sexta-feira, junho 27, 2014

O Manuscrito

Regresso às crónicas - e quem sabe ao blog, que os pensamentos andam com ruído - pelo Bairro dos Livros, mensalmente, no jornal online Porto24, e em alternância com o Jorge Palinhos, Rui Lage e Rui Manuel Amaral. Esta sexta-feira a prosa chama-se "O Manuscrito".

"Imagino, por isso, um lugar onde estão todas as obras que não foram publicadas, um lugar onde os manuscritos dançam ao rufar dos tambores, rodeado de ébanos, fogueiras, iluminados por um imenso “ukamba”, num horizonte líquido". 

Para ler mais, seguir este link: http://www.porto24.pt/opiniao/o-manuscrito/

sexta-feira, janeiro 10, 2014

Ouvir demais, a pele da cultura

Nos últimos dois anos, têm-me acusado de ouvir demais. Eu explico: a televisão está sempre com o volume demasiado alto para mim (quando os demais se queixam que não ouvem nada), ouço sempre barulhos ou incoerências de som nas peças de rádio que estou a montar, quando os outros nada percebem; tendo a descriminar quantos sons tem uma música; sofro com os volumes de áudio das salas de cinema e estou sempre a dizer a algumas pessoas para falarem mais baixo. 

Se o primeiro cenário pode ser irritante para muitos (eu juro que o volume normal me fere os ouvidos), acreditem que é muito mais irritante para mim, tal como o derradeiro cenário. Ter, pelos vistos, alguém que ouve demais pode ser um problema. Não me ocorre, porém, nenhum caso em que tenha ouvido uma conspiração, ou confissão que merecesse um exclusivo jornalístico, mas gostaria, pelo bem do alegado dom (ou defeito). 

Eu confesso que não noto nada de especial, até o António me dizer que eu só posso ouvir em frequências sonoras que o comum dos mortais não ouve. Deve ser a isto que se chama ter ouvidos de tísico, cuja sensibilidade atinge níveis de audição premium. 

E por que razão me lembrei disto agora? Simples: além de ser uma constante na minha vida, concluí que talvez não seja por acaso, esse suposto "dom". Isso porque hoje voltei a fazer uma coisa que já não fazia há muito tempo e cuja atividade mantive durante anos: fechar os olhos na rua, no jardim, no autocarro e enumerar os sons ao meu redor. Um riacho, um pássaro, dois, três, passos, carros, folhas a tremer na árvore, gravilha, casaco a roçar, um motor, paragem de autocarro, ruídos brancos, tosse, risos. Fiz isso durante muitos anos - o ouvido há-de ter ficado treinado, sensível à quantidade de sons, dissecando-os na atividade cerebral. Fiz isso durante muito tempo, depois de ler o livro "A Pele da Cultura" de Derrick de Kerchove (discípulo de Marshall Macluhan, "O Meio é a Mensagem") em que a certa altura ele sugeria esse exercício: fechar os olhos e identificar os sons à volta. Na era do ruído, como esta, corro sempre o risco de ter uma overdose sonora. Talvez esteja na altura de fazer ouvidos de mercador. Usar tampões nos ouvidos também não me parece má solução.

segunda-feira, janeiro 06, 2014

À Procura dos meus personagens


(Algumas notas sobre um breve Brasil)






1. Três anos fora do Brasil é viver como mergulhador sem oxigénio. A coisa pode dar para o torto e sofrermos de uma doença descompressiva. Mas eu aguentei-me à bronca (tentei), mergulhei várias vezes em apneia, por instantes, e fui capaz de voltar à tona sem grandes mazelas. Correu bem e nada acontece por acaso, como nadar na direção errada. A viagem ganhei-a por causa de outra viagem em 2012. Um passo atrás para dar outro à frente, eventualmente. Foi uma oferta de uma boa amiga que quis presentear-me e ao A. pelo nosso trabalho. Foi há um ano e este foi o ano possível de um Brasil. Eu fui primeiro. A. foi depois. Foi a viagem dentro da viagem.



2. Como todas as viagens, regressar ao Brasil está cheio de peripécias que podem pôr em causa a teoria de que nada acontece por acaso. Por exemplo, não entendo por que razão fiquei doente durante uma semana com um vírus qualquer, avassalador, de caixão à cova. Seria, enfim, um presente de boas-vindas irónico, uma quase vingança de São Paulo: “Estiveste este tempo todo sem cá vir, agora toma que bem mereces ficar de castigo”. “Pô, Sampa”, penso, “assim desfrutei um pouco menos de você.” Ela lá se terá arrependido e ao quinto dia deu-me trégua; mas nem tanto. O síndrome de estranheza não mais me largou. Era eu dentro de mim, era eu fora de mim. Um corpo dentro de um corpo. Há qualquer coisa de metacorporal no regresso ao Brasil. É viajar no tempo.



