sábado, outubro 26, 2013

A teia de Ofélia


Durante o mês que Lis passou no Brasil não poderia imaginar que o seu quarto - caverna que, além da mobília, é povoada por livros novos e usados, revistas culturais, vinis, outras coisas inúteis, pó e, muito certamente, por seres microscópicos e invisíveis -, fora ocupado. Ela tentou expulsar a intrusa. Agarrou, subtil e silenciosamente, numa folha em branco, soergueu a patuda, equilibrando a tagmata aracnídea e zás: atirou-a pela janela. Achou que se tinha livrado da invasora.  
No dia seguinte, reconheceu o falhanço. A okupa voltara decidida a reivindicar o que considerava seu, por presumível abandono do espaço da proprietária legítima por 30 dias. Como engenheira-arquiteta competente tecera já a teia numa das estantes. Lis traçou mil e uma estratégias para o despejo, mas dona aranha mostrou-se resoluta a não arredar pata. A caçadora de histórias pensou: “cometeria um crime?” Mas não tinha mordomo-bode-expiatório. “Causaria ferimentos ligeiros? Suspeitariam, indubitavelmente, das suas capacidades facínoras. Lis perseguiu o aracnídeo entre prateleiras, tacos levantados, tinta enrugada, baús, debaixo da cama, ao redor de candeeiros e malas, qual funâmbula em vertigem. A rainha inabalável pôs-se em fuga, fintando livros há muito ali inquilinos. Primeiro, entre J. Rodrigues Miguéis, F. de Castro, A. Ribeiro, J. Saramago, saltando de lombada em lombada com destreza e intimidade de velhos amigos. Depois entre P. Auster, R. Kapuscinski, T. Wolfe, E. V. Matas e R. Bolaño. O golpe final - com certeza para fazer pouco de Lis, podemos adivinhar-lhe o risinho trocista- , foi alojar-se entre “O grande Sertão Veredas” de J. Guimarães Rosa e “A Grande Arte” de R. Fonseca. Toda esta perseguição levou Lis a concluir: “As aranhas são seres eruditos”. Batizou-a de Ofélia. Parecem viver felizes.

Crónica de Vanessa Rodrigues publicada a 25 de Outubro no Semanário Grande Porto, página Bairro dos Livros, iniciativa da editora CulturePrint, em alternância semanal com Jorge Palinhos, Rui Lage, Rui Manuel Amaral.

quinta-feira, outubro 24, 2013

À Procura dos meus personagens#1 (Algumas notas sobre um breve Brasil)

 

1. Três anos fora do Brasil é viver como mergulhador sem oxigénio. A coisa pode dar para o torto e sofrermos de uma doença descompressiva. Mas eu aguentei-me à bronca, mergulhei várias vezes em apneia, por instantes e fui capaz de voltar à tona sem grandes mazelas. Correu bem e nada acontece por acaso, como nadar da direção errada. A viagem ganhei-a por causa de outra viagem em 2012. Um passo atrás para dar outro à frente, eventualmente. Foi uma oferta de uma boa amiga que quis presentear-me e ao A. pelo nosso trabalho. Foi há um ano e este foi o ano possível de um Brasil. Eu fui primeiro. A. foi depois.

Como todas as viagens, regressar ao Brasil está cheio de peripécias que podem pôr em causa a teoria de que nada acontece por acaso. Por exemplo, não entendo por que razão fiquei doente durante uma semana com um vírus qualquer. Seria, enfim, um presente de boas-vindas irónico, uma quase vingança de São Paulo: “Estiveste este tempo todo sem cá vir, agora toma que bem mereces ficar de castigo”. “Pô, Sampa”, penso, “assim desfrutei um pouco menos de você.” Ela lá se terá arrependido e ao quinto dia deu-me trégua, mas nem tanto.

2. Eu vou ao Brasil à procura dos meus personagens. É que os meus personagens só podem ser brasileiros. Não há outro lugar onde tenha mulher que passeia com carrinho de bebé com um cão lá enfiado; ou vendedores de picolé, homens que fazem dragões tão perfeitos que parecem de verdade; Clube de Leitura da Prosa na Baratos da Ribeiro, com um dono antipático que vende clássicos da literatura brasileira a 3,5 reais e depois oferece CD's da nova música brasileira à estrangeira; picanha no Cantinho do Leblon, Original. Ocorre-me que não fui ao BH, ao MAM, ao Ibirapuera. Enfim, há uma série de coisas que ficam para fazer quando se tem apenas um mês no Brasil.

