Dia 13 de Abril, sábado, às 21h30, nos jardins do edifício PINC-UPTEC, sede da editora Culture Print, no Porto, Praça Coronel Pacheco, Uma festa, poesia, música e memória para "O Barulho do tempo" (Culture Print), o meu primeiro livro de poesia, que reúne, ainda, algumas fotografias e um áudio-livro para manter a chama acesa. São aforismos, pegadas e caminhadas, o palpitar da terra, o sorriso das gentes, uma profunda vivência dos dias, da passagem de tempo, das texturas que as estações nos deixam, renovando, amadurecendo. Este é um livro feito ao longo de uma feliz caminhada, amando, abraçando e, sobretudo, aprendendo as lições sábias que a vida tem para nos dar. Por vezes a duras penas, com educação pela pedra, telúrica, outras vezes com sol e fotossíntese. Sobretudo fotossíntese.
"O Barulho do Tempo" é o fim de um ciclo, começo de outro e tem a chancela "Bairro dos Livros", pela editora Culture Print. O belo design de capa é da Catarina Rocha, a partir de uma foto minha, a curadoria e edição de Minês Castanheira e Isabel Rocha.
Neste dia, haverá POESIA com Celeste Pereira (Edita-me) e Flávio Hamilton (ator cabo-verdiano); danças africanas, música portuguesa com Rui David e bossa nova, nova bossa com Tete Chrystine. Vai ser bonita a festa!
E desde já o meu grande e sincero Muito Obrigada a todos os meus amigos e familiares que tornaram este momento possível, sobretudo às meninas da Culture Print, Isabel Rocha, Minês Castanheira e Catarina Rocha, que se têm dedicado com carinho e muito profissionalismo e são responsáveis por este desafio de publicar. Sem este incentivo, não tenho a certeza se alguma vez teria tido coragem.
Para mais informações seguir por aqui
e por aqui
quinta-feira, abril 04, 2013
quarta-feira, março 27, 2013
Hoje talvez não vá. Só é meia noite na nossa cabeça quando queremos que já seja amanhã. Hoje é um dia bom para deixar que a chuva escorra no nosso rosto. Um delicado fio, que toca diáfano a derme, ternurento. Hoje, por exemplo, enquanto falava contigo ao telefone no meio da rua, nem me apercebi que o céu começara o chuveiro copioso. Uma morrinha que encharca. Uma modorrenta garoa que nos deixa húmidos de natureza. Foi tão bom sentir as gotas a afagar o rosto, e a embrulharem-se nos cabelos. Já há brancos. Teremos de aprender alguma coisa com os dias, com as horas que criamos aqui dentro. E eu até desliguei a música para ouvir que a terra tem um ritmo cardíaco. Há chilreares matutinos, nas árvores ainda um pouco despidas, esguias: parecem raízes do céu.
Afinal, acho que vou. É uma forma de enganar o tempo.
segunda-feira, março 18, 2013
bairro dos livros| Snifar Papel
Balsâmico, madeira, acre, mofo, floral. Acho que o aroma que a Lis mais aprecia na degustação de um livro é vanilina. (Faça você mesmo: agarre um livro e snife-o, sente-o?). O cardápio de fragrâncias literárias poderia continuar, até porque, há um perfume com essência a livro: o Paper Passion, criado pela perfumista Gaza Schoen, a pedido do editor Gehrard Steidl.
Banal para snifadores de páginas, portanto, que evocam invectivas a quem não souber que o aroma livresco se deve à lignina, ou lenhina,
uma substância que as árvores têm semelhante à baunilha. O mesmo pode
acontecer para alguns tipos de papel onde se inventa vários tipos de
literatura: postais, bilhetes, post-its, sebentas, revistas...
Não admira, por isso, que quando Lis folheou e “snifou”, recentemente, alguns números da Hei,
revista cultural portuense dos anos 90 do século XX, editada por Jorge
Rui Martins, lhe viesse à memória a infância: “isto cheira à casa da
minha tia”, confidenciou-me.
O
que ela quis dizer, decifrei depois, é que o olor se assemelhava ao da
caixa de madeira onde a tia guarda literatura epistolar: as cartas, os
telegramas e os aerogramas (foi Fernando Pessoa quem os inventou) que o namorado, hoje marido, lhe enviava de Moçambique. Eram às dezenas.
Nessa altura, a história vinha toda misturada, porque os aerogramas não estavam
numerados. Mil e cem cartas apaixonadas, contou-as Lis, que falam de
emboscadas no meio do amor, de “turras” no meio de minas, tanques,
explosões e mortes.
A
Lis jurou-me, ainda, que, enquanto as lia, sentia o cheiro de cacimbo
no mato africano e de petricor, nome do odor da terra molhada depois da
chuva. Como pode ela sentir o olor de um lugar onde nunca esteve? E
somos nós atraídos pela olência deste ou daquele livro; e dos odores que
nos fazem sentir? Será por isso que recentemente lançaram um e-book
com aromas? Oh, a que cheirarão os livros do futuro?: terá a borracha
essência a baunilha? Ainda haveremos de snifar ecrãs à procura do cheiro
da literatura.
(Crónica publicada no dia 15 de Março no semanário Grande Porto, na página Bairro dos Livros, numa iniciativa que reúne ainda os cronistas Rui Lage, Rui Manuel Amaral e Jorge Palinhos)
(Crónica publicada no dia 15 de Março no semanário Grande Porto, na página Bairro dos Livros, numa iniciativa que reúne ainda os cronistas Rui Lage, Rui Manuel Amaral e Jorge Palinhos)
|Ouça a versão PODCAST:
segunda-feira, março 04, 2013
manif 02 de março, porto
Não se fazem revoluções sem fazer
algum barulho, sem memória, sem consciência política, sem organização
civil, sem conhecimento. Levei o gravador e a máquina fotográfica, para
que os meus também um dia, não esqueçam.
