quarta-feira, outubro 23, 2013

Oh Kubrick, my Kubrick


António e a Gaivota

Era uma tempestade de areia. Ou o vento que levantava a areia. A cortina que se levantou na praia fazia com que esses fios grãos doessem. Eram agulhas que queria penetrar a pele. Fechei os olhos e, de mão dada, atravessamos a cortina, ou aquela nuvem oblíqua. Talvez mais além, protegidos nas rochas, a ferocidade do vento, meio quente, meio frio, tecido morno sobre a tarde, acalmasse e nos deixasse escorrer nos rochedos como lagartos à procura de vitamina E, ou tal qual plantas regenerando-se em fotossíntese. 

Fomos. 

Eu subi primeiro, passei a corda que, evidentemente, queria dizer não trespassar, mas se outros casais se recolhiam, depois dela, nas reentrâncias dos rochedos, a ver as ilhas, e o mar, e os barcos, e as gaivotas, o que nos impediria?

António disse que iria continuar a explorar. Eu quedei-me, deitei-me feliz por estar recolhida do vento e das agulhas da areia. Ali o corredor da ventania não chegava. Deitei-me na inclinação da rocha dura, procurando que ela seguisse a espinha e não me magoasse. 

Fechei os olhos. 

Ouvia-se o embalo do fim de tarde de uma praia calma. Ninguém falava. As gaivotas grasnavam. O António voltou. Pediu água. Encontrou uma gaivota ferida agarrada a uma corda. Talvez fosse de uma rede de pescador. Talvez fosse do lixo que o mar tem. Talvez fosse maldade do homem. O importante era libertá-la, dar-lhe água, talvez a esperança da vida que ela não sabe se tem. Estava desistente. Ele levou a água e a esperança dentro dele. Um alento de que aquele gesto a salvasse. Tirou-lhe a corda à volta do pescoço, viu a ferida, percebeu-a débil, tentou chamar os homens da Marinha que o mandavam sair das rochas por ser perigoso. Tentou falar-lhes da gaivota, da ferida, da esperança de que ela vivesse, afinal, depois de lhe dar um pouco de água ela mudara do silêncio para um grasnar defensivo. Quem sabe não lhe agradecesse esse novo alento. 

António não podia fazer nada mais a não ser mais um pouco de água para a gaivota, voltar e obedecer à ordem da Marinha e sair dos rochedos. Voltou, desalentado, um pouco revoltado porque as autoridades não atenderam ao chamado para salvar uma gaivota. Fez o que pôde.

António não gosta de gaivotas, bem o sei, mas não foi por isso que a abandonou e insistiu que respirasse na esperança de a salvar.

sexta-feira, outubro 11, 2013

Cenas de crónicas não escritas


Se apontar uma vida passada, com todo o respeito pelo autor, teria sido um João do Rio, que deambula pela etnografia carioca, levantando o pó dos livros, desdobrando as badanas das vidas secretas, dissecando os humores e os pensamentos mais psicanalíticos dos personagens que ouviu, sentiu, observou, conviveu e intuiu. 
O Rio-cidade tem esta geografia de personagens peculiares, de homens que fazem dragões que parecem tão reais quanto as minhas mãos e os passeiam pela Lapa às onze da noite. O Rio-cronista tem a personalidade de um curioso analista, antropólogo, jornalista, que se funde, por vezes, com os personagens da suas histórias. Há algo mágico na capacidade de transpor a realidade carioca, que parece tão ficcionada, inverosímil para um pedaço de papel, virtual, ou na tradução de um apontamento mental. Levo o caderno cheio de notas, notas de cenas para crónicas que nunca escreverei e outras que num ato de auto-disciplina me policiarei para imortalizar. Nesse caso, terei de voltar a João do Rio, como expiação de uma penitência em falta.

terça-feira, outubro 08, 2013

"O Barulho do Tempo" no Brasil

Hoje, no Rio de Janeiro, haverá leituras no sebo Baratos Ribeiro de "O Barulho do Tempo", às 20h, e quinta-feira, 10, 18h, apresentação na Livraria da Travessa, na Sete de Setembro. Saravá! Venham que festa não faltará! Evento Público: ver detalhes.


domingo, setembro 29, 2013

Há gente que nos come até aos ossos, que nos estropia o coração, não... esperem, há gente que nos esventra, adentro, que mete a mão até às vísceras, e estraçalha, corrói, ácido (mistura fluorídrico com pentafluoreto de antimónio), não esperem, há homens, não-homens, que devoram o coração, que detêm o batimento cardíaco, que nos amordaçam, silenciam (tanto ruído na cabeça deles esse nada), que nos engolem para esse vazio em que pensam, em que veem, em que sentem, em que pesam o mundo de si, que não existe, que não é, não está, não pende na existência de agora, desta imensa impermanência que é ir-se.

