terça-feira, fevereiro 05, 2013

Padre António Vieira, a vida por inteiro


 Primeiro será necessário espaço, improvisando novas prateleiras em casa. Depois, alguma destreza física para carregar os 30 volumes que o Círculo de Leitores começa a lançar, em Abril, naquela que é já considerada a coleção mais completa da obra do Padre António Vieira. São Cartas, sermões, profecias, política, teatro, alguns ainda "textos inéditos", conforme anuncia a editora, na véspera do nascimento de Vieira.

A compilação é um trabalho conjunto dos historiadores José Eduardo Franco e Pedro Calafate, envolvendo ainda uma equipa de investigadores de Portugal e do Brasil, com o apoio da Santa Casa da Misericórdia.

De acordo com a editora, esta compilação é "um regresso às fontes manuscritas e impressas, com recurso a diversos arquivos pelo mundo em busca de documentos nunca publicados – como é o caso de A Chave dos Profetas". 

O Padre António Vieira foi um dos mais importantes e influentes pensadores do século XVII e, provavelmente, a sua prosa mais propalada é o Sermão aos Peixes. "Paiaçu", como lhe chamavam os índios com quem conviveu enquanto viveu no Brasil como missionário, deixou-nos como legado não apenas a raiz da sua teologia e pensamento político, como também prova de Humanista, como defensor dos direitos indígenas.


Um Porto por dia [.#7]




Como entrasse num lugar privado, como quem espreita as fechaduras, prevaricadora, palpitou-lhe o coração, badalando vergonha, medo e adrenalina. Se alguém lhe perguntasse o que ali fazia, responderia: "Ah, o escritório de advogados é aqui, neste andar?".
Da série: "O Porto escondido",  nesta cidade invisível.

sábado, fevereiro 02, 2013

Cinema Marginal Brasileiro, Porto

Cada vez mais me apercebo, ao galgar vielas, bairros e escadas do Porto que há culturas escondidas e que a cidade, realmente, tem várias camadas de pele, invisíveis. De alguma forma, o Facebook veio, também dinamizar a cultura deste burgo, tornando-o mais alargado, alternativo e quiçá, cosmopolita. 

Depois de o Laurent me te dar dado a conhecer a Associação Milímetro, que muitas vezes brinda a sala do Cinema Passos Manuel com boas películas, a Raquel mostra-me agora que o Auditório Grupo Musical de Gaia, de 8 a 11 de Fevereiro, vai passar duas sessões por dia de Cinema Marginal Brasileiro (ver cartaz em baixo). 

Numa altura em que várias salas de cinema fecham no país, é ainda mais urgente e importante as mostras alternativas, num retorno, evidente, à cultura marginal, mas também à resistência ideológica de uma certa imposição homogéna da cultura de massas, fortalecida pelos canais de televisão, que nos empurra para um certo comodismo social. Há, portanto, boas razões para sair de casa.

 

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

*[.a tinta fina.|um] O poeta do espanto

Entrevista

Ferreira Gullar. "O acordo ortográfico é uma perda de tempo"

por Vanessa Rodrigues, no Rio de Janeiro,

Publicado em 12 de Agosto de 2010 no jornal i 
Foto de Walter Craveiro/FLIP

O prémio Camões deste ano falou ao i no rescaldo da FLIP sobre letras, Brasil e poesia. No próximo mês publica "Alguma Parte Alguma"

Seguir o raciocínio do poeta Ferreira Gullar, de 80 anos, é um exercício simultâneo de pensamento-linguagem-pensamento. Tem o discurso marcado pelas perguntas retóricas e troca, recorrentemente, o sentido das palavras numa voz pausada e carregada pelo chiado da típica sonoridade carioca. Tal como fez com o título do seu novo livro na última Festa Literária Internacional de Paraty: "Parte alguma significa em nenhum lugar; alguma parte significa algum lugar." O público ficou baralhado.

Este pensador da língua fala gesticulando as mãos, enquanto os alvos cabelos médios descaem para a frente e para trás, acompanhando o movimento do corpo esguio. É vivaz como um adolescente e de palavras sempre afiadas para a resposta.

Na última FLIP disse que "a arte existe porque a vida não basta". Qual é a função dela na sua?