Panta

Gosto de boas notícias por isso, cá vai! Panta: Nova revista de arte urbana editada em Portugal

"Há uma nova revista dedicada ao mundo da arte urbana (e não só). A empresa portuguesa Book a Street Artist, dedicada ao agenciamento de artistas de rua, acaba de lançar, este mês, a Panta, uma publicação trimestral online que no seu primeiro número dá destaque a artistas nacionais.

Uma reportagem sobre a Pensão Rosinha, uma entrevista com fotoreportagem à banda Os Compota, uma coleção de retratos de artistas de rua portugueses e uma reportagem sobre a arte urbana de Beirute (Líbano) são alguns dos conteúdos que o primeiro

Segundo explicam os mentores do projeto ao Boas Notícias, o objetivo da Panta é lançar "reposicionar e dar um novo valor à 'street art' promovendo o trabalho de artistas talentosos e ajudando a levar a sua mensagem ao grande público".

Reprodução do site Boas Notícias. Notícia de 22 de Outubro 2013 

quarta-feira, outubro 23, 2013

Um problema crónico

Eu tenho um problema. Bom, talvez tenha vários, mas aquele de que tenho certeza e contra o qual me debato, diariamente, tem sobressaído mais do que habitual. O meu problema poderá, certamente, ser explicado por um qualquer analista especializado em psicologia pós-moderna, todavia ainda não aconteceu de nos conhecermos e parece longe esse acontecido a acontecer. Talvez pudesse resultar numa relação de onde pudessem brotar vários frutos. Ele analisando-me; e eu tomando notas para aproveitar o testemunho para um texto.

Vejamos: o meu problema é bem básico, digamos, convencional, e tenho exercitado vários esquemas, planos e estratégias para fintar a questão. Diagnóstico: tenho um problema crónico com prazos, hierarquias, rotinas e pêlo de gato. O último não deveria fazer parte da lista, mas com a idade noto que a coisa piora. Quanto aos primeiros, que incluo como fenómeno social total da minha existência num problema único a que apelido de “temporalidade da existência do aqui-e-agora”, devo admitir que piorou, consideravelmente, nos últimos dois anos. 

Eu explico, porque a questão é bem mais profunda: continuo a deixar as coisas que não gosto de fazer para o último momento; detesto ter de fazer a mesma coisa todos os dias, bem como ter hábitos semanais, começo a ter insónias e comichões, não lido bem quando tentam mandar em mim. O que acontece quando sou abduzida por ter de fazer algo de que não gosto é que acabo por me entusiasmar a querer fazer outras coisas há muito adiadas que de enfadonhas passam a coisas espetaculares. 

Disperso, eu sei que disperso, em querer fazer tudo, talvez, menos aquilo que caiu no prato do prazo limite. Aquela coisa do-que-tem-que-ser-tem-muita-força é tudo mentira, não é nada assim, quem o inventou como máxima deveria andar a tomar uns chás engraçados. Aquilo que não tem que ser é que tem muita força, pelo menos para o clube dos indisciplinados como eu. 

Eu bem que queria acordar às seis da manhã, correr, comer o pequeno-almoço super saudável cheio de vitaminas, ler muito e escrever logo de manhã, parar para almoçar, cochilar, diligentemente cumprir mais um trabalho mesmo que não queira e seja enfadonho, tal qual palavras cruzadas na sala de espera do médico, jantar à mesma hora, ler de novo e dormir cedo. Mas enfim, há 32 anos que não dá certo. Não sei se dará alguma vez. Talvez seja abduzida um dia por extra-terrestres em sonhos que reprogramem a máquina. 

P.S. É tudo mentira, isto é uma ficção, qualquer semelhança com alguma história que conheçam é pura coincidência, heim!

Oh Kubrick, my Kubrick


António e a Gaivota

Era uma tempestade de areia. Ou o vento que levantava a areia. A cortina que se levantou na praia fazia com que esses fios grãos doessem. Eram agulhas que queria penetrar a pele. Fechei os olhos e, de mão dada, atravessamos a cortina, ou aquela nuvem oblíqua. Talvez mais além, protegidos nas rochas, a ferocidade do vento, meio quente, meio frio, tecido morno sobre a tarde, acalmasse e nos deixasse escorrer nos rochedos como lagartos à procura de vitamina E, ou tal qual plantas regenerando-se em fotossíntese. 

Fomos. 

