quinta-feira, julho 18, 2013

Vanessa viaja com Vanessa

Novo texto que escrevi a convite do blogue da editora brasileira Cosac Naify, a propósito da reedição de "O Livro Amarelo do Terminal" [Rodoviário do Tietê]. Levei o livro a viajar nos transportes coletivos do Porto, enquanto exercitava a Literatura Portátil. O resultado pode ser lido neste link, pela batuta de Antônio Xerxenesky, agora no comando deste blog depois de Daniel Benevides. Boas viagens! :-)

Minha vida com Vanessa Barbara

A gente não se conhece, apesar das coincidências: temos o mesmo nome, somos jornalistas e escrevinhadoras, gostamos dos ínfimos detalhes da vida, como moscas ziguezagueantes, ávidas de cenas da vida real e fazemos aniversário no dia 14, embora em meses diferentes. Isso me dá alguma vantagem para quebrar o gelo.
Nunca nos vimos, muito embora tenhamos galgado já as mesmas calçadas. E vivemos o mesmo surto psicótico: observar o Terminal Rodoviário Tietê, em São Paulo (cidade onde vivi durante 5 anos), a segunda maior rodoviária do mundo (parece que a primeira é em Telavive, Israel), percebendo que é uma espécie de país neutro, uma súmula de Brasil, um tratado etnográfico. Bastam cinco minutos e até o escritor italiano Italo Calvino – autor de Cidades Invisíveis – ficaria louco, achando que todas suas urbes caberiam nesta anatomia. Regra básica: para entender esta central de “busões” temos de ser, porém, observadores participantes. E agora me cai nas mãos a missão de escrever sobre o livro de Vanessa. Como se escreve sobre um livro, no qual nos revemos, ou quem sabe, podemos mesmo ser personagem invisível?
A estação rodoviária Tietê (foto de C. Alberto)
Talvez a escritora e jornalista Vanessa Bárbara (VB) tenha me visto enquanto fazia trabalho de campo. Talvez a gente tenha se cruzado, lado a lado, observando a “cidade de coisas perdidas”, como ela apelida o Terminal. Talvez, quem sabe, tenhamos estado na mesma fila, ou pegado o mesmo ônibus. Em rigor, se passarmos pelo Terminal Tietê, qualquer um de nós pode ter partilhado um fragmento de vida com a autora. Não só porque o livro é carnalmente real, como também poderia ser o divã de todos nós, metafisicamente contemporâneo.
Em todo o caso, minha vida com Vanessa debaixo do braço mudou um pouco. Deixa eu explicar melhor: minha vida com O livro amarelo do Terminal de VB se transformou em literatura, verdadeiramente, portátil, pela cidade do Porto, em Portugal. Virou uma espécie de ficção andante na primeira pessoa. Vamos por partes: o livro veio de avião, até Portugal, cruzando o Atlântico, quiçá sua estreia na Europa, na mala de dois amigos queridos, que mo compraram, porque na Cosac Naify ele estava esgotado e bem que, finalmente, merece esta reedição para acabar com o jejum.
Depois, é bom que se diga que eu levei “o Terminal” para passear pelos transportes públicos portugueses. Primeiro foi de ônibus, tomando a linha 602. Me acompanhou, ainda, de metrô, pegando a linha verde, até a estação da Trindade, outro centro nevrálgico da muvuca portuense.
Alguns passageiros, como eu, acharam estranho meu livro nas mãos (cheio de colagens e frases na capa e contracapa), sob meu olhar grudado em páginas amarelas (aliás, nome antigo para listas telefônicas comerciais), e tentavam driblar minha distração para ver se conseguiam decifrar o enigma da capa tão esquisita. Até porque, livro amarelo em Portugal é sinônimo de livro de reclamações.
O livro de Vanessa também tem gente reclamando, é um fato, mas, sobretudo, filosofia de botequim, gente graduada em vida e relações (ralações) humanas; tem gente simpática, preguiçosa, perdida, flirt, busologia (estudo de ônibus, claro), sapato velho, perdidos e achados, xerifes, caminhoneiros, faxineiros, arroz com feijão, notícia de jornal, amigos que nunca se viram, e até Gerador automático de Reportagens. E ela, a repórter de serviço, precisou de um ano para gerar esta longa-metragem da prosa-verdade, muita conversa fiada, aprendizado de telemarketing e anotações q.b., para dar conta do recado com tantos dados e histórias cruzadas, inteligentemente, sobre o Terminal. Nada é escrito à toa e sem um sentido de ligação.
Depois, Vanessa se mune de episódios caricatos:
São mais de 2 mil informações fornecidas diariamente pelas atendentes do balcão (117 por hora, quase duas a cada minuto). Respostas a todo o tipo de pergunta, feitas pelas pessoas mais incomuns e em qualquer idioma. ‘Você conhece aquela teoria de que o ser humano consegue se comunicar em qualquer lugar?’, é o que Rosângela responde, quando lhe perguntam se ela sabe falar inglês. Não, nenhuma delas sabe um idioma estrangeiro, conhece a linguagem de sinais ou decorou o tomo L da enciclopédia, mas parece não fazer diferença.
Poderia ser o design a grande originalidade deste livro (não deixa de o ser, claro), que resulta de um trabalho de fim de curso e a estreia da autora na literatura, mas há vida além do julgamento pela capa. A grande proeza desta obra é, sem dúvida, a mistura equilibrada de estéticas literárias: ora se serve do jornalismo narrativo, ora da técnica de roteiro, passeando pelo discurso direto e indireto, do grafismo neoconcretista, da técnica do microconto, para misturar recursos estilísticos como a metáfora, as onamotopeias, e a enumeração sui generis que abunda num terminal onde a overdose é apenas um eufemismo para a iniciação a São Paulo.
Isto só prova que esta paulistana balzaquiana, além de dominar muito bem os recursos da Língua Portuguesa, sintaxe, semântica, gramática, e estéticas literárias, sabe brincar com as palavras, reinventando um estilo eclético, para este livro-reportagem.
Depois, sua cadência de prosa acelerada, numa contemplação quase sem fôlego, por vezes, é um retrato fiel da fugaz São Paulo, com seus cerca de 15 milhões de habitantes. Por isso, esse terminal só pode ser a loucura desenfreada, como se estivéssemos olhando um filme em fast-forward. Só que é a vida real, nessa aceleração. Uma análise cirúrgica sobre a psicologia e os hábitos humanos, uma microscópica dissecação das rotinas quotidianas.