A imortalidade

Lis é um ser-lugar estranho, de realidades paralelas, e a literatura é uma droga pesada. Há a obrigação de a partilhar, sob pena de pecados capitais, que jamais serão perdoados por Hades. Não admira que estes dias a nossa heroína, escapada da quase prisão perpétua com escritores em crise existencial, numa ilha desconhecida, cujas circunstâncias ainda estão por apurar (terá ela escapado com realismo mágico, técnicas Pessoanas, surrealistas?), se tenha enternecido com o conto real que se segue.
A própria história (con)funde-se com as que coleciona. Como esta: todo o prédio que chegou a albergar uma loja de fotografia por cima do café "A Brasileira”, no Porto, vai ser recuperado nos próximos meses. Urge, por isso, esvaziar as divisões. Lá dentro, num dos andares, no bafiento tempo enclausurado, há o que resta de uma vida, centenas de máquinas fotográficas novas que chegaram a velhas sem serem usadas, com o nome dos donos (que interessante seria ir atrás deles 50 anos depois), cheiro a químicos, polaroides, diapositivos e muito pó. Há, pois, o ranger da madeira do chão, tupperwares, fantasmagórica presença dos espectros que ali um dia sonharam com o futuro, que agora somos nós, no presente do indicativo, a sonhar com o advir. Ciclo irreversível, constatação da nossa finitude. Tanto espólio ali abandonado para escrever com a luz, que a fotografia assume-se como uma espécie de literatura perdida. O que será que aconteceu para que tanta riqueza fosse deixada para trás?
A vida é, pois, este fio ténue, em que colecionamos, amontoamos os nossos objetos-paixões. Por isso, Lis começou a preocupar-se com o destino que os seus livros terão um dia quando ela for pó. Em que momento deve começar a doá-los para que sobrevivam ao futuro e levem com eles um pedaço dela?

Última crónica de Vanessa Rodrigues para o Semanário Grande Porto, página Bairro dos Livros, iniciativa da editora CulturePrint, em alternância semanal com Jorge Palinhos, Rui Lage, Rui Manuel Amaral.

Vora-cidade

Que voracidade é esta que alcança? Como cansa, pés no chão, arrastados, que se empurram, e o corpo vai, segue apressado, é levado, dissipado, como se dissolve na massa de gente - e os cheiros, tão plenos, tão humanos, escatologicamente humanos; vão de metro, fechar os olhos é ver com o tato, seguir o olfacto; e a porta fecha, a gente vai, a gente segue, a gente, a massa que é gente, multidão apática, e o telefone toca, não alcanço, como cansa estar com gente, ser gente, mãos no ar, agarradas, seguradas, tateadas, e os olhos daquele homem, eu desvio, empurro a indiferença, esquecera-me que aqui se olha mais, que a cidade nos come, engole, regurgita; que a cidade vorazmente suga, sôfrega, veloz, tão rápida que nos perdemos na lentidão de nós. Onde íamos?

quinta-feira, setembro 05, 2013

O lugar do outro#1

Olhar o outro também é querer silêncio. É perceber o que somos, dentro de nós, da cultura que temos, estamos, intuímos; dos medos que temos, do lugar que ocupamos, do caminho por onde queremos ir, onde queremos estar. Olhar o outro, quando estamos longe das nossas referências por um tempo, é analisarmos a etnografia que tecemos, é sair de nós, para ir voltando, devagarinho, e voltar a ficar despertos para a peça que somos (pessoas, criaturas, essências, almas) na cidade que fazemos. 

Talvez, por isso; certamente por causa disso, estes primeiros dias - de ser e estar como quem regressa de uma epopeia longínqua- voltam a ser um retorno à observação participante. É perceber que o Porto tem entradas de prédios nas quais nunca tinha reparado e ter vontade de fazer as unhas naquele cabeleireiro manhoso que fica um prédio antigo só porque a porta é gira, vintage, numa madeira envelhecida, ao menos mais velha do que eu. 

É ouvir, atentamente, as pessoas que entram no autocarro e se cumprimentam e mudam de lugar para ficar perto de uma amiga que acabou de entrar; é dizer Bom-dia a desconhecidos, é perceber que somos mesmo muito afetuosos, simpáticos, porque dizemos olá a desconhecidos e cedemos lugares no autocarro. É reparar que há jardins com árvores seculares, que hão-de ficar quando nós nos formor; é compreender que há esplanadas abertas às 9h30 da manhã com turistas felizes a contemplar as ruas; é percepcionar que o cinzento das ruas é apenas cor de pantone de pedras estilosas que não tira alegria às pessoas; é ver que somos sorridentes além fado, não interessa o quanto insistam em dizer o contrário; é sentir os cheiros a verde, a manhã submersa que há-de evoluir para um sol à sua maneira; é notar que há bibliotecas sossegadas para pousarmos as ideias e o pensamento; é pedir um café com um sorriso e tirar o siso sério à senhora que o serve; é sorrir porque o vizinho do lado, que também café vai tomar, pediu para ficar a dever um cêntimo à senhora que antes não sorrira, que lhe responde que ele vai ter que o pagar com juros, porque a brincadeira aí começa. É tudo isto nuns instantes de manhã, porque estava atenta, porque ainda não me deixei contaminar pelo vício que a habituação quotidiana teima. É aproveitar, em silêncio, olhar o outro.