3. Eu vou ao Brasil à procura dos meus personagens. É que os meus personagens só podem ser brasileiros. Não há outro lugar onde tenha mulher que passeia com carrinho de bebé com um cão lá enfiado; ou vendedores de picolé à noite; homens que fazem dragões tão perfeitos que parecem de verdade debaixo dos arcos da Lapa; Clube de Leitura da Prosa na Baratos da Ribeiro, com um dono (aparentemente) antipático, temperamental, que vende clássicos da literatura brasileira a 3,5 reais e depois surpreende, oferecendo CD's da nova música brasileira à estrangeira; picanha no Cantinho do Leblon. Eu vou ao Brasil, apercebo-me, para ficar mais perto de mim, à procura dos personagens endógenos. Mas por que raio a vida me quer longe de mim, no meu país? É a identidade fora da identidade.



4. Ocorre-me que não fui ao BH, ao MAM, ao Ibirapuera. Enfim, há uma série de coisas que ficam para fazer quando se tem apenas um mês no Brasil. Há uma série de amigos que não estavam lá, há um pedaço de Sampa que já não existe, mas está lá; há uma lasca de tropicalidade que existe, mas não se vê. “O Barulho do Tempo” perdeu-se entre o Rio e Sampa, mas algo ficou em suspenso. Ainda deu para improvisar uma curta-metragem que precisa de tempo para ver a luz do dia. Resta-me agradecer aos anfitriões de sempre, tão longe-tão-perto; tão-iguais-tão-diferentes. A. e T., L. e A. Brasil, se fosses um filme, só poderias ter sido escrito e realizado por Woody Allen, com assistência certa de João Ubaldo Ribeiro (e outros coadjuvantes, que me perdoem os puristas). Afinal, é apenas isso: Viva o Povo Brasileiro! (E isto: tenho sempre de voltar ao Brasil).

segunda-feira, dezembro 23, 2013

2013/2014: Plano sequência


Quem acompanha este blog já deve ter entendido a relação que tenho com o tempo, ou melhor com a noção de tempo. Melhor explicado será dizer que tendo a crer, por experiência do vivido, que não há cortes temporais; que sim, podem existir realidades paralelas à nossa vida (e sem recurso a psicoativos) basta estarmos atentos; que há uma persistência da impermanência dos estados, da fugacidade dos momentos e da possibilidade de um eterno retorno. Como vai, pode voltar; há coisas que realmente passam para nunca mais serem, mas há essência de nós que continua a ser intemporal. 

Não obstante, tudo resumido o que se retém é que, apesar da ilusão do tempo que passa e de as velas crescerem no bolo de aniversário, de passarmos a dar mais valor à época da laranja, às estações do ano, se fará chuva ou sol no dia seguinte, não há ruturas temporais, mas sim uma continuidade da nossa construção diária. E esse sim, é o nosso verdadeiro tempo; ou melhor dito, do ritmo interior.

Recordo que desde há dois anos que as horas se apresentam de uma maneira peculiar para mim. Comecei a reparar, que não só tendia a adivinhar as horas, como adiantei os meus relógios 7 minutos (vá-se la saber a razão), e que sempre que olhava para eles, ou para qualquer outro, desde que não fosse em simultâneo, e eles apareciam em capicua, ou semi-capicua (se é que isso existe). Por exemplo: 10h10; 12h21; 23h23; 13h31; 11h11 e por aí vai. Os mais céticos falam-me das coincidências, os mais esotéricos de que está ajustado o meu ritmo biológico com o da terra. Posso dar ou mais valor a isto, dependendo das transformações que o meu ritmo tem tido nos últimos dois anos. Significativas mudanças.

Apesar das dificuldades pessoais, agudizadas por um cenário pesado e desestruturante de foro pessoal, alheio aos meus esforços e vontade, mas premente, e que impacta diretamente as minhas preocupações, o ano que se despede trouxe, além de maiores responsabilidades na bagagem, peso e leveza, lágrimas e sorrisos, vazio e sentidos, gigantes lições de vida. No meio dos estilhaços supera-se, contrariando, resgatando forças endógenas, onde elas pareciam falhar. Foi um ano de limite, muito difícil, mas de muitas conquistas pessoais. 

