quinta-feira, novembro 21, 2013
Viagens em torno do Homem sem Perna, a Avaria, Itinerários Menos Sós
A melhor forma de viajar pela mente de Dulce Maria Cardoso (essa fronteira entre Angola e Portugal), Gonçalo M. Tavares (vítima do sedentarismo turístico) e Afonso Cruz (o escravo) é a solidão. Não o disseram, mas deram a entender: a possibilidade de chegar ao outro e redescobrirmos os nossos próprios limites.
Os três escritores sentaram-se à mesa, por acaso, naquela que é a segunda ronda de conversas sobre viagens com escritores, integrada na sétima edição do programa Remade in Portugal, da Fundação EDP, no Porto. Gonçalo M. Tavares era suposto ter feito check in na primeira ronda – com Teolinda Gersão e Álvaro Domingues –, mas avarias acontecem, e juntou-se, desta vez, a Cruz e Cardoso, numa conversa mediada por Marta Bernardes. Viagem pelos trilhos individuais, um trio improvável, com coordenadas tão díspares, que diz coisas como “não gosto de viajar porque me dá conta da minha mortalidade, e a rotina anestesia-nos numa espécie de imortalidade” (D.M.Cardoso), “o confronto da mortalidade é uma forma de valorizarmos a vida” (Afonso Cruz) e “o nómada é alguém que avança, mas é talvez o que menos viaja” (Gonçalo. M. Tavares).
O autor de «Viagem à Índia» é, no entanto, um viajante sedentário. “Quando fico mais do que três ou quatro dias num lugar, ao segundo dia encontro o meu punctum da cidade, como diria o [Roland] Barthes, e sou capaz de ir lá todos os dias”. Para ele viajar é encontrar um sítio onde possa ficar quieto, a observar as pessoas. A ideia de ir para um sítio paradisíaco para escrever causa-lhe angústia, o princípio do pesadelo. “Às vezes até me mandam fotografias com neve e vacas; para mim seria impossível escrever nesses locais; sair e ver um boi. Sinto necessidade de multidão, pois há uma energia que se solta do cruzamento das pessoas, por isso sou fascinado pela cidade, porque é organizadora; espécie de zoológico selvagem que é controlado”.
Talvez por essa razão haja um atlas humano tão íntimo. “Cada um de nós é um mundo, não há maneira de googlar” – diz a autora de «O Retorno» – e é por isso que esta voragem de apequenar o mundo tem a ver com os nossos medos, que é o desconhecido”. Fala depois de felicidade (“O melhor acontece quando estamos distraídos”) e de percepção do outro: do que a perturbou numa residência literária em Berlim. “Só me apercebi de que o meu vizinho, que via todos os dias a passar por mim, não tinha uma perna, quando a diretora da residência me disse. Foi a prova de que não posso confiar no meu critério, na dificuldade de chegar ao outro, porque só vemos aquilo que queremos e estamos treinados para ver.”
O que parece certo é que nos séculos passados, como descreveu o autor de «Jesus Cristo Bebia Cerveja» – e que considera que “viajar é olhar para nós”-, os homens que viajavam tinham tempo para ver tudo. Viajar era um “trabalho”, uma espécie de calvário, de penúria, porque demorava, porque a viagem era precisamente escarafunchar o processo, mais do que o fim em si mesmo. Chegar era o fim da viagem. Das coincidências etimológicas, ou não, dirá Cruz a certa altura: o termo da viagem em inglês travel deriva de “travail”. Viajar era uma forma de perder tempo. Uma avaria constante? Explicamos: é que para Gonçalo M. Tavares é “evidente” que as avarias [tecnológicas] permitem que as pessoas tenham mais tempo: quando há uma greve de comboio, não se cumpre o plano de viagem, a pessoa fica com algo extra vida, um hiato. “Cada um deveria ter direito à sua avaria diária”, constata. ” Então: uma forma de reinventarmos a solidão, de “humanizarmos” o tempo que nos é dado, de vermos o homem sem perna.
segunda-feira, novembro 11, 2013
Chegar aos 42 km| Reaching the 42 km
Esta curta-metragem foi feita pelo António Morais (direção de fotografia e edição) e Gonçalo Esteves (ideia original e texto), com a voz do ator Ivo Canelas. É um vídeo sobre motivação, a vida como inspiração, entre lameiros, montanhas e cavernas no Parque Natural do Montesinho e Sanabria.
terça-feira, novembro 05, 2013
Workshop de Crónicas e Reportagens de Viagem
Últimos dias para inscrições no Workshop de Crónicas e Reportagens de Viagens. O que é escrever sobre viagens? Como se deve organizar a informação? Qual a melhor forma de tomar notas? Como escrever e editar essa informação? E por que razão uma imagem é mais adequada do que outra para ser publicada? Em que plataformas posso publicar o meu trabalho para ser lido e partilhado? Estas e outras coordenadas a partir do dia 8 de Novembro na Escrever Escrever.