quarta-feira, setembro 04, 2013

As minhas viagens

Na impossibilidade de encontrar a edição portuguesa deste livro do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski - vénia que me gusta - e de viajar assim muito, contento-me com a edição espanhola, por supuesto; com hibernações e outras conspirações da alma, por aí, tendo por companhia mestres consagrados, ainda que também contestados perante a veracidade de suas histórias. Às vezes, como ele, dá vontade de conhecer mais mundo, escrever sobre ele; outras vezes nada sobre o mundo e contento-me com o sossego do lar, em que nada importa, a não ser o ruído dos pensamentos tão quedos e serenos que essa imensidão pode esperar. Não há histórias impossíveis; o mundo é tão repetitivo na forma que assusta; está tudo interligado, desde Heródoto, desde a Grécia, desde o Big Bang; desde o momento em que nos cortam o cordão umbilical.

 

O mistério da vizinha da frente

O António nunca a vê. Mas eu sim. Aparece sempre aprumada, adivinho até que cheirosa, com a sua água-de-colónia de alfazema que há anos se dilui nas roupas, nesses tecidos que outrora duravam gerações, como as roupas da minha avó, sempre impecáveis, sem manchas, borboto, ou desgaste de malhas. Não entendo. As roupas antigamente duravam mais. Eram para uma vida inteira. Como os trabalhos, as uniões e as casas. Deve ser o caso da casa da vizinha da frente. Rega as sardinheiras, as vermelhas, as cor-de rosa e as cor-de-vinho. Rega-as depois de varrer a varanda. Mas sempre que chamo o António para provar que a vizinha da frente existe, que não é fruto da minha imaginação lírica, literária, ou infantil, ela trata de desaparecer. Sinto um vazio. Sinto que a senhora me trai, esfumando-se. E penso que talvez ela seja mesmo imaginação de um conto que recrio diariamente. E ele diz-me que tem razão, que a vizinha não existe. Que já existiu, porém, mas que agora deve viver num lar, onde faz tricô. 

Hoje vi-a a abrir a porta, a receber uma amiga. Falou com ela demoradamente, depois subiu e foi varrer a varanda, regar as sardinheiras, com aquela roupa sempre impecável e o cabelo de cabeleireiro: aquele cabelo grisalho violáceo, seguro por uma laca muito espessa que nem o vento consegue desfazer. Vi-a e pude jurar que me acenou. Claro que ninguém me acreditou.

Pornografia ficcionada


Escrever é a nudez absoluta, é o escritor entrar na própria pele para dilacerá-la, viver a vida dos outros como sua, chorar, angustiar, humilhar e ofender, um crime e castigo, abismo, absolvição, terapia, bisturi trémulo à volta do corpo, ser pulha e gangster, falhado e vitorioso, orgulho e preconceito, fundamentação da metafísica dos costumes. Escrever é perscrutar o escuro endógeno para a lucidez das palavras, uma caverna infinita com fio-miragem de luz, um sufoco, ardência, arritmia, densa penumbra no horizonte de um mar revolto, solidão de farol, eco de montanha, gota na imensidão da selva, ulo silencioso que brama dos confins da terra, antítese da lógica nos primórdios da civilização, cordilheira de intransponível morfologia.”
É Lis quem escreve tudo isto. Foi sugada para uma ilha deserta com escritores, depois de “A revolta dos livros”, o mês passado. Trabalha como antropóloga diligente, enganando a Eternidade. Não sei como as missivas chegam até mim. Escrever tem mistérios profundos que a própria tecnologia desconhece.

Ela observa e percebe a verdade dos grandes escritores como homens nus, ao mesmo tempo que habitantes de planetas personalizados - onde a linguagem se confunde-, mas subjugados à impotência, quando percebem que nada inventam a não ser a capacidade de ludibriar uma geração que não tem memória, incapaz de estar ciente de todos os truques e artimanhas já usadas por escritores. José Saramago, por exemplo, é o ilusionista das utopias: os seus mundos não existem e são toda a geografia da verdade que temos ao nosso redor. Lis percebeu-o: os escritores são pornógrafos de ficções, um veneno, enganando-nos com as verdades que não queremos ver. Escrever é toda a escatologia do mundo. Leitores, sois seres explorados pelas neuroses dos escritores, seres perigosos. 

Crónica de Vanessa Rodrigues, publicada a 30 de Agosto 2013, na pág. Bairro dos Livros, iniciativa Culture Print, no Semanário Grande Porto, em alternância com Rui Manuel Amaral, Rui Lage e Jorge Palinhos. 
 

quarta-feira, agosto 21, 2013

Leio a versão em Português, edi. Relógio de Água, mas agarrou-me esta capa em espanhol


Acordo às 7h, vejo a manhã resmungar porque hoje esteve frio. Tão precoce hoje a escrita, tão madrugadora a leitura. Assim vou acabar-te cedo, livro meu. Assim depressa escorregas nas minhas mãos para o russo que me espera. A geografia literária é, por isso, uma coisa linda. Saio do uruguaio, para o russo, com um português na estante e um palestiniano nos intervalos. Não há, pois, espaço público mais democrático do que a minha secretária de luz vermelha. Lê-se mais depressa!

