quinta-feira, fevereiro 21, 2013

bairro dos livros# A caçadora de histórias


 texto e foto|vanessa rodrigues

Vocês já devem ter visto a Lis por aí.

Não há viela, fins de rua, travessas e fechaduras portuenses que não conheça.

Expedita, gosta de meter conversa, de observar. De ver as rugas das casas, a derme das gírias, de ouvir a cidade a palpitar. Às vezes acho que tem um kit especial de ouvir cidades. Medidores secretos, sensíveis à luz, aos sussurros, aos segredos. Vê, sente, ouve o que nunca conseguiríamos. Ouve-lhe … os humores, sente-a.... respirar.

Quando a conheci falou-me da paixão por máquinas de escrever, essas que o senhor Álvaro Altino recupera e leva à feira da Praça Carlos Alberto.

Este cirurgião do bisturi dos datilógrafos diz que não há máquina que perca a vida. Metáfora intemporal: dá um certo conforto saber que perdemos e ganhamos dias, mas que com ele as letras, património de línguas e dialetos, têm sempre um futuro para contar. Como a poesia. Esse lirismo que está nos homens, em nós. Os nós que nos agarram ao Amor pelas palavras.

Lis é verbo ser. Senta-se muito em cafés, escrevinhando futuros romances e poesia; folheando prosas. Gosta de Primaveras para ler nos Jardins do Palácio de Cristal. Ouve poemas em vinil. É uma balzaquiana de telemóvel da moda para fazer fotografias vintage, tomar notas e, também (leiam baixinho) registar os sons da cidade: as gaivotas, os sinos das igrejas a dobrar, o cauteleiro, os passos a caminhar na calçada portuguesa. E as dobradiças a ranger. É que a Lis não se contém: sobe escadas e elevadores de prédios antigos. Anatomia curiosa. Se um dia for apanhada...
Caçadora incorrigível, anda sempre pelo bairro à caça de histórias das gentes inquilinas, farejando literaturas invisíveis. A última vez que a vi fotografava do alto da Torre dos Clérigos os telhados da Vitória. Disse-me que estava com pressa, que já não tinha tempo, que o fim da prosa estava iminente. Garantiu que voltaria. Não sou eu que a encontro. É ela que me encontra a mim. Por isso, acho, vocês vão ver muitas vezes Lis por aí, alquimista de carateres.


*Esta crónica foi publicada dia 6 de Fevereiro, no semanário Grande Porto, numa página exclusiva do projeto "Bairro dos Livros". As crónicas são alternadas entre Rui Manuel Amaral, Rui Laje, Vanessa Rodrigues e Jorge Palinhos. A próxima será do Palinhos, esta sexta-feira, 22. Ouça ainda a versão PODCAST.

sábado, fevereiro 16, 2013

A caçadora de histórias

"A caçadora de histórias" já está em versão PODCAST. Crónica publicada, ontem, no Semanário Grande Porto, na página especial Bairro dos Livros, iniciativa Culture Print. Palavras sonorizadas, vozes de rua, metálicas, quentes, de ecos pelas vielas, palavras escritas a éter, marcadas pelo ranger das portas. Ouçam ou download:
 

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

*[.a tinta fina.|dois] O andaluz da revolução de abril

entrevista

Manuel Moya. "É ridículo que não possamos investigar no nosso próprio sótão; que não possamos ir por baixo dos nossos cadáveres" 

Ouvir o PODCAST nesta caixa abaixo, incorporada do SoundCloud. Clicar no PLAY cor de laranja.

 

vanessa rodrigues|jornalista

 

O cabelo desgrenhado denuncia que o escritor andaluz Manuel Moya é um eremita. Os óculos caem-lhe, constantemente, para a frente, como se quisessem adiantar-se na resposta. Tem semblante de filósofo distraído, estereótipo dos observadores diletantes, mas tem raciocínio cirúrgico, humilde, irrepreensível. Tem mãos de quem agarra a terra quando agarra o livro "Cinzas de Abril" (Sextante Editora, 2012) que lhe peço para ler a meio desta entrevista, gravada enquanto decorria as Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim, Portugal, o ano passado. Está tão atual como há 20 anos.
O escritor  que acha que o “O 25 de Abril foi a data de falecimento da ditadura em Espanha” tinha 14 anos quando o fascismo caiu em Portugal. Afirma que Fuenteheridos, Huelva, de onde é natural e ainda reside, como Espanha aprenderam a ver "a luz" a partir de Portugal. 

