quinta-feira, outubro 11, 2012
preliminares da terra fria
Ficar sem rede e internet, durante 3 dias, no meio de aldeias que respiram medievais ares de comunitarismo e nos convidam a entrar em casa para um Folar, uma conversa, um vinho, castanhas e pão é dos maiores tesouros. A terra fria é uma casa. A terra fria é feita de filhos raianos, terra de gente bo.
domingo, setembro 30, 2012
por vanessa rodrigues
A música tem arames que se arranham.
Murmúrios e geremias.
São guitarras, são harpas, são rufares ao longe, são címbalos,
guitarras acústicas onde deslizam dedos cansados, assobios,
ligeiras mágoas musicadas, esperanças,
risos, mudos pensamentos parados,
enganos,
manipulações dedilhadas com a retórica,
a promessa de suspicazes vontades,
gracejos que só os suspiros sabem fazer,
madeiras que roçam,
corpos a estrebuchar, miméticos,
chaplinianos como no cinema, mudos, de olhares impositivos,
opressivos,
agora essas mesmas guitarras,
como máquinas, como chaminés monótonas de comunistas vontades,
são número;
vamos vestir-lhes de ideologias,
despir o cérebro,
entorpecer de ruídos brancos,
o pau na cabeça,
as roupas que se vestem-despem-vestem-despem;
estridentes guitarras, estridentes, metálicas,
acutilantes,
reverberadas em ruidosas irritações auditivas,
parem que sufoca, parem que atrofia, parem que incomoda,
parem, façam silêncio, mudas vontandes, inertes ideologias,
parem que sufocam,
parem, que se desmorona cá dentro,
parem que temos frio,
cessem as guitarras,
estrídulas vozes,
as violentas acústicas que nos ensurdecem,
parem de silenciosas propagandas,
parem,
deixem que o sangue escorra,
taciturnos,
usem o silenciador,
a caçadeira de cano cerrado, o jogo cerebral, tiro ao alvo,
a mentira-a-verdade-a-mentira,
dissimulem, schhh,
escondam, escondam o embuste,
dobrem os caracteres,
batam palmas, psicadélicos,
dancem até cair, tombem, deixem tombar,
e quando mais nada restar, escondam de novo,
enterrem, abram a cova de terra e cubram de flores,
que outros corpos hão-de nascer,
novos livros se hão-de escrever,
novos e os mesmos erros havemos de cometer.
sábado, setembro 29, 2012
Viagens, páginas e recomeços
foto: vanessa rodrigues para o projeto speramundi
Uma pessoa regressa de viagem, depois de uma espécie de tournée, digressão europeia com lusofonia na bagagem, para inventar um país, uma língua e repensar o potencial universalita de Portugal, e depara-se com uma pilha de livros em cima da cama. Na verdade, três caixas grossas maciças, com etiqueta a indicar o meu nome. Não, não há engano, é mesmo para mim. Babo que nem cachorro vendo salsicha fresca, tuaregue vendo oásis no deserto, criança olhando chupa-chupa, sambista gabando caixa de fósforo... É isto: 10 livros novos enviados por editoras, uma encomenda há tanto esperada e uma espécie de troca do Brasil. Meus olhos brilham de emoção, é claro, sobretudo, vendo as maravilhas dos livros do Brasil, enviados por meu amigo Daniel Benevides, da editora brasileira Cosac Naify, e crítico literário do jornal Estado de São Paulo. Meus olhos brilham porque ganha fôlego assim uma troca maior e Atlântica: eu escolho os livros e escrevo sobre eles. Ele publica no blogue da Cosac Naify. Só para meter inveja aos amantes de literatura da grossa: um dos livros que escolhi foi a obra "Crônicas Inéditas" vol. I de Manuel Bandeira. Confesso que ainda estou babando porque isto me dá um certo regozijo, porque sou apaixonada por literatura, porque ler boa prosa é TDB e me faz amar recomeçar os dias. A literatura tem este efeito em mim e não tem cura.
sexta-feira, setembro 14, 2012
Um país inventado estrada fora
Por 13 dias andarei a inventar um país.
