornalista paraguaio. No final da conversa, A. passou por casa para me oferecer o livro dele “El ultimo vuelo del Pajaro Campana”. Mal chegamos, o céu desatou numa fúria, impondo pesadas gotas tempestivas, levantando a terra, criando de imediato um caudal que corria pelas ruas, trazendo lama e pedras e arrastando carros. Escureceu como se o mundo desistisse de tudo, não havia luz elétrica. Restava-nos ficar à mesa, a conversar, até que a parca vela ardesse até ao fim e a tempestade cessasse. Neste momento, pairaria a dúvida: estaria eu mergulhada na realidade ou na ficção? Já adivinhava que iria perder o meu último autocarro, para atravessar a fronteira. Tinha um passaporte por carimbar, um gravador, uma máquina fotográfica, e um rasto de suspeita num dia de tempestade. Contrabando, tiros, tempestade, crime organizado, polícia militar, uma anfitriã raptada por presos foragidos e o apagão em casa de um escritor-desconhecido. Se isto não era fruto da minha imaginação bem podia estar metida numa alhada. Horas depois, a tempestade deu tréguas e A. levou-me à fronteira, já noite cerrada. Depois do interrogatório, lá me deixaram passar a fronteira, a pé. Não me recordo como cheguei à hospedaria de Laura, quase meia-noite.
“– Oh portuguesa louca, estava preocupada com você. Até pensei que você teria sido raptada pelos meus amigos do cartel, li no jornal que, afinal, eles ainda andam por aqui. E, me conta, afinal o que você comprou lá na cidade?”.

*Crónica publicada originalmente no Porto24 a 18 Fev 2015, 17:11

quinta-feira, janeiro 29, 2015

A cidade e seus personagens I – Ilha da Bela Vista*

Será que há no mundo cidade com mais ilhas do que o Porto? Pedaços de terra intersticiais da anatomia citadina em terra, ligações insulares que provam que, afinal, o homem pode ser uma ilha? 

Por Vanessa Rodrigues



Não se sabe ao certo quantas centenas se escondem, isoladas, por trás de outras casas. São portões mistério de humanidade, aglomerado de habitações simples que brotaram da urgência em alojar a mão de obra no século XIX. Os herdeiros, que continuam a história, são parte do ADN da Invicta, um repositório de memória, de herança daquilo que somos. É o caso de Rosa, Ana, Luís e dos casais Maria Eugénia e Aloísio; Manuel e Júlia, moradores da ilha da Bela Vista, na rua Dom João IV.
Rosa, 69 anos, viúva e rebelde, voz grave, “foi feita” no quarto onde agora dorme. O pai foi afinador de teares numa fábrica portuense. Lembra-se do dia em que comprou um biquíni e como convenceu o marido a usá-lo. É “feliz, muito feliz”, na ilha, e tem saudades do barulho da “canalha”.
Já Ana Oliveira, a fadista de cabelo alvo e mãos de afagar gatos, 85 anos, saudosa do tempo em que cantava, nasceu na casa 10. Aos nove anos, já “andava a esfregar escadas e a acartar o balde da água”.“Cada caneco era um tostão, mas à vezes caía o caneco e ficava sem o caneco e sem o tostão”.
Escreveu muitas letras de música e poesia, só para ela. Começou a cantar na rádio Festival, antes de ser a rádio Festival, e foi a voz do Café Sanzala.
– “Todos os domingos de manhã, a comunidade juntava-se para me ouvir na rádio e cantarolava: “Vem está marcado/é o café que nos convém/não há outro no mercado/que ao tomar/saiba tão bem/mas que cheirinho/que perfume que exala/ café sempre fresquinho/que se vende na Sanzala/na sua mesa/tenha sempre um bom café/porque o acha com certeza/famoso como o Pelé.”
A vizinha insular de Ana, Maria Eugénia Moreira, tem sete décadas de vida, cabelo curto e grisalho, olhos de menina. Começou a trabalhar aos dez anos. Não podia sair de casa para brincar. Na “mocidade” foi a bailes com gira-discos e conheceu o marido, Aloísio. Nunca dançaram juntos. Aloísio foi depois para o ultramar e Maria Eugénia foi a sua “madrinha de guerra”. Ele rendeu-se e pediu-lhe namoro por carta. Ela até o achava “jeitoso”, “encanadinho”, mas “teso”. Zangaram-se, porém uma amiga juntou-os : “Vou-vos apresentar ao amparo da vossa velhice”.
Estão juntos há quatro décadas. Ele foi atleta, tipógrafo e, ao contrário da mulher, brincou até fazer asneiras: – “Arranjámos uma tábua dos andaimes, passávamos cascas de banana, laranja e pêra na madeira, para lubrificar e, do início da rua escura até à Ribeira, deslizávamos a alta velocidade. Eu parti a cabeça umas 15 vezes”.
Para Manuel e Júlia, a ilha é um “paraíso”. Ele trabalhou com artes gráficas, esteve fora do país, agora está reformado. Ela trabalhou num infantário. O Luís, 43 anos, o mais novo desta prosa, também se recorda do tempo dos tostões, das festas, da algazarra das crianças e do aconchego de ter uma casa, apesar de estar numa “ilha quase deserta”. Uma vez juntou o Cavaco Silva e o Mário Soares.
– “Fui segurança da Fundação de Serralves e, numa cerimónia pública, o quadro elétrico falhou. Eles estavam lá. Fui eu quem puxou a alavanca do quadro de eletricidade que estourou, numa grande confusão, por isso os seguranças tiveram de pôr os dois políticos no mesmo carro”.