Este narrador, poeta, crítico literário, editor e tradutor publicou mais de uma dezena de livros de poesia. É um aclamado escritor. "Cinzas de Abril" foi apenas a espoleta para a conversa exclusiva que se segue em podcast, deixando escorrer política e literatura pela voz lúcida do homem que "humanizou" llídio, o inspector da PIDE, personagem dessa prosa. 

"Os livros nascem já com uma lógica interna que se impõe a ti. Não é uma vontade nossa, os livros têm vontade própria. A própria inércia de vida dos personagens levaram-me a escrever coisas que eu próprio não pensava que iria escrever." 

*a tinta fina é uma rubrica quinzenal (entrevistas com escritores) da autoria da jornalista Vanessa Rodrigues, no blogue pessoal Crónica Luna Samba, por amor à literatura. As entrevistas podem ser exclusivas do blogue ou já ter sido publicadas na imprensa. A próxima será publicada a 1 de Março


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terça-feira, fevereiro 12, 2013

Granta portuguesa



"É uma revista literária, mas parece um livro". Esta foi a resposta que o jornalista Simon Garfield do jornal The Guardian deu a um funcionário de um alfarrabista, no Reino Unido, enquanto procurava por velhas edições da publicação britânica. "Como a Granta conquistou o mundo", é o título do artigo que fala de uma das revistas mais populares do género. A par da norte-americana New Yorker, a Granta é uma senhora revista, conhecida por ser casa de grandes escritores. Fundada no século XIX e, depois, resgatada no final da década de 70 do século XX por estudantes, esta revista iniciou um processo de internacionalização em 2009, com edições em chinês, espanhol, búlgaro, norueguês e sueco. O ano passado dedicou uma edição especial a jovens escritores brasileiros. Em Portugal, Maio é o mês de a vermos nas bancas pelo crivo do jornalista e editor Carlos Vaz Marques. Por agora, para os entusiastas, a revista traz uma promoção até Março com 30% de desconto na assinatura
e oferta do livro "Sob Céus Estranhos" de Daniel Blaufuks. 



domingo, fevereiro 10, 2013

a pintura dos sonhos

prova de con.tacto [1]

texto|vanessa rodrigues fotografia|antónio morais


Uma vez vi um homem de guarda-chuva a descer aquela rampa. Era noite, chovia e a neblina que bafeja a fria penumbra de Inverno entranhava-se nos ossos da câmara fotográfica, tua amante. Com ela suspensa ao ombro, como sempre, detiveste-me. E eu congelei a imagem na minha mente - enquanto tu congelavas a tua, erguendo a máquina, sustendo a respiração para disparar: o grão que a neblina faz, o baço da humidade chuvosa a esfumar o amarelo da iluminação de rua, bafejada a vapor sódio, os prédios carregados de cinzento, tempo denso e a silhueta negra do homem que descia a viela. 

Posso imaginar-me a retirar das gavetas neurológicas a memória desse frame congelado. Uma imagem revelada a química mental, sem ardor e sensação física de olhá-la num ecrã, ou na mão.
Agora que a lembro parece um sonho remoto, ou uma pintura. (Os sonhos, às vezes, parecem pinturas). Dessas com desenhos e sombras esbatidas a esfuminho. Belas. 

Vejo a viela da Alegria, porque se cruza com a rua com esse nome, e cujo nome não o sei. Pediste-me que a subisse e descesse. Que abrisse o guarda-chuva e, naquele ângulo certo, imortalizaste a viela em mim. Um frame cinematográfico que desfia outros tempos. O homem foi apenas a inspiração. A mulher que olha e se detém é um espelho de tempo repetido. Talvez o que vimos não fosse um homem, porque as cores do real logo cederam à textura dos negros. Transformaram-se. Alquimia dos frames. Adormeci ou acordei? Conta-nos o segredo: como consegues caçar a pintura dos sonhos? 