por vanessa rodrigues*
Não
é preciso muito para inventar um país. Chegam 5 caravanas, uma
roulotte, um jipe, uma viatura com carga, duas mascotes caninas, 29
pessoas, algumas ervas daninhas, biscoitos em formato de bunda, uma
viola, umas quantas panelas e cinco nacionalidades. Depois mistura-se
tudo e manda-se estrada fora. Cerca de 5000 quilómetros já chega para
conspirar um país. E o pequeno nasceu às 9 da manhã de ontem,
quinta-feira, 13, depois de zarpar de Guimarães, a capital europeia da
cultura deste ano, a caminho de Maribor, Eslovénia, irmã gémea nestes
adornos, deixando o castelo e o berço da nação portuguesa verdes de
inveja.
segunda-feira, agosto 20, 2012
duas cidades e uma mala [#prosas bárbaras]
A primeira vez que estive com o Tom Zé ele abriu-me a porta de casa, tocou violão e serviu-me café. A segunda vez gritou "puta-que-pariu" porque alguém se enganou mais que uma vez num acorde qualquer, enquanto se gravava um DVD no estúdio da Biscoito Fino, em São Paulo. A terceira vez já não me lembro muito bem, mas deve ter sido por telefone e eu já era a amiga portuguesa, a amiga das raízes da Língua dele. A língua que ele andava a comer. Por isso não me admira que o mês passado ele tenha sido capa da revista brasileira Bravo, quase nu e rodeado de bananas. É mais que um provocador, é Macunaíma inteligente, é figura que Mário de Andrade gostaria de ter como personagem principal num livro sobre Tropicalismo. De entre as várias lições que Tom Zé me deu, nessa tarde, com infinitas horas e bem-te-vis na janela de casa, uma delas foi a lição da mala. Sim, a lição da mala. Eu nunca me tinha apercebido, mas adoro malas antigas. Não pelo que elas possam conter, mas pelas histórias que elas possam contar. Porém, a história da mala do Tom Zé é mais do que viagem e memória. É, poderia dizer, uma história de amor. O compositor diz que aprendeu a ser com o homem da mala. O mimo que no meio de uma praça coloca a mala e quer seja palhaço, ator, performer, consegue envolver todos os que o rodeiam, passam, anónimos, desconhecidos. Toda a timidez será perdoada se aquele homem que se despe, que está nu perante os outros, conseguir cativar um sorriso, mais importante: a atenção. "É uma coisa assustadora", disse contundente e loquaz Tom Zé. Essa imagem, enaltecida por ele, marcou-me e, mais do que isso, lembra-me recorrentemente, por que razão uma mala é a minha fronteira entre duas cidades que amo: uma que me ama e remotamente me atira para uma solidão talvez mais próxima de mim; e outra que me rejeita com laços profundos e sentimentais. Falo de São Paulo, do Porto. No meio, confesso, adoraria que houvesse outra cidade intermédia, o desafio de um lugar novo, uma geografia desconhecida, um recomeço, com a mesma mala. Esta, que no fundo, está sempre vazia para ser enchida com a magia da vida, das pessoas que conheço, das descobertas de mim, do pôr-do-sol, de andar por aí.
O barulho das coisas ao cair [#literatura crónica]
Como se já não bastasse o vício de sublinhar os livros ou, quando não são meus, de me munir de um caderno para tirar notas sobre os livros que leio, criei, recentemente, o hábito obsceno de tecer conclusões escritas depois de os ler, na primeira página em branco. Que me perdoem os autores e os meus herdeiros, mas sou muito mundana com os objectos, uso e abuso, gasto e desgasto, e as extensões de nós carecem de sacralizações de intocabilidade.
Tenho uma relação física com os livros, sabemos: gosto de os cheirar, tocar, mexer, degustar. Esta relação biblofágica (de comer os livros com a colher da metáfora) anda, pois, a deixar-me ansiosa (quanto mais leio, mais quero ler), uma vez que tenho tentado aproveitar como deve de ser a silly season, época em que a imprensa portuguesa exagera nas páginas do jornalismo de coisas giras (hábil arma de propaganda para entorpecer ainda mais um bocado a moribunda democracia); em que desaparecem documentos públicos sobre submarinos e em que quase acreditamos que Dom Sebastião vai aparecer entre o nevoeiro do horizonte do mar, depois de um dia de praia espectacular, que nos vaporiza com um lança-perfume de que está tudo bem, que vamos ser felizes para sempre e amorosos uns com os outros.
É um
estado onírico. Talvez por isso seja tempo de pôr aqui a primeira
frase citada pelo escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez, no
início do livro “O barulho das coisas ao cair” (Alfaguara 2012).