A origem da Felicidade

A felicidade é um bicho relativo, um deus raro, uma mancha no corpo, uma borboleta. Entra e sai com a mesma subtileza de um vírus, de uma doença, de uma, uma, uma disfuncionalidade, uma alergia, enfim um suspiro. A Felicidade é uma arte escassa, volátil, fugaz, fugidia, uma fora-da-lei, uma justiceira invisível, um brinquedo, um malvado truque da imaginação, um arroubo. É uma artesã, molda com as mãos, devagar. É libertina, não a conseguimos guardar; é um viajante sempre de partida.

Vivemos e, à medida que isso acontece, aprendemos que nada permanece para sempre, e que, tanto os momentos que doem como os que nos exaltam o corpo são episódios passageiros. Isso é bom, instrui, fortalece. 

Aprendi cedo a estar além do tempo para entender que tudo se perde. Parece que o corpo fica, mas a consciência sai, olhando, vigilante, observadora e voyeur,  outro pedaço que ficou. Talvez isso me deixe viver um bocado menos (mas quem é se importa de medir essas coisas, afinal), ou até mais, mas a razão deste texto nada tem de melancólico, é apenas a memória da escassez das pequenas coisas, como a efemeridade de um sorriso, como da gota da tua lágrima.

Ocorre-me tudo isto por causa do desenho que S. ontem fez. Para ela não havia nem tempo, nem compromissos. O compromisso era pintar e isso fazia-a feliz. A certa altura também eu estava a desenhar: sem compromissos com o relógio ou o telefone. Eu que nunca tive jeito para o desenho , mas gostaria; é que tanto gosto de desenhar e pintar sem saber como. Estarreço a olhar para aquele branco de página, com tanta vontade de a preencher e desajeitada começo a rabiscar com pincel e aguarela uns traços ininteligíveis. A Felicidade, na infância, pode ser isto. A permissão de se viver sem compromissos com o tempo.

Em bebés, a primeira vez que conhecemos a felicidade talvez seja quando mamamos; quando nos dão de comer quando temos fome, quando nos refrescam a boca com sede, quando nos mudam a fralda. E ninguém se preocupa onde adormecemos, desde que alguém esteja por perto para nos vigiar. Depois, achei que a felicidade era o recreio, voltar para casa, e os fins-de-semana para ir à piscina. Isso bastava-me. Vieram depois os livros, a descoberta da caneta vermelha do meu pai para os riscar; e, mais tarde, quando aprendi a distinguir o cheiro das páginas, as horas que gastava a lê-los. E a sublinhar palavras ininteligíveis no Rei Lear, na Divina Comédia, no Vermelho e o Negro, no Crime e Castigo. Livros demasiado precoces e ininteligíveis. Sei que aprendi palavras belas muito cedo.  Mas tenho de voltar a lê-los porque não me lembro que personagens habitam.
 
Veio uma altura em que a felicidade eram as férias de verão. A praia, o corpo bronzeado, os gelados (o corneto, o Epá e a chiclete de bolinha no final, o Calipo). Isso no início, porque depois veio a praia com os namorados.

Alturas houve em que a felicidade eram calças de marca, elásticas. Felizmente a parvoíce passou-me rápido, até porque o mealheiro nunca era suficiente.

Recordo-me que a felicidade chegou a ser pic-nics, corpos deitados em relva, livros adormecidos. 
 
Depois, vivemos e começamos a ver a felicidade ainda mais nos amigos, na Família, na leveza, no Amor, quem sabe, um dia, nos filhos. É este estado de humanidade que nos traz a felicidade. Feliz é ser isto, todos os dias, um pedaço de humanidade. 
 
P.S. Reparei que não mencionei o trabalho, talvez porque aquilo que faço não o considero trabalho, mas parte de mim!

terça-feira, agosto 06, 2013

É importante esquecer, para lembrar


 Acontece-me sucessivamente. Ocorre ao abrir uma gaveta, um armário, um guarda-vestidos, ao olhar debaixo da cama, caixotes, dentro de livros, ao vasculhar as estantes, caixas, sacos, malas e carteiras, entre agendas. Só não acontece debaixo das carpetes ou tacos, porque não me dei ao trabalho de os remover. Nem no quintal, debaixo de terra fofa, onde não me lembro se alguma vez terei enterrado um tesouro, um mealheiro com escudos, uma carta de Amor precoce, um dente, uma trança. (A trança tenho-a no baú do Brasil, pequenina, que me fez um homem em Porto Seguro. Bela metáfora, portanto). 