*prova de contacto é uma rubrica exclusiva do blogue crónica luna samba de vanessa rodrigues (textos) e antónio morais (fotografia).

terça-feira, fevereiro 05, 2013

Padre António Vieira, a vida por inteiro


 Primeiro será necessário espaço, improvisando novas prateleiras em casa. Depois, alguma destreza física para carregar os 30 volumes que o Círculo de Leitores começa a lançar, em Abril, naquela que é já considerada a coleção mais completa da obra do Padre António Vieira. São Cartas, sermões, profecias, política, teatro, alguns ainda "textos inéditos", conforme anuncia a editora, na véspera do nascimento de Vieira.

A compilação é um trabalho conjunto dos historiadores José Eduardo Franco e Pedro Calafate, envolvendo ainda uma equipa de investigadores de Portugal e do Brasil, com o apoio da Santa Casa da Misericórdia.

De acordo com a editora, esta compilação é "um regresso às fontes manuscritas e impressas, com recurso a diversos arquivos pelo mundo em busca de documentos nunca publicados – como é o caso de A Chave dos Profetas". 

O Padre António Vieira foi um dos mais importantes e influentes pensadores do século XVII e, provavelmente, a sua prosa mais propalada é o Sermão aos Peixes. "Paiaçu", como lhe chamavam os índios com quem conviveu enquanto viveu no Brasil como missionário, deixou-nos como legado não apenas a raiz da sua teologia e pensamento político, como também prova de Humanista, como defensor dos direitos indígenas.


Um Porto por dia [.#7]




Como entrasse num lugar privado, como quem espreita as fechaduras, prevaricadora, palpitou-lhe o coração, badalando vergonha, medo e adrenalina. Se alguém lhe perguntasse o que ali fazia, responderia: "Ah, o escritório de advogados é aqui, neste andar?".
Da série: "O Porto escondido",  nesta cidade invisível.

sábado, fevereiro 02, 2013

Cinema Marginal Brasileiro, Porto

Cada vez mais me apercebo, ao galgar vielas, bairros e escadas do Porto que há culturas escondidas e que a cidade, realmente, tem várias camadas de pele, invisíveis. De alguma forma, o Facebook veio, também dinamizar a cultura deste burgo, tornando-o mais alargado, alternativo e quiçá, cosmopolita. 

Depois de o Laurent me te dar dado a conhecer a Associação Milímetro, que muitas vezes brinda a sala do Cinema Passos Manuel com boas películas, a Raquel mostra-me agora que o Auditório Grupo Musical de Gaia, de 8 a 11 de Fevereiro, vai passar duas sessões por dia de Cinema Marginal Brasileiro (ver cartaz em baixo). 

Numa altura em que várias salas de cinema fecham no país, é ainda mais urgente e importante as mostras alternativas, num retorno, evidente, à cultura marginal, mas também à resistência ideológica de uma certa imposição homogéna da cultura de massas, fortalecida pelos canais de televisão, que nos empurra para um certo comodismo social. Há, portanto, boas razões para sair de casa.

 

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

*[.a tinta fina.|um] O poeta do espanto

Entrevista

Ferreira Gullar. "O acordo ortográfico é uma perda de tempo"

por Vanessa Rodrigues, no Rio de Janeiro,

Publicado em 12 de Agosto de 2010 no jornal i 
Foto de Walter Craveiro/FLIP

O prémio Camões deste ano falou ao i no rescaldo da FLIP sobre letras, Brasil e poesia. No próximo mês publica "Alguma Parte Alguma"

Seguir o raciocínio do poeta Ferreira Gullar, de 80 anos, é um exercício simultâneo de pensamento-linguagem-pensamento. Tem o discurso marcado pelas perguntas retóricas e troca, recorrentemente, o sentido das palavras numa voz pausada e carregada pelo chiado da típica sonoridade carioca. Tal como fez com o título do seu novo livro na última Festa Literária Internacional de Paraty: "Parte alguma significa em nenhum lugar; alguma parte significa algum lugar." O público ficou baralhado.