* Vanessa Rodrigues é jornalista independente. Nasceu em 1981, em Portugal. Viveu cinco anos em São Paulo, como correspondente da rádio portuguesa TSF e jornal Diário de Notícias. Atualmente colabora com a TSF, Revista (jornal Expresso) e Notícias Magazine.
 

** A foto da rodoviária Tietê foi extraída daqui.

quarta-feira, julho 17, 2013

Valsa da Chuva, poema de Vanessa Ribeiro Rodrigues, lido por Ana Bastos

O evento Letras na Avenida continua a decorrer no Porto. E o livro "O Barulho do Tempo"( Culture Print ) anda por lá solto, pronto para ser levado para casa. Para vos inspirar, deixo-vos aqui um áudio exclusivo. O poema "Valsa da Chuva" não está neste livro e serve, por isso, para aguçar o apetite. É lido com a bela voz doce e tropical da minha querida amiga Ana Claudia Gondim Bastos com pequena sonoplastia que andei a inventar. É ouvir para embalar a noite. 

quarta-feira, julho 10, 2013

Malvada letargia do deserto

Tenho travado uma luta densamente paradoxal desde que cheguei à Jordânia. Nada de grave. Eu explico: uma peleja entre a vontade de escrever algo que se aproveite e a letargia imposta pelo peso que o ar do deserto, o calor e o oxigénio rarefeito, filtrado pelos grãos de areia imperceptíveis que o vento traz. Essa apatia, inércia involuntária, entranha-se de tal forma como plasmas na pele que mexermo-nos, pensar ou criar parecem tarefas hercúleas tão contrárias à minha habitual hiperatividade. Eu juro que bem ouço o tico e teco a discutir e tenho tentado várias estratégias que contrariem e submetam a aridez ao seu lugar somente de condição ambiental. Vitaminas, água q.b., suminhos de maçã, fruta energética, café, chá preto, ventoínhas, banhos de água fria pela manhã. Enfim, debalde. Não choveu desde que cá cheguei, às vezes falta água em casa e é preciso chamar homens que dizem que chegam às sete da noite e aparecem às dez. Apercebo-me, pouco a pouco, como areia fina da ampulheta, que dias assim sugam energia vital para criar. Sou uma rapariga dos trópicos latino-americanos, do Atlântico, das Amazónias, a tentar entranhar-me no deserto. Mas não está fácil. É como vivermos um sonho, acordados, do qual não despertamos. Sabem aquela sensação de estarmos a sonhar e de termos que acordar, tentando abrir os olhos, mas as pinças das pestanas parece que se agarram, coladas. É mais ou menos isso!