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sexta-feira, março 01, 2013
*[.a tinta fina.|três] a escritora dos silêncios
entrevista
Azar Nafisi. "As pessoas em condições extremas [como exílio ou prisão] criam espaços e regressam às histórias, porque nelas há esperança"
Ouvir o PODCAST nesta caixa abaixo, incorporada do SoundCloud. Clicar no PLAY cor de laranja.
vanessa rodrigues|jornalista
Tornar a história de vida, as opressões e o exílio como fio condutor das histórias dos seus livros é uma forma não só de lidar com a dor, mas também de ganhar controlo sobre o próprio percurso existencial. Não admira, por isso, que esta mulher de voz suave, pausada e até frágil quando o assunto é direitos humanos, que o Irão, sua terra natal, lhe cause "muita dor", mas também lhe dê "muita esperança". Ela acredita que o país que a "expulsou" ainda "há-de ser uma voz importante de democracia para o mundo".
De olhos ternos, compadecidos e conciliadores, a escritora iraniana Azar Nafisi, que foi expulsa da Universidade de Teerão por se ter recusado a usar o véu islâmico, é uma feminista e começou por escrever sobre os silêncios que lhe nasciam por dentro.
Aos 13 anos foi estudar para Londres e, quando voltou, aos 17 anos, percebeu que o país que tinha deixado mudara, num retrocesso democrático. Foi-lhe imposta uma nação com a qual não se identificava, que a esmagava "como mulher, professora, como ser humano".
A premiada autora do livro "Reading Lolita in Teharan", atualmente a viver nos EUA e diretora do "Dialogue Project" dá voz aos silêncios que lhe correm nas veias, nesta conversa informal em que cita o poeta iraniano Hafez, em que fala sobre literatura, exílio, cultura persa e opressão política, numa esplanada de hotel em Paraty, pequena vila brasileira, onde acontece anualmente a Festa Literária Internacional de Paraty.
"Não conheço outra forma melhor de nos relacionarmos com o mundo do que escrever; nós escritores somos um pouco exilados; tenho o meu mundo portátil; e escrever é como apaixonarmo-nos".
*a tinta fina é uma rubrica quinzenal (entrevistas com escritores) da autoria da jornalista Vanessa Rodrigues, no blogue pessoal Crónica Luna Samba, por amor à literatura. As entrevistas podem ser exclusivas do blogue ou já ter sido publicadas na imprensa. A próxima será publicada a 15 de Março
sexta-feira, fevereiro 22, 2013
diário das coisas da vida
A imortalidade é algo que nos passa pela cabeça, sobretudo, quando somos muito novos, quando o tempo parece infinito, quando parece que sobram ponteiros de horas a passar sobre nós. Temos tempo para desejar que as férias grandes cheguem, temos tempo para o computador, as brincadeiras de rua, para contemplar as borbulhas a crescer, os mamilos a ganharem forma; a anca a arredondar, a bunda tornear. Temos tempo para escrever bilhetinhos nas aulas, dar risinhos bobos e gozar com os "setôres". Temos ainda tempo de passar pela idade parva.
Temos tempo para perceber que algo estranho começa a acontecer no corpo. Que este formigueiro, esta fome de corpo é o desejo que começa a acender uma chama eruptiva. Temos tempo para discordar dos pais, tempo para ver televisão, para aprender a amar, para preparar o primeiro beijo. Não nos passa nunca pela cabeça que nunca possamos não ter tempo. E, mesmo sabendo, que a vida é apenas uma breve passagem, haveremos, achamos, de ter sempre, sempre, um tempo infinito como se fôssemos imortais.
Depois, como agora, apercebemo-nos que o mais importante, pois, é não perdermos tempo. Não queremos ouvir determinadas conversas, aturar gente chata e vampírica, conversas fúteis. Aprendemos que importa não deixarmos que os outros nos tirem a energia vital, os sorrisos, o optimismo, a força, a vontade de viver; que não nos roubem o que de mais precioso temos: essa grandeza física tão primordial e valiosa.