Este pensador da língua fala gesticulando as mãos, enquanto os alvos cabelos médios descaem para a frente e para trás, acompanhando o movimento do corpo esguio. É vivaz como um adolescente e de palavras sempre afiadas para a resposta.

Na última FLIP disse que "a arte existe porque a vida não basta". Qual é a função dela na sua?

Nós inventamo-nos e inventamos a nossa própria vida. Somos seres culturais, então a função da arte é ajudar a inventar a vida e contribuir para a criação desse mundo fictício, desse mundo imaginário que é o nosso mundo. Vivemos na cidade que nós inventámos e construímos. A poesia é parte disso. Quando digo que a arte existe porque a vida não basta é porque nós queremos sempre mais. O ser humano está sempre inventando e reinventado a sua própria vida, os valores. Isso mostra que a vida pode ser mudada. Como os valores que nos suportam são por nós criados, eles também podem ser transformados. Abre a perspectiva de que a sociedade pode mudar. E essa é a visão que um artista tem dentro da sua função de criar uma mentira, como diz o Picasso. Uma mentira que é mais verdadeira do que a verdade.

Se inventasse alguma coisa, o que inventaria?

Eu não sou de inventar muitas coisas. O que eu faço mesmo é a minha poesia e isso é uma coisa que não depende de mim inteiramente. O poema não pode ser feito por decisão minha. Eu digo que a minha poesia nasce do espanto, de alguma coisa que me tira do equilíbrio do quotidiano. Se isso não ocorre, o poema não nasce. Se pudesse, escreveria poesia dia e noite, mas isso não é possível. As pessoas também sonhariam viver o amor a vida inteira, apaixonados, mas tudo são maravilhas que não acontecem como a gente quer. E a poesia também, o sonho a cada momento. Tomara eu estar naquele estado para escrever um novo poema, mas nunca sei qual é, porque é uma coisa que surge inesperadamente.

Qual é a importância que o tempo tem na sua vida?

Na minha poesia essa questão do tempo é frequentemente colocada. Eu sou bastante impressionado com essa relação tempo-espaço, o passar do tempo e a mudança qualitativa do próprio tempo. Nisso eu adopto um pouco a visão científica. O tempo como uma relação tempo- -espaço é, ao mesmo tempo, o passar, é o movimento da matéria. É o apodrecimento da pêra que é o tempo. E o tempo na pêra é uma coisa, o tempo em mim é outra coisa, o tempo do avião que voa é outra coisa, então há muitos tempos num só tempo. Aliás, no meu "Poema Sujo" eu toco nesse assunto ao dizer que a cidade tem muitas velocidades e ela é mais lenta num mel que se verte num copo e mais rápida no voar do pássaro que cruza a janela. O tempo é muitas coisas. Em cada coisa um tempo diferente. A cidade tem muitos núcleos, tem velocidades diferentes. Nós temos um tempo subjectivo também, temos também um tempo externo, que é o nosso caminhar pela rua, e dentro de nós está-se passando outra coisa, que pode ser a memória, que pode ser um outro poema que está nascendo. É uma coisa de enorme complexidade.

Que legado percebe que já deixou para a língua portuguesa?

De uma maneira ou de outra, os poetas, como são artesãos das palavras e reinventores da linguagem, lidam com a língua de uma maneira muito especial. Cada poeta tem, pelo menos, um dialecto e eles contribuem, de algum modo, para o enriquecimento da língua. Eles criam formas inesperadas de dizer as coisas. Sou um poeta que lida especialmente com essa questão da linguagem. Cheguei até a violentá-la de uma maneira tal. Acredito e é possível que a minha poesia tenha alguma influência sobre a língua que nós brasileiros usamos. Nem sei se na língua portuguesa em geral.