Acontece-me recorrentemente talvez porque guardo tudo, até o bilhete de metro daquela viagem em Budapeste; à conta da cachaça no BH em São Paulo. Sucede-me encontrar memórias, daquelas que havia esquecido. Com o tempo acredito que começo a guardar menos coisas, desenvencilhando-me do abuso que é ter papéis e folhas soltas, postais e contas de restaurantes. 

A minha mãe chama-lhe lixo, é certo. Talvez tenha razão. Talvez, por isso, entro em pânico sempre que me diz que arrumou o quarto que já pouco ou nada habito. Arrumar para mim, aquele quarto, é tirar um pedaço de mim. Aquele cartão, aquela moeda, aquele botão... Tudo tem uma lógica, corrijo-lhe um pouco nervosa já, com as mãos suadas, palpitações, arritmia evidente. (Chamem o médico, se faz favor que isto não vai correr nada bem. Oxigénio, exercícios zen, Yoga ajuda.) 

Eu insisto nas memórias. Deixo-as soltas, olvidadas, entregues ao pó e às traças, à humidade dos Invernos, à secura dos Verões, às aranhas e outros seres microscópicos que se alimentam de memórias físicas. Acontece-me recorrentemente, quiçá, porque tenho propensão para coleccionar aquilo que não se coleciona: o presente de um já passado. 

Dá-se, frequentemente, por ventura, ou porque vivo muito (benzo-me perante a falta de humildade e relativa análise do que isso será), ou porque estou a ficar velha e guardo já demasiadas lembranças com generosidade feliz para as que ainda possam vir.

Eu vou dizer o que me ocorre: encontrar fotos antigas, postais e cartas imensas, todo um atlas onde vivem os elefantes que não esquecem, uma selva de letras tremidas, tinta a desaparecer, cheiro a mofo e alfazema, um harém de tecidos sem corpo. Encontro cartas e desabafos, postais de Corroios e Algarve, cartas de amor e amizade, bilhetes das salas de aulas, fotografias antes de ver mundo, com biquinis às riscas azuis-bebé e corpo a desabrochar. 

Reencontro tudo isto e sorrio. Sorrio pelo ontem que passou e ainda parece hoje, pela raiz de mim que cá fica,; da menina que lia Romeu e Julieta em voz alta e anotava as palavras difíceis, enquanto deixava a aranha habitar aquele quarto cheio de luz (sempre tive horror às trevas), enquanto tecia a sua teia. Sorrio perante a menina que ficou e está feliz, por este agora, e da inocência que voa leve ao redor destas memórias que esqueci em baús e caixas para lembrar. 

No fundo, servem, acredito, para me fazer voltar a mim, a casa, para me lembrar dos sonhos, do que ficou, do que vem, de como é importante esquecer para me lembrar. Talvez devesse voltar a escrever cartas à mão, postais, longos cadernos com poemas e prosa, agendas. Talvez devesse escrever mais, só isso, uma prosa em longa metragem um plano sequência; ou fotografar e imprimir as fotos. Esquecê-las numa caixa, catalogadas. Preciso deste meu "lixo" para que os sonhos continuem sempre a fazer sentido.  

segunda-feira, agosto 05, 2013

Dona Rosa e os Vasos de Flores

A luz das manhãs de Verão são sempre mais generosas nos telhados da Sé. Primeiro rasa as telhas, diafanamente, como se ganhasse pés de algodão, afagando a humidade que se entranha durante a noite. A culpa é do rio, que se evapora em partículas vadias que se querem escapar numa espécie de emancipação. Mal sabem que nunca mais desta cidade sairão, porque quando se erguem mais alto, na subida molecular, plasmando-se na invisibilidade dos olhos nus, amadurecem e vêem do alto a beleza incontestável das texturas da cidade. São camadas, senhoras e senhores, são camadas. Estratos, sedimentos. Um mosaico ora conforme ora disforme.
Em manhãs como essas, enquanto a Rosa ainda boceja, e os olhos remelentos, remelados, remelosos (o caramelo das lágrimas), se deixam descolar, a luz picota formas das pequenas casas. Dona Rosa abre as portadas, como quem autoriza o solar fluxo radiante a entrar. Ele polariza-se nas íngremes vielas, entranha-se na tinta a estalar, nos pigmentos que sobram dessas cores agoniadas.
Numa dessas manhãs, em que o sol a pino ameaça escalar os telhados com luz dura, Dona Rosa - que respeito por esta sessentona se quer - é ofuscada por tamanha claridade tão precoce. Cega, fechando os olhos, reagindo a íris à tirana do clarão, do brilho, do fulgor, quem sabe rebeldia adolescente desse sol de estio, esparrama as portadas de madeira irritada, áspera, desabrida, mais áustera que as mãos calejadas desta peixeira. E aqueles vasos, onde se enterram violetas, malmequeres, lírios e brincos-de-princesa que ainda só agora começaram a viver, precipitam-se, frágeis e ingénuas, para uma liberdade aparente, bem junto à medieval porta do Sol. Irónica sina esta, a das flores da Rosinha.  
Dona Rosa, ainda mal recomposta da sonolência e do choque põe-se a berrar, esbraceja com voz de quem sonhou pesadelo com o Zé pescador, como se estivesse embalado em tempestade em alto mar. Lá em baixo, terra espalhada, flores derramadas. E o sol, culpado infalível neste crime, inamovível. Nem pasmo se lhe viu no rosto iluminado. Dizem, contudo, as más línguas que se regozijou do feito.

