terça-feira, julho 24, 2012

segunda-feira, julho 23, 2012

Acordar num outro planeta, o corpo



Hoje estou particularmente atenta às pessoas. Alerta, para ser mais rigorosa. Porque me incomodam. Como se tivesse acordado com pele hiper-sensível, que se estende aos olhos, às mãos, aos ouvidos, ao nariz, aos estímulos eléctricos que chegam ao cérebro. E tudo isto me dá cansaço, me tira energia, me atira para uma letargia que não quero sentir. Estou zonza. Desperta a tudo. E cada gesto é um golpe de que me tento defender. As pessoas que fumam, as que atravessam a rua, as que brincam com crianças, as que atravessam a rua, de novo, as que passam de carro, vão e voltam, correm, riem, saltam, namoram, dão passos largos e largas passas num cigarro, no burburinho, nas falas sussurradas que se tornam ruído, seguram tabuleiros com bolos de chocolate fartos, se beijam... 

Tudo em simultâneo, enquanto vidas individuais acontecem no coletivo. É um frenesim concomitante, como todos os dias, quotidianamente renovado, vivido, como animais pavlovianos. Mas hoje algo acontece e eu não sei o que aconteceu. Escrevo tudo isto com uma certa tontura. Tontura de clima: este calor? Será o ar que está impuro? A água contaminada, o queijo estragado, a maçã azeda; e não senti?

Penso isto, e as pessoas passam, todos estranhos, os outros, como o são as más companhias para os nossos pais, os filhos dos outros, nunca nós, e ocorre-me a conversa com o Rubim: o amor, o medo, a gratidão, as vidas obscuras de cada um. E eles a pensar que tudo isto, este nada, não vale a pena. Ocorre-me isto e penso, inevitavelmente, em Sassetti. Eu não quero pensar nele, mas penso muitas vezes. Penso neste peso irreal que nos transcende, concreto da fugacidade dos dias, do tempo. Penso na alegria, na pessoa feliz que sou, grata e em toda a impossibilidade de explicar tudo, na aceitação de factos; no bosão de Higgs, na inutilidade dos objetos, na inutilidade das revistas cor-de-rosa, no recreio mediático sobre a Licenciatura de um Ministro e na capa desta semana de uma revista reputada: os EUA morreram? Eu sinto que tudo isto já aconteceu, outrora, quando não existíamos, e os nossos velhos sonhavam com i-phones. Voltará a acontecer, quando não existirmos, e alguém há-de pensar que o futuro já aconteceu.

Fico com a sensação de que todas estas preocupações são universais, já foram (não seríamos nós, seres bizarramente excêntricos para os nossos antepassados?), servem-nos de mistelas high-tech e ilusões capitalistas e entorpecem-nos (e nós deixamos) e, também por isso, falhamos o verdadeiro pulo humano: saber como estarmos perto de nós, da nossa natureza e transpor isso para quem virá, não sei, para que faça algo que realmente valha a pena construir, para que saibamos por que razão isto que sinto é um lento e constante dejá-vù. E que construir alguma coisa signifique não deixar que enquanto uns se deitam, por agora, nas praias de Verão, deste lado do globo, outros se deitam em córregos de sangue, numa Síria tão perto.

Sei que tudo isto até aqui soa a filosofia de botequim-deve sê-lo de verdade-, talvez porque todos os gestos me incomodam e há suspensões do pensamento que me levam a considerar que se há um fim, zás, agora estou daqui a pouco não estou, ou o que o Rubim diz, por outras palavras, ser o estado do não garantido - por que razão temos um ciclo transitório, existimos. Eu sei, todo este latim não vale nada, que bem posso ter acordado num outro planeta. Pior, no entanto, é perceber que esse mesmo planeta, é o meu próprio corpo. Eu juro que não ando a ler Kafka, muito menos a tomar Ayhuasca. 

quinta-feira, julho 19, 2012

Onde está o Rei dos Queijos?

Sempre que eu aparecia para um café ao fim da tarde a senhora de cabelo curto perguntava-me:
-A menina já voltou do Brasil? Como tem sido lá?
E depois trazia-me o café e a fofa Clarinha para acompanhar, que eu degustava sempre com a mesma lentidão de quem prova pela primeira vez. Lugar exíguo, espelhos empoeirados, ferros oxidados, vitrines a esconder garrafas de vinho do Porto e o whiskey nunca abertos e que, com certeza, o tempo e o ar avinagraram. Havia aquele som metálico das moedas na máquina registadora, uma cadência hipnotizante e que remotamente nos transportava para tempos onde a polifonia dos telemóveis não era sequer uma possibilidade. Sentia-me em casa, por ali. Abria o caderno e ficava a ouvir, numa bisbolhotice quase imposta pelo pouco espaço daquele lugar familiar. Cumprimentava sempre o senhor de óculos fundo de garrafa à entrada, mas ele nunca me reconhecia. Era simpático por natureza. Um olá menina não chegava a ser indiferente, mas era gratuito e relativo. Pairava no ar. A certa altura, em tardes com mais calma, ficava a saber a vida de uns e outros. Que a velhice é um estado de auto-comiseração para uns; um estado precoce para outros, uma simpatia para outros. Deixava-me estar. Agora que faço as contas, faz mais de dois anos que não lá vou. Há uns meses tentei levar várias pessoas aquele canto especial no centro do Porto, mas deparei-me sempre com o mesmo bilhete na porta: "Fechado por motivos de saúde". Não consigo perceber que doença prolongada será esta que acometeu o Rei dos Queijos. Anda esquecido, faz-me falta, faz falta ao Porto. 

quarta-feira, julho 18, 2012

Filmes, metro a metro e eu dentro dos frames

Nunca estive tão envolvida com os frames como desta vez. Ando dentro deles, parece. É isto: vilanagem, esta é a minha nova aventura: a sétima arte, em modo curta. Com argumento e realização de Rui Pilão, direção de fotografia de António Morais, contracenando com a pequena Sofia e Artur Miguel Moreira Rubim; maquilhagem de Marta Ramalho. Espreitem. A Ju Vaz é assistente de câmara e o Francisco Lobo assistente de realização.https://www.facebook.com/pages/Desespero/467881563222629


sábado, julho 14, 2012

Hilda, camas estranhas

Com corpo a rodar mundo. Com as costas moldadas às noites cálidas, frias, mordazes, cautas, perigosas e de sexo. Corpo na rede. Bunda em lençóis brancos, a olhar tectos azuis, azul-cueca, sofás, colchões fofos, varandas, chão, areia, barco, assento de avião, ônibus, carrinha, motéis, camas de hotéis duvidosos, sem janelas, sofás extensíveis-cama, bem acompanhada, no teu corpo, carne-na-carne, mamilos almofada, barriga repouso de mão, cadeiras, mesas, camas de solteiro, colchões no chão, taco-a-taco, duros, cimento, no teu colo, no colo deles, nas tuas mãos, no teu regaço, no arpoador, na rocha, colcha de nafetalina, solteira, de casada, no sótão, águas-furtadas, beliches, no mosteiro, na pousada, guest-house, acampada, debaixo da tenda, debaixo da árvore, no tecido cálido do teu véu de derme, na carpete, no azulejo, sempre em cama alheia, na dele, dela, dele, dela, dele, dela, duras, tão duras de solteiras, casadas, tão atadas, poltronas, divãs, sagradas, benzidas, amaldiçoadas. Só durmo em camas estranhas e começo na minha, que o corpo foi feito para voar e dormir em nuvens.