Sobre mim:Colaboro com a TSF, Notícias Magazine, revista Evasões, Fugas, Soltrópico e produtoras de audiovisual. Assino o blog latitudesnomadas.wordpress.com onde publico parte dos trabalhos de jornalismo de viagens. O mais recente foi o programa semanal de rádio sobre Marrocos para a rádio TSF.
Assino o blog babelborders.tumblr.com, criado a propósito dos três meses e meio que vivi na Jordânia (2013) em pesquisa para escrever o guião de um documentário sobre um campo de refugiados palestinianos.
O ano passado viajei de Guimarães a Maribor, na Eslovénia, de autocaravana, acompanhado um grupo de artistas portugueses e macaenses no projeto Spera Mundi. A viagem foi registada em vídeo e texto em speramundi.blogs.sapo.pt
Em 2009 cirandei 4 meses pela Amazónia brasileira, viajando com o exército brasileiro, dormindo em rede na selva, com cheiro a breu branco e copaíba, galgando rios pelas comunidades ribeirinhas e indígenas do Pará às Anavilhanas. Publiquei no Diário de Notícias e o resultado está em www.sinaisdagente.com
domingo, outubro 27, 2013
Até Playboy tem cura
Já tive propensão para
ser confidente dos meus amigos infiéis, o que me deixava, sempre,
numa situação complicada. Acho que a razão principal para que eles
me olhassem como confessionário silencioso é porque acabava
descobrindo, sem grandes alardes, apenas em pequenos gestos. Eles
percebiam.
Moral da história: acabava ouvindo, tal qual uma
Freud que não tecia grandes observações, a não ser lançar, no final da consulta, aquele
olhar “a consciência é tua, mas nunca me peças para
mentir”.
A certa altura cheguei a
pensar que seria prática comum no sexo masculino, por muito amor que
ele tivesse à Maria, Solange, Eleonora, Sofia, sei lá agora
enumerar o nome delas. Ou seria apenas uma fase. É, devia ser uma fase,
afinal haverá recônditas motivações para a consumação de um
flirt às escondidas.
A situação mais
caricata de que me recordo foi a de X.
Estávamos no Brasil.
Ele, rapaz bem-parecido com cara de Dom Juan, el conquistador
hermoso, seu jeito
sedutor-malandro-tugo-latino-menino-a-precisar-de-colo e retórica
bem apessoada, resolveu que ter uma namorada não era, afinal,
suficiente. Bom, não eram bem namoradas, não sei bem como dizer...
talvez, sei lá, amigas especiais?
X. deixara uma amiga
especial em terras lusas, arranjara uma outra em São Paulo e como
não estivesse satisfeito, outra noutra cidade, a 10 horas de
distância de autocarro de São Paulo. O que é certo é que durante
a semana, por vezes, ele ainda ia falando com a miúda de Lisboa,
enquanto saía com a paulistana.
Ao fim de semana, sem falhar um
autocarro que fosse, zarpava para outro estado. Chegava às segundas
de madrugada e, pontualmente, apresentava-se ao serviço. Há quem
chame a este comportamento sociopatia. Eu chamar-lhe-ia frugalidade; e
não sei como o rapaz não teve um esgotamento.
Acho que elas nunca
chegaram a descobrir, nunca ninguém se atreveu a contar, mas recordo
que uma delas chegou a persegui-lo e a ameaçar encontrá-lo em
Portugal, porque não podia viver sem ele. Um ano depois, X. saiu,
novamente, do país. Apaixonou-se por uma mulher bem mais velha e
mantinha um amante mais nova. Até que tudo acabou.
Há um mês
casou-se, depois de dois anos de namoro. Ao que tudo indica continua
arrebatadamente apaixonado e fiel. É, se calhar, há esperança para
os Playboys.