Mas atenção, não que se viva numa apatia por aqui, pelo contrário, o tempo de trabalho nestas coordenadas geográficas, escasseia, buliço de tarefas que se intercalam. A luta que travo é categoricamente essa: a de o corpo emitir lentos movimentos biológicos, neuro-biológicos, quando a vontade da alma (aquilo que se transpõe à motivação, que vai além do entusiasmo, que emana de nós) é outra e a agenda se carrega de tarefas que não cessam nunca, numa reinvenção habitual de pequenos mundos onde a letargia do deserto não cabe não senhora. Tiranices, ou um complô orquestrado pelo complexo do deserto.

terça-feira, julho 09, 2013

O baú de Schultz, conto publicado na Revista Pessoa


O conto "O Baú de Schultz" que submeti à Literária Revista Pessoa há uns meses foi seleccionado e publicado hoje.

"Mas no meio de bélicas condições há sempre amor: amores impossíveis, amores fiéis, desamores, fugazes afetos amorosos, um futuro a librar na condição efémera dos despojos, a esperança amorosa do regresso, o Amor, por si, como sobrevivência. Foi o caso deste homem e desta mulher..."

PARA LER MAIS seguir este LINK

domingo, julho 07, 2013

Verão Árabe

O avô de Madlah está nos créditos finais de Lawrence of Arabia (1962), um filme sobre a revolução árabe, pela liderança de um inglês, e que David Lean adaptou para o cinema a partir do livro Seven Pilars of Wisdom” de T.E. Lawrence. Lis vê esses mesmos pilares, a quebrar o horizonte, orgulho de paisagem, enquanto está sentada numa tenda beduína no Wadi Rum, o deserto jordano, onde Lean filmou esse sucesso de bilheteiras. 

Fora da tenda, 45 graus; dentro: tapetes multicores, chá de maramya (sálvia), e dois homens de túnica branca, lábios gretados e pele queimada pelo sol, à conversa com uma mulher, sem véu. É nestas alturas que a literatura corporiza e Lis reconhece esses personagens reais de um filme longínquo. A mesma lonjura, quiçá, que faz com que Madlah não façam ideia do que seja a Primavera Árabe, e nem ela, de fato, lhe faça muita diferença. É um homem do deserto e, sempre que vai à cidade, fica com saudades deste silêncio a vento. 
 
Primeira lição, ensinam a Lis, no Médio Oriente só há duas estações: Inverno e Verão. A Primavera Árabe é, portanto, uma metáfora para o desabrochar de uma mudança de alguma coisa que ainda não existe e ninguém sabe muito bem para onde vai. 

Todavia, da mesma forma, que L. das Arábias, o do livro e o do cinema, revolucionou um imaginário coletivo, Lis tem provas de que a Primavera Árabe tem sete novos pilares a edificar-se no conhecimento da nova geração oriental: 1) a polícia de inteligência anda mais permissiva; 2) o ateísmo está galopante; 3) a internet mostra a censura; 4) as vozes por direitos humanos mais ativa; 5) há mulheres nas ruas depois das 22h; 6) vozes críticas nas televisões árabes sem medo de represálias; 7) e muita Literatura a ser parida. 

Quente, muito quente. 

Palavras a 40 graus. 

Um Verão literário!

Crónica publicada por Vanessa Rodrigues a 5 de Julho no Semanário Grande Porto, na página Bairro dos Livros, iniciativa Culture Print| Coluna partilhada, semanalmente, entre Jorge Palinhos, Rui Manuel Amaral, Rui Lage