P.S.: Testemunhos recolhidos por mim, pelo Daniel Brandão, Maria Camps, Wouter De Broeck, Ana Clara Roberti, Ricardo Coelho, Rita Costa, André Rocha, Ana Patrícia dos Santos, Daniel Rodrigues, Joana Costa, Maria João Pereira, Rute Febra, Priscilla Davanzo, Tiago Dias dos Santos, com apoio do arquiteto Nicolau Brandão e das assistentes sociais Inês Lima e Ana Vieira, no âmbito do Citizen Lab: Audio+Visual Storytelling, Future Places 2014. O lab deu origem ao projeto documental Citadocs (sobre, para, por cidadãos).

*Crónica publicada no Porto24 a 28 de Janeiro de 2015

quarta-feira, janeiro 07, 2015

Pescador, cor de cacau, artesão da roça

A escultura de madeira suave e perfeita em forma de peixe na estante dos livros de viagens relembra uma lição de vida: que há gente a gostar de gente, abnegadamente, só porque sim, com a vida real em perfeita harmonia.

Por Vanessa Rodrigues


7 de Maio de 2011

Do bananal vem o rumor do mar, misturado com o riso da manhã e os olhos dele, grandes, bem desenhados, ternos. Negritude é a pele grossa, sábia genética, que adensa o calor e suaviza a humidade tropical quando nela assenta. Tem uns dentes alvos, e um olhar manso. Alexandre dos Santos, 22 anos, morador na roça Agostinho Neto, na ilha de São Tomé.
Estou de passagem. Sou a branca turista a querer saber das gentes. É pescador em part-time, homem da roça, separado da mãe dos filhos, um arroubo juvenil. E ainda lhe sobra tempo, à noite, se restarem dobras, para dançar Funaná.

一 Vais comigo?, convida.

É filho de cabo-verdianos – ainda se lembra do crioulo, o dialeto de casa –, dos muitos que migraram para esta ilha africana tão vizinha da linha Equador, metáfora para um recomeço. Quer saber: onde moro, de onde sou, se tenho filhos, marido, logo assim, nos primeiros segundos. Não perde tempo. A sedução não é um jogo, é convicção.
Também já foi militar, motorista de uma política são-tomense. Tão novo, tanta vida a latejar. Despeço-me. Ele com a tristeza inconsolável da despedida. Eu, com um certo desconforto. Penso que deve ser charme da condição insular.
No dia seguinte, espera-me, de manhãzinha, à porta do hotel.