Fiz parte da equipa de um documentário sobre refugiados palestinianos na Jordânia, conheci Petra, o Wadi-Rum, viajei por vários territórios palestinianos, conheci gente incrível, terminei o Mestrado, publiquei um livro, regressei ao Brasil, comecei o Doutoramento, dei aulas do que mais gosto de fazer, comecei outro documentário, fiz parte da equipa fundadora de um novo Doutoramento a nascer em 2014, termino o ano com a expetativa de um novo projeto de viagens e outro desafio relacionado com as viagens. Dia-a-dia, pedra sobre pedra, contrariando a corrente, acreditando ainda que as adversidades e a superação de pagar as contas ao fim do mês seja um desafio constante. No fundo, voltei a aproximar-me de mim, do que me faz feliz, do que sou. E isso é o mais importante. É por isso que para mim, não há balanços de 2013, como deveria haver, porque este ano inaugurei aquilo que me parece um plano sequência. Não desejo nada para 2014 a não ser aquilo que já existe, em continuum. Será apenas a continuação da proximidade de mim.


sexta-feira, dezembro 06, 2013

A inamovível condição de ser prédio


Podemos avaliar, medir, ponderar, o progresso da nossa vida, a estagnação, a latência de um estado intermédio, o retrocesso, ou o pêndulo desse compasso através do humor de um prédio. Apercebo-me disso, sobretudo, quando dou por mim, caminhante, a olhar para as casas devolutas, o vazio do recheio imobiliário apenas com a carcaça da fachada e a tinta estalada dos prédios antigos, imensos, burgueses; um muito de história onde se escondem as ínfimas partículas da memória, a invisibilidade das coisas que jamais serão ditas. Constato porque tenho histórias, fragmentos da minha própria lembrança alojados nesses prédios; resgato momentos, manhãs, fins de tarde ou noites em que passei, exatamente, por eles e, nesse instante, dá-se algo mágico, como se o filme da nossa própria vida rebobinasse pensamentos. Esses prédios são, por isso, espécie de mnemónicas, auxiliares de memória, recordando o que pensei num determinado momento, um passado recente, por e.g.: numa fria e bonita manhã de Inverno, com sol estendido. Ocorre-me tudo isto, no instante em que volto a percorrer o Largo do Moinho de Vento, no Porto. 



Há dois anos, espreguiçada pela rua, nessa manhã de véu de invernia leve e solarengo, fotografei pássaros por aqui, desejei ser dona do conjunto de casas antigas (meio milhão de euros toda a área, cheguei a perguntar) que tomam conta deste largo singelo, mágico, para mim. Cheguei a comentar com o meu amigo P. que se encantara, igualmente, por esta pequena praça, onde estão bancos de jardim, num piso de cimento. Ele imaginava, no rés-do-chão desse prédio, um café decorado com madeiras, onde se manteria o letreiro da loja de tecidos que outrora ali funcionou. Doeu-me a alma, como se aquilo fosse meu, quando resolveram cimentar todas as janelas e partiram os vidros com esse letreiro. Na imaginação de P. haveria um piano ali no largo, onde todos os fins de tarde, um mestre tocaria belas melodias por uma hora, para nos mostrar lugares recônditos e criativos dentro de nós, sensibilizando-nos com música. Cheiraria a café, haveria copos de vinho, flores, livros, sofás, pouffs, cultura. Haveria vida, vívidas histórias, reinvenções disparadas da boca, oriundas de novas ideias. 

Ocorre-me tudo isto, porque o lugar que comecei por ver como meu, há uns anos, passando por ali, fotografando, avaliando, medindo, ponderando continua, dois anos depois sem dono, repousado num abandono de aparente inutilidade, degradando, envelhecendo, com as janelas e as frinchas cimentadas, como cartas lacradas, com pombos como inquilinos, deixando a acidez dos excrementos lavar o que resta dos azulejos da fachada. O tempo quase-estático deste prédio (ou conjunto de casas, porque a da esquina é uma frutaria que ainda parece funcionar) mostra-me, por comparação, o quanto vivi, o quanto avançou e ficou, o quanto passou, o fôlego cheio que a vida me tem reservado, nesta inevitável busca de imortalidade em tudo o que fazemos. 
O abandono da vida de um prédio é pois, espoleta para repensarmos no movimento da nossa própria existência e constatação de que o que nos distingue do inânime estado de um imóvel é a capacidade de ação, de mudar o rumo do progresso de uma vida.




terça-feira, novembro 26, 2013

Jornalismo de Viagem

Esta quinta-feira, 10h, Aula Aberta à comunidade, na Univ. Lusófona, Porto, onde vou falar de Jornalismo e Viagem - "Na encruzilhada de novas escritas jornalísticas", a convite de Luis Miguel Loureiro. Quem estiver pela área é muito bem-vindo e tem livre trânsito no Auditório 1.2.Passem palavra, se puderem. Obrigada!