Tão breve quanto aprendermos o mais importante no curso das nossas vidas para vivermos, dia-a-dia, conforme a natureza de nós, pertinho do que somos, dessa essência primordial que éramos quando tínhamos tempo, melhor. Líricos, sonhadores, aventureiros, com paixão de vida e mundo. Essa visão sem vícios e constrangimentos pode e deve ser, apercebo-me, o guia essencial para nunca perdermos tempo, na medida em que nos relembra o que somos. Apercebo-me, então, de coisas tão basilares e importantes como:
1. Dizermos às pessoas da nossa vida que elas são as pessoas mais importantes; que amamos, gostamos, que vemos além delas a generosidade, que acreditamos nelas, que as respeitamos;
2. Não perdemos mais tempo com projetos dos outros do que passamos com os nossos próprios projetos;
3. Nunca fazer o trabalho dos outros: no final eles sempre brilham e nunca vão admitir que não foram eles a fazer o trabalho;
4. Não deixarmos nenhum nó na garganta, nada por dizer, com frontalidade, mesmo que isso doa mutuamente e, às vezes, mais a nós. Mas o peso de não se dizer multiplica-se no futuro e deixa despojos pesados;
5. Não deixar de desejar e fazer algo, mesmo que alguém nos diga que é impossível. Essa impossibilidade tentada torna-nos mais próximos da concretização;
6. A vida é demasiado curta para não ser apreciada e passada com lamúrias e discursos auto-comiserativos;
7. Ficar longe das pessoas que não nos fazem bem é a melhor opção;
8. Ficar perto das pessoas que nos amam como somos e das pessoas que nos inspiram é o melhor elixir para a felicidade;
9. Um cafuné, um colo, um beijo ou um abraço sentido das pessoas que nos amam é dos melhores calmantes para os problemas;
10. Estar mais tempo, semanalmente, com a família, ouvindo memórias, e amigos é crucial;
11. Ter tempo para cuidar de nós, do que gostamos de fazer é primordial;
12. O trabalho não vai cuidar de ti quando estiveres doente, mas a família e os amigos sim;
13. Não comprar coisas de que não precisamos;
14. Chorar com alguém é mais reconfortante do que chorar sozinho;
15. Ter vergonha é uma perda de tempo;
16. Não nos compararmos a ninguém. Os caminhos só fazem sentido se diferentes e não fazemos ideia do que como será a viagem. Muitas vezes uma ruptura ou infelicidade é a espoleta para algo muito melhor;
17. Aceitar o que não podemos mudar e investir energia no que podemos mudar;
18. Não podemos mudar o mundo, mas pequenas acções de generosidade e mudança de atitude têm efeito borboleta;
19. Fazer as pazes com o passado para que não comprometa o futuro;
20. Fúria, raiva, inveja e irascibilidades envelhecem e fazem mal à saúde;
21. Preservar a natureza;
22. Trabalhos manuais têm um efeito equilibrante incrível em nós;
23. Tudo pode mudar de repente, nada é permanente, por isso é preciso ter paciência, preservar, sem desespero, para nos concentrarmos nas soluções e não nos problemas;
24. Praticar desporto e meditação são dois melhores amigos do nosso corpo e mente;
25. Livrarmo-nos de tudo que é inútil na nossa vida;
26. O que realmente não nos mata, torna-nos, sem dúvida, mais fortes;
27. Quando as coisas parecem sem solução e os momentos são difíceis, aceitar o momento mas fortalecer-nos ainda mais, com coisas que gostamos de fazer, perto das pessoas que nos amam, instruirmo-nos, conhecer. No final estaremos mais fortes;
28. No que toca em ir atrás do que amamos na vida, não aceitar não como resposta;
29. Todos os dias são especiais: usar aquele perfume que gostamos, a roupa favorita, os lençóis, o prato favorito, aquele vinho...
30. O mais importante órgão sexual é o cérebro;
31. Ninguém é responsável pela nossa felicidade a não ser nós próprios;
32. Parar e refletir: o que designamos por mau neste momento vai ter alguma importância daqui a 5 anos?
33. Perdoar é importante;
34. O que as outras pessoas pensam sobre mim não me diz respeito;
35. Por mais que uma situação seja boa ou má ela é impermanente. Tudo muda.
36. Fazer o melhor da vida aqui e agora;
37. Fazer uma lista diária de tarefas e prioridades;
38. Sair um pouco todos os dias. A vida é um acontecimento e algo pode sempre mudar.
39. A inveja é uma perda de tempo: aceitar o que temos, não o que achamos que precisamos.
40. Gritar numa praia deserta, numa montanha, num vale tem efeitos sedativos;
41. Estar perto da natureza todos os dias é estar perto de nós próprios.
42. Nunca prescindir dos nosso direitos;
quinta-feira, fevereiro 21, 2013
bairro dos livros# A caçadora de histórias
texto e foto|vanessa rodrigues
Vocês já devem ter visto a Lis por aí.
Não há viela, fins de rua, travessas e fechaduras portuenses que não conheça.
Expedita,
gosta de meter conversa, de observar. De ver as rugas das casas, a
derme das gírias, de ouvir a cidade a palpitar. Às vezes acho que tem um
kit especial de ouvir cidades. Medidores secretos, sensíveis à luz, aos sussurros, aos segredos. Vê, sente, ouve o que nunca conseguiríamos. Ouve-lhe … os humores, sente-a.... respirar.
Quando
a conheci falou-me da paixão por máquinas de escrever, essas que o
senhor Álvaro Altino recupera e leva à feira da Praça Carlos Alberto.
Este cirurgião do bisturi dos datilógrafos diz
que não há máquina que perca a vida. Metáfora intemporal: dá um certo
conforto saber que perdemos e ganhamos dias, mas que com ele as letras,
património de línguas e dialetos, têm sempre um futuro para contar. Como
a poesia. Esse lirismo que está nos homens, em nós. Os nós que nos
agarram ao Amor pelas palavras.
Lis
é verbo ser. Senta-se muito em cafés, escrevinhando futuros romances e
poesia; folheando prosas. Gosta de Primaveras para ler nos Jardins do
Palácio de Cristal. Ouve poemas em vinil. É uma balzaquiana de telemóvel
da moda para fazer fotografias vintage, tomar notas e, também (leiam baixinho) registar
os sons da cidade: as gaivotas, os sinos das igrejas a dobrar, o
cauteleiro, os passos a caminhar na calçada portuguesa. E as dobradiças a
ranger. É que a Lis não se contém: sobe escadas e elevadores de prédios
antigos. Anatomia curiosa. Se um dia for apanhada...
Caçadora
incorrigível, anda sempre pelo bairro à caça de histórias das gentes
inquilinas, farejando literaturas invisíveis. A última vez que a vi
fotografava do alto da Torre dos Clérigos os telhados da Vitória.