quarta-feira, julho 11, 2012

ardo maria, ai

Parece que as musas vão despir Camões, outra vez. Esta quinta-feira, 12 de julho, a performance ardo maria, ai (teatro, música e poesia) será às 17h, no Largo São Domingos, em frente à ESAP. Um fim de tarde com traição, amores e desamores, perdão, mil mulheres, suspiros, Lianor e pífaros leiteiros, dizem as más línguas. Venham, venham que nós vamos lá estar a encantar homens e mulheres, a seduzir a chama bruxuleante do Amor. 



quinta-feira, junho 21, 2012

Lenine é vírus de incubação crónica e eu tô infetada

Donde esta veio há mais, mas convém degustar, lentamente. Meu amado Lenine, semana passada, em Toulouse. Sem filtros, máscaras, tratamento de imagem, sem retoques, apenas zoom (70-200mm e marca de água, com direitos de autor)


quarta-feira, junho 20, 2012

Rio+20

Na boa: de que adianta um documento higienicamente aprovado por 193 "líderes mundiais", nessa Rio+20, para o desenvolvimento sustentável - aliás conceito higienicamente ignorado pelos mesmos senhores do mundo na hora de brincar com calculadora - sem medidas concretas, compromissos, critérios, punições... Passos em diante para uma economia sustentável, preservação de meio ambiente, sustentabilidade quotidiana nos direitos fundamentais? Tudo isto soa-me sempre a uma pesada e tácita hipocrisia diplomática. É o papel, a teoria. É a mesma coisa que fingirmos que não vemos, não ouvimos e não denunciamos... É pouco muito pouco, é um nada!

terça-feira, junho 19, 2012

A Calcedónia não é um fenda, é nós


Se me tivessem dito que iria subir pedregulhos sobre pedregulhos, sem poder voltar, durante uma hora, com uma Go Pro na cabeça, roçar a bunda na pedra,  passar entre fendas de pedras seculares, resvalar granito abaixo, ver abismo e gelar, esmurrar os joelhos, subir pelo corpo de uns e outros (ora joelho, ora ombros, ora braços), com a necessidade de escaladora semi-profissional, eu não acreditaria. 

Pior: eu nem sequer teria alinhado. Eu e mais quatro, que o António, o quinto elemento, estava com vontade por todos nós, era bem capaz de ir sozinho e dizer que nos poderíamos encontrar ao fim do dia, enquanto, com certeza, escalaria pedra sobre pedra, qual lagarto que se agarra à geologia. Era toda uma tontura vê-lo subir àquelas pedras. Mas pior era quando, minutos depois, nos apercebíamos que teríamos de fazer o mesmo. 


Primeiro passar as mochilas, depois... bom, depois transpor gigantes de pedra, sempre a subir, que a coisa era agreste, íngreme e ainda bem que ninguém se lembrou do filme 127 horas, em que um alpinista fica preso no Canyon. Lembrar não lembramos mas A. fez questão de referir ("Vá pessoal, espero que nenhum de vocês tenha visto o filme 127 horas". Só podia estar gozar né?).  Acho que, por isso, a adrenalina acabou por nos anestesiar e uma vez lá, de lanternas munidos e o farnel na mochila (ao menos fome não passaríamos), seguimos como equipa maravilha. O Paulo na retaguarda a servir de escada, A. como batedor, e as miúdas, nós, na obediência a confiar nos homens das cavernas. Deve ter-nos vindo alguma reminiscência Neandertal e lá achamos que o instinto de sobrevivência deles haveria de nos carregar a todas.  



 Foi por isso que subimos até ao céu. Rocha sob rocha. As mãos assolapavam-se à pedra, os pés serviam de estacas provisórias, os joelhos de molas e lá fomos. Ao início nada denunciava que assim seria. Um verde imenso, sim; havia declives e A. não teve bem a certeza onde era a entrada. Encontrou-a. "Alguém é claustrofóbico?". Mudos, todos. Ninguém teve coragem de perguntar o grau de claustrofobia a que ele se referia.


Advertência, depois das lanternas na mão: "Malta, a partir de agora é o seguinte: isto é trabalho de equipa. Não saímos dali de dentro sem a ajuda de uns e outros. Ajudamos sempre o que está atrás de nós. Eu vou à frente e o Paulo fica em último". Obedecemos e, mais uma vez, ninguém teve coragem de reagir quando viu a fenda da Calcedónia, em plena serra do Gerês. Quer dizer, o Paulo estrebuchou: "Tens a certeza de que nós cabemos ali?" Silêncio. E seguimos. 


Primeiro veio um arrepio na barriga, depois uma ansiedade no peito, depois uma coisa que nós não sabíamos o que era, mas que eu quis pensar que era a tal da adrenalina. À medida que avançávamos, mais íngreme se tornava a escalada e mais intransponíveis e maiores pareciam as pedras. Um jogo de corpo que se molda à pedra, e porque os membros servem para mais uma dezena de funções acrobáticas que desconhecemos. 

Houve uma pausa. Houve espanto. Houve êxtase e de que a vida é bela. Houve o júbilo de que este lugar é incrível. E, sim, muitos momentos em que apesar de A. conseguir transpor os gigantes, nada garantia de que cada um de nós conseguiria com tamanha destreza e competência. 





No final, uma sensação incrível de liberdade e uma paisagem de desafiar as leis que atestam que precisamos de ar para respirar. Acho que respirei uns segundos sem ele. O espanto é paralisia temporária. 




O almoço veio, em cima das pedras, vendo este vale imenso. E, agora que sabemos, seria apenas o reforço do que nos esperaria para a segunda parte. Acariciar ainda mais o céu, no topo das pedras que fazem a fenda da Calcedónia. De resto, só nos ocorreu o seguinte: de que toda esta aventura é um resumo do que precisamos para a vida: não há impossíveis, nem problemas intransponíveis. O que parece um pedregulho intransponível é apenas uma coisa à espera que lhe detectemos a falha, com o nosso corpo moldado, ajudados pelas pessoas que melhor nos querem. E eu tenho os melhores amigos do mundo!


Revista Pessoa on the road

Galera é o seguinte: a Revista Pessoa acabou de sair do forno e Mirna Queiroz e Luiz Ruffato (nossos cozinheiros) ainda estão na cozinha. Cheira a bolo de fubá, uxi, carambola, açaí. Nós na roça. Tem Guimarães Rosa, Marçal Aquino, mar sem fim e matéria minha sobre a Amazônia. É de comer. É a revista que fala nossa língua. 

Aqui fica o LINK. 

segunda-feira, junho 18, 2012

Falta justificada

Hoje é dia 18 e eu não sei por onde começar. A Dora diz que sou como o lume das bruxas, não paro quieta. Que não se me põe a vista em cima durante um mês e já se tem um mundo de desatualização. Até pode ser, mas não penso muito nisso. Só que agora que penso nisso, começa a fazer algum sentido. Isso uma vez que há memórias recentes que me parecem tão longínquas, remotas mesmo, como se anos tivessem, vestidas de um casaco puído, com ombreiras e remendos. 