Nós inventamo-nos e inventamos a nossa própria vida. Somos seres culturais, então a função da arte é ajudar a inventar a vida e contribuir para a criação desse mundo fictício, desse mundo imaginário que é o nosso mundo. Vivemos na cidade que nós inventámos e construímos. A poesia é parte disso. Quando digo que a arte existe porque a vida não basta é porque nós queremos sempre mais. O ser humano está sempre inventando e reinventado a sua própria vida, os valores. Isso mostra que a vida pode ser mudada. Como os valores que nos suportam são por nós criados, eles também podem ser transformados. Abre a perspectiva de que a sociedade pode mudar. E essa é a visão que um artista tem dentro da sua função de criar uma mentira, como diz o Picasso. Uma mentira que é mais verdadeira do que a verdade.

Se inventasse alguma coisa, o que inventaria?

Eu não sou de inventar muitas coisas. O que eu faço mesmo é a minha poesia e isso é uma coisa que não depende de mim inteiramente. O poema não pode ser feito por decisão minha. Eu digo que a minha poesia nasce do espanto, de alguma coisa que me tira do equilíbrio do quotidiano. Se isso não ocorre, o poema não nasce. Se pudesse, escreveria poesia dia e noite, mas isso não é possível. As pessoas também sonhariam viver o amor a vida inteira, apaixonados, mas tudo são maravilhas que não acontecem como a gente quer. E a poesia também, o sonho a cada momento. Tomara eu estar naquele estado para escrever um novo poema, mas nunca sei qual é, porque é uma coisa que surge inesperadamente.

Qual é a importância que o tempo tem na sua vida?

Na minha poesia essa questão do tempo é frequentemente colocada. Eu sou bastante impressionado com essa relação tempo-espaço, o passar do tempo e a mudança qualitativa do próprio tempo. Nisso eu adopto um pouco a visão científica. O tempo como uma relação tempo- -espaço é, ao mesmo tempo, o passar, é o movimento da matéria. É o apodrecimento da pêra que é o tempo. E o tempo na pêra é uma coisa, o tempo em mim é outra coisa, o tempo do avião que voa é outra coisa, então há muitos tempos num só tempo. Aliás, no meu "Poema Sujo" eu toco nesse assunto ao dizer que a cidade tem muitas velocidades e ela é mais lenta num mel que se verte num copo e mais rápida no voar do pássaro que cruza a janela. O tempo é muitas coisas. Em cada coisa um tempo diferente. A cidade tem muitos núcleos, tem velocidades diferentes. Nós temos um tempo subjectivo também, temos também um tempo externo, que é o nosso caminhar pela rua, e dentro de nós está-se passando outra coisa, que pode ser a memória, que pode ser um outro poema que está nascendo. É uma coisa de enorme complexidade.

Que legado percebe que já deixou para a língua portuguesa?

De uma maneira ou de outra, os poetas, como são artesãos das palavras e reinventores da linguagem, lidam com a língua de uma maneira muito especial. Cada poeta tem, pelo menos, um dialecto e eles contribuem, de algum modo, para o enriquecimento da língua. Eles criam formas inesperadas de dizer as coisas. Sou um poeta que lida especialmente com essa questão da linguagem. Cheguei até a violentá-la de uma maneira tal. Acredito e é possível que a minha poesia tenha alguma influência sobre a língua que nós brasileiros usamos. Nem sei se na língua portuguesa em geral.

E o acordo ortográfico contribui para enriquecê-la?

Eu acho que o Brasil e Portugal, com os outros países de língua portuguesa, têm de parar com essa coisa de ficar mudando as regras ortográficas. Eu acho que é uma coisa que não ajuda em nada. É uma perda de tempo. Cria confusão, inclusive dá prejuízos. Já imaginou o que vai acontecer? Colecções de livros vão ter que ser jogadas fora e reimpressas, para obedecer a uma nova ortografia porque uma ou duas pessoas resolveram mudar a maneira de escrever a língua. Isso é uma arbitrariedade. Quem é que outorgou a essas pessoas o direito de fazer isso? A língua é património do país, da população, não é propriedade de ninguém. Não pode haver uma entidade que decide mudar a língua de todo o mundo. Isso é um absurdo. É uma coisa precária, que cria confusões, porque é impossível você encontrar uma forma de colocar todos os países de língua portuguesa em que não se crie ambiguidade nenhuma. É um sonho vão. A ortografia tem de ser uma representação da linguagem falada. Então é uma bobagem. Uma perda de tempo.

