segunda-feira, abril 29, 2013
conto#1 A velha que ouvia passos
Dona Fátima é competente voyeur de tempos antigos. Só alguém como ela, de costas inclinadas à proa da janela, cotovelos fletidos, até serem dor de tanto pousar no parapeito, dá significado ao verbo janelar. As camisolas estão puídas, por isso, soube, fez uns pequenos travesseiros para se debruçar e não gastar as malhas.
Ela janela, sim, todos os dias, a partir das seis da tarde. Só se ausenta, por 15 minutos, contei-os eu durante as minhas investigações, para um jantar fugaz e frugal. Deve sofrer de gases a pobre mulher, que alguém que come em tão pouco tempo deve ingerir mais ar do que comida. Ou então, pondero, estará entregue à ditadura da ingestão de líquidos, pois não tem como pagar uma dentadura conforme que a possa pôr a mastigar. No entanto, atesto, do alto do terceiro andar, não se sente cheiro de flatulência, e posso garantir que rosas é a que cheira a velha Dona Fátima. Água de rosas.
Ao início quando a vi pela primeira vez, na penumbra da noite, toldada por uma luz esmaecida vaporizada pela iluminação pública, na Praça Carlos Alberto, bem no início da Rua de Cedofeita, senti um gélido arrepio, desses que o mundo fantástico de Mary Shelley consegue sacar. O vulto desta mulher de 60 anos, cabelo grisalho e lambido, a tocar os ombros descaídos e desistidos de se endireitarem, assusta quem ousa levantar a cabeça para cima e perscrutar a janela do prédio branco. Dessa primeira vez, julguei-a um espetro. À segunda vez, como ela permanecesse, percebi-lhe realidade no hábito. As vezes seguintes, estando ela a picar o ponto no seu janelar hábito, só poderia ser verdade que ela existisse.
O Sérgio que trabalha por baixo, também foi responsável por lhe garantir existência, pois, confirma que, não raras vezes, ela desce às 4 da manhã, enquanto ele arruma as cadeiras da esplanada, para meter conversa e lhe contar anedotas ordinárias, onde ela fala em "casais a fazer salada mista".
Uma dessas noites de solidão, acometida por ímpetos de sociabilidade notívaga, Dona Fátima confidenciou-lhe que ouve passos no telhado. Talvez gatos, não serão? Ela assegura que não. Diz que no Inverno são mais fortes. São passos seguros, firmes, e fazem ranger madeiras e telhado. Sérgio ouve-a, céptico, convicto de que a velha senhora lá terá os seus próprios demónios na cabeça, como companhia. A idade avançada, também, pode ter destas coisas: companhias que não existem e nos rondam.
Quando trabalhava, Dona Fátima, foi governanta de família abastada na cidade do Porto. Agora, é governanta da própria janela. Diz conhecer todas as pessoas que passam. Tem até preferências. E, embora, não conheça pessoalmente os transeuntes, tem até razões para não gostar desta ou daquele rapariga, deste ou daquele fulano. É a maneira como andam que lhes pauta simpatia ou antipatia.
Num destes dias levei a máquina fotográfica para poder mostrar Dona Fátima aos amigos. Tentei fazê-lo sem que ela se apercebesse. Não foi fácil. O olhar dela, meio vago, meio perdido e controlador não dava tréguas, tal qual aqueles quadros com olhares que parecem dominar todas as direções, pois qualquer que seja o ângulo para o qual dispersemos, lá estão esses olhos incisivos que tudo vêem.
Mas consegui, bem a via no ecrã da máquina. Voltei para casa. Passei a fotografia para o computador e senti um arrepio. A janela da Dona Fátima estava vazia. Nada. A mesma foto que eu vira e confirmara configurar a senhora em campo, no ato fotográfico, estava agora vazia. A janela aberta como sempre, mas vazia, um fundo negro, vago, fantasmagórico. Gelei. Não queria acreditar no nada dessa foto. Todas vazias. Nada. Foi então que comecei a ouvir passos no telhado.
sexta-feira, abril 19, 2013
Crónica Bairro dos Livros/Semanário Grande Porto
Máquina do tempo
(Crónica publicada originalmente no Semanário Grande Porto,
pág. Bairro dos Livros, a 12 de Abril de 2013. Esta é uma iniciativa
Culture Print). O Podcast respetivo seguirá dentro de algumas horas.