Apercebo-me, e o tempo também disso é responsável, de que ardo em chama forte. Ardo em combustão lenta, pujante, com repulsa ao gelo da monotonia. A vida só faz sentido para mim assim, vivendo-a com uma intensidade que rompe, todos os dias, com uma estrutura consolidada, como se precisasse de nascer todos os dias, mas com uma memória de vivências e aprendizagens que não se sabe muito bem de onde virão. Reinventar é, pois, um mantra. 

Neste preciso momento em que escrevo, Junho, não o parece. O ano ainda só agora começou - relembro que o comecei a levar com um globo de espelhos de dancetaria (o que só prenunciaria, realmente, que seria um grande ano) - e já vou a meio dele, com tanto mundo, gente, vida e aprendizagens. E viagens. E páginas folheadas e wishlist 2012 deliciada. E com tanto ainda para fazer. Parece que o mundo me pôs numa estrada de Fórmula 1 e eu virei piloto profissional, por aí, a 300km/h, com muito estilo, qualidade e com a melhor equipa na pit stop. 

quinta-feira, maio 31, 2012

Marrar em tempos modernos

Hiberno, eu tento, mas não é possível. A nossa caverna, agora, tem Facebook, twitter, vimeo, jornais online, youtube, sites, mensagens, telemóvel. Eu tento: desligo o telemóvel e, quando ligo, logo martelam mensagens de voz, mensagens escritas, multimédias, notificações. Aprendi, surpreendo-me, de que sou a high tech lady in a ultra high tech world. Muito diferente dos meus tempos de Faculdade: havia os apontamentos, as fotocópias. Ponto final.

Porém, eu até gosto, assim como gosto de desligar e amar com um livro no colo, deixando a relva do Palácio, do Parque da Cidade, ou do Jardim Botânico, folhear as páginas dos meus livros silenciosos, da minha pele. Do sol a roçar-me o rosto. E, nestes dias, redescobri o que é ser ermita para o estudo, por agora.

Nunca desligo, nunca estou absolutamente concentrada, e estou, porque sou uma miúda altamente visual no exercício do estudo. Preciso do estímulo para entender e consolidar conhecimento. Dos meus esquemas a tinta no papel em branco, aos sites de podcasts e vídeos sobre o tema. Porque os Direitos Humanos são transversais, indivisíveis, intersectoriais. É nisto que ando mergulhada para o exame que me espera sábado. Ao menos não poderei dizer que não me divirto, apesar da obrigação. Tornar a disciplina numa reinvenção hiperactiva (porque eu continuo com o síndrome dos bichos carpinteiros). E estudar, para mim, revelou-se isto, em tempos contemporâneos, estar antenada em reclusão. Vou só ali ler mais um pouco sobre justiça de transição: o direito à verdade, justiça e reparação. Talvez encontre algum romance sobre o assunto e me perca durante a tarde com a Literatura. 

segunda-feira, maio 28, 2012

introdução à espionagem


Talvez seja o meu lado Mata Hari a pôr-se na pele aflorada, não sei. Ou, então, talvez me tenha entusiasmado com este caso das secretas em Portugal, que pôs todo o sistema de segurança nacional em causa, a propósito de alguns espiões fajutos e da mais baixa estirpe, esgoto abaixo. 


Em todo o caso sempre gostei de filmes de espiões, bandas sonoras que remetessem para o género e ouvir a música de "O Santo" dá um certo arrepio suspicaz na espinha, como se tivesse sido escrita a pensar em mim. Adrenalina boa, acredito. Depois, há os filmes do 007 sempre clássicos para ver e rever em casa e sempre me imaginei a fazer aquelas acrobacias intelectuais para fintar o inimigo, soltando o lado estratega que há em mim, na ficção, já que na vida real, ele passa-me ao lado, mas com estilo e muita pinta. 


Acho que com alguma competência poderia aprender línguas e mudar de sexo, quem sabe. A missão Bond Girl sempre me pareceu demasiado desinteressante, por isso acredito que com um exímio treino como deve de ser poderia, pois, num mundo paralelo, quem sabe em noctívagas investidas, dedicar-me à arte da vida dupla, ao serviço de sua majestade inventada. 


Enquanto tudo isso não se materializa, posso dar-me por satisfeita por folhear o preâmbulo do manual da espionagem. É que este é o meu mais recente brinquedo oferecido por A. Quem sabe o meu Padrinho na arte "undercover". 


A russa Kneb 30 que anda nas minhas mãos (vintage russian spy camera), trazida diretamente da Jordânia, onde posso ver a vida a 16mm, subrepticiamente (o rolo há-de estar a caminho) dá vontade de responder: my name is Bond, Vanessa Bond!

quarta-feira, maio 23, 2012

A Barbearia #1

Planeta macho, aprendam: 96% das mulheres adoram que vocês lhes beijem o pescoço.

quinta-feira, maio 17, 2012

O fogo, silêncio da combustão do tempo, literatura, as palavras que nos queimam; Andrea del Fuego

O texto que escrevi para o o Colóquio Tinha Paixão, Literaturas Brasileira e Africana, ja esta disponível para ser lido e partilhado. Deixo-vos aqui um pedaço de FOGO.

"O fogo é uma serpente, bruxuleante - labareda que lambe o ar - e perto do papel fica ansioso, visceral, numa obsessão compulsiva, com transtorno pirotécnico, até que queima, funde-se no papel, ziguezagueando o ar; deixa cheiro de ardência em toda a casa (assim como há livros que nos queimam, ardem lentamente, ou nos atiçam chamas ao pensamento); deixa esse odor, bronzeado pelo leve queimado, talvez um pouco de fuligem no final, coisa mínima, e a acre fragrância de uma página que perdeu a vida. Já experimentaram queimar uma folha de papel? Não vos deixa a ideia de poder?, de recomeço, de impermanência, mas ao mesmo tempo de um alívio infinito, como se o tempo meditasse por nós?" 

O resto esta aqui em PDF.
E ainda uma brincadeira áudio que não chegou a ser veiculada no Colóquio por falta de tempo, mas que agora vos deixo:

terça-feira, maio 15, 2012

Paixão, o entorpecente, double shot



A paixão é uma equação curiosa e rasteiramente invariável. Apesar de o nome ser o mesmo, no célere rastilho de seus sintomas, ela é sempre uma outra coisa, variando desta para aquela pessoa, deste para aquele cara, de olho em olho, de boca em boca, de mão-dada-em-mão-dada, de colo-em-colo. 

Decidi, por isso, há alguns anos dedicar-me ao tema e andei por aí, me apaixonando em overdoses. Esse era o limite. Quando viesse o resto, o termómetro dispararia. (Ainda não tinha o telemóvel da moda, senão, em vez disso, teria colocado um lembrete com alarme double-shot, de 5 em 5 minutos). 