一 Desculpa ter vindo assim sem avisar. Queria ver-te uma última vez. Posso nunca mais te ver. Desculpa-me.
Homem garboso, ousado, todavia educado. Veio pedir autorização para, ao final do dia, “logo”, me entregar um presente. O desconforto mistura-se com gratidão: que numa cidade desconhecida me sinta em casa, que o meu ser-eu de passagem se resigne à simplicidade dos afetos.

一 Quero dar-te um presente da minha terra. Mereces. Para que não esqueças. Posso?
Mereço? E “logo” é agora. Estou já de saída e, de novo, ele aparece, transpirado, sincero. É a segunda vez no mesmo dia que ele vem à cidade por minha causa, mais de 30 minutos de estrada.

一 Vim da roça de propósito para te entregar. Desculpa ter-me atrasado, tive de pedir a mota emprestada. Não posso ficar muito tempo. Pedi ao meu puto para ir buscar cacau à roça, para ti. E esta escultura fui eu que a fiz. E desculpa, estou envergonhado. Pedi à minha irmã uma saca para a embrulhar e ela pôs o cacau nesta de peixe.

一 Vieste de propósito entregar-me isto, de longe, sem me conheceres. Já te disse e agradeço: não se pede desculpa por genuínos gestos de generosidade e afeto. Eu não sei como te retribuir, sinceramente. Muito Obrigada.

Foram menos de cinco minutos. Despedimo-nos, um beijo no rosto, um olhar grato. Esfumou-se na noite já cerrada. Nunca mais nos vimos. Às vezes, ainda ouço o rumor do mar entre o bananal, quando olho para a escultura de madeira suave e perfeita em forma de peixe na estante dos livros de viagens, como quem relembra uma lição de vida: que há gente a gostar de gente, abnegadamente, só porque sim, com a vida real em perfeita harmonia.

*Crónica publicada no Porto24 a 6 de Janeiro de 2015

sábado, dezembro 27, 2014

Abafado e um leve latejar da música

Sempre sonhei em ter um leitor de vinyl, depois dos 17 anos, porque aqueles que existiam em casa dos meus pais desapareceram, ficaram fora de moda, viraram lixo e conjeturava-se que nunca mais se usaria algo tão obsoleto. Que grande equívoco! Que grande falácia! 

A primeira desilusão, confesso, foi quando descobri que aquele móvel lindo, da Philips, que já não mais existia no espólio familiar tinha sido doado a uma comunidade religiosa, no Porto, talvez a um bairro social, o meu pai não se recorda ao certo. Aquele móvel fora do meu avô, fora comprado a duras penas com um salário contado de um operário, para poder dar ao lar, nos anos 70 do século XX, a última tecnologia da época. Tinha um leitor de vinyl, rádio e espaço para guardar dezenas de discos. Fez parte da minha infância (limpei muitos vinis, troquei muitas agulhas, coloquei muitos discos para tocar e dancei muito, feliz) e tinha feito muitos planos para ele. 

Um dia, quando tivesse uma casa a que pudesse chamar de minha, arranjaria um canto de destaque para ele. Iria concorrer com o espaço para os livros, é certo, mas não falharia metro quadrado para ele. Debalde. Perdera-lhe o rasto. 

Depois, um outro pequeno móvel vertical também da Philips, e que morou uns anos no meu quarto da casa nova dos meus pais, também entrara na fase da reforma. Não me recordo como ele desapareceu do quarto. Não me recordo como muitas coisas, aliás, "desapareceram" do meu quarto. (Talvez devesse contratar um detetive para achar as coisas perdidas). 

No entanto, em 2011, quando fui a Nova York, ao abrigo de uma bolsa de jornalismo, pude concretizar o meu "sonho" e adquirir, em Williamsburgh, um leitor de vinyl portátil, da marca Crown, pequeno e prático, cujo volume pode ser sintonizável em duas frequências de rádio. Começou, então, aos poucos a recuperação do passado que fora já, outrora, o futuro, a tecnologia de última ponta. 