Vanessa
Rodrigues
Não
usa carros ultrassónicos, nem saltos quânticos, ou sequer
transmigrações da alma. É mais simples do que se imagina: a
técnica que a Lis usa para viajar no tempo é a do portal
alfarrábio. Perscruta sinuosas reentrâncias das estantes e consegue
fundir-se de tal forma com os livros que, num ápice, é magnetizada
pelos poros livrescos, por onde respiram gerações de palavras.
Recentemente desenvolveu outra façanha, que carece, porém, de
reconhecimento académico: desaparece no labirinto de estantes em
casa dos amigos. Pior: entra-lhes nas prateleiras cerebrais para
sumir-se nas obras que eles descobrem. Foi assim que eu, ao abrir o
livro “Os
antepassados de alguns cinemas no Porto”,
de Alves Costa (1975) dei com uma fotografia de Lis vestida de homem,
bigode aprumado, paletó, relógio galante e ar dandy, a comprar, num
quiosque, moedas secretas para entrada no cinema Passos Manuel.
Cinematógrafo esse que, à meia-noite, dispensava as mulheres
casadas, mudava de público e transformava-se em music-hall só para
homens.
“...vinham
as espanholas saracotear-se (...) e algumas meninas muito conhecidas
e apreciadas temperar a solidão do forasteiro isolado.”
Bailarinas,
charutos, whisky e alguma safadeza. “No
primeiro decénio do século XX, o Porto tinha teatro de zarzuela,
teatro lírico, teatro de revista, teatro declamado, espectáculo de
variedades, concerto musicais, circo e cinematógrafo”.
Como
antropóloga diligente tomou notas mentais e chegou mesmo a
divertir-se com o fato de ninguém ter dado pelo embuste, que isto de
trazer o futuro para tempo passado e de viver o que já foi, através
dos livros, pode mudar o curso do tempo. Não é por acaso que,
depois de regressar, Lis sentiu um vazio nostálgico: Onde
esmoreceram os dias de variedade cultural, a arma fina contra
ditaduras liberais?
F.A.Q: Onde comprar "O Barulho do Tempo"?
É Primavera, cúmplice de relva fofa, época
oficial para cheirar flores, namorar, LER. "O Barulho do Tempo" cabe num
bolso, numa mala, numa mão e gosta de ser folheado. Tem cheiros,
texturas, densidades, levezas. Para adquirirem o pequeno livro
da Van podem fazê-lo através do email da editora:
cultureprint@gmail.com ou dirigirem-se à Praça Coronel Pacheco, n.2, no
Porto e invadir a Culture Print.
Gostamos de celebrar a vida com um certo lirismo.
"Venda-me os olhos
Guia-me devagarinho
Pode ser com o silêncio
Ou o rasar dos pés no chão
Descalça?
Mais à direita
Está escuro
Mas luz depois da venda"
Excerto do Poema "Vendar-te"
Gostamos de celebrar a vida com um certo lirismo.
"Venda-me os olhos
Guia-me devagarinho
Pode ser com o silêncio
Ou o rasar dos pés no chão
Descalça?
Mais à direita
Está escuro
Mas luz depois da venda"
Excerto do Poema "Vendar-te"
Contos Plausíveis, Carlos Drummond de Andrade
O Rui Manuel Amaral e esta vossa aia soltarão o Carlos Drummond de Andrade e seus "Contos Plausíveis", no Gato Vadio, no dia 27 de Abril, às 17h, Porto. Cruzaremos contos, sentidos, parangolés. A vadiagem nunca foi tão boa, a sacanagem nunca foi tão erudita e a literatura tão boémia, para mim, num sábado à tarde. Venham que haverá doçura nas palavras.
quinta-feira, abril 11, 2013
"O Barulho do Tempo" em movimento
Há cinematógrafo no botequim da Van: o filme que promove o livro "O Barulho do Tempo", com a chancela do Bairro dos Livros, pela editora Culture Print estreou hoje na internet.
Misto de curta de ficção experimental e booktrailer com o sussurro temporal. Astúcia profissional de Ana Sofia Pereira (realização e produção), o bisturi de Paulo Moura (edição), a beleza do olhar de António Morais (direção de fotografia) e som, voz e textos da suspeita do costume i-van. A ideia original é nossa e estamos viciados. Bela e potente tribo que se juntou! Saravá!
