quarta-feira, janeiro 30, 2013
terça-feira, janeiro 08, 2013
o silêncio do metro
O ruído deve ser uma coisa muito relativa. Um som inarmónico para uns, harmónico para outros, deixando de ser o que para certos é o fragor, o estrondo. É por isso que talvez o que de seguida escreverei não seja mais do que um mero desalinho melódico, com se o piano do meu cérebro, ou as cordas de um violão, como talvez seja (ou lira, ou pandeireta, cuíca, ou banjo, sei lá), estivesse a precisar de afinação. Dobrem os sinos, toquem as trombetas, rejubilem-se os preguiçosos, porque isto é valor-notícia naquele que é considerado o universo vanessiano.
Não tenho conseguido agarrar um livro e harmonizar os elementos necessários para conseguir pautar, palavra a palavra, linha a linha, aquela que é a melodia da leitura. A serena sucessão rítmica que assiste o ato de ler.
Não consigo, e estarei longe de perceber a razão. Não que os autores não sejam prosadores de interesse reconhecido, para manter uma mente ocupada aos amantes da leitura; não que a orquestra da minha mente ande conturbada com preocupações maiores; não que não esteja habituada ao exercício paulatino da negação do ócio em troca de um livro.
Talvez tenha sido acometida por algum vírus do fim do mundo que me tenha usurpado o gosto pela leitura ou, ainda, haja algum ruído branco que me entorpece senso e sentido, orgulho e preconceito. O que sei, isso sim, como me disse certeiro o Alexandre, numa dessas tardes de sábado no Candelabro, é que estou sendo invadida pela vontade assoberbada, ansiosa de escrever, num conflito evidente entre querer viver e parar para escrever. Acontece-me agora - e precocemente-, pois há ainda tanto para ler antes de parar para ter a ousadia de esboçar em prosa o que quer que seja, ser assaltada por uma vontade incontrolável de escrever sobre tudo o que me rodeia. Sobre o casal de namorados no banco de jardim do Palácio, do velho do Jardim São Lázaro, do taxista da Rua Sá de Bandeira, mas depois atrapalho-me e não sei como envolver as histórias.
Atrapalho-me e desisto, quando muitos me dizem que é preciso técnica (dá-me uma certa repulsa, resistência) e que não posso desistir. Ataranto-me e acho que estou a perder tempo, que é melhor ir viver, em vez de me atrapalhar. Convenço-me que é mais uma forma de ruído, como aquele que me investe quando estou no metro, a viver: também me apetece escrever nos lugares mais inusitados, como uma carruagem em andamento.
É talvez por isso que hoje resolvi parar para escrever isto de tão banal que possa ser, na devida prova irrefutável, que os ruídos são uma coisa relativa.
A mulher que serve cafés na estação de metro da Casa da Música inquietou-se quando lhe disse boa tarde, como estivesse de costas, lavando louça. Assustou-se apesar do barulho à volta, de gente apressada, metros a ir e vir, um frenesim de adolescentes, escadas rolantes a chiar.
-Ah, boa tarde. Com tanto silêncio do metro, assustou-me.
O barulho, meus caros, é relativo. É preciso habituarmo-nos a ele até que seja silêncio. Deve acontecer a mesma coisa com a literatura.
som inarmónico produzido por corpo que cai ou estala; estrondo, fragor
ruído In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-08].
Disponível na www:http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/ru%C3%ADdo
>.ruído In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-08].
Disponível na www:
som inarmónico produzido por corpo que cai ou estala; estrondo, fragor
ruído In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-08].
Disponível na www:http://www.infopedia.pt/pesquisa-global/ru%C3%ADdo
>.
ruído In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-08].
Disponível na www:
quarta-feira, dezembro 26, 2012
Queda para a serendipidade
"as coisas estão no mundo só que eu preciso aprender"
"vivemos, estamos vivendo, lutando para justificar nossas vidas"
(Paulinho da Viola)
Há tardes absolutamente mágicas. Há dias em que o acaso se ri para nós, na esquina de uma rua todos os dias calcorreada, e nós, mais disponíveis para amar o amor do presente, acendemos "a vela no breu". No breu da nossa fugacidade. No breu da imprevisibilidade, com atenção devida, pois, estamos mais disponíveis para sermos levados, sem agenda, sem horários, sem compromissos, apenas um pacto provisório com o nada. Estamos a viver um pedaço de vida como ela for.