quinta-feira, novembro 21, 2013

Viagens em torno do Homem sem Perna, a Avaria, Itinerários Menos Sós

A melhor forma de viajar pela mente de Dulce Maria Cardoso (essa fronteira entre Angola e Portugal), Gonçalo M. Tavares (vítima do sedentarismo turístico) e Afonso Cruz (o escravo) é a solidão. Não o disseram, mas deram a entender: a possibilidade de chegar ao outro e redescobrirmos os nossos próprios limites. Os três escritores sentaram-se à mesa, por acaso, naquela que é a segunda ronda de conversas sobre viagens com escritores, integrada na sétima edição do programa Remade in Portugal, da Fundação EDP, no Porto. Gonçalo M. Tavares era suposto ter feito check in na primeira ronda – com Teolinda Gersão e Álvaro Domingues –, mas avarias acontecem, e juntou-se, desta vez, a Cruz e Cardoso, numa conversa mediada por Marta Bernardes. Viagem pelos trilhos individuais, um trio improvável, com coordenadas tão díspares, que diz coisas como “não gosto de viajar porque me dá conta da minha mortalidade, e a rotina anestesia-nos numa espécie de imortalidade” (D.M.Cardoso), “o confronto da mortalidade é uma forma de valorizarmos a vida” (Afonso Cruz) e “o nómada é alguém que avança, mas é talvez o que menos viaja” (Gonçalo. M. Tavares). O autor de «Viagem à Índia» é, no entanto, um viajante sedentário. “Quando fico mais do que três ou quatro dias num lugar, ao segundo dia encontro o meu punctum da cidade, como diria o [Roland] Barthes, e sou capaz de ir lá todos os dias”. Para ele viajar é encontrar um sítio onde possa ficar quieto, a observar as pessoas. A ideia de ir para um sítio paradisíaco para escrever causa-lhe angústia, o princípio do pesadelo. “Às vezes até me mandam fotografias com neve e vacas; para mim seria impossível escrever nesses locais; sair e ver um boi. Sinto necessidade de multidão, pois há uma energia que se solta do cruzamento das pessoas, por isso sou fascinado pela cidade, porque é organizadora; espécie de zoológico selvagem que é controlado”. Talvez por essa razão haja um atlas humano tão íntimo. “Cada um de nós é um mundo, não há maneira de googlar” – diz a autora de «O Retorno» – e é por isso que esta voragem de apequenar o mundo tem a ver com os nossos medos, que é o desconhecido”. Fala depois de felicidade (“O melhor acontece quando estamos distraídos”) e de percepção do outro: do que a perturbou numa residência literária em Berlim. “Só me apercebi de que o meu vizinho, que via todos os dias a passar por mim, não tinha uma perna, quando a diretora da residência me disse. Foi a prova de que não posso confiar no meu critério, na dificuldade de chegar ao outro, porque só vemos aquilo que queremos e estamos treinados para ver.” O que parece certo é que nos séculos passados, como descreveu o autor de «Jesus Cristo Bebia Cerveja» – e que considera que “viajar é olhar para nós”-, os homens que viajavam tinham tempo para ver tudo. Viajar era um “trabalho”, uma espécie de calvário, de penúria, porque demorava, porque a viagem era precisamente escarafunchar o processo, mais do que o fim em si mesmo. Chegar era o fim da viagem. Das coincidências etimológicas, ou não, dirá Cruz a certa altura: o termo da viagem em inglês travel deriva de “travail”. Viajar era uma forma de perder tempo. Uma avaria constante? Explicamos: é que para Gonçalo M. Tavares é “evidente” que as avarias [tecnológicas] permitem que as pessoas tenham mais tempo: quando há uma greve de comboio, não se cumpre o plano de viagem, a pessoa fica com algo extra vida, um hiato. “Cada um deveria ter direito à sua avaria diária”, constata. ” Então: uma forma de reinventarmos a solidão, de “humanizarmos” o tempo que nos é dado, de vermos o homem sem perna.

segunda-feira, novembro 11, 2013

Chegar aos 42 km| Reaching the 42 km

Esta curta-metragem foi feita pelo António Morais (direção de fotografia e edição) e Gonçalo Esteves (ideia original e texto), com a voz do ator Ivo Canelas. É um vídeo sobre motivação, a vida como inspiração, entre lameiros, montanhas e cavernas no Parque Natural do Montesinho e Sanabria.


terça-feira, novembro 05, 2013

Workshop de Crónicas e Reportagens de Viagem

Últimos dias para inscrições no Workshop de Crónicas e Reportagens de Viagens. O que é escrever sobre viagens? Como se deve organizar a informação? Qual a melhor forma de tomar notas? Como escrever e editar essa informação? E por que razão uma imagem é mais adequada do que outra para ser publicada? Em que plataformas posso publicar o meu trabalho para ser lido e partilhado? Estas e outras coordenadas a partir do dia 8 de Novembro na Escrever Escrever.
Sobre mim:
Colaboro com a TSF, Notícias Magazine, revista Evasões, Fugas, Soltrópico e produtoras de audiovisual. Assino o blog latitudesnomadas.wordpress.com onde publico parte dos trabalhos de jornalismo de viagens. O mais recente foi o programa semanal de rádio sobre Marrocos para a rádio TSF.