Disse-me que estava com pressa, que já não tinha tempo, que o fim da
prosa estava iminente. Garantiu
que voltaria. Não sou eu que a encontro. É ela que me encontra a mim.
Por isso, acho, vocês vão ver muitas vezes Lis por aí, alquimista de
carateres.
*Esta crónica foi publicada dia 6 de Fevereiro, no semanário Grande Porto, numa página exclusiva do projeto "Bairro dos Livros". As crónicas são alternadas entre Rui Manuel Amaral, Rui Laje, Vanessa Rodrigues e Jorge Palinhos. A próxima será do Palinhos, esta sexta-feira, 22. Ouça ainda a versão PODCAST.
sábado, fevereiro 16, 2013
A caçadora de histórias
"A caçadora de histórias" já está em versão PODCAST. Crónica publicada, ontem, no Semanário Grande Porto, na página especial Bairro dos Livros, iniciativa Culture Print. Palavras sonorizadas, vozes de rua, metálicas, quentes, de ecos pelas vielas, palavras escritas a éter, marcadas pelo ranger das portas. Ouçam ou download:
sexta-feira, fevereiro 15, 2013
*[.a tinta fina.|dois] O andaluz da revolução de abril
entrevista
Manuel Moya. "É ridículo que não possamos investigar no nosso próprio sótão; que não possamos ir por baixo dos nossos cadáveres"
Ouvir o PODCAST nesta caixa abaixo, incorporada do SoundCloud. Clicar no PLAY cor de laranja.
vanessa rodrigues|jornalista
O cabelo desgrenhado denuncia que o escritor andaluz Manuel Moya é um eremita. Os óculos caem-lhe, constantemente, para a frente, como se quisessem adiantar-se na resposta. Tem semblante de filósofo distraído, estereótipo dos observadores diletantes, mas tem raciocínio cirúrgico, humilde, irrepreensível. Tem mãos de quem agarra a terra quando agarra o livro "Cinzas de Abril" (Sextante Editora, 2012) que lhe peço para ler a meio desta entrevista, gravada enquanto decorria as Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim, Portugal, o ano passado. Está tão atual como há 20 anos.
O escritor que acha que o “O 25 de Abril foi a data de
falecimento da ditadura em Espanha” tinha 14 anos quando o fascismo caiu em Portugal. Afirma que Fuenteheridos, Huelva, de onde é natural e ainda reside, como Espanha aprenderam a ver "a luz" a partir de Portugal.
Este narrador, poeta, crítico literário, editor e tradutor publicou mais de uma dezena de livros de poesia. É um aclamado escritor. "Cinzas de Abril" foi apenas a espoleta para a conversa exclusiva que se segue em podcast, deixando escorrer política e literatura pela voz lúcida do homem que "humanizou" llídio, o inspector da PIDE, personagem dessa prosa.
"Os livros nascem já com uma lógica
interna que se impõe a ti. Não é uma vontade nossa, os livros têm
vontade própria. A própria inércia de vida dos
personagens levaram-me a escrever coisas que eu próprio não pensava
que iria escrever."
*a tinta fina é uma rubrica quinzenal (entrevistas com escritores) da autoria da jornalista Vanessa Rodrigues, no blogue pessoal Crónica Luna Samba, por amor à literatura. As entrevistas podem ser exclusivas do blogue ou já ter sido publicadas na imprensa. A próxima será publicada a 1 de Março
*a tinta fina é uma rubrica quinzenal (entrevistas com escritores) da autoria da jornalista Vanessa Rodrigues, no blogue pessoal Crónica Luna Samba, por amor à literatura. As entrevistas podem ser exclusivas do blogue ou já ter sido publicadas na imprensa. A próxima será publicada a 1 de Março
terça-feira, fevereiro 12, 2013
Granta portuguesa
"É uma revista literária, mas parece um livro". Esta foi a resposta que o jornalista Simon Garfield do jornal The Guardian deu a um funcionário de um alfarrabista, no Reino Unido, enquanto procurava por velhas edições da publicação britânica. "Como a Granta conquistou o mundo", é o título do artigo que fala de uma das revistas mais populares do género. A par da norte-americana New Yorker, a Granta é uma senhora revista, conhecida por ser casa de grandes escritores. Fundada no século XIX e, depois, resgatada no final da década de 70 do século XX por estudantes, esta revista iniciou um processo de internacionalização em 2009, com edições em chinês, espanhol, búlgaro, norueguês e sueco. O ano passado dedicou uma edição especial a jovens escritores brasileiros. Em Portugal, Maio é o mês de a vermos nas bancas pelo crivo do jornalista e editor Carlos Vaz Marques. Por agora, para os entusiastas, a revista traz uma promoção até Março com 30% de desconto na assinatura
e oferta do livro "Sob Céus Estranhos" de Daniel Blaufuks.
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domingo, fevereiro 10, 2013
a pintura dos sonhos
prova de con.tacto [1]
texto|vanessa rodrigues fotografia|antónio morais
Uma
vez vi um homem de guarda-chuva a descer aquela rampa. Era noite,
chovia e a neblina que bafeja a fria penumbra de Inverno entranhava-se
nos ossos da câmara fotográfica, tua amante. Com ela suspensa ao ombro,
como sempre, detiveste-me. E eu congelei a imagem na minha mente -
enquanto tu congelavas a tua, erguendo a máquina, sustendo a respiração para disparar: o grão que a neblina faz, o baço da
humidade chuvosa a esfumar o amarelo da iluminação de rua, bafejada a vapor sódio, os prédios
carregados de cinzento, tempo denso e a silhueta negra do homem que
descia a viela.