Pus a Pentax K-1000 na bolsa, o velvia ainda lá está a carecer de 10 cliques para virar revelação e positivo, e levei a vida para a tarde. Mas quis ela, porque já tinha outros planos para mim, que voltasse ao lugar de um pequeno crime sem maldade e não terminasse os dez frames finais. Isso porque, apercebo-me, tenho queda para a serendipidade.
Ando a investigar os prédios antigos da cidade com propósitos, claro, fotográficos. Se perguntarem digo a verdade, que adoro a doçura e a meiguice de prédios antigos, que gosto de espreitar fechaduras improvisadas à procura de histórias. Que sou uma miúda curiosamente metida que se encanta com placas antigas de telefones ainda do tempo de ingleses, com portas de vidro com nome de detetives privados, com campaínhas de ferro e maçanetas velhas. E isto com a idade fica cada vez pior. Sem nostalgias. Mas a atualidade noticiosa e a frugalidade das conversas superficiais interessam-me cada vez menos e estou empenhada em viver dias felizes todos os dias, com calma e horas que valham a pena. Um imenso agora, porque é o que realmente importa, na justa selecção do tempo.
Voltei ao local do delito porque a primeira vez que fui lá parar a porta estava fechada. Desta vez a porta estava entreaberta e o Nuno Moreira, senhor dos seus competentes 56 anos, talvez, um artesão do vinyl -porque os lava, limpa, estima, preserva e torna capas velhas em novas - me recebe como quem estava à minha espera. Nunca nos víramos. Passamos a tarde a falar e a ouvir música de intervenção (Adriano, José Mário Branco, Fausto, Manuel Freire, e outros como o Gabinete de Acção cultural), Carlos Paredes ao vivo em Frankfurt, James Brown, bossa nova (João Gilberto, sobretudo) e Carmen Miranda. Ah, quase me esquecia: e os Beatles portugueses. Os sheikes. Alguém se lembra?
As paredes e a memória dele contaram histórias. Embeveci. E, depois, ele fez questão de me mostrar os cantos à casa. Ou melhor dos corredores daquele andar, porque são casas onde as vidas se passam num corredor que atravessa a casa. Do lado de dentro casas residenciais. Do lado da rua, escritórios. Naquele piso, particularmente, encontros ecuménicos: a sala de vinis novos, a sala de vinis velhos, um tarólogo, uma vendedora de produtos de cosmética natural, uma sala de reuniões espíritas e a sala da associação de detetives privados vazia, por alugar. Há ainda uma cantora lírica reformada que fez carreira na América Latina. O prédio, um organismo vivo.
Na contabilidade da despedida trouxe "O melhor de João Gilberto", "James Brown" e o Paulinho da Viola, "Memórias Cantando". Lá deixei reservados a Carmen Miranda, o Carlos Paredes e a coletânea de música de intervenção. A vida, dizia Nelson Rodrigues, como ela é. Talvez esta seja uma forma de amor universal.
quarta-feira, dezembro 19, 2012
domingo, dezembro 16, 2012
sábado, dezembro 08, 2012
sexta-feira, dezembro 07, 2012
contágio sensorial
É esta cidade quieta, que se deita quando se arrumam os chinelos debaixo da cama. Ouço-te. Apago a luz. Ainda sussurras. E chegas à cama enquanto durmo, mas acordas-me com beijos, porque dizes que é mais forte do que tu. Venho a mundo, estou na fronteira do país dos sonhos, consciência fugaz. Espera, é apenas aquele embalo na voz. Os lençóis estão já encorrilhados. Rolaste à minha espera. As mãos tatearam gulosas as reentrâncias suaves do que podem ser torvelinhos da costura. Saberão as máquinas que fazem tapetes de nuvens onde se deitarão os corpos para amar? Também se agarram sem desejo, a paz da ternura, o beijo que a pele dá sem se beijar, sem a boca, claro, um diáfano sopro da derme, contágio sensorial.
quinta-feira, dezembro 06, 2012
a estranheza de um corpo
O homem que fala não sabe o que aqui anda a fazer. A rapariga que fala diz que são coisas de "vudus" e assim, pergunta se a outra sabe o que é. Não imagino sequer de que combinam. Arrepio-me. O rapaz que fala ri-se muito e não tem tento na língua. Há bocado, um bando de depravados galou desavergonhadamente a rapariga de saia curta. Ela roía as unhas, roxas, uns tamancos respeitáveis. Uns senhores tamancos.