segunda-feira, junho 10, 2013

Torre de Babel

 
Deserto do Wadi Rum, Jordânia
  
Vanessa Rodrigues

1. Diz a lenda, propalada em várias metáforas civilizacionais, que há milhares de anos, os homens quiseram escalar até ao céu, numa torre de babel, para chegar à divindade. Enfurecido, deus, o homem que se diz tecer literatura invisível, trocou a língua dos homens e obnubilou-os com linguajares disformes. Foi preciso Lis viajar para o Médio Oriente para que isto fizesse sentido. O que será que diz naquele graffiti no muro ao lado daquela Mesquita?
2. No Capão Redondo, periferia de São Paulo, Brasil, com uma taxa de criminalidade que faz inveja aos filmes do Tarantino, há sarau cultural às quartas-feira. Há uma lista de candidatos para dizer poesia. O homem de óculos de fundo de garrafa recita Pablo Neruda entre poemas seus. A plateia, lotada, come farofa, feijão preto e bebe cerveja. Cá fora, a polícia revista carros e homens armados. Depois entra, mistura-se, bebe a mesma literatura no ar. Babélica conciliação.
3. Iveta e os amigos começam a cantar em checo. Rostos iluminados; chama da fogueira. Lis trauteia com eles; tenta. Sorri com os olhos. Não faz a mínima do que cantam. Sob a luz da lua, vê um bunker enterrado no quintal de casa da amiga checa, vizinha com a fronteira alemã. Pensa que os homens enregelados que ali um dia se esconderam, a mando bélico, tinham era medo que o silêncio quebrasse.
4. Língua Árabe; desenhada. Lis não entende uma palavra, entrega-se, por vezes, à poesia da linguagem não verbal; onomatopeias. Comunicação em estado puro. É quando a Torre de Babel se ergue, ao mesmo tempo que se desmorona: não há raça, religião, cultura, ou aberração linguística que separe os homens, se não quiserem. Lis quebra o silêncio, aponta para o mural. Alguém traduz o graffiti: “é preciso escalar-se as montanhas que o homem carrega para entender melhor”. E isso, sabemos, não há tradutor Google que esclareça. 

*Crónica publicada a 07 de Junho de 2013, no semanário Grande Porto, na página Bairro dos Livros, iniciativa Culture Print. Coluna partilhada, semanalmente, com Jorge Palinhos, Rui Lage e Rui Manuel Amaral. 
 

domingo, maio 19, 2013

Conta-me Histórias

O músico brasileiro Tom Zé acredita que o homem da mala, um mimo, aquele que no meio de uma praça conta uma história, sem dizer uma palavra, “é um herói da literatura não falada”. Confidenciou isso a Lis, no seu apartamento em São Paulo, enquanto um bem-te-vi entrava pela janela, como entrasse numa fábula. Esse adolescente de 80 anos é,acima de tudo, um contador de histórias. Herdou o dom porque, à noite, no sertão, de onde vem, os estrangeiros sentavam-se na sala a relatar errâncias e aventuras de cangaço, sátiras e donzelas. Não é por acaso que a literatura de cordel, que é a oralidade imortalizada, se popularizou no nordeste brasileiro. Não é casualidade que a relação telúrica inspire mitos e lendas para explicar a vida. Há qualquer coisa de mágico na tradição oral. Talvez por isso A., amiga de Lis, vaticina o fim de uma relação quando cessam as histórias. “Conta-me uma história”, pedia ela ao apaixonado,enquanto o calor do sonho ameaçava já engolir a noite. É bonito pensar que uma relação também vive de estórias. Como a de Lis com a avó. Recorda-se que, quando era pequena, aquela mulher instruída na quarta classe inventava fábulas para logo as esquecer. O despertador de ponteiros fosforescentes em cima do guarda-vestidos estava tão acordado quanto Lis pedindo um novo enredo antes de acalentar os sonhos. Era uma caixa de histórias a avó de Lis: amores e amizade, lições de moral. Levou-a a lugares onde nunca iria sozinha. Também na Amazónia, em Suruacá, Dona Martinha contou a Lis sobre botos que se transformam em homens seduzindo mulheres, de cobras grandes, de curupiras. É, há qualquer coisa de encantador e transcendental na magia que partilhamos aos outros. De agora em diante, antes que lhe digam o nome, mesmo que seja o homem da mala, Lis vai pedir:“Conta-me histórias daquilo que eu não vivi”. *Crónica publicada da 10 de Maio de 2013, no Semanário Grande Porto, na página Bairro dos Livros, uma iniciativa Culture Print. Esta coluna semanal é revezada com o Jorge Palinhos, o Rui Manuel Amaral e o Rui Lage.