Posso imaginar-me a retirar das gavetas neurológicas a
memória desse frame congelado. Uma imagem revelada a química mental, sem
ardor e sensação física de olhá-la num ecrã, ou na mão.
Agora
que a lembro parece um sonho remoto, ou uma pintura. (Os sonhos, às
vezes, parecem pinturas). Dessas com desenhos e sombras esbatidas a
esfuminho. Belas.
Vejo a viela da Alegria, porque se cruza com a rua com
esse nome, e cujo nome não o sei. Pediste-me que a subisse e descesse.
Que abrisse o guarda-chuva e, naquele ângulo certo, imortalizaste a
viela em mim. Um frame cinematográfico que desfia outros tempos. O homem
foi apenas a inspiração. A mulher que olha e se detém é um espelho de
tempo repetido. Talvez o que vimos não fosse um homem, porque as cores do real logo cederam à textura dos negros. Transformaram-se. Alquimia dos frames. Adormeci ou acordei? Conta-nos o segredo: como consegues caçar a pintura dos sonhos?
*prova de contacto é uma rubrica exclusiva do blogue crónica luna samba de vanessa rodrigues (textos) e antónio morais (fotografia).
terça-feira, fevereiro 05, 2013
Padre António Vieira, a vida por inteiro
Primeiro será necessário espaço, improvisando novas prateleiras em casa. Depois, alguma destreza física para carregar os 30 volumes que o Círculo de Leitores começa a lançar, em Abril, naquela que é já considerada a coleção mais completa da obra do Padre António Vieira. São Cartas, sermões, profecias, política, teatro, alguns ainda "textos inéditos", conforme anuncia a editora, na véspera do nascimento de Vieira.
A compilação é um trabalho conjunto dos historiadores José Eduardo Franco e Pedro Calafate, envolvendo ainda uma equipa de investigadores de Portugal e do Brasil, com o apoio da Santa Casa da Misericórdia.
De acordo com a editora, esta compilação é "um regresso às fontes manuscritas e impressas, com recurso a diversos arquivos pelo mundo em busca de documentos nunca publicados – como é o caso de A Chave dos Profetas".
O Padre António Vieira foi um dos mais importantes e influentes pensadores do século XVII e, provavelmente, a sua prosa mais propalada é o Sermão aos Peixes. "Paiaçu", como lhe chamavam os índios com quem conviveu enquanto viveu no Brasil como missionário, deixou-nos como legado não apenas a raiz da sua teologia e pensamento político, como também prova de Humanista, como defensor dos direitos indígenas.
Um Porto por dia [.#7]
Como entrasse num lugar privado, como quem espreita as fechaduras, prevaricadora, palpitou-lhe o coração, badalando vergonha, medo e adrenalina. Se alguém lhe perguntasse o que ali fazia, responderia: "Ah, o escritório de advogados é aqui, neste andar?".
Da série: "O Porto escondido", nesta cidade invisível.
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segunda-feira, fevereiro 04, 2013
sábado, fevereiro 02, 2013
Cinema Marginal Brasileiro, Porto
Cada vez mais me apercebo, ao galgar vielas, bairros e escadas do Porto que há culturas escondidas e que a cidade, realmente, tem várias camadas de pele, invisíveis. De alguma forma, o Facebook veio, também dinamizar a cultura deste burgo, tornando-o mais alargado, alternativo e quiçá, cosmopolita.
Depois de o Laurent me te dar dado a conhecer a Associação Milímetro, que muitas vezes brinda a sala do Cinema Passos Manuel com boas películas, a Raquel mostra-me agora que o Auditório Grupo Musical de Gaia, de 8 a 11 de Fevereiro, vai passar duas sessões por dia de Cinema Marginal Brasileiro (ver cartaz em baixo).
Numa altura em que várias salas de cinema fecham no país, é ainda mais urgente e importante as mostras alternativas, num retorno, evidente, à cultura marginal, mas também à resistência ideológica de uma certa imposição homogéna da cultura de massas, fortalecida pelos canais de televisão, que nos empurra para um certo comodismo social. Há, portanto, boas razões para sair de casa.
sexta-feira, fevereiro 01, 2013
*[.a tinta fina.|um] O poeta do espanto
Entrevista
Ferreira Gullar. "O acordo ortográfico é uma perda de tempo"
por Vanessa Rodrigues, no Rio de Janeiro,Publicado em 12 de Agosto de 2010 no jornal i
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| Foto de Walter Craveiro/FLIP |
O prémio Camões deste ano falou ao i no rescaldo da FLIP sobre letras, Brasil e poesia. No próximo mês publica "Alguma Parte Alguma"
Seguir o raciocínio do poeta Ferreira Gullar, de 80 anos, é um
exercício simultâneo de pensamento-linguagem-pensamento. Tem o discurso
marcado pelas perguntas retóricas e troca, recorrentemente, o sentido
das palavras numa voz pausada e carregada pelo chiado da típica
sonoridade carioca. Tal como fez com o título do seu novo livro na
última Festa Literária Internacional de Paraty: "Parte alguma significa
em nenhum lugar; alguma parte significa algum lugar." O público ficou
baralhado.
Este pensador da língua fala gesticulando as mãos, enquanto os alvos cabelos médios descaem para a frente e para trás, acompanhando o movimento do corpo esguio. É vivaz como um adolescente e de palavras sempre afiadas para a resposta.
Na última FLIP disse que "a arte existe porque a vida não basta". Qual é a função dela na sua?