Eu subi primeiro, passei a corda que, evidentemente, queria dizer não trespassar, mas se outros casais se recolhiam, depois dela, nas reentrâncias dos rochedos, a ver as ilhas, e o mar, e os barcos, e as gaivotas, o que nos impediria?

António disse que iria continuar a explorar. Eu quedei-me, deitei-me feliz por estar recolhida do vento e das agulhas da areia. Ali o corredor da ventania não chegava. Deitei-me na inclinação da rocha dura, procurando que ela seguisse a espinha e não me magoasse. 

Fechei os olhos. 

Ouvia-se o embalo do fim de tarde de uma praia calma. Ninguém falava. As gaivotas grasnavam. O António voltou. Pediu água. Encontrou uma gaivota ferida agarrada a uma corda. Talvez fosse de uma rede de pescador. Talvez fosse do lixo que o mar tem. Talvez fosse maldade do homem. O importante era libertá-la, dar-lhe água, talvez a esperança da vida que ela não sabe se tem. Estava desistente. Ele levou a água e a esperança dentro dele. Um alento de que aquele gesto a salvasse. Tirou-lhe a corda à volta do pescoço, viu a ferida, percebeu-a débil, tentou chamar os homens da Marinha que o mandavam sair das rochas por ser perigoso. Tentou falar-lhes da gaivota, da ferida, da esperança de que ela vivesse, afinal, depois de lhe dar um pouco de água ela mudara do silêncio para um grasnar defensivo. Quem sabe não lhe agradecesse esse novo alento. 

António não podia fazer nada mais a não ser mais um pouco de água para a gaivota, voltar e obedecer à ordem da Marinha e sair dos rochedos. Voltou, desalentado, um pouco revoltado porque as autoridades não atenderam ao chamado para salvar uma gaivota. Fez o que pôde.

António não gosta de gaivotas, bem o sei, mas não foi por isso que a abandonou e insistiu que respirasse na esperança de a salvar.

sexta-feira, outubro 11, 2013

Cenas de crónicas não escritas


Se apontar uma vida passada, com todo o respeito pelo autor, teria sido um João do Rio, que deambula pela etnografia carioca, levantando o pó dos livros, desdobrando as badanas das vidas secretas, dissecando os humores e os pensamentos mais psicanalíticos dos personagens que ouviu, sentiu, observou, conviveu e intuiu. 
O Rio-cidade tem esta geografia de personagens peculiares, de homens que fazem dragões que parecem tão reais quanto as minhas mãos e os passeiam pela Lapa às onze da noite. O Rio-cronista tem a personalidade de um curioso analista, antropólogo, jornalista, que se funde, por vezes, com os personagens da suas histórias. Há algo mágico na capacidade de transpor a realidade carioca, que parece tão ficcionada, inverosímil para um pedaço de papel, virtual, ou na tradução de um apontamento mental. Levo o caderno cheio de notas, notas de cenas para crónicas que nunca escreverei e outras que num ato de auto-disciplina me policiarei para imortalizar. Nesse caso, terei de voltar a João do Rio, como expiação de uma penitência em falta.

terça-feira, outubro 08, 2013

"O Barulho do Tempo" no Brasil

Hoje, no Rio de Janeiro, haverá leituras no sebo Baratos Ribeiro de "O Barulho do Tempo", às 20h, e quinta-feira, 10, 18h, apresentação na Livraria da Travessa, na Sete de Setembro. Saravá! Venham que festa não faltará! Evento Público: ver detalhes.


domingo, setembro 29, 2013

Há gente que nos come até aos ossos, que nos estropia o coração, não... esperem, há gente que nos esventra, adentro, que mete a mão até às vísceras, e estraçalha, corrói, ácido (mistura fluorídrico com pentafluoreto de antimónio), não esperem, há homens, não-homens, que devoram o coração, que detêm o batimento cardíaco, que nos amordaçam, silenciam (tanto ruído na cabeça deles esse nada), que nos engolem para esse vazio em que pensam, em que veem, em que sentem, em que pesam o mundo de si, que não existe, que não é, não está, não pende na existência de agora, desta imensa impermanência que é ir-se.