sexta-feira, agosto 02, 2013

A revolta dos livros

 A caçadora de histórias conseguiu enviar uma carta relatando o sucedido e assegura desconhecer o paradeiro. Numa Utopia distante a 28 mil e oitocentos segundos e milhares de movimentos oculares, para um sono de oito horas, começou a insurreição dos livros. A culpa é de Lis: vasculhou as estantes dos escritores, férteis em monstros, mitologias, musas e personagens ávidos de se revoltar contra aqueles que os escreveram. Como ganhassem vida, os livros reúnem-se em “Biblioniria”, ilha invisível que o próprio escritor Italo Calvino desconhece.
Ela assegura: “foi um sonho”. Porém, eles são geografia de concretização, conspirando golpes e revoluções silenciosas. 

"Lis, ouve: - 'Shakespeare escreveu que somos feitos da mesma matéria dos sonhos, p.i., podes ter aberto uma Caixa de Pandora."

O que aconteceu? Ela entrou na velha casa de Jorge Luis Borges, cujo espólio é guardado pela viúva María Kodana. Encontrou o verdadeiro Livro de Areia (1975), matéria do conto borgeano com o mesmo nome. É a obra das páginas infinitas que, tal como as partículas de areia, carece de princípio e de fim. Numa das páginas, encontrou o mapa secreto para a ilha. Lis foi sugada, movediçamente. Tentou resistir; agarrou outro livro de Borges. Levou-o na mão.
Engolida, aterrou, porém, em areia firme. Esbarrou com Homero, que tentava reescrever a Odisseia. Ele conversava com um sujeito de pala no olho. Falavam em Aravia, a Língua que não se entende. Contudo, o livro ato contínuo apagava o que o autor alterava. Dostoiévski tentava o mesmo com Crime e Castigo; Kafka com a Metamorfose. Eram milhares de escritores nessa mesma tarefa.
As páginas: enraivecidas, começaram a soltar-se: chuva de papel e areia. Escritores: olhos de espanto e mãos no ar, tentando pinçar as folhas. Lis ensaiou o mesmo, mas carregava o outro livro: História da Eternidade. Perdi-lhe o rasto.

Crónica de Vanessa Rodrigues, publicada a 2 de Agosto 2013, na pág. Bairro dos Livros, iniciativa Culture Print, no Semanário Grande Porto, em alternância com Rui Manuel Amaral, Rui Lage e Jorge Palinhos. 

sexta-feira, julho 26, 2013

Catarpácios & Cia

Os livros que moram num alfarrabista são viajantes forçados. De mão-em-estante-em-feira-em-lar. Uns maltratados, outros sultões poligámicos que coabitam com raridades. Em rigor, prisioneiros dos desígnios tirânicos.
A semana passada, tentei explorar as velhas livrarias de Amã, na Jordânia. Debalde. Apenas uma loja cinzenta, empoeirada, best-sellers duvidosos, um piano encalhado. Ao sair, cogitava perplexidade: será que a quantidade de alfarrabistas que um país tem revela muito sobre a cultura e sua população?

Estudo de caso: eixo Portugal-Brasil-Jordânia. 

Entre nós, 871 anos de identidade, já pós-doutorados na matéria, arriscando até pôr a espécie alfarrabista em vias de extinção, quantos alfarrábios? Algumas centenas. 

No Brasil, honoris causa no assunto, 191 anos de independência, qual a população lojista de catarpácios? Milhares. Há até uma loja online (www.estantevirtual.com) onde se pode encomendar ‘velhos’ livros por toda a Terra Brasilis. 

A Jordânia, caloira nestas lides, tem pouco mais de 60 anos de vida: os alfarrabistas contam-se pelos dedos das mãos. O que não representa um cenário generalizado do mundo Árabe. Até porque, analisando a etimologia da palavra ‘Alfarrabista’ sabemos que provém do antropónimo árabe Al-Farabi, filósofo que vivem em Bagdade no séc. IX, conhecido pela gigante biblioteca de textos antigos. Al-Farabi viveu ainda no Egito, lugar onde a História marca um legado civilizacional, e onde terá existido uma das mais importantes Bibliotecas sobre o Mundo Antigo, em Alexandria - e que terá ardido (30 A.C.).  Mais uma vez, estes livros, velhos viajantes, alguns sábios intemporais, dependem sempre da vontade humana para existirem. O que será que fariam aos homens se lhes fosse dada vida autónoma? A revolução pode estar eminente.