Nós inventamo-nos e inventamos a nossa própria vida. Somos seres culturais, então a função da arte é ajudar a inventar a vida e contribuir para a criação desse mundo fictício, desse mundo imaginário que é o nosso mundo. Vivemos na cidade que nós inventámos e construímos. A poesia é parte disso. Quando digo que a arte existe porque a vida não basta é porque nós queremos sempre mais. O ser humano está sempre inventando e reinventado a sua própria vida, os valores. Isso mostra que a vida pode ser mudada. Como os valores que nos suportam são por nós criados, eles também podem ser transformados. Abre a perspectiva de que a sociedade pode mudar. E essa é a visão que um artista tem dentro da sua função de criar uma mentira, como diz o Picasso. Uma mentira que é mais verdadeira do que a verdade.
Se inventasse alguma coisa, o que inventaria?
Eu não sou de inventar muitas coisas. O que eu faço mesmo é a minha poesia e isso é uma coisa que não depende de mim inteiramente. O poema não pode ser feito por decisão minha. Eu digo que a minha poesia nasce do espanto, de alguma coisa que me tira do equilíbrio do quotidiano. Se isso não ocorre, o poema não nasce. Se pudesse, escreveria poesia dia e noite, mas isso não é possível. As pessoas também sonhariam viver o amor a vida inteira, apaixonados, mas tudo são maravilhas que não acontecem como a gente quer. E a poesia também, o sonho a cada momento. Tomara eu estar naquele estado para escrever um novo poema, mas nunca sei qual é, porque é uma coisa que surge inesperadamente.
Qual é a importância que o tempo tem na sua vida?
Na minha poesia essa questão do tempo é frequentemente colocada. Eu sou bastante impressionado com essa relação tempo-espaço, o passar do tempo e a mudança qualitativa do próprio tempo. Nisso eu adopto um pouco a visão científica. O tempo como uma relação tempo- -espaço é, ao mesmo tempo, o passar, é o movimento da matéria. É o apodrecimento da pêra que é o tempo. E o tempo na pêra é uma coisa, o tempo em mim é outra coisa, o tempo do avião que voa é outra coisa, então há muitos tempos num só tempo. Aliás, no meu "Poema Sujo" eu toco nesse assunto ao dizer que a cidade tem muitas velocidades e ela é mais lenta num mel que se verte num copo e mais rápida no voar do pássaro que cruza a janela. O tempo é muitas coisas. Em cada coisa um tempo diferente. A cidade tem muitos núcleos, tem velocidades diferentes. Nós temos um tempo subjectivo também, temos também um tempo externo, que é o nosso caminhar pela rua, e dentro de nós está-se passando outra coisa, que pode ser a memória, que pode ser um outro poema que está nascendo. É uma coisa de enorme complexidade.
Que legado percebe que já deixou para a língua portuguesa?
De uma maneira ou de outra, os poetas, como são artesãos das palavras e reinventores da linguagem, lidam com a língua de uma maneira muito especial. Cada poeta tem, pelo menos, um dialecto e eles contribuem, de algum modo, para o enriquecimento da língua. Eles criam formas inesperadas de dizer as coisas. Sou um poeta que lida especialmente com essa questão da linguagem. Cheguei até a violentá-la de uma maneira tal. Acredito e é possível que a minha poesia tenha alguma influência sobre a língua que nós brasileiros usamos. Nem sei se na língua portuguesa em geral.
E o acordo ortográfico contribui para enriquecê-la?
Eu acho que o Brasil e Portugal, com os outros países de língua portuguesa, têm de parar com essa coisa de ficar mudando as regras ortográficas. Eu acho que é uma coisa que não ajuda em nada. É uma perda de tempo. Cria confusão, inclusive dá prejuízos. Já imaginou o que vai acontecer? Colecções de livros vão ter que ser jogadas fora e reimpressas, para obedecer a uma nova ortografia porque uma ou duas pessoas resolveram mudar a maneira de escrever a língua. Isso é uma arbitrariedade. Quem é que outorgou a essas pessoas o direito de fazer isso? A língua é património do país, da população, não é propriedade de ninguém. Não pode haver uma entidade que decide mudar a língua de todo o mundo. Isso é um absurdo. É uma coisa precária, que cria confusões, porque é impossível você encontrar uma forma de colocar todos os países de língua portuguesa em que não se crie ambiguidade nenhuma. É um sonho vão. A ortografia tem de ser uma representação da linguagem falada. Então é uma bobagem. Uma perda de tempo.
E que Brasil é este hoje?
O Brasil está atravessando um momento crucial. A América Latina, de maneira geral, está vivendo uma experiência que pode ter como consequência grave um renascimento do populismo. Num momento em que, no mundo, o socialismo real acabou e a visão socialista deixou de ser a grande utopia, de repente, aqui na América Latina surge um pseudo-socialismo que, na verdade, muda a relação que havia entre o socialismo que era um conflito entre a classe operária e a burguesia. Agora é entre pobres e ricos. E isso resulta na criação de governos populistas que, na verdade, enganam a opinião pública e que cerceiam as liberdades. E uma das tendências é reduzir ao máximo a liberdade de opinião, como se está vendo na Venezuela. Aqui no Brasil não aconteceu, pelo menos por enquanto, mas houve tentativas de controlo da opinião pública, de criar conselhos de imprensa sobre controlo do governo. O Lula sonhou em fazer, mas não consegue porque o Brasil é um país muito mais complexo e muito mais avançado. Mas não se sabe o que vai acontecer se a Dilma [Rousseff] for eleita, porque eles já se estão apropriando de muitos sectores.