A imortalidade

Lis é um ser-lugar estranho, de realidades paralelas, e a literatura é uma droga pesada. Há a obrigação de a partilhar, sob pena de pecados capitais, que jamais serão perdoados por Hades. Não admira que estes dias a nossa heroína, escapada da quase prisão perpétua com escritores em crise existencial, numa ilha desconhecida, cujas circunstâncias ainda estão por apurar (terá ela escapado com realismo mágico, técnicas Pessoanas, surrealistas?), se tenha enternecido com o conto real que se segue.
A própria história (con)funde-se com as que coleciona. Como esta: todo o prédio que chegou a albergar uma loja de fotografia por cima do café "A Brasileira”, no Porto, vai ser recuperado nos próximos meses. Urge, por isso, esvaziar as divisões. Lá dentro, num dos andares, no bafiento tempo enclausurado, há o que resta de uma vida, centenas de máquinas fotográficas novas que chegaram a velhas sem serem usadas, com o nome dos donos (que interessante seria ir atrás deles 50 anos depois), cheiro a químicos, polaroides, diapositivos e muito pó. Há, pois, o ranger da madeira do chão, tupperwares, fantasmagórica presença dos espectros que ali um dia sonharam com o futuro, que agora somos nós, no presente do indicativo, a sonhar com o advir. Ciclo irreversível, constatação da nossa finitude. Tanto espólio ali abandonado para escrever com a luz, que a fotografia assume-se como uma espécie de literatura perdida. O que será que aconteceu para que tanta riqueza fosse deixada para trás?
A vida é, pois, este fio ténue, em que colecionamos, amontoamos os nossos objetos-paixões. Por isso, Lis começou a preocupar-se com o destino que os seus livros terão um dia quando ela for pó. Em que momento deve começar a doá-los para que sobrevivam ao futuro e levem com eles um pedaço dela?

Última crónica de Vanessa Rodrigues para o Semanário Grande Porto, página Bairro dos Livros, iniciativa da editora CulturePrint, em alternância semanal com Jorge Palinhos, Rui Lage, Rui Manuel Amaral.

Vora-cidade

Que voracidade é esta que alcança? Como cansa, pés no chão, arrastados, que se empurram, e o corpo vai, segue apressado, é levado, dissipado, como se dissolve na massa de gente - e os cheiros, tão plenos, tão humanos, escatologicamente humanos; vão de metro, fechar os olhos é ver com o tato, seguir o olfacto; e a porta fecha, a gente vai, a gente segue, a gente, a massa que é gente, multidão apática, e o telefone toca, não alcanço, como cansa estar com gente, ser gente, mãos no ar, agarradas, seguradas, tateadas, e os olhos daquele homem, eu desvio, empurro a indiferença, esquecera-me que aqui se olha mais, que a cidade nos come, engole, regurgita; que a cidade vorazmente suga, sôfrega, veloz, tão rápida que nos perdemos na lentidão de nós. Onde íamos?

quinta-feira, setembro 05, 2013

O lugar do outro#1

Olhar o outro também é querer silêncio. É perceber o que somos, dentro de nós, da cultura que temos, estamos, intuímos; dos medos que temos, do lugar que ocupamos, do caminho por onde queremos ir, onde queremos estar. Olhar o outro, quando estamos longe das nossas referências por um tempo, é analisarmos a etnografia que tecemos, é sair de nós, para ir voltando, devagarinho, e voltar a ficar despertos para a peça que somos (pessoas, criaturas, essências, almas) na cidade que fazemos. 

Talvez, por isso; certamente por causa disso, estes primeiros dias - de ser e estar como quem regressa de uma epopeia longínqua- voltam a ser um retorno à observação participante. É perceber que o Porto tem entradas de prédios nas quais nunca tinha reparado e ter vontade de fazer as unhas naquele cabeleireiro manhoso que fica um prédio antigo só porque a porta é gira, vintage, numa madeira envelhecida, ao menos mais velha do que eu. 

É ouvir, atentamente, as pessoas que entram no autocarro e se cumprimentam e mudam de lugar para ficar perto de uma amiga que acabou de entrar; é dizer Bom-dia a desconhecidos, é perceber que somos mesmo muito afetuosos, simpáticos, porque dizemos olá a desconhecidos e cedemos lugares no autocarro. É reparar que há jardins com árvores seculares, que hão-de ficar quando nós nos formor; é compreender que há esplanadas abertas às 9h30 da manhã com turistas felizes a contemplar as ruas; é percepcionar que o cinzento das ruas é apenas cor de pantone de pedras estilosas que não tira alegria às pessoas; é ver que somos sorridentes além fado, não interessa o quanto insistam em dizer o contrário; é sentir os cheiros a verde, a manhã submersa que há-de evoluir para um sol à sua maneira; é notar que há bibliotecas sossegadas para pousarmos as ideias e o pensamento; é pedir um café com um sorriso e tirar o siso sério à senhora que o serve; é sorrir porque o vizinho do lado, que também café vai tomar, pediu para ficar a dever um cêntimo à senhora que antes não sorrira, que lhe responde que ele vai ter que o pagar com juros, porque a brincadeira aí começa. É tudo isto nuns instantes de manhã, porque estava atenta, porque ainda não me deixei contaminar pelo vício que a habituação quotidiana teima. É aproveitar, em silêncio, olhar o outro.