Só tendo um significativo universo amostral poderia, pois, inferir sobre, concluir, tirar as devidas ilações, tendo-me como único mas excelso membro honorário do júri. O veredicto (além de servir para desiludir o universo feminino: não, miúdas, eles não são todos iguais) é o de toda uma ciência onde entram exarcebadamente vários processos químicos, sem idade, e onde a equação inicial: corpo-a-corpo é mutante, para resultados díspares.
Agora, sabemos, há um pré-operatório essencial nesta orgânica, para que quando estivermos no processo da cirurgia, a revirarem-nos todas as vísceras, não nos doam as pancadas das loucuras que cometemos, como, e para ser bem eufémica: passar noites em branco. 

Nesta sondagem in loco, um inquérito corporal, de degustação evidente, apercebi-me de que é um entorpecente poderoso, capaz de pôr o mundo em silêncio ao redor, girando, enquanto o psicoactivo faz efeito e todos nos chamariam de tontinhos, resolver conflitos israelo-palestianos, diferendos religiosos, disputas domésticas. Somos astronautas, exploradores e nómadas, funâmbulos, pássaros livres sob alto mar. Somos tudo e temos o mundo aos nossos pés. Somos capazes, inclusive, da proeza de enganar o tempo. Sob este entorpecente contínuo a indústria relojoeira, parece, entraria em colapso. 
Além do mais, vencendo este exercício continuamente, como não haveria tempo para guerras e intrigas, porque todos estariam, esses ocupados torpes, concentrados na velocidade do beijo, no tratado da biologia das mãos, a fundamentação da metafísica do corpo e a temperatura a que ardemos por dentro, o mundo seria um lugar altamente recomendável para ficar toda uma eternidade. Só não sei se haveria espaço para todos.    

segunda-feira, maio 14, 2012

Andrea del Fuego no Tinha Paixão

É hoje minha gente. Nos Maus Hábitos, no Porto, a partir das 18h30, no Colóquio Tinha Paixão,  Literaturas Brasileira e Africana. Já anotaram na Agenda? Falarei sobre a escritora brasileira Andrea del Fuego, prémio Saramago 2011, autora do livro "Os Malaquias". A sessão contará, ainda, com apresentações de Ana T. Rocha, que falará sobre a escritora são-tomense Conceição Lima, e o Prof. Dr. Pires Laranjeira, a propósito do autor angolano João-Maria Vilanova. 

Além disso, haverá after-session: com a presença do escritor Luandino Vieira (exposição e venda dos livros NOSSOMOS), e uma atuação musical de Paulo César Anjinho e Marcos Mesquita Damasceno. SARAVÁ!


sexta-feira, maio 11, 2012

Os dedos do homem que voava no piano (e a imagem que nunca terei)

Copyright de Bernardo Sassetti
Imagem/Copyright de Bernardo Sassetti
Não sei medir a dor, mas com ele a dor era bonita, intensa, catártica. A dor de criar, de libertar a alma e a inteligência lírica, em notas de música, enquanto as cordas eram percutidas por martelos accionados pelas teclas: ora brancas, ora pretas. Acordes, deslizes no marfim, ébano, acidentes e bemóis.


Deviam ver como elas voavam. Brincavam com as partículas de luz, dançavam com a vibração, e sorriam como se dissessem que a vida é esta festa sensível e mágica de vivenciar a criação como num estado de êxtase. E o feiticeiro desta magia era o Sassetti. Neste sapateado etéreo estamos em transe, acordados, transmudando a pele para ler o mundo sensório como cortina transparente: tamisamos cirurgicamente o estímulo que nos dá. 
Elas saíam primeiro da linguagem sensorial, só dele, metiam-se nas mãos e, depois, pegavam-se às pontas dos dedos, como se a ganhar impulso para o librar etéreo. Plumoso estado; penas serpenteando a brisa, o sopro do mundo, como este, agora: perniciosamente fugaz. 

Antes de se dissiparem na orgia, as notas acasalavam, pariam filhos que, efémeros, logo percebiam que o mais importante da passagem por aqui é juntos sermos melhores do que no isolamento do ego. Elas entrelaçavam-se, voláteis e coloridas, para a melodia e, depois, livres, desapareciam. E dissipavam-se mais lentamente com a música "O Sonho dos Outros", a minha favorita. Tanta paz!

Eu sei que tudo isto é um mundo invisível, mas posso jurar que as via e com elas estremecia. Eu via os sons. Via sempre as notas nos dedos do homem, o Sassetti, que voava no piano, mesmo que ele não estivesse. E, sem asas, voava como se estivesse a solo com ele, da mesma forma que via como a cabeça dele pairava, deixando apenas a matéria, embora dentro ardesse um fogo criativo que só os génios conhecem. E eu conheci o génio numa tarde em Lisboa, no espaço do BES, na Praça Marquês de Pombal, por causa do Nelson. Fomos para uma reunião de trabalho a propósito das belíssimas fotografias a preto e branco que o Sassetti fazia. Pequenos fotogramas cinematográficos com movimento, pautados pelas texturas do PB que ele usava como se fossem notas musicais. Pautar a vida. 


Havia o si bemol que era a madeira das janelas do bairro Alto; o SOL de Lisboa, os cantos de LÁ, a sombra de SI, uma geremia, DÓ, nos contraluzes; (ma)RÉ em convulsão; FÁ no parapeito, bela e de cabelo apanhado; e um MI(o) que se impunha, ciumento. E havia Chicago, Rabat, o aeroporto, o táxi, o hotel, as imagens que não entendíamos, os auto-retratos.  


Nesse dia, ele apareceu de câmara fotográfica digital ao peito, nariz generoso, blazer coçado, desgrenhado, grisalho, onde o terno e genuinamente pueril olhar parecia destoar da figura vincada que era. Os fios dos cabelos estavam desalinhados, como se ele tivesse vento nas veias, que levava o turbilhão de pensamentos que o acometiam, em nanosegundos. Para ele, criar era biológico, como ar que respiramos, como se lhe faltasse oxigénio diário caso não o fizesse. 

Hoje o Sassetti foi-se e eu ainda não consegui enxugar o rosto. Há hiatos de tempo da nossa vivência em que nos situamos num portal entre o que consideramos a realidade e a não verdade. Uma espécie de mundo intermédio. 

Estou com as mãos agarradas a um lado e outro, mas os meus pensamentos e corpo estão na ponte suspensa entre estes dois mundos, porque, de alguma forma, ele era parte da família. Era um homem próximo, cuja vivência acompanhava. Até porque uma vez na vida dele era impossível sairmos. E, depois, ele devia-me uma fotografia: a fotografia que me tirou, sobreposta a uma outra imagem do BES Photo, exposta nessa galeria na rotunda do Marquês do Pombal. Era a imagem de uma mulher de cabelo apanhado, escuro, vestindo um xaile preto e um nariz pontiguado, esguio e metido. 


Começou a valsa das coincidências. 


Era como se eu me olhasse ao espelho, mas foi ele quem percebeu das semelhanças. Era como se, também, nesse momento eu tivesse ficado agarrada ao mundo intermédio, dentro do sensor da fotografia: o meu perfil, a minha roupa, mulher, iguais à imagem exposta. Num click, Sassetti imortalizou-me, escrevendo com luz, noutra forma de dançar com a vida, de fazer melodia, parir filhos efémeros. 