Por exemplo.
A Petrobrás é uma empresa do povo brasileiro e virou propriedade dele. Agora mesmo, na FLIP, pelo facto de terem chamado o Fernando Henrique Cardoso para fazer uma palestra retiraram o patrocínio. Só se patrocina se a FLIP não aceitar figuras que sejam adversários do governo? Estamos onde, na ditadura? Aliás a ditadura sobre esse aspecto é muito mais tolerante do que o governo Lula. Todo o mundo que se opõe a ele vira inimigo. Agora, usar o dinheiro público da Petrobrás para fazer política é uma coisa ameaçadora. Eu tenho pavor que a Dilma ganhe essa eleição porque ela é uma invenção do Lula. Ela não é política, não entende de nada; é simplesmente uma marioneta que Lula quer eleger valendo-se da sua popularidade, que vem do populismo, que vem de fazer bolsa-família: de dar dinheiro público para 40 milhões de brasileiros, pobres, então isso é uma coisa muito grave, é um retrocesso muito grande. Eu vejo com muita preocupação o que está acontecendo aqui.
Este pensador da língua fala gesticulando as mãos, enquanto os alvos cabelos médios descaem para a frente e para trás, acompanhando o movimento do corpo esguio. É vivaz como um adolescente e de palavras sempre afiadas para a resposta.
Na última FLIP disse que "a arte existe porque a vida não basta". Qual é a função dela na sua?
Nós inventamo-nos e inventamos a nossa própria vida. Somos seres culturais, então a função da arte é ajudar a inventar a vida e contribuir para a criação desse mundo fictício, desse mundo imaginário que é o nosso mundo. Vivemos na cidade que nós inventámos e construímos. A poesia é parte disso. Quando digo que a arte existe porque a vida não basta é porque nós queremos sempre mais. O ser humano está sempre inventando e reinventado a sua própria vida, os valores. Isso mostra que a vida pode ser mudada. Como os valores que nos suportam são por nós criados, eles também podem ser transformados. Abre a perspectiva de que a sociedade pode mudar. E essa é a visão que um artista tem dentro da sua função de criar uma mentira, como diz o Picasso. Uma mentira que é mais verdadeira do que a verdade.
Se inventasse alguma coisa, o que inventaria?
Eu não sou de inventar muitas coisas. O que eu faço mesmo é a minha poesia e isso é uma coisa que não depende de mim inteiramente. O poema não pode ser feito por decisão minha. Eu digo que a minha poesia nasce do espanto, de alguma coisa que me tira do equilíbrio do quotidiano. Se isso não ocorre, o poema não nasce. Se pudesse, escreveria poesia dia e noite, mas isso não é possível. As pessoas também sonhariam viver o amor a vida inteira, apaixonados, mas tudo são maravilhas que não acontecem como a gente quer. E a poesia também, o sonho a cada momento. Tomara eu estar naquele estado para escrever um novo poema, mas nunca sei qual é, porque é uma coisa que surge inesperadamente.
Qual é a importância que o tempo tem na sua vida?
Na minha poesia essa questão do tempo é frequentemente colocada. Eu sou bastante impressionado com essa relação tempo-espaço, o passar do tempo e a mudança qualitativa do próprio tempo. Nisso eu adopto um pouco a visão científica. O tempo como uma relação tempo- -espaço é, ao mesmo tempo, o passar, é o movimento da matéria. É o apodrecimento da pêra que é o tempo. E o tempo na pêra é uma coisa, o tempo em mim é outra coisa, o tempo do avião que voa é outra coisa, então há muitos tempos num só tempo. Aliás, no meu "Poema Sujo" eu toco nesse assunto ao dizer que a cidade tem muitas velocidades e ela é mais lenta num mel que se verte num copo e mais rápida no voar do pássaro que cruza a janela. O tempo é muitas coisas. Em cada coisa um tempo diferente. A cidade tem muitos núcleos, tem velocidades diferentes. Nós temos um tempo subjectivo também, temos também um tempo externo, que é o nosso caminhar pela rua, e dentro de nós está-se passando outra coisa, que pode ser a memória, que pode ser um outro poema que está nascendo. É uma coisa de enorme complexidade.
Que legado percebe que já deixou para a língua portuguesa?
De uma maneira ou de outra, os poetas, como são artesãos das palavras e reinventores da linguagem, lidam com a língua de uma maneira muito especial. Cada poeta tem, pelo menos, um dialecto e eles contribuem, de algum modo, para o enriquecimento da língua. Eles criam formas inesperadas de dizer as coisas. Sou um poeta que lida especialmente com essa questão da linguagem. Cheguei até a violentá-la de uma maneira tal. Acredito e é possível que a minha poesia tenha alguma influência sobre a língua que nós brasileiros usamos. Nem sei se na língua portuguesa em geral.
E o acordo ortográfico contribui para enriquecê-la?
Eu acho que o Brasil e Portugal, com os outros países de língua portuguesa, têm de parar com essa coisa de ficar mudando as regras ortográficas. Eu acho que é uma coisa que não ajuda em nada. É uma perda de tempo. Cria confusão, inclusive dá prejuízos. Já imaginou o que vai acontecer? Colecções de livros vão ter que ser jogadas fora e reimpressas, para obedecer a uma nova ortografia porque uma ou duas pessoas resolveram mudar a maneira de escrever a língua. Isso é uma arbitrariedade. Quem é que outorgou a essas pessoas o direito de fazer isso? A língua é património do país, da população, não é propriedade de ninguém. Não pode haver uma entidade que decide mudar a língua de todo o mundo. Isso é um absurdo. É uma coisa precária, que cria confusões, porque é impossível você encontrar uma forma de colocar todos os países de língua portuguesa em que não se crie ambiguidade nenhuma. É um sonho vão. A ortografia tem de ser uma representação da linguagem falada. Então é uma bobagem. Uma perda de tempo.
