terça-feira, maio 31, 2011

São Tomé, a ilha léve-léve, ora aí está, por estes dias, aqui

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Areias movediças

Estou confusa. Não sei se foi anteontem, se esta noite. Ainda por cima bati com a cabeça, ontem à tarde, à procura de um cabo inexistente para ligar a net ao computador no meu novo cafofo de trabalho. Não vi estrelas, é certo, mas há-de a pancada ter agitado alguns neurónios. E com isto nada quero justificar: mas sonhei com areias movediças; esperem: rewind, vamos ao cérebro, a memória ram dos sonhos ainda deve estar fresca, hum: não esta noite sonhei com outra coisa, coisa estranha de se sonhar, diz-me a sensação no peito, e ontem sim, ontem foi com lama muito viscosa e movediça. A imagem que vos criei é péssima, eu sei, quase tão má quanto aqueles desenhos animados macabros da Fox com bonecos fofos a serem degolados, mas também não sigamos tão longe; embora saibamos que pensar é acto de violência auto-inflingido, logo isso faz de nós um pacote um pouco masoquistas,com a advterência no pacote: contém pedaços "sado".

Volto: Atravessava a ponte. O carro fugia para o lado, alguém que não eu, conduzia-o diligentemente, mas a voiture acabou por guinar na ponte de tábuas de madeira. Caiu na lama. A porta não abria (ai que coisa), mas lá  a custo consegui e nadei em lama (chlop-chlop) até agarrar tábua. Não custou muito. Não sei se algum significado terá isto, se é que os sonhos realmente significam algo (e ainda o mês passado li artigo digno de lente, académico, estudado, entendido e testado, de que os sonhos não podem dizer muito sobre nada, uma vez que o cérebro adormece, e só uma pequena parte, parece, fica a fazer um rave sozinho; é: - já imaginaram alguns neurónios a curtir uns ácidos, numa qualquer festa privada de trance? é isso ; é: não há-de ser coisa boa de se confiar com a consciência alterada - embora quando a ciência e filosofia se juntam a coisa dê em algo como: a consciência não existe, é algo que o nosso cérebro faz ou produz...

Pelo sim pelo não, vou ali produzir umas reportagens a ver se a minha conta bancária ganha alguma consciência, então!

Momento Lady Van..Também há aqui destas coisas eruditas! E eu gosto disto!

segunda-feira, maio 30, 2011

Minha vida sem FLIP, snif!

A vida passa mais rápido do que relógio de cuco. A vida passa mais célere que fórmula 1. A vida é coisa de tirania, e uma coisa que acontece, quando estamos concentrados a planeá-la, alguém há-de já ter dito. É coisa de filme, e é o filme da nossa vida. E a minha este ano, sem FLIP, vai ser coisa estranha de viver. 

Começaram a chegar as primeiras mensagens: -Van, você não vai na FLIP? 

A Festa Literária Internacional de Paraty está a rasgar no calendário, mês sete está aí, e este ano não tenho desculpa para pôr a prosa a verter de um lado de Atlântico para outro. Milhares de quilómetros e conta bancária fazendo eco não é receita que se prescreva. 

Mas será, em cinco anos, o meu primeiro ano sem FLIP e já comecei a sentir palpitações, uma evidente arritmia, o peito apertado de alguma ansiedade e nem com cachaça a coisa acerta, porque me hei-de sempre lembrar da esplanada do Café Paraty tomando uma Gabriela, ora, Cravo e Canela, nem mais. 

Aperta peito, aperta. Sobretudo agora que o Hector Abad Faciolince - apresentado pelo Jorge, na prosa do "Somos o Esquecimento que Seremos" - confirmou que também ele, andará pelas ruelas paratienses, polvihando de magia literária as pedras pé de moleque, depois de nomes como Isabel Allende, Salman Rushdie, Gay Talese, Azar Nafisi, Chico Buarque, Ali Smith...já terem gasto solas à procura de um bolinho caseiro, ou tentando a arte do equilíbrio, depois de uma noitada, que boémia em Paraty é coisa certa de se fazer. E tem magia. E o Olimpo há-de ser parecido.  Não provarei, então, o elixir que sempre me reinventava a vida. Acho que é aqui: algo acontece no meu coração!

domingo, maio 29, 2011

As aparências

Sim, ainda nos importa o que os outros pensam, dizem, ou apontam sobre nós; como nos fazem sentir, porque senão não nos incomodaria tanto a vivência por aqui. Precisamos do reconhecimento dos outros, para existir. E algo de disfuncional parece estar aqui subjacente. Parece! Somos animais sociais, precisamos da cerveja, dos disparates em grupos, das bobeiras, do Trivial, às vezes; mas também precisamos, quer-me parecer, de um certo status quo, da conivência do sistema, que nos dá uma certa ilusão de equilíbrio, para que não pareçamos tão inadaptados: espécie de colheres, num serviço de faca e garfo. Deve ser isso: as colheres disfarçam a desordem, inflando o ego e assumindo que conseguem fazer as vezes da faca e do garfo. Cortam e agarram para levar à boca. É disfuncional, mas em lugar de carência, há-de a falta ser compensada com o que mais à mão está: vai à colherada!

Na crónica "Lar Desfeito" (Comédias da Vida Privada), o escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo, tira a faca, o garfo e a colher do serviço e põe-nos à mesa. O casal harmonioso, apaixonado, romance no ar, depois de dez anos de casados, muito amor, família e filhos. Habituados a conviver com amigos com pais divorciados, os filhos estranham este "paz e amor matrimonial" e dão exemplos dos pais dos amigos: o Sérgio só sai ao domingo com os filhos, com uma nova namorada que é do teatro; os pais do Haroldinho andam sempre à turra e à massa; enquanto aquele casal transborda equilíbrio. Os filhos questionam se eles nunca se chateiam; que aquilo não é normal! 

Eles ensaiam uma discussão. Combinam um número de insultos assistido pelo substantivo que exala veneno: víbora; e pior que isso, para os filhos não se sentirem tão inadaptados perante os amigos. Depois disso, a separação torna-se inevitável e eles, apaixonadíssimos, acabam por se encontrar às escondidas, para manter as aparências, achando que um dia, quando os filhos saírem de casa, poderão voltar a viver juntos.

Agora ao contrário: tenho um casal amigo que vive uma situação semelhante. Ele, divorciado, uma filha. Ela, livre disponível. Apaixonadíssimos. Entendem-se. Maravilha. A mãe dele não a aceita, mas cuida-lhe do gato quando eles vão passar férias. O pai até que aceitaria, apesar de "mais católico que a mãe". Mas a mãe: a mãe é fogo: não aceita. Para ela, ele, o filho, "assumiu compromisso perante deus", terá de honrá-lo - a deus e ao compromisso - até ao fim (até que a morte os separe) porque há filhos pelo meio. E uma convenção: um certo status quo!

A ex-mulher dele continua a ser convidada para as festas de aniversário do pai dele, e a outra, a nova namorada não. Este ano, por isso, ele não foi. Se não aceitam a X. ele também não iria à festa do pai, sozinho, para reencontrar a ex-mulher, mãe dos filhos. Outra vez a disfuncionalidade a fazer das suas. É o nosso efeito secundário no sistema-padrão-das aparências. Neste aqui e agora!