"O Barulho do Tempo" em movimento from vanessa rodrigues on Vimeo.
quarta-feira, abril 10, 2013
Biblioteca Bairro dos Livros para os Utentes do Hospital de Santo António, no Porto!
É uma bela iniciativa da Culture Print e uma causa nobre.
Ajude-nos a construir a Biblioteca Bairro dos Livros para os Utentes do Hospital de Santo António, no Porto!
Deixe na rede de livrarias aderente os livros que já não usa ou que tem repetidos lá em casa e faça do Bairro dos Livros também um bairro
solidário. Uma só obra já faz a diferença para quem está a receber
tratamento no Hospital e sabe que encontra num livro uma boa companhia.
A
sua doação ajudar-nos-á a criar uma Biblioteca Bairro dos Livros, que
será usada pelos utentes do Hospital de Santo António, no Porto, nos
espaços do: Hospital de Dia, Consulta Externa e CICA. Numa primeira
fase, o projecto começará por disponibilizar livros nos espaços do CICA e
Consulta Externa Pediátricos.
Este projecto é apoiado pela Cultureprint, Crl, pela Livraria Lumière e pela Swedwood/ IKEA.
Perguntas e Respostas
Que tipo de livros devo doar?
Todo
o tipo de livros: Romances, Ficção, Biografias, Contos, Poesia, mas
também livros de História e Literatura Infantil ou Banda-desenhada.
Os
livreiros responsáveis pela gestão da Biblioteca encarregar-se-ão de
fazer chegar cada tipo de livro ao espaço certo, organizando os títulos
por área e por público-alvo.
Onde posso entregar os livros que já não uso?
Pode
deixar os seus livros nas livrarias do Bairro aderentes à iniciativa:
Lumière, In-Libris, Poetria, Papa-Livros, Manuel Ferreira, Loja da U.P.,
Utopia e Unicepe. Saiba como doar aqui.
Como chegam os livros à Biblioteca?
A
Livraria Lumière e a cooperativa cultural Cultureprint são responsáveis
pela recolha, uma vez por mês, dos livros doados, que são,
posteriormente, entregues no Hospital de Santo António.
Quem pode requisitar um livro da Biblioteca Bairro dos Livros?
Qualquer
utente do Hospital de Dia, da Consulta externa e do CICA, no Hospital
de Santo António, é livre de requisitar qualquer obra, de acordo com as
regras de utilização definidas pela instituição.
Como posso esclarecer questões relativas à doação de livros para a Biblioteca Bairro dos Livros?
Se ainda tiver alguma dúvida, basta contactar-nos através do endereço de email bairrodoslivros@gmail.com ou da página de Facebook do projecto, em www.facebook.com/ bairrodoslivros.

quinta-feira, abril 04, 2013
"O Barulho do Tempo", Vanessa Ribeiro Rodrigues (editora Culture Print)
Dia 13 de Abril, sábado, às 21h30, nos jardins do edifício PINC-UPTEC, sede da editora Culture Print, no Porto, Praça Coronel Pacheco, Uma festa, poesia, música e memória para "O Barulho do tempo" (Culture Print), o meu primeiro livro de poesia, que reúne, ainda, algumas fotografias e um áudio-livro para manter a chama acesa. São aforismos, pegadas e caminhadas, o palpitar da terra, o sorriso das gentes, uma profunda vivência dos dias, da passagem de tempo, das texturas que as estações nos deixam, renovando, amadurecendo. Este é um livro feito ao longo de uma feliz caminhada, amando, abraçando e, sobretudo, aprendendo as lições sábias que a vida tem para nos dar. Por vezes a duras penas, com educação pela pedra, telúrica, outras vezes com sol e fotossíntese. Sobretudo fotossíntese.
"O Barulho do Tempo" é o fim de um ciclo, começo de outro e tem a chancela "Bairro dos Livros", pela editora Culture Print. O belo design de capa é da Catarina Rocha, a partir de uma foto minha, a curadoria e edição de Minês Castanheira e Isabel Rocha.
Neste dia, haverá POESIA com Celeste Pereira (Edita-me) e Flávio Hamilton (ator cabo-verdiano); danças africanas, música portuguesa com Rui David e bossa nova, nova bossa com Tete Chrystine. Vai ser bonita a festa!
E desde já o meu grande e sincero Muito Obrigada a todos os meus amigos e familiares que tornaram este momento possível, sobretudo às meninas da Culture Print, Isabel Rocha, Minês Castanheira e Catarina Rocha, que se têm dedicado com carinho e muito profissionalismo e são responsáveis por este desafio de publicar. Sem este incentivo, não tenho a certeza se alguma vez teria tido coragem.