Devo confessar, que talvez por ter ouvidos sensíveis, de ouvir frequências sonoras que poucos ouvem, me apraz, particularmente, os vinis onde o som é abafado e onde se ouve um estalido frequente quase como um latejar da música. Por isso, quando não tenho o tocador de bolachas por perto, para ouvir a Carmen Miranda, o Django Reinhardt, o Adoniran Barbosa, o Paulinho da Viola ou a Clara Nunes, sintonizo, online, a Rádio Batuta, com o espólio musical do Instituto Moreira Salles. É o templo dos sons abafados, o elixir do latejar da música.

segunda-feira, dezembro 22, 2014

O Refúgio da Infância, expo de António Morais, Porto

É hoje. "O Refúgio da Infância". Exposição de António Morais, na Colorfoto, Rua Sá da Bandeira, 526, Porto, a partir das 17h30. Retratos pueris de crianças refugiadas Palestinianas. "De alguma forma, a infância é um certo sentido de refúgio, um lugar intemporal onde todos já estivemos e aonde todos voltamos, em algum momento, ao longo da vida, como forma de escape ou retorno àquilo que somos." Contamos convosco. https://www.facebook.com/events/737249846358469/?pnref=story


segunda-feira, dezembro 08, 2014

Caligrafia

O meu professor de Árabe tem um trauma de infância. Esqueçam os monstros, os bichos-papões, os polícias, os pais severos e a educação pelo cinto. Aprender a caligrafia arábica era o pesadelo de todas as crianças árabes. Começava com a pena a mergulhar no tinteiro e o treino diligente, primeiro, para que não se derramasse uma gota que fosse daquele líquido negro que viajava no bico do utensílio afiado que iria materializar a linguagem. Ofício para exímios, portanto. Depois, a verdadeira prova: escrever da direita para a esquerda sem borrar letra-a-letra, o que se acabava de escrever. E, nem sempre, o mata-borrão obedecia, pelo contrário, parecia fazer troça dos mais ingénuos. O melhor aluno era aquele que conseguia a proeza dos desenhos alfabéticos sem mácula no branco onde se escrevia. E tudo isto com toda a delicadeza que as letras árabes impõem. Desenhos simbólicos que parece que dançam no papel. Porém, uma coisa é a letra árabe isolada, outra é a ligação que essa letra tem com a letra seguinte para formar uma palavra, e que pode ter ou não movimentos (harakat) – mais ou menos o equivalente às vogais. Isso implica símbolos específicos em cada letra. Ufa! Eu explico: imaginem a palavra casa, que em árabe diz-se “bayt”, isto é بيت , mas se quisermos as letras isoladas teríamos B= ب Y=ي T= ت
É menos complicado do que aquilo que parece. Mais complexo era, sem dúvida, o exercício que deixou marcas na memória de Abdel, o professor. Um exercício para expor desastrados. Eu teria com certeza falhado a tarefa. Até porque, se bem me lembro, a minha perícia para escrever em cadernos de duas linhas estreitas, para treinar a caligrafia (lembram-se?), era já per si, um pesadelo a que tentava esquivar-me com técnicas avançadas: Ah! Esqueci-me! Debalde. Os complôs doméstico e escolar estavam instaurados, como conspiração de espionagem apertada. As técnicas de moralização também não eram as melhores e, entre ouvir que tinha uma caligrafia “pouco apresentável” a um “horrível” sincero de alguém, tentei, pois, ser mais diligente, surripiando a caneta de tinta permanente do meu pai. Já que tinha de escrever, que fosse com uma novidade. Achei mágico o mergulho daquela ponta afiada num frasco de tinta índigo. Fiz por isso, um admirável e competente borrão, que hoje, se o tivesse guardado, poderia expor, quiçá, numa galeria de arte. Ou até mesmo teria, eventualmente, inventado um novo e pioneiro teste de borrão psicanalítico, muito útil aos seguidores do senhor Hermman Rorschach, psiquiatra suíço dos séculos XIX e XX, que certamente analisaria nesta imagem, a hipótese projetiva da minha personalidade hiperativa, com propensão para a desobediência. Não recordo, por ora, qual o castigo que me foi aplicado pelo derrame da tinta permanente – talvez o de ter que escrever horas a fio em cadernos de duas linhas, pois desde essa época a minha caligrafia tornou-se irrepreensível. Não obstante, nas aulas de árabe escrevo a lápis e asseguro que, até ao momento, não houve quaisquer manchas desastrosas no caderno. Qualquer dia arrisco a tinta permanente.