terça-feira, maio 14, 2013

Remember US| By Dalia Abuzeid

Hi everyone. I´ll be working as a documentary researcher and scriptwriter for the documentary "Remember US" by Dalia Abuzeid, in Jerash - a palestinian refugee camp, in Jordan. Please watch this film intro and help us raise awareness, share this campaign and if you may contribute to our attempt to make the Gaza refugee story to spread to the world. Thank you very much!
You can also follow us on Facebook page "Remember US".
http://www.indiegogo.com/projects/remember-us-the-second-step


Remember Us Introduction - Fund raising / English from Dalia Abuzeid on Vimeo.

quinta-feira, maio 09, 2013

"O Palco é um Mundo"

"Caros Espectadores, caros Ouvintes, não estranhem encontrar paixão e sacrifício, cheiro a silêncio, amores que nasceram no teatro e, às vezes, atores e atrizes tímidos. William Shakespeare, o dramaturgo inglês, escreveu que o mundo é um palco, nesta viagem ao centro do mundo do teatro amador o palco será nosso atlas para escrever a vida." Isto e muito mais, logo, depois do noticiário das sete da tarde na TSF, grande reportagem "O Palco é um Mundo" com sonoplastia de Joaquim Dias.

A PEÇA teaser veiculada no noticiário da manhã na rádio TSF e que lança a grande reportagem, pode ser ouvida aqui.
Já sobre a grande reportagem, poderão ouvir diretamente neste LINK na TSF

domingo, maio 05, 2013

Complexo do Brasil

Gilmar aproximou-se ao longo de um tempo. Pacientemente esperou na fila para ter uma assinatura no livro. Enquanto os leitores são poucos e dedicados, consigo e apraz-me personalizar as dedicatórias e as palavras de gratidão para quem dispõe de tempo pessoal e físico para ouvir falar sobre "O Barulho do Tempo", um livro que desvela pedaços da intensidade das minhas vivências, o Amor, a democracia, as ruas do povo, nós soltos, a reinvenção da vida e a importância do tempo de cada um, envelhecer, viver. 

Gilmar veio vestido de sorriso, nos olhos, no rosto, nas mãos. Apertou-me a mão e falou-me com a doce voz de um Português adocicado. 
Eu digo que tenho um complexo de Brasil porque não se desprende. Plasmou-se no meu ADN e insiste, claro, em dobar linhas muito ténues, subtis e evidentes sobre a minha missão como brasileira por afinidade. É que, como percebem, percebo, intuo, concluo, o complexo do Brasil aparece sempre ligado a todos os episódios da minha vida. Ontem, confirmou-se a tese, logo após a sessão de apresentação do meu primeiro livro de poesia e prosa lírica, na livraria do El Corte Ingles, em Gaia. 

Gilmar a voz doce:
-Eu tenho de falar para você de coincidências.
- Ah, você é brasileiro. Eu vivi em São Paulo.
- Eu sei, acabei de ler aqui em seu livro. Eu sou do Estado de São Paulo.
-De onde?
- Ribeirão Preto. Mas o mais engraçado é que eu estava passando com meu amigo - estou de viagem aqui em Portugal - e reparei, por acaso, no cartaz com o título de seu livro e em seu nome e na sessão que estava rolando. Parei e resolvi comprar e pedir a você para assinar. É que minha filha, a quem gostaria que você dedicasse este livro, também se chama Vanessa e é escritora. Tem 5 livros publicados.
-Muito Parabéns. E Obrigada por ter parado.
- Ela é um pouco mais velha que você, tem 36 anos.
- Será um prazer escrever para minha homónima.
- Ela vai ficar muito feliz com a coincidência.
- Eu é que fico. Sabe, é que viver 5 anos no Brasil, numa fase de transformação de vida, dos 25 aos 30 anos, é uma espécie de nacionalidade obrigatória. Eu costumo dizer que a minha outra costela é brasileira.
- 5 anos no Brasil, como jornalista... você era mais brasileira já do que portuguesa. Desejo muito sucesso para você.
 
Deixei o meu e-mail, agradeci com os olhos, o rosto e as mãos. No final ele disse:
- Tenho certeza de que você ganhou uma amiga para a vida. Com certeza ela vai-te contatar.