“E
ardiam desabando os muros do meu sonho, tal como desaba gritando uma
cidade” (Aurelio Arturo, Cidade de Sonho).
Há,
sim, um denso desabamento emocional do início ao fim deste romance,
ao mesmo tempo que se ergue uma muralha dentro de um homem. É a
fortaleza do medo, do impacto que o medo inflige sobre Antonio
Yammara e sobre a capacidade que um acaso, uma conversa, um olhar,
tem de mudar o rumo de vidas.
“
...eu pensava com uma concentração cada vez maior em Ricardo
Laverde, nos dias em que nos conhecemos, na brevidade da nossa
relação e na longevidade das suas consequências”. pg. 16
Há
nesta obra literária, o medo da sombra, o medo do ruído, o medo do
silêncio, o medo das pessoas, da rua; o medo da memória, o medo de
viver; o medo do medo e de nunca superar o medo.
Foi o
primeiro livro que li de Vásquez, de certa forma guardado no meu
inconsciente por duas razões: a primeira porque foi considerado, o
ano passado, um dos 25 melhores livros pelo jornal espanhol El
País, tendo inclusive ganho o Prémio Alfaguara; e, depois,
porque tenho um especial interesse por questões relacionadas com
narcotráfico, memória, ditadura e veias abertas da América Latina.
“O
barulho das coisas ao cair” é um livro de um ruído imenso, de
aviões a cair, de arrependimentos, de balas, enquanto flirta com um
silêncio angustiante. O silêncio do cárcere, a mordaça da
ditadura, a “inocência” de um negócio que resvala a Colômbia
para um espartilho sócio-político e que plasma numa geração
marcas graves e profundas de um fracasso. É um fio invisível que doba toda a cultura colombiana.
Foi
por conhecer Ricardo Laverde, num tasco onde se jogava bilhar, que
Antonio inicia um capítulo da vida que o leva a esse medo e a uma obssessão. Baleado,
sobrevive, depois de tiros que vêm governados e incisivos a partir de uma mota. Laverde sucumbe.
Anos mais tarde, uma notícia sobre o Jardim Zoológico do narcotraficante Pablo Escobar leva Antonio ao recôndito baú da memória, para se recordar do tempo em que encetou uma investigação para perceber quem era Laverde. Neste percurso, assenta a geografia desta prosa, ora misturada com linguagem epistolar, ora com diálogos e reflexões de um narrador omnisciente, sem ironias, articulando presente e passado, e azimute a avançar o futuro. É um livro carregado de simbolismo, na estrutura narrativa, que demonstra que foi planeado, sem relações gratuitas; e de palavras alusivas a barulho, ruído, retumbantes impactos nas vidas de uns e outros.
É uma obra bem escrita, em que narrador e autor se perdem. Aliás não chegamos a ter rigorosa certeza do que possa ser ficção ou realidade, já que o que interessa a Vásquez, na linguagem seca pela descrição, é o apuro dos factos, criados na diegese literária, ávido em nos provar a lógica da relação dos acontecimentos, para que, por vezes, no meio de um imenso silêncio – arrastado pela tristeza desta prosa magistral- consigamos ouvir o ruído das coisas a cair. Considero, no entanto, que o livro poderia ganhar mais fôlego na síntese e economia desses supostos factos condutores. Demasiados pormenores não nos fazem perder na história, é certo, mas valorizariam ainda mais o ritmo da prosa.
Anos mais tarde, uma notícia sobre o Jardim Zoológico do narcotraficante Pablo Escobar leva Antonio ao recôndito baú da memória, para se recordar do tempo em que encetou uma investigação para perceber quem era Laverde. Neste percurso, assenta a geografia desta prosa, ora misturada com linguagem epistolar, ora com diálogos e reflexões de um narrador omnisciente, sem ironias, articulando presente e passado, e azimute a avançar o futuro. É um livro carregado de simbolismo, na estrutura narrativa, que demonstra que foi planeado, sem relações gratuitas; e de palavras alusivas a barulho, ruído, retumbantes impactos nas vidas de uns e outros.
É uma obra bem escrita, em que narrador e autor se perdem. Aliás não chegamos a ter rigorosa certeza do que possa ser ficção ou realidade, já que o que interessa a Vásquez, na linguagem seca pela descrição, é o apuro dos factos, criados na diegese literária, ávido em nos provar a lógica da relação dos acontecimentos, para que, por vezes, no meio de um imenso silêncio – arrastado pela tristeza desta prosa magistral- consigamos ouvir o ruído das coisas a cair. Considero, no entanto, que o livro poderia ganhar mais fôlego na síntese e economia desses supostos factos condutores. Demasiados pormenores não nos fazem perder na história, é certo, mas valorizariam ainda mais o ritmo da prosa.