E o acordo ortográfico contribui para enriquecê-la?

Eu acho que o Brasil e Portugal, com os outros países de língua portuguesa, têm de parar com essa coisa de ficar mudando as regras ortográficas. Eu acho que é uma coisa que não ajuda em nada. É uma perda de tempo. Cria confusão, inclusive dá prejuízos. Já imaginou o que vai acontecer? Colecções de livros vão ter que ser jogadas fora e reimpressas, para obedecer a uma nova ortografia porque uma ou duas pessoas resolveram mudar a maneira de escrever a língua. Isso é uma arbitrariedade. Quem é que outorgou a essas pessoas o direito de fazer isso? A língua é património do país, da população, não é propriedade de ninguém. Não pode haver uma entidade que decide mudar a língua de todo o mundo. Isso é um absurdo. É uma coisa precária, que cria confusões, porque é impossível você encontrar uma forma de colocar todos os países de língua portuguesa em que não se crie ambiguidade nenhuma. É um sonho vão. A ortografia tem de ser uma representação da linguagem falada. Então é uma bobagem. Uma perda de tempo.

E que Brasil é este hoje?

O Brasil está atravessando um momento crucial. A América Latina, de maneira geral, está vivendo uma experiência que pode ter como consequência grave um renascimento do populismo. Num momento em que, no mundo, o socialismo real acabou e a visão socialista deixou de ser a grande utopia, de repente, aqui na América Latina surge um pseudo-socialismo que, na verdade, muda a relação que havia entre o socialismo que era um conflito entre a classe operária e a burguesia. Agora é entre pobres e ricos. E isso resulta na criação de governos populistas que, na verdade, enganam a opinião pública e que cerceiam as liberdades. E uma das tendências é reduzir ao máximo a liberdade de opinião, como se está vendo na Venezuela. Aqui no Brasil não aconteceu, pelo menos por enquanto, mas houve tentativas de controlo da opinião pública, de criar conselhos de imprensa sobre controlo do governo. O Lula sonhou em fazer, mas não consegue porque o Brasil é um país muito mais complexo e muito mais avançado. Mas não se sabe o que vai acontecer se a Dilma [Rousseff] for eleita, porque eles já se estão apropriando de muitos sectores.

Por exemplo.

A Petrobrás é uma empresa do povo brasileiro e virou propriedade dele. Agora mesmo, na FLIP, pelo facto de terem chamado o Fernando Henrique Cardoso para fazer uma palestra retiraram o patrocínio. Só se patrocina se a FLIP não aceitar figuras que sejam adversários do governo? Estamos onde, na ditadura? Aliás a ditadura sobre esse aspecto é muito mais tolerante do que o governo Lula. Todo o mundo que se opõe a ele vira inimigo. Agora, usar o dinheiro público da Petrobrás para fazer política é uma coisa ameaçadora. Eu tenho pavor que a Dilma ganhe essa eleição porque ela é uma invenção do Lula. Ela não é política, não entende de nada; é simplesmente uma marioneta que Lula quer eleger valendo-se da sua popularidade, que vem do populismo, que vem de fazer bolsa-família: de dar dinheiro público para 40 milhões de brasileiros, pobres, então isso é uma coisa muito grave, é um retrocesso muito grande. Eu vejo com muita preocupação o que está acontecendo aqui. 


*a tinta fina é uma rubrica quinzenal (entrevistas com escritores) da autoria da jornalista Vanessa Rodrigues, no blogue pessoal Crónica Luna Samba, por amor à literatura. As entrevistas podem ser exclusivas do blogue ou já ter sido publicadas na imprensa. A próxima será publicada a 15 de Fevereiro

Domingos sem Deus


O último volume do "Inferno Provisóro", "Domingos Sem Deus", do escritor brasileiro Luiz Ruffato foi o vencedor do Prêmio Casa de Las Américas, de Cuba. Ao mesmo tempo o cantor, compositor e escritor Chico Buarque foi distinguido na categoria narrativa. 