Notas soltas e outras viagens
Às vezes o Firefox deixa
de funcionar e a minha escrita torna-se mais lenta. É quando mais me
apetece viajar, mas acabo sempre por tornar-me diletante de leituras.
Ponho um Vinicius para tocar no leitor de vinil, leio o conto erótico
que a Juliana Frank publicou hoje na Ilustríssima, e desisto a meio, espero pelas
crónicas do António Prata, e recordo-me que há muito que não leio
Vila-Matas. Procuro o mesmo nas leituras: constatar que a escrita humaniza-nos um
bocado mais. Não, esperem. Perceber que a escrita imortaliza-nos um
pedaço, que nos faz viver um pouco mais além, assim
resilientes, obras imortais com direito a Wikipedia. Não sei se
quero isso. Isso e ler livros dedicados a mulheres, com cartas
dengosas e melodramáticas. Um enjoo, ou apenas um laivo de inveja.
O campeonato de ténis
está quase a acabar, na televisão, o pai joga xadrez, o avô já não lê, mas tem bulas como literaturas; escrevo análises textuais contra o tempo que
não me apetece escrever, bibliografias, enquadramentos teóricos, e como seria bom viver sem relógios, nem
dobras de tempo. Será como fazer aviões de papel? Um dia após o outro, uma página após outra
página. Cheguei ao fim do livro da Vanessa. Não o meu, o da
Bárbara. As Noites de Alface, leitura leve, com humor de couve-flor,
bulas e pó de baratas medicinais. Leve, pode ser levado para a
praia, mas aquele fim que não me convenceu, Vanessa. Sei lá,
falta-lhe algo e o vazio é gente sem história. Talvez devesse
voltar e escrever cartas, postais. Talvez devesse voltar a viajar.
Sim, preciso voltar a viajar. Não sou eu, é o outro, Kapuscinski!
O Ricardo quer que vá a Bruxelas, ela à Holanda; deveria era ir por aí, entre viagens na minha terra a Cabeça, Coração, Estômago. Tens razão Lu, deveria ler o livro, logo me enfado. Preciso logo começar as Miniaturas da Andréa, ou aventurar-me no grande Sertão Veredas de uma vez. Mais um vinil, Paulinho da Viola. Continuo com a predileção de pôr MPB no tocador de bolacha. É isso ela tem de voltar a viajar.
sábado, outubro 26, 2013
A teia de Ofélia
Durante o
mês que Lis passou no Brasil não poderia imaginar que o seu quarto
- caverna que, além da mobília, é povoada por livros novos e
usados, revistas culturais, vinis, outras coisas inúteis, pó e,
muito certamente, por seres microscópicos e invisíveis -, fora
ocupado. Ela tentou expulsar a intrusa. Agarrou, subtil e
silenciosamente, numa folha em branco, soergueu a patuda, equilibrando
a tagmata aracnídea e zás: atirou-a pela janela. Achou que se tinha
livrado da invasora.
No dia
seguinte, reconheceu o falhanço. A okupa voltara decidida a
reivindicar o que considerava seu, por presumível abandono do espaço
da proprietária legítima por 30 dias. Como engenheira-arquiteta
competente tecera já a teia numa das estantes. Lis traçou mil e uma
estratégias para o despejo, mas dona aranha mostrou-se resoluta a
não arredar pata. A caçadora de histórias pensou: “cometeria um
crime?” Mas não tinha mordomo-bode-expiatório. “Causaria
ferimentos ligeiros? Suspeitariam, indubitavelmente, das suas
capacidades facínoras. Lis
perseguiu o aracnídeo entre prateleiras, tacos levantados, tinta
enrugada, baús, debaixo da cama, ao redor de candeeiros e malas,
qual funâmbula em vertigem. A rainha inabalável pôs-se em fuga,
fintando livros há muito ali inquilinos. Primeiro, entre J.
Rodrigues Miguéis, F. de Castro, A. Ribeiro, J. Saramago, saltando
de lombada em lombada com destreza e intimidade de velhos amigos.
Depois entre P. Auster, R. Kapuscinski, T. Wolfe, E. V. Matas e R.
Bolaño. O golpe final - com certeza para fazer pouco de Lis, podemos
adivinhar-lhe o risinho trocista- , foi alojar-se entre “O grande
Sertão Veredas” de J. Guimarães Rosa e “A Grande Arte” de R.