Em rigor, estou contaminada pela crónico complexo do Brasil. Mas, enfim, eu gosto.

segunda-feira, abril 29, 2013

Na avenida da Liberdade, só os trabalhadores podem vencer a crise


Ah a Liberdade. 25 de Abril 2013


Os dias de purpurina


conto#1 A velha que ouvia passos


Dona Fátima é competente voyeur de tempos antigos. Só alguém como ela, de costas inclinadas à proa da janela, cotovelos fletidos, até serem dor de tanto pousar no parapeito, dá significado ao verbo janelar. As camisolas estão puídas, por isso, soube, fez uns pequenos travesseiros para se debruçar e não gastar as malhas.
Ela janela, sim, todos os dias, a partir das seis da tarde. Só se ausenta, por 15 minutos, contei-os eu durante as minhas investigações, para um jantar fugaz e frugal. Deve sofrer de gases a pobre mulher, que alguém que come em tão pouco tempo deve ingerir mais ar do que comida. Ou então, pondero, estará entregue à ditadura da ingestão de líquidos, pois não tem como pagar uma dentadura conforme que a possa pôr a mastigar. No entanto, atesto, do alto do terceiro andar, não se sente cheiro de flatulência, e posso garantir que rosas é a que cheira a velha Dona Fátima.  Água de rosas.
Ao início quando a vi pela primeira vez, na penumbra da noite, toldada por uma luz esmaecida vaporizada pela iluminação pública, na Praça Carlos Alberto, bem no início da Rua de Cedofeita, senti um gélido arrepio, desses que o mundo fantástico de Mary Shelley consegue sacar. O vulto desta mulher de 60 anos, cabelo grisalho e lambido, a tocar os ombros descaídos e desistidos de se endireitarem, assusta quem ousa levantar a cabeça para cima e perscrutar a janela do prédio branco. Dessa primeira vez, julguei-a um espetro. À segunda vez, como ela permanecesse, percebi-lhe realidade no hábito. As vezes seguintes, estando ela a picar o ponto no seu janelar hábito, só poderia ser verdade que ela existisse. 
O Sérgio que trabalha por baixo, também foi responsável por lhe garantir existência, pois, confirma que, não raras vezes, ela desce às 4 da manhã, enquanto ele arruma as cadeiras da esplanada, para meter conversa e lhe contar anedotas ordinárias, onde ela fala em "casais a fazer salada mista". 
Uma dessas noites de solidão, acometida por ímpetos de sociabilidade notívaga, Dona Fátima confidenciou-lhe que ouve passos no telhado. Talvez gatos, não serão? Ela assegura que não. Diz que no Inverno são mais fortes. São passos seguros, firmes, e fazem ranger madeiras e telhado. Sérgio ouve-a, céptico, convicto de que a velha senhora lá terá os seus próprios demónios na cabeça, como companhia. A idade avançada, também, pode ter destas coisas: companhias que não existem e nos rondam.
Quando trabalhava, Dona Fátima, foi governanta de família abastada na cidade do Porto. Agora, é governanta da própria janela. Diz conhecer todas as pessoas que passam. Tem até preferências. E, embora, não conheça pessoalmente os transeuntes, tem até razões para não gostar desta ou daquele rapariga, deste ou daquele fulano. É a maneira como andam que lhes pauta simpatia ou antipatia.
Num destes dias levei a máquina fotográfica para poder mostrar Dona Fátima aos amigos. Tentei fazê-lo sem que ela se apercebesse. Não foi fácil. O olhar dela, meio vago, meio perdido e controlador não dava tréguas, tal qual aqueles quadros com olhares que parecem dominar todas as direções, pois qualquer que seja o ângulo para o qual dispersemos, lá estão esses olhos incisivos que tudo vêem.
Mas consegui, bem a via no ecrã da máquina. Voltei para casa. Passei a fotografia para o computador e senti um arrepio. A janela da Dona Fátima estava vazia. Nada. A mesma foto que eu vira e confirmara configurar a senhora em campo, no ato fotográfico, estava agora vazia. A janela aberta como sempre, mas vazia, um fundo negro, vago, fantasmagórico. Gelei. Não queria acreditar no nada dessa foto. Todas vazias. Nada. Foi então que comecei a ouvir passos no telhado.