Sobre o escritor mineiro, o júri realçou que a distinção é devida porque "apresenta diversos episódios independentes que se entrelaçam, formando o mosaico de um Brasil essencial, embora esquecido".

Ler mais aqui

quinta-feira, janeiro 31, 2013

A luta, ora a luta, nada de novo, portanto

Gosto disto e ando à descoberta do Vinyl.

A casa que respira


Há um episódio particularmente desconcertante, sempre que passo por aquela vivenda, perto de casa dos meus pais. Vou a pé, diletante pela paisagem, baralhada pelos pensamentos, olhando as reentrâncias do solo, como envelhecem os campos ao redor, como os gatos se deleitam, escondidos atrás dos muros caídos, aspirantes a ruínas. 

Tudo isto em segundos fugazes, como areia nas mãos a escorrer, até que, interrompida por um arrepio me detenho. Estarreço olhando para a casa, que parece respirar por tubos, aflita. Vejo vegetação a sair pelos canos e pelas telhas, como se natureza, pintalgando a obra humana de zelos naturais, decidisse crescer jardins em tectos e cimentos, num claro sinal de revolta expondo território invadido. 

É um som grave, bufado, enfermo, como se ouvíssemos um ser a lutar pela vida, entubado - já o escrevi-, deixando escapar laivos de oxigénio conquistado. É um ruído compassado. "SSSffffff". 
Todos os dias, o mesmo acontece. E eu arrepio-me porque não é som agradável de se ouvir. Arrepio-me enquanto percebo que as casas também respiram. São seres orgânicos que nos acolhem, ouvem, afagam sem reclamar, além das rugas que vão ganhando, sobretudo se não as regenerarmos, mantermos. Apercebo-me, pois, que aquela casa, provavelmente, abandonada, cinzenta, cabisbaixa, se pôs amarga e triste, como muitos dos prédios abandonados por aí, e demasiado neste centro histórico do Porto. É, as casas também respiram e, como nós, precisam de oxigénio para contar histórias.

quarta-feira, janeiro 30, 2013

Pepetela relançado no Brasil

A editora Leya vai relançar, no Brasil, os livros "Mayombe" e "A geração da utopia" do escritor angolano Pepetela. Ao que parece, esses dois romances do prémio Camões em 1997 estavam esgotados "há anos".  
Escritor nascido em 1941, Pepetela imprime nas suas obras o bafo quente e fervilhante das transformações de Angola: desde a libertação "à construção de um novo país sob as marcas da guerra e do colonialismo".

Um dia a mesinha de cabeceira vem abaixo



Depois de atravessar um deserto árido e lento de abstinência bibliófila, onde a literatura parecia aquela miragem típica dos preguiçosos, regresso, paulatinamente, à urdidura ocular, que passeia pelas letras e contra letras dos livros (quanto trânsito vai ali na folha branca, meu bem!), que me vão chegando à mão, à mochila e, claro, à mesinha-de-cabeceira. 

A semana que passou foi dedicada à leitura de bulas, tão nobre prosa da Farmacologia, a tentar curar uma gastrite, que, afinal, malvada, não era gastrite, espia de uma bactéria ou vírus quaisquer (que me colocaram numa subserviência contumaz pela quietude e dieta radical), para depois me entregar com certo deleite à leitura atenta do antibiótico e pró-biótico, na declaração de guerra implacável ao regimento bacteriológico que se apresentava. 

Pode, pois, perceber-se que, sem o meu consentimento, o meu organismo andou em bélicas campanhas. Talvez por isso, tenha sentido o efeito de bombas, canhões, e, quiçá, tempestades tropicais que se desencadearam no baixo ventre. Controlada a situação por agentes secretos que continuo a infiltrar no organismo, apercebo-me de que a doença me curou do jejum literário, empurrando-me, enfraquecida, a ciciar por companhia fiel das folhas livres desses desordeiros libertários, que são os livros.

E isso sem que Sun Tzu vertesse uma sequer palavra. Tal empreitada deixou-me, pois, como despojos de guerra a leitura de dois belos livros e o início de uns quantos, resgatando o perigo eminente da torre de babel que empilho na mesa ao lado da cama. É, sabemos, um dia a mesinha-de-cabeceira vem abaixo.