Pedi-lhe, várias vezes, "a fotografia magnífica" - como simpaticamente lhe apelidou-, mas era tanto ar naquela cabeça genial, que ele ficou adiando para quando pusesse "a casa em ordem". Cobrei-lhe a imagem, semanas depois, no mesmo dia em que fui ouvi-lo, na véspera de 25 de Abril, em 2009, quando ele tocou em Matosinhos junto com o Mário Laginha. Lembro-me da voz suave e baixa a dizer o meu nome: "Vanessa". Lembro-me do abraço e do ar desse abraço. Lembro-me do arranque dele de carro para regressar a Lisboa e do Laginha gritar: -"Põe segunda [velocidade]". Em primeira ele, o pianista louco, terno, generoso, tentava voar, sim, embora desafinasse um pouco com os pneus, porque voava mais ao piano, e eu nunca tinha visto um piano voar. Continuas aqui. Obrigada por teres partilhado o teu mundo interior connosco. Até à próxima querido Sassetti.





quinta-feira, maio 10, 2012

Sonho Americano

É hoje vilanagem. Ide ouvir. "Sonho Americano" na antena da TSF, para ouvir depois das sete da tarde, a seguir ao noticiário. Grande Reportagem desta nómada das histórias, com sonoplastia de Joaquim Dias. (Esta reportagem foi realizada ao abrigo da Bolsa de jornalismo José Rodrigues Miguéis da Fundação Luso-Americana)

  

quarta-feira, maio 09, 2012

As gaivotas devem estar doidas




Não é preciso abrir a janela para ouvi-las. Oh, oh, uh, uh, uh... Grasnam que nem loucas de cio, pipilam ao copular e, outras vezes, como se o sexo não as satisfizesse, guincham de dor (que também pode ser prazer, vá-se lá saber as práticas sado-masoquistas destas aves marinhas e o que fazem com o bico). Posso jurar que já as ouvi grasnar, mais gravemente, para anunciar que o sexo foi liberado geral na via pública e, com a loucura, estão, pois a ser violadas pelos seus pares. Porém, acredito, tudo isto é psicológico, porque mesmo à bruta elas até gostam. E é isto que nos aproxima a nós, portugueses, destas marias-velhas: andamos a ser comidos à bruta com a palavra efe e até, parece, gostamos. Temos um prazer especial sado-masoquista, mas isto não é da agora, está-nos na genética e uma vez velhos do restelo, sempre velhos do restelo, porque pau que nasce torto jamais se endireita... e por aí vai o cliché dos adágios de portugalidade.
 As marias-velhas andam pois doidas, fazendo ninho de amor onde calha mas, pelos vistos, os telhados das casas ao redor do cafofo, onde temporariamente, às vezes, moro, são o centro do forrobodó. E a insanidade nas gaivotas não é melodia agradável para os ouvidos (faz um pouco lembrar o discurso do Pedro Passos Coelho, na realidade, mas com um pouco mais de coerência).
Estou, pois, convencida de que a invasão de atis começou, fazendo da rua um motel a céu aberto. Este cenário leva-me a uma premissa: as gaivotas são, de longe, muito mais inteligentes que nós: guincham de prazer, fazem amor e não a guerra e, no fim da cópula, talvez encontrem temporariamente a paz, mesmo sem o abraço gostoso de carne-na-carne, que também não podem ter os louros todos. E, apesar de me acordarem às cinco da manhã, quem sou eu para questionar a felicidade da natureza que anda assim em júbilo. Talvez devêssemos aprender alguma coisa com as gaivotas.  

Ai, os demónios

“Escrever um livro é uma batalha longa e exaustiva, como lutar contra uma doença grave. Só se empreende uma tarefa dessas movido por algum demónio que não se pode vencer ou compreender.” George Orwell

terça-feira, maio 08, 2012

segunda-feira, maio 07, 2012

Somos todos um bocado ciganos

O meu querido amigo Manuel Jorge Marmelo tem novo livro e isto é sempre literatura da boa, minha gente. "Somos todos um bocado ciganos" tem a chancela da Quetzal e esta promete ser uma prosa diferente, mas com a exímia forma de brincar com as palavras e tratar a Língua Portuguesa com a nobreza de carácter. 


sexta-feira, maio 04, 2012

Rica, social?

Diz-me Hilda: All I wanna do is have some fun... Chega de trabalho, please!

Quando a vida é o livro (ou múltiplas curtas-metragens)




Ando temporariamente privada do Mal de Montano (como desfia Vila-Matas no livro com o mesmo nome), por razões que desconheço, que é o mesmo que dizer que consinto uma certa desenfermidade de literatura; o que me preocupa. Desenferma - vamos ver se nos entendemos - é no que diz respeito a estar desprovida da enfermidade crónica que me acomete e que se chama Literatura, mas, simultaneamente, contaminada pelo veneno que ela destila em mim. 
E, antítese pela antítese, para simplificar o aparente nó filosófico que aqui se fia em quase pleonasmo metafísico (enferma da desenfermidade), posso dizer que tenho padecido desse mal: não tenho lido nada, deixo os livros empilhar-se na mesinha de cabeceira, na mesa de trabalho, no chão; e por muito nobre que a obra seja para seduzir a minha fraca carne que se perde pela paixão exarcebada que o amor pela arte pode ser, neste caso pela Literatura, não consigo que os meus sentidos se interessem, ultimamente, pelo tempo da leitura, pelo mergulho mágico de entrar num livro. 
Verto esta geremia por aqui uma vez que me apercebo da suspicaz sensação que tenho experienciado, apesar da privação: - e se realmente, fosse eu, personagem de um livro, toda uma paisagem íntima urbana e emocional, veias de páginas, naquele que poderia ser considerada a materialização do efeito metaliterário. Não digam a ninguém, mas imagino-me ninfeta de um livro que se inventa, que se converte em seres múltiplos, consciente disso, com muitos outros dentro de nós próprios. Não digam portanto a ninguém que estes dias ando, eu própria, a Literatura de mim, folheando-me com o tempo a passar. Um dias destes ainda serei cinema, sem erros de raccord, porque a vida destes dias, anda quase em loop de várias curtas-metragens. Venha a longa, com Literatura. 