Fonseca. Toda esta perseguição levou Lis a concluir: “As aranhas
são seres eruditos”. Batizou-a de Ofélia. Parecem viver felizes.
Crónica de Vanessa Rodrigues publicada a 25 de Outubro no Semanário Grande Porto, página Bairro dos Livros,
iniciativa da editora CulturePrint, em alternância semanal com Jorge
Palinhos, Rui Lage, Rui Manuel Amaral.
quinta-feira, outubro 24, 2013
À Procura dos meus personagens#1 (Algumas notas sobre um breve Brasil)
1. Três anos fora do Brasil é viver como mergulhador sem oxigénio. A coisa pode dar para o torto e sofrermos de uma doença descompressiva. Mas eu aguentei-me à bronca, mergulhei várias vezes em apneia, por instantes e fui capaz de voltar à tona sem grandes mazelas. Correu bem e nada acontece por acaso, como nadar da direção errada. A viagem ganhei-a por causa de outra viagem em 2012. Um passo atrás para dar outro à frente, eventualmente. Foi uma oferta de uma boa amiga que quis presentear-me e ao A. pelo nosso trabalho. Foi há um ano e este foi o ano possível de um Brasil. Eu fui primeiro. A. foi depois.
Como todas as viagens, regressar ao
Brasil está cheio de peripécias que podem pôr em causa a teoria de
que nada acontece por acaso. Por exemplo, não entendo por que razão
fiquei doente durante uma semana com um vírus qualquer. Seria,
enfim, um presente de boas-vindas irónico, uma quase vingança de
São Paulo: “Estiveste este tempo todo sem cá vir, agora toma que
bem mereces ficar de castigo”. “Pô, Sampa”, penso, “assim
desfrutei um pouco menos de você.” Ela lá se terá arrependido e
ao quinto dia deu-me trégua, mas nem tanto.
2. Eu vou ao Brasil à procura dos meus
personagens. É que os meus personagens só podem ser brasileiros.
Não há outro lugar onde tenha mulher que passeia com carrinho de
bebé com um cão lá enfiado; ou vendedores de picolé, homens que
fazem dragões tão perfeitos que parecem de verdade; Clube de
Leitura da Prosa na Baratos da Ribeiro, com um dono antipático que
vende clássicos da literatura brasileira a 3,5 reais e depois
oferece CD's da nova música brasileira à estrangeira; picanha no
Cantinho do Leblon, Original. Ocorre-me que não fui ao BH, ao MAM,
ao Ibirapuera. Enfim, há uma série de coisas que ficam para fazer
quando se tem apenas um mês no Brasil.
Panta
Gosto de boas notícias por isso, cá vai! Panta: Nova revista de arte urbana editada em Portugal
"Há uma nova revista dedicada ao mundo da arte urbana (e não só). A
empresa portuguesa Book a Street Artist, dedicada ao agenciamento de
artistas de rua, acaba de lançar, este mês, a Panta, uma publicação
trimestral online que no seu primeiro número dá destaque a artistas
nacionais.
Uma reportagem sobre a Pensão Rosinha, uma entrevista com
fotoreportagem à banda Os Compota, uma coleção de retratos de artistas
de rua portugueses e uma reportagem sobre a arte urbana de Beirute
(Líbano) são alguns dos conteúdos que o primeiro
Segundo explicam os mentores do projeto ao Boas Notícias, o objetivo
da Panta é lançar "reposicionar e dar um novo valor à 'street art'
promovendo o trabalho de artistas talentosos e ajudando a levar a sua
mensagem ao grande público".
Reprodução do site Boas Notícias. Notícia de 22 de Outubro 2013
quarta-feira, outubro 23, 2013
Um problema crónico
Eu tenho um problema. Bom, talvez
tenha vários, mas aquele de que tenho certeza e contra o qual me
debato, diariamente, tem sobressaído mais do que habitual. O meu
problema poderá, certamente, ser explicado por um qualquer analista
especializado em psicologia pós-moderna, todavia ainda não
aconteceu de nos conhecermos e parece longe esse acontecido a acontecer. Talvez
pudesse resultar numa relação de onde pudessem brotar vários
frutos. Ele analisando-me; e eu tomando notas para aproveitar o
testemunho para um texto.