-Levava-te para casa e lambia-te essa c... toda.
- Eu faria de ti um corno manso, ripostou.
E ainda se diz que o direito de resposta anda moribundo.
Fala muita gente ao mesmo tempo e há conversas que se perdem. É ruído branco. A mulher ao meu lado fala muito ao telemóvel. O rapaz da frente baixa os olhos e posso dizer que já nasceu cabisbaixo, que há-de ficar corcunda cedo na vida. O cabo-verdiano que fala em crioulo, repete muitas vezes a mesma ideia, por outras palavras, para que a tia entenda: recebe o salário na segunda-feira, fará a transferência na terça-feira e ela terá o dinheiro na quinta. Repete: segunda-feira é dia de pagamento, o dinheiro por ser de banco diferente só cai na conta dela dois dias depois. Como recebe à noite, só terça-feira de manhã consegue ir ao banco. A tia não acredita, desconfia. Ele volta a explicar, irritado que ela duvide da palavra dele.
Evapora-se a conversa em ruído branco. Evoco o direito à desatenção, não quero ouvir.
Aos meus pés, uma garrafa de água de 1,5 l, meia cheia, meia vazia, bamboleia. É um corpo estranho. A mulher que se senta ao meu lado assusta-se com a garrafa. Encosta-se quase a mim. É outro corpo, demasiado, estranho. As paragens passam; na verdade ficam. Eu sou paisagem.
Se me perguntarem quanto tempo demoro ao destino, direi: o tempo de cinco paragens...centenas de corpos estranhos, vozes dissonantes, e muito ruído branco. Há medidas de tempo que são a estranheza de um corpo, ou a ininterrupção de um pensamento. Perdi a paragem!
quarta-feira, dezembro 05, 2012
tinta permanente...
...será aquela que já escreveu as páginas do meu 2012. Será cedo para um balanço deste ano, mas súbita vontade de dedilhar o teclado como quem toca piano apoderou-se desta jovem miúda que, no próximo mês, já conta mais um número para os "intas" e continua a pensar que, afinal, não saiu dos 28, porque a vida nos mostra que há tanta frescura, onde, às vezes, vemos nublado.
A contas com o ano: vivi.
Vivi muito e bem e do peso que se fez leveza e da amargura que se fez Primavera, do abalo que se fez cascata em descida de tobogan. Vivi, juro que vivi, tanto e bem. Que um ano será pouco para o tanto que tive o privilégio de viver, sentir, crescer e encontrar alguma paz interior, de sorrir por nada, de enfim, perceber que o que importa é viver, que os problemas como vêm, vão e, no fundo, só precisamos de viver e tornar o dia a melhor coisa que pudermos, rodear-nos das pessoas que nos querem bem e felizes, que nos inspiram, que nos fazem bem e apoiam, nos dizem palavras doces e um colo que nos embala, certos de que tudo passa e que, de fato, foi um pretexto para termos esse aconchego como se mais nada no mundo existisse.
Se tudo finasse naquele momento, ainda que com dores no pensamento, que nos impõe ao corpo, tudo finaria bem porque estava docemente embalada, protegida, cuidada. E este ano cuidei muito e fui cuidada.
Comecei, verdadeiramente, a viver 2012, em Abril, depois de um acidente de carro, onde tive a certeza de que tudo terminaria. Tive a certeza de que, ainda assim, tudo estava certo, de que não mudaria nada na minha vida. Estou grata por tudo. Que estava vivendo exatamente aquilo que devia viver. Escrevi uma carta a mim mesma para abrir dali a um ano. Estive em Marraquexe, em Toulouse, na fenda de uma pedra no Gerês, onde reaprendi a confiar e, se calhar, a amar; estive em Bragança, em Odeceixe, na Afurada, vivi o Porto escondido, vi o pôr-do-sol no Guindalense Futebol clube, contracenei numa curta-metragem, fiz praia até o sol se esconder, joguei volei, degustei amigos, fiz judo, ayurveda, acarinhei a família, cozinhei para os amigos, abracei e ouvi quem de mim precisou.