terça-feira, maio 01, 2012

Hilda: - Stravinsky harmoniza com Tolstoi e a chuva na janela

Encosto a minha cabeça ao Tolstoi. São volumes que me afagam o cabelo e já é tarde. Quase cedo ao mergulho em apneia. Sonharei com livros? Viverei as histórias deles, num sonho? De quantos sonhos preciso para viver um capítulo? Ainda penso nisso, estendendo a suavidade dos meus desejos, mas não te digo, não a ti, nem a ele. 
Será cedo, demasiado cedo. E ainda seríamos cúmplices pela manhã. Pedimos o sumo de laranja, juntos. Bebemos a água. Fomos até lá casa para embalar a noite e, afinal, só queremos água, porque temos sede, dessas palavras: do Bolaño nas prateleiras, dos volumes da obra completa de Jorge Luis Borges, de Pessoa, os ensaios críticos, de Walter Whitman, de Dostoievsky (tinhas "A Submissa" fora das estantes, onde andaria?). A cama está por fazer; andas há dias para lhe pôr novos lençóis, que eu faça o que quiser, que ele também, e afagamo-nos com os livros na cabeça. Agarro a almofada e cedo-me ao chão. 
Há mais um cigarro; e o fumo sorve-o o ar como incenso bruxuleante em direcção ao nada. Há éter e o que somos. Fecho a janela. Começa a luz a subir e Stravinsky com ela, a librar; libra na luz da manhã que se acende e este silêncio de rua deserta, de não-lugar, de pássaros madrugadores. Tão tarde e nós, a três, a sermos cedo e precoces, enquanto olhamos a íris, o nariz, os lábios e destilamos palavras: sedutor, misterioso, pontiagudo, judeu, empinado; com os olhos a enfrentar tempestades e vendavais. Serão os meus, e eu enterneço-me. Juntaria o melhor dos dois e nada a reclamar. Desejo os dois de forma diferente e outro para amar. Perigoso, magnético, uma intensidade, doce. E eu tão sol. Tão nuvens brancas sob o azul techicolor que vi esta semana a 15 mil pés. Estava assim. E falavam. Obturador, lentes, diafragma, e mais de cem câmaras a tanger o olhar; que vês, assim, com o olho direito quando todos vemos com o esquerdo olho. Agora o oboé, entras na dimensão onde queres que viajemos. Ainda lá vamos, mas eu prefiro a chuva lá fora. Ouve, começou a gotejar no vidro. O baque seco no zinco das pesadas bátegas que o céu lacrimeja. Tão deliciosamente confortante e calmante. Como gosto. Gostamos. E, para isso, interrompemos a sede de palavras. Desencosto a cabeça do Tolstói, dos volumes que me afagam a cabeça e venho à tona. Dormimos? Sem malícia e vontades do corpo. A três, vamos dormir a três, um contra a parede, o meio, eu, e mais perto da luz. Tão quente, luz fria e os nossos pés enrolados no fim. Encosto a cabeça à almofada. Tolstoi não reclama e a chuva imita Stravinsky. Vou sonhar.

domingo, abril 29, 2012

sexta-feira, abril 27, 2012

segunda-feira, abril 16, 2012

Na Cabeça de Mãe

"Na Cabeça de Mãe" é um texto sobre a fome de Valter, os filhos paridos, as malandrices da infância, um cachopo hiperactivo que mora num pátio amarelo e prefere as persianas fechadas para criar. Tentámos entrar na cabeça daquele que o Nobel da Literatura Portuguesa, José Saramago, chamou de "tsunami literário". Assino a prosa para o blog da editora brasileira Cosac Naify, a propósito da publicação de "O Filho de Mil Homens" de Valter Hugo Mãe, no Brasil.

Podem ler AQUI, oficialmente.



Wishlist 2012

Acho que me esqueci de a fazer, mas vamos sempre a tempo, porque, parece, o ano só começou para mim estes dias, depois de sobreviver a um acidente de carro e a estilhaços e despojos de uma guerra imprevista, interna, consta; de azares e outras coisas mundanas que mais parece que alguém há-de ter rogado uma praga (antítese de mim), como se estivesse destinada a dar errado. Mas vai dar tudo certo, sabemos. E eu deveria ter sabido de como seria o arranque de ano porque comecei-o a levar com uma bola, que parecia globo, forrado de espelhos, tipo anos 80, precisamente no primeiro do ano, na cuca. Foi a primeira pancada na cabeça, ou galo; a segunda viria em finais de Fevereiro num bar-café do Porto chamado Candelabro, com direito a gelo e nódoa negra e aquele alto de galo cantante. O terceiro (e de vez) depois do acidente. Cumprida a tríade de poleiro na minha cabeça, acho que estou apta para reinventar a vida e sacudir coisas velhas. Daqui em diante, recomeçamos, porque no fim, sempre o fazemos. Logo, a wishlist 2012 tem vida:

- Viajar-viajar-viajar;
- Fotografar;
- Realizar os projectos planeados (work in progress);
- Voltar ao desporto intensivo (já estou a tratar disso) e a uma arte marcial (idem);
- Fazer um curso de medicina védica (check);
- Escrever aquilo; plantar a árvore e o filho há-de vir para depois;
- Viver um grande amor (disse-me um passarinho verde).  
- Mimar e continuar a ser mimada pelos amigos e meus;
- Realizar e viver algo novo, não planeado.
- Mens sana, in corpore sano.
- Ir
- Não me esquecer de me lembrar de mim acima de tudo. Está visto que ninguém merece a perda da nossa energia.

quinta-feira, abril 12, 2012

Contra o Dia


Contra o dia, Thomas Pynchon (Companhia das Letras, Brasil)

“Isso durou um mês. Aqueles que julgavam ser um sinal cósmico estremeciam ao olhar para o céu a cada entardecer, imaginando catástrofes cada vez mais extravagantes. Outros, para quem o laranja não parecia um tom adequado ao apocalipse, ficavam sentados em bancos de praça, lendo tranquilos, acostumando-se com aquele curioso brilho pálido. À medida que as noites foram se sucedendo e nada acontecia e o fenômeno em pouco tempo foi se reduzindo aos tons habituais de violeta, a maioria das pessoas já não se lembrava da tensão, da sensação de aberturas e possibilidades, que haviam experimentado antes, e mais uma vez voltaram a pensar apenas no próximo orgasmo, alucinação, estupor, sono, para que pudessem atravessar a noite e proteger-se contra o dia.”

quarta-feira, abril 11, 2012

O amor é uma droga pesada (?)


Devo ter lido este título algures, porque sinto que ele não veio do nada, mas consegui amarrar os dedos antes de cair na tentação de fazer uma procura virtual para explicar a associação livre. É, na verdade - porque, às vezes, a mentira em que vivemos também nos acomete como se fosse a realidade - toda uma dependência que nos turva a lucidez, quando misturada com paixão, mas até agora nunca me arrependi de ter amado com a toda a intensidade que a vida me permitiu, mesmo que isso signifique ter, no fim, o peito apertado, insónias, saudades, um turbilhão de memórias perdidas, mágoa, e acordar de manhã com a esperança de que tudo não passe de um pesadelo (e hoje até sonhei com vários tipos de cobras), ou de uma piada de mau gosto, porque nos dói, porque temos o peito apertado, porque parece que perdemos a respiração, porque, afinal, e é só nisso que pensamos, parece que nada fica, depois de uma intimidade partilhada. Talvez esteja errada, mas sinto sempre tudo isto à flor da pele, como uma ferida aberta, porque magoa e eu não lhe fico indiferente. Em norma, demora a cicatrizar. E a indiferença magoa-nos. Acho que é o que mais nos magoa. A incólume sensação de um nada e de estarmos, então, a sofrer em vão, pelas razões e decisões que não vêm ao acaso. 