Assino o blog babelborders.tumblr.com, criado a propósito dos três meses e meio que vivi na Jordânia (2013) em pesquisa para escrever o guião de um documentário sobre um campo de refugiados palestinianos.

O ano passado viajei de Guimarães a Maribor, na Eslovénia, de autocaravana, acompanhado um grupo de artistas portugueses e macaenses no projeto Spera Mundi. A viagem foi registada em vídeo e texto em speramundi.blogs.sapo.pt

Em 2009 cirandei 4 meses pela Amazónia brasileira, viajando com o exército brasileiro, dormindo em rede na selva, com cheiro a breu branco e copaíba, galgando rios pelas comunidades ribeirinhas e indígenas do Pará às Anavilhanas. Publiquei no Diário de Notícias e o resultado está em www.sinaisdagente.com

domingo, outubro 27, 2013

Até Playboy tem cura

 Já tive propensão para ser confidente dos meus amigos infiéis, o que me deixava, sempre, numa situação complicada. Acho que a razão principal para que eles me olhassem como confessionário silencioso é porque acabava descobrindo, sem grandes alardes, apenas em pequenos gestos. Eles percebiam.
Moral da história: acabava ouvindo, tal qual uma Freud que não tecia grandes observações, a não ser lançar, no final da consulta, aquele olhar “a consciência é tua, mas nunca me peças para mentir”. 

A certa altura cheguei a pensar que seria prática comum no sexo masculino, por muito amor que ele tivesse à Maria, Solange, Eleonora, Sofia, sei lá agora enumerar o nome delas. Ou seria apenas uma fase. É, devia ser uma fase, afinal haverá recônditas motivações para a consumação de um flirt às escondidas.

A situação mais caricata de que me recordo foi a de X.

Estávamos no Brasil. Ele, rapaz bem-parecido com cara de Dom Juan, el conquistador hermoso, seu jeito sedutor-malandro-tugo-latino-menino-a-precisar-de-colo e retórica bem apessoada, resolveu que ter uma namorada não era, afinal, suficiente. Bom, não eram bem namoradas, não sei bem como dizer... talvez, sei lá, amigas especiais?

X. deixara uma amiga especial em terras lusas, arranjara uma outra em São Paulo e como não estivesse satisfeito, outra noutra cidade, a 10 horas de distância de autocarro de São Paulo. O que é certo é que durante a semana, por vezes, ele ainda ia falando com a miúda de Lisboa, enquanto saía com a paulistana. 

Ao fim de semana, sem falhar um autocarro que fosse, zarpava para outro estado. Chegava às segundas de madrugada e, pontualmente, apresentava-se ao serviço. Há quem chame a este comportamento sociopatia. Eu chamar-lhe-ia frugalidade; e não sei como o rapaz não teve um esgotamento. 

Acho que elas nunca chegaram a descobrir, nunca ninguém se atreveu a contar, mas recordo que uma delas chegou a persegui-lo e a ameaçar encontrá-lo em Portugal, porque não podia viver sem ele. Um ano depois, X. saiu, novamente, do país. Apaixonou-se por uma mulher bem mais velha e mantinha um amante mais nova. Até que tudo acabou. 

Há um mês casou-se, depois de dois anos de namoro. Ao que tudo indica continua arrebatadamente apaixonado e fiel. É, se calhar, há esperança para os Playboys.