Para os pais dele, há um certo equilíbrio, convencional, que foi furado, com a separação. Sim, o diabo! E eles até já deram um jantar em casa dos pais dele, quando estavam para fora. Eles sabem. Anuíram que ela, a outra, agora legítima ilegítima ali estivesse, na ausência deles. Sabem que o filho e ela vivem juntos, mas fingem que ela não existe. 


sexta-feira, maio 27, 2011

4# o som da semana, a bailarina da água

Não sabia que a aguardente tinha bailarinas, mas o meu avô convenceu-me que sim. Deu-lhe corda e aquela boneca minúscula começou a rodopiar, de braços abertos dentro da água, ardente, enquanto uma chuva lenta, e liquefeita de pitadas douradas de uma purpurina qualquer lhe caía, docemente, sobre o pequenino corpo. Já tem mais de 50 anos, mas continua à prova do tempo, naquele plástico-boneca que há-de ter feito sonhar o meu avô, quando sozinho enfrentava a solidão, e a família longe, nessa Paris, a de França. Há-de também, através desta bailarina da água, de vestido vermelho-vinho, a querer ser bordeaux, ter sonhado com o Cabaret, com as rendas pretas das bailarinas. 

Sim, há bailarinas na água, ouçam-na, como gira...na garrafa...



quarta-feira, maio 25, 2011

minha vida anda uma comédia, sacanagens de vida privada

Tô espreitando a vida dos outros. Que sacanagem, heim, Van? Verdade, melhor só se rolar amante, pulando a cerca, ou virar homem casado com noiva em Grajáu, sonhando com um pouco mais de peitão, um pouco de bunda empinada, e onde esse post já vai. 

Minha nossa: e este blogue que andava tão recatado, agora parece motel de beira de estrada (todo motel é de beira de estrada: não é, Van?; não é não, meu bem!), clube de striptease da rua augusta cruzando a paulista (bem que vocês gostariam, né?); decote guloso (meu namorado até que deve estar gostando); é que a vida privada virou uma comédia e eu tô dentro. Assim: tô fora, mas tô dentro!

Verdade: tô enrolada com Luís Fernando Veríssimo. A culpa é da Literatura. A gente arranja cada pretexto para ficar enrolada com autor! Final de Junho a gente termina a enrolação; ou melhor, uma certa ralação, né, Fernando, até que você é um homem de res-peito?; se passar para coisa séria, deixa de ser comédia, deixa de ser tesão. É a mesma coisa que paixão: tô mastigando e dormindo com a crônica brasileira, sempre me dá um pouco mais de sacanagem. E eu, até gosto! Eu não disse nada meu amor! Não fui eu não! Ti amo, e a culpa é da Brasileira, sim, a Literatura Brasileira!

segunda-feira, maio 23, 2011

Xaiane, a prometida (2º episódio e remasterizado)

Não é um filme do Kusturica, mas eu até gostaria. Depois da conversa, com certeza, viria a banda. Assim, com muita confusão, música e pratos em todas as esquinas, gatos pretos e brancos, linhas do comboio disfuncionais, como famílias desalinhadas. Ou é sempre tudo mediante a dependência da casa para a qual estamos a olhar. De qualquer maneira, agora que penso nisto: Kusturica e Bram Stoker juntos, deve dar algo parecido com isto. 

Voltei a encontrar a Xaiane no metro, desta vez, já em marcha (por defeito auditivo da autora deste blogue ouvi e anotei, por isso, o nome errado como sendo Charane, pela primeira vez, quando agora, rectificado na voz da pequena posso saber que se trata de Xaiane). Já fez oito. Não se lembra de nada do Mandarim de Eça de Queirós que me perguntou. Não se lembra de mim, porque mete conversa com toda a gente. Se não fosse eu, haveria de ser a miúda da diagonal, de óculos de sol escuros, a fingir que não está nem a ver, nem a ouvir. Está ali, mas não está, zombie pacífica sem sede de vida.

A mãe de Xaiane continuava de ouvido colado ao telemóvel, tal como da primeira vez, impondo encontro a alguém, apenas interrompendo a conversa para um: 

- "não chateiiiss a sinhóra", 

seguido de um pontapé de Xaiane, certeiro no joelho da mãe para mandá-la calar; embora a progenitora ainda lhe tenha ameaçado um bufardo. Educação pela mão pesada, deverá ser, ou educação pelo futebol, que isto de pontapés andamos nós prós, em campeonatos europeus e nacionais, ultimamente. Nada contra. Cada um sabe da sua arbitragem, desde que não esteja fora de jogo, acima da linha do defesa, para que possamos, ainda, dar pinotes em campo, evitando amarelos e vermelhos.

A naifa: não é, mas é como se fosse. Era um canivete enferrujado na mão de Xaiane. 

- Olha. Olha, Vê: furei o banco. 

E furou. E perguntou-me se o penso no meu braço foi porque levei uma pica: outra espécie de furo. Sim, Xaiane, uma vacina para mulheres. Um dia também vais levar. 

- Não preciso, tenho meu boletim com todas.

E ela tinha base-mulher na cara. Verniz cinzento a descascar nas unhas. E, sim, tem irmãs. Uma delas emprestou-lhe a base. Ela nunca lhe emprestou nada, mas já lhe deu um perfume, porque é "muito pequena" para o usar. 

- Não achas?

- Não sei Xaiane: tu achas?

- Acho sim.

- E a base que tens na cara?

-É só um creme com cor. Não faz mal. 

- E a tua irmã gostou do perfume?

- Agora não, não pode. Está grávida. Assim com a barriga, olha: redonda. Ela já é mulher. Tem 15 anos.

- E a que gostas de brincar?

- Não gosto. Vejo a Lua Vermelha. tu vês? Ah, vou-te contar o que aconteceu, então. Tem vampiros, que chupam sangue.  

A banda deveria estar mesmo a chegar, mas entretanto, tive de sair, na Casa da Música.

na tua net, como nas nuvens

© vanessa rodrigues

quinta-feira, maio 19, 2011

3# o som da semana (alteração de emissão), abram o bico, arrulhem


Entre as ruas actor João Guedes e Sá Noronha, no Porto, há Progresso e um Solar Moinho de Vento. Há luz da manhã deitada sobre a praça, com pombas em folia e banho de sol. Contemplam-se: o espelho é sombra, sob o arrulho do pregão. Abram o bico que o microfone está ligado.



3 #som da semana - Abram o bico, arrulhem by vanessar

campeonato

Abriu a época oficial do campeonato de caroços de cerejas (carnudas e viçososas) ao balde. Flut!

quarta-feira, maio 18, 2011

Pessoa, o Personagem, ou isto parece discurso de pessoas normais


Não sei muito bem medir o que é a normalidade. Há pessoas normais que me parecem desequilibradas, há desequilibrados que não poderiam ser mais equilibrados que os normais. O medidor de normalidade é, pois, uma coisa relativa e dentro das nossas cabeças. E, no fundo, uma palavra vazia, que não significa rigorosamente nada. Ou quem sabe algo parecido com território neutro. Talvez a normalidade seja o grau zero da linha do Equador. Talvez seja o mesmo efeito de beber uma geladinha em dias de sol tropical. Ahhhh, mais que nada!!!!

Em todo o caso, a normalidade deve ser coisa de romanos que inventaram o vinho para que pudéssemos tornarmo-nos um pouco mais interessantes aos outros (e julgo ter sido o escritor brasileiro Juva Batella que o disse, no final de um jantar, este ano, no Correntes de Escritas, na Póvoa de Varzim).  

- Bebo para tornar os outros mais interessantes!