E que Brasil é este hoje?

O Brasil está atravessando um momento crucial. A América Latina, de maneira geral, está vivendo uma experiência que pode ter como consequência grave um renascimento do populismo. Num momento em que, no mundo, o socialismo real acabou e a visão socialista deixou de ser a grande utopia, de repente, aqui na América Latina surge um pseudo-socialismo que, na verdade, muda a relação que havia entre o socialismo que era um conflito entre a classe operária e a burguesia. Agora é entre pobres e ricos. E isso resulta na criação de governos populistas que, na verdade, enganam a opinião pública e que cerceiam as liberdades. E uma das tendências é reduzir ao máximo a liberdade de opinião, como se está vendo na Venezuela. Aqui no Brasil não aconteceu, pelo menos por enquanto, mas houve tentativas de controlo da opinião pública, de criar conselhos de imprensa sobre controlo do governo. O Lula sonhou em fazer, mas não consegue porque o Brasil é um país muito mais complexo e muito mais avançado. Mas não se sabe o que vai acontecer se a Dilma [Rousseff] for eleita, porque eles já se estão apropriando de muitos sectores.

Por exemplo.

A Petrobrás é uma empresa do povo brasileiro e virou propriedade dele. Agora mesmo, na FLIP, pelo facto de terem chamado o Fernando Henrique Cardoso para fazer uma palestra retiraram o patrocínio. Só se patrocina se a FLIP não aceitar figuras que sejam adversários do governo? Estamos onde, na ditadura? Aliás a ditadura sobre esse aspecto é muito mais tolerante do que o governo Lula. Todo o mundo que se opõe a ele vira inimigo. Agora, usar o dinheiro público da Petrobrás para fazer política é uma coisa ameaçadora. Eu tenho pavor que a Dilma ganhe essa eleição porque ela é uma invenção do Lula. Ela não é política, não entende de nada; é simplesmente uma marioneta que Lula quer eleger valendo-se da sua popularidade, que vem do populismo, que vem de fazer bolsa-família: de dar dinheiro público para 40 milhões de brasileiros, pobres, então isso é uma coisa muito grave, é um retrocesso muito grande. Eu vejo com muita preocupação o que está acontecendo aqui. 


*a tinta fina é uma rubrica quinzenal (entrevistas com escritores) da autoria da jornalista Vanessa Rodrigues, no blogue pessoal Crónica Luna Samba, por amor à literatura. As entrevistas podem ser exclusivas do blogue ou já ter sido publicadas na imprensa. A próxima será publicada a 15 de Fevereiro

Domingos sem Deus


O último volume do "Inferno Provisóro", "Domingos Sem Deus", do escritor brasileiro Luiz Ruffato foi o vencedor do Prêmio Casa de Las Américas, de Cuba. Ao mesmo tempo o cantor, compositor e escritor Chico Buarque foi distinguido na categoria narrativa. 

Sobre o escritor mineiro, o júri realçou que a distinção é devida porque "apresenta diversos episódios independentes que se entrelaçam, formando o mosaico de um Brasil essencial, embora esquecido".

Ler mais aqui

quinta-feira, janeiro 31, 2013

A luta, ora a luta, nada de novo, portanto

Gosto disto e ando à descoberta do Vinyl.

A casa que respira


Há um episódio particularmente desconcertante, sempre que passo por aquela vivenda, perto de casa dos meus pais. Vou a pé, diletante pela paisagem, baralhada pelos pensamentos, olhando as reentrâncias do solo, como envelhecem os campos ao redor, como os gatos se deleitam, escondidos atrás dos muros caídos, aspirantes a ruínas. 

Tudo isto em segundos fugazes, como areia nas mãos a escorrer, até que, interrompida por um arrepio me detenho. Estarreço olhando para a casa, que parece respirar por tubos, aflita. Vejo vegetação a sair pelos canos e pelas telhas, como se natureza, pintalgando a obra humana de zelos naturais, decidisse crescer jardins em tectos e cimentos, num claro sinal de revolta expondo território invadido. 