Fiz teatro, festas para amigos, editei vídeos, viagem de caravana até à Eslovénia, escrevi sobre o que mais gostei, fiz uma grande reportagem sobre um mundo incrível, andei por aldeias raianas a ouvir histórias de contrabando e salto, li livros maravilhosos, perdi-me em alfarrabistas, dormi agarrada, tive jantares cozinhados só para mim, só porque estava triste, ou só porque sim; fotografei muito e conheci-te.
2012 se foi um ano duro, onde muitas vezes as lágrimas também vieram, foi também um ano leve de começos e recomeços. De aprendizagem muita. De generosidade e paciência para não deixar que os problemas me enruguem demasiado e com peso a minha energia, o meu carinho, a minha leveza em acreditar que vale a pena ser leve e partilhar. 2012 foi um ano muito bom.
terça-feira, dezembro 04, 2012
quarta-feira, novembro 28, 2012
aforismos existenciais
1. as grandes reportagens deviam dar grau direto para doutoramento, que isto é coisa equivalente q.b., dolorosa, cruzar discurso, entrar discurso, cortar discurso, colar discurso, ouvir como se lê, não querer falar, e um emaranhado de dados estatísticos simplificados...
2. Com tanto corta e cose deveria ter sido costureira.
3. a minha grande reportagem também tem costureiras.
4. e linhas presas.
5. é sobre presas
6. weird things happen all the time
sexta-feira, novembro 16, 2012
quinta-feira, novembro 15, 2012
teoria da poupança, salvo uma excepção
Não
sou saudosista, pelo contrário. Acredito no presente como imperativo
de um passado e de um futuro. Tento olhar em diante. Sou curiosa
pelas novidades, mas tenho uma necessidade de memória, de raízes e
persisto na importância da aprendizagem contínua, como um ciclo da
natureza. Outros, antes de mim, já viveram as alegrias, as
angústias, os amores, desamores, paixões pelas coisas e pelo
conhecimento, avidez de imortalidade e sabedoria, a eternidade de um
beijo, o prolongamento de bom momento, enfim, que o tempo não tenha
tempo.
Em
rigor, as vivências humanas, qualquer que seja o contexto, com maior
ou menor grau de sofrimento, compaixão, sensibilidade, tolerância,
sorte e justiça, terão sido quase sempre as mesmas, porque os
nossos mecanismos neurobiológicos, mais ou menos desenvolvidos,
assentam numa função fisiológica que é sobreviver a todas as
intempéries, satisfazendo necessidades básicas.
Os
bons livros, que refletem, pensam e, assim, nos ensinam a importância
da memória coletiva, ou mesmo a história dos nossos avós, dos
pais, dos registos que temos a sorte de um dia desvelar, isso nos
sussurram. Não somos mais que uns e outros, podemos, sim, deixar uma
marca, e fazer desta nossa missão uma forma de partilharmos
caminhos. E ele deve ser feito a sorrir, sem mágoas, opressões.
Temos direito a isso.
Impõe-se
tamanha reflexão de botequim só por causa de uns lenços de homem
que vi, hoje, na vitrine de uma casa de meias, a € 1,60. Nesse
instante, que durou segundos, veio-me todo este exercício mental,
levando-me por caminhos onde, de certeza, se deu um hiato temporal,
no sentido de uma teoria da poupança até às minhas memórias de
infância.
De
imediato, lembrei-me que os lenços, e as fraldas, tal como os
guardanapos que ainda temos em casa, eram de pano e que eram
reutilizados, depois da lavagem. Lembrei-me que só se comprava roupa
por necessidade, um par de cuecas, p.e.g, que deixou de cumprir
funções de resguardar as partes, ou as peúgas, ou um anorak, ou
umas calças de ganga, e mesmo essas levavam remendos que era uma
maravilha de moda. Outra tendência eram os rissóis que a minha mãe
fazia de dois em dois meses para congelar, ou a bola, ou as pizzas e
outras coisas caseiras (como os iogurtes) que já não me lembro,
como forma de poupar na alimentação. Ou até mesmo os tupperware
que serviam para guadar restos (nunca mais esqueci um paté de peixe
delicioso que a minha mãe inventou a partir de umas sobras).