quarta-feira, setembro 04, 2013

As minhas viagens

Na impossibilidade de encontrar a edição portuguesa deste livro do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski - vénia que me gusta - e de viajar assim muito, contento-me com a edição espanhola, por supuesto; com hibernações e outras conspirações da alma, por aí, tendo por companhia mestres consagrados, ainda que também contestados perante a veracidade de suas histórias. Às vezes, como ele, dá vontade de conhecer mais mundo, escrever sobre ele; outras vezes nada sobre o mundo e contento-me com o sossego do lar, em que nada importa, a não ser o ruído dos pensamentos tão quedos e serenos que essa imensidão pode esperar. Não há histórias impossíveis; o mundo é tão repetitivo na forma que assusta; está tudo interligado, desde Heródoto, desde a Grécia, desde o Big Bang; desde o momento em que nos cortam o cordão umbilical.

 

O mistério da vizinha da frente

O António nunca a vê. Mas eu sim. Aparece sempre aprumada, adivinho até que cheirosa, com a sua água-de-colónia de alfazema que há anos se dilui nas roupas, nesses tecidos que outrora duravam gerações, como as roupas da minha avó, sempre impecáveis, sem manchas, borboto, ou desgaste de malhas. Não entendo. As roupas antigamente duravam mais. Eram para uma vida inteira. Como os trabalhos, as uniões e as casas. Deve ser o caso da casa da vizinha da frente. Rega as sardinheiras, as vermelhas, as cor-de rosa e as cor-de-vinho. Rega-as depois de varrer a varanda. Mas sempre que chamo o António para provar que a vizinha da frente existe, que não é fruto da minha imaginação lírica, literária, ou infantil, ela trata de desaparecer. Sinto um vazio. Sinto que a senhora me trai, esfumando-se. E penso que talvez ela seja mesmo imaginação de um conto que recrio diariamente. E ele diz-me que tem razão, que a vizinha não existe. Que já existiu, porém, mas que agora deve viver num lar, onde faz tricô. 

Hoje vi-a a abrir a porta, a receber uma amiga. Falou com ela demoradamente, depois subiu e foi varrer a varanda, regar as sardinheiras, com aquela roupa sempre impecável e o cabelo de cabeleireiro: aquele cabelo grisalho violáceo, seguro por uma laca muito espessa que nem o vento consegue desfazer. Vi-a e pude jurar que me acenou. Claro que ninguém me acreditou.

Pornografia ficcionada


Escrever é a nudez absoluta, é o escritor entrar na própria pele para dilacerá-la, viver a vida dos outros como sua, chorar, angustiar, humilhar e ofender, um crime e castigo, abismo, absolvição, terapia, bisturi trémulo à volta do corpo, ser pulha e gangster, falhado e vitorioso, orgulho e preconceito, fundamentação da metafísica dos costumes. Escrever é perscrutar o escuro endógeno para a lucidez das palavras, uma caverna infinita com fio-miragem de luz, um sufoco, ardência, arritmia, densa penumbra no horizonte de um mar revolto, solidão de farol, eco de montanha, gota na imensidão da selva, ulo silencioso que brama dos confins da terra, antítese da lógica nos primórdios da civilização, cordilheira de intransponível morfologia.”
É Lis quem escreve tudo isto. Foi sugada para uma ilha deserta com escritores, depois de “A revolta dos livros”, o mês passado. Trabalha como antropóloga diligente, enganando a Eternidade. Não sei como as missivas chegam até mim. Escrever tem mistérios profundos que a própria tecnologia desconhece.

Ela observa e percebe a verdade dos grandes escritores como homens nus, ao mesmo tempo que habitantes de planetas personalizados - onde a linguagem se confunde-, mas subjugados à impotência, quando percebem que nada inventam a não ser a capacidade de ludibriar uma geração que não tem memória, incapaz de estar ciente de todos os truques e artimanhas já usadas por escritores. José Saramago, por exemplo, é o ilusionista das utopias: os seus mundos não existem e são toda a geografia da verdade que temos ao nosso redor. Lis percebeu-o: os escritores são pornógrafos de ficções, um veneno, enganando-nos com as verdades que não queremos ver. Escrever é toda a escatologia do mundo. Leitores, sois seres explorados pelas neuroses dos escritores, seres perigosos. 