Para mais informações seguir por aqui
e por aqui
quarta-feira, março 27, 2013
Hoje talvez não vá. Só é meia noite na nossa cabeça quando queremos que já seja amanhã. Hoje é um dia bom para deixar que a chuva escorra no nosso rosto. Um delicado fio, que toca diáfano a derme, ternurento. Hoje, por exemplo, enquanto falava contigo ao telefone no meio da rua, nem me apercebi que o céu começara o chuveiro copioso. Uma morrinha que encharca. Uma modorrenta garoa que nos deixa húmidos de natureza. Foi tão bom sentir as gotas a afagar o rosto, e a embrulharem-se nos cabelos. Já há brancos. Teremos de aprender alguma coisa com os dias, com as horas que criamos aqui dentro. E eu até desliguei a música para ouvir que a terra tem um ritmo cardíaco. Há chilreares matutinos, nas árvores ainda um pouco despidas, esguias: parecem raízes do céu.
Afinal, acho que vou. É uma forma de enganar o tempo.
segunda-feira, março 18, 2013
bairro dos livros| Snifar Papel
Balsâmico, madeira, acre, mofo, floral. Acho que o aroma que a Lis mais aprecia na degustação de um livro é vanilina. (Faça você mesmo: agarre um livro e snife-o, sente-o?). O cardápio de fragrâncias literárias poderia continuar, até porque, há um perfume com essência a livro: o Paper Passion, criado pela perfumista Gaza Schoen, a pedido do editor Gehrard Steidl.
Banal para snifadores de páginas, portanto, que evocam invectivas a quem não souber que o aroma livresco se deve à lignina, ou lenhina,
uma substância que as árvores têm semelhante à baunilha. O mesmo pode
acontecer para alguns tipos de papel onde se inventa vários tipos de
literatura: postais, bilhetes, post-its, sebentas, revistas...
Não admira, por isso, que quando Lis folheou e “snifou”, recentemente, alguns números da Hei,
revista cultural portuense dos anos 90 do século XX, editada por Jorge
Rui Martins, lhe viesse à memória a infância: “isto cheira à casa da
minha tia”, confidenciou-me.
O
que ela quis dizer, decifrei depois, é que o olor se assemelhava ao da
caixa de madeira onde a tia guarda literatura epistolar: as cartas, os
telegramas e os aerogramas (foi Fernando Pessoa quem os inventou) que o namorado, hoje marido, lhe enviava de Moçambique. Eram às dezenas.
Nessa altura, a história vinha toda misturada, porque os aerogramas não estavam
numerados. Mil e cem cartas apaixonadas, contou-as Lis, que falam de
emboscadas no meio do amor, de “turras” no meio de minas, tanques,
explosões e mortes.
A
Lis jurou-me, ainda, que, enquanto as lia, sentia o cheiro de cacimbo
no mato africano e de petricor, nome do odor da terra molhada depois da
chuva. Como pode ela sentir o olor de um lugar onde nunca esteve? E
somos nós atraídos pela olência deste ou daquele livro; e dos odores que
nos fazem sentir? Será por isso que recentemente lançaram um e-book
com aromas? Oh, a que cheirarão os livros do futuro?: terá a borracha
essência a baunilha? Ainda haveremos de snifar ecrãs à procura do cheiro
da literatura.
(Crónica publicada no dia 15 de Março no semanário Grande Porto, na página Bairro dos Livros, numa iniciativa que reúne ainda os cronistas Rui Lage, Rui Manuel Amaral e Jorge Palinhos)
(Crónica publicada no dia 15 de Março no semanário Grande Porto, na página Bairro dos Livros, numa iniciativa que reúne ainda os cronistas Rui Lage, Rui Manuel Amaral e Jorge Palinhos)
|Ouça a versão PODCAST:
segunda-feira, março 04, 2013
manif 02 de março, porto
Não se fazem revoluções sem fazer
algum barulho, sem memória, sem consciência política, sem organização
civil, sem conhecimento. Levei o gravador e a máquina fotográfica, para
que os meus também um dia, não esqueçam.