Cidade nua [#prosa]
A cidade está inerte, num silêncio a contraluz. Diz-se que o volume do silêncio se mede pela luz que trespassa as pontes, e vem do mar, antes de se pôr, enquanto o burburinho dos turistas, e dos miúdos a atirarem-se da ponte que lhes serve de rampa de mergulhos corajosos, estremece, retumbante, no ar. Empoleiram-se nos ferros, passam as grades, esgravatam com os dedos e as mãos e a adrenalina turva-lhes os sentidos. E as hormonas em explosão lhes impele desejos e egocentrismos para um ritual de passagem. A idade adulta é saltar da ponte. Há-de ter sido isto uma herança. Ou está-lhe nos genes atirar-se do ferro quente para a água esverdeada do Douro.
Há gaivotas. Há gaivotas o ano inteiro e neste Verão aquietam-se nas margens a ver os putos ensinaram uns e outros a atirarem-se. A cidade está grave, um pouco atribulada, parece uma viúva a querer descansar as mágoas do ano inteiro. Este Porto tem humores e deveria estar feliz. Anda frágil, bem o vejo, entorpecido, acanhado; uma cidade constrangida por trás de um sol altivo e desejado.
sábado, agosto 18, 2012
sexta-feira, agosto 17, 2012
quinta-feira, agosto 16, 2012
segunda-feira, agosto 13, 2012
A leveza dos abismos de fim do mundo [#prosa]
Parece que voamos sem tirar os pés do chão. Levitamos. Na magia da mente somos Mr. Vertigo a librar sob o horizonte que vemos. Cheira a vento, há nuvens acanhadas, sussurros da espuma tímida que se dilui em areia sábia, remota. Já alguém terá voado? Quantos terão migrado rumo a uma estrada etérea até ao sol infindo? Tens rugas e texturas novas. São as paisagens que nos retiram fôlego. São os lugares que nos encantam, e num pincelar de imposições nos hipnotizam, frente-a-frente, rasgando um pôr-do-sol que nos balança o final do dia. Aquelas rochas, aquelas falésias, aqueles penedos, aquelas falhas de pedras no meio do mar, no meio do Atlântico, mal ele finda na praia, mal ele começa para perder-se numa imensidão marítima que entorpece de paixão marinheiros, mariscadores, amantes que se casam com ele às escondidas. Se perdem, perecem, findam. Não me sentei como gostaria frente a ti. Frui-te frugalmente num registo fotográfico. Agora ouço a paz que ali se ecoava. Agora ouço a magia entorpecente. O hipnotismo possível. Um miradouro que é um abismo. Uma magnânime expressão da natureza. Um fim de mundo, porque é também onde principia. E a natureza tem milhões de princípios.
segunda-feira, agosto 06, 2012
sexta-feira, agosto 03, 2012
quarta-feira, agosto 01, 2012
terça-feira, julho 31, 2012
Leituras em dia
O mundo de Sarah Kane é conturbado, incómodo, deixa-nos um pouco pesados e complacentes com um universo para onde temos de mergulhar quase numa apneia involuntária, mas há qualquer coisa na acidez e no caos desta escrita que me faz folhear, sem pudor, medo, ou sequer intromissão de pensamentos pungentes ao modo de vida desta escrava literária. Ando, por isso, empenhada nesta Psicose, nas Ruínas, ou destroços do pensamento dela, em ruptura permanente, para entender a citizen Kane, desaparecida tão precocemente de um talento. A primeira vez que ouvir falar dela, foi há dois anos, numa aula de Estética Literária, da professora Joana Matos Frias, quando, em 2010, como ouvinte curiosa, me propus assistir a algumas aulas do Mestrado em Cultura e Interartes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Falávamos, precisamente, de estética, mais concretamente da Filosofia da Estética, e permeávamos algo como o espanto que um tsunami, por exemplo, pode infligir em nós. Um tsunami é um acontecimento e por isso não deixa de ser belo, ainda que catastrófico. Sarah Kane tem esse efeito: de um maremoto, destrutivo e paradoxalmente belo. Hei-de voltar a isto, quando regressar às minhas notas dessas aulas.