E que Brasil é este hoje?
O Brasil está atravessando um momento crucial. A América Latina, de maneira geral, está vivendo uma experiência que pode ter como consequência grave um renascimento do populismo. Num momento em que, no mundo, o socialismo real acabou e a visão socialista deixou de ser a grande utopia, de repente, aqui na América Latina surge um pseudo-socialismo que, na verdade, muda a relação que havia entre o socialismo que era um conflito entre a classe operária e a burguesia. Agora é entre pobres e ricos. E isso resulta na criação de governos populistas que, na verdade, enganam a opinião pública e que cerceiam as liberdades. E uma das tendências é reduzir ao máximo a liberdade de opinião, como se está vendo na Venezuela. Aqui no Brasil não aconteceu, pelo menos por enquanto, mas houve tentativas de controlo da opinião pública, de criar conselhos de imprensa sobre controlo do governo. O Lula sonhou em fazer, mas não consegue porque o Brasil é um país muito mais complexo e muito mais avançado. Mas não se sabe o que vai acontecer se a Dilma [Rousseff] for eleita, porque eles já se estão apropriando de muitos sectores.
Por exemplo.
A Petrobrás é uma empresa do povo brasileiro e virou propriedade dele. Agora mesmo, na FLIP, pelo facto de terem chamado o Fernando Henrique Cardoso para fazer uma palestra retiraram o patrocínio. Só se patrocina se a FLIP não aceitar figuras que sejam adversários do governo? Estamos onde, na ditadura? Aliás a ditadura sobre esse aspecto é muito mais tolerante do que o governo Lula. Todo o mundo que se opõe a ele vira inimigo. Agora, usar o dinheiro público da Petrobrás para fazer política é uma coisa ameaçadora. Eu tenho pavor que a Dilma ganhe essa eleição porque ela é uma invenção do Lula. Ela não é política, não entende de nada; é simplesmente uma marioneta que Lula quer eleger valendo-se da sua popularidade, que vem do populismo, que vem de fazer bolsa-família: de dar dinheiro público para 40 milhões de brasileiros, pobres, então isso é uma coisa muito grave, é um retrocesso muito grande. Eu vejo com muita preocupação o que está acontecendo aqui.
*a tinta fina é uma rubrica quinzenal (entrevistas com escritores) da autoria da jornalista Vanessa Rodrigues, no blogue pessoal Crónica Luna Samba, por amor à literatura. As entrevistas podem ser exclusivas do blogue ou já ter sido publicadas na imprensa. A próxima será publicada a 15 de Fevereiro
Domingos sem Deus
O último volume do "Inferno Provisóro", "Domingos Sem Deus", do escritor brasileiro Luiz Ruffato foi o vencedor do Prêmio Casa de Las Américas, de Cuba. Ao mesmo tempo o cantor, compositor e escritor Chico Buarque foi distinguido na categoria narrativa.
Sobre o escritor mineiro, o júri realçou que a distinção é devida porque "apresenta diversos episódios independentes
que se entrelaçam, formando o mosaico de um Brasil essencial, embora
esquecido".
Ler mais aqui
quinta-feira, janeiro 31, 2013
A casa que respira
Há um episódio particularmente desconcertante, sempre que passo por aquela vivenda, perto de casa dos meus pais. Vou a pé, diletante pela paisagem, baralhada pelos pensamentos, olhando as reentrâncias do solo, como envelhecem os campos ao redor, como os gatos se deleitam, escondidos atrás dos muros caídos, aspirantes a ruínas.
Tudo isto em segundos fugazes, como areia nas mãos a escorrer, até que, interrompida por um arrepio me detenho. Estarreço olhando para a casa, que parece respirar por tubos, aflita. Vejo vegetação a sair pelos canos e pelas telhas, como se natureza, pintalgando a obra humana de zelos naturais, decidisse crescer jardins em tectos e cimentos, num claro sinal de revolta expondo território invadido.
É um som grave, bufado, enfermo, como se ouvíssemos um ser a lutar pela vida, entubado - já o escrevi-, deixando escapar laivos de oxigénio conquistado. É um ruído compassado. "SSSffffff".
Todos os dias, o mesmo acontece. E eu arrepio-me porque não é som agradável de se ouvir. Arrepio-me enquanto percebo que as casas também respiram. São seres orgânicos que nos acolhem, ouvem, afagam sem reclamar, além das rugas que vão ganhando, sobretudo se não as regenerarmos, mantermos. Apercebo-me, pois, que aquela casa, provavelmente, abandonada, cinzenta, cabisbaixa, se pôs amarga e triste, como muitos dos prédios abandonados por aí, e demasiado neste centro histórico do Porto. É, as casas também respiram e, como nós, precisam de oxigénio para contar histórias.
quarta-feira, janeiro 30, 2013
Pepetela relançado no Brasil
A editora Leya vai relançar, no Brasil, os livros "Mayombe" e "A geração da utopia" do escritor angolano Pepetela. Ao que parece, esses dois romances do prémio Camões em 1997 estavam esgotados "há anos".
Escritor nascido em 1941, Pepetela imprime nas suas obras o bafo quente e fervilhante das transformações de Angola: desde a libertação "à construção de um novo país sob as marcas da guerra e do colonialismo".
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