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manif porto,
porto 2 de março
sexta-feira, março 01, 2013
*[.a tinta fina.|três] a escritora dos silêncios
entrevista
Azar Nafisi. "As pessoas em condições extremas [como exílio ou prisão] criam espaços e regressam às histórias, porque nelas há esperança"
Ouvir o PODCAST nesta caixa abaixo, incorporada do SoundCloud. Clicar no PLAY cor de laranja.
vanessa rodrigues|jornalista
Tornar a história de vida, as opressões e o exílio como fio condutor das histórias dos seus livros é uma forma não só de lidar com a dor, mas também de ganhar controlo sobre o próprio percurso existencial. Não admira, por isso, que esta mulher de voz suave, pausada e até frágil quando o assunto é direitos humanos, que o Irão, sua terra natal, lhe cause "muita dor", mas também lhe dê "muita esperança". Ela acredita que o país que a "expulsou" ainda "há-de ser uma voz importante de democracia para o mundo".
De olhos ternos, compadecidos e conciliadores, a escritora iraniana Azar Nafisi, que foi expulsa da Universidade de Teerão por se ter recusado a usar o véu islâmico, é uma feminista e começou por escrever sobre os silêncios que lhe nasciam por dentro.
Aos 13 anos foi estudar para Londres e, quando voltou, aos 17 anos, percebeu que o país que tinha deixado mudara, num retrocesso democrático. Foi-lhe imposta uma nação com a qual não se identificava, que a esmagava "como mulher, professora, como ser humano".
A premiada autora do livro "Reading Lolita in Teharan", atualmente a viver nos EUA e diretora do "Dialogue Project" dá voz aos silêncios que lhe correm nas veias, nesta conversa informal em que cita o poeta iraniano Hafez, em que fala sobre literatura, exílio, cultura persa e opressão política, numa esplanada de hotel em Paraty, pequena vila brasileira, onde acontece anualmente a Festa Literária Internacional de Paraty.
"Não conheço outra forma melhor de nos relacionarmos com o mundo do que escrever; nós escritores somos um pouco exilados; tenho o meu mundo portátil; e escrever é como apaixonarmo-nos".
*a tinta fina é uma rubrica quinzenal (entrevistas com escritores) da autoria da jornalista Vanessa Rodrigues, no blogue pessoal Crónica Luna Samba, por amor à literatura. As entrevistas podem ser exclusivas do blogue ou já ter sido publicadas na imprensa. A próxima será publicada a 15 de Março
sexta-feira, fevereiro 22, 2013
diário das coisas da vida
A imortalidade é algo que nos passa pela cabeça, sobretudo, quando somos muito novos, quando o tempo parece infinito, quando parece que sobram ponteiros de horas a passar sobre nós. Temos tempo para desejar que as férias grandes cheguem, temos tempo para o computador, as brincadeiras de rua, para contemplar as borbulhas a crescer, os mamilos a ganharem forma; a anca a arredondar, a bunda tornear. Temos tempo para escrever bilhetinhos nas aulas, dar risinhos bobos e gozar com os "setôres". Temos ainda tempo de passar pela idade parva.
Temos tempo para perceber que algo estranho começa a acontecer no corpo. Que este formigueiro, esta fome de corpo é o desejo que começa a acender uma chama eruptiva. Temos tempo para discordar dos pais, tempo para ver televisão, para aprender a amar, para preparar o primeiro beijo. Não nos passa nunca pela cabeça que nunca possamos não ter tempo. E, mesmo sabendo, que a vida é apenas uma breve passagem, haveremos, achamos, de ter sempre, sempre, um tempo infinito como se fôssemos imortais.
Depois, como agora, apercebemo-nos que o mais importante, pois, é não perdermos tempo. Não queremos ouvir determinadas conversas, aturar gente chata e vampírica, conversas fúteis. Aprendemos que importa não deixarmos que os outros nos tirem a energia vital, os sorrisos, o optimismo, a força, a vontade de viver; que não nos roubem o que de mais precioso temos: essa grandeza física tão primordial e valiosa.