É um som grave, bufado, enfermo, como se ouvíssemos um ser a lutar pela vida, entubado - já o escrevi-, deixando escapar laivos de oxigénio conquistado. É um ruído compassado. "SSSffffff". 
Todos os dias, o mesmo acontece. E eu arrepio-me porque não é som agradável de se ouvir. Arrepio-me enquanto percebo que as casas também respiram. São seres orgânicos que nos acolhem, ouvem, afagam sem reclamar, além das rugas que vão ganhando, sobretudo se não as regenerarmos, mantermos. Apercebo-me, pois, que aquela casa, provavelmente, abandonada, cinzenta, cabisbaixa, se pôs amarga e triste, como muitos dos prédios abandonados por aí, e demasiado neste centro histórico do Porto. É, as casas também respiram e, como nós, precisam de oxigénio para contar histórias.

quarta-feira, janeiro 30, 2013

Pepetela relançado no Brasil

A editora Leya vai relançar, no Brasil, os livros "Mayombe" e "A geração da utopia" do escritor angolano Pepetela. Ao que parece, esses dois romances do prémio Camões em 1997 estavam esgotados "há anos".  
Escritor nascido em 1941, Pepetela imprime nas suas obras o bafo quente e fervilhante das transformações de Angola: desde a libertação "à construção de um novo país sob as marcas da guerra e do colonialismo".

Um dia a mesinha de cabeceira vem abaixo



Depois de atravessar um deserto árido e lento de abstinência bibliófila, onde a literatura parecia aquela miragem típica dos preguiçosos, regresso, paulatinamente, à urdidura ocular, que passeia pelas letras e contra letras dos livros (quanto trânsito vai ali na folha branca, meu bem!), que me vão chegando à mão, à mochila e, claro, à mesinha-de-cabeceira. 

A semana que passou foi dedicada à leitura de bulas, tão nobre prosa da Farmacologia, a tentar curar uma gastrite, que, afinal, malvada, não era gastrite, espia de uma bactéria ou vírus quaisquer (que me colocaram numa subserviência contumaz pela quietude e dieta radical), para depois me entregar com certo deleite à leitura atenta do antibiótico e pró-biótico, na declaração de guerra implacável ao regimento bacteriológico que se apresentava. 

Pode, pois, perceber-se que, sem o meu consentimento, o meu organismo andou em bélicas campanhas. Talvez por isso, tenha sentido o efeito de bombas, canhões, e, quiçá, tempestades tropicais que se desencadearam no baixo ventre. Controlada a situação por agentes secretos que continuo a infiltrar no organismo, apercebo-me de que a doença me curou do jejum literário, empurrando-me, enfraquecida, a ciciar por companhia fiel das folhas livres desses desordeiros libertários, que são os livros.

E isso sem que Sun Tzu vertesse uma sequer palavra. Tal empreitada deixou-me, pois, como despojos de guerra a leitura de dois belos livros e o início de uns quantos, resgatando o perigo eminente da torre de babel que empilho na mesa ao lado da cama. É, sabemos, um dia a mesinha-de-cabeceira vem abaixo.

Literatura destes dias:

1. "A Máscara de África", V.S.Naipaul, Quetzal, 2013

2. "O Olho de Hertzog", João Paulo Borges Coelho, Editorial Caminho, (Prémio Leya 2009)

3. "O Volume do Silêncio", João Anzanello Carrascoza, Cosac Naify, 2012
4. David Trueba, "Aberto toda a noite", Alfaguara, 2012 (terminado, entretanto)

Tenham uma boa semana!

é o princípio do mundo se o gato miar


terça-feira, janeiro 08, 2013

o silêncio do metro

O ruído deve ser uma coisa muito relativa. Um som inarmónico para uns, harmónico para outros, deixando de ser o que para certos é o fragor, o estrondo. É por isso que talvez o que de seguida escreverei não seja mais do que um mero desalinho melódico, com se o piano do meu cérebro, ou as cordas de um violão, como talvez seja (ou lira, ou pandeireta, cuíca, ou banjo, sei lá), estivesse a precisar de afinação. Dobrem os sinos, toquem as trombetas, rejubilem-se os preguiçosos, porque isto é valor-notícia naquele que é considerado o universo vanessiano.  

Não tenho conseguido agarrar um livro e harmonizar os elementos necessários para conseguir pautar, palavra a palavra, linha a linha, aquela que é a melodia da leitura. A serena sucessão rítmica que assiste o ato de ler. 