Tudo isto porque a Julie, ontem, disse algo que me assustou verdadeiramente. Que ela, agora no rescaldo do final de uma relação que durava há pouco mais de 3 anos, tinha sentido isto: começara a entender as mulheres que apanham dos maridos. Começara a entender por que razão há mulheres que se sujeitam a tudo pelos parceiros, sem coragem para uma decisão que possa melhorar a vida delas e devolvê-las àquilo a que têm direito: a dignidade a uma vida sem opressão, desprezo, maus tratos. A uma vida. Eu fiquei a remoer naquilo e ia dizer que discordava. Antes disso, ela afirmou que entendia melhor as mulheres que se sujeitam a opressão psicológica, a estarem com parceiros que as maltratam e continuou a tese. Depois rematou: - É, sabem, o Amor é uma droga perigosa. Eu discordei. Posso até nem ter razão nenhuma, porque afinal, não entendo nada do tema, porém apeteceu-me afirmar: - Não, o amor não é nada uma droga perigosa. É algo belo e digno e uma das melhores coisas da vida quando é verdadeiro. No fim da vida é só isso que importa. É que, às vezes, confundimos o que é amor. E isso minha cara não é a amor. Amor deve ser outra coisa. Um leve psicoactivo, mas em pleno direito de dignidade. É só preciso aprendermos a identificar a coisa e isso pode demorar anos. Ainda assim, no meu caso, disse-lhe, sei que era Amor, mas não podia, evidentemente, consumi-lo sozinha, e aprenderei, claro, a esquecer e a transformar os afectos.

Workshop de Escrita/Reportagem de Viagem

Tragam os blocos de notas e vontade de degustar o mundo, com os seis sentidos. Vamos apurar vidas, saborear o tempo e respirar histórias na reitoria da Universidade do Porto nos dias 10, 11, 17, 18 e 25, das 19h-21h e dia 27 de Maio (10h-13h). 
Mais informações aqui: 


Convém desabrochar, porque o amor é uma droga pesada [.1.]


vanessa vem de borboleta...e voa

foto vanessa rodrigues

terça-feira, abril 10, 2012

Trocar de corpo

O Flávio diz que as mulheres quando imitam os homens tendem a abrir as pernas. A Lu tentou arranjar uma explicação para o fenómeno. O Tiago diz que é impossível mudar os papéis: que um homem não poderá ser nunca mulher, e que mulher não consegue atingir o nível aceitável de uma imitação. A mim ocorre-me o seguinte para uma peça de teatro: vamos trocar de corpo só esta noite?

Não tenho Nina, mas gostaria

Há um medidor: farejamos como cães de caça uma boa história, quando lhe sentimos o olor. É um cheiro pegajoso, obsessivo, ao qual ficamos viciados de imediato, sem uma explicação aparente. É um todo sensorial, suspeito, também e demasiado íntimo; porque podemos ficar nus com os cheiros que nos incomodam, que repelimos, ou que nos magnetizam de alguma forma; e eu até sou muito esquisita com cheiros; com o da pele de um homem, com os que derramo em mim, com os que me tocam. Por isso, também tinha de o ser com as histórias que quero contar; que gostaria. 

Porém, sei-o, tudo isto é já intuitivo. Posso até farejar uma boa malha a ser esgalhada, mas se não lhe gosto do cheiro, não haverá rinite alérgica ou algodão manso nas narinas que me consiga disfarçar o aroma. E, para as histórias, que é o que interessa nesta prosa, tudo começa assim: há as primeiras notas: ácidas, mas depois doces e ternurentas, como se a história já fosse nossa e, por isso, já consideramos que harmonizamos, em liquefeita poção boticária, os odores. Já imaginamos as perguntas; temos a história na nossa cabeça e esse é o tesão de escrever, de gostar de contar. Eu sou viciada em histórias, em histórias de gente, em histórias com gente, afectos, emoções, amores, desamores, paixões, vidas vividas, daquelas que conseguimos perceber que deixam cunho em árvores maduras. Adoro o som das palavras, o cheiro delas, o mofado, até, e de as pôr em causa, em improváveis combinações. 

No enredo das conversas, emociono-me sempre e não consigo escondê-lo. O mesmo vale para o meu ar de asco. Já lacrimejei a entrevistar, já me envolvi demasiado na vida dos outros que estava a contar. A escritora Isabel Allende arranjou o antídoto para esta opressão: deixou de ser jornalista e passou a ficcionar. Gosto de juntar o melhor dos dois.

Ocorre-me tudo isto porque hoje outra Isabel, a viver em Nova-Iorque, e de passagem pelo Porto, pôs em alerta o meu faro. E esta história eu gostaria de contar: há uma mulher, branca, hoje com mais de 80 anos, que ela conhece que foi secretária e confidente da cantora, compositora e pianista norte-americana negra Nina Simone, ou Eunice Kathleen Waymon. Confidentes, amigas, cúmplices. Senti a campainha de Pavlov. Senti. Não me perguntem porquê. Mas talvez seja por isto: porque sou apaixonada por mitos para desmistificá-los (um evidente pretensiosismo), mas, sobretudo, para provar a tese de que a linguagem da criação é pura catárse, e aqueles que a encontram sejam um pouco mais felizes e entendam, num outro plano, o que poderá ser o melhor  da vida. 

quarta-feira, abril 04, 2012

A vida em fracções de segundo



É tudo muito rápido, superlativo de veloz e posso afirmar, sem dramatismos, que vivemos a vida num buraco quântico e que tudo o que agora é, poderia, por essa mesmíssima fracção de segundo, nunca mais o ser. Somos e já não somos. Desaparecemos. Vivemos a vida que nos resta, nestas circunstâncias que se seguem, em fracções de segundo. E viver a vida em fracções de segundo, em alta velocidade, é não ter tempo para pensar em mais nada a não ser nisto: morro. Pela primeira vez, vivi a vida do que me poderia restar em nanosegundos. 

Não há luz no fundo do túnel, não há flashback, não pensamos em ninguém, em coisa nenhuma a não ser um vazio preenchido por fracções de tempo do que está acontecer. E o que acontece é uma morte anunciada, o fim do corpo, o fim de tudo, o fim do nada. Já o disse, foi tudo muito célere, enquanto dançava a valsa de um desastre, para voltar. Houve pancada forte na cabeça, no corpo, e um breve e célere desfoque de tudo e depois um negro fundo de apagão real (mas não neurológico) e as faíscas vivas, metálicas, dos rails da estrada a roçar no carro. A mota com sidecar atravessou-se. O meu tio conseguiu guinar à esquerda, terceira faixa, sem ter tempo para perceber se outro carro vinha de ultrapassagem; conseguiu segurar o carro, nunca travou a fundo, nunca reduziu e tomou o controlo depois da elevação da retaguarda que me projectou para o lado direito. 

Sim, depois chorei muito, com a adrenalina a correr pelo corpo, tremendo ao limite do equilíbrio em pé, e sabia que a pancada na cabeça poderia ser grave; ordenei, dolorida, que tinha de ir ao hospital. Ao hospital. Ao hospital. Agarrei-me à cabeça, com as mãos quentes, às dores dilacerantes e agudas e respirei fundo. Respirei fundo, mas as lágrimas não me obedeciam. Ainda consegui pôr uma garrafa de água fria pela nuca abaixo. O raio-x tranquilizou. As dores persistem, mas isso é porque o corpo paga aquilo que a morte não levou, com a sorte de que não tinha agenda para mim, pois talvez estivesse a ouvir piano e ocupada com a paixão, como nas "Intermitências...." de Saramago.