Tão breve quanto aprendermos o mais importante no curso das nossas vidas para vivermos, dia-a-dia, conforme a natureza de nós, pertinho do que somos, dessa essência primordial que éramos quando tínhamos tempo, melhor. Líricos, sonhadores, aventureiros, com paixão de vida e mundo. Essa visão sem vícios e constrangimentos pode e deve ser, apercebo-me, o guia essencial para nunca perdermos tempo, na medida em que nos relembra o que somos. Apercebo-me, então, de coisas tão basilares e importantes como:
1. Dizermos às pessoas da nossa vida que elas são as pessoas mais importantes; que amamos, gostamos, que vemos além delas a generosidade, que acreditamos nelas, que as respeitamos;
2. Não perdemos mais tempo com projetos dos outros do que passamos com os nossos próprios projetos;
3. Nunca fazer o trabalho dos outros: no final eles sempre brilham e nunca vão admitir que não foram eles a fazer o trabalho;
4. Não deixarmos nenhum nó na garganta, nada por dizer, com frontalidade, mesmo que isso doa mutuamente e, às vezes, mais a nós. Mas o peso de não se dizer multiplica-se no futuro e deixa despojos pesados;
5. Não deixar de desejar e fazer algo, mesmo que alguém nos diga que é impossível. Essa impossibilidade tentada torna-nos mais próximos da concretização;
6. A vida é demasiado curta para não ser apreciada e passada com lamúrias e discursos auto-comiserativos;
7. Ficar longe das pessoas que não nos fazem bem é a melhor opção;
8. Ficar perto das pessoas que nos amam como somos e das pessoas que nos inspiram é o melhor elixir para a felicidade;
9. Um cafuné, um colo, um beijo ou um abraço sentido das pessoas que nos amam é dos melhores calmantes para os problemas;
10. Estar mais tempo, semanalmente, com a família, ouvindo memórias, e amigos é crucial;
11. Ter tempo para cuidar de nós, do que gostamos de fazer é primordial;
12. O trabalho não vai cuidar de ti quando estiveres doente, mas a família e os amigos sim;
13. Não comprar coisas de que não precisamos;
14. Chorar com alguém é mais reconfortante do que chorar sozinho;
15. Ter vergonha é uma perda de tempo;
16. Não nos compararmos a ninguém. Os caminhos só fazem sentido se diferentes e não fazemos ideia do que como será a viagem. Muitas vezes uma ruptura ou infelicidade é a espoleta para algo muito melhor;
17. Aceitar o que não podemos mudar e investir energia no que podemos mudar;
18. Não podemos mudar o mundo, mas pequenas acções de generosidade e mudança de atitude têm efeito borboleta;
19. Fazer as pazes com o passado para que não comprometa o futuro;
20. Fúria, raiva, inveja e irascibilidades envelhecem e fazem mal à saúde;
21. Preservar a natureza;
22. Trabalhos manuais têm um efeito equilibrante incrível em nós;
23. Tudo pode mudar de repente, nada é permanente, por isso é preciso ter paciência, preservar, sem desespero, para nos concentrarmos nas soluções e não nos problemas;
24. Praticar desporto e meditação são dois melhores amigos do nosso corpo e mente;
25. Livrarmo-nos de tudo que é inútil na nossa vida;
26. O que realmente não nos mata, torna-nos, sem dúvida, mais fortes;
27. Quando as coisas parecem sem solução e os momentos são difíceis, aceitar o momento mas fortalecer-nos ainda mais, com coisas que gostamos de fazer, perto das pessoas que nos amam, instruirmo-nos, conhecer. No final estaremos mais fortes;
28. No que toca em ir atrás do que amamos na vida, não aceitar não como resposta;
29. Todos os dias são especiais: usar aquele perfume que gostamos, a roupa favorita, os lençóis, o prato favorito, aquele vinho...
30. O mais importante órgão sexual é o cérebro;
31. Ninguém é responsável pela nossa felicidade a não ser nós próprios;
32. Parar e refletir: o que designamos por mau neste momento vai ter alguma importância daqui a 5 anos?
33. Perdoar é importante;
34. O que as outras pessoas pensam sobre mim não me diz respeito;
35. Por mais que uma situação seja boa ou má ela é impermanente. Tudo muda.
36. Fazer o melhor da vida aqui e agora;
37. Fazer uma lista diária de tarefas e prioridades;
38. Sair um pouco todos os dias. A vida é um acontecimento e algo pode sempre mudar.
39. A inveja é uma perda de tempo: aceitar o que temos, não o que achamos que precisamos.
40. Gritar numa praia deserta, numa montanha, num vale tem efeitos sedativos;
41. Estar perto da natureza todos os dias é estar perto de nós próprios.
42. Nunca prescindir dos nosso direitos;
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
bairro dos livros# A caçadora de histórias
texto e foto|vanessa rodrigues
Vocês já devem ter visto a Lis por aí.