Crónica de Vanessa Rodrigues, publicada a 30 de Agosto 2013, na pág. Bairro dos Livros, iniciativa Culture Print, no Semanário Grande Porto, em alternância com Rui Manuel Amaral, Rui Lage e Jorge Palinhos. 
 

quarta-feira, agosto 21, 2013

Leio a versão em Português, edi. Relógio de Água, mas agarrou-me esta capa em espanhol


Acordo às 7h, vejo a manhã resmungar porque hoje esteve frio. Tão precoce hoje a escrita, tão madrugadora a leitura. Assim vou acabar-te cedo, livro meu. Assim depressa escorregas nas minhas mãos para o russo que me espera. A geografia literária é, por isso, uma coisa linda. Saio do uruguaio, para o russo, com um português na estante e um palestiniano nos intervalos. Não há, pois, espaço público mais democrático do que a minha secretária de luz vermelha. Lê-se mais depressa!

A origem da Felicidade

A felicidade é um bicho relativo, um deus raro, uma mancha no corpo, uma borboleta. Entra e sai com a mesma subtileza de um vírus, de uma doença, de uma, uma, uma disfuncionalidade, uma alergia, enfim um suspiro. A Felicidade é uma arte escassa, volátil, fugaz, fugidia, uma fora-da-lei, uma justiceira invisível, um brinquedo, um malvado truque da imaginação, um arroubo. É uma artesã, molda com as mãos, devagar. É libertina, não a conseguimos guardar; é um viajante sempre de partida.

Vivemos e, à medida que isso acontece, aprendemos que nada permanece para sempre, e que, tanto os momentos que doem como os que nos exaltam o corpo são episódios passageiros. Isso é bom, instrui, fortalece. 

Aprendi cedo a estar além do tempo para entender que tudo se perde. Parece que o corpo fica, mas a consciência sai, olhando, vigilante, observadora e voyeur,  outro pedaço que ficou. Talvez isso me deixe viver um bocado menos (mas quem é se importa de medir essas coisas, afinal), ou até mais, mas a razão deste texto nada tem de melancólico, é apenas a memória da escassez das pequenas coisas, como a efemeridade de um sorriso, como da gota da tua lágrima.

Ocorre-me tudo isto por causa do desenho que S. ontem fez. Para ela não havia nem tempo, nem compromissos. O compromisso era pintar e isso fazia-a feliz. A certa altura também eu estava a desenhar: sem compromissos com o relógio ou o telefone. Eu que nunca tive jeito para o desenho , mas gostaria; é que tanto gosto de desenhar e pintar sem saber como. Estarreço a olhar para aquele branco de página, com tanta vontade de a preencher e desajeitada começo a rabiscar com pincel e aguarela uns traços ininteligíveis. A Felicidade, na infância, pode ser isto. A permissão de se viver sem compromissos com o tempo.

Em bebés, a primeira vez que conhecemos a felicidade talvez seja quando mamamos; quando nos dão de comer quando temos fome, quando nos refrescam a boca com sede, quando nos mudam a fralda. E ninguém se preocupa onde adormecemos, desde que alguém esteja por perto para nos vigiar. Depois, achei que a felicidade era o recreio, voltar para casa, e os fins-de-semana para ir à piscina. Isso bastava-me. Vieram depois os livros, a descoberta da caneta vermelha do meu pai para os riscar; e, mais tarde, quando aprendi a distinguir o cheiro das páginas, as horas que gastava a lê-los. E a sublinhar palavras ininteligíveis no Rei Lear, na Divina Comédia, no Vermelho e o Negro, no Crime e Castigo. Livros demasiado precoces e ininteligíveis. Sei que aprendi palavras belas muito cedo.  Mas tenho de voltar a lê-los porque não me lembro que personagens habitam.
 
Veio uma altura em que a felicidade eram as férias de verão. A praia, o corpo bronzeado, os gelados (o corneto, o Epá e a chiclete de bolinha no final, o Calipo). Isso no início, porque depois veio a praia com os namorados.

Alturas houve em que a felicidade eram calças de marca, elásticas. Felizmente a parvoíce passou-me rápido, até porque o mealheiro nunca era suficiente.

Recordo-me que a felicidade chegou a ser pic-nics, corpos deitados em relva, livros adormecidos. 
 