Na maioria das livrarias, "Teatro Completo" está esgotado. Mas aqui ainda é possível comprar obras da dramaturga britânica. Graças à Sandra Claro, outra apaixonada pela literatura, ando com a Sarah Kane no colo, num empréstimo rápido, antes que ela fuja de vez para Paris.
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Rubem Fonseca, Padres e Santa Filomena [#prosas bárbaras]
Eu também acho que é um título improvável, como o acaso, a vida, o euromilhões, o jogo-do-bicho, a roleta russa, mas menos o resultado de eleições da câmara municipal do Porto. Vivemos de improbabilidades, mas não medimos as estatísticas, diariamente, porque a vida, parece, é como o mercado capital. Está sempre a oscilar. Altos e baixos. Um electrocardiograma.
Ainda assim, deveríamos perceber que o nosso universo amostral de possibilidades quotidianas, de mudança, certamente, e de episódios pouco prováveis, é um mais vasto espectro, do que aquele que consideramos. Basta estarmos atentos. E, neste caso, aos sinais. Devem ter sido divinos. Senão, vejamos. Viajava de metro, a caminho de casa, folheando o fim de "Diário de um Fescenino", do escritor brasileiro Rubem Fonseca (edição portuguesa da extinta Campo das Letras), ia mesmo na parte em que Rufus, o escritor, vive o drama de ser acusado de estupro, por isso as palavras obscenas exigem distância de outros passageiros, sob as minhas páginas, enquanto no lado oposto, num espaço de quatro lugares, um rapaz, muito cool, de calções largos, correia de prata com uma cruz cristã pendurado no peito, sandálias pretas, da moda, t-shirt aos quadrados, limpava os seus Ray-Ban, estilo police, com esmero e dedicação.
No colo, um livro de capa preta, talvez de pele, denso. A tiracolo, uma bolsa pequena, preta, igualmente, tal como o cabelo, raso, quase raspado. Foi a primeira vez que ele me chamou a atenção, mas logo segui de olhos distraídos, nessa observação diletante que os transportes públicos nos imprimem. Continuaria a ignorar o rapaz, não fosse ele sair na mesma paragem que eu, e os fiscais o pararem para averiguação da conformidade do bilhete andante. Eis que saio e ouço um som oco no chão. Apercebo-me de que um dos pins que tenho na carteira se soltou e resolveu mergulhar em apneia do granito. O rapaz, simpaticamente, ergue o pin libertinário, herege, e mo entrega com esmero e dedicação, como se tivesse salvo a vida a alguém.
Sorri e exclama:
- Ainda há gente honesta. Como é bom haver gente honesta!
A voz sai-lhe estridente e cavernosa, oscilante e um pouco medonha.
- Obrigado pela atenção.
- Vê como é bom haver gente honesta.
E nesta repetida afirmação o rapaz, claro, referia-se a ele, ao gesto dele. Agradeci de novo, mas ele colou em mim.
- Ainda há gente honesta.
- É verdade. Obrigada.
- Espere deixe-me dar-lhe uma coisa.
Eu só queria voltar para o Rubem Fonseca, nessa escrita que cola. Eu só queria que ele me deixasse em paz, porque aquela voz começava a irritar-me. Tentei esquivar-me.
- Não é preciso, obrigado. Deixe estar.
Como notasse a minha inquietude, o rapaz, defendeu-se.
- Não é o que está a pensar!
E eu não estava a pensar em nada, a não ser em Rubem e na pressa.
- Não é preciso, mesmo, obrigado.
- Espere, vou dar-lhe uma coisa para a proteger. Para ter sempre gente honesta ao seu redor.
Foi então que percebi que ele era mesmo muito baixo, esguio, e que a cruz do peito era um Cristo prateado.
- Vou-lhe dar Santa Filomena, uma oração, para a proteger. Esteja atenta.
- Não é preciso muito obrigado.
E nisto comecei a atravessar a linha do metro. Ele ainda teve tempo de me alcançar a mão e colocar o panfleto da santa na mão.
- Obrigado.
Coloquei no meio do livro: uma santa, num livro obsceno.
- É que eu sou padre, sabe.
E agarrou a bíblia ainda mais forte debaixo do braço. Perguntou-me onde ficava o Padrão da Légua. E, no fundo, eu acho que lhe devia ter dado o meu Rubem Fonseca. Para o proteger, claro. E nada melhor do que o diário de um fescenino.
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