Notas soltas e outras viagens

 Às vezes o Firefox deixa de funcionar e a minha escrita torna-se mais lenta. É quando mais me apetece viajar, mas acabo sempre por tornar-me diletante de leituras. Ponho um Vinicius para tocar no leitor de vinil, leio o conto erótico que a Juliana Frank publicou hoje na Ilustríssima, e desisto a meio, espero pelas crónicas do António Prata, e recordo-me que há muito que não leio Vila-Matas. Procuro o mesmo nas leituras: constatar que a escrita humaniza-nos um bocado mais. Não, esperem. Perceber que a escrita imortaliza-nos um pedaço, que nos faz viver um pouco mais além, assim resilientes, obras imortais com direito a Wikipedia. Não sei se quero isso. Isso e ler livros dedicados a mulheres, com cartas dengosas e melodramáticas. Um enjoo, ou apenas um laivo de inveja. 
O campeonato de ténis está quase a acabar, na televisão, o pai joga xadrez,  o avô já não lê, mas tem bulas como literaturas; escrevo análises textuais contra o tempo que não me apetece escrever, bibliografias, enquadramentos teóricos, e como seria bom viver sem relógios, nem dobras de tempo. Será como fazer aviões de papel? Um dia após o outro, uma página após outra página. Cheguei ao fim do livro da Vanessa. Não o meu, o da Bárbara. As Noites de Alface, leitura leve, com humor de couve-flor, bulas e pó de baratas medicinais. Leve, pode ser levado para a praia, mas aquele fim que não me convenceu, Vanessa. Sei lá, falta-lhe algo e o vazio é gente sem história. Talvez devesse voltar e escrever cartas, postais. Talvez devesse voltar a viajar. Sim, preciso voltar a viajar. Não sou eu, é o outro, Kapuscinski!
O Ricardo quer que vá a Bruxelas, ela à Holanda; deveria era ir por aí, entre viagens na minha terra a Cabeça, Coração, Estômago. Tens razão Lu, deveria ler o livro, logo me enfado. Preciso logo começar as Miniaturas da Andréa, ou aventurar-me no grande Sertão Veredas de uma vez. Mais um vinil, Paulinho da Viola. Continuo com a predileção de pôr MPB no tocador de bolacha. É isso ela tem de voltar a viajar.

sábado, outubro 26, 2013

A teia de Ofélia


Durante o mês que Lis passou no Brasil não poderia imaginar que o seu quarto - caverna que, além da mobília, é povoada por livros novos e usados, revistas culturais, vinis, outras coisas inúteis, pó e, muito certamente, por seres microscópicos e invisíveis -, fora ocupado. Ela tentou expulsar a intrusa. Agarrou, subtil e silenciosamente, numa folha em branco, soergueu a patuda, equilibrando a tagmata aracnídea e zás: atirou-a pela janela. Achou que se tinha livrado da invasora.  
No dia seguinte, reconheceu o falhanço. A okupa voltara decidida a reivindicar o que considerava seu, por presumível abandono do espaço da proprietária legítima por 30 dias. Como engenheira-arquiteta competente tecera já a teia numa das estantes. Lis traçou mil e uma estratégias para o despejo, mas dona aranha mostrou-se resoluta a não arredar pata. A caçadora de histórias pensou: “cometeria um crime?” Mas não tinha mordomo-bode-expiatório. “Causaria ferimentos ligeiros? Suspeitariam, indubitavelmente, das suas capacidades facínoras. Lis perseguiu o aracnídeo entre prateleiras, tacos levantados, tinta enrugada, baús, debaixo da cama, ao redor de candeeiros e malas, qual funâmbula em vertigem. A rainha inabalável pôs-se em fuga, fintando livros há muito ali inquilinos. Primeiro, entre J. Rodrigues Miguéis, F. de Castro, A. Ribeiro, J. Saramago, saltando de lombada em lombada com destreza e intimidade de velhos amigos. Depois entre P. Auster, R. Kapuscinski, T. Wolfe, E. V. Matas e R. Bolaño. O golpe final - com certeza para fazer pouco de Lis, podemos adivinhar-lhe o risinho trocista- , foi alojar-se entre “O grande Sertão Veredas” de J. Guimarães Rosa e “A Grande Arte” de R. Fonseca. Toda esta perseguição levou Lis a concluir: “As aranhas são seres eruditos”. Batizou-a de Ofélia. Parecem viver felizes.

Crónica de Vanessa Rodrigues publicada a 25 de Outubro no Semanário Grande Porto, página Bairro dos Livros, iniciativa da editora CulturePrint, em alternância semanal com Jorge Palinhos, Rui Lage, Rui Manuel Amaral.

quinta-feira, outubro 24, 2013

À Procura dos meus personagens#1 (Algumas notas sobre um breve Brasil)

 

1. Três anos fora do Brasil é viver como mergulhador sem oxigénio. A coisa pode dar para o torto e sofrermos de uma doença descompressiva. Mas eu aguentei-me à bronca, mergulhei várias vezes em apneia, por instantes e fui capaz de voltar à tona sem grandes mazelas. Correu bem e nada acontece por acaso, como nadar da direção errada. A viagem ganhei-a por causa de outra viagem em 2012. Um passo atrás para dar outro à frente, eventualmente. Foi uma oferta de uma boa amiga que quis presentear-me e ao A. pelo nosso trabalho. Foi há um ano e este foi o ano possível de um Brasil. Eu fui primeiro. A. foi depois.

Como todas as viagens, regressar ao Brasil está cheio de peripécias que podem pôr em causa a teoria de que nada acontece por acaso. Por exemplo, não entendo por que razão fiquei doente durante uma semana com um vírus qualquer. Seria, enfim, um presente de boas-vindas irónico, uma quase vingança de São Paulo: “Estiveste este tempo todo sem cá vir, agora toma que bem mereces ficar de castigo”. “Pô, Sampa”, penso, “assim desfrutei um pouco menos de você.” Ela lá se terá arrependido e ao quinto dia deu-me trégua, mas nem tanto.