Não consigo, e estarei longe de perceber a razão. Não que os autores não sejam prosadores de interesse reconhecido, para manter uma mente ocupada aos amantes da leitura; não que a orquestra da minha mente ande conturbada com preocupações maiores; não que não esteja habituada ao exercício paulatino da negação do ócio em troca de um livro. 

Talvez tenha sido acometida por algum vírus do fim do mundo que me tenha usurpado o gosto pela leitura ou, ainda, haja algum ruído branco que me entorpece senso e sentido, orgulho e preconceito. O que sei, isso sim, como me disse certeiro o Alexandre, numa dessas tardes de sábado no Candelabro, é que estou sendo invadida pela vontade assoberbada, ansiosa de escrever, num conflito evidente entre querer viver e parar para escrever. Acontece-me agora - e precocemente-, pois há ainda tanto para ler antes de parar para ter a ousadia de esboçar em prosa o que quer que seja, ser assaltada por uma vontade incontrolável de escrever sobre tudo o que me rodeia. Sobre o casal de namorados no banco de jardim do Palácio, do velho do Jardim São Lázaro, do taxista da Rua Sá de Bandeira, mas depois atrapalho-me e não sei como envolver as histórias. 

Atrapalho-me e desisto, quando muitos me dizem que é preciso técnica (dá-me uma certa repulsa, resistência) e que não posso desistir. Ataranto-me e acho que estou a perder tempo, que é melhor ir viver, em vez de me atrapalhar. Convenço-me que é mais uma forma de ruído, como aquele que me investe quando estou no metro, a viver: também me apetece escrever nos lugares mais inusitados, como uma carruagem em andamento.  

É talvez por isso que hoje resolvi parar para escrever isto de tão banal que possa ser, na devida prova irrefutável, que os ruídos são uma coisa relativa

A mulher que serve cafés na estação de metro da Casa da Música inquietou-se quando lhe disse boa tarde, como estivesse de costas, lavando louça. Assustou-se apesar do barulho à volta, de gente apressada, metros a ir e vir, um frenesim de adolescentes, escadas rolantes a chiar.
 
-Ah, boa tarde. Com tanto silêncio do metro, assustou-me.

O barulho, meus caros, é relativo. É preciso habituarmo-nos a ele até que seja silêncio. Deve acontecer a mesma coisa com a literatura.
som inarmónico produzido por corpo que cai ou estala; estrondo, fragor

ruído In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-08].
Disponível na www: http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/ru%C3%ADdo
>.
som inarmónico produzido por corpo que cai ou estala; estrondo, fragor

ruído In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-08].
Disponível na www: http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/ru%C3%ADdo
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quarta-feira, dezembro 26, 2012

Queda para a serendipidade

"as coisas estão no mundo só que eu preciso aprender"

"vivemos, estamos vivendo, lutando para justificar nossas vidas" 

(Paulinho da Viola) 




Há tardes absolutamente mágicas. Há dias em que o acaso se ri para nós, na esquina de uma rua todos os dias calcorreada, e nós, mais disponíveis para amar o amor do presente, acendemos "a vela no breu". No breu da nossa fugacidade. No breu da imprevisibilidade, com atenção devida, pois, estamos mais disponíveis para sermos levados, sem agenda, sem horários, sem compromissos, apenas um pacto provisório com o nada. Estamos a viver um pedaço de vida como ela for. 

Pus a Pentax K-1000 na bolsa, o velvia ainda lá está a carecer de 10 cliques para virar revelação e positivo, e levei a vida para a tarde. Mas quis ela, porque já tinha outros planos para mim, que voltasse ao lugar de um pequeno crime sem maldade e não terminasse os dez frames finais. Isso porque, apercebo-me, tenho queda para a serendipidade.

Ando a investigar os prédios antigos da cidade com propósitos, claro, fotográficos. Se perguntarem digo a verdade, que adoro a doçura e a meiguice de prédios antigos, que gosto de espreitar fechaduras improvisadas à procura de histórias. Que sou uma miúda curiosamente metida que se encanta com placas antigas de telefones ainda do tempo de ingleses, com portas de vidro com nome de detetives privados, com campaínhas de ferro e maçanetas velhas. E isto com a idade fica cada vez pior. Sem nostalgias. Mas a atualidade noticiosa e a frugalidade das conversas superficiais interessam-me cada vez menos e estou empenhada em viver dias felizes todos os dias, com calma e horas que valham a pena. Um imenso agora, porque é o que realmente importa, na justa selecção do tempo.