Literatura destes dias:

1. "A Máscara de África", V.S.Naipaul, Quetzal, 2013

2. "O Olho de Hertzog", João Paulo Borges Coelho, Editorial Caminho, (Prémio Leya 2009)

3. "O Volume do Silêncio", João Anzanello Carrascoza, Cosac Naify, 2012
4. David Trueba, "Aberto toda a noite", Alfaguara, 2012 (terminado, entretanto)

Tenham uma boa semana!

é o princípio do mundo se o gato miar


terça-feira, janeiro 08, 2013

o silêncio do metro

O ruído deve ser uma coisa muito relativa. Um som inarmónico para uns, harmónico para outros, deixando de ser o que para certos é o fragor, o estrondo. É por isso que talvez o que de seguida escreverei não seja mais do que um mero desalinho melódico, com se o piano do meu cérebro, ou as cordas de um violão, como talvez seja (ou lira, ou pandeireta, cuíca, ou banjo, sei lá), estivesse a precisar de afinação. Dobrem os sinos, toquem as trombetas, rejubilem-se os preguiçosos, porque isto é valor-notícia naquele que é considerado o universo vanessiano.  

Não tenho conseguido agarrar um livro e harmonizar os elementos necessários para conseguir pautar, palavra a palavra, linha a linha, aquela que é a melodia da leitura. A serena sucessão rítmica que assiste o ato de ler. 

Não consigo, e estarei longe de perceber a razão. Não que os autores não sejam prosadores de interesse reconhecido, para manter uma mente ocupada aos amantes da leitura; não que a orquestra da minha mente ande conturbada com preocupações maiores; não que não esteja habituada ao exercício paulatino da negação do ócio em troca de um livro. 

Talvez tenha sido acometida por algum vírus do fim do mundo que me tenha usurpado o gosto pela leitura ou, ainda, haja algum ruído branco que me entorpece senso e sentido, orgulho e preconceito. O que sei, isso sim, como me disse certeiro o Alexandre, numa dessas tardes de sábado no Candelabro, é que estou sendo invadida pela vontade assoberbada, ansiosa de escrever, num conflito evidente entre querer viver e parar para escrever. Acontece-me agora - e precocemente-, pois há ainda tanto para ler antes de parar para ter a ousadia de esboçar em prosa o que quer que seja, ser assaltada por uma vontade incontrolável de escrever sobre tudo o que me rodeia. Sobre o casal de namorados no banco de jardim do Palácio, do velho do Jardim São Lázaro, do taxista da Rua Sá de Bandeira, mas depois atrapalho-me e não sei como envolver as histórias. 

Atrapalho-me e desisto, quando muitos me dizem que é preciso técnica (dá-me uma certa repulsa, resistência) e que não posso desistir. Ataranto-me e acho que estou a perder tempo, que é melhor ir viver, em vez de me atrapalhar. Convenço-me que é mais uma forma de ruído, como aquele que me investe quando estou no metro, a viver: também me apetece escrever nos lugares mais inusitados, como uma carruagem em andamento.  

É talvez por isso que hoje resolvi parar para escrever isto de tão banal que possa ser, na devida prova irrefutável, que os ruídos são uma coisa relativa

A mulher que serve cafés na estação de metro da Casa da Música inquietou-se quando lhe disse boa tarde, como estivesse de costas, lavando louça. Assustou-se apesar do barulho à volta, de gente apressada, metros a ir e vir, um frenesim de adolescentes, escadas rolantes a chiar.
 
-Ah, boa tarde. Com tanto silêncio do metro, assustou-me.