Não há viela, fins de rua, travessas e fechaduras portuenses que não conheça.
Expedita,
gosta de meter conversa, de observar. De ver as rugas das casas, a
derme das gírias, de ouvir a cidade a palpitar. Às vezes acho que tem um
kit especial de ouvir cidades. Medidores secretos, sensíveis à luz, aos sussurros, aos segredos. Vê, sente, ouve o que nunca conseguiríamos. Ouve-lhe … os humores, sente-a.... respirar.
Quando
a conheci falou-me da paixão por máquinas de escrever, essas que o
senhor Álvaro Altino recupera e leva à feira da Praça Carlos Alberto.
Este cirurgião do bisturi dos datilógrafos diz
que não há máquina que perca a vida. Metáfora intemporal: dá um certo
conforto saber que perdemos e ganhamos dias, mas que com ele as letras,
património de línguas e dialetos, têm sempre um futuro para contar. Como
a poesia. Esse lirismo que está nos homens, em nós. Os nós que nos
agarram ao Amor pelas palavras.
Lis
é verbo ser. Senta-se muito em cafés, escrevinhando futuros romances e
poesia; folheando prosas. Gosta de Primaveras para ler nos Jardins do
Palácio de Cristal. Ouve poemas em vinil. É uma balzaquiana de telemóvel
da moda para fazer fotografias vintage, tomar notas e, também (leiam baixinho) registar
os sons da cidade: as gaivotas, os sinos das igrejas a dobrar, o
cauteleiro, os passos a caminhar na calçada portuguesa. E as dobradiças a
ranger. É que a Lis não se contém: sobe escadas e elevadores de prédios
antigos. Anatomia curiosa. Se um dia for apanhada...
Caçadora
incorrigível, anda sempre pelo bairro à caça de histórias das gentes
inquilinas, farejando literaturas invisíveis. A última vez que a vi
fotografava do alto da Torre dos Clérigos os telhados da Vitória.
Disse-me que estava com pressa, que já não tinha tempo, que o fim da
prosa estava iminente. Garantiu
que voltaria. Não sou eu que a encontro. É ela que me encontra a mim.
Por isso, acho, vocês vão ver muitas vezes Lis por aí, alquimista de
carateres.
*Esta crónica foi publicada dia 6 de Fevereiro, no semanário Grande Porto, numa página exclusiva do projeto "Bairro dos Livros". As crónicas são alternadas entre Rui Manuel Amaral, Rui Laje, Vanessa Rodrigues e Jorge Palinhos. A próxima será do Palinhos, esta sexta-feira, 22. Ouça ainda a versão PODCAST.
sábado, fevereiro 16, 2013
A caçadora de histórias
"A caçadora de histórias" já está em versão PODCAST. Crónica publicada, ontem, no Semanário Grande Porto, na página especial Bairro dos Livros, iniciativa Culture Print. Palavras sonorizadas, vozes de rua, metálicas, quentes, de ecos pelas vielas, palavras escritas a éter, marcadas pelo ranger das portas. Ouçam ou download:
sexta-feira, fevereiro 15, 2013
*[.a tinta fina.|dois] O andaluz da revolução de abril
entrevista
Manuel Moya. "É ridículo que não possamos investigar no nosso próprio sótão; que não possamos ir por baixo dos nossos cadáveres"
Ouvir o PODCAST nesta caixa abaixo, incorporada do SoundCloud. Clicar no PLAY cor de laranja.
vanessa rodrigues|jornalista
O cabelo desgrenhado denuncia que o escritor andaluz Manuel Moya é um eremita. Os óculos caem-lhe, constantemente, para a frente, como se quisessem adiantar-se na resposta. Tem semblante de filósofo distraído, estereótipo dos observadores diletantes, mas tem raciocínio cirúrgico, humilde, irrepreensível. Tem mãos de quem agarra a terra quando agarra o livro "Cinzas de Abril" (Sextante Editora, 2012) que lhe peço para ler a meio desta entrevista, gravada enquanto decorria as Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim, Portugal, o ano passado. Está tão atual como há 20 anos.
O escritor que acha que o “O 25 de Abril foi a data de
falecimento da ditadura em Espanha” tinha 14 anos quando o fascismo caiu em Portugal. Afirma que Fuenteheridos, Huelva, de onde é natural e ainda reside, como Espanha aprenderam a ver "a luz" a partir de Portugal.