Depois, vivemos e começamos a ver a felicidade ainda mais nos amigos, na Família, na leveza, no Amor, quem sabe, um dia, nos filhos. É este estado de humanidade que nos traz a felicidade. Feliz é ser isto, todos os dias, um pedaço de humanidade. 
 
P.S. Reparei que não mencionei o trabalho, talvez porque aquilo que faço não o considero trabalho, mas parte de mim!

terça-feira, agosto 06, 2013

É importante esquecer, para lembrar


 Acontece-me sucessivamente. Ocorre ao abrir uma gaveta, um armário, um guarda-vestidos, ao olhar debaixo da cama, caixotes, dentro de livros, ao vasculhar as estantes, caixas, sacos, malas e carteiras, entre agendas. Só não acontece debaixo das carpetes ou tacos, porque não me dei ao trabalho de os remover. Nem no quintal, debaixo de terra fofa, onde não me lembro se alguma vez terei enterrado um tesouro, um mealheiro com escudos, uma carta de Amor precoce, um dente, uma trança. (A trança tenho-a no baú do Brasil, pequenina, que me fez um homem em Porto Seguro. Bela metáfora, portanto). 

Acontece-me recorrentemente talvez porque guardo tudo, até o bilhete de metro daquela viagem em Budapeste; à conta da cachaça no BH em São Paulo. Sucede-me encontrar memórias, daquelas que havia esquecido. Com o tempo acredito que começo a guardar menos coisas, desenvencilhando-me do abuso que é ter papéis e folhas soltas, postais e contas de restaurantes. 

A minha mãe chama-lhe lixo, é certo. Talvez tenha razão. Talvez, por isso, entro em pânico sempre que me diz que arrumou o quarto que já pouco ou nada habito. Arrumar para mim, aquele quarto, é tirar um pedaço de mim. Aquele cartão, aquela moeda, aquele botão... Tudo tem uma lógica, corrijo-lhe um pouco nervosa já, com as mãos suadas, palpitações, arritmia evidente. (Chamem o médico, se faz favor que isto não vai correr nada bem. Oxigénio, exercícios zen, Yoga ajuda.) 

Eu insisto nas memórias. Deixo-as soltas, olvidadas, entregues ao pó e às traças, à humidade dos Invernos, à secura dos Verões, às aranhas e outros seres microscópicos que se alimentam de memórias físicas. Acontece-me recorrentemente, quiçá, porque tenho propensão para coleccionar aquilo que não se coleciona: o presente de um já passado. 

Dá-se, frequentemente, por ventura, ou porque vivo muito (benzo-me perante a falta de humildade e relativa análise do que isso será), ou porque estou a ficar velha e guardo já demasiadas lembranças com generosidade feliz para as que ainda possam vir.

Eu vou dizer o que me ocorre: encontrar fotos antigas, postais e cartas imensas, todo um atlas onde vivem os elefantes que não esquecem, uma selva de letras tremidas, tinta a desaparecer, cheiro a mofo e alfazema, um harém de tecidos sem corpo. Encontro cartas e desabafos, postais de Corroios e Algarve, cartas de amor e amizade, bilhetes das salas de aulas, fotografias antes de ver mundo, com biquinis às riscas azuis-bebé e corpo a desabrochar. 

Reencontro tudo isto e sorrio. Sorrio pelo ontem que passou e ainda parece hoje, pela raiz de mim que cá fica,; da menina que lia Romeu e Julieta em voz alta e anotava as palavras difíceis, enquanto deixava a aranha habitar aquele quarto cheio de luz (sempre tive horror às trevas), enquanto tecia a sua teia. Sorrio perante a menina que ficou e está feliz, por este agora, e da inocência que voa leve ao redor destas memórias que esqueci em baús e caixas para lembrar. 

No fundo, servem, acredito, para me fazer voltar a mim, a casa, para me lembrar dos sonhos, do que ficou, do que vem, de como é importante esquecer para me lembrar. Talvez devesse voltar a escrever cartas à mão, postais, longos cadernos com poemas e prosa, agendas. Talvez devesse escrever mais, só isso, uma prosa em longa metragem um plano sequência; ou fotografar e imprimir as fotos. Esquecê-las numa caixa, catalogadas. Preciso deste meu "lixo" para que os sonhos continuem sempre a fazer sentido.  