* Crónica publicada a 26 de Novembro de 2014 no Porto24, rubrica do Bairro dos Livros, Culture Print, intercalada com os cronistas Jorge Palinhos, Rui Manuel Amaral e Rui Lage. 
 
Bio| Vanessa Ribeiro Rodrigues é jornalista, escritora, documentarista, viajante. Nasceu no Porto, morou no Brasil e na Jordânia. O que lhe importa é reinventar a cor da linguagem, caçar histórias. É autora do livro “O Barulho do Tempo” e tem vários contos e poemas publicados em revistas literárias. Escreve segundo o novo acordo ortográfico.

segunda-feira, dezembro 01, 2014

Das leituras

O meu amigo Nuno Ferraz (já lá vão quase 20 anos, companheiro), leitor diligente, seletivo e viajante atento, presenteou-me, no passado aniversário (eu sei, quase um ano depois) com este livro magnífico da Carmen Miranda, pelo cunho do jornalista brasileiro Ruy Castro. Antes desta biografia sair, no Brasil, recordo-me bem, da cantora Jiji Trujilo (nome artístico), que no reportório musical tem Carmen Miranda, me falar desta literatura e que andava, também ela, a fazer um estudo musical das influências desta cantora luso-brasileira, sua musa inspiradora. Recordo-me da nossa conversa, no meio do chorinho Paulistano, naquele que para mim é dos melhores lugares de samba de raiz, em São Paulo, o Ó do Borogodó. Mal eu sabia que, anos depois, o Nuno, lembrando-se da minha condição luso-brasileira me daria um livro há muito desejado. Como diz o Paulo M., outro amigo querido, um dos meus principais impulsionadores para que não desista nunca de criar, "isto está tudo ligado". De uma escrita direta, limpa, generosa e, concomitantemente, inteligente, Ruy Castro perscruta as várias camadas da vida de uma das maiores musas do Brasil, e, ainda, tão distante da memória portuguesa. Além isso, são as imagens a preto e branco da vida privada desta artista de alma além do seu tempo, que nos envolvem numa viagem não só ao talento, modernidade e excêntrica condição de ser livre, mas também à generosidade e humilde paixão pela música. 
 

quinta-feira, novembro 27, 2014

Outonar


Por baixo daquele tapete que parecem trapos sortidos esfiapados pela natureza outonada (em âmbar, rosa, magenta, amarelo, laranja, vermelho, castanho-terra, castanho-tronco, castanho-carvalho, rosa-velho) há sedimentos do que resta das rochas, das pedras, gravilha desfeita, que ensaiam a melodia outonal. Solfejo: graves, agudos, sussurros, sensorialidades quase invisíveis a audições viciadas em ruídos urbanos. Escuta-se o esvoaçar diáfano de folhas murchas, outras em queda livre, sensíveis à aragem, descarnando as árvores para serem bafejadas de ventos que puxam a invernia. Ontem, pude esmagar com os pés calçados, este tapete unido, abundante em andrajos que a natureza começa a desfazer-se. Pude ouvir o estalejar dos pequenos órgãos vegetais que se despedem do seu estado maduro para a iniciação a pó, a sedimento, a terra renovada, para se quedarem em infinitas partículas. Ontem, enquanto caminhava, quase deslizei numa folha mais húmida, resistente à decomposição. Hoje, contudo, o tapete já se foi, e a poeira resta por baixo, cor-de-cal-pincelado-de-cobalto. Os trapos são sempre temporários. Mesmo estes, tão secos e reais, tão vegetais e fibrosos. É preciso recolher as folhas antes que partam até ao próximo Outono. 