Este narrador, poeta, crítico literário, editor e tradutor publicou mais de uma dezena de livros de poesia. É um aclamado escritor. "Cinzas de Abril" foi apenas a espoleta para a conversa exclusiva que se segue em podcast, deixando escorrer política e literatura pela voz lúcida do homem que "humanizou" llídio, o inspector da PIDE, personagem dessa prosa.
"Os livros nascem já com uma lógica
interna que se impõe a ti. Não é uma vontade nossa, os livros têm
vontade própria. A própria inércia de vida dos
personagens levaram-me a escrever coisas que eu próprio não pensava
que iria escrever."
*a tinta fina é uma rubrica quinzenal (entrevistas com escritores) da autoria da jornalista Vanessa Rodrigues, no blogue pessoal Crónica Luna Samba, por amor à literatura. As entrevistas podem ser exclusivas do blogue ou já ter sido publicadas na imprensa. A próxima será publicada a 1 de Março
*a tinta fina é uma rubrica quinzenal (entrevistas com escritores) da autoria da jornalista Vanessa Rodrigues, no blogue pessoal Crónica Luna Samba, por amor à literatura. As entrevistas podem ser exclusivas do blogue ou já ter sido publicadas na imprensa. A próxima será publicada a 1 de Março
terça-feira, fevereiro 12, 2013
Granta portuguesa
"É uma revista literária, mas parece um livro". Esta foi a resposta que o jornalista Simon Garfield do jornal The Guardian deu a um funcionário de um alfarrabista, no Reino Unido, enquanto procurava por velhas edições da publicação britânica. "Como a Granta conquistou o mundo", é o título do artigo que fala de uma das revistas mais populares do género. A par da norte-americana New Yorker, a Granta é uma senhora revista, conhecida por ser casa de grandes escritores. Fundada no século XIX e, depois, resgatada no final da década de 70 do século XX por estudantes, esta revista iniciou um processo de internacionalização em 2009, com edições em chinês, espanhol, búlgaro, norueguês e sueco. O ano passado dedicou uma edição especial a jovens escritores brasileiros. Em Portugal, Maio é o mês de a vermos nas bancas pelo crivo do jornalista e editor Carlos Vaz Marques. Por agora, para os entusiastas, a revista traz uma promoção até Março com 30% de desconto na assinatura
e oferta do livro "Sob Céus Estranhos" de Daniel Blaufuks.
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domingo, fevereiro 10, 2013
a pintura dos sonhos
prova de con.tacto [1]
texto|vanessa rodrigues fotografia|antónio morais
Uma
vez vi um homem de guarda-chuva a descer aquela rampa. Era noite,
chovia e a neblina que bafeja a fria penumbra de Inverno entranhava-se
nos ossos da câmara fotográfica, tua amante. Com ela suspensa ao ombro,
como sempre, detiveste-me. E eu congelei a imagem na minha mente -
enquanto tu congelavas a tua, erguendo a máquina, sustendo a respiração para disparar: o grão que a neblina faz, o baço da
humidade chuvosa a esfumar o amarelo da iluminação de rua, bafejada a vapor sódio, os prédios
carregados de cinzento, tempo denso e a silhueta negra do homem que
descia a viela.
Posso imaginar-me a retirar das gavetas neurológicas a
memória desse frame congelado. Uma imagem revelada a química mental, sem
ardor e sensação física de olhá-la num ecrã, ou na mão.
Agora
que a lembro parece um sonho remoto, ou uma pintura. (Os sonhos, às
vezes, parecem pinturas). Dessas com desenhos e sombras esbatidas a
esfuminho. Belas.
Vejo a viela da Alegria, porque se cruza com a rua com
esse nome, e cujo nome não o sei. Pediste-me que a subisse e descesse.
Que abrisse o guarda-chuva e, naquele ângulo certo, imortalizaste a
viela em mim. Um frame cinematográfico que desfia outros tempos. O homem
foi apenas a inspiração. A mulher que olha e se detém é um espelho de
tempo repetido. Talvez o que vimos não fosse um homem, porque as cores do real logo cederam à textura dos negros. Transformaram-se. Alquimia dos frames. Adormeci ou acordei? Conta-nos o segredo: como consegues caçar a pintura dos sonhos?
*prova de contacto é uma rubrica exclusiva do blogue crónica luna samba de vanessa rodrigues (textos) e antónio morais (fotografia).
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