2. Eu vou ao Brasil à procura dos meus personagens. É que os meus personagens só podem ser brasileiros. Não há outro lugar onde tenha mulher que passeia com carrinho de bebé com um cão lá enfiado; ou vendedores de picolé, homens que fazem dragões tão perfeitos que parecem de verdade; Clube de Leitura da Prosa na Baratos da Ribeiro, com um dono antipático que vende clássicos da literatura brasileira a 3,5 reais e depois oferece CD's da nova música brasileira à estrangeira; picanha no Cantinho do Leblon, Original. Ocorre-me que não fui ao BH, ao MAM, ao Ibirapuera. Enfim, há uma série de coisas que ficam para fazer quando se tem apenas um mês no Brasil.

Panta

Gosto de boas notícias por isso, cá vai! Panta: Nova revista de arte urbana editada em Portugal

"Há uma nova revista dedicada ao mundo da arte urbana (e não só). A empresa portuguesa Book a Street Artist, dedicada ao agenciamento de artistas de rua, acaba de lançar, este mês, a Panta, uma publicação trimestral online que no seu primeiro número dá destaque a artistas nacionais.

Uma reportagem sobre a Pensão Rosinha, uma entrevista com fotoreportagem à banda Os Compota, uma coleção de retratos de artistas de rua portugueses e uma reportagem sobre a arte urbana de Beirute (Líbano) são alguns dos conteúdos que o primeiro

Segundo explicam os mentores do projeto ao Boas Notícias, o objetivo da Panta é lançar "reposicionar e dar um novo valor à 'street art' promovendo o trabalho de artistas talentosos e ajudando a levar a sua mensagem ao grande público".

Reprodução do site Boas Notícias. Notícia de 22 de Outubro 2013 

quarta-feira, outubro 23, 2013

Um problema crónico

Eu tenho um problema. Bom, talvez tenha vários, mas aquele de que tenho certeza e contra o qual me debato, diariamente, tem sobressaído mais do que habitual. O meu problema poderá, certamente, ser explicado por um qualquer analista especializado em psicologia pós-moderna, todavia ainda não aconteceu de nos conhecermos e parece longe esse acontecido a acontecer. Talvez pudesse resultar numa relação de onde pudessem brotar vários frutos. Ele analisando-me; e eu tomando notas para aproveitar o testemunho para um texto.

Vejamos: o meu problema é bem básico, digamos, convencional, e tenho exercitado vários esquemas, planos e estratégias para fintar a questão. Diagnóstico: tenho um problema crónico com prazos, hierarquias, rotinas e pêlo de gato. O último não deveria fazer parte da lista, mas com a idade noto que a coisa piora. Quanto aos primeiros, que incluo como fenómeno social total da minha existência num problema único a que apelido de “temporalidade da existência do aqui-e-agora”, devo admitir que piorou, consideravelmente, nos últimos dois anos. 

Eu explico, porque a questão é bem mais profunda: continuo a deixar as coisas que não gosto de fazer para o último momento; detesto ter de fazer a mesma coisa todos os dias, bem como ter hábitos semanais, começo a ter insónias e comichões, não lido bem quando tentam mandar em mim. O que acontece quando sou abduzida por ter de fazer algo de que não gosto é que acabo por me entusiasmar a querer fazer outras coisas há muito adiadas que de enfadonhas passam a coisas espetaculares. 

Disperso, eu sei que disperso, em querer fazer tudo, talvez, menos aquilo que caiu no prato do prazo limite. Aquela coisa do-que-tem-que-ser-tem-muita-força é tudo mentira, não é nada assim, quem o inventou como máxima deveria andar a tomar uns chás engraçados. Aquilo que não tem que ser é que tem muita força, pelo menos para o clube dos indisciplinados como eu. 

Eu bem que queria acordar às seis da manhã, correr, comer o pequeno-almoço super saudável cheio de vitaminas, ler muito e escrever logo de manhã, parar para almoçar, cochilar, diligentemente cumprir mais um trabalho mesmo que não queira e seja enfadonho, tal qual palavras cruzadas na sala de espera do médico, jantar à mesma hora, ler de novo e dormir cedo. Mas enfim, há 32 anos que não dá certo. Não sei se dará alguma vez. Talvez seja abduzida um dia por extra-terrestres em sonhos que reprogramem a máquina. 

P.S. É tudo mentira, isto é uma ficção, qualquer semelhança com alguma história que conheçam é pura coincidência, heim!