Vejamos: o meu problema é bem básico,
digamos, convencional, e tenho exercitado vários esquemas, planos e
estratégias para fintar a questão. Diagnóstico: tenho um problema
crónico com prazos, hierarquias, rotinas e pêlo de gato. O último
não deveria fazer parte da lista, mas com a idade noto que a coisa
piora. Quanto aos primeiros, que incluo como fenómeno social total
da minha existência num problema único a que apelido de
“temporalidade da existência do aqui-e-agora”, devo admitir que
piorou, consideravelmente, nos últimos dois anos.
Eu explico, porque
a questão é bem mais profunda: continuo a deixar as coisas que não
gosto de fazer para o último momento; detesto ter de fazer a mesma
coisa todos os dias, bem como ter hábitos semanais, começo a ter
insónias e comichões, não lido bem quando tentam mandar em mim. O
que acontece quando sou abduzida por ter de fazer algo de que não
gosto é que acabo por me entusiasmar a querer fazer outras coisas há muito
adiadas que de enfadonhas passam a coisas espetaculares.
Disperso, eu
sei que disperso, em querer fazer tudo, talvez, menos aquilo que caiu no
prato do prazo limite. Aquela coisa
do-que-tem-que-ser-tem-muita-força é tudo mentira, não é nada
assim, quem o inventou como máxima deveria andar a tomar uns chás engraçados. Aquilo que não tem que ser é que tem muita força, pelo
menos para o clube dos indisciplinados como eu.
Eu bem que queria
acordar às seis da manhã, correr, comer o pequeno-almoço super
saudável cheio de vitaminas, ler muito e escrever logo de manhã,
parar para almoçar, cochilar, diligentemente cumprir mais um
trabalho mesmo que não queira e seja enfadonho, tal qual palavras
cruzadas na sala de espera do médico, jantar à mesma hora, ler de
novo e dormir cedo. Mas enfim, há 32 anos que não dá certo. Não
sei se dará alguma vez. Talvez seja abduzida um dia por
extra-terrestres em sonhos que reprogramem a máquina.
P.S. É tudo mentira, isto é uma ficção, qualquer semelhança com alguma história que conheçam é pura coincidência, heim!
António e a Gaivota
Era uma tempestade de areia. Ou o vento que levantava a areia. A cortina que se levantou na praia fazia com que esses fios grãos doessem. Eram agulhas que queria penetrar a pele. Fechei os olhos e, de mão dada, atravessamos a cortina, ou aquela nuvem oblíqua. Talvez mais além, protegidos nas rochas, a ferocidade do vento, meio quente, meio frio, tecido morno sobre a tarde, acalmasse e nos deixasse escorrer nos rochedos como lagartos à procura de vitamina E, ou tal qual plantas regenerando-se em fotossíntese.
Fomos.
Eu subi primeiro, passei a corda que, evidentemente, queria dizer não trespassar, mas se outros casais se recolhiam, depois dela, nas reentrâncias dos rochedos, a ver as ilhas, e o mar, e os barcos, e as gaivotas, o que nos impediria?
António disse que iria continuar a explorar. Eu quedei-me, deitei-me feliz por estar recolhida do vento e das agulhas da areia. Ali o corredor da ventania não chegava. Deitei-me na inclinação da rocha dura, procurando que ela seguisse a espinha e não me magoasse.
Fechei os olhos.
Ouvia-se o embalo do fim de tarde de uma praia calma. Ninguém falava. As gaivotas grasnavam. O António voltou. Pediu água. Encontrou uma gaivota ferida agarrada a uma corda. Talvez fosse de uma rede de pescador. Talvez fosse do lixo que o mar tem. Talvez fosse maldade do homem. O importante era libertá-la, dar-lhe água, talvez a esperança da vida que ela não sabe se tem. Estava desistente. Ele levou a água e a esperança dentro dele. Um alento de que aquele gesto a salvasse. Tirou-lhe a corda à volta do pescoço, viu a ferida, percebeu-a débil, tentou chamar os homens da Marinha que o mandavam sair das rochas por ser perigoso. Tentou falar-lhes da gaivota, da ferida, da esperança de que ela vivesse, afinal, depois de lhe dar um pouco de água ela mudara do silêncio para um grasnar defensivo. Quem sabe não lhe agradecesse esse novo alento.