O barulho, meus caros, é relativo. É preciso habituarmo-nos a ele até que seja silêncio. Deve acontecer a mesma coisa com a literatura.
som inarmónico produzido por corpo que cai ou estala; estrondo, fragor

ruído In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-08].
Disponível na www: http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/ru%C3%ADdo
>.
som inarmónico produzido por corpo que cai ou estala; estrondo, fragor

ruído In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-08].
Disponível na www: http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/ru%C3%ADdo
>.

quarta-feira, dezembro 26, 2012

Queda para a serendipidade

"as coisas estão no mundo só que eu preciso aprender"

"vivemos, estamos vivendo, lutando para justificar nossas vidas" 

(Paulinho da Viola) 




Há tardes absolutamente mágicas. Há dias em que o acaso se ri para nós, na esquina de uma rua todos os dias calcorreada, e nós, mais disponíveis para amar o amor do presente, acendemos "a vela no breu". No breu da nossa fugacidade. No breu da imprevisibilidade, com atenção devida, pois, estamos mais disponíveis para sermos levados, sem agenda, sem horários, sem compromissos, apenas um pacto provisório com o nada. Estamos a viver um pedaço de vida como ela for. 

Pus a Pentax K-1000 na bolsa, o velvia ainda lá está a carecer de 10 cliques para virar revelação e positivo, e levei a vida para a tarde. Mas quis ela, porque já tinha outros planos para mim, que voltasse ao lugar de um pequeno crime sem maldade e não terminasse os dez frames finais. Isso porque, apercebo-me, tenho queda para a serendipidade.

Ando a investigar os prédios antigos da cidade com propósitos, claro, fotográficos. Se perguntarem digo a verdade, que adoro a doçura e a meiguice de prédios antigos, que gosto de espreitar fechaduras improvisadas à procura de histórias. Que sou uma miúda curiosamente metida que se encanta com placas antigas de telefones ainda do tempo de ingleses, com portas de vidro com nome de detetives privados, com campaínhas de ferro e maçanetas velhas. E isto com a idade fica cada vez pior. Sem nostalgias. Mas a atualidade noticiosa e a frugalidade das conversas superficiais interessam-me cada vez menos e estou empenhada em viver dias felizes todos os dias, com calma e horas que valham a pena. Um imenso agora, porque é o que realmente importa, na justa selecção do tempo.

Voltei ao local do delito porque a primeira vez que fui lá parar a porta estava fechada. Desta vez a porta estava entreaberta e o Nuno Moreira, senhor dos seus competentes 56 anos, talvez, um artesão do vinyl -porque os lava, limpa, estima, preserva e torna capas velhas em novas - me recebe como quem estava à minha espera. Nunca nos víramos. Passamos a tarde a falar e a ouvir música de intervenção (Adriano, José Mário Branco, Fausto, Manuel Freire, e outros como o Gabinete de Acção cultural), Carlos Paredes ao vivo em Frankfurt, James Brown, bossa nova (João Gilberto, sobretudo) e Carmen Miranda. Ah, quase me esquecia: e os Beatles portugueses. Os sheikes. Alguém se lembra?

As paredes e a memória dele contaram histórias. Embeveci. E, depois, ele fez questão de me mostrar os cantos à casa. Ou melhor dos corredores daquele andar, porque são casas onde as vidas se passam num corredor que atravessa a casa. Do lado de dentro casas residenciais. Do lado da rua, escritórios. Naquele piso, particularmente, encontros ecuménicos: a sala de vinis novos, a sala de vinis velhos, um tarólogo, uma vendedora de produtos de cosmética natural, uma sala de reuniões espíritas e a sala da associação de detetives privados vazia, por alugar. Há ainda uma cantora lírica reformada que fez carreira na América Latina. O prédio, um organismo vivo. 

Na contabilidade da despedida trouxe "O melhor de João Gilberto", "James Brown" e o Paulinho da Viola, "Memórias Cantando". Lá deixei reservados a Carmen Miranda, o Carlos Paredes e a coletânea de música de intervenção. A vida, dizia Nelson Rodrigues, como ela é. Talvez esta seja uma forma de amor universal.



 

domingo, dezembro 16, 2012

conversa fiada [tesouros de fim de semana]

"Foutaises" (1989), ou Conversa Fiada, a curta-metragem de Jean-Pierre Jeunet