Voltei ao local do delito porque a primeira vez que fui lá parar a porta estava fechada. Desta vez a porta estava entreaberta e o Nuno Moreira, senhor dos seus competentes 56 anos, talvez, um artesão do vinyl -porque os lava, limpa, estima, preserva e torna capas velhas em novas - me recebe como quem estava à minha espera. Nunca nos víramos. Passamos a tarde a falar e a ouvir música de intervenção (Adriano, José Mário Branco, Fausto, Manuel Freire, e outros como o Gabinete de Acção cultural), Carlos Paredes ao vivo em Frankfurt, James Brown, bossa nova (João Gilberto, sobretudo) e Carmen Miranda. Ah, quase me esquecia: e os Beatles portugueses. Os sheikes. Alguém se lembra?

As paredes e a memória dele contaram histórias. Embeveci. E, depois, ele fez questão de me mostrar os cantos à casa. Ou melhor dos corredores daquele andar, porque são casas onde as vidas se passam num corredor que atravessa a casa. Do lado de dentro casas residenciais. Do lado da rua, escritórios. Naquele piso, particularmente, encontros ecuménicos: a sala de vinis novos, a sala de vinis velhos, um tarólogo, uma vendedora de produtos de cosmética natural, uma sala de reuniões espíritas e a sala da associação de detetives privados vazia, por alugar. Há ainda uma cantora lírica reformada que fez carreira na América Latina. O prédio, um organismo vivo. 

Na contabilidade da despedida trouxe "O melhor de João Gilberto", "James Brown" e o Paulinho da Viola, "Memórias Cantando". Lá deixei reservados a Carmen Miranda, o Carlos Paredes e a coletânea de música de intervenção. A vida, dizia Nelson Rodrigues, como ela é. Talvez esta seja uma forma de amor universal.



 

domingo, dezembro 16, 2012

conversa fiada [tesouros de fim de semana]

"Foutaises" (1989), ou Conversa Fiada, a curta-metragem de Jean-Pierre Jeunet 


 

sexta-feira, dezembro 07, 2012

contágio sensorial

É esta cidade quieta, que se deita quando se arrumam os chinelos debaixo da cama. Ouço-te. Apago a luz. Ainda sussurras. E chegas à cama enquanto durmo, mas acordas-me com beijos, porque dizes que é mais forte do que tu. Venho a mundo, estou na fronteira do país dos sonhos, consciência fugaz. Espera, é apenas aquele embalo na voz. Os lençóis estão já encorrilhados. Rolaste à minha espera. As mãos tatearam gulosas as reentrâncias suaves do que podem ser torvelinhos da costura. Saberão as máquinas que fazem tapetes de nuvens onde se deitarão os corpos para amar? Também se agarram sem desejo, a paz da ternura, o beijo que a pele dá sem se beijar, sem a boca, claro, um diáfano sopro da derme, contágio sensorial. 

quinta-feira, dezembro 06, 2012

a estranheza de um corpo

O homem que fala não sabe o que aqui anda a fazer. A rapariga que fala diz que são coisas de "vudus" e assim, pergunta se a outra sabe o que é. Não imagino sequer de que combinam. Arrepio-me. O rapaz que fala ri-se muito e não tem tento na língua. Há bocado, um bando de depravados galou desavergonhadamente a rapariga de saia curta. Ela roía as unhas, roxas, uns tamancos respeitáveis. Uns senhores tamancos. 
-Levava-te para casa e lambia-te essa c... toda.
- Eu faria de ti um corno manso, ripostou. 

E ainda se diz que o direito de resposta anda moribundo.

Fala muita gente ao mesmo tempo e há conversas que se perdem. É ruído branco. A mulher ao meu lado fala muito ao telemóvel. O rapaz da frente baixa os olhos e posso dizer que já nasceu cabisbaixo, que há-de ficar corcunda cedo na vida. O cabo-verdiano que fala em crioulo, repete muitas vezes a mesma ideia, por outras palavras, para que a tia entenda: recebe o salário na segunda-feira, fará a transferência na terça-feira e ela terá o dinheiro na quinta. Repete: segunda-feira é dia de pagamento, o dinheiro por ser de banco diferente só cai na conta dela dois dias depois. Como recebe à noite, só terça-feira de manhã consegue ir ao banco. A tia não acredita, desconfia. Ele volta a explicar, irritado que ela duvide da palavra dele. 