Sem vinho, sem qualquer efeito psicoativo (agora já não posso atestar que não possa, ainda, estar, e ter estado, sob o efeito dos psicotrópicos- psicologia dos trópicos, estão a ver? - e com a linha do Equador ali tão perto do Ilhéu das Rolas a marcar zero graus; e zero graus há-de ser território neutro, momento em que a vida pode ter ficado um pouco em suspenso) A. disse-me que, o segredo para vivermos melhor, quando seguros de nós, é sabermos trabalhar "o personagem". 

O outro, aquele, mais agradável, aprazível, bem-aventurado, em nós. Não estou certa que o tenha, mas acredito que os raios de sol que sempre hão em mim, podem ter que ver com esse ser mais iluminado, talvez, que habita nestas estranhas, vísceras, sinapses, neurónios e afins (se o encontrasse cobrar-lhe-ia renda, condomínio e extras pelo uso deste corpinho). 

Mas o caso ganhou devidas proporções, com um certo proclamar "Eureka"Arquemidiano a sair-me como fumaça da panela de pressão do meu cérebro, quando ontem numa aula de Literatura Brasileira, Joana Matos Frias relembrou duas histórias sobre Fernando Pessoa:

1. Certa vez, José Régio, que admirava e era editor de Fernando Pessoa, pediu-lhe, numa das inúmeras cartas que trocaram, para se encontrarem pessoalmente. Quando chegou foi Álvaro de Campos que o recebeu. Todo o tempo foi Álvaro de Campos quem esteve com Régio. O escritor saiu furioso do encontro e nunca mais voltou a falar de Pessoa e dos seus livros da mesma forma;

2. Na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, descansam documentos Pessoanos, entre os quais diários, onde se podem ler descrições "perturbadoras", J.M.F. dixit, sobre o autor. Em várias passagens, Pessoa escreveu que Álvaro de Campos e outros heterónimos o visitaram: beberam com ele, falaram-lhe de política...

Esotérico e amante do ocultismo, Pessoa, foi também tradutor. Isto a propósito de uma conversa que tive certa vez com o músico brasileiro Tom Zé:

- Pessoa traduziu Helena Blavatsky [a escritora e teóloga russa do século XIX]. Deve ter sido uma coisa incrível: imagina o que Pessoa terá pensado e visto a traduzir "A Voz do Silêncio". Imagina: ele deve ter pirado com essa coisa. Que incrível! A que mundo ele terá andado? Será que seus personagens não vieram daí? Será? 

Eu não sei em que mundos ele terá andado para tamanha despersonalização; se o ópio lhe terá virado a cachimónia, se Blavatsky lhe deu a volta ao miolo e por aí vai, proporcionando-lhe alguma iluminação e apetência à para-normalidade, sob e sem efeitos de nada, apenas que era um genial homem solitário, muitas vezes de mal com a vida, e cuja obra eu amo e admiro. Ainda assim, tendo em conta estes parâmetros, estou certa que a minha iluminação interior tem muito pouco de esotérico e genial e é mais uma declaração de amor pela vida, por mais pesadinha que ela tente ser, às vezes. 

Talvez por isso prefira ser, então, a categoria de normal a genial no seu labirinto de solidão, como um bicho que gosta de geladinhas, vinho, dos outros de quem gosto e me fazem bem, de preferência com personagens aprazíveis para agregar muita coisa à minha. A ver se ainda fazemos um campus, vá, uma residência universitária das personagens dos outros. 

terça-feira, maio 17, 2011

clima "tropicau"

Chove chuva e um bafo húmido preenche o ar. Isto não é Brasiu, isto não é São Tomé, isto é Porto Tropicau!

inventário de amor

vanessa rodrigues, 2011

cupido mandou flecha no corpo errado. era mais ao lado:
- tem de resolver seu problema de miopia.

quarta-feira, maio 11, 2011

A Amazónia a preto e branco

O Black and White é já amanhã, às 17h30, na Universidade Católica do Porto e o Sinais da Gente vai lá estar. Estão todos convidados. A Amazónia brasileira, em registo documental, no Festival Audiovisual BW. Foram 4 meses a galgar a Amazónia em 2009. Sons, imagens, pedaços de cheiros e tons. Há um foto-documentário surpresa e um bom "papo" sobre Fotografia Documental. Até já!

sexta-feira, maio 06, 2011

Hibernar com cacau, café, entre a linha do Equador

Este blog há-de hibernar um bocadinho, dias e isso.vou pular linhas de Equador,roçar cacau e mascar grãos de café.daqui a pouco estou de volta.

quarta-feira, maio 04, 2011

estamos carregados de cidade

desabituados ao silêncio, por isso nos incomoda o eco em nós
estamos carregados de azáfama e solidão, com vespas ao redor
estamos inundados de abismo, inaptos ao berro, que nos ouçam
cai
levitamos, funambulismo, desporto radical na escala dos dias é este respirar

entristecemos, e com tanto mundo ao redor haja fôlego para o terno riso, na arte do esquecimento
temos de aprender a sorrir, reaprender a descarregar a cidade em nós, dos ombros
habitar o espaço entre os dedos que as mãos dão
degustar os beijos e o silêncio do nariz sobre a pele: gosto-te

estamos carregados de cidade, de silêncios desonestos, de indiferença
ao riso, para o esquecimento

estamos carregados de nós, resta-nos reaprender a sentir
degustar com vagar o abraço que nos dão, de quem nos gosta, de quem nos sente o espaço entre dedos e nos afaga os silêncios para nos reaprender a sorrir

um blogue banal, enganando a Lonely Planet, vénia aos leitores

Por razões evidentemente ligadas à notícia da "Mulher da Luta", Paula Gil, este blogue teve anteontem, um recorde de visitas, com 350 cliques a explorar a crónicalunasamba e seus lugares de bossa nova. 

Depois, uma ressalva que torna esta casa internacionalmente frequentada, com as devidas vénias a seus leitores: além da nação valente, nobre povo, Singapura, Angola, Moçambique, Brasil, Argentina, Holanda, Irão, Bélgica, Israel, Estados Unidos, Espanha, Reino Unido, Alemanha, Irlanda, França, Canadá, Rússia, Japão, China, Macau (ufa!) são cliques assíduos por aqui, que ficaram, agora, mais perto deste pequeno albergue.

Não precisam bater à porta, entrem. Em casa de paixão pela escrita e pelas coisas gostosinhas da vida, como pode ser uma imagem, um som, ou devaneios musicais e ficções improvisadas, há sempre espaço no divã. Não se dá brindes, nem promoções especiais, mas dá-se um pedacinho de mundo e isso há-de ser coisa boa de pesar!

Obrigada! Obrigada! Voltem sempre!

crónicas do meu bairro, pai natal e cinzas

Eu bem avisei. Havia um barulho estranho vindo da chaminé, qual capela Sistina e sua acústica. Aquilo era um barulho localizado, oco, encafuado, como numa caverna, mas eu nem sequer vi sombras platónicas, que me ajudassem a formar um arquétipo da mais pequena pálida ideia do que ali andava. 

O pai natal não poderia ser, era demasiado tarde; ou demasiado cedo, quem sabe - não tarda nada e 25 de dezembro está aí, de novo. Passou sábado, veio domingo, segunda já se foi, terça passada e quarta o estranho caso (não sei se Angélica seria o nome da criatura) do som ganhou proporção: as cinzas começaram a mexer-se da lareira. Era um barulho roliço (se é que há barulhos assim), como quem espalha-brasas; areia revolvida e um arrulho, agora, mais persistente.

