O meu amigo Nuno Ferraz (já lá vão quase 20 anos, companheiro), leitor diligente, seletivo e viajante atento, presenteou-me, no passado aniversário (eu sei, quase um ano depois) com este livro magnífico da Carmen Miranda, pelo cunho do jornalista brasileiro Ruy Castro. Antes desta biografia sair, no Brasil, recordo-me bem, da cantora Jiji Trujilo (nome artístico), que no reportório musical tem Carmen Miranda, me falar desta literatura e que andava, também ela, a fazer um estudo musical das influências desta cantora luso-brasileira, sua musa inspiradora. Recordo-me da nossa conversa, no meio do chorinho Paulistano, naquele que para mim é dos melhores lugares de samba de raiz, em São Paulo, o Ó do Borogodó. Mal eu sabia que, anos depois, o Nuno, lembrando-se da minha condição luso-brasileira me daria um livro há muito desejado. Como diz o Paulo M., outro amigo querido, um dos meus principais impulsionadores para que não desista nunca de criar, "isto está tudo ligado". De uma escrita direta, limpa, generosa e, concomitantemente, inteligente, Ruy Castro perscruta as várias camadas da vida de uma das maiores musas do Brasil, e, ainda, tão distante da memória portuguesa. Além isso, são as imagens a preto e branco da vida privada desta artista de alma além do seu tempo, que nos envolvem numa viagem não só ao talento, modernidade e excêntrica condição de ser livre, mas também à generosidade e humilde paixão pela música.
Doutor, eu tenho um problema: ouço vozes.
Vozes estridentes, graves, aflitas, felizes, regozijadas, tristes,
impositivas, subservientes, dramáticas, roucas, baixas, altas, doces,
suaves, grossas, abafadas, metálicas, de ninar. Confidenciam-me
mistérios, coisas com e sem sentido. É um constrangimento, doutor. Eu
sei, espere, não, não sou louca, não é alucinação, embora me vá dizer
que padeça de alguma coisa. Sou professora universitária, madrinha de um
afilhado de seis meses, fã de Cartier-Bresson e Kapuscinski, tudo
convenções respeitadas, meu caro. Como vou admitir que ouço vozes?
Diga? Se essas vozes têm forma física? Ah, não, não doutor. São
invisíveis. Mas sei quem são: adolescentes, mulheres, ativistas, homens
do campo, contrabandistas, traficantes, operários, povo, há tanto povo
nas minhas vozes, doutor. Quer dizer, eu não as conheço, mas consigo
identificá-las. São aos milhares. E, passado um tempo, começo a
reconhecê-los a todos. Se calhar deveria enviar postais de Natal. Bom,
talvez não seja assim tão boa ideia. Seria bonito; ficaria a escrever
até à próxima época natalícia, à velocidade com que ouço (schhhhhh!!!)
estas vozes.
Todavia, há pior, caríssimo: eu tenho várias vidas. Infiltro-me na
casa dos outros, subo escadas clandestinas, durmo com homens e mulheres
que desconheço. Quer nomes? Domingos, Zé Navalha, Ludovico, Alexander,
Blimunda, Francisco, Maria das Cajatas, Manoel, Belarmina… Ajude-me,
doutor! É como se o corpo que habito tomasse formas humanas, de
princípio camaleónico. As referências mentais são as mesmas, mas a vida é
a dos outros, doutor. E não, eu juro, não me refiro ao Facebook, que me
mantenho desligada por dias. Falo de vidas reais; de vozes reais.
Começam com palavras, alguns regionalismos, lógicas, divagações e logo
tomam a forma absoluta de realidades paralelas. Eu mergulho doutor.
Ouça-me, eu integro-me e desintegro-me tal qual partícula, elemento da
insondável condição Biológica, Física, Filosófica, Parapsicológica. Não
sei.
A primeira vez que tal me aconteceu eu devia ter, sei lá, uns seis
anos. Começou a sério, por aí, muito embora, bem antes, eu possa quase
assegurar que ouvia uns ruídos. Eram apenas rumores prolongados, mas a
experiência do seguimento da vida (como se chamará um presente que não o
é e um futuro que seria, mas já foi: um entretanto?) diz-nos em algum
momento das nossas vidas que esse bulício sonoro já são sinais. As vozes
têm um significado, dizem coisas concretas, constroem narrativas, têm
vida tanta vida. Às vezes relacionam-se umas com as outras. Será que
deveria falar com outras pessoas que ouvem vozes? Vivem outras vidas?
Será possível? Para você perceber como isto acontece: sento-me, mergulho
os olhos e a alma e esqueço o mundo ao redor. Aí elas começam a falar
comigo. Não raras vezes, dou por mim a responder-lhes, a falar-lhes alto
e bom som. Depois acordo: fecho o livro e volto a ficar ligada à vida
real, percebe-me doutor. Doutor?
Vanessa
Ribeiro Rodrigues é jornalista, escritora, documentarista, viajante.
Nasceu no Porto, morou no Brasil e na Jordânia. O que lhe
importa é reinventar a cor da linguagem, caçar histórias. É autora do
livro “O Barulho do Tempo” e tem vários contos e poemas publicados em
revistas literárias. Escreve segundo o novo acordo ortográfico.
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