quarta-feira, outubro 15, 2014

O Labirinto

*Crónica publica no jornal online Porto24 a 15 de Outubro

 Tenho uma predileção por labirintos. Vejo-os nas mais diversas manifestações de vida: nos caminhos anatómicos no cérebro, nas relações humanas, no amor, nos cursos de água da Amazónia, no pensamento e, claro, na literatura. Folhear um livro, mais do que o explícito ou implícito da invisibilidade, ou perscrutar a psicologia de um escritor, é entrar-no-labirinto-além -de-entre-as-linhas.
Se sublinharmos, infinitamente, a lápis, esses corredores de letras, intercalando tal qual poetas concretistas brasileiros o rigor da palavra-após-palavra, criando efeitos gráficos, poderemos deixar-nos levar, primeiro, por uma espiral. Depois, a tentação será a de subverter o deslize, em várias direções, ao som do tssssssss da plumbagina. O grafite parece-me a forma mais sensorial de vivermos o intrincado das e nas páginas. Esse é o caminho mais evidente para chegarmos ao auto-labirinto, resgatando dos livros as palavras e os sentidos que melhor servem o enredo em que nos vamos enovelando. Paradoxalmente, quanto mais parece que nos perdemos, mais nos vamos encontrando.
Na época barroca, o labirinto era uma forma aberta de interpretação literária concedendo vários caminhos possíveis para a sua leitura. O que interessa a esta prosa, todavia, é de como, por vezes, os labirintos se bifurcam. Tal e qual como me aconteceu.
A palavra labirinto, escreveu Jorge Luis Borges no “Livro dos seres imaginários”, vem do grego lábrys (λάβρυς), ou machado de dupla lâmina, símbolo encontrado no palácio do rei Minos, na ilha de Creta, local identificado com o mítico labirinto projetado por Dédalo e habitado pelo Minotauro.
Em 2011, a propósito dos 25 anos da morte de Jorge Luis Borges, Veneza resolveu homenagear o escritor argentino, que era apaixonado pela cidade, prestigiando-o com um jardim-labirinto, que se tornou um dos maiores do mundo. Para isso, inspirou-se no conto “El jardín de los senderos que se bifurcan”. São dois quilómetros, com 3.200 plantas, informações em Braille e, visto do alto, reproduz o nome de Borges de forma intrincada. Foi projetado nos anos 80, do século XX, pelo inglês Randoll Coate e concretizado pela Fundação Cini. Quando o avistei em Abril passado, do alto do Campanário da Igreja de São Jorge, em Veneza, mesmo aos pés de um primoroso pôr-do-sol, tive a certeza que a literatura ganhara vida e fazia de mim personagem real e “bifurcada” daquele labirinto. E que as páginas de um livro que desconheço, com a minha história (procura-se paradeiro), estaria a ser sublinhado a lápis. Seria eu a perder-me e a encontrar-me no labirinto, como um general de Gabriel Garcia Marquez. Ao mesmo tempo que percorria esse borgeano labirinto de Veneza, pude imaginar que ele iria dar ao labirinto de sebes do Parque de São Roque da Lameira, no Porto, no caminho para casa. E, por isso, não precisaria de avião algum que me levasse de volta. Percebi, nesse momento, por que tenho afeto por labirintos. Eles são verdadeiros portais do tempo, territórios neutros. E nós, em algum momento, seres imaginários.
Vanessa Ribeiro RodriguesVanessa Ribeiro Rodrigues é jornalista, escritora, documentarista, viajante. Nasceu no Porto, morou no Brasil e na Jordânia. O que lhe importa é reinventar a cor da linguagem, caçar histórias. É autora do livro “O Barulho do Tempo” e tem vários contos e poemas publicados em revistas literárias. Escreve segundo o novo acordo ortográfico.