Eis que vi, então, mui nobiliárquica pomba a mirar-me, por trás da grelha da lareira, como quem, sem pedir licença, me interroga imperativamente, como sai dali. Obedeço ao olhar líder e fecho as portas da sala, não vá a senhora pomba enganar-se, assustada, e explorar a casa sem encontrar a sinalética respectiva que lhe indique "saída de emergência", ou algo parecido, embora parentes da casa afirmem, categoricamente, que já há alguns anos este lar faz parte da rota das pombas. 

Fechadas as portas, abrem-se janelas como escape a fingir saída de emergência. Tira-se a grelha da fogueira, já a ver cinzas, e logo um sonante e precipitado bater de asas assustado ajuda no voo que a leve, de novo, para a liberdade. 

Não era branca. Era de um cinza banal, azulado, mas hei-de ter pensado, com certeza, que o ideal seria ter trocado de lugar com ela (aqui percebemos a inutilidade prática da ficção científica) e, também, poder ir por aí, sem dias contados, levantar voo, num ensaio ilusório de uma certa liberdade.

terça-feira, maio 03, 2011

Nietzche a levar amarelo, Karl Marx a aquecer, e Eureka para Archimedes. Isto é futebol total, na arena, ou uma fundamentação da metafísica dos costumes, com livre apito!

Média Alternativos, conteúdos de alta qualidade

Na redoma da informação afobada, sôfrega; da guilhotina do negócio e do tombo dos números dos grupos de comunicação social, há novos meios, alternativos, a desdobrar conteúdos especializados de alta qualidade. A antropologia visual tem nova casa: Sensate Journal, um jornal de "experiments in Critical Media Practice".

Crónica no Plural, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, eu falo, denuncio, escrevo, comento, critico, mostro, divulgo

Mensagem do dia pelo Sindicato de Jornalistas, ontem, por e-mail, a propósito de hoje, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa  - e porque este é um blogue LIVRE!


"A Direcção do Sindicato dos Jornalistas (SJ), em mensagem divulgada a propósito Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, que se assinala a 3 de Maio, lembra que permanece na ordem do dia a sua denúncia de que a concentração da propriedade dos meios de comunicação social, o poder absoluto das empresas e dos principais grupos, a degradação das condições de trabalho dos jornalistas, a ameaça de desemprego e a precarização crescentes representam sérias ameaças à liberdade e ao pluralismo."



segunda-feira, maio 02, 2011

A propósito da caça ao senhor Bin Laden, entrevista a Michael Scheuer, ex-agente da CIA, especialista em segurança externa (revista Pública, secção Ideias Fortes, 2005, vanessa rodrigues)


imagem retirada de maggiesnotebook.com

Ainda que tenha falhado na previsão, pois parece, Bin Laden é morto, Scheuer, um especialista na matéria, a admitir, em 2005, contra o discurso oficial, que os presidentes Clinton e Bush tiveram oportunidade de caçar Bin Laden e decidiram não actuar! Algo estranho neste puzzle, tentáculos da ligação petrolífera entre a família Bush e Bin Laden que Michael Moore mostrou em documentário? A verdade, o que entendemos por verdade, é como um buraco negro!


A invasão ao Iraque foi um erro estratégico monumental e desnecessário”

O Ocidente está a perder a guerra contra o terrorismo porque ainda não percebeu que Bin Laden não quer atentar contra a democracia, mas defender-se da política externa norte-americana no Oriente. A tese é de Michael Scheuer, autor do best-seller “Orgulho Imperial” (recentemente traduzido em português e cujas primeiras versões foram editadas sob anonimato). Este ex-veterano da agência de investigação norte americana (CIA), alega que o líder da Al-Qaeda é um génio e acredita na iminência de um ataque nuclear.
Por Vanessa Rodrigues

Defende que o Ocidente falha em entender as motivações islâmicas e que, por isso, vai perder a guerra contra o terrorismo. Que motivações são essas?
O conflito resulta da contestação dos muçulmanos à política externa dos Estados Unidos da América (EUA) e do Ocidente, que consideram ter um impacto letal sobre o mundo islâmico. As políticas consideradas como anti-islâmicas são, sobretudo: o apoio ilegítimo dos EUA a Israel; a presença civil e militar norte-americana na Península Arábica; a presença norte-americana noutros países islâmicos (Iémen, Iraque, Afeganistão e Mindanao - Filipinas); o apoio dos EUA e do Ocidente a nações que oprimem os muçulmanos – Rússia, Índia e a China; o apoio a tiranias árabes como o Egipto, a Arábia Saudita e Argélia, entre outros; a aquisição de petróleo árabe a preços abaixo do mercado.
Os americanos e os europeus nunca compreenderão a motivação dos inimigos islamistas enquanto os respectivos líderes [políticos] – como Bush, Blair, Berlusconi, Schroeder, etc – continuarem a dizer aos eleitores que os islamistas são motivados pelo ódio às nossas liberdades fundamentais e direitos.

Porque considera que o conflito vai perpetuar e multiplicar-se?
É provável mas não ainda inevitável. Os muçulmanos crêem que o Ocidente está a atacar a sua fé. Se os líderes ocidentais aceitarem isto e abandonarem a ilusão de que os muçulmanos odeiam a democracia, há possibilidade de a guerra ser mitigada com o tempo. Algumas mudanças nas políticas externas ocidentais e actividades militares intensas para erradicar o maior número de membros da Al-Qaeda permitirão diminuir, gradualmente, a ameaça, senão eliminá-la totalmente. Quanto mais tempo demorarmos a perceber as motivações islâmicas, mais depressa surgirá um longo e inevitável banho de sangue entre civilizações.

Qual devia ter sido a posição dos EUA face ao Iraque? A invasão foi um erro?
O Iraque não era uma ameaça aos EUA. A América não tem a responsabilidade de afastar governos, simplesmente, porque eles se comportam de forma criminosa para com seus compatriotas. Mesmo que tivesse esse tipo de armas, o Iraque não tinha capacidade para levar a cabo uma acção de destruição maciça nos EUA. A invasão ao Iraque foi um erro estratégico monumental e desnecessário. Consequentemente, criamos um campo de treinos, com resultados multiplicadores, para os rebeldes islâmicos melhor do que aquele que eles tinham no Afeganistão. Criamos uma área privilegiada a partir da qual a Al-Qaeda pode operar na
Síria, Jordânia e Turquia – e pode alcançar, via Jordânia e Síria, o Líbano e Israel. Agora somos vistos pelos muçulmanos como invasores de três grandes santuários: a Península Arábica, Iraque e (via Israel) Jerusalém. Para além disso, validamos muitas das revindicações de Bin Laden contra as intenções anti-islâmicas norte-americanas e criamos um ambiente para a jihad defensiva que ele sempre evocou.

Diz que a “Al-Qaeda vê o mundo de forma mais clara do que nós [ocidentais] ”. Porquê?
Bin Laden e a Al-Qaeda sabem que milhões de muçulmanos odeiam a política externa dos EUA, ao mesmo tempo que admiram a sociedade norte-americana. Por isso, a Al-Qaeda sabe que muito poucos muçulmanos lutarão contra os EUA – sacrificando as suas vidas – contrariando o nosso estilo de vida e sociedade democrática. Sabe, porém, que uma grande (e crescente) maioria de muçulmanos está disposta a lutar e morrer pelo esforço de mudar as políticas externas do Ocidente sobre o mundo islâmico; bem como deseja desmobilizar os contingentes militares das regiões islâmicas ocupadas. Na minha opinião esta é uma visão muito clara do mundo sob a perspectiva islâmica. Os líderes americanos, por outro lado, vêem o mundo da forma que querem que seja, não como ele é. Estão a conduzir a América para a derrota nas mãos de Bin Laden e outros islamistas.