Evapora-se a conversa em ruído branco. Evoco o direito à desatenção, não quero ouvir. 

Aos meus pés, uma garrafa de água de 1,5 l, meia cheia, meia vazia, bamboleia. É um corpo estranho. A mulher que se senta ao meu lado assusta-se com a garrafa. Encosta-se quase a mim. É outro corpo, demasiado, estranho. As paragens passam; na verdade ficam. Eu sou paisagem. 

Se me perguntarem quanto tempo demoro ao destino, direi: o tempo de cinco paragens...centenas de corpos estranhos, vozes dissonantes, e muito ruído branco. Há medidas de tempo que são a estranheza de um corpo, ou a ininterrupção de um pensamento. Perdi a paragem!

quarta-feira, dezembro 05, 2012

tinta permanente...

...será aquela que já escreveu as páginas do meu 2012. Será cedo para um balanço deste ano, mas súbita vontade de dedilhar o teclado como quem toca piano apoderou-se desta jovem miúda que, no próximo mês, já conta mais um número para os "intas" e continua a pensar que, afinal, não saiu dos 28, porque a vida nos mostra que há tanta frescura, onde, às vezes, vemos nublado.

A contas com o ano: vivi. 

Vivi muito e bem e do peso que se fez leveza e da amargura que se fez Primavera, do abalo que se fez cascata em descida de tobogan. Vivi, juro que vivi, tanto e bem. Que um ano será pouco para o tanto que tive o privilégio de viver, sentir, crescer e encontrar alguma paz interior, de sorrir por nada, de enfim, perceber que o que importa é viver, que os problemas como vêm, vão e, no fundo, só precisamos de viver e tornar o dia a melhor coisa que pudermos, rodear-nos das pessoas que nos querem bem e felizes, que nos inspiram, que nos fazem bem e apoiam, nos dizem palavras doces e um colo que nos embala, certos de que tudo passa e que, de fato, foi um pretexto para termos esse aconchego como se mais nada no mundo existisse. 

Se tudo finasse naquele momento, ainda que com dores no pensamento, que nos impõe ao corpo, tudo finaria bem porque estava docemente embalada, protegida, cuidada. E este ano cuidei muito e fui cuidada. 

Comecei, verdadeiramente, a viver 2012, em Abril, depois de um acidente de carro, onde tive a certeza de que tudo terminaria. Tive a certeza de que, ainda assim, tudo estava certo, de que não mudaria nada na minha vida. Estou grata por tudo. Que estava vivendo exatamente aquilo que devia viver. Escrevi uma carta a mim mesma para abrir dali a um ano. Estive em Marraquexe, em Toulouse, na fenda de uma pedra no Gerês, onde reaprendi a confiar e, se calhar, a amar; estive em Bragança, em Odeceixe, na Afurada, vivi o Porto escondido, vi o pôr-do-sol no Guindalense Futebol clube, contracenei numa curta-metragem, fiz praia até o sol se esconder, joguei volei, degustei amigos, fiz judo, ayurveda, acarinhei a família, cozinhei para os amigos, abracei e ouvi quem de mim precisou.

Fiz teatro, festas para amigos, editei vídeos, viagem de caravana até à Eslovénia, escrevi sobre o que mais gostei, fiz uma grande reportagem sobre um mundo incrível, andei por aldeias raianas a ouvir histórias de contrabando e salto, li livros maravilhosos, perdi-me em alfarrabistas, dormi agarrada, tive jantares cozinhados só para mim, só porque estava triste, ou só porque sim; fotografei muito e conheci-te.

2012 se foi um ano duro, onde muitas vezes as lágrimas também vieram, foi também um ano leve de começos e recomeços. De aprendizagem muita. De generosidade e paciência para não deixar que os problemas me enruguem demasiado e com peso a minha energia, o meu carinho, a minha leveza em acreditar que vale a pena ser leve e partilhar. 2012 foi um ano muito bom.