Fazia-se também muitos bolos de laranja, limão e coco, tartes de
maçã. A sopa sempre abundou na casa, e, ainda, dura a semana
inteira. Sempre houve muita fruta e groselha para fazer sumo, ou
batidos.
Ocorre-me
isto, também, na mesma medida, em que os meus avós diziam, a semana
passada, que conseguem comer toda a semana, por menos de € 40. E eu
fiz as contas: entre sopa, pão, massa, arroz, carne, peixe, ovos,
legumes e fruta, mais uns luxos que podem ser queijo e chocolate,
sempre a cozinhar em casa, com água, gás e eletricidade e, bem
vistas as coisas, há que dar razão à poupança.
Depois,
dizia-lhes eu, deixamos de reparar as coisas. O ferro estraga-se,
compra-se outro. A Varinha mágica deixa de fazer magia e encostamos
para canto para enferrujar até que temos de comprar outra. Qualquer
que fosse o eletrodoméstico, arranja-se conserto. Temos vícios,
temos luxos e estamos mal habituados, é um fato. Pagamos mais
impostos, estamos a perder direitos sociais, temos, na verdade,
menos qualidade de vida e mais preocupações auto-infligidas. Serão,
pois, esses mais fatos. E , como tal, acredito na poupança assim,
não como forma de sobrevivência, mas como exercício elementar de
um equilíbrio de vida lógico, saudável e humano. A única coisa em
que não poupo, pois, é no Amor. E isso também se lê nos livros: é
linguagem universal, passado, presente, futuro, isento de taxas,
políticas, ideologias e idade, aprendizagem contínua, ciclo da
natureza.
mensagem da hilda
"o único homem que me faz escrever e criar é aquele com quem não me apetece ter sexo, pode van?"
terça-feira, novembro 06, 2012
aos 89
O Sá Carneiro morreu a 4 de Dezembro e a minha avó voltou de França a 16. Nem vou confirmar a data inicial porque confio na memória dos 89 anos de sabedoria que a põem a comer pão com queijo brie, depois de almoço, como se não houvesse amanhã. Não sabemos, talvez não haja. Hoje importa porque estamos cá. E depois atira com o naco de bairrada que lhes levei (porque o meu avô está atento ao pão e à conversa) para o lado, num zás manual, porque lhe digo que está a abusar. Ri-se da minha repreensão.
- Então, é para não comer mais!
Segundos depois está a comer as paciências para acompanhar o café. Afinal, não é pão. São paciências. Sabe rir-se e diz que ama a vida. Por isso gostaria de viver para sempre. Mesmo com a dor na perna, mesmo ouvindo mal, por causa de uma constipação que lhe pôs os ouvidos a sangrar, um mês antes de Sá Carneiro morrer, quando ainda estava em Paris, quando ainda tinha de atravessar o Parque Monceaux de mão no terço, dentro da bata, para afugentar o medo que alguém lhe fizesse mal às cinco da manhã. Imagino o frio gelado de Inverno a gretar-lhe o nariz grosso e grande, hoje adornado de rugas marcadas, que se riem muito com ela, quando se ri. O meu avô diz que a história deles dava um romance. Todas são, diz-lhe a minha tia. E ele sai para ir espiar a galinha pôr o ovo e tirá-lo antes que ela o coma. Missão cumprida. A avó chama agora a galinha fraquinha que anda no quintal. Coitada, é franzina, quase sem penas. Começa a piar, ela, para a galinha, a testa enruga-se, o nariz enruga-se. A galinha enrugada e franzina vem a correr, como respondendo ao chamado. A avó atira-lhe com a casca do brie. A minha avó voltou de França ainda não era eu nascida. Espero aos 89 anos estar a chamar galinhas de testa enrugada a amar a vida assim e a abusar do pão com brie.
sexta-feira, novembro 02, 2012
domingo, outubro 28, 2012
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