E porque é que a Al-Qaeda não ataca directamente os líderes políticos ocidentais?
Quem legitima o poder político são os eleitores, por isso se os líderes foram eleitos e persistem nas respectivas políticas externas contra o Oriente é porque concordam com eles. Por essa razão têm culpa e têm de pagar por isso. Esta é a perspectiva islâmica.

A opinião pública europeia revela rejeição pela política externa de Bush. Será que os europeus ‘vêem de forma mais clara do que os americanos?
Os europeus vivem na esperança da utopia. Eles não vêem de forma mais clara do que os americanos, mas são bons a enganarem-se a si próprios – e em acreditarem que a guerra é uma coisa do passado, que todas as culturas são iguais e de que o nacionalismo já teve os seus dias. Não obstante todos os defeitos de Bush, ele vê o mundo brutal e perigoso de forma mais clara do que a maioria dos europeus. Os europeus queimaram-se a si próprios com o desastre da segurança ao abrirem as fronteiras. Mais: os europeus são, no seu todo, mais racistas do que os americanos – atente-se na incapacidade crescente de assimilarem e integrarem a população muçulmana. A Europa parece estar pronta para desaparecer gradualmente – evocando o disparate acerca das glórias da diversidade e multiculturalismo – à medida que se afunda no caos ou se converte naquele conceito de Europa de confiança – um mecanismo inventado para restaurar a ordem – o Fascismo.

Que outras “doses letais” o Ocidente pode esperar da al-Qaeda?
Acredito que, num futuro próximo, a Al-Qaeda vai perpetrar um ataque nos EUA mais destrutivo do que o 9/11, talvez usando armas nucleares. Os cientistas e engenheiros da Al-Qaeda têm tentado adquirir tais instrumentos desde os anos 90. Eles têm os meios financeiros necessários. A Al-Qaeda também vai continuar a atacar ou a patrocinar ataques contra as nações aliadas aos EUA no Iraque e Afeganistão. No futuro, a organização é capaz de se virar para ataques que prejudicarão profundamente a economia dos EUA e a dos seus aliados.

O relatório sobre 9/11 refere que os EUA falharam várias vezes na captura de Bin Laden. E George W. Bush?

Bush quer claramente capturar ou matar Bin Laden, e a América teve oito oportunidades em dez de o fazer, no final dos anos 90, sob a liderança de Clinton e pelo menos uma – em Tora Bora, em Dezembro de 2001 – sob o governo de Bush. Em todas essas ocasiões, os líderes norte-americanos decidiram não actuar. O povo americano está actualmente a pagar o preço da covardia moral dos seus líderes.
Apenas por sorte as forças norte-americanas capturarão ou matarão Bin Laden. Ele vive nas montanhas mais altas do mundo; as tribos com quem ele vive valorizam o auxílio que ele deu ao Afeganistão contra os russos e os seus códigos de conduta privilegiam a defesa dos hóspedes com a própria vida (ele é convidado deles); e – embora os líderes ocidentais nunca o admitam – Bin Laden é hoje o líder e o herói mais importante do mundo muçulmano. É improvável que os aliados islâmicos o entreguem aos EUA.

Bush e Clinton são os “covardes morais” a que se refere em “Orgulho Imperial”?
Aqueles que são eleitos para proteger os americanos e depois, ciente e deliberadamente, falham em fazer disso a primeira prioridade, podem ser considerados covardes morais. A era do Conselho de Segurança Nacional de Clinton, os Directores do Centro de Inteligência do FBI, a maior parte dos líderes da Comunidade de Inteligência dos EUA, e o Conselho de Chefes de Pessoal [da CIA] falharam esse objectivo. Esses homens tiveram múltiplas hipóteses de eliminar Osama Bin Ladin e recusaram-se a fazê-lo. Por isso, falharam o dever de proteger os americanos. A administração Bush perdeu, também, várias oportunidades de apanhar Bin Laden e Abu Musab al Zarqawi [líder da Al-Qaeda no Iraque]. A covardia moral é comum na liderança de todos os partidos políticos americanos.

Como é que o conflito entre o Islão e o Ocidente pode ser travado?
Os EUA devem abandonar o Médio Oriente. Tal significa que temos de começar a livrar-nos da dependência do petróleo do Golfo Pérsico e reconsiderar outras políticas para o efeito. Se formos inteligentes o suficiente para nos divorciarmos da ligação com o Oriente, os ataques serão reduzidos e os muçulmanos estarão ocupados – em muitos casos violentamente – em resolver o futuro da sua civilização.

Porque é que a violência é o fundamento da Al-Qaeda?
Bin Laden e outros islâmicos não tiveram outra solução no Médio Oriente – governado por ditadores, tiranos e monarquias déspotas. Muitas pessoas esquecem-se que Bin Laden passou mais de uma década como um pacificador e reformador respeitado na Arábia Saudita. Ele divergiu para a violência somente porque os sauditas recusaram responder às petições dos reformadores, e convidaram os EUA e as tropas ocidentais a infiltrar-se na Península Arábica entre 1990-91. Dessa forma, as actividades reformadoras de Bin Laden não foram muito diferentes do que as tentativas renovadoras encetadas por americanos e franceses antes das respectivas revoluções.

Ao contrário da opinião pública, que considera Bin Laden um terrorista e um lunático, defende que ele é um génio e um gestor brilhante. Porquê?

Bin Laden, a Al-Qaeda e seus aliados são uma ameaça de segurança nacional para os EUA; talvez até sejam uma ameaça à sobrevivência dos EUA na forma como a entendemos hoje. A estratégia brilhante de Bin Laden baseia-se em: manter os EUA ocupados com duas guerras além fronteiras [Iraque e Afeganistão]; ter os norte-americanos presos ao medo de novos ataques; e está a conduzir ao défice o orçamento governamental. As suas acções e ameaças estão a fazer com que os EUA e o Ocidente limitem as liberdades civis – sobretudo a liberdade de expressão e a livre circulação. Para mim, um homem que coloca os EUA nesta situação está mais próximo de ser um génio do que um lunático.

Os EUA estão preparados para evitar um outro ataque como o 9/11?
Não. A América não é liderada por gente séria. Como as coisas estão actualmente, a única forma de um operacional da Al-Qaeda ser capturado a entrar no país só acontecerá se ele for estúpido e entrar por uma fronteira oficial. As nossas fronteiras são vastas e estão abertas, por isso não será difícil fazer entrar uma arma de destruição maciça nos EUA, através de uma delas, sobretudo as não oficiais.

Acredita que a Al-Qaeda teve alguma ligação ao episódio da bactéria do carbúnculo (anthrax)?
A minha suspeita é de que se a Al-Qaeda estivesse por detrás da ofensiva anthrax, teríamos assistido a um ataque numa escala maior. E isso ainda pode acontecer.

A sua demissão da CIA significa que desistiu de lutar contra o terrorismo?
Não desisti de lutar, mas antes optei por o combater de uma forma mais pública. Duvido que eu – ou qualquer outra pessoa – tenha alguma influência para mudar a política norte-americana até que aconteça outro ataque – ainda mais destrutivo – ao estilo do 9/11, nos EUA. Quando tivermos mais umas centenas de americanos mortos, as pessoas vão perceber que estiveram deliberadamente enganadas pelos seus líderes políticos, e vão exigir uma mudança. Espero poder emprestar a minha voz a esse movimento quando essa altura chegar.