sábado, julho 20, 2013

Receita para ser feliz (e sopas coloridas)

1. Nunca me dei bem com receitas. Acabo sempre por adulterar as gramas de açúcar, de sal, de arroz, eu sei lá. É por isso que gosto de inventar na cozinha. Há-de haver, com certeza, algum estudo, tese, teoria filosófica, especulação ancestral hermeticamente enquadrada na transdisciplinariedade de convergência de algum "-ismo" ou "-logia" que comprove que cozinhar é uma extensão da forma como encaramos a vida. Surge-me esta filosofia de botequim enquanto faço sopa. A minha sopa nunca fica da mesma maneira, porque nunca compro os mesmos ingredientes e até gosto de inventar. Lavo a louça e apercebo-me de que, na vida, sou um pouco assim. Procuro sempre maneiras de fazer diferente e irritam-me as regras quadradas, a hierarquia e a mediocridade. Mas isso é outra história. Alinho tudo isto num axioma doméstico enquanto ponho o resto do detergente com água no esfregão, desengordurando a panela. Será que cozinhar revela realmente muito sobre nós? O que diria Freud, Lacan, Piaget, Jung e Alfred Adler e sua psicologia do desenvolvimento individual? Será que deveria convidá-los para jantar? Que prato servir?

2. Uma das coisas que tenho aprendido para ser feliz é não dar demasiada importância ao passado e às pessoas que eu deixei que me magoassem. A idade da ingenuidade já passou e um dia temos de aprender a dizer não e sair a tempo, antes que a areia movediça nos sugue a força. Outra coisa é dançar no meio da sala, descobrir uma música nova todos os dias, encarar o dia sorrindo, fazer bolas de chiclete e rebentá-las, tirar os sapatos e encarar a areia da praia no Inverno, fazer surpresas a quem gostamos, mandar mensagens estapafúrdias aos amigos com fotografias ridículas, saltar no colchão da cama. Enfim, não levar a vida tão a sério e não deixar que aqueles que a levam nos pesem com sua indiferença e julgamento. Outra delas é fazer sopas coloridas, e bolos com açúcar a mais, mesmo que as teorias da Gestão e dos Recursos Humanos digam que deveria ser mais coerente na minha forma de cozinhar. Gosto de deixar a vida mais cromática e de a tornar doce. Pode ser que Freud assim explique.

Sonhos de um Mundo Novo para os Não-Me-toquenses

 Não sei se "Formiga" fica perto de "Sonhos", junto a Ermesinde e passando pelo Conde Ferreira, mas certamente fica bem longe de "Mundo Novo". Esta terra onde os moradores devem andar sempre de cabeça-no-ar, seguidores dos Oneiros (irmãos de Hipnos) pressuponho, fica a 8860 quilómetros de Mundo Novo se for o de Mato Grosso do Sul, 6754 quilómetros se for na Baía, 7488 km se for o de Goiás, 7870 km se for o de Juiz de Fora. Sim, encontrei quatro terras brasileiras com esse nome. Pressuponho, quiçá, que Aldous Huxley se tenha aqui inspirado para o título do seu livro mais famoso: Admirável Mundo Novo.

O autocarro 703, no Porto, que se pode esperar na Cordoaria tem o destino final para Sonhos, mas não me parece possível que suas capacidades mágicas o levem além Atlântico. O que parece categórico, porém, é que Mundo Novo fica, inevitavelmente no Brasil.

Talvez seja por isso que muitos portugueses sempre se sentiram atraídos por terras brasileiras. Isso explicaria, por exemplo, por que razão diz a lenda que há uma terra no Rio Grande do Sul com o nome de "Não-me-Toque! que se deve (especulação número um) à façanha de um português. Parece que no século XIX ele terá dito a alguém: "Não me toques nessas terras!". Desde então o gentílico do povo da cidade é não-me-toquenses. Localiza-se a uma latitude 28º27'33" sul e a uma longitude  52º49'15" oeste. Está a uma altitude de 514 metros. Coisa pouca, dá para tocar, certo?, "nesse pedaço de pátria" onde "eu vejo pampa verdejante/ eu ouço o cavalo a galopar,  sinto o vento minuano cortando as colinas..." (ouve-se no vídeo institucional da cidade).

Em Tocantis, porém, a Lagoa da Confusão,  não há que enganar, já deve ter deixado muita família obnubilada, que hão-de, certamente, ter ido carpir suas "Angústias" para os lados de Paredes de Coura, ou mesmo, inspirados pela fé, feito o devido "Purgatório" (Albufeira).  Desconfio que o Jardim de Piranhas (Rio Grande do Norte), ter-se-à dado muito bem com Carne Assada (Terrugem, Sintra) e pouco com Aranhas (Penamacor). Passa-e-Fica (RN) estou na dúvida, amigaria com Gostei (Bragança)? Sabemos que pelo menos 11 519 habitantes que lá passaram, permaneceram. Não devem ter queixumes no livro de reclamações.