segunda-feira, agosto 05, 2013

Dona Rosa e os Vasos de Flores

A luz das manhãs de Verão são sempre mais generosas nos telhados da Sé. Primeiro rasa as telhas, diafanamente, como se ganhasse pés de algodão, afagando a humidade que se entranha durante a noite. A culpa é do rio, que se evapora em partículas vadias que se querem escapar numa espécie de emancipação. Mal sabem que nunca mais desta cidade sairão, porque quando se erguem mais alto, na subida molecular, plasmando-se na invisibilidade dos olhos nus, amadurecem e vêem do alto a beleza incontestável das texturas da cidade. São camadas, senhoras e senhores, são camadas. Estratos, sedimentos. Um mosaico ora conforme ora disforme.
Em manhãs como essas, enquanto a Rosa ainda boceja, e os olhos remelentos, remelados, remelosos (o caramelo das lágrimas), se deixam descolar, a luz picota formas das pequenas casas. Dona Rosa abre as portadas, como quem autoriza o solar fluxo radiante a entrar. Ele polariza-se nas íngremes vielas, entranha-se na tinta a estalar, nos pigmentos que sobram dessas cores agoniadas.
Numa dessas manhãs, em que o sol a pino ameaça escalar os telhados com luz dura, Dona Rosa - que respeito por esta sessentona se quer - é ofuscada por tamanha claridade tão precoce. Cega, fechando os olhos, reagindo a íris à tirana do clarão, do brilho, do fulgor, quem sabe rebeldia adolescente desse sol de estio, esparrama as portadas de madeira irritada, áspera, desabrida, mais áustera que as mãos calejadas desta peixeira. E aqueles vasos, onde se enterram violetas, malmequeres, lírios e brincos-de-princesa que ainda só agora começaram a viver, precipitam-se, frágeis e ingénuas, para uma liberdade aparente, bem junto à medieval porta do Sol. Irónica sina esta, a das flores da Rosinha.  
Dona Rosa, ainda mal recomposta da sonolência e do choque põe-se a berrar, esbraceja com voz de quem sonhou pesadelo com o Zé pescador, como se estivesse embalado em tempestade em alto mar. Lá em baixo, terra espalhada, flores derramadas. E o sol, culpado infalível neste crime, inamovível. Nem pasmo se lhe viu no rosto iluminado. Dizem, contudo, as más línguas que se regozijou do feito.

sexta-feira, agosto 02, 2013

A revolta dos livros

 A caçadora de histórias conseguiu enviar uma carta relatando o sucedido e assegura desconhecer o paradeiro. Numa Utopia distante a 28 mil e oitocentos segundos e milhares de movimentos oculares, para um sono de oito horas, começou a insurreição dos livros. A culpa é de Lis: vasculhou as estantes dos escritores, férteis em monstros, mitologias, musas e personagens ávidos de se revoltar contra aqueles que os escreveram. Como ganhassem vida, os livros reúnem-se em “Biblioniria”, ilha invisível que o próprio escritor Italo Calvino desconhece.
Ela assegura: “foi um sonho”. Porém, eles são geografia de concretização, conspirando golpes e revoluções silenciosas. 

"Lis, ouve: - 'Shakespeare escreveu que somos feitos da mesma matéria dos sonhos, p.i., podes ter aberto uma Caixa de Pandora."

O que aconteceu? Ela entrou na velha casa de Jorge Luis Borges, cujo espólio é guardado pela viúva María Kodana. Encontrou o verdadeiro Livro de Areia (1975), matéria do conto borgeano com o mesmo nome. É a obra das páginas infinitas que, tal como as partículas de areia, carece de princípio e de fim. Numa das páginas, encontrou o mapa secreto para a ilha. Lis foi sugada, movediçamente. Tentou resistir; agarrou outro livro de Borges. Levou-o na mão.
Engolida, aterrou, porém, em areia firme. Esbarrou com Homero, que tentava reescrever a Odisseia. Ele conversava com um sujeito de pala no olho. Falavam em Aravia, a Língua que não se entende. Contudo, o livro ato contínuo apagava o que o autor alterava. Dostoiévski tentava o mesmo com Crime e Castigo; Kafka com a Metamorfose. Eram milhares de escritores nessa mesma tarefa.
As páginas: enraivecidas, começaram a soltar-se: chuva de papel e areia. Escritores: olhos de espanto e mãos no ar, tentando pinçar as folhas. Lis ensaiou o mesmo, mas carregava o outro livro: História da Eternidade. Perdi-lhe o rasto.

Crónica de Vanessa Rodrigues, publicada a 2 de Agosto 2013, na pág. Bairro dos Livros, iniciativa Culture Print, no Semanário Grande Porto, em alternância com Rui Manuel Amaral, Rui Lage e Jorge Palinhos.