Entrevista publicada na revista Pública, jornal Público, em Agosto de 2005

A mulher da Luta

© D. Quintela/Global Imagens
Cresceu com Alice Vieira na mesinha-de-cabeceira, é do Porto, passou por Coimbra, Bradford, Luxemburgo. Vive em Lisboa. Paula Gil foi uma das organizadoras iniciais do movimento da Geração à Rasca. Um dia na agenda da única mulher do movimento da malta precária.

Por Vanessa Rodrigues

«Olá, obrigada pelo seu contacto. Confesso que esta semana será muito complicado! Portanto, poderei marcar algo após as 22h30, ou então no sábado, conforme preferir! Caso prefira contactar-me directamente, agradecia que o fizesse entre as 13h00 e as 14h00, durante a semana, para o meu telemóvel. Cumprimentos, Paula Gil.». O início da nossa conversa, como o protesto da Geração à Rasca, que levou quatrocentas mil pessoas às ruas do país, no passado dia 12 de Março, começou pela rede social Facebook. Alguns amigos em comum e a resposta veio alguns dias depois.

No dia do encontro com a nm, já noite alta, Paula Gil, 26 anos, a única mulher integrante do movimento Geração à Rasca (subscrita, ainda, por Alexandre Carvalho, João Labrincha e António Frazão) tinha madrugado, passeado a cadela Fox, demorado quatro transportes públicos para chegar ao estágio que está a fazer numa ONG de cooperação e desenvolvimento - e tinha acabado de sair do curso formação de formadores. É licenciada em Relações Internacionais e tem mestrado em Bradford, em Política Internacional, ramo de Segurança, especialização em género. Apresenta-se: «Activista!»


Paula chegou apressada. Tomou um café. Puxou um cigarro. Jantaria apenas horas depois. Comeu «alguma coisa» antes. Estava de olhos raiados de vermelho de quem anda a dormir pouco. Confessaria, depois, que quando não está ocupada, só quer dormir, pois, nos últimos tempos, quatro horas de sono tem sido uma boa média, diz, gracejando. Depois da manif de 12 de Março, o nome Paula Gil e Geração à Rasca batem picos da estatística dos motores de pesquisa na internet.


À porta de Santa Apolónia alguém a provoca: «O que faz a geração à rasca?». Paula Gil dispara a resposta. Mais magra do que as imagens veiculadas pela televisão, com traços juvenis, aumenta o volume vocal. «Estou a fazer um estágio profissional e, ainda a recuperar de uma pneumonia viral, precisei de ficar de baixa e não tive direito a ela.» Questiona se essa condição é a de um estado social democrático, em tom pedagógico.


Paula encara, como já tem sido habitual, o sprint de entrevistas a meios de comunicação social. Agora, elas fazem parte da agenda diária, desde que o movimento Geração à Rasca ganhou fôlego, saiu às ruas um pouco por todo Portugal e no estrangeiro, mobilizando portugueses de todas as idades, para elevar o tom de uma geração com trabalho precário, desemprego e tomada pela ditadura dos recibos verdes. A agência francesa de notícias France Press já a contactou. A Rádio Nacional Espanhola também. Não disse não a nenhum convite, ainda. Embora lhe falte tempo para si, garante fazer a vida normalmente, sem protagonismos, e afiança que, apesar de alguns boatos da imprensa, a Geração à Rasca não tem pretensões partidárias. Depois, ela não se considera sequer uma figura pública. Mas a esse estatuto, agora, já não escapa ilesa. Até porque a exposição mediática já levou mais vizinhos à porta da sua casa, «disponíveis para ajudar na luta».

O fado
Santa Apolónia, 22h30, a hora do encontro combinado com a nm. Com Paula vem um casal que está a gravar um documentário sobre a geração: um retrato da malta. Queriam participar de alguma forma na Geração à Rasca. Por isso, contar a história do movimento, de câmara e microfone, foi «a forma mais criativa e útil» que encontraram. Têm veia jornalística, logo as entrevistas dos jornalistas interessam-lhes. «Podemos gravar a conversa?». Sim, anuímos.


Subimos Alfama para encontrar um lugar sossegado. Gravar sons. Captar imagens. Paula aprova, pois fica mais perto de casa. A conversa dá-se com um pedaço de Lisboa iluminada ao longe. O bairro de Alfama, em pano de fundo, a ver o Tejo. Há timidez quando se liga o gravador. A voz solta-se quando se fala de afectos, activismo, democracia. Com o protesto da Geração à Rasca, há uma nova consciencialização da malta?
«Espero que sim», deseja, «somos todos portugueses, temos todos problemas, sejam eles de precariedade ou não e isso afecta-nos directa ou indirectamente», responde. Prossegue, incisiva. Com o protesto «foi bom percebermos que, juntos, podemos fazer a mudança e podemos contribuir para um sociedade mais digna, mais justa e não somente quando votamos, deixando essa responsabilidade para os partidos políticos».


Estamos em Alfama, recordamos. Bairro de fado. Paula, quando tem tempo, desce a rua e vai à Mesa de Frades ouvi-lo. Por coincidência, a ideia da manifestação da Geração à Rasca nasceu no Museu do Fado, numa conversa entre os quatro amigos do movimento, que estudaram juntos, em Coimbra.
Ao princípio, quando falou da manifestação, a mãe teve medo que ela perdesse o emprego. «Hoje ela entende melhor a razão da nossa luta», contrapõe a filha activista. Paula nasceu no Porto, brincou de triciclo nas ruas de Cedofeita, enquanto a bisavó a vigiava para que não se magoasse nas antigas calçadas em paralelo. Desse tempo, ainda guarda o cheiro de umas flores lilases que caíam, como cachos, no jardim de infância.


Na mesinha-de-cabeceira daquela altura tinha Alice Vieira, «que fez parte do meu crescimento», confidencia, como por exemplo A Lua não Está à Venda. Na-mesinha-de-cabeceira de hoje empilha, essencialmente, jornais e tem adiado a leitura de O Anjo Branco, de José Rodrigues dos Santos. Falta-lhe tempo. Quando o tinha, folheava Gabriel García Márquez, Luís Sepúlveda e livros técnicos de sociologia e política.


Agora vive em Lisboa, porque não conseguiu trabalho no Porto. «E tive a sorte de o meu senhorio nos ter mobilado a casa, pois não teríamos dinheiro para o fazer», diz Paula, que divide o apartamento com amigos. Ela já passou, também, por Inglaterra e Luxemburgo, onde fez serviço de voluntariado europeu numa revista de opinião política. Com esta mobilidade geográfica, perguntámos, inevitavelmente: a Geração à Rasca é uma característica somente portuguesa, ou pela Europa há discurso semelhante?


«O Luxemburgo é muito específico, porque tem um nível de vida melhor do que aqui, mas a Geração à Rasca revê-se um bocadinho em todos os países europeus. Em França já foi criado, em 2005, um movimento de precários por causa dos estágios não remunerados.» Resume: «É uma realidade que não podemos dizer que acontece nos 27 países da UE, mas na maioria deles está presente». Já de Inglaterra, impressionou-se com a maturidade democrática. «As pessoas, quando se sentem injustiçadas activam os instrumentos que têm à sua disposição para defenderem os seus direitos», contextualiza.


Então, somos nós, portugueses, mais acomodados? Não, contraria. «O povo português é pacífico e civilizado. E a nossa democracia é muito jovem. Nós, se calhar, ainda não sabemos todos os instrumentos que temos à nossa disposição e como podemos usar». Exemplifica: «Há muita gente que não sabe ainda que trabalhar numa empresa, fazendo horários como os colegas contratados, está a falsos recibos verdes». Foi o que lhe aconteceu.