António não podia fazer nada mais a não ser mais um pouco de água para a gaivota, voltar e obedecer à ordem da Marinha e sair dos rochedos. Voltou, desalentado, um pouco revoltado porque as autoridades não atenderam ao chamado para salvar uma gaivota. Fez o que pôde.
António não gosta de gaivotas, bem o sei, mas não foi por isso que a abandonou e insistiu que respirasse na esperança de a salvar.
sexta-feira, outubro 11, 2013
Cenas de crónicas não escritas
Se apontar uma vida passada, com todo o respeito pelo autor, teria sido um João do Rio, que deambula pela etnografia carioca, levantando o pó dos livros, desdobrando as badanas das vidas secretas, dissecando os humores e os pensamentos mais psicanalíticos dos personagens que ouviu, sentiu, observou, conviveu e intuiu.
O Rio-cidade tem esta geografia de personagens peculiares, de homens que fazem dragões que parecem tão reais quanto as minhas mãos e os passeiam pela Lapa às onze da noite. O Rio-cronista tem a personalidade de um curioso analista, antropólogo, jornalista, que se funde, por vezes, com os personagens da suas histórias. Há algo mágico na capacidade de transpor a realidade carioca, que parece tão ficcionada, inverosímil para um pedaço de papel, virtual, ou na tradução de um apontamento mental. Levo o caderno cheio de notas, notas de cenas para crónicas que nunca escreverei e outras que num ato de auto-disciplina me policiarei para imortalizar. Nesse caso, terei de voltar a João do Rio, como expiação de uma penitência em falta.
terça-feira, outubro 08, 2013
"O Barulho do Tempo" no Brasil
Hoje, no Rio de Janeiro, haverá leituras no
sebo Baratos Ribeiro de "O Barulho do Tempo", às 20h, e quinta-feira,
10, 18h, apresentação na Livraria da Travessa, na Sete de Setembro.
Saravá! Venham que festa não faltará! Evento Público: ver detalhes.
domingo, setembro 29, 2013
Há gente que nos come até aos ossos, que nos estropia o coração, não... esperem, há gente que nos esventra, adentro, que mete a mão até às vísceras, e estraçalha, corrói, ácido (mistura fluorídrico com pentafluoreto de antimónio), não esperem, há homens, não-homens, que devoram o coração, que detêm o batimento cardíaco, que nos amordaçam, silenciam (tanto ruído na cabeça deles esse nada), que nos engolem para esse vazio em que pensam, em que veem, em que sentem, em que pesam o mundo de si, que não existe, que não é, não está, não pende na existência de agora, desta imensa impermanência que é ir-se.
A imortalidade
Lis
é um ser-lugar estranho, de realidades paralelas, e a literatura é
uma droga pesada. Há a obrigação de a partilhar, sob pena de
pecados capitais, que jamais serão perdoados por Hades. Não admira
que estes dias a nossa heroína, escapada da quase prisão perpétua
com escritores em crise existencial, numa ilha desconhecida, cujas
circunstâncias ainda estão por apurar (terá ela escapado com
realismo mágico, técnicas Pessoanas, surrealistas?), se tenha
enternecido com o conto real que se segue.
A
própria história (con)funde-se com as que coleciona. Como esta:
todo o prédio que chegou a albergar uma loja de fotografia por cima
do café "A Brasileira”, no Porto, vai ser recuperado nos
próximos meses. Urge, por isso, esvaziar as divisões. Lá dentro,
num dos andares, no bafiento tempo enclausurado, há o que resta de
uma vida, centenas de máquinas fotográficas novas que chegaram a
velhas sem serem usadas, com o nome dos donos (que interessante seria
ir atrás deles 50 anos depois), cheiro a químicos, polaroides,
diapositivos e muito pó. Há, pois, o ranger da madeira do chão,
tupperwares, fantasmagórica presença dos espectros que ali um dia
sonharam com o futuro, que agora somos nós, no presente do
indicativo, a sonhar com o advir. Ciclo irreversível, constatação
da nossa finitude. Tanto espólio ali abandonado para escrever com a
luz, que a fotografia assume-se como uma espécie de literatura
perdida. O que será que aconteceu para que tanta riqueza fosse
deixada para trás?
A
vida é, pois, este fio ténue, em que colecionamos, amontoamos os
nossos objetos-paixões. Por isso, Lis começou a preocupar-se com o
destino que os seus livros terão um dia quando ela for pó. Em que
momento deve começar a doá-los para que sobrevivam ao futuro e
levem com eles um pedaço dela?