De qualquer modo Arco-Íris, em São Paulo, pelos vistos não tem mais de dois mil habitantes e não se entende porque há-de ser um lugar bonito para morar.  Mas a toponímia às vezes engana, ao contrário do algodão-Sonasol. Por exemplo, em Consolação, em São Paulo, não encontrei  lugar algum onde se pudesse repousar os afetos, e no Paraíso, lá no final Via Avenida Paulista, não encontrei nem Adão, nem Eva, nem a serpente, se bem que há uma frutaria com vários tipos de maçã. 

Acredito, pois, que a criatividade da atribuição dos nomes dos lugares esteja mais relacionada com algum acaso do quotidiano, do que com uma explicação metafísica extraordinária. Ela é mais ordinária quanto se pensa. E tem que ver com coisas como por exemplo, deixar o gato deitar-se no teclado do computador, originando nomes como Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch .
Parece ou não parece obra de um gato preguiçoso do teclado? Mas, pasmem-se, não é engano não, é nome de um lugar, na ilha de Anglesey, no País de Gales e significa: "igreja de Santa Maria no fundão do aveleiro branco perto de um redemoinho rápido e da Igreja de São Tisílio da gruta vermelha". 

Assim de repente, se inventasse um nome de lugar, acho que chamaria o meu gato para dormir no teclado, mas a esta hora, sei-o, ele está longe (ou sou eu que estou), mas muito mais perto de Sonhos e de um Mundo Novo do que eu.


Desaparecidos

As histórias sobre pessoas desaparecidas sempre criaram em mim uma dicotomia. Digamos que uma bipolaridade involuntária. Por um lado, a curiosidade "detetivesca" em saber o que realmente aconteceu - imaginar uma vida que se esfumou para o mundo real (quer esteja a viver outra, ou tenha partido), -  por outro um vazio estranho que  impõe um certo mau-estar. Diria uma náusea mental, um arrepio, como se o universo Frankenstein se sobrepusesse a qualquer lógica. Parece, isso, sim, um filme de ficção científica.

E as histórias sobre estes enredos, raramente (não encontrei estatísticas confiáveis sobre o caso português) têm um final feliz. Por exemplo, nos Estados Unidos, segundo o National Center for Missing Adults, regista-se, diariamente, 2300 desaparecidos. 

Não deixa, por isso, de ser surpreendente a notícia de hoje, no Canadá, de uma mulher, Lucy Johnson, 77, que foi encontrada viva, hígida, depois de ter estado 52 anos desaparecida. Diz a notícia que ela tinha já uma outra família e não avança mais pormenores, alegando privacidade familiar. 

Muitas serão, certamente, as razões que levam milhares de pessoas, todos os dias, a esfumar-se da sociedade e nem todas elas terão finais trágicos. Recordo-me que há uns anos, um colega de trabalho da minha mãe esteve uma boa semana desaparecido, sem deixar qualquer rasto. Meses depois ele voltou ao trabalho, mas as razões reais do seu desaparecimento nunca chegaram a ser divulgadas, nem ele quis falar sobre o assunto. Há momentos da vida do ser humano, presumo, em que o peso da vida torna-se de tal forma incomportável que desejamos que a cápsula da invisibilidade fosse, enfim, um medicamento de venda livre. 

Mas imagino a vida ao redor daqueles que estão ligados ao desaparecido. É também uma boa parte da vida destas pessoas que se perde, que se agarra a um ciclo psicologicamente desequilibrado. 

A Literatura está cheia de desaparecidos. Mas é, no fundo, a História que a inspira. Por exemplo, Dom Sebastião nunca chegou a dar o ar da sua graça, nem para reivindicar a herança,depois da Batalha de Aljubarrota. Nunca se soube ao certo o que aconteceu ao gladiador Spartacus. Artur I, Duque da Bretanha, esfumou-se sem deixar rasto. O mesmo aconteceu aos exploradores Miguel Corte-Real,  português, e Francisco Orellana, espanhol. O mesmo destino teve o explorador e arqueólogo Percy Fawcett, quando tentava encontrar uma valiosa cidade perdida de Z. no Brasil. A própria Agatha Christie, escritora inglesa de livros de suspense e mistério, esteve 10 dias desaparecida, embora tivesse sido encontrada depois.

 Que atire a primeira pedra quem nunca se viu tentado, por variadíssimas razões, a testar a teoria pessoal do desaparecimento, nem que fosse por instantes; nem que fosse em nome da Literatura. Mas quando refiro desaparecer, quero dizer para reinventar uma outra vida. Estou particularmente satisfeita com a minha, confesso, mas recordo-me de em 2009 pensar, ao longo das margens do Rio Amazonas, onde moram alguns ribeirinhos, que seria muito fácil alguém desaparecer por entre as margens sem deixar rasto. Ocorre-me isto, ao mesmo tempo que me ocorre o outro lado da moeda: a vida está, enfim, cheia de belas possibilidades e que podemos sempre recomeçar do zero!