Emoções à flor da pele
Paula trabalha desde os 18 anos. Trabalhou cinco anos na Sogrape Vinhos S.A., mais especificamente na Porto Ferreira «a falsos recibos verdes», dispara, reiterando que é importante que isto seja vincado, para desfazer equívocos. E, agora, com tanta experiência acumulada está, mesmo assim, a fazer um estágio profissional. E qual é o historial «precário» dela? «Não tenho direito a baixa, nem a subsídio de desemprego, e trabalho com as mesmas funções e responsabilidades de um vínculo laboral», salienta, relembrando que teve o apoio dos colegas da ONG para o protesto, realçando ainda que a sua situação actual ultrapassa a orgânica da instituição.


Depois do protesto, o movimento anda, agora, a organizar propostas concretas para mudar o rumo da Geração à Rasca, e que levou ainda milhares de cartazes e palavras de ordem numa lenta marcha o mês passado. Algumas estão já disponíveis para consulta, na Assembleia da República. Paula realça que têm recebido resmas de papéis com propostas. Prefere não revelar nenhuma, pois são todas igualmente importantes para destacar apenas algumas. Fala, por isso, na primeira pessoa: «A minha proposta é uma maior fiscalização nas condições laborais de cada um de nós. Muitas das situações que estão ilegais no nosso país passam porque não há fiscalização e porque as pessoas não têm consciência da situação em que se encontram.»


Quando lhe perguntamos o que a enternece, a primeira coisa de que se lembra é da cadela Fox, mas pouco depois sai-lhe a palavra manif da boca. Recorda o dia 12 de Março. Segue-se um silêncio e um suspiro engasgado. Os olhos de Paula, ganham brilho e humedecem. Silêncio. Agarra um cigarro. Porque a enternece tanto a manifestação? «Foi uma catarse colectiva. Éramos muitas gerações juntas. Tínhamos pessoas que estiveram no 25 de Abril e que estavam lá, não por eles e pelas reformas que têm, mas pelos filhos que criaram e pelos direitos que se perderam.»


Uma degenerescência que tem vindo a arrastar-se, expõe. Uma condição que tem vindo a agudizar-se e que sai uníssona da boca da geração de agora. O que desencadeou, então, o momento actual? Foi numa dessas conversas entre amigos, explica, apercebendo-se de que estavam todos, licenciados e já com experiência profissional, em situações precárias e de exploração laboral. A música dos Deolinda, «Parva que sou», aludindo a essa conjuntura, fê-los perceber que não estavam sozinhos. «Apesar de a música dos Deolinda não ser transversal a toda a sociedade, percebemos que a questão não é só dos jovens, atinge pessoas mais velhas. Foi um momento de grande consciencialização, de algo que lhes desse esperança.»


Há um fado que se ouve ao longe, vindo das ruas de Alfama. E há um fado agarrado em forma de promessa na voz de Paula Gil. Daqui em diante, ela e os outros não irão deixar esmorecer a voz da Geração à Rasca. A meia-noite já chegou. Dali a pouco começa outro sprint diário, apenas com pausa para almoço, e Paula ainda vai jantar, à hora da ceia. «Espero que os meus colegas de casa tenham feito alguma coisa para jantar. Depois, preciso dormir, eu sei que preciso descansar.»

Algumas frases de ordem da manifestação de 12 de Março
«Não estamos à rasca, estamos à rasquinha.»
«Eles é que vivem acima das nossas possibilidades.»
«Este país não é para jovens.»
«Não somos descartáveis.»
«Somos precários.»
«Trabalhadores desvinculados.»
«Não nos mandem emigrar, este país também é nosso.»
«Sorria, está a ser roubado.»
«Insegurança profissional, freelancer.»
«Não somos um recibo. Revolução já!»
«Políticos gordos, povo magro.»
«Governos rascas, geração à rasca, pais e filhos na desgraça.»
«Capitalismo é desejar tudo e não receber nada em troca.»
«Eu sou mãe da geração à rasca e já estou à rasquinha: quando eles saem de lá de casa?»
«Acção social não existe em Portugal.»
«Zé do Telhado invertido.»
«A deficiência não é uma doença. Oportunidades para todos. Fim à discriminação!»
«Não aceitamos ser escravos da precariedade.»
«Sócrates tiraste negativas a mais. Vais reprovar.»
«Sócrates a recibos verdes. Porreiro, pá!»
«Governo à rasca. Futuro à rasca.»
«Basta de dois pesos, duas medidas. Justiça para todos. Chega de corrupção.»
«Estudar para a escravidão, só no Portugal da corrupção.»
«Basta de garrote social.»
«Rasca está a nossa governação, à rasca está quem tem formação.»
«Mérito ao poder!»
«PEC-4 POVO-0.»

Texto publicado a 1 de Maio 2011 na revista Notícias Magazine, Portugal

domingo, maio 01, 2011

bolsa, carteira, mala, saco, sacola. Nós, gajas, chamamos-lhe kit de sobrevivência

Desperta curiosidade masculina, dúvidas, incompreensão, críticas, risinhos ridículos, chacotas copiosas, profícuas conversas, desentendimentos, brigas ferozes entre ele e ela. 

A mala de uma mulher é o mais intrigante e incompreendido mistério pelo universo masculino. 

Com certeza muito se há-de, já, ter escrito sobre o assunto. 

Imagino academias reputadas de estudos psicológicos, antropológicos, sociais, históricos, neurológicos, and so on, a dissertar sobre o objecto de culto feminino. Senhoras e senhoras: A CARTEIRA. 

Sim, ela tem quase tudo e, confessamos, perdemo-nos, muitas vezes , à procura, sobretudo do telemóvel, embora a maioria das malas venham hoje já equipadas com uma bolsa exclusiva para o senhor telecomunicação.

Por que precisamos de tantos pormenores dentro dela? Não sei, categoricamente, avançar uma explicação, mas temos uma necessidade de nos sentirmos em casa, onde quer que pousemos. O dia é um acontecimento e sabe-se lá onde poderemos acabar a noite, ou a manhã. 

Mas mais do que isso, no meu caso, há que ter que ver com a itinerância; melhor: a necessidade do dia-a-dia. E, nos últimos anos, tenho sido um estudo de caso de itinerância. 

Nasci com as fraldas a dizer nómada, embora precise de me sentir em casa todos os dias, onde quer que vá. Habito, diariamente, um pedaço dos transportes públicos e, por isso, a necessidade de ter tudo o que preciso é gigante!

Depois, advém da óbvia fisiologia feminina.

Ocorre-me isto, porque há objectos diários dos quais não me consigo separar, como extensão de mim, da fisiologia feminina. 

Há até secções de revistas destinadas a desvendar o que mulheres famosas carregam nas malas: de canivetes, a perfumes caros, de cremes para várias partes do corpo, a thermos com chá verde; lanternas, preservativos, meias, pares de cuecas, amuletos da sorte...

Cada uma há-de ter um hemisfério pessoal.

O meu é feito de caderno de apontamentos, 2 canetas, necessáire (sem perfumes caros), telemóvel, mp3, creme de mãos, pastilhas de enjoo naturais, chicletes, vitaminas diárias e centelha asiática, livro de bolso, óculos de sol, bálsamo de lábios, auscultadores, Andante, gel anti-séptico, docs, isqueiro e recibos.