Última crónica de Vanessa Rodrigues para o Semanário Grande Porto, página Bairro dos Livros,
iniciativa da editora CulturePrint, em alternância semanal com Jorge
Palinhos, Rui Lage, Rui Manuel Amaral.
Vora-cidade
Que voracidade é esta que alcança? Como cansa, pés no chão, arrastados, que se empurram, e o corpo vai, segue apressado, é levado, dissipado, como se dissolve na massa de gente - e os cheiros, tão plenos, tão humanos, escatologicamente humanos; vão de metro, fechar os olhos é ver com o tato, seguir o olfacto; e a porta fecha, a gente vai, a gente segue, a gente, a massa que é gente, multidão apática, e o telefone toca, não alcanço, como cansa estar com gente, ser gente, mãos no ar, agarradas, seguradas, tateadas, e os olhos daquele homem, eu desvio, empurro a indiferença, esquecera-me que aqui se olha mais, que a cidade nos come, engole, regurgita; que a cidade vorazmente suga, sôfrega, veloz, tão rápida que nos perdemos na lentidão de nós. Onde íamos?
quinta-feira, setembro 05, 2013
O lugar do outro#1
Olhar o outro também é querer silêncio. É perceber o que somos, dentro de nós, da cultura que temos, estamos, intuímos; dos medos que temos, do lugar que ocupamos, do caminho por onde queremos ir, onde queremos estar. Olhar o outro, quando estamos longe das nossas referências por um tempo, é analisarmos a etnografia que tecemos, é sair de nós, para ir voltando, devagarinho, e voltar a ficar despertos para a peça que somos (pessoas, criaturas, essências, almas) na cidade que fazemos.
Talvez, por isso; certamente por causa disso, estes primeiros dias - de ser e estar como quem regressa de uma epopeia longínqua- voltam a ser um retorno à observação participante. É perceber que o Porto tem entradas de prédios nas quais nunca tinha reparado e ter vontade de fazer as unhas naquele cabeleireiro manhoso que fica um prédio antigo só porque a porta é gira, vintage, numa madeira envelhecida, ao menos mais velha do que eu.
É ouvir, atentamente, as pessoas que entram no autocarro e se cumprimentam e mudam de lugar para ficar perto de uma amiga que acabou de entrar; é dizer Bom-dia a desconhecidos, é perceber que somos mesmo muito afetuosos, simpáticos, porque dizemos olá a desconhecidos e cedemos lugares no autocarro. É reparar que há jardins com árvores seculares, que hão-de ficar quando nós nos formor; é compreender que há esplanadas abertas às 9h30 da manhã com turistas felizes a contemplar as ruas; é percepcionar que o cinzento das ruas é apenas cor de pantone de pedras estilosas que não tira alegria às pessoas; é ver que somos sorridentes além fado, não interessa o quanto insistam em dizer o contrário; é sentir os cheiros a verde, a manhã submersa que há-de evoluir para um sol à sua maneira; é notar que há bibliotecas sossegadas para pousarmos as ideias e o pensamento; é pedir um café com um sorriso e tirar o siso sério à senhora que o serve; é sorrir porque o vizinho do lado, que também café vai tomar, pediu para ficar a dever um cêntimo à senhora que antes não sorrira, que lhe responde que ele vai ter que o pagar com juros, porque a brincadeira aí começa. É tudo isto nuns instantes de manhã, porque estava atenta, porque ainda não me deixei contaminar pelo vício que a habituação quotidiana teima. É aproveitar, em silêncio, olhar o outro.
quarta-feira, setembro 04, 2013
As minhas viagens
Na impossibilidade de encontrar a edição portuguesa deste livro do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski - vénia que me gusta - e de viajar assim muito, contento-me com a edição espanhola, por supuesto; com hibernações e outras conspirações da alma, por aí, tendo por companhia mestres consagrados, ainda que também contestados perante a veracidade de suas histórias. Às vezes, como ele, dá vontade de conhecer mais mundo, escrever sobre ele; outras vezes nada sobre o mundo e contento-me com o sossego do lar, em que nada importa, a não ser o ruído dos pensamentos tão quedos e serenos que essa imensidão pode esperar. Não há histórias impossíveis; o mundo é tão repetitivo na forma que assusta; está tudo interligado, desde Heródoto, desde a Grécia, desde o Big Bang; desde o momento em que nos cortam o cordão umbilical.