sexta-feira, abril 19, 2013

Crónica Bairro dos Livros/Semanário Grande Porto

Máquina do tempo 

Vanessa Rodrigues


Não usa carros ultrassónicos, nem saltos quânticos, ou sequer transmigrações da alma. É mais simples do que se imagina: a técnica que a Lis usa para viajar no tempo é a do portal alfarrábio. Perscruta sinuosas reentrâncias das estantes e consegue fundir-se de tal forma com os livros que, num ápice, é magnetizada pelos poros livrescos, por onde respiram gerações de palavras. Recentemente desenvolveu outra façanha, que carece, porém, de reconhecimento académico: desaparece no labirinto de estantes em casa dos amigos. Pior: entra-lhes nas prateleiras cerebrais para sumir-se nas obras que eles descobrem. Foi assim que eu, ao abrir o livro “Os antepassados de alguns cinemas no Porto”, de Alves Costa (1975) dei com uma fotografia de Lis vestida de homem, bigode aprumado, paletó, relógio galante e ar dandy, a comprar, num quiosque, moedas secretas para entrada no cinema Passos Manuel. Cinematógrafo esse que, à meia-noite, dispensava as mulheres casadas, mudava de público e transformava-se em music-hall só para homens....vinham as espanholas saracotear-se (...) e algumas meninas muito conhecidas e apreciadas temperar a solidão do forasteiro isolado.”
Bailarinas, charutos, whisky e alguma safadeza. “No primeiro decénio do século XX, o Porto tinha teatro de zarzuela, teatro lírico, teatro de revista, teatro declamado, espectáculo de variedades, concerto musicais, circo e cinematógrafo”.
Como antropóloga diligente tomou notas mentais e chegou mesmo a divertir-se com o fato de ninguém ter dado pelo embuste, que isto de trazer o futuro para tempo passado e de viver o que já foi, através dos livros, pode mudar o curso do tempo. Não é por acaso que, depois de regressar, Lis sentiu um vazio nostálgico: Onde esmoreceram os dias de variedade cultural, a arma fina contra ditaduras liberais?

(Crónica publicada originalmente no Semanário Grande Porto, pág. Bairro dos Livros, a 12 de Abril de 2013. Esta é uma iniciativa Culture Print). O Podcast respetivo seguirá dentro de algumas horas. 


F.A.Q: Onde comprar "O Barulho do Tempo"?

É Primavera, cúmplice de relva fofa, época oficial para cheirar flores, namorar, LER. "O Barulho do Tempo" cabe num bolso, numa mala, numa mão e gosta de ser folheado. Tem cheiros, texturas, densidades, levezas. Para adquirirem o pequeno livro da Van podem fazê-lo através do email da editora: cultureprint@gmail.com ou dirigirem-se à Praça Coronel Pacheco, n.2, no Porto e invadir a Culture Print.
Gostamos de celebrar a vida com um certo lirismo.
"Venda-me os olhos
Guia-me devagarinho
Pode ser com o silêncio
Ou o rasar dos pés no chão
Descalça?
Mais à direita
Está escuro
Mas luz depois da venda"

Excerto do Poema "Vendar-te"


Contos Plausíveis, Carlos Drummond de Andrade

O Rui Manuel Amaral e esta vossa aia soltarão o Carlos Drummond de Andrade e seus "Contos Plausíveis", no Gato Vadio, no dia 27 de Abril, às 17h, Porto. Cruzaremos contos, sentidos, parangolés. A vadiagem nunca foi tão boa, a sacanagem nunca foi tão erudita e a literatura tão boémia, para mim, num sábado à tarde. Venham que haverá doçura nas palavras.





quinta-feira, abril 11, 2013

"O Barulho do Tempo" em movimento


Há cinematógrafo no botequim da Van: o filme que promove o livro "O Barulho do Tempo", com a chancela do Bairro dos Livros, pela editora Culture Print estreou hoje na internet. 

Misto de curta de ficção experimental e booktrailer com o sussurro temporal. Astúcia profissional de Ana Sofia Pereira (realização e produção), o bisturi de Paulo Moura (edição), a beleza do olhar de António Morais (direção de fotografia) e som, voz e textos da suspeita do costume i-van. A ideia original é nossa e estamos viciados. Bela e potente tribo que se juntou! Saravá!

"O Barulho do Tempo" em movimento from vanessa rodrigues on Vimeo.

quarta-feira, abril 10, 2013

Biblioteca Bairro dos Livros para os Utentes do Hospital de Santo António, no Porto!

É uma bela iniciativa da Culture Print e uma causa nobre.
 