Sem glamour, portanto, este meu kit de sobrevivência,  mas como hão-de perceber, sinto-me pronta para enfrentar a selva amazónica com ele. (E o andante sempre servirá para espantar mosquitos!)

vizinhança, educação pelo berro, ou como saber quem realmente são os nossos inquilinos

São como a família: aos vizinhos, não os escolhemos. E se os pudéssemos escolher, não escolheríamos, embora gostemos daquele conforto psicológico de que, desde que não nos chateiem, até os toleramos, e até é confortável sabermos que estão lá. 

Já ouvi muitas histórias de boa e má vizinhança. Vantagens e desvantagens de uns e outros. Como na equação da alquimia da perfeição: nada bate rigorosamente certo. Não há regra sem excepção, nem excepção que não provenha da regra. Haverá sempre um elemento químico a destoar, a causar combustão, a deslizar pelo pote. 


E, ao vizinho, queremos saber a que horas sai, para não nos cruzarmos com ele.

A Graça, mãe da Cris, por exemplo, sempre falava dos tempos em que vivia em Angola. Que saía para pedir açúcar e, se a vizinha não estivesse, entrava pela casa (que ficava sempre de fechaduras destrancadas) até à cozinha e vasculhava os armários em busca dos doces grãos. 

Se ovos também faltasse, poderia sempre aviar-se com alguns para que o bolo ficasse mais compostinho. Aqui, a separação entre espaço público e espaço privado de vizinhança é um fio invisível, às vezes, inexistente.

Em Paraty, por exemplo, certa vez, ouvinte atenta a bordo de um barco de pescador, um bom homem disse-me quase a mesma coisa que a Graça, com a ressalva de que se a família da casa ao lado não tive tido sorte na faina e ele sim, haveria de deixar em casa dela (mesmo que não estivesse; com as mesmas portas sem trincos) uns peixes de sobra para o sustento dos próximos dias. Sabia ele, este bom homem, que se um dia lhe faltasse sustento, também, teria de sobra por mão vizinha.

Na Amazónia passa-se quase a mesma coisa. Farinha de mandioca como moeda de troca; peixe abundante nas mesas ribeirinhas. 


Falamos de realidades remotas, mas o nosso bairro, pode ser, sabemos, a nossa aldeia. Se bem ou mal frequentada, isso são outras páginas de história.

E, dependendo da boa convivência da vizinhança, podemos sempre esperar auxílio e o tal confortozinho psicológico. (Não queremos conversa, mas, às vezes, é bom sabermos que lá estão.) 

Ainda que não tenha havido nem testes psicotécnicos, nem terapia de grupo, ou sequer provas de liderança, exames sanidade e capacidade de sociabilização, posso afirmar que os meus pais tiveram sorte na rifa dos bons vizinhos. Já vieram, certa vez, pedir açúcar; eu já acudi um incêndio na casa ao lado, passando com distinção o teste de calma e pragmatismo a quem precisou; já chamei o 112 para salvar a vizinha que engoliu água oxigenada, em vez de água de tremoços (para baixar os níveis de insulina, pois é diabética e reza a sabedoria popular que essa água tem benefícios terapêuticos nesse caso); quando um alarme dispara algum vizinho há-de ligar, avisando; se algum movimento suspeito se dá na rua, o clube dos vizinhos, asseguro, tomará vassouras, ancinhos e sacholas para uma campanha de defesa civil.

O único elemento que destoava deste clube restrito já foi expulso do bairro por divórcio com a vizinha da frente (nem ela aguentou) - recordo-me que chegou a ameaçar o meu pai, porque o nosso cão se soltava com facilidade, saltando muros, (era dócil, mas de porte ameaçador e os outros não são obrigados a saber sobre a docilidade do animal, está certo) e deambulava pela rua, erguendo a bandeira liberdade correndo trôpego e de língua de fora; ...

Com vizinhança estamos, então, por ora entendidos. Mas e quando o assunto mete inquilinos?

O ano passado dormi em casa de L. no Rio. A casa estava vazia, pois estava pronta para ser alugada num lugar incrível. L. estava agora num apartamento mais pequeno, mas como os pais fossem passar o fim-de-semana ao Rio, ele precisava de todo o espaço para os receber, o que significava que tinha (a mim e à T.) de nos expulsar durante o final de semana.

A solução mais económica foi então, a casa vazia, pronta para alugar, no lugar incrível. Munimo-nos de colchonetes (e preparação psicológica para a água fria do chuveiro) e lá fomos para o eco da casa da Urca. L. avisara só que, domingo de manhã, um casal iria ver a casa. Era, apenas, sexta-feira. 

Até lá, sem problema. Poderíamos perfeitamente sair para o pequeno-almoço, nessa quente manhã domingo, enquanto a casa era explorada por possíveis inquilinos. 

E o pai de L. estava avisado que duas portuguesas estavam acampadas no apartamento. Anuíra, apenas incomodado por não nos poder receber melhor. Tranquilo. Tudo by the book.

O Rio a chamar para a rua. Lapa, festa, e noite carioca. Madrugada já a querer ser dia e nós a chegar a casa. A A. também lá ficaria, por isso, rumámos as três para a casa vazia, no lugar incrível, a ver Cristo-Rei. Só queríamos a colchonete, não importava o quão dura e desconfortável fosse.

Quatro horas depois começamos a ouvir barulho cá fora. Eram umas 10 horas, por aí. Uma mulher aos berros, em tom de escândalo. Tom ainda mais elevado, quando falava ao telemóvel. Nenhuma de nós, realmente, foi perceber o que se passava, pois com tanto cansaço, tudo aquilo que menos nos preocupava era uma mulher exaltada, montando coreto para o seu show pessoal de TPM.

Até que nos apercebemos de alguém a mexer na fechadura. Foi quando me levantei para ver quem era e quem quer que fosse já tinha descido e abandonado a fechadura. Segundos depois meu telefone tocou. Atendi. Era L., afinal, dizendo que a imobiliária não o avisara e que a mulher tinha mudado de planos e, em vez de domingo, decidira visitar a casa sábado.

Sem problema. Que viesse. Eu ia avisar as meninas. Mas L. insistia que eles já estavam à porta de casa. Eu dizia que não, pois ninguém tocara à campainha. Mistério desfeito: sem luz, a campainha não toca. Desci e não vi ninguém. Nem show de TPM, nem homens mistérios que mexem em fechadura, nem sinal de ali, momentos antes, a casa tinha caído e não tinha sobrado ninguém para contar os alicerece e despojos da implosão.

Minutos depois o pai de L. liga-me, simpático. Claro que poderia aparecer. Meia hora depois chegava.

- Eu queria vos pedir desculpa. Houve um problema de comunicação com a imobiliária e eles não nos avisaram da visita. Não é a primeira vez que a gente se desentende com eles. Mas o pior foi o barraco que a mulher fez aqui em baixo, por não conseguir visitar a casa.

Respondi que realmente ouvira uma mulher a barafustar, exaltada, mas nunca iria imaginar que teria que ver com a visita da casa, e que quando L. me ligou já ninguém estava.

- Não, fica tranquila. Sem problema. Eu vim mesmo pedir foi desculpa para vocês pelo que aconteceu, pois foi tudo um mal-entendido.

-Sim, mas assim você perdeu o negócio.

-Que nada! Imagina eu ter uma inquilina que nem ela: se por isto ela fez um barraco, imagina como seria daqui para a frente. Assim foi um bom teste para eu perceber que nem a pau ela moraria aqui!