O mistério da vizinha da frente
O António nunca a vê. Mas eu sim. Aparece sempre aprumada, adivinho até que cheirosa, com a sua água-de-colónia de alfazema que há anos se dilui nas roupas, nesses tecidos que outrora duravam gerações, como as roupas da minha avó, sempre impecáveis, sem manchas, borboto, ou desgaste de malhas. Não entendo. As roupas antigamente duravam mais. Eram para uma vida inteira. Como os trabalhos, as uniões e as casas. Deve ser o caso da casa da vizinha da frente. Rega as sardinheiras, as vermelhas, as cor-de rosa e as cor-de-vinho. Rega-as depois de varrer a varanda. Mas sempre que chamo o António para provar que a vizinha da frente existe, que não é fruto da minha imaginação lírica, literária, ou infantil, ela trata de desaparecer. Sinto um vazio. Sinto que a senhora me trai, esfumando-se. E penso que talvez ela seja mesmo imaginação de um conto que recrio diariamente. E ele diz-me que tem razão, que a vizinha não existe. Que já existiu, porém, mas que agora deve viver num lar, onde faz tricô.
Hoje vi-a a abrir a porta, a receber uma amiga. Falou com ela demoradamente, depois subiu e foi varrer a varanda, regar as sardinheiras, com aquela roupa sempre impecável e o cabelo de cabeleireiro: aquele cabelo grisalho violáceo, seguro por uma laca muito espessa que nem o vento consegue desfazer. Vi-a e pude jurar que me acenou. Claro que ninguém me acreditou.
Hoje vi-a a abrir a porta, a receber uma amiga. Falou com ela demoradamente, depois subiu e foi varrer a varanda, regar as sardinheiras, com aquela roupa sempre impecável e o cabelo de cabeleireiro: aquele cabelo grisalho violáceo, seguro por uma laca muito espessa que nem o vento consegue desfazer. Vi-a e pude jurar que me acenou. Claro que ninguém me acreditou.
Pornografia ficcionada
“Escrever
é a nudez absoluta, é o escritor entrar na própria pele para
dilacerá-la, viver a vida dos outros como sua, chorar, angustiar,
humilhar e ofender, um crime e castigo, abismo, absolvição,
terapia, bisturi trémulo à volta do corpo, ser pulha e gangster,
falhado e vitorioso, orgulho e preconceito, fundamentação da
metafísica dos costumes. Escrever é perscrutar o escuro endógeno
para a lucidez das palavras, uma caverna infinita com fio-miragem de
luz, um sufoco, ardência, arritmia, densa penumbra no horizonte de
um mar revolto, solidão de farol, eco de montanha, gota na imensidão
da selva, ulo silencioso que brama dos confins da terra, antítese da
lógica nos primórdios da civilização, cordilheira de
intransponível morfologia.”
É Lis quem escreve tudo isto. Foi
sugada para uma ilha deserta com escritores, depois de “A revolta
dos livros”, o mês passado. Trabalha como antropóloga diligente,
enganando a Eternidade. Não sei como as missivas chegam até mim.
Escrever tem mistérios profundos que a própria tecnologia
desconhece.
Ela observa e percebe a verdade dos
grandes escritores como homens nus, ao mesmo tempo que habitantes de
planetas personalizados - onde a linguagem se confunde-, mas
subjugados à impotência, quando percebem que nada inventam a não
ser a capacidade de ludibriar uma geração que não tem memória,
incapaz de estar ciente de todos os truques e artimanhas já usadas
por escritores. José Saramago, por exemplo, é o ilusionista das
utopias: os seus mundos não existem e são toda a geografia da
verdade que temos ao nosso redor. Lis percebeu-o: os escritores são
pornógrafos de ficções, um veneno, enganando-nos com as verdades
que não queremos ver. Escrever é toda a escatologia do mundo.
Leitores, sois seres explorados pelas neuroses dos escritores, seres
perigosos.
Crónica
de Vanessa Rodrigues, publicada a 30 de Agosto 2013, na pág. Bairro dos
Livros, iniciativa Culture Print, no Semanário Grande Porto, em
alternância com Rui Manuel Amaral, Rui Lage e Jorge Palinhos.
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