Oh Kubrick, my Kubrick


António e a Gaivota

Era uma tempestade de areia. Ou o vento que levantava a areia. A cortina que se levantou na praia fazia com que esses fios grãos doessem. Eram agulhas que queria penetrar a pele. Fechei os olhos e, de mão dada, atravessamos a cortina, ou aquela nuvem oblíqua. Talvez mais além, protegidos nas rochas, a ferocidade do vento, meio quente, meio frio, tecido morno sobre a tarde, acalmasse e nos deixasse escorrer nos rochedos como lagartos à procura de vitamina E, ou tal qual plantas regenerando-se em fotossíntese. 

Fomos. 

Eu subi primeiro, passei a corda que, evidentemente, queria dizer não trespassar, mas se outros casais se recolhiam, depois dela, nas reentrâncias dos rochedos, a ver as ilhas, e o mar, e os barcos, e as gaivotas, o que nos impediria?

António disse que iria continuar a explorar. Eu quedei-me, deitei-me feliz por estar recolhida do vento e das agulhas da areia. Ali o corredor da ventania não chegava. Deitei-me na inclinação da rocha dura, procurando que ela seguisse a espinha e não me magoasse. 

Fechei os olhos. 

Ouvia-se o embalo do fim de tarde de uma praia calma. Ninguém falava. As gaivotas grasnavam. O António voltou. Pediu água. Encontrou uma gaivota ferida agarrada a uma corda. Talvez fosse de uma rede de pescador. Talvez fosse do lixo que o mar tem. Talvez fosse maldade do homem. O importante era libertá-la, dar-lhe água, talvez a esperança da vida que ela não sabe se tem. Estava desistente. Ele levou a água e a esperança dentro dele. Um alento de que aquele gesto a salvasse. Tirou-lhe a corda à volta do pescoço, viu a ferida, percebeu-a débil, tentou chamar os homens da Marinha que o mandavam sair das rochas por ser perigoso. Tentou falar-lhes da gaivota, da ferida, da esperança de que ela vivesse, afinal, depois de lhe dar um pouco de água ela mudara do silêncio para um grasnar defensivo. Quem sabe não lhe agradecesse esse novo alento. 

António não podia fazer nada mais a não ser mais um pouco de água para a gaivota, voltar e obedecer à ordem da Marinha e sair dos rochedos. Voltou, desalentado, um pouco revoltado porque as autoridades não atenderam ao chamado para salvar uma gaivota. Fez o que pôde.

António não gosta de gaivotas, bem o sei, mas não foi por isso que a abandonou e insistiu que respirasse na esperança de a salvar.

sexta-feira, outubro 11, 2013

Cenas de crónicas não escritas


Se apontar uma vida passada, com todo o respeito pelo autor, teria sido um João do Rio, que deambula pela etnografia carioca, levantando o pó dos livros, desdobrando as badanas das vidas secretas, dissecando os humores e os pensamentos mais psicanalíticos dos personagens que ouviu, sentiu, observou, conviveu e intuiu. 
O Rio-cidade tem esta geografia de personagens peculiares, de homens que fazem dragões que parecem tão reais quanto as minhas mãos e os passeiam pela Lapa às onze da noite. O Rio-cronista tem a personalidade de um curioso analista, antropólogo, jornalista, que se funde, por vezes, com os personagens da suas histórias. Há algo mágico na capacidade de transpor a realidade carioca, que parece tão ficcionada, inverosímil para um pedaço de papel, virtual, ou na tradução de um apontamento mental. Levo o caderno cheio de notas, notas de cenas para crónicas que nunca escreverei e outras que num ato de auto-disciplina me policiarei para imortalizar. Nesse caso, terei de voltar a João do Rio, como expiação de uma penitência em falta.

terça-feira, outubro 08, 2013

"O Barulho do Tempo" no Brasil

Hoje, no Rio de Janeiro, haverá leituras no sebo Baratos Ribeiro de "O Barulho do Tempo", às 20h, e quinta-feira, 10, 18h, apresentação na Livraria da Travessa, na Sete de Setembro. Saravá! Venham que festa não faltará! Evento Público: ver detalhes.


domingo, setembro 29, 2013

Há gente que nos come até aos ossos, que nos estropia o coração, não... esperem, há gente que nos esventra, adentro, que mete a mão até às vísceras, e estraçalha, corrói, ácido (mistura fluorídrico com pentafluoreto de antimónio), não esperem, há homens, não-homens, que devoram o coração, que detêm o batimento cardíaco, que nos amordaçam, silenciam (tanto ruído na cabeça deles esse nada), que nos engolem para esse vazio em que pensam, em que veem, em que sentem, em que pesam o mundo de si, que não existe, que não é, não está, não pende na existência de agora, desta imensa impermanência que é ir-se.