Passadas as 48 horas não houve nem vómitos, nem náuseas, por isso foi só um susto, uma sorte, o que quer que seja, para apenas ir redescobrindo, nestes dias, hematomas e inchaços que desconhecia e um enorme galo na cabeça de ambos os lados. Se sobrevivi foi porque a carta roxa não era para mim e fico feliz por poder estar em dias de Primavera por aqui. 

sexta-feira, março 30, 2012

Em busca do tempo perdido...

...com Proust, naturalmente, a folhear o primeiro volume numa bela e inteligente tradução de Pedro Tamen; há-de depois ser com Becket à espera de Godot e, dizem os entendidos, devo ainda obstinar-me na leitura de "As Confissões" de Santo Agostinho, tratando-se, pois, de um genial tratado sobre o tempo e a relação com a memória, impermanência, e o tecido invisível que nos tolda àquilo que não existe. 
Há, sabemos, esta inquietação pessoal em contar os grãos da areia da ampulheta para, com certeza, percepcionar que essas mesmas partículas, afinal, são a réstia de um futuro que antecipa o presente. Eu explico: certa vez, a minha avó acordou abruptamente de uma das grandes crises que  teve, dois anos antes de ela morrer, e que a sujeitou à inércia vegetativa dos cuidados intensivos, durante um mês e meio. Como estava com uma crónica crise bronco-pulmonar teve de se ser sedada e o cérebro alimentou-se de calmantes, enquanto a fisiologia tratava de funcionar e sanar, dentro das possibilidades, o que ainda lhe restava de vida. Lembro-me do primeiro dia em que a vi naquela lúgubre cama de hospital e ela me perguntou se eu tinha apanhado o relógio do chão. Eu não entendi. Ela repetiu e disse que o relógio estava ao lado da cómoda, mas que ela não conseguira apanhá-lo. Mais tarde, quando cheguei a casa vi que o relógio estava exactamente onde ela dissera e, dessa forma, apercebi-me de que a sua última memória fora essa, e que durante um mês e meio não houve tempo para ela. E como tempo é memória - ou melhor o passado é o tempo que reside na memória, o presente não existe e o futuro tão pouco - só posso inferir que o tempo, claro está, é o truque mais genial que o pensamento nos impõe contra nós próprios numa luta ilusória e que é, paradoxalmente, a nossa realidade viva, que entendemos como verdade e que, assim sendo, o nosso maior desafio do que nos resta de vida é entender a natureza da mente, percebendo que o tempo não existe e que o que realmente há é o mundo que temos dentro. Às vezes calha de alguém se cruzar com o mundo endógeno que habitamos. Ao menos, nesse dia, essa será a verdade. 

quinta-feira, março 22, 2012

(Amazónia) Labirinto Infinito, Grande Reportagem TSF

Pusemos a mochila às costas e, durante 4 meses, perdemo-nos na selva , nos rios e igarapés da AMAZÓNIA brasileira. Hoje, depois do noticiário das 19h, na TSF, vamos sobrevoar a selva, dormir com tarântulas, subir o Rio Amazonas e conhecer o Povo Indígena MURA, num linguajar exótico. "Labirinto Infinito" é uma Grande Reportagem desta vossa escrava, com sonoplastia de Joaquim Dias.



quarta-feira, março 07, 2012

Ladrão de Vidas

Não tem hora, nem estação do ano ideal, e muito menos o propício momento se dá à noite ou durante o dia. Acontece. E só há uma forma de o evitar: não olhar nos olhos. É a porta. Se querem poupar-se não deixem que ele se cruze com o vosso campo de visão. Ele rouba vidas, porque não suporta a dele; já dessa não se salva, por isso usurpa. Não há lei, nem tribunal que preveja ou julgue tal crime. Submundo que é desconhecido. E, uma vez na nossa, não há forma de o expulsarmos até que saia e nos tenha tornado os dias num inferno. A mente vazia é recreio do diabo. E este recreio é a luta pela própria vida. E não haverá sangue, nem dor, ou gritos aflitos que os outros ouçam para socorrer. É um jogo de dentro, onde mais ninguém entra para poder saber do berro que a alma dá.

Hoje vi-o, reconheci-o. Olhava-me pelo reflexo do vidro, vigiando, como se anunciasse que era a dileta para a noite. Mas isso foi depois. Antes esperava como eu o último autocarro, no frio de um Porto de invernia atípica, de gelada brisa que penetra na derme, trespassa a camada óssea e nos arrepia. Lançou-me o olhar cirúrgico de quem faz um primeiro diagnóstico. O ardor de incómodo desconforto acometeu-me. Percebi. Entrei e, lá ao fundo, no rasto do autocarro, sentei-me de costas para a marcha. Ele acomodou-se no último lugar, de frente para mim, para poder mirar-me. Virei o rosto para o telefone, fingindo concentração. Ignorei o atento olhar, penetrante e incómodo de sabermos que estamos a ser observados no detalhe médico, como microscópio de última ponta em busca do comportamento das células. 

Ocorreu-me nesse instante que, na semana anterior, uma mulher me tinha lançado mesmo olhar, guloso e dessa lânguida sensaboria ansiosa de degustar a vida dos outros para a roubar. Queria, atesto, surripiar a minha, porque, num primeiro instante, poderia parecer-lhe melhor do que o cabelo oleoso que deixava escorrer pela cabeça, uma réstia de cor loira, que entretanto se tranformara num cobre azedo, como as putas em fim de carreira quando deixam o verniz estalar, aos bocados.

O meu ladrão de hoje é ruivo e pude ver-lhe um sorriso de triunfo como quem dá como certa a vitória sobre a presa na peleja predadora. Não cedi. Pude ver pelo reflexo do vidro do autocarro que magnetizara os olhos em mim. Uma obsessão doentia. Aquele sorriso maligno. A marcha. O reflexo. Fingi nova atenção sobre o telemóvel, enquanto a cabeça processava dezenas de planos para escapar ao roubo de vida. Houve silêncio. Ele mudou de lugar. Como fingisse não perceber, mas abonada de periférica visão, controlei o meu predador, nos limites ópticos. 

O som de motor de autocarro. Pára- arranca. Portas abrem, fecham. Sinal de paragem. Sonora voz feminina indicando as estações. O vidro, o reflexo, as estratégias da minha cabeça para a evasão. Raciocínio militar: e se simulasse sair agora, seguir-me-ia? Se fingisse sair, talvez ele saísse antes e livrar-me-ia de um roubo anunciado, de vida.

“Próxima paragem, Recarei”

Apercebi-me de que era agora. Iria roubar-me a vida. Entrar nela e seguir comigo para casa, fingindo ser eu, mas sendo ele. Não olhei. O reflexo de novo como salvaguarda. Deteve-se do meu lado. Achei que iria obrigar-me a olhá-lo. Um toque espontâneo bastaria para que me distraísse e em reação olhasse o dono da mão que me tocaria. Segundos que pareciam eternidade. Paragem. Ele sai antes de mim. 
Posso jurar que vi o reluzente vermelho de dois olhos pequenos a brilhar no reflexo do vidro. Parece que hoje o diabo não teve recreio.