 
Ajude-nos a construir a Biblioteca Bairro dos Livros para os Utentes do Hospital de Santo António, no Porto! 
 
Deixe na rede de livrarias aderente os livros que já não usa ou que tem repetidos lá em casa e faça do Bairro dos Livros também um bairro solidário. Uma só obra já faz a diferença para quem está a receber tratamento no Hospital e sabe que encontra num livro uma boa companhia.
A sua doação ajudar-nos-á a criar uma Biblioteca Bairro dos Livros, que será usada pelos utentes do Hospital de Santo António, no Porto, nos espaços do: Hospital de Dia, Consulta Externa e CICA. Numa primeira fase, o projecto começará por disponibilizar livros nos espaços do CICA e Consulta Externa Pediátricos.
Este projecto é apoiado pela Cultureprint, Crl, pela Livraria Lumière e pela Swedwood/ IKEA.

Perguntas e Respostas
 
Que tipo de livros devo doar?
Todo o tipo de livros: Romances, Ficção, Biografias, Contos, Poesia, mas também livros de História e Literatura Infantil ou Banda-desenhada.
Os livreiros responsáveis pela gestão da Biblioteca encarregar-se-ão de fazer chegar cada tipo de livro ao espaço certo, organizando os títulos por área e por público-alvo.

Onde posso entregar os livros que já não uso?
Pode deixar os seus livros nas livrarias do Bairro aderentes à iniciativa: Lumière, In-Libris, Poetria, Papa-Livros, Manuel Ferreira, Loja da U.P., Utopia e Unicepe. Saiba como doar aqui.

Como chegam os livros à Biblioteca?
A Livraria Lumière e a cooperativa cultural Cultureprint são responsáveis pela recolha, uma vez por mês, dos livros doados, que são, posteriormente, entregues no Hospital de Santo António.

Quem pode requisitar um livro da Biblioteca Bairro dos Livros?
Qualquer utente do Hospital de Dia, da Consulta externa e do CICA, no Hospital de Santo António, é livre de requisitar qualquer obra, de acordo com as regras de utilização definidas pela instituição.

Como posso esclarecer questões relativas à doação de livros para a Biblioteca Bairro dos Livros?
Se ainda tiver alguma dúvida, basta contactar-nos através do endereço de email bairrodoslivros@gmail.com ou da página de Facebook do projecto, em www.facebook.com/bairrodoslivros.

quinta-feira, abril 04, 2013

"O Barulho do Tempo", Vanessa Ribeiro Rodrigues (editora Culture Print)




Dia 13 de Abril, sábado, às 21h30, nos jardins do edifício PINC-UPTEC, sede da editora Culture Print, no Porto, Praça Coronel Pacheco, Uma festa, poesia, música e memória para "O Barulho do tempo" (Culture Print), o meu primeiro livro de poesia, que reúne, ainda, algumas fotografias e um áudio-livro para manter a chama acesa. São aforismos, pegadas e caminhadas, o palpitar da terra, o sorriso das gentes, uma profunda vivência dos dias, da passagem de tempo, das texturas que as estações nos deixam, renovando, amadurecendo. Este é um livro feito ao longo de uma feliz caminhada, amando, abraçando e, sobretudo, aprendendo as lições sábias que a vida tem para nos dar. Por vezes a duras penas, com educação pela pedra, telúrica, outras vezes com sol e fotossíntese. Sobretudo fotossíntese. "O Barulho do Tempo" é o fim de um ciclo, começo de outro e tem a chancela "Bairro dos Livros", pela editora Culture Print. O belo design de capa é da Catarina Rocha, a partir de uma foto minha, a curadoria e edição de Minês Castanheira e Isabel Rocha. Neste dia, haverá POESIA com Celeste Pereira (Edita-me) e Flávio Hamilton (ator cabo-verdiano); danças africanas, música portuguesa com Rui David e bossa nova, nova bossa com Tete Chrystine. Vai ser bonita a festa! E desde já o meu grande e sincero Muito Obrigada a todos os meus amigos e familiares que tornaram este momento possível, sobretudo às meninas da Culture Print, Isabel Rocha, Minês Castanheira e Catarina Rocha, que se têm dedicado com carinho e muito profissionalismo e são responsáveis por este desafio de publicar. Sem este incentivo, não tenho a certeza se alguma vez teria tido coragem. Para mais informações seguir por aqui e por aqui